PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Registro: 2021.0000859409
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos do Apelação Cível nº
1056133-85.2020.8.26.0053, da Comarca de São Paulo, em que é apelante
MARCOS MARTINS DA CUNHA, são apelados DETRAN - DEPARTAMENTO
ESTADUAL DE TRÂNSITO - SÃO PAULO e DEPARTAMENTO DE
ESTRADAS DE RODAGEM DO ESTADO DE SÃO PAULO - DER.
ACORDAM, em 11ª Câmara de Direito Público do Tribunal de
Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: ""Por maioria de votos
negaram provimento ao recurso, vencido o 3º juiz, Desembargador Ricardo
Dip. Prosseguindo-se, nos termos do artigo 942, do CPC, com a participação
dos Desembargadores Jarbas Gomes como 4º juiz e Oscild de Lima Júnior
como 5º juiz, por maioria de votos, deram provimento ao recurso, vencidos o
relator sorteado, Desembargador Afonso Faro Jr., que declarará voto, e o 2º
juiz, Aroldo Viotti.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este
acórdão.
O julgamento teve a participação dos Exmos. Desembargadores
RICARDO DIP, vencedor, AFONSO FARO JR., vencido, RICARDO DIP
(Presidente), AROLDO VIOTTI, JARBAS GOMES E OSCILD DE LIMA
JÚNIOR.
São Paulo, Data do Julgamento por Extenso Não informado.
RICARDO DIP
RELATOR DESIGNADO
Assinatura Eletrônica
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TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO
11ª Câmara de Direito Público
Apelação Cível 1056133-85.2020.8.26.0053
Procedência: São Paulo
Relator designado: Des. Ricardo Dip (Voto 58.803)
Apelante: Marcos Martins da Cunha
Apelados: Departamento Estadual de Trânsito -
Detran
Departamento de Estradas de
Rodagem -DER
T RÂN SIT O . REC USA DE SU BMI SSÃ O A
PR O CE DIM ENT O S VER IFI CAD O RE S DE
I NFL UÊN CIA AL CO O LIC A. CO N FLI TO DA NO R MA
DO § 3 º d o A RT. 27 7 d o C Ó DI G O DE TRÂ NSI TO
BRA SIL EIR O ( CTB ) C O M A R EG R A D O A RT. 18 6
D O C Ó DI G O DE PRO CES SO PEN AL - CP P.
- Pr eve ndo o CTB se r c rim e, sus cet íve l d e
p ena de de t en ção , “ con duz ir veí cul o a ut o mot or
com ca pac ida de psi com ot o ra alt era da em raz ão
da inf luê nci a d e á lco ol ou de out ra sub st â nci a
p sic oat iva qu e d et e rmi ne dep end ênc ia” ( a rt .
30 6) , t e m- s e q ue, po r f orç a d o s ist ema pe nal
q ue é u nit ári o , nã o s e p ode co mpu ngi r u m
c ond ut o r de v eíc ulo a sub met er- se a
p roc edi men t o de af e riç ão de eve nt u al e
a t ua liz ada in f lu ênc ia de álc ool em se u
o rga nis mo, po rqu ant o i st o im por t ar ia em adm it i r
a co mpu lsã o d e p rod uz i r p rov a ( f or t ui t am ent e)
con t ra o pró pri o c omp eli do.
- O q uad ro dos au t os os t en t a um con f ro nt o
de no rma s s ubc ons t it uci ona is, se m p rod uz i r- s e,
dir ect e, uma cr ise de co nst it u cio nal ida de: ne st a
es pec íf i ca sit uaç ão con f li t iv a, há de pre val ece r,
sob re a n orm a d o § 3º do ar t . 277 do CT B, a r egr a
d o C PP ( ar t . 186 ) , já ( i) po r m ais be nig na, ( i i) já
por su a p rox imi dad e d o c rit éri o i n d ubi o p ro reo ,
( iii ) j á p or exi gir , p rud ent eme nt e , a pr ova po r
q uem ac usa .
Pro vim ent o d a a pel açã o.
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RELATÓRIO:
1. Tratam os autos de mandado de segurança
impetrado por Marcos Martins da Cunha contra ato do
Superintendente do Departamento de estradas de
rodagem -DER e do Coordenador do Departamento
estadual de trânsito de São Paulo -Detran, com o escopo
de anular o auto de infração de trânsito n. 1N986239-3 e
eventuais penalidades dele resultantes. Requer, ainda, o
licenciamento imediato do veículo Toyota/Corolla, placas
FWM 0455, sem a necessidade do pagamento da referida
multa.
Sustenta o impetrante que foi autuado apenas por
recusar-se a se submeter ao teste por etilômetro e que
sem indicação da autoridade policial de que apresentava
sinais de alteração de sua capacidade psicomotora, não
pode ser mantida a penalidade aplicada com fundamento
no art. 165-A do Código de trânsito brasileiro.
A Promotoria Pública da Comarca manifestou sua
falta de interesse jurídico em atuar no feito (e-págs.
232-3).
2. O M. Juízo de origem denegou a segurança (e-
págs. 234-6), e, do decidido, apelou o impetrante,
reforçando, em resumo, seus argumentos inaugurais (e-
págs. 250-60).
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Não se respondeu ao recurso (e-pág. 271).
É o relatório em acréscimo ao da r. sentença.
VOTO:
3. Versam os autos mandado de segurança com o
escopo de anular multa de trânsito aplicada por recusa ao
teste de etilômetro -1N986239-3- e de proceder ao
licenciamento do veículo Toyota/Corolla, placas FWM
0455.
4. Dispõe o vigente art. 277 do Código de trânsito
brasileiro -CTB:
“O condutor de veículo automotor envolvido em
acidente de trânsito ou que for alvo de fiscalização
de trânsito poderá ser submetido a teste, exame
clínico, perícia ou outro procedimento que, por
meios técnicos ou científicos, na forma
disciplinada pelo Contran, permita certificar
influência de álcool ou outra substância psicoativa
que determine dependência.
(…)
§ 2º A infração prevista no art. 165 também poderá
ser caracterizada mediante imagem, vídeo,
constatação de sinais que indiquem, na forma
disciplinada pelo Contran, alteração da capacidade
psicomotora ou produção de quaisquer outras
provas em direito admitidas.
§ 3º Serão aplicadas as penalidades e medidas
administrativas estabelecidas no art. 165-A deste
Código ao condutor que se recusar a se submeter
a qualquer dos procedimentos previstos no caput
deste artigo.”
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Por sua vez, lê-se no art. 165-A do mesmo
Código:
“Recusar-se a ser submetido a teste, exame
clínico, perícia ou outro procedimento que permita
certificar influência de álcool ou outra substância
psicoativa, na forma estabelecida pelo art. 277:
Infração - gravíssima;
Penalidade - multa (dez vezes) e suspensão do
direito de dirigir por 12 (doze) meses;
Medida administrativa - recolhimento do documento
de habilitação e retenção do veículo, observado o
disposto no § 4º do art. 270.
Parágrafo único. Aplica-se em dobro a multa
prevista no caput em caso de reincidência no
período de até 12 (doze) meses.”
5. A controvérsia estabelecida nestes autos agudiza-
se para não dizer que se cifra em saber se é caso de
reconhecer um conflito de constitucionalidade para,
repulsada a harmonia da norma do § 3º do art. 277 com a
Constituição federal de 1988, só assim admitir o
afastamento de sua incidência na espécie, ou se,
diversamente, pode negar-se essa incidência por meio de
uma simples crise de legalidade.
Ora bem, prevê o Código de trânsito brasileiro ser
crime, suscetível de pena de detenção, “conduzir veículo
automotor com capacidade psicomotora alterada em
razão da influência de álcool ou de outra substância
psicoativa que determine dependência” (art. 306).
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De ser assim, por força do sistema penal -que é
unitário-, não se pode compungir um condutor de veículo
a submeter-se a procedimento de aferição de eventual e
atualizada influência de álcool em seu organismo,
porquanto isto importaria em admitir a compulsão de
produzir prova (fortuitamente) contra o próprio compelido.
Retomado com vigor na penalística de nossos
tempos, o princípio in dubio pro reo tem a ampará-lo uma
história não só de ideologias que o avessaram, mas
também de aplicações eivada de transtornos, sob a égide
de totalitarismos do século XX e de governos fortemente
autoritários desse mesmo período. Mas não faltam mesmo
episódios, em regimes tidos ordinariamente por
democráticos, em quais falece o in dubio pro reo em prol
de supostos interesses públicos (é dizer, diante da
prevalência do in dubio pro societate).
O critério in dubio pro reo equivale dizer que, nas
situações de dúvida, haja de decidir-se em favor do réu
não somente consagra a prudente exigência de certeza
bastante para condenar (o que, na órbita penal, significa
exigir certeza moral da culpa, tal o ensinaram as
justamente celebradas páginas do Accogliete, illustri, de
Pio XII), mas também corresponde, num território mais
estritamente processual penal, à ideia de que a acusação
têm o ônus de provar a culpa (nulla poena sine
accusatione, culpa neque probatione).
Ou seja, a certeza suficiente para a condenação o
que se tem entendido como probabilidade confirmatória
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da culpa quanto a um fato singular e concreto imputado
ao réu é a que guarda correspondência com a prova da
imputação, prova que onera quem acusa.
É neste quadro, em que atua o consequente do
status da dúvida ou seja, em que a dúvida grave não
deposta afasta uma condenação duvidosa , um estado
em que a liberdade tem preferência sobre a restrição, em
que a boa-fé (e não a má-fé) tem primazia, que se deve
considerar o papel do silêncio dos arguidos.
Poderia até mesmo dizer-se, com uma reserva de
provisoriedade, o papel do silêncio dos inocentes ou
talvez melhor, dos não ainda convencidamente culpados.
Porque é um dado universal a presunção de inocência ou
mais adequadamente o status de não culpabilidade.
Desta maneira, o non liquet probatório não pode
ser superado por meio de uma compulsão de prova
produzida pelo próprio imputado, nem de seu silêncio é
dizer, da recusa lícita de produzir esta prova extrair-se
a confirmação presumida da culpa.
Se o arguido, pois, pelo próprio sistema penal não
está jungido a produzir prova contra si próprio (nemo
tenetur edere contra se), a ponto de o vigente Código de
processo penal prever, em seu art. 186:
“Depois de devidamente qualificado e cientificado
do inteiro teor da acusação, o acusado será
informado pelo juiz, antes de iniciar o
interrogatório, do seu direito de permanecer calado
e de não responder perguntas que lhe forem
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formuladas.
Parágrafo único. O silêncio, que não importará em
confissão, não poderá ser interpretado em prejuízo
da defesa”,
não se vê como, com esta regra processual, harmonizar
a do § 3º do art. 277 do Código de trânsito brasileiro.
Assim, pois, o quadro dos autos é o de um
confronto de normas subconstitucionais, sem produzir-
se, directe, uma crise de constitucionalidade. Nesta
situação conflitiva, há de prevalecer a regra do Código de
processo penal (art. 186), já (i) por mais benigna, (ii) já
por sua proximidade do critério in dubio pro reo, (iii) já
por exigir, prudentemente, a prova por quem acusa.
6. Consta do auto de infração hostilizado que sua
lavratura se deu em virtude de o condutor do veículo
recusar-se a ser submetido a teste por etilômetro
(código 7579 -e-págs. 31 e 34)
Na espécie, a autoridade administrativa preencheu
o campo relativo aos sinais de alteração da capacidade
psicomotora, indicando que o “condutor não apresenta
sinais de embriaguez” (o realce gráfico não é do original -
cf. e-pág. 31).
A aplicação do § 3º do art. 277 do Código de
trânsito brasileiro exige que o condutor se tenha
recusado a realizar os exames, e, para a espécie, não há
prova de que o autor não se submeteu aos outros
procedimentos previstos em lei.
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7. Reconhecida a nulidade da multa, cabe declarar
inexigível o valor correspondente, possibilitando licenciar
o referido veículo.
8. Observa-se, por fim, em ordem ao
prequestionamento indispensável ao recurso especial e
ao recurso extraordinário, que todos os preceitos
referidos nos autos se encontram, quodammodo,
albergados nas questões decididas.
POSTO ISSO, meu voto dá provimento ao recurso
de Marcos Martins da Cunha, para o fim de anular o auto
de infração 1N986239-3, declarando inexigível o valor da
multa e possibilitando o licenciamento do veículo (autos
de origem 1056133-85.2020 da 2ª Vara da Fazenda
Pública da Comarca de São Paulo).
Eventual inconformismo em relação ao decidido
será objeto de julgamento virtual, cabendo às partes, no
caso de objeção quanto a esta modalidade de julgamento,
manifestar sua discordância por petição autônoma
oportuna.
É como voto.
Des. RICARDO DIP relator designado
(assinado eletronicamente)
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Voto nº 13.459
Apelação Cível nº 1056133-85.2020.8.26.0053
Comarca: São Paulo
Apelante: Marcos Martins da Cunha
Apelados: Detran - Departamento Estadual de Trânsito - São Paulo e
Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de São Paulo - Der
Interessado: Superintendente do Departamento de Estradas de Rodagem -
Der
DECLARAÇÃO DE VOTO VENCIDO
Vistos.
MARCOS MARTINS DA CUNHA impetrou mandado de
segurança contra ato do SUPERINTENDENTE DO DEPARTAMENTO DE
ESTRADAS DE RODAGEM DER e COORDENADOR DO DEPARTAMENTO
ESTADUAL DE TRÂNSITO DE SÃO PAULO - DETRAN visando, em síntese, a
concessão de pedido de liminar para que seja determinado ao Detran que
proceda a emissão da licença anual do veículo, sem a exigência do
pagamento da multa no valor de R$ 2.934,70; não se dê início a
procedimento administrativo de suspensão do direito do impetrante de
dirigir, suspendendo-se a exigibilidade da multa aplicada até julgamento
final desta ação. No mérito, requer que seja confirmada a tutela por
sentença, anulando-se o ato administrativo de infração, bem como seja
declarada inexigível a multa imposta.
Sustenta o impetrante, em síntese, que no dia 07 de março
de 2019 trafegava com seu veículo Toyota/Corolla, PLACA FWM 0455, na
Rodovia SP - 055, Km. 083 500 metros, sentido oeste na cidade de
Caraguatatuba/SP, quando foi abordado por autoridade de trânsito, e, por
não se submeter ao teste do bafômetro, foi lavrado o Auto de Infração de
Trânsito (AIT) n° 986239-3, por infração aos arts. 165-A e 277 do CTB.
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Afirma que não se pode admitir que o auto de infração tenha sido lavrado
por mera recusa em realizar o teste do etilômetro, uma vez que a própria
autoridade fez constar que não havia sinais de embriaguez.
A pretendida medida liminar foi indeferida, fls. 48/49.
Houve pedido de reconsideração da decisão às fls. 50/55,
sendo mantida a decisão de indeferimento da liminar, fls. 56.
Informações foram prestadas às fls. 69/82, repetida às fls.
147/160.
Às fls. 232/233, o Ministério Público deixou de intervir no
feito.
A r. sentença de fls. 234/236 denegou a segurança.
Irresignado, apela o impetrante às fls. 250/260. Requer a
inversão do julgado, sob os mesmos fundamentos da inicial.
Ausentes as contrarrazões, fls. 271.
É o relato do necessário.
O recurso não comporta acolhimento.
Cuida-se de mandado de segurança impetrado por
MARCOS MARTINS DA CUNHA impetrou mandado de segurança contra
ato do SUPERINTENDENTE DO DEPARTAMENTO DE ESTRADAS DE
RODAGEM DER e COORDENADOR DO DEPARTAMENTO ESTADUAL DE
TRÂNSITO DE SÃO PAULO - DETRAN pretendendo a anulação do auto de
infração n° 986239-3, lavrado em 07.03.19. Sustenta, em síntese, a
ilegalidade do ato impugnado, não se podendo admitir que o auto de
infração tenha sido lavrado por mera recusa em realizar o teste do
etilômetro.
Como sabido, o mandado de segurança exige comprovação
inequívoca do alegado direito violado, por meio de documentação, por
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ocasião da impetração.
Bem por isso, Diomar Ackel Filho em seu “Writs
Constitucionais”, Editora Saraiva, 2ª edição, 1991, São Paulo, pág. 77,
observa que:
“Não cabe mandado de segurança contra fatos que exigem
dilação probatória. Como já se viu, é ínsita à natureza do
writ a certeza do direito subjetivo que se pleiteia, o que se
traduz por fato incontroverso, bem demonstrado por prova
pré-constituída, que faz emergir, de plano, a justiça da
pretensão.”
Sobre o tema, diz Celso Ribeiro Bastos, em sua monografia
“Do Mandado de Segurança”, Saraiva, São Paulo, 1982, pág. 11:
“A solução correta, sem dúvida, é a que faz residir o caráter
líquido e certo não na vontade normativa, mas nos fatos
invocados pelo impetrante como aptos a produzirem os
efeitos colimados. Mais precisamente ainda, na própria
materialidade ou existência fática da situação jurídica. Para
que o juiz possa superar a fase preliminar do cabimento ou
não do mandado, ele há de verificar a satisfação prévia
desse requisito específico para o acesso ao writ: a
comprovação dos elementos fáticos em que o autor funda a
sua pretensão. Bem é de ver que a certeza e a liquidez do
direito não é condição para o deferimento ou concessão da
segurança, mas especificamente, para a admissibilidade do
seu conhecimento.”
Cinge-se à controvérsia tão somente a respeito da
constitucionalidade do art. 165-A do CTB, tendo em vista que o próprio
impetrante reconhece que recusou o teste do bafômetro.
Dispõe o art. 277, § 3º, do CTB:
“Art. 277 - O condutor de veículo automotor envolvido em
acidente de trânsito ou que for alvo de fiscalização de
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trânsito poderá ser submetido a teste, exame clínico,
perícia ou outro procedimento que, por meios técnicos ou
científicos, na forma disciplinada pelo Contran, permita
certificar influência de álcool ou outra substância
psicoativa que determine dependência. (Redação dada
pela Lei nº 12.760/12).
(...)
§ 3º- Serão aplicadas as penalidades e medidas
administrativas estabelecidas no art. 165-A deste Código
ao condutor que se recusar a se submeter a qualquer dos
procedimentos previstos no caput deste artigo. (Redação
dada pela Lei nº 13.281/16)”.
Já o art. 165 A do mesmo diploma estabelece:
“Art. 165-A - Recusar-se a ser submetido a teste, exame
clínico, perícia ou outro procedimento que permita
certificar influência de álcool ou outra substância
psicoativa, na forma estabelecida pelo art. 277:
Infração - gravíssima;
Penalidade - multa (dez vezes) e suspensão do direito de
dirigir por 12 (doze) meses;
Medida administrativa - recolhimento do documento de
habilitação e retenção do veículo, observado o disposto no
§ 4º do art. 270.
Parágrafo único. Aplica-se em dobro a multa prevista no
caput em caso de reincidência no período de até 12 (doze)
meses. (Incluído pela Lei nº 13.281/16)”.
Observa-se que o impetrante não foi punido em razão da
constatação ou não de seu estado de embriaguez, mas sim por ter se
recusado a submeter-se a procedimento insculpido no caput do art. 277
do CTB.
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Note-se que o § 3º do citado artigo considera a previsão
de uma conduta autônoma em relação àquela prevista no art. 165.
Conforme bem exposto pelo Exmo. Desembargador
Bandeira Lins, em caso semelhante, na apelação n°
1046235-48.2020.8.26.0053, j. 28.04.21:
“... o fato de a autoridade policial não ter lançado mão de
outros métodos de aferição do estado etílico do condutor
não induz à nulidade da autuação lavrada, tendo em vista
que a utilização dos métodos para confirmação da
alteração da capacidade psicomotora por influência de
álcool ou outra substância psicoativa está no âmbito da
discricionariedade do agente, devendo ele, inclusive,
priorizar a utilização do teste de etilômetro (cf. artigo 3º,
§2º, da Resolução CONTRAN nº 432/13).
Ademais, tanto a Lei quanto à Resolução penalizam a
recusa do condutor em se submeter a qualquer um dos
procedimentos aplicados pelo agente de trânsito, não
havendo obrigatoriedade na aplicação de mais de um
dentre os descritos nos referidos atos normativos”.
Necessário pontuar que, ao contrário do alegado pelo
apelante, não se vislumbra qualquer ilegalidade na lavratura do auto de
infração.
O próprio impetrante afirma ter se recusado a realizar o
teste do bafômetro.
O Superior Tribunal de Justiça já se pronunciou acerca do
assunto:
“PROCESSUAL CIVIL E ADMINISTRATIVO. TAXISTA. TESTE
DE ALCOOLEMIA, ETILÔMETRO OU BAFÔMETRO. RECUSA
EM SE SUBMETER AO EXAME. SANÇÃO ADMINISTRATIVA.
ART. 277, §3º C/C ART. 165 DO CTB. AUTONOMIA DAS
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INFRAÇÕES. IDENTIDADE DE PENAS. DESNECESSIDADE DE
PROVA DA EMBRIAGUEZ. INFRAÇÃO DE MERA CONDUTA.
DEVER INSTRUMENTAL DE FAZER. PRINCÍPIO DA NÃO
AUTOINCRIMINAÇÃO. INAPLICABILIDADE.
INDEPENDÊNCIA DAS INSTÂNCIAS PENAL E
ADMINISTRATIVA. TIPO ADMINISTRATIVO QUE NÃO
CONSTITUI CRIME. SEGURANÇA VIÁRIA. DIREITO
FUNDAMENTAL. DEVER DO ESTADO. DIGNIDADE DA
PESSOA HUMANA RESPEITADA. SÚMULA 301/STJ.
PREVISÃO DE EFEITOS LEGAIS CONTRÁRIOS A QUEM SE
RECUSA A SE SUBMETER A PROVA TÉCNICA. TEMA NÃO
EXCLUSIVO DO CTB E SUMULADO PELO STJ. INFRAÇÃO
COMETIDA NO EXERCÍCIO DA PROFISSÃO DE TRANSPORTE
REMUNERADO DE PASSAGEIROS. ATIVIDADE
DEPENDENTE DE AUTORIZAÇÃO ESTATAL. SERVIÇO DE
UTILIDADE PÚBLICA REGIDO PELA LEI 12.587/2012.
OBRIGAÇÃO DE CUMPRIR A LEGISLAÇÃO DE TRÂNSITO
REFORÇADA.” (REsp1677380/Rel. Min. Herman Benjamin,
j. em 10.10.17).
No mesmo sentido decisões deste E. Tribunal de Justiça
de São Paulo:
“APELAÇÃO. MANDADO DE SEGURANÇA. INFRAÇÃO DE
TRÂNSITO. Auto de infração por recusa a se submeter a
teste para certificar influência de álcool. Infração de
trânsito prevista no art. 277 e § 3º e art. 165-A do Código
de Trânsito Brasileiro. Recusa ao teste do etilômetro,
admitida pelo autor. Ausência de ilegalidade na autuação.
RECURSO NÃO PROVIDO.” (Apelação n°
1000041-73.2019.8.26.0360, 2ª Câmara de Direito
Público, Rel. Des. Alves Braga Junior, j. 15.08.19).
“MANDADO DE SEGURANÇA PRIMEIRA HABILITAÇÃO -
PERMISSIONÁRIO - SUSPENSÃO DO DIREITO DO DIRIGIR -
Recusa a submeter-se ao teste do etilômetro Autuação
nos termos do artigo 277, § 3º, do Código de Trânsito
Brasileiro (AIIM n.º 1I068864-3) - Pretensão à anulação do
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auto de infração Inadmissibilidade Presunção de
veracidade e legitimidade do ato administração não
ilidida no caso Precedentes desta Corte de Justiça e desta
C. 9ª Câmara de Direito Público Sentença denegatória da
segurança mantida Recurso não provido.” (Apelação n°
1000076-51.2019.8.26.0160, 9ª Câmara de Direito
Público, Rel. Des. Rebouças de Carvalho, j. 13.08.19).
Desse modo, tendo o condutor se recusado a realizar o
teste, com conduta tipificada no art. 277 do CTB e, tratando-se de infração
de mera conduta, a norma do que dispõe o art. 165-A de referido diploma,
em que não se avalia o estado de embriaguez ou dependência química do
infrator, mas sim, o ato de recusa ao exame, é mesmo de rigor a
manutenção da r. sentença.
Por fim, consoante as informações prestadas, a notificação
referente ao procedimento administrativo, em decorrência do
cometimento de infrações previstas no Código de Trânsito Brasileiro, foi
expedida pelo correio com franqueamento autorizado de cartas (FAC) (fls.
90 e 94) e pelos documentos de fls. 83/145.
Ante o exposto, pelo meu voto, negar-se-ia provimento
ao apelo.
AFONSO FARO JR.
Relator Sorteado
(Assinatura Eletrônica)
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Este documento é cópia do original que recebeu as seguintes assinaturas digitais:
Pg. inicial Pg. final Categoria Nome do assinante Confirmação
1 9 Acórdãos RICARDO HENRY MARQUES DIP 174603D5
Eletrônicos
10 16 Declarações de AFONSO DE BARROS FARO JUNIOR 1751112F
Votos
Para conferir o original acesse o site:
https://esaj.tjsp.jus.br/pastadigital/sg/abrirConferenciaDocumento.do, informando o processo
1056133-85.2020.8.26.0053 e o código de confirmação da tabela acima.