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Me Acorde Quando o Outono Chegar - Revisão

Livro ksks
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Contra Capa

1
Copyright

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Sinopse

3
Nota da autora

4
Dedicatória

5
Playlist

6
Texas, Castroville — 23 de setembro de 2015

Por volta das 17 horas, aconcheguei-me na minha velha cadeira de


balanço, sentada com os pés apoiados no assento, abraçando minhas
pernas, enquanto meu queixo repousava sobre meus joelhos. Em minha
frente estava a janela do meu quarto, onde havia uma ampla visão da rua
ali à frente. Inspiro e respiro demoradamente, ouvindo o farfalhar das
árvores, em resposta à leve brisa soprando. A temperatura caindo
gradualmente, prometia um outono bem mais frio que o esperado. Estou
usando um sobretudo pesado de algodão na cor vermelha, calças de
moletom cinza e meias que eu achava ridículas, mas foi um presente do
meu falecido avô, então tudo que me lembrava ele, era um prazer usar.

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Falar do meu avô, automaticamente me transporta para o pior dia
da minha vida, o dia em que ele me deixou, mesmo prometendo que
jamais o faria.

— Quando você crescer, deverá se lembrar de todos os meus


ensinamentos e de que você sempre será a minha pessoa favorita. Fiz esta
cadeira para você, pode usá-la para fazer o que mais ama, sentar em
frente à sua janela, para ver as estações mudarem, observar tudo o que
acontece na rua, já que você tem os olhos mais lindos e curiosos que já vi.
Você irá descobrir que, de toda casa, não haverá lugar melhor para estar,
a não ser ali na sua velha cadeira. Sempre que quiser ler, inventar suas
histórias, ou simplesmente ficar quieta sentindo o vento soprar em seu
rosto, sente-se e encontrará refúgio. Além disso, jamais deverá se
esquecer do seu velho avô.

Junto à cadeira de balanço, meu avô havia dado a mim um diário que,
segundo ele, era para eu poder externar meus pensamentos e
sentimentos. Ele sabia mais sobre mim do que eu mesma, e eu achava
isso fascinante.

Infelizmente, as coisas nem sempre acontecem como desejamos, e


às vezes, precisamos entender que a morte é um processo que faz parte
da vida. Uns vem, outros vão, mas existem aquelas pessoas que te
marcam para sempre, e são impossíveis de serem esquecidas. Meu avô,
era esse tipo raro de pessoa.

Há exatos três anos venho tentando superar a morte do meu avô,


cada canto dessa casa tem uma memória viva dele, e fica difícil demais
suportar. Por qual motivo as pessoas insistem em dizer que devemos estar
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preparados para esse momento? Como se fosse fácil, você simplesmente
sentar e assistir uma das pessoas mais importantes da sua vida, morrer.

A verdade é que de certa forma, eu morri com ele.

Encaro o céu que exibe tonalidades diferentes, assemelhando-se a


uma pintura renascentista, com as cores que demonstram a chegada do
outono. Questiono-me sobre quanto tempo mais desperdiçarei da minha
vida, sentada ali, observando a vida dos outros seguir normalmente,
enquanto a minha estava parado no tempo. Não era bem isso que meu
avô desejava para mim, e eu sei disso. As estações mudam e eu continuo
aqui, perdida em mim mesma, é hora de acordar e viver.

Caminhei de forma automática até a minha escrivaninha e peguei


meu diário, ainda não tinha uma página sequer escrita, não sabia ao certo
sobre o que valia a pena escrever. Sentei-me novamente e parei para
observar atentamente a movimentação na rua à frente, talvez surgisse
algo que me trouxesse inspiração.

Tão rápido quanto um piscar de olhos, minha atenção se prendeu a


ela, a garota ruiva do outro lado da janela…

Sabe quando você sente como se o mundo tivesse parado e nada


mais fizesse sentido? Uma estranha sensação de lar, conforto e alívio
tomou conta de mim.

Quem é ela?

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Eu sempre acreditei em conexão, destino ou lei da atração, atraímos
aquilo que desejamos, e eu posso até estar enganada, mas algo me diz
que essa garota não apareceu ali por acaso.

Ela é linda, absurdamente linda. Perco-me totalmente na imensidão


dos seus cabelos longos e vermelhos, que contrastam perfeitamente com
as folhas caídas ali ao chão. Seria loucura dizer que acabei de me
apaixonar por alguém que nem ao menos sei o nome?

Nunca me apaixonei, e não conhecia esse sentimento de fato. Senti


as famosas borboletas no estômago, elas pareciam dançar em perfeita
sincronia com o som do vento, que insistia em bater contra a janela do
meu quarto, causando ruídos, aos quais eu já estava acostumada. No
entanto, nada do que me disseram poderia se comparar ao que senti no
instante em que a vi pela primeira vez.

Movida por uma súbita curiosidade a respeito da tal garota ruiva,


me aproximei um pouco mais da janela e sentei no parapeito, observando
a interação dela com uma senhora muito simpática. Seria uma cena
bonita, se não fosse cômica.

Apoiei o diário em minhas pernas, que estavam levemente


dobradas, e comecei a escrever sobre aquela garota que, futuramente,
seria muito mais que uma protagonista nas páginas desse diário.

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Sentei-me na minha velha cadeira, feita à mão pelo meu avô.
Costumava passar alguns minutos ali, durante o outono, para apreciar as
folhas das árvores caírem, as pessoas andando para lá e para cá, as
crianças indo para a escola, cachorros latindo e toda aquela
movimentação pela qual eu era apaixonada. Eu amava todo aquele
barulho, apesar de morar no meio do nada, como minha mãe costumava
dizer. O Texas tinha suas vantagens, e morar no interior não era de todo
mal, gostava da calmaria. De repente meus olhos se prenderam em alguém
aparentemente atrapalhada, uma garota ruiva, que aparentava ter a
mesma idade que eu, e provavelmente a mesma altura, porém não pude ver
muito bem, porque eu só consegui focar em duas coisas: seu cabelo tão
vermelho quanto a maioria das folhas ali ao chão, e o violão que
carregava nas costas. Eu a fitava ávida, curiosa, e desejei que ela virasse
em minha direção, para eu poder observar o seu rosto completamente. No
entanto, uma cena cômica se desenrolou no exato momento em que ela iria
se virar de frente para mim: ela trombou em uma senhora que passava
carregando algumas sacolas, estava distraída cantarolando algo que não
pude decifrar. Em seguida, então ela se agachou para ajudá-la, já que
todas as sacolas caíram no chão. Comecei a rir descontroladamente, não
entendi o motivo, mas talvez fosse pela falta de jeito da garota. Quando ela
se virou e eu pude observar o seu rosto… suspirei, eu nunca vi ninguém
tão linda quanto ela, sua franja bagunçada, os olhos grandes e bem vivos,
boca carnuda… esqueci até mesmo o que estava pensando, pois, ela me
deixou atordoada demais para me preocupar com qualquer outra coisa.
Dizem que ninguém é perfeito, no entanto, só devem acreditar nisso porque
não conheceram essa garota.

Fechei o diário enquanto observava a dona dos meus mais novos


suspiros e sentimentos confusos, se afastar e ir embora. Senti meu peito
apertar, e o medo de nunca mais vê-la atingiu-me em cheio.

Sei que a conheço de algum lugar, e preciso muito descobrir de onde.


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Dormi com um largo sorriso no rosto, ansiando ver novamente
aquela garota.

No dia seguinte, acordei me sentindo um pouco mal, febril, com a


garganta irritada e um leve inchaço. Pela queda de temperatura, acreditei
ser normal. Repeti todas as minhas atividades matinais enquanto refletia
sobre meu futuro, afinal, eu finalizei o ensino médio há um tempo e ainda
não fazia ideia de qual carreira seguir. Contudo, como amava ler e
escrever, mesmo que fosse só para mim, sentia a necessidade de mostrar
aos outros. Talvez eu siga a carreira de escritora, ou talvez fotografia, algo
que eu também amava, e poderia fazer bom uso da minha coleção de
câmeras antigas… realmente não sei.

Fiquei o dia inteiro de molho na cama, realizando minha


programação preferida: assistindo Harry Potter e tomando chocolate
quente.

Dois dias depois, eu aparentava estar melhor, do que eu acreditava


ser um simples resfriado. Havia me candidatado a algumas bolsas de
estudo, e aguardava ansiosa pela resposta ao menos de uma. Quanto à
misteriosa garota de cabelos vermelhos, olhos brilhantes e seu belo
violão… pensar nela estava se tornando um hábito diário, bom, descobri
que ela mora a duas ruas daqui, e que havia se mudado recentemente.
Antes de pensar que sou uma curiosa, saiba que descobri por acaso,
enquanto algumas senhoras, que eram nossas vizinhas, comentavam sobre
as novas moradoras quando estávamos na padaria. Então, discretamente,
parei para ouvir um pouco mais sobre a minha nova obsessão: a ruiva
misteriosa. De fato, precisava conhecer aquela garota, para entender a

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razão dela me intrigar tanto. Voltei para casa sorrindo feito boba, por
descobrir que ela morava tão perto de mim.

Talvez, seja só questão de tempo…

Meu aniversário se aproximava e finalmente meu pai viria para casa.


Não haveria festa, meus pais sabiam que sempre preferi algo mais íntimo,
apenas entre nós, e minha única amiga, Kim Ayumi, que era coreana e
vivia entre o Texas e a Coreia, me fazendo visitas esporádicas. Talvez…
ela.

Eu mal sabia o que o outono de 2015 reservava para mim. De


repente, completar 18 anos foi um desafio árduo e difícil. Nesse mesmo dia
fui do céu ao inferno, e minha vida saiu do eixo completamente.

Sonhamos e somos conduzidos por sonhos, ao menos era o que eu


acreditava, e foi o que meu avô me ensinou. Ele sempre me dizia que se
tudo mais falhasse, eu ainda teria meus sonhos e que com eles, eu
ganharia o mundo. Porém, não é tão fácil quando você já não sente mais
vontade de viver. Eu teria que aprender a vencer qualquer barreira que
surgisse, do contrário, estaria decepcionando meu avô, que acreditava em
mim, mais do que eu mesma.

Seguir adiante nem sempre é seguir sem medo, o medo e a coragem


andam lado a lado, e eu precisaria saber equilibrar. Eu jamais poderia
deixar o medo me devorar, comandar a minha vida e me levar para o
abismo.

Apesar de todos os meus esforços, eu ainda conheci o abismo…

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Prepare-se para vivenciar uma épica e extraordinária história de
amor, conheça a minha vida e a minha alma, em todas as suas “nuances”,
por uma nova ótica, do que de fato se pode chamar amor verdadeiro.

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Olhares perdidos e vagos sumiram quando vi o seu rosto
Tudo que posso dizer é que foi encantador te conhecer
Seus olhos sussurraram: já nos conhecemos?
ENCHANTED — TAYLOR SWIFT

Procure ficar de maneira confortável, acomode-se como desejar e


prepare-se para conhecer a minha história. Algumas datas são
significativas, e fazem parte da construção dos melhores momentos da
minha vida. Sou Emily Bennett, e é um prazer ter você aqui.

Há três anos vivi a pior experiência da minha vida, e pensar


especificamente no que aconteceu, me deixa triste. Sou transportada para
o passado, apenas para constatar que minha perda é irreparável. Eu nunca
precisei lidar com o luto antes, e quando chegou o momento, eu não
consegui.

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É estranho morar em um país há anos e não se sentir parte dele?

Bom, viver na Coreia não foi uma escolha minha, e sim do meu pai,
ou melhor, do seu trabalho.

Sempre fui muito apegada aos meus avós, em especial ao meu avô.
Quando descobri que meu pai havia sido transferido para a sede da
empresa onde trabalhava, fiquei triste, não queria deixar eles. Nossa
família era muito pequena, já que minha avó só pôde ter meu pai e,
coincidentemente, minha mãe teve apenas a mim. Então deixá-los, me
parecia uma ideia muito ruim.

Pedi aos meus pais que me deixassem ficar com meus avós, mas
meu avô dissera que não era correto eu crescer longe dos meus pais.
Sendo assim, a comunicação se dava apenas por telefone, e fazíamos
visitas sempre que meu pai tinha folga no trabalho.

No entanto, tudo mudou quando a minha avó ficou doente e logo


em seguida faleceu. Tivemos que retornar para o Texas para cuidar do
meu avô, e como se a situação não pudesse piorar, meu avô foi
diagnosticado com câncer. A partir desse dia, nossa vida se tornou uma
grande confusão. Voltamos para a Coreia apenas para arrumar nossas
malas e voltamos para o Texas.

Encaro o rosto do meu pai, que exibe uma expressão aflita, após
atender um telefonema do hospital que cuida do meu avô. Ali eu soube
que não estava tudo bem, e, provavelmente, não ficaria.

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Meus pais tentaram a todo custo trazê-lo para morar conosco na
Coreia, mas sabemos que foi um convite feito em vão, meu avô jamais
deixaria o Texas. Ele ama aquele lugar e nunca o deixaria para trás.

Sendo assim, a única solução viável para não nos preocuparmos com
ele sozinho era retornar para o Texas. Meu pai pediu transferência do
trabalho, e acabamos voltando para o lugar em que nasci.

Sinceramente? Eu também não troco o Texas por nenhum outro


lugar. Morar na Coreia nunca foi de minha vontade.

O outono era a estação mais esperada por mim, desde criança.


Havia uma certa magia que eu nunca soube explicar, mas a sentia vívida
dentro de mim.

23 de setembro de 2012, era outono, e eu tive todas as minhas


expectativas frustradas, destruídas.

Era um sábado, mas não um sábado qualquer; aos 14 anos eu era a


grota mais feliz do mundo, sorria toda abobalhada, motivo? O outono. A
melhor estação do ano havia começado, e eu amava tanto que, parecia
fazer parte de mim, da minha essência, era a melhor estação do ano, tudo
ficava mais vivo, mais bonito, mais cheiroso, e, convenhamos, no outono
usamos as melhores combinações de roupas.

Por volta das oito da manhã, ouvi o alvoroço que acontecia no andar
de baixo. Estava em meu quarto, sentada na minha velha cadeira de

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balanço enquanto tentava calçar minhas botas o mais rápido possível,
para descer e saber o que significava toda aquela confusão de vozes,
afinal, não recebíamos visitas, então era um tanto estranho.

Ao descer as escadas me deparei com o pior cenário, ao qual eu não


estava preparada, apesar de saber que esse dia chegaria, visto estar claro
que o câncer levaria o meu avô, e era só questão de tempo.

Meu avô estava deitado em uma maca fria, rodeado por


paramédicos, e meus pais estavam desesperados. E eu? Eu estava em
choque, estática, meu avô sustentava um olhar distante, não era mais ele,
não era mais o meu porto seguro, muito menos o meu melhor amigo ali,
eu sabia que aquele olhar, era uma despedida, ele ia me deixar.

Realmente, ele se foi.

Naquela triste manhã de outono, perdi a melhor pessoa que tive a


sorte de conhecer. Fiz tantos planos para nós dois, era assim todos os
outonos anteriores. Então, foi como sentir uma parte de mim se perder
para sempre, e sabia que não seria mais a mesma dali em diante.

Isolei-me de tudo, me fechei no meu mundo, e tudo que fazia, era


sentar na minha velha e inseparável cadeira. Fechava os olhos, deixava as
lágrimas rolarem por meu rosto, e lembrava das últimas palavras que meu
avô me dissera:

– Minha pequena sonhadora, eu não tenho escolha, você sabe não


é? Essa maldita doença acabará me levando. Me prometa que não ficará
triste, ou se isolará e deixará de viver seus sonhos? Estou morrendo, mas
você tem muito o que viver! Faça isso por você, e faça por mim. Viva
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intensamente, sorria, chore, ame, e se deixe amar. Espero que encontre
alguém que seja digna de um ser tão especial como você, e não tenha
medo dos julgamentos, eu sei quem você é, sempre soube, e isso não
interfere no seu caráter e na boa pessoa que você é. Seja você sem medo
de ser feliz, eu te amo.

Não nos despedimos no dia em que ele morreu, ele não podia ter
feito isso comigo…

Amadureci antes do tempo, mesmo agora, aos 17 anos me sentia


como uma mulher de 30, na maioria das vezes. Três anos após a morte do
meu avô, decidi me permitir viver, era isso que ele queria, e eu não
poderia decepcioná-lo, por ser fraca e não conseguir lidar com a dor. A
partir de hoje seria tudo o que ele desejou para mim, e o que mais eu
quisesse, sem me importar com o que pudesse surgir em meu caminho.
Ou eu engolia a dor, ou ela me devoraria, e a primeira opção me parecia
melhor.

Um dia após o outro, e tudo voltará para o seu devido lugar

Batuco com os dedos de maneira nervosa, sobre a cama, enquanto


encaro o enorme pôster da Taylor Swift colado à parede. Estou deitada,
pensando em como a minha vida mudou em menos de uma semana. Eu a
vi, e de repente, tudo que eu queria era vê-la novamente porque a tal
ruiva não saía de meus pensamentos.

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É manhã de uma segunda-feira parada e tediosa, seria mais um dia
comum em minha vida, se não fossem as imagens de uma certa ruiva me
tirando o sono.

Se eu soubesse ao menos o nome dela.

Sinto-me um pouco mais viva agora, como se eu tivesse acordado


depois de um longo período dormindo. O luto é um processo difícil, ainda
mais quando você perde muito mais do que alguém que julgava ser
importante demais para você. Após a morte do meu avô, eu simplesmente
existia, porque, para mim, viver e existir são coisas diferentes e eu não
estava vivendo de fato.

A cada estação, as coisas mudavam, no entanto, eu permanecia ali,


perdida em minha própria dor e resistência em aceitar que ele realmente
não voltaria mais. Não tive uma crise depressiva, nem nada muito grave
que precisasse de uma intervenção médica, apenas fiquei presa em um
mundo próprio: onde eu o encontrava sempre que precisava.

A parte mais difícil do processo de luto é aceitar. Aceitar que a


pessoa que partiu não retornará, e sua vida não precisa parar por causa
disso.

Meu ritual diário durante esses três anos consistia em: acordar,
realizar minha higiene e sentar na minha cadeira de frente à janela para
ver a vida passar. Tudo isso de forma mecânica, sem sentido nenhum.

Ali naquela cadeira, chorava, escrevia, e me sentia abraçada por ele


de alguma forma que não sei explicar, eu ainda o sentia presente. E o fato
de não ter tido tempo para me despedir dele, era o que mais me
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machucava. É impossível não sentir meus olhos lacrimejarem ao pensar
nele, mas de certa forma, eu estava feliz por viver ao seu lado e ter
aprendido tanto.

As memórias que fizemos juntos, não poderão ser apagadas.

Enchanted, da Taylor Swift tocava em meus fones quando fui


interrompida de meus próprios pensamentos por minha mãe batendo à
porta.

— Querida, não acha melhor sair um pouco? Quem sabe ir até o


lago, você sempre gostou de lá.

O lago ao qual a minha mãe se referia, ficava próximo a uma árvore


frondosa, onde eu gostava de passar algumas horas, apenas pensando ou
escrevendo algo.

— Não sei, mãe — respondi, com um certo receio.

— Não é saudável o que você está fazendo, Emily! Estou


preocupada, e o seu pai também — disse o óbvio.

Eu sabia que ela tinha razão, e eu havia prometido a mim mesma


que essa situação mudaria. Era um tanto doentio, observar a vida dos
outros seguir normalmente através da janela do meu quarto quando a
minha própria vida estava parada no tempo, numa espécie de bolha que
eu mesma criara.

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— Certo. — Suspirei pesado. — Você está certa, eu preciso viver.
Talvez eu tenha encontrado algo que me fizesse mudar de ideia em
relação a muita coisa.

Ou alguém, pensei, mas não falei.

— Como anda as inscrições para as faculdades? Já escolheu alguma?


— minha mãe perguntou, e eu ainda não tinha uma resposta para essa
questão.

— Nada que despertasse meu interesse — respondi triste. —


Continuarei procurando.

Minha mãe ainda me olhava com aquele olhar de quem queria


perguntar algo mais.

— Por que sinto que você quer perguntar algo? — perguntei


divertida.

— Talvez eu tenha estranhado o fato de você ter voltado a sorrir um


pouco mais nos últimos três dias. Aconteceu algo que eu não sei?

Quando me diziam que não podemos esconder nada de nossa mãe,


não era brincadeira.

— Não aconteceu nada, está se saindo uma bela de uma curiosa,


dona Loren! — brinquei.

Minha mãe é a pessoa mais otimista e animada que conheço, e a


admiro muito por isso. Às vezes em que desabei pela morte do meu avô,
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ela sempre esteve lá para me amparar. Sorrio quando lembro da época em
que implorava por um irmão, ou irmã, eu deixei os meus pais loucos, mas
não aconteceu. Minha mãe me teve depois dos 30, e os médicos a
alertaram sobre não tentar mais, devido à hipertensão.

— Por um instante pensei que tivesse conhecido uma garota, por


isso anda sorrindo como idiota pelos cantos.

— Mãe! — repreendi ela.

Sim, meus pais sabiam que eu era lésbica, acredito que antes
mesmo de mim.

Considero-me muito sortuda por ter pais como os meus, que me


aceitam exatamente como sou. Quando eu era criança, era tudo mais
confuso e difícil de entender, mas meu avô me ajudou muito nesse
processo de compreensão e aceitação.

O fato é que garotos nunca chamaram a minha atenção em nada, e


eu acreditava ser defeituosa por isso, mas com o passar dos anos
compreendi quem eu era de verdade, e do que gostava.

— Quando isso acontecer, mãe, você será a primeira a saber.

Minha mãe não respondeu nada. Apenas me olhou, e deu um beijo


no topo da minha cabeça, antes de sair do meu quarto.

Talvez eu já a tenha encontrado.

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Acredito que nossa vida seja um grande ciclo formado por pequenos
ciclos, quando uns se fecham, outros se abrem. Meu avô faleceu no
primeiro dia do outono de 2012, eu a vi no primeiro dia do outono de
2015. Coincidência? Destino? Encontro de almas? Talvez uma mistura de
tudo.

Ela era igual à garota dos meus sonhos.

Sinto que poderia percorrer qualquer distância, desde que fosse para
reencontrá-la.

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