Filosofia para Adiar o Fim Do Mundo
Filosofia para Adiar o Fim Do Mundo
2
FILOSOFIA EM REDE
FILOSOFIA PARA ADIAR O FIM
DO MUNDO
3
DIREÇÃO EDITORIAL: Willames Frank
REVISOR: Wesley Sousa
O padrão ortográfico, o sistema de citações e referências bibliográficas são prerrogativas
do autor. Da mesma forma, o conteúdo da obra é de inteira e exclusiva responsabilidade
de seu autor.
Todos os livros publicados pela Editora Phillos estão sob os direitos da Creative
Commons 4.0 [Link]
S149p
ISBN: 978-65-88994-89-4
4
Antônio Ismael da Silva Lima
(Organizador)
FILOSOFIA EM REDE
FILOSOFIA PARA ADIAR O FIM
DO MUNDO
5
Direção Editorial
Willames Frank da Silva Nascimento
6
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO ....................................................................................... 9
CAPÍTULO 1 ............................................................................................... 11
Construir presenças e produzir sentido: a universidade como mundo
social e rito de passagem
Karla Maria Lima Figueiredo Bené Barbosa
Sônia Maria Rocha Sampaio
CAPÍTULO 2 ............................................................................................... 20
O mundo dos possíveis
Lucas Dilacerda
CAPÍTULO 3 ............................................................................................... 28
O racismo televisivo e o papel estereotipado destinado a atores
negros e atrizes negras no Brasil
Érick Santos da Silva
José Adielson Pereira Barbosa
CAPÍTULO 4 ............................................................................................... 38
Nacionalismo para adiar o fim do mundo
Breno Augusto da Costa
CAPÍTULO 5 ............................................................................................... 47
Aprender a ouvir outras vozes: reflexões sobre formas de
diálogo não coloniais
Ana Luisa Lima Grein
Ana Otero de Oliveira Mendonça
CAPÍTULO 6 ............................................................................................... 58
Retomada Ancestral: o território sendo ressignificado
Thaís dos Santos Leite
CAPÍTULO 7 ............................................................................................... 69
A Constituição de 1988 ainda existe? Um realinhamento de promessas
neoliberais a partir do constitucionalismo dirigente invertido
Loiane da Ponte Souza Prado Verbicaro
Paulo Henrique Araújo da Silva
CAPÍTULO 8 ............................................................................................... 79
O encantamento no samba: o encanto de Cartola com a “Tristeza”
Jeferson da Costa Vaz
7
CAPÍTULO 9 .............................................................................................. 91
O hedonismo de Epicuro: um caminho para a superação
do hedonismo consumista
André Pereira da Silva
CAPÍTULO 10........................................................................................... 102
Hegel, os sistemas de filosofia e o absoluto: uma abordagem da
necessidade da filosofia na differenzschirift
Antônio Salomão Neto
Ezequiel Barros Barbosa de Jesus
CAPÍTULO 11 ........................................................................................... 113
O furto famélico a partir da teoria hegeliana
Camila Passos Barbalho
Carolini Dellavalle Vilão
CAPÍTULO 12........................................................................................... 124
Human Enhancement: convergência tecnológica e transumanismo
à luz da filosofia da técnica heideggeriana
Caio Fernando de Castro
CAPÍTULO 13........................................................................................... 132
A Filosofia Indígena: dos Males da terra à terra sem mal
Francisco José da Silva
Organizador e Revisor............................................................................. 146
8
APRESENTAÇÃO
9
de uma reflexão crítica do presente, a fim de contarmos outras histórias e
adiarmos o fim do mundo, como sugere Krenak: “O tipo de humanidade zumbi
que estamos sendo convocados a integrar não tolera tanto prazer, tanta fruição de vida.
Então, pregam o fim do mundo como uma possibilidade de fazer a gente desistir dos
nossos próprios sonhos. E a minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente
sempre poder contar mais uma história. Se pudermos fazer isso, estaremos adiando o
fim.”
É nesse movimento que apresentamos o quarto e-book Filosofia
em Rede, com o tema Filosofia para adiar o fim do mundo. Assim com
nas edições anteriores, nosso objetivo é propiciar espaços e instrumentos
para o exercício filosófico em tempos de pandemia, ocupando os meios
digitais e transportando a nossa ágora para o mundo virtual, oportunizando
o compartilhamento de experiências e conhecimentos entre os participan-
tes, professoras/es e estudantes, pesquisadoras/es e comunidade em geral
de todos os lugares do Brasil e exterior.
Lembramos que o Webinário e o e-book Filosofia em Rede foram
construídos e realizados coletivamente, numa parceria entre o Instituto Tri-
lhas e os Cursos de Bacharelado e Licenciatura em Filosofia da Universi-
dade Federal do Cariri (UFCA), tendo ainda o apoio da Editora Phillos
Academy.
Gostaríamos de primeiro nos desculpar pela demora do processo
de publicação deste livro e tomamos para nós, enquanto Instituto Trilhas,
a responsabilidade pelo atraso. Ao mesmo tempo, agradecemos a compre-
ensão e a disposição de cada uma e cada um que se colocou a caminho
conosco para construirmos juntos mais uma edição do Filosofia em Rede.
Desejamos seguir novas trilhas, propondo e construindo novos caminhos
e espaços, sempre juntos, ampliando e fortalecendo as vozes da Filosofia,
de uma Filosofia que nos possibilite ir além do fim do mundo.
Forte abraço e boa leitura.
10
CAPÍTULO 1
Construir presenças e produzir sentido: a universidade como
mundo social e rito de passagem
RESUMO
11
INTRODUÇÃO
12
do mundo começa com o ato da interpretação. Para isso, determina como
essencial a compreensão da relação entre os indivíduos em seu cotidiano,
no mundo da vida, considerado como mundo social (AZEVÊDO, 2011).
A obra de Schütz comporta a ideia de que a sociedade se produz
socialmente sendo o resultado do que os indivíduos fazem dela, da maneira
como se relacionam uns com os outros, como interpretam o que se passa
ao seu redor e como organizam as práticas da vida cotidiana.
O sociólogo Alfred Schütz embasou o seu pensamento como her-
deiro da filosofia de Husserl e da sociologia compreensiva da ação de Max
Weber. Schütz aprofundou o significado da ação do homem no mundo so-
cial postulado por Weber, trazendo uma perspectiva de interpretação da
realidade social pautada na significação dos atos pelo indivíduo que os pra-
tica. Husserl teve forte influência no arcabouço filosófico que permitiu a
Schütz compreender os fenômenos sociais a partir do significado atribuído
pelo indivíduo à ação (SCHRÖDER, 2006; AZEVÊDO, 2011).
Schütz (1979) defende, ainda, que a fenomenologia social compre-
enda o mundo cotidiano como o contexto onde o ser humano vive, que já
estava estruturado antes mesmo do seu nascimento. Cada pessoa se situa
de maneira específica no mundo da vida, tem a capacidade de intervir, in-
fluenciar, ser influenciada e transformar-se. O mundo da vida é comum a
todos, com toda a esfera das experiências cotidianas, através das quais os
indivíduos lidam com seus interesses e negócios, se relacionam com pessoas
e realizam planos (SCHÜTZ, 2018). Deste modo, o status do indivíduo, na
obra de Schütz, não é aquele que apenas internaliza regras e concepções
existentes, e sim, agente responsável pela interpretação da realidade social.
Desta forma, o mundo cotidiano, objeto das ações e interações dos
indivíduos, é também um mundo cultural, onde os homens coexistem e
convivem entre si, como seres dotados de uma consciência (SCHÜTZ,
1979). Para viver nesse mundo, o homem orienta-se pelo modo como de-
fine o cenário da ação, interpreta suas possibilidades e enfrenta seus desa-
fios. O indivíduo apresenta uma história resultante de todas as suas experi-
ências; interpreta de forma espontânea sua rotina de atividades diárias, legi-
timando os valores intrínsecos à vida social, como regras, relações, classes,
religião, trabalho e outras formas de convivência social. “A construção do
mundo social tem caráter significativo para aqueles que o habitam”
(SCHÜTZ, 2018, p. 28).
13
Assim, durante toda a sua existência, cada indivíduo, interpreta o
mundo na perspectiva de seus próprios interesses. O que se observa é que
Schütz se dedicou a fundamentar uma teoria da sociedade que respondesse
ao significado da ação social (AZEVÊDO, 2011).
Neste aspecto, Schütz (1979) destaca que a importância do signifi-
cado é dada em consonância com as experiências anteriores; apenas o que
foi vivenciado é significativo. Estes significados são produzidos biografica-
mente em um mundo vivido coletivamente e que tem um caráter prático.
Cada indivíduo só pode ser compreendido a partir de sua biografia, da po-
sição que ocupa não apenas no espaço, no status ou no seu papel social, mas
também pela posição moral e ideológica que compartilha.
Dentro desta perspectiva, partindo das articulações e formas de or-
ganização do mundo social, é possível afirmar, a partir de Schütz (1979) que
o mundo social é composto por uma rede de relacionamentos sociais, de
símbolos e significados, de formas institucionalizadas de organização social,
de sistemas de status e prestígio; onde a atitude natural, baseada num co-
nhecimento no mundo da vida, é composta pelas experiências compartilha-
das; ao mesmo tempo que, a realidade cotidiana é atravessada por outras
realidades e pela troca de experiências.
Assim, a realidade social é composta por objetos e acontecimentos
do mundo cultural e social, pelo pensamento de senso comum de indiví-
duos que vivem juntos numerosas relações de interação. Portanto, tendo
como base a perspectiva da fenomenologia social de Alfred Schütz, a uni-
versidade pode ser considerada como mundo social: nela as relações acon-
tecem como experiências do mundo natural e cultural ao mesmo tempo.
Nas palavras de Azevêdo (2011, p.62):
14
(2018) esclarece que estas podem ser apreendidas, distinguidas, destacadas
pois, “o ato de voltar-se para, não importa se de natureza reflexiva ou re-
produtiva, pressupõe – e isso é de grande importância para toda pesquisa
que tem sentido como tema – uma vivência decorrida, em suma, passada”
(SCHÜTZ, 2018, p.83). Neste ponto, é possível compreender que com o
olhar retrospectivo existem vivências bem distintas e, deste modo, o viven-
ciado é investido de muito sentido.
O mundo da vida cotidiana é o cenário das ações e interações dos
indivíduos; significa comunicar-se com outros, interagir com outro. É um
mundo comum a todos. Nele, vivem indivíduos entre indivíduos, com va-
lores comuns e processos de interpretação conjunta; se constitui como um
universo de significação, ou seja, os indivíduos devem interpretar para ori-
entar-se e conduzir-se nele. Por isso, o conhecimento dele não é privado,
mas socializado desde o princípio (GARCÍA, 2010), assim como na univer-
sidade.
15
(GENNEP; 2013); um fenômeno dotado de um conjunto de significados e
mecanismos recorrentes no tempo e no espaço (DA MATTA; 1977). Para
Borges (2013), representam regras de conduta que guiam o comportamento
dos indivíduos, envolve ações convencionadas e reconhecidas pelos mem-
bros de determinado grupo; o rito é uma passagem obrigatória.
Os ritos de passagem ocorrem sempre e variam nas suas formas de
manifestação. Em algumas sociedades, podem ser realizados de forma bem
marcada, e em outras de maneira mais sutil, e representam o transpor de
uma barreira, a passagem ou deslocamento de um estado ou “mundo” para
outro, mais profundo e amadurecido. E assim, qualquer grupo tem seus
ritos.
Desde o portão de entrada da universidade, tudo é ritualizado. As
passagens no ambiente acadêmico coincidem com as passagens de vida,
momento de intensidade emocional em que os sentimentos afloram e os
estudantes têm a oportunidade de vivenciá-los, absorvê-los e se entregarem
a eles. Rituais e ritos de passagem ocupam esse ambiente e são reconhecidos
como processos de educação. Para Reinaux (1998), os ritos estão presentes
na universidade e dizem respeito à própria natureza da mesma, pratica-
mente nasceram com ela.
Quando vislumbramos as cerimônias de colação de grau, observa-
mos que são reflexos de uma tradição já incorporada ao modus operandi, uma
cultura que se perpetua na própria repetição dos ritos e símbolos incorpo-
rados na instituição, fortalecendo sua história ano após ano. Outros ritos de
passagem da universidade também marcam a passagem de um status para
outro, seja de uma pessoa ou da própria comunidade, como: posses de ser-
vidores, docentes e gestores, obtenção de graus acadêmicos e os trotes aos
ingressantes (REINAUX, 1998).
Borges (2013) enfatiza que o rito volta-se para as relações sociais,
remete à história antropológica de grupos humanos, coloca o indivíduo em
relação com a coletividade, tirando-o do isolamento. Os ritos carregam a
promessa de continuidade através das gerações e promovem um senti-
mento de coesão social. Deste modo, falar em vida universitária é falar de
ritualização, de passagem. Neste entendimento, aprender a lidar com as re-
gras acadêmicas e institucionais, com vistas a não fracassar é condição fun-
damental na trajetória estudantil.
16
Por isso, pensar sobre vida universitária nos remete ao pensamento
de Da Matta (1977, p.20) quando afirma que: “viver socialmente é passar,
passar é ritualizar”. Compreensão partilhada por Gennep (2013, p.160): “vi-
ver é continuamente desagregar-se e reconstituir-se, mudar de estado e de
forma, morrer e renascer. É agir e depois parar, esperar e repousar, para
começar em seguida a agir, porém de modo diferente”. Viver exige passa-
gens, sucessão de etapas, (re)começos e aprendizagem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
17
BORGES, P.R. O declínio dos ritos de passagem e suas consequências
para os jovens nas sociedades contemporâneas. São Paulo: Senai Editora,
2013.
18
SCHÜTZ, A. Bases da fenomenologia. In: WAGNER, H. (org.). Fenome-
nologia e relações sociais: textos escolhidos de Alfred Schutz. Rio de
janeiro: Zahar, 1979, p. 53 – 71.
19
CAPÍTULO 2
O mundo dos possíveis
Lucas Dilacerda3
RESUMO
PRINCÍPIO HISTÓRICO
20
enunciados ela pode ser dita? E nós atualmente: o que somos capa-
zes de dizer hoje, o que somos capazes de ver?4.
POTÊNCIA
LIMITE
DIZÍVEL
O dizível é tudo aquilo que pode ser dito, ele é um efeito da potên-
cia da linguagem, ele é o enunciável de uma época. “E o enunciável numa
4 DELEUZE, Gilles. “A vida como obra de arte”. In: _____. Conversações, p. 125.
5 SPINOZA, Benedictus de. Ética, p. 101.
6 SPINOZA, Benedictus de. Tratado político, p. 12.
21
época é o regime da linguagem”7. O regime da linguagem estabelece as con-
dições de possibilidade de alguma coisa ser dita em uma determina época.
VISÍVEL
O visível é tudo aquilo que pode ser visto; ele é um efeito da po-
tência da visibilidade, ele é o perceptível de uma época. “E a visibilidade de
uma época é o regime de luz, e as cintilações, os reflexos, os clarões que se
produzem no contato da luz com as coisas”8. O regime de luz estabelece as
condições de possibilidade de alguma coisa ser vista em uma determina
época.
FORMAÇÃO HISTÓRICA
POSSÍVEL
7 DELEUZE, Gilles. “A vida como obra de arte”. In: _____. Conversações, p. 124.
8 DELEUZE, Gilles. “A vida como obra de arte”. In: _____. Conversações, p. 124.
22
na política) (1998), presente no livro Gilles Deleuze: uma vida filosófica (2000),
uma organização de Éric Alliez, diz que “o possível é o que pode acontecer,
efetiva ou logicamente”9. Ou seja, o possível é tudo aquilo que pode ser
dito, do ponto de vista da formação histórica, e é tudo aquilo que pode ser
visto, do ponto de vista da formação histórica. “A linguagem é o domínio
do possível. Ela indica alvos, preferências, escolhas: ou isso ou aquilo, ou
assim ou assado, ou agora ou depois, ou sair ou entrar”10. Assim como a
linguagem, a visibilidade é o domínio do possível, ela indica imagens e per-
cepções. A formação história, o regime de linguagem e o regime de luz, que
determinam, concomitantemente, as condições de possibilidade do dizível
e do visível, ou seja, a formação histórica determina aquilo que é conside-
rado possível em uma determinada época.
REAL
23
POSSÍVEL ATUAL
POSSÍVEL VIRTUAL
24
aquilo que podemos dizer, ver, imaginar, lembrar e pensar, em um espaço,
em um tempo. É o artigo indefinido “um”, de “uma vida”, acontecimentos,
hecceidades, pré-individuais. Por isso, para Deleuze, “o possível é o virtual”15.
IMAGEM-CLICHÊ
MUNDO
p. 347.
17 ZOURABICHVILI, François. Deleuze e o possível (sobre o involuntarismo na política),
p. 350.
18 ZOURABICHVILI, François. Deleuze e o possível (sobre o involuntarismo na política),
p. 350.
19 PELBART, Peter Pál. O deserto vermelho, p. 80.
25
ligava ao mundo nada mais era senão clichês, simples possibilidades”20. Es-
tamos amarrados ao mundo por meio dos clichês como um cordão umbili-
cal que liga duas vidas. “O mundo é o mundo dos clichês”21. O mundo é o
conjunto dos nossos clichês, é o conjunto de nossas representações que nos
cegam de tanto ver. “O clichê é feito para não se ver a imagem”22. Há uma
imagem que não conseguimos enxergar, um ponto cego do mundo que é
vigiado pelos clichês. Por isso, a imagem clichê “é uma operação de poder
que paralisa a própria imagem impedindo-a de fazer frente à invenção de
outras formas de imagens e consequentemente do próprio pensamento. [...]
o clichê tem uma função de poder, nadifica a imagem”23.
REFERÊNCIAS
26
SPINOZA, Benedictus de. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. 2. ed. Belo
Horizonte: Autêntica Editora, 2016.
27
CAPÍTULO 3
O racismo televisivo e o papel estereotipado destinado
a atores negros e atrizes negras no Brasil
Érick Santos da Silva24
José Adielson Pereira Barbosa25
RESUMO
O audiovisual faz parte da vida das pessoas no século XXI, todos os anos
são veiculados inúmeros filmes, séries, telenovelas, telejornais e documen-
tários. Não obstante o crescente aumento dos produtos audiovisuais, pou-
cas pessoas questionam o conteúdo televisivo que consomem, essa não pro-
blematização faz com que indivíduos aceitem as coisas como estão sendo
retratadas, enxergando a realidade como projetadas nas telas da televisão.
Esse artigo buscou encontrar nas atuais telenovelas que estão no ar em uma
determinada emissora de televisão – emissora x-, papéis destinados a atores
negros e atrizes negras, comparado com papéis destinados a atores brancos
e atrizes brancas, através de um estudo descritivo de caráter qualitativo no
site de entretenimento dessa emissora.
INTRODUÇÃO
24
Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Tiradentes - UNIT, graduando
em Filosofia pela Universidade Federal de Alagoas - UFAL.
Contato: [Link]@[Link]
2
Graduado em Psicologia pelo Centro Universitário Tiradentes - UNIT, Pós-gradu-
ando em Educação Especial e Inclusiva, Instituto Federal do Sul de Minas Gerais –
IFSULDEMINAS.
Contato: adielsonbarbosaa@[Link]
28
Apesar de ser muito falado e problematizado, atualmente o racismo
ainda é reproduzido, sendo o meio televisivo seu principal propagador. Não
obstante, o crescente aumento dos produtos audiovisuais, poucas pessoas
questionam o conteúdo televisivo que consomem, essa falta de problema-
tização faz com que indivíduos aceitem as coisas como estão sendo retrata-
das, enxergando a realidade conforme projetadas nas telas da televisão.
Pensar o racismo televisivo é problematizar o papel interpretado
por atores e atrizes negros(as) no decorrer da história. No Brasil, desde o
surgimento das primeiras telenovelas, o(a) negro(a) quando escalado(a) para
se integrar ao elenco, recebia papéis estereotipados, como: pobre, margina-
lizado(a), sujo(a), burro(a), empregada doméstica, escravo(a). Esses papéis
são carregados de significados, construídos ao longo de toda a escravidão,
e que perduram até os dias atuais, associando a imagem do(a) negro(a) a
alguém inferior, subalterno(a), à mercê dos favores e cuidados das pessoas
brancas (ARAÚJO, 2008).
O mesmo autor ressalta que a grande maioria das telenovelas brasi-
leiras, nos anos 60 e 70, retratavam o mito da democracia racial. De acordo
com essa teoria, não houve racismo na sociedade brasileira, e nem há, tendo
em vista a miscigenação (mistura entre as diferentes raças), um fator com-
probatório dessa teoria, afinal de contas, brancos, negros e indígenas tive-
ram relações sexuais. No entanto, o que a teoria parece não considerar é
que muitas mulheres e homens negros tiveram seus corpos sexualizados
durante o período da escravidão, fato esse que se perpetua até os dias atuais.
Existiu também uma sobreposição entre culturas, na qual uma raça (bran-
cos) ditava o que poderia ou não ser feito as demais (negros e indígenas).
Em seu livro Pequeno manual antirracista, a filósofa e feminista negra
Djamila Ribeiro (2019), traz uma importante reflexão sobre o racismo tele-
visivo. Ela admite que recentemente os atores negros e atrizes negras estão
sendo escalados com mais frequência, sendo possível enxergá-los na televi-
são, no entanto, a autora salienta que para além da representatividade, deve-
se pensar nas características dos papéis e qual o papel esse/essa ator/atriz
tem interpretado? É mais um estereotipado como tantos outros? Além
disso, diz ela, é preciso pensar em proporcionalidade, afinal de contas, quan-
tos atores negros e atrizes negras fazem parte do elenco, comparado com
profissionais brancos?
29
No que se refere à representatividade do(a) negro(a) quando ocu-
pam tais lugares, Ganzer et al., afirmam que:
METODOLOGIA
30
como emissora X, para manter a confidencialidade das informações. Como
critérios de inclusão, foram utilizadas as telenovelas da emissora que esta-
vam no ar no período de levantamento de dados, como critério de exclusão
foi adotado a não utilização de telenovelas que não estavam no ar no perí-
odo do levantamento de dados. Após a identificação das telenovelas dis-
poníveis no momento da pesquisa, os dados foram colocados em tabelas
no Word para a análise dos atores e atrizes envolvidos na teledramaturgia,
observando o papel que desempenhavam e identificando a proporcionali-
dade entre os profissionais de pele negra comparado com profissionais de
pele branca. As telenovelas analisadas serão identificadas como T1, T2, T3,
T4 e T5, já as personagens envolvidas em cada trama serão identificadas
por P1, P2, P3 e assim sucessivamente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
31
de grande propagação, a população negra, na grande maioria das vezes é
deixada de lado, ficando em segundo plano, ocupando apenas papéis trivi-
ais, sem muita importância.
Mesmo com a lei 12.288 que institui o Estatuto da Igualdade Racial,
destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportu-
nidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o
combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica, o meio
televisivo ainda reluta em trabalhar a igualdade racial, isso fica claro fazendo
uma análise da tabela mostrada acima.
Torna-se necessário realizar uma discussão acerca dos personagens
interpretados pela população negra na teledramaturgia, esses personagens
estão carregados de significados que muitas vezes passam despercebidos ao
telespectador desatento, desinformado e seduzido pela cultura do embran-
quecimento. Dessa forma é feita a seguir, uma análise de cada telenovela
citada na tabela 1, analisando os personagens interpretados por atores e
atrizes negras, identificando estereótipos estabelecidos e o racismo estrutu-
ral silencioso, difícil de perceber quando não se olha com atenção.
TELENOVELA 01
32
Não é difícil de perceber os estereótipos em cada um dos papéis:
o(a) negro(a) como sendo alguém pobre e humilde. Até que ponto esses
estereótipos retratam a realidade? Em que medida a trama reproduz o ra-
cismo brasileiro?
TELENOVELA 02
TELENOVELA 03
33
suscita um importante questionamento: não há atores negros e atrizes ne-
gras preparados para atuarem, ou essa desproporcionalidade é também mais
um sinal do racismo televisivo presente na sociedade brasileira?
TELENOVELA 04
TELENOVELA 05
Apesar dessa lei, a população negra ainda sofre uma série de entra-
ves quando o assunto é o mercado de trabalho. Mulheres negras não são
aceitas por não atenderem ao quesito boa aparência, homens negros são
34
recusados nas seleções de emprego por haver uma ideia de inferioridade
que lhes fazem parte.
O Estado sozinho não consegue assegurar igualdade, toda a socie-
dade deve problematizar o racismo e encontrar caminhos assertivos para
deixar de lado essas pontes que separam as pessoas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
35
ainda há muitos obstáculos a serem superados, e todo esse percurso deve
ser percorrido por toda a sociedade. O movimento antirracista tem contri-
buído muito para que haja melhoras nas questões sociais que envolvem as
pessoas negras, todavia, tem encontrado barreiras sólidas, difíceis de que-
brar, mas que não são impenetráveis.
A educação parece ser um dos caminhos a ser percorridos para que
a sociedade avance e evolua, um grande avanço foi a inclusão obrigatória
dos estudos da história e cultura afro-brasileira e indígena na educação bra-
sileira, estabelecida pela Lei Federal n° 9334, mas ainda há um caminho
longo a ser percorrido, várias barreiras a serem quebrados e visões precon-
ceituosas e racistas a serem superadas.
REFERÊNCIAS
36
GIORGI, M.; ALMEIDA, F.; PAIVA, M. A não representação dos negros
nas telenovelas: O caso Gabriela. Rev. de Educação. Vol. 10. n 20. p. 573-
583. Disponível em:
[Link]
[Link]/[Link]/educereeteducare/article/down-
load/12598/9012&ved=2ahUKEwinj87476T0AhWhIbkGHW-
CdA2sQFnoECAMQAQ&usg=AOvVaw1qE96oYHAG_CmoYUziQPs- .
Acesso 19 Nov. 2021.
37
CAPÍTULO 4
Nacionalismo para adiar o fim do mundo
Breno Augusto da Costa26
RESUMO
Este capítulo tem como objetivo principal a defesa da tese de que o nacio-
nalismo é uma proposta capaz de adiar o fim do mundo. Trata-se de uma
reflexão filosófica calcada na filosofia da libertação, entendida de forma am-
pla. Partindo da defesa de que o nacionalismo tem, na periculosidade que
ameaça algo ou alguém, uma de suas notas, indicamos o potencial libertador
de todo uma plêiade filosófica do Sul Global. A seguir, é desenvolvida uma
abordagem ontológica da questão nacional como base para a argumentação
subsequente, que defende o potencial libertador do nacionalismo e indica
sua função na superação da alienação em diversos campos, especialmente
político, econômico e cultural. Conclui-se o capítulo através do esclareci-
mento do caráter deste nacionalismo.
INTRODUÇÃO
38
mesmo grupos específicos dentro dos contornos nacionais, como homos-
sexuais e negros, todos eles viam no nacionalismo uma ameaça. Por sua vez,
o presidente brasileiro capitaneou uma turba numerosa que atribula a imi-
grantes também, como haitianos ou venezuelanos – estes últimos acossados
até mesmo nas fronteiras de seu próprio território –, indígenas e praticantes
de religiões de matriz africana. Filosoficamente, podemos elencar Heide-
gger, ao enaltecer o alemão, junto ao grego, como as únicas línguas propí-
cias à filosofia, ou quando defende os interesses geopolíticos alemães a res-
peito da inferioridade tecnológica em comparação com os estadunidenses
ou soviéticos27, como constituindo certa forma de nacionalismo; isso sem
falar em sua adesão e militância nazista.
Por outro lado, mas não menos nacionalista, porém representante
de um nacionalismo Outro, dis-tinto, temos Frantz Fanon, filósofo latino-
americano, mas que realizou seus estudos superiores na França e realizou
sua conversão à realidade africana no decorrer dos anos 1950. Ali, na Argélia,
desenvolveu um pensamento nacionalista-libertador que lutava pela desco-
lonização em seus diferentes aspectos, mas especialmente políticos e cultu-
rais. Segundo ele: “o problema da verdade também deve merece nossa aten-
ção. No seio do povo, em todos os tempos, a verdade só esteve com os
nacionais [...]. A verdade, é aquilo que precipita o desmantelamento do re-
gime colonial, é o que favorece a emergência da nação. O verdadeiro é
aquilo que protege os indígenas e destrói os estranhos” (FANON, 2005, p.
67). Outro nacionalista é o brasileiro Álvaro Vieira Pinto, a quem Paulo
Freire chamou de mestre brasileiro por sua grande influência no pensa-
mento do patrono da educação brasileira. Vieira Pinto (2020, vol. II) propôs
o nacionalismo como ferramenta de superação da alienação em todos seus
aspectos. Sua proposta visava a libertação do subdesenvolvimento, enten-
dendo este não apenas como índice econômico, mas como a condição de
existência das massas quando em miséria, penúria e opressão. Outro nacio-
nalismo, ou melhor, “plurinacionalismo”, pode ser remetido à experiência
político-popular boliviana das últimas décadas. Ao invés de acatar servil-
mente às determinações econômicas do imperialismo, que agrilhoaram a
pátria ao extrativismo destruidor, o povo boliviano propugnou por modelos
Outros de relação com a Pachamama.
27
Esta última é uma crítica de Álvaro Vieira Pinto (2005).
39
Claro está que rechaçar cabalmente o nacionalismo é uma medida
que desconsidera ou invisibiliza parte importante das lutas de libertação em
suas várias expressões. Toda uma geração da filosofia africana, além de Fa-
non, Kwame Nkrumah ou Amílcar Cabral, por exemplo, ou então brasi-
leira, além de Vieira Pinto, temos Roland Corbisier ou então pensadores de
outros campos, como Nelson Werneck Sodré, da história, e Alberto Guer-
reiro Ramos, da sociologia, podem ser vinculados ao nacionalismo. Ainda
outros autores de outros períodos, como Nísia Floresta Brasileira, Manoel
do Bomfim e Gondim da Fonseca, estes do Brasil, mas também Juan José
Hernández Arregui, da Argentina, ou José Carlos Mariátegui, do Peru, tam-
bém devem ser considerados junto a esse campo como sendo produtores
de um nacionalismo libertador. Nada obstante, nosso propósito aqui não é
arrolar nomes de autores ou indicar suas contribuições à filosofia ou à po-
lítica; o objetivo deste texto é defender que o nacionalismo é uma proposta
capaz de adiar o fim do mundo. Trata-se, por conseguinte, de propor um
nacionalismo para adiar o fim do mundo.
28
Empregarei a maiúscula para indicar o Mundo no sentido estritamente ontológico.
40
possível a ferro e fogo. As fronteiras de cada Estado-nação da Latinoamé-
rica, Ásia e África foram traçadas com sangue e lágrimas dos povos origi-
nários, servindo primordialmente interesses alheios – leia-se europeus. Ade-
mais, tal como mostra Quijano (2005; 2010), uma vez que na modernidade
o Estado-nação é o dispositivo criado para exercer o poder através da co-
erção e do uso da autoridade política, povos inteiros foram dizimados dire-
tamente ou indiretamente em nome da nação. Desde a tutela, passando pela
calculada falta de investimentos em programas de saúde coletiva – muito
nítido durante a pandemia de covid-19 – até a destruição de florestas, o
Estado-nação, muitas vezes em nome de algum tipo de nacionalismo, de
progresso do país ou desenvolvimento, eliminou Mundos indígenas.
Há que se ter cuidado, portanto, ao falar do nacionalismo. Nossa
proposta, assim como a de cada um dos autores-libertadores que mencio-
namos acima, está longe de converter-se em uma filosofia nacionalista, tal
como definida por Paulo Margutti, isto é, que “parte de um contexto cultu-
ral e sofre sua influência, mas acaba por ver aquele contexto como um pa-
radigma a ser seguido pelas demais culturas” (2020, p. 124). Recusamos a
aceitar tal conteúdo como o correto para definir a filosofia nacionalista en-
quanto tal, pois se é verdade que ela apreende com acurácia muitos nacio-
nalismos dos países do Norte Global, é completamente equivocado reduzir
a produção nacionalista do Sul a tais contornos. Não seria inadequado re-
montar uma tese já defendida a respeito das experiências nacionalistas do
Norte do Sul no decorrer do século XX e que indica que, enquanto no
Norte elas engendram fenômenos como o imperialismo, nazismo ou fas-
cismo, no Sul elas contribuem para a luta libertadora ou descolonizadora.
Mas por que precisaríamos de um nacionalismo? Isto é, se nossa
intenção é adiar o fim do mundo, por que optar pelo nacionalismo? Em
primeiro lugar, porque ele permite uma conversão ao Brasil, conversão vi-
vida e descrita por Roland Corbisier (1978) e que equivale à assunção de
nossa própria realidade, tal como concebida por Álvaro Vieira Pinto (2020,
vol. II). Ora, diferentemente do discurso vazio e alienado que preza pela
universalidade – desde que essa universalidade seja europeia – a atitude na-
cionalista propõe situar-se e sulear-se, isto é assumir um olhar crítico e cri-
ativo sobre a Latinoamérica (VALESE & SCHNORR, 2018) e, acrescenta-
ríamos, desde a Latinoamérica, de nosso chão, de Abya Yala, Pindorama,
de Nossa América.
41
Segundo Vieira Pinto, a liberdade só pode ser exercida a partir do
momento em que eu assumo minha realidade. Entendida criticamente, pro-
põe ele, ela é “qualidade específica do ato de libertar. É ao praticar a liber-
tação da minha comunidade de algum acorrentamento servil que a subju-
gava que se gera em mim, como conteúdo de consciência, a liberdade”
(2020, vol. II, p. 278). Ou seja, ele propõe uma radical mudança na concep-
ção dela: ao invés de um atributo, uma faculdade humana, ela é um qualifi-
cador de suas ações. É a atividade humana que detém ou não liberdade.
Ora, a partir do momento em que convergem, de maneira nem sempre uni-
ficada, mas essencialmente convergente a uma mesma finalidade, diversas
formas de opressão, como a dominação imperialista, a globalização, o neo-
liberalismo, a necropolítica, o extrativismo predatório, por exemplo, ins-
taura-se uma situação de opressão e subjugação, situação pela qual exige a
libertação para ser superada.
Mas por que uma libertação nacional, e não uma que tenha outro
contorno qualquer? Seguindo o pensamento de Vieira Pinto (2020), parti-
remos da consideração da primazia sociopolítica que tem a plataforma na-
cional hoje. Não se trata de hipostatizar a nação, atribuindo-lhe atributos
alheios a seu ser, e nem de partir de noções românticas e ingênuas, de san-
gue do povo, raça, língua originária, espírito do povo, dentre outras. Trata-
se de reconhecer a relevância do contorno nacional na determinação da ex-
periência humana e o potencial político a ele inerente. A partir daí, ainda
que toda a Comunidade Humana Pluriversal deva ser liberta dos grilhões
que impedem o bem-estar, a felicidade, a atualização das possibilidades hu-
manas em sua plenitude, é preciso um exercício libertador concreto e efici-
ente, e essa plataforma nacional pode oferecê-lo.
Recusamos, nessa proposta de nacionalismo para adiar o fim do
mundo, a noção de buscar uma “brasilidade” mítica ou de uma identidade
nacional, como se fossem modelos dogmáticos a partir dos quais se pode
aferir o quão brasileiro algo ou alguém é. Tampouco propomos um nacio-
nalismo que fundamenta a ação de um Estado que busca a homogeneização
descaracterizadora da população. A tese que concebe o modelo de lineari-
dade histórica europeia como sendo pura e simplesmente o modelo de li-
nearidade histórica é eurocêntrica. Entender, a partir dela, explicitamente
ou implicitamente, que os indígenas são atrasados ou que os quilombolas
42
necessitam do progresso civilizacional, é equívoco e uma medida mais an-
tinacional do que contribuidora aos interesses nacionais efetivamente. E tal
como a cultura regional, comunitária, as particularidades de grupos e de
regiões constituem a nação enquanto tal, sem necessitar de qualquer unifor-
mização, de maneira análoga a cultura nacional, o ser nacional, é um para-
quedas que nos impede de cair neste liquidificador chamado Humanidade,
conforme a descrição de Ailton Krenak.
A noção de Humanidade, que está intimamente ligada à civilização
ocidental, aos seus ideais e interesses, nos faz seguir um mesmo protocolo
e nos torna acautelados ante a uma ameaça sempre ao horizonte: o perigo
de ser diferente, Outro. Pergunta Krenak: “Por que insistimos tanto e du-
rante tanto tempo em participar desse clube, que na maioria das vezes só
limita a nossa capacidade de invenção, de criação, existência e liberdade?”
(2019, p. 13), portanto contra essa homogeneização destruidora de nosso
próprio ser um dos meios possíveis de resistência e reexistência é constitu-
ído justamente pelo nacionalismo.
Ademais, o nacionalismo crítico e libertador que defendemos não
é totalitário, fascista ou xenófobo e nem se fecha à possibilidade de que um
dia o ecúmeno humano seja unificado sem quaisquer contornos nacionais
conforme conhecemos hoje. O que ocorre é que, neste momento da histó-
ria, ele é uma plataforma de enfrentamento às formas internacionais de
opressão. Ele serve contra o imperialismo ianque – que também se dói ao
encontrar o nacionalismo (DREIFUSS, 1985); serve contra as guerras hí-
bridas, tal como sugerido por Korybko (2018); serve como etapa obrigató-
ria, o primeiro passo da revolução cultural libertadora (DUSSEL, 2011).
Estamos em queda. Rumamos, indica Ailton Krenak, a um abismo
de “caos social, desgoverno geral, perda de qualidade no cotidiano [e] nas
relações” (2019, p. 72). O nacionalismo é um paraquedas. Ele não exclui
outras formas de não cair nesse triturador da existência, mas se concretiza
como possibilidade libertadora em diferentes frentes. A esse respeito, vale
recorrer novamente a Álvaro Vieira Pinto (2020, vol. II, cap. VI, 11), quem
defende a tese de que o nacionalismo é a antítese da alienação, combatendo-
a em todos os setores da realidade. Para tanto, ele examina três temas: a
alienação política, econômica e cultural. Para possuir o ser para si a nação
deve ser capaz de “pensar por si a verdade a seu próprio respeito e a respeito
43
da existência circunstante” (2020, vol. II, p. 386), o que ele associa ao naci-
onalismo, propondo-o como ferramenta para superar as várias formas de
alienação: o imperialismo, como alienação política; o entreguismo, como
alienação econômica; e todos os efeitos da alienação cultural: mimetismo,
transplantação cultural, falta de originalidade etc. O nacionalismo, pois,
“restaura a esperança de uma cultura autêntica, porque, em primeiro lugar,
demonstra-lhe a possibilidade e, ademais, estimula o espírito a produzi-la”
(VIEIRA PINTO, 2020, vol. II, p. 403).
Ao invés de permitir a manutenção do caudatarismo do Sul em re-
lação ao Norte Global, que é, em suma, a situação da nação dominada pela
matriz colonial de poder, caudatarismo que permitiu que, segundo Fanon,
que “o bem-estar e progresso da Europa [fossem] construídos com o suor
e os cadáveres dos negros, dos árabes, dos índios e dos amarelos” (2005,
pp. 116-117), o nacionalismo coloca a nação em marcha rumo à sua liber-
tação.
Se é verdade que “existe uma ânsia por consumir a natureza [... e]
também uma por consumir subjetividades – as nossas subjetividades”
(KRENAK, p.32), e que ante a essas ânsias destruidoras de Mundos a ex-
pansão da subjetividade, que cifra-se em não aceitar “essa ideia de que nós
somos todos iguais” (KRENAK, 2019, p. 31), foi uma das formas de resis-
tência, somos levados a deduzir que o nacionalismo é uma forma de resis-
tência política, econômica e cultural à contradição entre os países desenvol-
vidos e os subdesenvolvidos. Daí se segue que o nacionalismo do Sul é
capaz de adiar o fim do Mundo, e, por conseguinte, do mundo, pois o de-
senvolvimento dos desenvolvidos tem sido feito às custas não apenas da
dizimação dos povos originários das Américas, que foi o primeiro holo-
causto da modernidade, dos povos africanos, que foi o segundo holocausto,
e dos povos do Sul – nativos ou diaspóricos – ainda hoje, nessa necropolí-
tica pauperista que caracteriza o neoliberalismo, mas também do ecocídio
que nos ronda.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
44
colonizadores, o imperialismo e dominadores em geral: o perigo é uma das
facetas do nacionalismo. Antes, portanto, de rechaçá-lo, devemos determi-
nar qual o nacionalismo em questão.
O tratamento que damos à nação, seguindo Álvaro Vieira Pinto
(2020, vol. II), é feito a partir da categoria de totalidade, e não de particula-
ridade, singularidade ou identidade. Isto nos traz importantes desdobra-
mentos epistêmicos e práticos: não se trata, tomando como exemplo o con-
ceito de filosofia brasileira, de empreender uma metafilosofia, mas de uma
filosofia que pensa a totalidade brasileira. Não se trata também de homoge-
neizar as totalidades menores que compõem a totalidade nacional, visando
obter um conjunto uniforme indistinto. Tampouco se trata de uma tentativa
de alterar a realidade mundial de forma a que ela seja determinada pela to-
talidade brasileira. O que propomos é mudar a função da totalidade nacional
na totalidade mundial. Ao invés de nação proletária em direção à servidão
e ao pauperismo; que exporta matérias-primas, hoje chamadas excelsa-
mente de comódities, e importa produtos beneficiados; que têm suas incon-
táveis “belezas” e riquezas naturais, mas vê seu povo ser consumido pela
fome, pela dor, pela dominação, pois não sabe aproveitar sua maior riqueza,
que consiste na capacidade de fornecer trabalho a si mesma. Ao invés, em
suma, do subdesenvolvimento, da dependência e da opressão nacional, se
trata de construir o bem-viver do povo, realizar suas possibilidades de ple-
nitude moral, de felicidade individual e de trabalho para si.
REFERÊNCIAS
45
KORYBKO, A. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos
golpes. São Paulo: Expressão Popular, 2018.
46
CAPÍTULO 5
Aprender a ouvir outras vozes:
reflexões sobre formas de diálogo não coloniais
Ana Luisa Lima Grein29
Ana Otero de Oliveira Mendonça30
RESUMO
INTRODUÇÃO
29 Mestranda em Filosofia pela Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ),
E-mail: analuisagrein@[Link].
30 Mestranda em Ciências da Linguagem pela Universidade do Sul de Santa Catarina
(UNISUL),
E-mail: [Link]@[Link].
47
presente trabalho aborda reflexões sobre possíveis meios para ampliar nos-
sos horizontes de perspectivas e “suspender a queda do céu”. Essa noção
Ailton Krenak retoma da cosmovisão Yanomami, na obra realizada por
Davi Kopenawa Yanomami e Bruce Albert: “A queda do céu: palavras de
um xamã Yanomami” (2015). Suspender o céu de maneira perspectiva,
como propõe Krenak (2019), requer ampliar as nossas possibilidades de
pensar e de estar no mundo, nossa capacidade de fruir a existência em con-
junto com todos os seres que compartilham conosco a vida na Terra. Ao
mesmo tempo, o autor (2020) denuncia as coreografias utilitárias e civiliza-
tórias que reproduzimos em estado de alienação.
É possível observar essa postura de dominação no Estado Nação
brasileiro, que jamais considerou uma das milhares de línguas indígenas
como idiomas oficiais. A dominação linguística é uma violência epistêmica
que age ao ignorar a potência criativa e performativa das diversas possibili-
dades de expressão e composição de ideias no mundo. Ao retornar ao pro-
cesso histórico de opressão dos povos e das civilizações, podemos perceber
como o fator linguístico foi e é fundamental para marcar os territórios de
exploração. Nesse sentido, as ideias de Krenak em textos e conferências
orais, assim como as de Cristine Takuá, Grada Kilomba, Hannah Arendt,
Deleuze e Guattari, que criticam a modernidade, nos conduzem a repensar
nosso modo de dialogar e agir no mundo considerando novos horizontes
perspectivos.
48
possuem as mesmas opiniões, eles […] não refletem dois pontos de vista
diferentes, mas duplicam uma única perspectiva” (PAREKH, 1981, p. 93)31.
Dessa maneira, podemos compreender que a pensadora nos chama atenção
para perceber a relevância de considerarmos a pluralidade nas relações e
organizações humana e escapar da homogeneização dos pontos de vista.
É a partir da articulação entre as diversidades que Arendt (2001)
afirma se originar o poder, pois ele é a potência garantida nos diálogos com
mais de um ponto de vista, que cheguem em um ponto comum conside-
rando a pluralidade. Ela é a geradora do poder de ação, pois representa a
capacidade humana de falar sobre os assuntos comuns, chegar a delibera-
ções e agir em conjunto. Nesse sentido, o poder e a política estão relacio-
nados, na visão da autora, com a liberdade, a cooperação e a ética. Eles se
manifestam no bem comum, na relação entre as pessoas e em considerar
diversidades para garantir a vida e a harmonia do ser humano com o ambi-
ente. Na concepção arendtiana, “ser livre e agir são a mesma coisa”
(ARENDT, 2001, p. 36). Logo, a política só existe onde o ser humano pos-
sui liberdade para utilizar de sua fala e ser ouvido. Por esta razão, a vincu-
lação com promessas, pactos e associações são os meios pelos quais o poder
de ação humana se mantém vivo e evidenciam o valor do diálogo.
Por conseguinte, assim como coloca Deleuze e Guattari (2011), a
linguagem não é apenas ação, mas sim uma ação coletiva, um agenciamento
coletivo de palavras de ordem, que determinam os processos de subjetiva-
ção. Ao perceber o caráter social da língua e a necessidade do contexto co-
letivo para a concretização do ato de fala, podemos observar claramente as
hierarquias e desigualdades, a legitimação da fala de alguns em detrimento
da fala de outros.
A partir desta perspectiva, Arendt nos auxilia a refletir como pensar
nas pessoas que não fazem parte de uma nação ou que passaram (ou pas-
sam) por tentativas de genocídio. Ao refletir sobre os direitos dessas pes-
soas, a pensadora nos alerta para esclarecimentos e distinções necessárias.
Por exemplo, o usufruto da nossa liberdade não se limita aos direitos civis
constitucionais e estes, por sua vez, não sendo amplamente acordados pela
31“If two individuals look at the world in basically the same way and hold identical
opinions, they […] do not reflect two different standpoints, but duplicate a single per-
spective” (PAREKH, 1981, p. 93).
49
sociedade em questão, não podem ser legítimos. Entretanto, para a pensa-
dora, é possível haver um direito relacionado ao poder e à política e este
gerar leis e princípios referentes à coletividade e ao bem comum. Dessa
maneira, Celso Lafer explica:
Por esta via podemos pensar o caso dos povos originários do Brasil,
que se encontram no território desde antes da colonização. A história
aponta para pretensões genocidas contínuas que perduram por mais de 500
anos, iniciadas com as invasões às terras em que habitavam e tentativas de
dominação de seu modo de viver por meio da exploração do trabalho, im-
posição religiosa e cultural. Com o passar dos anos, este genocídio tomou
diferentes facetas, se adaptando à cada contexto. Atualmente, por exemplo,
ele se dá devido à expansão dos grandes fazendeiros do agronegócio, donos
das produções de monoculturas extrativistas, e da não preservação de seus
territórios por parte do Estado.
Para os povos originários, como demonstra a filósofa indígena Cris-
tine Takuá, a luta pela manutenção desses territórios não é apenas para os
próprios povos indígenas, mas para que todos os seres visíveis e invisíveis
possam viver. Nessa cosmovisão, todos os seres interagem com o mundo
ao seu redor, ocupam espaços físicos e simbólicos e são considerados por-
tadores de possível comunicação, mas que não se limitam à maneira como
a cultura ocidental europeia concebe como dialogar. O ato de falar e ser
ouvido, considerando essa concepção, precisa se estender para além da no-
ção de humano. Nesse sentido, a pensadora questiona: “Quem está escu-
tando a paca, cotia, lontras, abelhas, as formigas, as sumaúmas e todos os
seres sagrados visíveis e invisíveis que estão vivendo dentro da floresta?”
(TAKUÁ, 2019, p. 104).
À vista da ampla dimensão comunicativa concebida nestas cosmo-
visões, não ouvir esses seres e os povos que com eles mantém trocas é um
50
modo de consentir com o sistema de dominação colonial. Este sistema é
marcado a partir da diferença corporal e cultural e elabora um discurso de
ódio, de negação da alteridade e de tudo que escapa à sua norma pré-esta-
belecida (machismo, racismo, individualismo e outros “ismos” produzidos
pela pretensão hegemônica). Ele domina, pois determina o que é o absoluto
e desconsidera o que está fora de sua determinação.
A escritora Grada Kilomba evidencia a ação colonial sobre os cor-
pos e propõe desnaturalizar as opressões e o silenciamento do sistema co-
lonial. Para pensar o silenciamento, Kilomba (2019) apresenta as problemá-
ticas estruturais, binárias e dicotômicas da língua portuguesa, bem como a
colonialidade atuante sobre os corpos e sobre o pensar na construção da
língua. Ela cita o exemplo do português que, além de possuir todas as cons-
truções de maneira binária, todas as generalizações “corretas” indicam ho-
mens, mais ainda, homens brancos32. Além disso, o pensar em português se
edifica na fratura fundamental entre sujeito e objeto, o eu e o outro, agen-
ciando ativamente as hierarquias coloniais.
Para os pensadores pós-estruturalistas Deleuze e Guattari (2011), a
língua e a linguagem não são apenas instrumentos comunicativos e infor-
mativos daquilo que já se encontra dado. Para eles, elas servem a formação
de mundo dos sujeitos, agem diretamente no mundo e forjam as subjetivi-
dades principalmente a partir de uma gramática dicotômica (masculino-fe-
minino, singular-plural, substantivo-verbo, sujeito do enunciado-sujeito de
enunciação, etc.). Nesse sentido, consideram que: “a linguagem não é
mesmo feita para que se acredite nela, mas para obedecer e fazer obedecer”
32 Essa relação entre o eu e o outro é revista por Kilomba (2019) a partir de termos
psicanalíticos, quando pensa em mecanismos de defesa do ego, preservação dos senti-
mentos positivos que se nutrem em relação a si, sendo o positivo associado ao “self”
e o negativo projetado sobre o “outro”. Desta forma, “a branquitude se consolida
como a parte "boa" do ego — enquanto as manifestações da parte "má" são projetadas
para o exterior e vistas como objetos externos e "ruins" (KILOMBA, 2019, p. 37). A
partir desse raciocínio monolítico e dicotômico, o outro será sempre um receptáculo
de projeções negativas, o pensamento assim elaborado é fixista e narcísico, requerer
negar qualquer outra possibilidade de conhecimento que não se adequa às suas delimi-
tações. Assim, o silenciamento age através da complexidade do processo de repressão,
sendo fundamentalmente opressivo e não dialógico.
51
(DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 7), de modo que “uma regra de gra-
mática é um marcador de poder, antes de ser um marcador sintático” (2011,
p. 8).
Portanto, a partir da reflexão desses autores, é evidente que o poder
de ação humana só ocorre de maneira ética quando está embasado no diá-
logo sem hierarquias e na pluralidade de saberes e suas expressões. No atual
momento, nos encontramos no contexto de urgência em ouvir, se atentar a
essa pluralidade para que seja possível fazer a manutenção da vida na Terra.
No próximo item, abordaremos sobre a marca da oralidade, da fala e escuta
nas cosmovisões ameríndias, com o objetivo de buscar referências até então
silenciadas para compreender outros meios de diálogo e interação entre os
seres viventes.
33 Arte da Palavra - Narrativas do atual, entre oralidades e escritas. Ailton Krenak, Eva-
nilton Gonçalves Gois da Cruz mediada por Veronica Stigger. Disponível em:
[Link] . Acesso em: 24/06/2021.
34 Como coloca Ailton Krenak, sobre ter suas palavras transformadas em escrita: “as-
sim, gravado em letrinhas, e talvez por eu ter mais uma experiência de oralidade, de
fala, e menos experiência de escrita, esse efeito da escrita sobre mim tem um impacto
grande” (KRENAK, 2015, p. 341).
52
quando esta alcança as mãos de jovens (indígenas ou não), pode auxiliar a
ler e significar o mundo. Krenak compartilha a ideia de que “a literatura não
tem que ser escrita” ([Link]) e diz ainda que “a verdade é que tem muitas
outras narrativas além da escrita” ([Link]). A oralidade indígena possibilita
a atualização dos saberes ancestrais. A exemplo disso, podemos pensar no
movimento de midiatização dos saberes que possibilitou, no ano de 2021,
a produção de uma biblioteca das oralidades de Krenak35 sobre as formas
de ser e estar no mundo na contemporaneidade.
Na cosmovisão dos povos originários do Brasil, a fala é o meio
principal pelo qual o conhecimento se passa (SILVA, 2000). Dessa maneira,
os momentos em que os mais velhos contam histórias para os mais novos
são fundamentais para aprender os saberes milenares destes povos. Dentre
as histórias, existem os mitos. Mitos são narrativas orais consideradas fun-
damentais para um povo ou grupo social e que formam conjuntos de his-
tórias dedicados a contar peripécias dos ancestrais que vivem desde o início
dos tempos, quando tudo foi criado e o mundo ordenado36.
Desde os tempos coloniais, os Guarani são considerados não só
como guerreiros, mas também como povos ‘senhores das palavras’ – de
seus mitos e cantos inspirados nos Karaí, seus xamãs proféticos e messiâni-
cos. Nesse sentido, para esse povo, “a palavra é o todo e o todo é palavra”
(MELIÀ, 2006, p. 202). Portanto, nos mitos de criação e destruição do
mundo37, tem-se a palavra como fundamento, a dança e a oração como
sacramento.
53
Por conseguinte, a diferença entre os mitos de origem grega e os
mitos cosmogônicos é que nós descartamos o mito como referência à nossa
realidade. No entanto, nas cosmovisões ameríndias, os mitos se mantêm
como referência para a vida ordinária e são compreendidos como um modo
contemporâneo de elaborar o mundo. Isto, pois, para esses povos, os mitos
imprimem diretamente na sociedade o modo de viver e de pensar, “orien-
tam, dão sentido, permitem interpretar acontecimentos e ponderar deci-
sões” (SILVA, 2000, p. 75).
De acordo com Krenak (2017), no tempo mítico não existe “res-
posta certa”, visto que a necessidade de certeza se limita à metodologia co-
lonial de pensar e produz monocultura, necrosa a existência em sua ilimi-
tada produção de mesmice. Como demonstra Krenak, essa angústia da cer-
teza contida no âmago no pensamento moderno/colonial não existe no
universo dos mitos. Nele, não precisamos ter certeza. Por serem incertos,
essa concepção ampla de significação ultrapassa a linearidade temporal e,
por isso, os mitos são, em sua plenitude, desafiadores de entender. Para
elaborar alguns de seus sentidos, é preciso considerar os contextos socio-
culturais, que são as referências da reflexão contida em cada mito.
Para além das complexas narrativas, podemos pensar também na
agência das artes verbais entre os xamãs. Nesse sentido, Cezarino apresenta
o contexto ritual de transmissão das palavras: “o conjunto de fórmulas que
transita pelos modos de suas artes verbais (os cantos de cura shõki, as nar-
rativas cantadas saiti e os cantos pessoais iniki, entre outros)” (CEZARINO,
2013, p. 440). Além do conteúdo do mito, a forma de contá-lo ou cantá-lo
também compõe a complexidade desse saber. Sendo assim, quem conta,
quando, a situação, a modulação da voz, as repetições, o ouvinte, a narra-
dora, e todos compõem um sentido na narrativa, que são expressos através
da linguagem simbólica da dramaturgia nos rituais. Desse modo, proporci-
onam um reencontro possível com outra dimensão temporal por meio da
reunião para se ouvir os mitos. Assim, pode-se compreender que os mitos
evidenciam como a cultura é viva e pode conduzir as ações do presente
(SILVA, 2000).
54
A partir dessa reflexão, podemos perceber que a cultura e a lingua-
gem são vivas e seguem constantemente se modificando, a cada instante ela
pode sofrer variações. Nesta perspectiva, a oralidade permite um modo flu-
ido de expressar saberes, que não se pretende fixo ou absoluto. O tempo
do mito escapa a qualquer tentativa de fixá-lo. Por um lado, a esfera da
oralidade é intransponível e continuamente se atualiza no tempo presente.
Por outro, uma sociedade que não é capaz de escutar os povos que mantêm
vivas suas ancestralidades reproduz o silenciamento e a dominação, bem
como apresenta dificuldade em formular novas ideias para pensar um novo
mundo e responder eticamente a crise existencial que estamos vivenciando.
Como foi evidenciado, estes conhecimentos indígenas carregam a
marca de uma distorção inevitável causada pela constante tentativa de apa-
gamento de suas formas de saberes, que possui o objetivo de privilegiar o
modo ocidental como o único modelo de agir no mundo. Nesse sentido,
Ndlovu destaca que existem muitas definições para a ideia de conhecimento
indígena e o que é necessário compreender “é que nenhum deles é objetivo
porque a ideia de objetividade é em si um dos mais poderosos mitos do
século XXI” (NDLOVU, 2017, p. 138). Esta observação, para a autora, é
um passo inicial para uma noção de conhecimento indígena que se estabe-
leça para além das classificações coloniais do poder.
Desse modo, reconhecer a oralidade enquanto amplo espaço de
produção de saberes e de criação de mundo é uma das maneiras de aprender
a resistir à dominação colonial. Para além, as cosmovisões indígenas am-
pliam suas possibilidades relacionais ao considerarem igualmente os saberes
não-humanos. Portanto, estes saberes milenares podem indicar um cami-
nho para a desconstrução da noção de um “Universal Verdadeiro” e uma
abertura à pluralidade.
CONCLUSÃO
55
respeito ao bem comum e aos modos de viver no mundo. Com isso, bus-
camos aprender outras formas de dialogar, pensar e agir num mundo que
se encontra doente e precisa de ser nutrido com mais organicidade e espon-
taneidade.
REFERÊNCIAS
KRENAK, Ailton. A vida não é útil. São Paulo: Companhia das Letras,
2020.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Editora
Companhia das Letras, 2019.
56
NDLOVU. Morgan. Por que saberes indígenas no século XXI? Episte-
mologias do Sul. Foz do Iguaçu, Paraná 1, (1), p. 127- 144, 2017.
PAREKH, Bhikhu. Hannah Arendt & the search for a new political phi-
losophy. Londres: The Macmillan Press, 1981.
SILVA, Aracy Lopes da. Mitos e cosmologias indígenas no Brasil: breve in-
trodução. In: GRUPIONI, Luís Donisete. Índios no Brasil. São Paulo: Glo-
bal/MEC, 2000, p. 75-82.
57
CAPÍTULO 6
Retomada Ancestral:
o território sendo ressignificado
Thaís dos Santos Leite38
RESUMO
ENSAIO
58
Introduzido ao mundo acadêmico pelo antropólogo Eduardo Vi-
veiros de Castro, o líder indígena Aílton Krenak, em Ideias para adiar o fim do
mundo (2018), explica que as civilizações ameríndias já sofrem uma espécie
de “fim do mundo” desde o período da invasão dos europeus ao território
em 1500, instituindo práticas violentas de dominação física e cultural dos
povos nativos. Com o passar dos séculos, o paradigma cartesiano da mo-
dernidade intensificou a separação desses povos das florestas, transfor-
mando-os em mão de obra barata nos grandes centros urbanos. Desde o
início do século XX, a Revolução Industrial vem provocando profundas
mudanças na sensibilidade humana, tal como a aceleração do ritmo da vida,
grande parte em função dos artefatos tecnológicos e mudanças nas relações
de trabalho. Nesses novos contextos, apartados dos meios tradicionais de
subsistência, as populações nativas necessitam cada vez mais de “produtos
de mercado” para sobreviverem nos ambientes modernos.
Para muitos povos que mantêm vivas suas culturas originárias no
Brasil, distintas espécies vegetais, animais, minerais, montanhas e rios são
considerados como “pessoas da família”, seres dotados de espírito, em uma
perspectiva de unidade e horizontalidade entre entes da natureza. Em con-
traste, para a ótica capitalista hegemônica, essas entidades são classificadas
apenas como meros recursos naturais para atender aos desejos de consumo
e rapidamente são transformados em acúmulo de resíduos no ar, na água e
no solo. Além dos perceptíveis danos ambientais, Aílton Krenak explica
que há uma perda de sentido de existência, uma crise comunitária, em que
se torna corriqueiro não reconhecer e não cooperar para a propagação da
vida humana, que necessita das outras formas de vida na Terra para sua
sobrevivência, daí a ocorrência do Antropoceno. Sendo o Antropoceno um
conceito proposto, pela primeira vez, pelo químico holandês Paul Crutzen,
em 1995, que caracteriza a era geológica em que a humanidade tem causado
impacto global no clima da Terra e no funcionamento dos seus ecossiste-
mas, tendendo ao desaparecimento da própria espécie39. Como o próprio
título do livro Ideias para adiar o fim do mundo sugere, Krenak, seguindo a
tradição do seu povo originário, propõe a instituição do sonho como um
exercício para buscar orientações para novas escolhas, a desestabilização de
59
padrões de existência e práticas cotidianas que reconectem as subjetividades
na prática comunitária.
Em sentido convergente, o filósofo e psicanalista Felix Guattari, em
As Três Ecologias (1990), critica a abordagem unicamente tecnocrática das
ciências modernas a respeito dos perigos que ameaçam o meio ambiente e
a sociedade como um todo e defende uma articulação ético-política, a qual
denomina ecosofia, entre os três registros ecológicos: meio ambiente, rela-
ções sociais e subjetividade humana para esclarecer convenientemente tais
questões.
60
e hereges. Historiadores locais registram que no século XIX os índios Ka-
ingangues que ocupavam as áreas montanhosas da Região Sul do Brasil fo-
ram dizimados violentamente por ação de matadores de indígenas chama-
dos de “bugreiros”. Estes haviam sido contratados pelo Estado Brasileiro
para abrir espaço para a instalação de imigrantes europeus na região.
Quanto mais cruéis em seus ataques, mais condecorações recebiam.
Meus avós maternos e paternos visivelmente apresentam ancestra-
lidades africanas e indígenas e mantêm algumas das práticas dessas culturas
em seus cotidianos, ainda que vistos com estranhamento pela vizinhança de
origem europeia. Tanto as experiências vivenciadas, quanto a busca por re-
tomar uma lacuna apagada pela modernidade me motivaram a uma propo-
sição artística, realizada em julho de 2021, que consistiu em: 1. Retomada
do território a partir de uma cartografia atual de percursos ancestrais 2.
Apropriação simbólica, através de uma caminhada performática 3. Com-
partilhamento de registros a partir de uma página na web. Nesse sentido
proponho práticas artísticas heterotópicas, sendo a heterotopia (hétero, ou-
tro e topia, espaço) um conceito desenvolvido pelo filósofo Michel Fou-
cault no texto Outros espaços (1967), que diz respeito aos espaços das alteri-
dades, que são simultaneamente físicos e mentais, tal como o momento em
que alguém se vê ao espelho. Para o autor, a heterotopia por excelência é o
navio. “A maior reserva de imaginação do séc. XVI”. Portanto, a heteroto-
pia descreve espaços que têm múltiplas camadas de significação ou de rela-
ções a outros lugares e cuja complexidade não pode ser vista imediatamente.
Em minha experiência de infância, tive muita afinidade com minha
avó materna, ainda viva, e com quem mantenho contato próximo atual-
mente. Minha avó era um pouco diferente das outras avós. Ela me ensinava
a dançar, levava eu e minhas primas para acampar e experimentar uma
maior conexão com a terra, contava muitas histórias, fazia benzimentos,
conversava com as plantas, na maioria das vezes, era quem resolvia os pro-
blemas da família e ainda ajudava as pessoas que a procuravam, enfim, nossa
matriarca. Cresci tendo ela como minha grande referência de vida. De certa
forma esse universo em que ela nos envolveu era um pouco avesso ao de
outras crianças com quem convivia na escola e até mesmo das referências
midiáticas. No próprio site oficial da cidade há uma apresentação atual que
descreve: “Hoje, Caxias do Sul é fruto da garra e da determinação herdadas
dos imigrantes com a contribuição de outras culturas que foram abraçadas
61
pelo povo, como a tradição gaúcha”40. Nas histórias da minha família, pelo
contrário, não havia a dinâmica cultural originada pelos imigrantes italianos.
Minha avó nos contava que éramos bugres41, mas as referências a essa he-
rança eram muito escassas nos meios oficiais. O que aprendíamos nos che-
gava de forma oral. Esses fatos me causavam certa inquietação e naquele
momento, talvez, eu não me identificasse muito bem, mas havia comigo
uma grande necessidade de buscar novos horizontes, de vivenciar outros
territórios, uma necessidade de nomadismo. Por quase dez anos vivi em
Porto Alegre, cidade metropolitana em que tive acesso à formação pública
superior em arte e que viabilizou encontros com outros artistas que questi-
onam as hegemônicas narrativas coloniais.
Assim como o campo dos bugres, foi e continua sendo local de
passagem para diferentes tribos indígenas nômades, retomo essas andanças
na proposição performática que denomino Retomada Ancestral. Nesse mo-
mento, diferente de outras propostas em que a performance aconteceu em
grupos de artistas, realizei-a em solitude. Certamente, observo em meu pro-
cesso, uma recorrente configuração de matilha, pois o diálogo coletivo me
convoca a pensar e produzir questionamentos, além de proporcionar maior
segurança para a ocupação artística. Ainda que eu siga reconfigurando no-
vas redes profissionais e ativistas nas áreas em que atuo, as motivações pes-
soais dessa performance me impulsionaram a desenvolvê-la em meditação.
Em diálogo com o público, ponderou-se que tal ação poderia ser denomi-
nada apenas como caminhada ou “peregrinação”, no entanto, assumi o uso
da palavra performance como forma de ancorar a minha perspectiva artís-
tica articulada com a pesquisa que já venho desenvolvendo há pelo menos
uma década.
Observo que caminhar é considerado por muitas pessoas como
uma “perda de tempo”, por isso, evita-se essa prática no meio urbano. Para
62
mim, caminhar é algo instintivo, e procuro cotidianamente fazer alguns tra-
jetos em compromissos diários de médias distâncias. Em diversos momen-
tos da minha vida também senti a necessidade de percorrer distâncias mai-
ores, com amigos ou sozinha. Para além de atender a demanda de chegar a
algum lugar, me proporciona um estado de contemplação meditativa diante
das paisagens, ao observar minuciosos acontecimentos entre os passantes
ou simplesmente sentir o ar vibrando ao redor. Em um segundo momento,
refleti sobre o trajeto a percorrer. Como a relação com os meus ancestrais
foi um dos elementos disparadores para essa performance, percebi que de-
veria partir da casa dos meus avós maternos, mais precisamente do porão
em alusão metafórica ao inconsciente que permeia tantas escolhas intuitivas.
Passei grande parte da minha infância e da minha juventude na casa dos
meus avós. Meu avô conta que seus familiares vieram do município pró-
ximo: Vacaria. Mesmo ele já tendo nascido nessa cidade, só foi habitar o
atual endereço em 1940, aos dois anos de idade, antes moravam em casa
alugada. Minha mãe e meus tios também viveram a infância ali. Vi a casa e
a vizinhança se reconfigurarem várias vezes. Hoje ela é cerceada por con-
domínios verticais, localizada no centro urbano da cidade, absorvendo o
pouco que restou da incidência dos raios solares.
Parti desse local em direção ao litoral norte, região onde atualmente
meus avós eventualmente passam o tempo. A ideia era seguir nessa direção,
tendo como final do percurso, a casa de campo de uma das amigas mais
antigas da minha avó, no município de Apanhador. A escolha em parar
neste local se deu em virtude do reconhecimento por essa amiga ter acom-
panhado e partilhado muitos desafios na criação dos filhos e fortalecimen-
tos das culturas nativas das famílias, considero ambas como matriarcas. Ao
total seriam 36 Km, uma média de sete horas e meia de caminhada. Nesse
percurso, além de algumas avenidas centrais, seguiria duas rodovias princi-
pais: a BR-116, e a Rota do Sol. Ao seguir em caminhada até o início da
Rota do Sol, minha percepção estava aberta aos múltiplos estímulos visuais
criados no meio urbano: casas, pontos de referência comerciais, placas pu-
blicitárias, pixos e elementos orgânicos nativos adaptados à realidade do
asfalto. À medida que seguia a Rota do Sol, o fluxo de pessoas diminuía, os
estímulos visuais “fabricados” e as edificações iam ficando para trás. Certa-
mente os campos também sofreram com a ação humana, florestas foram
desmatadas, para dar lugar às pastagens e plantações. Segui em caminhada
63
na BR-116, pelo canteiro central e a partir da Rota do Sol, entre a estrada e
os campos, em um estreito acostamento.
Na Rota do Sol, a velocidade dos automóveis aumentava e as cargas
transportadas aparentavam ser mais robustas. Aos poucos ia percebendo
falhas no asfalto, caminhões de sobrecarga em altas velocidades desviando
de buracos. O acostamento se apresentava como lugar arriscado. Encontrei
também alguns cães, gatos e até um pássaro morto pelo caminho. Desde a
concepção dessa performance, havia me conscientizando dos riscos imi-
nentes ao passo que pensava estratégias para lidar com as situações. Levei
comigo água e um telemóvel smart para fazer registros, verificar localização
e me comunicar. À medida que ia me afastando dos locais de maior movi-
mento, ia atualizando minha localização à minha irmã. Combinei de encon-
trá-la após às treze horas para que também fizesse alguns registros da minha
caminhada. O risco de ser abordada por “ser mulher em uma caminhada
atípica” também poderia oferecer alguma complicação e para isso também
contei com o apoio de comunicação com minha irmã, que poderia me en-
contrar rapidamente por estar alerta com o automóvel. Apesar dos riscos,
estava confiante de que faria um percurso tranquilo. O Sol estava radiante
em meio ao inverno sulista. Ao longo do trajeto também encontrei alguns
grupos de ciclistas que, a meu ver, tornavam a paisagem um pouco mais
humanizada, se comparada à presença massiva dos veículos automotivos a
altas velocidades.
Aos poucos ia aproveitando o momento para contemplar as paisa-
gens, desacelerar o pensamento e entrar em processo meditativo, sem tentar
racionalizar cada passo, apenas seguir em um ritmo agradável. Quando me
proponho a percorrer novas rotas, percebo um desafio instigante, surpresas
e admirações com o que vêm. Além de contemplar fora, contemplo a mim
mesma. Fiz alguns registros de pontos que instigaram a minha curiosidade,
no entanto, procurei não fazer grandes pausas. Em minha camiseta escrevi
palavras que se conectam ao propósito da ação: “ninguém pode capturar as
almas do nosso povo” (frente), “já que elas não temem a morte” (verso).
Conheci essa frase através da sabedoria do caminho sagrado associada a
rituais xamânicos ameríndios. Nesse sentido é como se a arte performática
viesse na contramão da velocidade do desenvolvimentismo neoliberal, não
no sentido de negar as tecnologias, mas de se aliar a elas para o comparti-
64
lhamento das sensibilidades. Como propõe o proeminente geógrafo brasi-
leiro Milton Santos (Bahia, 1926-2001) defensor do caráter social do espaço
em seu texto Elogio à lentidão:
65
de dados de internet. Portanto, para a publicação dos registros dessa per-
formance optei por algumas imagens: um mapa desenhado à mão, digitali-
zado e editado, imagens captadas por mim durante o percurso, imagens
captadas pela minha irmã durante a ação e textos poéticos que abordam
temas que motivaram a performance ou foram processados durante a
mesma.
A referida ação desdobrou-se em um momento político em que as
ciências de um modo geral, principalmente as humanas e as artes têm so-
frido com o corte de investimentos, além de profundo descaso governa-
mental quanto ao acervo cultural e científico adquiridos até o momento.
Entre esses e outros fatores optei por hospedar a página na modalidade de
um blog “gratuito” vinculado ao Google, uma empresa estadunidense multi-
nacional de serviços online e softwares. Segundo o portal Canaltech43, a empresa
foi fundada por Larry Page e Sergey Brin (1998) e tem como missão “orga-
nizar a informação mundial e torná-la universalmente acessível e útil”. Ela
hospeda e desenvolve uma série de serviços e produtos baseados na internet
e gera lucro, principalmente, por meio da publicidade.
Ao produzir a ação e compartilhar sensações, percebo a potência
de me envolver em uma heterotopia ativa, como bem pontua Foucault em
Outros Espaços:
O espelho é, afinal de contas, uma utopia, uma vez que é um lugar sem
lugar algum. No espelho, vejo-me ali onde não estou, num espaço irreal,
virtual, que está aberto do lado de lá da superfície; estou além, ali onde
não estou, sou uma sombra que me dá visibilidade de mim mesmo, que
me permite ver-me ali onde sou ausente. Assim é a utopia do espelho.
Mas é também uma heterotopia, uma vez que o espelho existe na reali-
dade, e exerce um tipo de contra-ação à posição que eu ocupo (FOU-
CAUL, 1967. p. 3).
43 Disponível em:
[Link]
gle%20%C3%A9%20uma%20empresa,meio%20da%20publici-
dade%20pelo%20AdWords .
66
bem se acomodar aos padrões já estabelecidos e não causar desconforto
àqueles que de alguma forma se beneficiaram com o passado sangrento e
se incomodaram com políticas reparatórias como as ações afirmativas. No
entanto, percebo que me posicionar diante dos fatos gera uma zona de in-
tensidades de vir a ser minoritário, de individuação e ser fluente que cria
linhas de fuga desviantes dos padrões estabelecidos.
O artista dedicado ao teatro, Antonin Artaud, cria a expressão
corpo sem órgãos com a qual propôs a subversão dos órgãos, enquanto
utilidade e a sua organização, através de uma prática instaurada pelo próprio
desejo, entendendo o desejo não como uma falta de algo, mas como uma
zona de intensidades para as sensações, agenciamentos que se ramificam no
desejo, asseguram conexões contínuas, correspondem às ligações transver-
sais.
Percebo a Retomada Ancestral como um acontecimento de um corpo
sem órgãos, que segue se refazendo, experimentando e evitando a estagna-
ção. Um corpo que assume os riscos e as infinitas possibilidades de devir
em um plano de consistência virtualmente amplo. Para além do curto e in-
tenso espaço de tempo em que se deu a pesquisa de mestrado, sigo relacio-
nando experimentações atuais com um repertório já vivenciado, bem como
apontar para novas possibilidades imanentes ao processo.
REFERÊNCIAS:
KRENAK; Aílton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo. Compa-
nhia das Letras, 2019.
67
DOCUMENTOS ELETRÔNICOS:
68
CAPÍTULO 7
A Constituição de 1988 ainda existe? Um realinhamento de
promessas neoliberais a partir do constitucionalismo
dirigente invertido
Loiane da Ponte Souza Prado Verbicaro44
Paulo Henrique Araújo da Silva45
RESUMO
69
se fragilizada demais para cumprir a sua promessa pela redução das desi-
gualdades sociais.
INTRODUÇÃO
70
própria globalização e as reivindicações de mercado tão caras ao neolibera-
lismo, de redirecionar e alterar os compromissos consagrados no pacto
constituinte.
A hipótese a ser trabalhada nessa discussão é a de que a Constitui-
ção brasileira, após tantas alterações, encontra-se fragilizada demais para
cumprir a sua promessa pela redução das desigualdades sociais.
71
Por outro lado, um pouco antes naquele mesmo ano, foi adotada a Con-
venção Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, que pas-
sou a determinar obrigações positivas dos Estados pela redução das desi-
gualdades, esta que, por outro lado, teve suas normas consideradas como
programáticas (ou progressivas, na literalidade do art. 2º da Convenção), o
que acaba por dilatar no tempo o seu efetivo cumprimento (VIEIRA, 1999,
p. 32).
Esse mesmo sistema foi reproduzido pelo Sistema Interamericano de
Direitos Humanos. Com a criação da Comissão Interamericana em 1959 e da
Convenção Americana de Direitos Humanos em 1969 (com entrada em
vigor em 1978), os direitos civis e políticos, essencialmente individuais, fo-
ram tidos como eficácia imediata, enquanto que os direitos sociais e econô-
micos foram classificados como progressivos ou programáticos, nos termos
do artigo 26 da Convenção Americana. Na forma da Corte Interamericana de
Direitos Humanos, para os Estados que aceitam a sua jurisdição, ocorre a pos-
sibilidade de revisão judicial dos ordenamentos jurídicos nacionais em face
da Convenção, além de que a estabilização dos regimes democráticos evi-
dencia uma maior integração entre as normas da Convenção e as respectivas
Constituições americanas (VIEIRA, 1999, p. 34-35).
Assim, agora na atual forma do Direito Internacional dos Direitos
Humanos, evidencia-se o fenômeno dialógico do realinhamento constituci-
onal, dada a capacidade desses sistemas internacionais de direitos de repro-
duzirem, nos termos bastante específicos das Convenções as quais os Esta-
dos são signatários, do modelo vinculante das normas constitucionais, ou
seja, a internacionalização do Direito Constitucional no que tange a parâ-
metros de Direitos Humanos nas relações entre as nações e no controle
internacional das ações dos Estados. Além disso, o Direito Internacional
passa, simultaneamente, a influenciar as várias Constituições nacionais do
fim do século XX, de modo que a experiência americana demonstra que o
realinhamento constitucional amplia a eficácia dos sistemas de proteção de
Direitos Humanos, por mais que reproduza, em ambas as esferas, a contra-
dição entre avanços significativos dos direitos civis e a exclusão material das
reivindicações de ordem econômica e social, fenômeno que possibilita a
ampliação da globalização econômica, que ataca justamente esse segundo
grupo de direitos (VIEIRA, 1999, p. 37-38).
72
O impacto do neoliberalismo48 no constitucionalismo contemporâ-
neo é chamado de globalização econômica. Ao contrário da perspectiva de
fortalecimento de direitos vista no cosmopolitismo ético, esse fenômeno
consiste em uma série de reformas político-econômicas que visam lançar os
países em um cenário de competição internacional em que o sucesso nessa
disputa é determinado pela supressão das conquistas sociais em nome da
ampliação de políticas monetárias, medidas que apresentaram efeitos mais
graves em países como o Brasil, em que a desigualdade é latente. Além
disso, a política neoliberal entra em choque com a escolha política da Cons-
tituição de 1988, marcada pelas obrigações positivas do Estado para com a
desigualdade social, o que demanda controle estatal da economia na forma
de órgãos públicos e agentes econômicos diretos (VIEIRA, 1999, p. 39).
Em um momento de declínio do keynesianismo no fim da década
de 1970, momento em que a crise do petróleo resultou na combinação de
alta inflação (aumento significativo dos preços) e de desemprego elevado,
iniciando a era da estagflação (redução ou crescimento nulo do PIB dos
países) (NUNES, 2003, p. 426), o neoliberalismo passa a ser aplicado pelos
Estados nacionais na forma da financeirização do Estado de Direito49 e de
políticas que incentivam a redução do Estado Social por meio da privatiza-
ção e da financeirização das políticas públicas.
Partindo da compreensão de que o caráter distributivo da política
pública é um atentado à liberdade individual prevista nas constituições, o
48
O neoliberalismo é compreendido aqui como uma racionalidade política que eviden-
cia um estágio capitalista que está “para além de uma política econômica e do fortale-
cimento do capital”, consolidando os princípios econômicos como norteadores das
ações e institutos estatais. As políticas neoliberais são amplamente associadas, dentre
várias outras, às medidas de privatização dos serviços públicos e processos de flexibi-
lização, deslegalização e precarização dos Direitos Sociais (BROWN, 2019, p. 28-31).
49
No Estado neoliberal, a vontade política não é mais exprimida pela democracia, mas
sim por uma tecnocracia com a expertise política e econômica necessárias a assegurar
um Estado comprometido unicamente com a busca da liberdade necessária à busca
dos fins individuais, atingidos unicamente pela via econômica (BROWN, 2019, p. 98-
101). Ademais, a intervenção neoliberal na democracia consiste na fragmentação do
sistema democrático em seu aspecto formal, na forma do procedimento democrático,
e, no seu aspecto material, representado pelos compromissos com os Direitos Huma-
nos inerentes ao regime democrático. Desse modo, o neoliberalismo desmonta a de-
mocracia e usa a estrutura do regime para efetivar um projeto de poder (BROWN,
2015, p. 35-41).
73
Estado não é responsável por questões de justiça social, mas sim por garan-
tir que o Direito seja cumprido, aqui já em uma perspectiva de que a lei
possui a função de garantir a existência do mercado (FRIEDMAN, 2014,
p. 199-204).
O método neoliberal de solução de crises defendido pelo Consenso
de Washington e as instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI)
e o Banco Mundial sustentam que os países, em especial as nações em de-
senvolvimento, devem limitar o seu aspecto intervencionista e regulador em
nome da austeridade fiscal, promovendo o equilíbrio orçamentário e a es-
tabilidade financeira dos Estados. Essa medida, que cria condições propí-
cias para a expansão do mercado global, possibilita a abertura das econo-
mias internas dos países em desenvolvimento para as multi e transnacionais,
de modo que as reformas pautadas na retração das políticas sociais são le-
gitimadas sob uma retórica de desenvolvimento econômico como garanti-
dor da prosperidade (OLIVEIRA, 2010, p. 175-176).
50
Enquanto o Direito Financeiro define como serão gerenciadas as finanças estatais,
ou seja, as formas de captação e gerenciamento das receitas estatais para a aplicação
em suas despesas, o Direito Econômico é o campo que atua na regulação do modo de
produção capitalista enquanto forma de produção de riquezas de um país. Nesse sen-
tido, partindo da premissa de que o capitalismo explora indiscriminadamente visando
o lucro, esse campo jurídico trabalha para que a lógica do mercado, essencialmente
individual e meritocrata, não comprometa os objetivos constitucionais de igualdade
material e de mitigação das desigualdades.
74
moldes de um Estado Social. Influenciada pelo neoliberalismo, a Constitui-
ção dirigente invertida sustenta a separação da economia e das finanças pú-
blicas, a abstenção do Estado em domínio econômico e uma pretensa neu-
tralidade financeira, materializada na forma da expansão da Constituição
Financeira e no esvaziamento, formal ou material da Constituição Econô-
mica (BERCOVICI; MASSONETO, 2006, p. 58-59).
A Constituição Financeira inscrita na Carta Magna de 1988 está en-
volta ao contexto da persecução por um maior controle e transparência dos
gastos públicos. Nessa perspectiva, a Constituição brasileira assegura, em
seu art. 165, o Plano Plurianual (PPA), a Lei de Diretrizes Orçamentárias
(LDO) e a Lei Orçamentária Anual (LOA), estas que abarcam não só o
Orçamento da União, mas também os Orçamentos Fiscal, Monetário, da
Previdência Social e das Empresas Estatais. Esse processo choca-se com as
medidas tomadas ao longo da década de 1990 com a privatização dos ban-
cos estaduais e a consolidação da atividade monetária no Banco Central,
culminando, nos anos 2000, com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LC nº
101/2000), estas que representam que todo o ideal dirigente da Carta Magna
de 1988, que a Constituição Financeira deveria dar suporte, esgotou-se no
controle dos gastos públicos. Em outras palavras, a prática constitucional
consolidou a Constituição Financeira como de lógica monetária neutra, me-
ramente processual e totalmente separada dos compromissos sociais assu-
midos pela Constituição Econômica, o que resulta em um intervencionismo
estatal na economia bastante limitado e a conversão das normas sociais e
econômicas, que determinam obrigações positivas ao Estado inclusive em
âmbito econômico, em essencialmente programáticas, não imediatamente
concretizáveis, bloqueando a efetividade completa da Constituição (BER-
COVICI; MASSONETO, 2006, p. 63-67).
O orçamento público, nesse cenário, abandona a função precípua
atribuída constitucionalmente de garantir direitos, individuais e sociais, e de
prestar serviços públicos para a maioria da população. Motivado pela ne-
cessidade neoliberal de garantir a remuneração e a sobrevivência do próprio
capital, o orçamento público volta-se, no constitucionalismo dirigente in-
vertido, à garantia econômica e jurídica do capital privado, alocando os re-
cursos estatais para a acumulação em esfera financeira. Em países como o
Brasil, que assumem o constitucionalismo dirigente como forma de alterar
significativamente a realidade social, essa mudança na função do orçamento
75
significa subordinar as políticas públicas à estabilização monetária. Ade-
mais, a pretensão de mera tecnicidade dos instrumentos financeiros atende
ao interesse de excluir o orçamento da esfera de deliberação pública, tor-
nando as políticas monetárias brasileiras ainda mais permeáveis aos interes-
ses privados das elites e das demandas externas do capital global, dimi-
nuindo os riscos de se investir no Brasil às custas das ordens econômica e
social da Constituição.
Assim, no caso das nações em desenvolvimento, a entrada das me-
didas neoliberais atende à globalização econômica, ou seja, a uma necessi-
dade de adaptação dos ordenamentos jurídicos nacionais às expectativas
dos detentores da riqueza mundial. Ademais, o caso brasileiro apresenta
ainda a peculiaridade do perfil da Carta Magna de 1988, uma constituição
rígida que expandiu sua margem jurídica para temas antes deixados para a
legislação ordinária como forma de vincular a atuação dos futuros gover-
nantes do país.
Isso não viria a ser um problema se a escolha política de eferves-
cência democrática fosse o único objetivo da Constituição, quando, em ver-
dade, a Constituinte de 1987-1988 é reflexo de um compromisso maximi-
zador em que um processo de barganha foi feito para que cada setor orga-
nizado tivesse os seus interesses constitucionalizados, o que impede que a
Constituição tenha um único viés (VIEIRA, 1999, p. 40-41). A combinação
entre rigidez constitucional e uma longa lista de assuntos constitucionaliza-
dos resulta em um texto de propósitos conflitantes e que envelhece rapida-
mente, o que provoca o seu constante emendamento, alterações essas que,
com o vácuo entre finanças e economia deixado pelos conflitos internos ao
texto, abriu oportunidade para que os ditames neoliberais fossem incorpo-
rados na forma de emendas que alteram o supostamente neutro orça-
mento51.
51
Longe de ser o argumento final, porém um sinal dessa tendência de alterações no
orçamento como forma de alteração da vontade constitucional pode ser demonstrado
a partir do estudo empírico realizado por Antônio Moreira Maués (2020, p. 13-21). Na
oportunidade, o autor divide as emendas constitucionais aprovadas entre 1992 e 2017
pela preponderância de determinados títulos da Constituição, classificando-as em cinco
grupos: Direitos Fundamentais (Título II), Organização e Defesa do Estado (Títulos
III e V), Organização dos Poderes (Título IV), Tributação e Orçamento (Título VI),
Ordem Econômica (Título VII) e Ordem Social (Título VIII). O resultado foi bastante
expressivo: das 99 emendas constitucionais aprovadas durante um período de mais de
76
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
77
BERCOVICI, Gilberto; MASSONETO, Luís Fernando. A Constituição Di-
rigente Invertida: a blindagem da Constituição Financeira e a agonia da Cons-
tituição Econômica. Boletim de Ciências Econômicas, Coimbra, v. 49, p.
57-77, 2006.
78
CAPÍTULO 8
O encantamento no samba:
o encanto de Cartola com a “Tristeza”
Jeferson da Costa Vaz52
RESUMO
52
Doutorando do PPGF-PUCPR (stricto sensu). Mestre em Filosofia pelo PPGF-
PUCPR.
E-mail: jeferson.2004_@[Link]
53
Escrevo esse artigo na primeira pessoa do plural porque sinto que não o escrevo
sozinho. Este artigo é fruto de vivências com meus amigos dos coletivos Samba do
Sindicatis (PR), Glória ao Samba (SP), Terreiro de Mauá (SP) e Terra Brasileira (SP).
Além disso, há também a vivência com as pessoas envolvidas com o Instituto de Filo-
sofia Africana (IFA), com que tenho dialogado nas minhas pesquisas.
79
filosofia com um objeto preciso, dado. O objeto dessa atitude filosófica é a
própria atitude que faz do objeto algo capaz de ser pensado filosoficamente.
Podemos considerar que a filosofia pode se debruçar sobre a existência,
perguntando sobre o que ela é e como a existência se expressa. Também
poderia ser uma pergunta pelo ente, por aquilo que existe no mundo con-
creto. Mas, nem ente, nem existência podem ser objeto de apreensão des-
colados de algo que se coloca no proscênio disso tudo e que molda a forma
na qual é possível se expressar acerca do ente ou daquilo que existe. Para
tratar disso que se coloca no proscênio, Eduardo Oliveira (2003) usou o
conceito forma cultural. A forma cultural, não é um ente, mas possibilita-nos a
dizer sobre o ente, a expressar sobre o que existe. Ao estar junto de uma
atitude de criação, e não de apreensão meramente, a expressão sobre o ente
se faz fruto do encantamento. Assim nos explicou Oliveira (2003, p. 05) em
artigo Filosofia do Encantamento:
80
dá-se no interior de uma forma cultural, desde um contexto [...]”. É um
olhar que cria mundos, permite existências e re-existências outras para além
daquilo que já é considerado como existente. É ir além de conceitos estan-
ques para perceber as diversas vivências. A atitude do encantamento não
pretende colocar o mundo em inércia, mas escolhe se mover conforme o
movimento e o devir do mundo. A forma de sentir e vivenciar é outra, por
isso a criação faz parte incontornável da filosofia do encantamento. Edu-
ardo Oliveira (2003, p. 05) afirma o seguinte:
O olhar encantado não cria o mundo das coisas. O mundo das coisas
é o já dado. O Olhar encantado re-cria o mundo. [...] Ele não inventa
uma ficção. Ele constrói mundos. É que cada olhar constrói seu
mundo. Mas isso não é aleatório. Isso não se dá no nada. Dá-se no
interior da forma cultural. O encantamento é uma atitude diante do
mundo. [...] O encantamento é uma atitude frente a vida. É do en-
cantamento que nasce a filosofia africana.
81
Num contexto em que trata da escrevivência, Machado (2021)
afirma que as narrativas de “nossas dores e alegrias” se expressam na forma
de poéticas do encantamento. Por isso não podemos compreender o encanta-
mento, uma prática relacionada apenas com algo aprazível. No pano de
fundo disso, o encantamento seria a atitude de se disponibilizar para acolher
as impressões do mundo, sem esperar dessa experiência nenhum tipo de
resultado. Trata-se da ação prontificada a vivenciar determinada experiência
e se permitir ao encantamento, sem temer o inexplicável. Em outra parte,
Adilbênia Machado (2018, p. 59) explica:
CARTOLA E A TRISTEZA
82
arranjo percussivo, harmônico é dum primor admirável. Tentaremos indi-
car isso nas próximas linhas.
“Tristeza, quanta tristeza tenho eu...”54. É assim que se inicia a can-
ção “Tristeza” de Cartola, gravada nos anos 40 juntamente com a “Turma
da Mangueira”55. Considerando pelo título e pelas palavras que figuram no
primeiro verso poderíamos supor, com razão, que tal canção expressa uma
lamúria, uma queixa do eu-lírico acerca de sua condição. Não se trataria de
algo novo entre as composições daquele contexto, sobretudo se conside-
rarmos o samba “A tristeza me persegue” (1930) de seu contemporâneo e
parceiro Heitor dos Prazeres (1898-1966)56, ou a composição “Ando na Or-
gia” (1937), parceria de Alcebíades Barcelos (1902-1975)57 – também par-
ceiro de Carlota em outro samba – e Armando Marçal (1902-1947)58, entre
outros exemplos que poderíamos mencionar, mas que pensamos em abor-
dar em outras ocasiões se orientando pela hipótese de que estas seriam,
ainda que implicitamente, odes à tristeza. Em seu samba, Cartola que, em
outra circunstância, ostentou felicidade ao final de uma canção intitulada
“Inverno do meu tempo” (1979), oferece um enorme elogio à tristeza, es-
tado emocional geralmente evitado, inspirador de aversão cujo significado
comum indica noções como esmorecimento, melancolia, desânimo.
54
Essas e as demais referências ao samba “Tristeza” do compositor Angenor de Oli-
veira, podem ser consultadas no link que segue: CARTOLA. Tristeza. Rio de Janeiro,
2’ 13” seg. In: [Link] Acesso em:
03/01/2022.
55
Conjunto que acompanhou Cartola na gravação do samba. Dentre as pessoas que
compuseram o conjunto, sabe-se da presente de Aluízio Dias, que ensinou violão para
Geraldo Pereira e Nelson Sargento; os percussionistas Preguiça, China e Negro e, den-
tre as pastoras Dona Neuma (filha de Saturino Gonçalves, fundador do bloco que se
tornou a Escola Estação Primeira de Mangueira); Cecéia, Nadir, Ornélia, Guimar, Ne-
sília e Neguinha.
56
Sobre Heitor dos Prazeres, o Lino do Estácio, ver: FRANCESCHI, Humberto M.
Samba de Sambar do Estácio de 1928 a 1931. 1ª reimpressão. São Paulo: Instituto Moreira
Sales, 2010, p. 180 e; o artigo “Heitor dos Prazeres vai mostrar na Rua Augusta que o
samba é colorido” In: TINHORÃO, José Ramos. Primeiras lições de samba e outras mais.
1ª ed. Curitiba: Instituto Glória ao Samba, Banquinho Publicações, 2018, p. 94-96.
57
Sobre o Bide, ver: FRANCESCHI, Humberto M. Samba de Sambar do Estácio de 1928
a 1931. 1ª reimpressão. São Paulo: Instituto Moreira Sales, 2010.
58
Acerca da dupla Bide e Marçal, ler o artigo “Classe média faz coro à grandeza pro-
letária da dupla Bide e Marçal” In: TINHORÃO, José Ramos. Primeiras lições de samba e
outras mais. 1ª ed. Curitiba: Instituto Glória ao Samba, Banquinho Publicações, 2018, p.
210-212.
83
Antes de debater como Cartola fez esse elogio, convém observar-
mos como tal palavra é conceituada, como ela é definida e, consequente-
mente, difundida em meios formais educacionais mediante o dicionário.
Optamos consultar este documento, pela via de que é nele que encontramos
as formas correntes de compreender as palavras em determinados contex-
tos. Nele identificamos as seguintes definições ao verbete Tristeza: “Senti-
mento de grande pesar, de infelicidade; falta de alegria”59. O documento
também indica o verbete Triste, cuja definição é a seguinte:
84
produção da noção corrente de tristeza. Percebemos o abatimento da pes-
soa que teve suas expectativas amorosas interrompidas. Essa leitura é válida,
pois, parece estar de acordo com algo que está consolidado no imaginário
social que, uma pessoa que deposita uma expectativa que, com o tempo, se
mostra como prenúncio de frustração, assume uma condição de tristeza,
sentindo-se depreciada. Contudo, embora venha a calhar pensar que Car-
tola expressaria um relato poético que reproduz tal ideia, o compositor se
mostrou admirável neste caso específico, conduzindo potenciais ouvintes
para uma direção contrária ao que se poderia esperar. Ele assim operou pela
via de que, nos versos seguintes, relatou com maior detalhe a sua experiên-
cia com a tristeza, durante um vai-e-vem de acordes dominantes:
85
propôs um conceito de tristeza segundo o qual ela tiraria o valor do ser
humano. Pelo contrário, foi no acolhimento desta nova parceira que chegou
junto dele após o abandono de alguém, que o eu-lírico encontrou o seu
valor, podendo afirmar “Hoje vivo bem feliz”.
Seria comum pensar que, uma vez que a tristeza está relacionada
com a depreciação da pessoa triste, não poderíamos de maneira alguma es-
tabelecer uma relação de amizade com a tristeza, seria o cúmulo – como
sugeriu o compositor. Contudo, esta não foi a postura do eu lírico do samba
em questão. Acreditamos que este não foi o procedimento, pela via de que
Cartola manifestou nesta poesia um encantamento pelo mundo tal como o
mundo é.
Em tempos de um capitalismo introjetado nas mais diversas cultu-
ras, o ideal de produtividade impera nas vidas (SIMAS; RUFINO, 2020), o
ideal de produtividade impera nas vidas. Tal sistema econômico exige a pro-
dutividade, demanda que as pessoas estejam sempre bem, sempre na sua
melhor condição para executar com precisão as funções que são a elas de-
signadas. Estando bem, se adquire um bom preço. Do contrário, se depre-
cia. Nos dias de hoje, dias em que percebemos massivamente o alargamento
da carreira de coach, podemos avaliar o quanto este sistema espera que a
classe operária esteja “mentalmente bem”, sempre disposta e disponível
para executar as funções delegadas, com a “cabeça boa”, com “bom estado
de espírito”.
Acreditamos que essa expectativa é fruto do desencantamento do
mundo, da compreensão deste como engessado numa lógica de produtivi-
dade, de progresso, seguindo retilineamente uma lógica com uma finalidade
prescrita. Para que esta lógica funcione, convém que as peças da engrena-
gem funcionem de acordo com o que se espera. Em caso contrário, as metas
não são obtidas, as coisas deixam de caminhar para o progresso. Tal sistema
indica um desencantamento na medida em que iguala seres humanos, seres
complexos, a ferramentas. Como peças de engrenagens, seres humanos são
computados como números. Se a peça falhar, se o número variar, a máquina
não funciona, a fórmula não resulta conforme o esperado. Por conta disso,
deve-se rechaçar qualquer estado que comprometa a realização do que se
espera, pois do contrário a peça é jogada fora, é substituída, é depreciada
perdendo o seu “valor” ou sofrendo da desvalorização de seu “preço”
como a própria palavra sugere. Segundo esta lógica, portanto, a tristeza seria
86
indesejável, inimiga das piores, pois priva a pessoa da potência para manter
viva a máquina do capitalismo.
Porém, não foi dessa forma que Cartola pensou a tristeza no samba
mencionado. No caso em questão, a tristeza é a amiga que, à sua maneira,
presta o auxílio necessário a quem ficou em completo desamparo depois de
ter que compulsoriamente abandonar um projeto conjugal de vida. No caso
de nosso sambista, a tristeza é a salvação, de modo que estaríamos com a
autorização de pensar que esta salvação se deu também no sentido de sau-
dação. A tristeza conduziu o eu lírico para a saúde, quando o voluntário ato
de pôr fim à própria vida estava sendo cogitado. Trata-se, pois, de uma ode
à tristeza, ou melhor, um Salve à Tristeza.
É neste sentido que pensamos que Cartola expressou, mediante es-
ses versos, um encantamento pela vida em sua complexidade. Ao invés de
buscar conservar a vida de um sistema externo que tenta se impor como
uma lógica para o funcionamento da vida humana, o eu lírico do composi-
tor mangueirense opta pelo cúmulo, pelo limite intransponível segundo a
lógica da produtividade e nos convida a vivenciar a tristeza de outra forma,
de forma encantada. Acreditamos que, assim como seria incongruente re-
duzir a vida à alegria, à felicidade; seria reducionista pensar que a tristeza
não pode combinar com a vida. Seria, talvez, patético. Junto da tristeza o
compositor seguiu “no mesmo rumo”, fazendo o que não se diz, na con-
tramão da lógica, fazendo da tristeza a sua melhor amiga e reconhecendo
que por conta dela passou a viver “bem feliz”.
Acreditamos que o compositor nos conduz nessa mesma orienta-
ção ao sugerir que abraça inimigos como se irmãos fossem, no interior de
um contexto no qual combate certo argumento segundo o qual a “difícil”
vida no Morro da Mangueira não poderia combinar com uma vida dedicada
ao “canto”, ou seja, em resposta à indagação de certo/a/e expectador/a/e
que não compreende como as pessoas poderiam cantar no Morro da Man-
gueira. É esse, segundo o cremos, o recado do samba “Sala de Recepção”.
Contudo, precisamos de outra ocasião para abordar isso, o que pretende-
mos fazer em outro momento. Por ora, convém expressarmos, na esteira
de Adilbênia Machado (2021), nossas (in)conclusões.
87
(IN)CONCLUSÕES
61
Fato curioso é que a primeira música gravada de Ismael Silva em 1928 com o nome
“Me faz carinhos” o compositor deixa registrada uma crítica ao racismo e os obstáculos
que esse pensamento criminoso coloca nas relações interraciais. O eu lírico desta com-
posição reclama: “Se eu fosse homem branco ou por outra mulatinho, talvez eu tivesse
a sorte de gozar dos seus carinhos”. Percebemos com isso que desde o princípio o
samba esteve relacionado com a política, sendo um meio de denúncia das injustiças
sociais.
62
Ver: NASCIMENTO, Wanderson Flor do. Afrorreligiosidade na mira do racismo.
Correio Braziliense/DF – Opinião – pág: A11. Seg., 3 de março de 2014.
88
pois, de um gesto que, muito embora não nos permita inscrevê-lo entre os
nomes das pessoas que representam a filosofia do encantamento, em muito
nos inspira a vivenciar o mundo sob uma orientação entusiasmada por essa
forma encantada de filosofar e viver.
REFERÊNCIAS
89
SIMAS, Luiz Antonio; RUFINO, Luiz. Encantamento: sobre politica de
vida. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2020.
90
CAPÍTULO 9
O hedonismo de Epicuro:
um caminho para a superação do hedonismo consumista
André Pereira da Silva63
RESUMO
INTRODUÇÃO
UESB.
91
por esse filósofo no que concerne à conquista da verdadeira felicidade. Isto
é, àquela que não depende dos bens da exterioridade representada pelos
bens de consumo, mas que depende unicamente do indivíduo e da sua con-
dição íntima, da qual ele é único senhor.
O HEDONISMO DE EPICURO
64
Para Epicuro (2005): “O prazer é a essência duma vida venturosa. A ele conhecemos
como nosso primeiro bem inato, por ele nos deixamos guiar em todos os nossos an-
seios e abstenções, e por ele nos governamos, medindo todos os outros bens a sua
norma” (EPICURO, 2005, p. 41).
65
Segundo Reale e Antiseri (2005): “A maior parte dos filósofos gregos, e justamente
a partir de Sócrates, apresentou sua mensagem ao mundo como mensagem de felici-
dade. Em grego, ‘felicidade’ se diz ‘eudaimonia’, que, originalmente, significava ter tido
a sorte de possuir um demônio guardião bom e favorável, que garantia boa sorte e vida
próspera e agradável” (REALE; ANTISERI, 2005, p.97).
92
dos aspectos, a saber: condicionando sua felicidade e seu prazer a bens ex-
ternos e aprisionando-os a lógica de crescimento desenfreado do capita-
lismo.
Ao considerar que o hedonismo da contemporaneidade corrobora
tanto com crises relacionadas a valores humanos, tais como a felicidade,
quanto com a crise ambiental relacionada ao consumismo, verifica-se que o
hedonismo de Epicuro apresenta recursos efetivos, tais como a recomen-
dação da vida simples e feliz, para o combate e a superação do hedonismo
que corrompe a felicidade humana e que inviabiliza uma relação harmoni-
osa entre os indivíduos e o meio ambiente.
Historicamente, o hedonismo de Epicuro surge em um contexto
amplamente conturbado por crises sociais e culturais. Com a expansão do
império macedônico (334-323 a.C.), a restrição da liberdade, a conversão
do cidadão em súdito e a ruína da concepção de Cidade-Estado, o homem
grego se viu compelido a voltar-se para si mesmo, afastando-se das vicissi-
tudes da política e resguardando-se em sua própria interioridade (REALE;
ANTISERI, 2005). A filosofia de Epicuro surge, portanto, como um pro-
jeto ético que visava garantir o bem-estar e o fortalecimento do homem
mediante uma realidade de incertezas e privações. Para Spinelli (2009):
93
aquilo que a vida dele exige, permitindo-lhe sentir muito mais os prazeres
intensos que a vida [...] lhe oferece” (EPICURO, 2005, p. 41).
Desse modo, a vida simples apregoada por Epicuro (2002) ambici-
onava potencializar a vivência dos prazeres, favorecendo e reforçando
aqueles que são fáceis de realizar e que não envolvem dor, como a medita-
ção filosófica ou o convívio com amigos, e repelindo aqueles que são tran-
sitórios e que envolvem sofrimento, como a ostentação e a aquisição de
riquezas.
Para o hedonismo epicureu, o homem é um ser que sente, isto é,
um ser constituído sobretudo pela capacidade de sentir dor e prazer. Por
meio dessas sensações, os indivíduos se relacionam com a vida e com o
universo que lhes cercam (VAZ, 1993). Por conseguinte, utilizando-se da
razão, os indivíduos aprendem que os prazeres verdadeiros são aqueles que
dependem mais da condição íntima de cada um e menos das circunstâncias
que subsistem à revelia de sua vontade.
Para orientar seus seguidores, Epicuro (2005) estabeleceu uma hie-
rarquia entre prazeres, classificando-os entre prazeres naturais e necessários,
como comer o suficiente para saciar as necessidades fisiológicas ou vestir
roupas que resguardem o corpo; prazeres naturais e não necessários, como comer
comidas requintadas ou vestir roupas sofisticadas; e prazeres não naturais e não
necessários, como acumular riquezas. Para Reale e Antiseri (2005): “Apenas
os primeiros devem sempre ser buscados, porque são os únicos que encon-
tram em si um limite preciso; os segundos, podemos no-lo conceder apenas
de vez em quando; os últimos, que nos tornam insaciáveis, nunca” (RE-
ALE; ANTISERI, 2005, p. 268).
No mais, há uma singularidade no conceito de prazer em Epicuro
(2002). Para o filósofo, em vez de ser uma sensação experimentada em mo-
mentos específicos e esporádicos como comprar, consumir e ostentar, ele
é uma sensação contínua e constante, experimentada na ausência de dores
relativas ao corpo e à alma. Ademais, o hedonismo de Epicuro condiciona
a felicidade à ataraxia, isto é, a ausência de perturbações.
Epicuro (2005) constata ainda que os homens sofrem porque se
apegam à exterioridade, que os enfraquece, circunscrevendo sua felicidade
aos bens suscetíveis aos reveses do acaso e que constantemente afiguram-
se como causa de desprazer e de sofrimento. Assim, enquanto estão aferra-
dos a bens dos quais podem ser repentinamente privados, como a riqueza,
94
os homens são enfraquecidos, e sua capacidade de sentirem prazeres ver-
dadeiros, pois estáveis, é obstruída.
O homem enfraquecido não possui autarkeia, isto é, autossuficiên-
cia. Para Epicuro (2005), a capacidade de cuidar de si mesmo e de garantir
para si uma vida prazerosa e feliz, resguardada contra os males e reveses, é
uma capacidade que todos os homens possuem, da qual são guarnecidos
pela Natureza (SPINELLI, 2009). Por outro lado, a ignorância, referente à
natureza dos bens exteriores (como a riqueza) e interiores (como a mode-
ração), os conduz ao apego e à dependência em relação à exterioridade.
Com efeito, o hedonismo de Epicuro e o hedonismo consumista se
opõem não apenas pelas causas que os constituem como também pelas
consequências que reproduzem. O primeiro surge em oposição à crise vi-
venciada pelos gregos e coloca os bens internos, como a moderação e a
simplicidade, como meios para a fruição de um prazer estável e perene. Por
sua vez, o segundo surge nas sociedades capitalistas e gera crises, pois co-
loca os bens externos (transitório, descartáveis e perecíveis) como causa de
um prazer fugaz. Dito de outro modo, se o primeiro conduz o homem à
ataraxia, estado de contentamento e de serenidade, no qual ele goza de feli-
cidade, o segundo o conduz à angústia e à insaciabilidade advindas de ne-
cessidades ilusórias e de bens incertos.
HEDONISMO CONSUMISTA
95
que se tornam dominantes ao serem internalizadas pela coletividade. O apa-
rato midiático é um exemplo de como essas necessidades criadas são pro-
pagadas e absorvidas, irrefletidamente, pela coletividade.
No hedonismo consumista, a obtenção de prazeres ocorre pela sa-
tisfação de necessidades que são alheias aos indivíduos e reduzem ampla-
mente sua liberdade, dado que seus prazeres são criados e geridos pela ex-
terioridade (o sistema capitalista) e não pela interioridade (subjetividade
alheia a este sistema). Assim, o hedonismo consumista, guiado pela lógica
de crescimento vertiginoso do lucro e do consumo, cria necessidades ilusó-
rias, prazeres fugazes e uma insatisfação constante e necessária à sustenta-
ção do sistema. Para Bittencourt (2011): “Na sociedade norteada pela ‘mo-
ralidade’ consumista, [...] o indivíduo jamais consegue saciar plenamente
seus desejos, pois sempre novas demandas despontam no seu horizonte
existencial” (BITTENCOURT, 2011, p. 109).
Além de sabotar a liberdade dos indivíduos, no hedonismo consu-
mista, a felicidade é simplificada, isto é, o homem feliz é aquele do hiper-
consumo, que se realiza enquanto homem por meio de sua capacidade de
consumir em excesso. Entretanto, essa felicidade possui um caráter para-
doxal, pois requer a satisfação ininterrupta de necessidades ilusórias. Logo,
apesar da aparência de simplicidade, a felicidade é colocada como um estado
inalcançável, pois é fundamentada em necessidades insaciáveis e em praze-
res inconsistentes. Ainda com Bittencourt (2011): “O consumo compulsivo
compensa a ansiedade psicológica do indivíduo existencialmente impo-
tente, incapaz de encontrar um nível de felicidade duradoura para a sua vida
prática, seja no âmbito do trabalho ou nas suas experiências afetivas” (Idem,
2011, p. 106).
Somado a isso, o homem é obrigado a se submeter a regimes de
trabalho que requerem dele continuamente mais produtividade, devido ao
crescimento constante das demandas de consumo. À medida que é obri-
gado a produzir sempre mais, sendo oprimido pela fragmentação e pela ob-
jetificação do seu trabalho, os indivíduos das sociedades consumistas so-
frem também um aprofundamento da necessidade de consumo e satisfação,
o que se justifica pela impossibilidade de se realizarem subjetivamente no
trabalho ou pela ausência de atividades existencialmente criativas (BIT-
TENCOURT, 2011).
96
À medida que reduz a potência humana para sentir prazeres dura-
douros e para conquistar a felicidade verdadeira, o hedonismo consumista
aumenta a impotência dos indivíduos mediante as adversidades e as agruras
da condição humana, tais como a solidão, a angústia e a morte. Ademais,
ele também converte consumo em terapia, isto é, o hiperconsumo é posici-
onado socialmente como um remédio, um meio de cura. Logo, sob o do-
mínio capitalista, a sociedade de consumo produz doenças efetivas e modos
de cura ineficazes. Para Bittencourt (2011):
Visando curar os homens dos males que afligiam sua alma, Epicuro
(2005) criou uma filosofia de caráter terapêutico, isto é, que se propunha a
ser uma medicina do ânimo. Nas sociedades capitalistas, constituídas por
indivíduos adoecidos pelo hedonismo consumista, os valores, o ideário e o
modo de vida apregoado pelo hedonismo de Epicuro (2005) constituem
uma proposta ética de caráter prático, realizável e, sobretudo, curativo.
Ao contrário do que se verifica nas sociedades capitalistas, na qual
a filosofia, muitas vezes, é tratada como uma atividade puramente teorética
e, por vezes, restrita a especialistas e à academia, a filosofia do período he-
lenístico se caracterizava como uma prática de vida, como um exercício
ético cotidiano e também coletivo/comunitário (ONFRAY, 2010).
97
Enquanto filosofia ou medicina do ânimo, o hedonismo epicureu
estimulava cada indivíduo a buscar por si mesmo a sua própria felicidade,
tentando aperfeiçoar sua própria razão (capacidade de entendimento), cul-
tivando relações sólidas e prazerosas (a amizade) e rompendo laços de de-
pendência com os bens da exterioridade (necessidades ilusórias). De modo
geral, a razão, a amizade e a simplicidade corroboram com um modo de
vida que consistia na fruição máxima de prazeres, os mais intensos e mais
tranquilos.
Entretanto, é válido considerar a utilidade do sofrimento no que
concerne ao aprendizado que constitui a vida ética preconizada por Epicuro
(2005). Em vez de repelir o sofrimento a todo custo, cabe ao epicureu, por
meio de sua razão, compreender que alguns sofrimentos corroboram com
a felicidade humana, como utilizar um remédio amargo para curar um res-
friado; e alguns prazeres são causa de sofrimento, como optar pelo vinho
em vez do remédio amargo mediante o resfriado (SPINELLI, 2009).
Em uma leitura à luz de Epicuro (2005), constata-se que o hedo-
nismo consumista reduz a capacidade dos indivíduos guiarem-se por sua
razão no que concerne à vivência, ao aprendizado e à seleção dos prazeres,
logo, o consumista abraça prazeres que causam sofrimento, como comprar
compulsivamente e repele sofrimentos que são causa de prazeres, como
abster-se de viver como vive o vulgo, isto é, arrastado pela exterioridade das
necessidades e dos bens ilusórios.
No entanto, é apenas pelo uso da razão, orientada pela filosofia,
que os indivíduos conseguem apreender a complexidade de sua vida ética e
agir sobre ela. Para Epicuro (2005), na ausência de um destino que deter-
mine o passado, o presente e o futuro de cada um ou de deuses intervento-
res, que governem o mundo e a vida humana, é dever dos indivíduos cons-
truírem por si mesmos uma interioridade livre e feliz, que se sustente como
um ponto fixo em mundo de constantes crises e de grandes sofrimentos.
Para Schöpke (2020):
Para ser feliz, não é preciso ter muitas coisas, mas é preciso neces-
sariamente estar no comando da própria vida. Quem não comanda
sua própria existência é escravo de outros ou de sua própria fraqueza
e, assim, jamais poderá ser feliz (SCHÖPKE, 2020, p. 65).
98
Ademais, cabe à filosofia subsidiar a ação ética, oportunizando re-
flexões referentes aos fenômenos do mundo, como a desmitificação de fa-
tos sociais; princípios a serem utilizados em situações por vir, como a hie-
rarquia entre as necessidades e os exercícios referentes às vivências do pas-
sado, como a rememoração dos prazeres vividos. Com isso, verifica-se que
a filosofia, enquanto medicina do ânimo, caracteriza-se como um exercício
constante, cotidiano, praticado pelo indivíduo para consigo mesmo, que
dispensa o consumo ou a posse dos bens da exterioridade e culmina, de
certo modo, com a descoberta pelos indivíduos de prazeres dos quais eles
são a única causa.
A partir de Onfray (2010), é viável afirmar que o hedonismo de
Epicuro (2005) se apresenta como uma saída útil para muitos dos limites e
das limitações da contemporaneidade, tais como o consumismo, a objetifi-
cação da felicidade e a sabotagem dos prazeres. Para Onfray (2010), por
meio do pensamento de Epicuro (2005), é possível que os indivíduos vol-
tem a galgar e a obter o prazer e a felicidade de modo efetivo, isto é, sem
serem capturados por mecanismos de controle e de opressão, exercidos
pelo sistema de dominação econômica, o capitalismo.
No entanto, em vez de uma revolução global ou uma reforma sú-
bita e coletiva, o hedonismo epicureu propõe uma reforma e uma revolução
individual (ou entre amigos66) cotidianamente, gradativamente e que reper-
cutem, por consequência, sobre a coletividade. A proposta epicurista, por-
tanto, não conduz à aversão em relação à realidade social, nem recomenda
o confronto implacável contra essa, apesar disso, afigura-se como um meio
praticável de resistência e de transformação da mesma.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
66
No hedonismo epicureu, a amizade é um modo de relação central, pois apenas entre
amigos é possível gozar da felicidade, compartilhando valores, reforçando afetos e cor-
roborando, reciprocamente, com uma mesma perspectiva de vida.
99
rompendo seus prazeres e usurpando sua liberdade. Nesse contexto, cons-
tata-se a instauração de vidas éticas marcadas pelo predomínio da tristeza,
da inconstância e da insaciabilidade.
A contrapelo do que apregoa o hedonismo consumista, o hedo-
nismo de Epicuro afirma a possibilidade de que os indivíduos gozem de
prazeres estáveis e de que, por meio desses, obtenham a verdadeira felici-
dade. Para tanto, o filósofo do jardim recomenda uma vida simples e mo-
derada, o desapego em relação aos bens da exterioridade e o cultivo da fi-
losofia como um meio aprimoramento da razão humana.
Por meio da aproximação entre esses dois hedonismos, este capí-
tulo apresentou o epicurismo como um meio de resistência e de transfor-
mação para o homem da contemporaneidade. Em linhas gerais, como su-
gere Onfray (2010), aderir ao hedonismo epicureu representa a possibili-
dade de lidar com as crises e com a ruína a partir da edificação e da cons-
trução de si, isto é, de uma interioridade verdadeiramente forte, livre e feliz.
REFERÊNCIAS
100
SPINELLI, Miguel. Os caminhos de Epicuro. São Paulo: Edições Loyola,
2009.
101
CAPÍTULO 10
Hegel, os sistemas de filosofia e o absoluto: uma abordagem
da necessidade da filosofia na differenzschirift
Antônio Salomão Neto67
Ezequiel Barros Barbosa de Jesus68
RESUMO
ezequielbarrosbarbosa@[Link]
102
INTRODUÇÃO
103
enquanto uma opinião passada nada mais é do que uma opinião morta.
Citamos o próprio filósofo:
Uma época que deixou atrás de si, como passado, uma tal quantidade
de sistemas filosóficos, parece ter de chegar àquela indiferença que
a vida obtém após ter-se experimentado todas as formas; o impulso
para a totalidade exprime-se ainda como impulso para a completude
dos conhecimentos, quando a individualidade ossificada já não se
atreve a viver; ela procura, através da multiplicidade daquilo que tem,
aparentar aquilo que não é70.
70
HEGEL, G. W. F. Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der
Philosophie, In: . Jenaer Schriften 1801-1807, p. 15.
71
HEGEL, op. cit., p. 16.
72
HEGEL, op. cit., p. 17.
73
HEGEL, ibid. Hegel distingue neste ponto a filosofia das artes mecânicas. Enquanto
a primeira se desenvolveria por um espírito vivo que perpassa a própria história do
pensamento humano, a segunda, por outro lado, teria um saber que se efetiva na rup-
tura com saberes precedentes.
104
pressupõe um denominador comum a todos os sistemas filosóficos. Este
denominador é que confere validade e é axiologicamente satisfatório a todo
sistema, seja ele um sistema passado, um sistema que está se desenvolvendo
no presente ou que se desenvolverá no futuro. Neste sentido, para dar
fundamentação a esta afirmação, afirma Hegel:
74
HEGEL, G. W. F. Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der
Philosophie, In: . Jenaer Schriften 1801-1807, p. 17.
75
HEGEL, ibid.
105
pode-se interpelar, então, sobre o que é que pode ser dito como próprio em
cada sistema de filosofia. Hegel adverte ao afirmar que o que é próprio de
cada sistema não é sua essência – pois aquilo que é em essência é também,
de acordo Hegel, em universalidade –, mas sim a sua forma. Frente a esta
problemática, a postura hegeliana é a de assumir uma unidade mesmo diante
da diversidade de sistemas aparentemente opostos: a unidade, neste caso, é
a própria filosofia e sua tarefa que em realização faz surgir estes sistemas,
que mesmo apresentando contradições conceituais partilham de uma
mesma razão. O compartilhamento de um fundamento comum – uma
exigência geral a todo sistema de filosofia – que condiciona os sistemas em
um curso de desenvolvimento onde não se pode falar de antecessores nem
seguidores, mas sim de um movimento conjunto que se desenrola ao passo
da história.
A filosofia não pode ser reduzida a um sistema de filosofia ou ser
determinada pela particularidade que surge deste sistema. A filosofia é algo
mais amplo. Para Hegel, é a tarefa dela de sobrelevar (aufheben) toda
determinação que particulariza a própria filosofia. Isto é, as opiniões
particulares que se fundamentam na singularidade de um sistema filosófico
determinado, pois a ênfase dada a uma peculiaridade (Eigentümlichkeit) leva
o sujeito a um aprisionamento que o cega o sujeito e o priva de observar a
verdadeira filosofia. De acordo com Hegel:
76
HEGEL, G. W. F. Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der
Philosophie, In: . Jenaer Schriften 1801-1807, p. 17.
106
pleno77. A propriedade de um sistema de filosofia não possibilita à filosofia
o seu desenvolver enquanto ciência, pois ela perde a sua essência. No
tangente à essência, Hegel não admite espaço para a propriedade. Segundo
Hegel, “a razão, que encontra a consciência prisioneira de peculiaridades,
só se tornará especulação filosófica na medida em que se elevar a si mesma
e se confiar a si mesma e ao absoluto, que se tornará ao mesmo tempo o
seu objeto”78. A filosofia necessita de voltar-se a si mesma para que seja
possível o seu auto-reconhecimento. O auto-reconhecimento da ideia da
filosofia diz tanto respeito ao ideal que dela é produzido quanto
essencialmente à própria filosofia. Todavia, o desvelar dessa ideia só ocorre
após uma tarefa da filosofia que dinamicamente ocorre a partir de sua
relação com a vida.
Um sistema de filosofia não orientado pela própria exigência
racional que a filosofia impõe de voltar-se a si mesma de modo
especulativo79 carece de fundamento, e por isso só caberia a crença de
fundamentação a partir de sua própria peculiaridade. O fundamento, aquele
que Hegel demonstra nas primeiras páginas da Differenzschrift, consiste
naquilo que é essencial à filosofia: a especulação da razão – que outra coisa
não é senão “a atividade que a razão una e universal exerce sobre si mesma”.
Por isso pode a razão conferir unicidade a cada sistema, e assim ela é
universal a todos os sistemas de filosofia possíveis. Neste sentido, afirma
assim Hegel:
77
HEGEL, op. cit., p. 17-18.
78
HEGEL, op. cit., p. 19. Cf. LEBRUN, G. A paciência do conceito: ensaio sobre o
discurso hegeliano. São Paulo: UNESP, 2000.
79
Poder-se-ia dizer, também, uma filosofia que não se autopõe enquanto objeto, eli-
minando a cisão sujeito-objeto.
80
HEGEL, G. W. F. Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der Philosophie, In:
. Jenaer Schriften 1801-1807, p. 19.
107
Neste trecho acima, é possível entrever que a individualidade de um
sistema de filosofia é pensada em face de uma época particular. A época
fornece os materiais adequados para determinado solo epistêmico, mas é a
razão enquanto um motor que motiva a especulação e confere totalidade ao
sistema81.
81
HEGEL, op. cit., p. 19-20.
82
HEGEL, G. W. F. Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der Philosophie, In:
. Jenaer Schriften 1801-1807, p. 20.
83
HEGEL, G. W. F. Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der
Philosophie, In: . Jenaer Schriften 1801-1807, p. 20.
108
aquela cisão entre as limitações tornadas fixas e o absoluto. A razão o faz
relacionando as limitações ao absoluto; fazendo com que a totalidade das
limitações seja compreendida apenas como manifestação do absoluto; e este
é seu único interesse84. Então: a razão, como pujança especulativa, tem como
interesse sobrelevar aquela cisão que é a fonte da necessidade de filosofar.
Aqui, tem-se a meta daquela atividade de filosofar e a totalidade do Bedürfnis
der Philosophie: é a necessidade da filosofia que, por um lado, nasce da cisão,
que pede o ato de filosofar85; e que, por outro, tem a necessidade de
sobrelevá-la, de entendê-la como manifestação do absoluto, a finalidade
daquele ato de filosofar.
Em última análise, a razão e o entendimento travam uma disputa
acerca do direito de filosofar (verdadeiramente). Entretanto, o
entendimento apenas tem aparência de razão e: “Na luta do entendimento
com a razão àquele só vem uma força na medida em que, esta renuncia a si;
o sucesso da luta depende portanto dela mesma e da autenticidade da sua
necessidade de restaurar a totalidade da qual ela surge”86. Note-se que: a única
necessidade/interesse da razão é, em alguma medida, necessidade da
filosofia. Ambas, a necessidade da razão e a necessidade da filosofia pedem
o mesmo. É possível notar que, com isto, Hegel provavelmente fizesse
alusão ao órgão legítimo da filosofia, meio para que aquilo que a filosofia
pede seja alcançado: a razão87.
Hegel torna essa explicação ainda mais clara quando alude que
frente à reflexão (ao entendimento) a necessidade da filosofia (e pode-se
dizer, esta sua dinâmica) apresenta-se como pressuposto. A (verdadeira)
filosofia que tem como meta sobrelevar as oposições tornadas fixas
apresenta dois pressupostos:
84
Op. cit., p. 21.
85
Idem. „Wenn die Macht der Vereinigung aus dem Leben der Menschen
verschwindet und die Gegensätze ihre lebendige Beziehung und Wechselwirkung
verloren haben, und Selbständigkeit gewinnen, entsteht das Bedürfnis der
Philosophie“.
86
HEGEL, op. cit., p. 24. Grifo nosso.
87
HEGEL, op. cit., p. 17; 114-115; BUTON, C. Temps et esprit dans la
philosophie de Hegel: de Francfort à Iéna. Paris: Vrin, 2000, p. 61-62. Cito esta pas-
sagem de Buton, que aponta que apenas a razão é atividade de especulação e, por isto,
a manifestação do absoluto, sendo com ele um.
109
O primeiro é o absoluto mesmo; ele é a meta (Ziel), que é procurado;
ele já está presente [desde o início] – como poderia ele, de outra
forma, ser procurado? A razão o produz apenas, fazendo a
consciência livre das limitações; este sobrelevar das limitações é
condicionado por meio da ilimitabilidade pressuposta. O outro
pressuposto será o ser da consciência que sai do ser da totalidade, a
cisão em ser e não ser, em conceito e ser, em finito e infinito88.
110
sistema de filosofia realiza sua tarefa ao seu próprio modo e tem, por isto,
a totalidade em si92.
O absoluto que contém em si a diferença é o horizonte do Bedürfnis
der Philosophie, que organiza, estrutura, os conceitos de “necessidade da
razão”, “interesse da razão”, “necessidade da filosofia” e “tarefa da
filosofia”; ele é princípio (pressuposto) e meta da razão.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
92
„Jede Philosophie ist in sich vollendet und hat, wie ein echtes Kunstwerk, die
Totalität in sich“. HEGEL, G. W. F. Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der
Philosophie, In: . Jenaer Schriften 1801-1807, p. 19.
111
REFERÊNCIAS
112
CAPÍTULO 11
O furto famélico a partir da teoria hegeliana
Camila Passos Barbalho93
Carolini Dellavalle Vilão94
RESUMO
INTRODUÇÃO
rol.d11@[Link]
113
Para cumprir com tal objetivo, inicialmente é preciso abordar a te-
oria kantiana sobre a moralidade ser uma estrutura que advém da razão. Por
conta disso seria algo universal e igual para todos. Em consequência o di-
reito seria derivado dessa moral racional, não permitindo qualquer exceção
às normas e tornando-o extremamente formal.
No entanto Hegel no livro “Filosofia do Direito” (1967/2021)
afirma que é importante ao analisar a moralidade e a eticidade levar em con-
sideração as circunstâncias na qual o indivíduo se encontra, podendo assim
em determinados casos abrir algumas exceções na qual a pessoa precisa in-
fringir uma norma para proteger a sua vida. Para o autor é importante levar
em apreço a dignidade da pessoa humana, fazendo assim com que a análise
do direito não seja totalmente presa ao formalismo. Diante da teoria Hege-
liana este artigo pretende analisar como ela se encaixa no furto famélico e
como é um avanço dentro do direito penal.
114
algo subjetivo de cada indivíduo o que é certo ou errado, fazendo assim
com que tenham vários sentidos, mas por ser uma distinção racional ela
seria igual para todos (MACEDO, 2012, p. 115).
Por consequência, essa lei é universal a todos, prescrevendo um
comportamento uniforme e sem exceções. Por isso sua lei moral é chamada
de imperativo categórico, o primeiro nome porque é obrigatória a todos e
o segundo porque é válida em qualquer ocasião. Mas é importante ressaltar
que o categórico para Kant quer dizer que a ação possui um fim em si
mesma, isto é, seria uma ação livre de desejos, autônoma. No entanto isso
tem uma consequência prática, nessa teoria então é preciso analisar a
vontade do sujeito para determinar se é um ato moral. Por exemplo: o art.
155, do Código Penal Brasileiro afirma que furtar é um crime, punível de 1
a 4 anos de prisão. Então, pela lógica Kantiana um sujeito não cometerá o
delito por ser imoral, e não por ter medo da punição (MACEDO, 2012, p.
116).
É importante ressaltar que o imperativo categórico é a base
norteadora das ações humanas e possui um viés estritamente formal. Isto é,
não admite nenhuma exceção, mesmo que seja em favor próprio e em casos
de necessidade. É claro que Kant admite que as ações humanas geram
consequências, no entanto é extremamente radical afirmando que as
contingências e resultados não podem basear um agir moral (MACEDO,
2012, p. 117).
É com base na ideia da moral Kantiana que Hegel escreve sobre a
eticidade. Para ele, essa seria uma fase na qual existiria objetividade e
poderia ser determinado o conteúdo moral. Como expõe:
115
e das leis. Como esse ético estando acima do indivíduo (aqui seria do seu
ser pensado isoladamente), faz com que ele seja um membro da sociedade.
É por isso que a vontade livre de um indivíduo precisa ser mediada pela
vontade de outro ser. É através dessa mediação social que se cria algo
universal (WEBER, 1995, p. 10). Por exemplo: um cidadão x pensando em
seu proveito próprio rouba o carro do vizinho, isso na visão Hegeliana seria
inconcebível, pois fere a ideia de ético (já que a minha liberdade de escolha
feriu a liberdade do outro de ter uma posse). Então, para o autor seria feito
uma observação de quais comportamentos seriam éticos e permitidos, por
meio de uma mediação social, para identificar até que ponto a minha livre
escolha não irá ferir o direito do outro.
Hegel faz uma divisão entre o que seria a primeira e segunda
natureza. Para o filósofo, a primeira constitui uma vontade imediata natural,
e a segunda são as determinações da eticidade: “Como a natureza tem as
suas leis, tal como o animal, as árvores, o sol realizam a sua lei, assim o ético
é o que corresponde ao espírito da liberdade. O que o direito e a moral
ainda não são, isto o costume é, a saber, o espírito.” (HEGEL, 1967/2021,
p. 178). O autor elucida que o ético é um hábito que passou pelo processo
de mediação universal e se converte em segunda natureza ocupando então
o espaço da primeira natureza. No entanto, isso não significa que há uma
eliminação das particularidades e sim que elas alcançam um novo patamar.
É importante ressaltar que Hegel propõe uma conciliação entre
essas vontades imediatas e as universais, “§ 155: Nessa identidade da
vontade universal e da vontade particular, obrigação e direito, com isso,
unem-se em um, e o homem, mediante o ético, tem direitos na medida em
que ele tem obrigações e obrigações na medida em que ele tem direitos.”
(HEGEL, 1967/2021, p. 180). Para o autor, não seria possível essa
combinação apenas no direito ou na moral, somente é realizável através da
eticidade. É por meio desse processo que as vontades individuais passam
pela mediação social e ao tornarem-se éticas efetivam-se nas instituições.
Como o exemplo dado acima, graças à mediação social é crime roubar bens
alheios, algo garantido pelas instituições, impedindo assim que o indivíduo
aja apenas pela suas vontades imediatas.
Diferentemente de Kant, a proposta de Hegel era tentar
compreender os desdobramentos do agir, as circunstâncias e
consequências. Ele faz uma diferença entre o querer e o saber, sendo assim
116
não se pode responsabilizar o autor por uma atitude que ele quis ou não
planejou. Como o exemplo “é o caso que numa ação mais ou menos
circunstâncias podem intervir: no âmbito de um incêndio, o fogo pode não
propagar-se e noutro lado pode propagar-se mais do que o agente quis”
(HEGEL, 1967/2021, p. 137). O que o autor elucida é que não se pode
responsabilizar alguém por uma questão que saiu fora do planejado, mas
não se pode deixar de considerar as circunstâncias.
É com base nisso que Hegel propõe um direito de necessidade, ele
reconhece a importância de abrir uma exceção no direito para cada
indivíduo em situações de extrema necessidade ou perigo, com o objetivo
de resguardar a sua vida. É uma inovação proposta pelo autor na qual refuta
a ideia extremamente formal kantiana. A intenção é sair do formalismo e
levar em consideração as situações, sair do plano totalmente abstrato e
adentrar na prática.
117
Mesmo na Idade Média já havia reconhecimento da impossibilidade
de punir o furto por necessidade, aproximando a compreensão jurídica de
um ideário de partilha e solidariedade típico da cultura cristã (HUNGRIA,
1967). Partia-se, então, da lógica de que a fome e a necessidade colocam o
ser humano em tal estado alheio à normalidade que não seria possível lhe
exigir uma postura atrelada ao direito, cobrada de quem goza de condições
mínimas de cidadania. Conforme orienta Marco Antonio Nahum:
118
antijurídico do agente de um furto famélico não se possa exigir conduta
diversa, tratando-se de excludente de culpabilidade. Porém, a teoria mais
amplamente aceita, à qual este trabalho se filia, é a de que o furto famélico
corresponde a um estado de necessidade, excludente de ilicitude previsto
no Código Penal dentro do artigo 24 – e que pode coexistir com os outros
dois institutos, visto que não são sinônimos nem excludentes.
Em definição extraída da própria norma, o estado de necessidade é
uma situação em que um direito se encontra em estado de perigo atual e
inevitável, cujo enfrentamento só pode ocorrer mediante a lesão ao direito
de outra pessoa. Há, portanto, uma leitura objetivo-comparativa entre o
bem jurídico ferido e o bem jurídico que se intencionou proteger com a
conduta. No caso do furto famélico, são a dignidade humana e o direito à
vida e à alimentação que, em condição de perigo, motivam a conduta que
fere o direito à propriedade. É a teoria unitária objetiva, à qual se vincula o
direito brasileiro, em que a questão valorativa dos bens é determinante –
ficando justificadas as ações praticadas em estado de necessidade “desde
que o bem protegido fosse de valor superior ao sacrificado” (PIRES, 2000,
p. 14). No mesmo sentido é entendimento de Fernando Capez (2013),
considera que o estado de necessidade pressupõe dois ou mais bens
jurídicos em perigo, de maneira que a preservação do mais precioso é uma
eleição feita dentro de um critério de razoabilidade.
Parece indiscutível que a sobrevivência é um valor que pesa mais na
balança dos bens a serem priorizados. Dessa maneira, não deve o sistema
penal como um todo se ocupar de tal demanda, sobretudo – com a lupa sob
a atualidade – num país com 19 milhões de famintos e mais de 50% da
população em circunstâncias de insegurança alimentar (CARNEIRO, 2021),
sob o risco de criminalização da miséria. Importante frisar, porém, que as
elaborações teóricas não refletem a realidade da aplicação das normas no
Brasil. São de largo conhecimento o sem-número de casos em que pessoas
são encarceradas pelo furto de produtos com valor irrisório, para fins de
alimentação de si e dos seus; e até mesmo a ocorrência de furto de itens do
lixo motivou a mobilização judicial pela punição este ano (BRIGATTI;
CANOFRE, 2021). O instituto do furto famélico, em que pese seu largo
reconhecimento doutrinário e jurisprudencial, perde para o condão
punitivista de rejeitados e invisíveis sociais que é típico do sistema penal.
119
O FURTO FAMÉLICO À LUZ DA TEORIA HEGELIANA
120
e sim de saciar sua fome, de sobreviver. A teoria Hegeliana sobre o estado
de necessidade é importante, ainda mais em um país como o Brasil que
retornou ao mapa da fome, uma nação na qual 19 milhões de pessoas pas-
sam fome e 116 milhões de indivíduos se encontram em estado de insegu-
rança alimentar (CNN BRASIL, 2021). Como afirma Hegel, não se pode
punir alguém que não se encontra em uma situação de liberdade para ser
totalmente responsável pelos seus atos, a fome não pode ser normalizada e
é função do Estado encontrar condições para que a população tenha acesso
ao mínimo possível para a sua sobrevivência. Não é o direito penal punindo
esses cidadãos que se encontrará a solução, mas por meio de políticas pú-
blicas efetivas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
121
REFERÊNCIAS
122
NAHUM, Marco Antonio R. Inexigibilidade de conduta diversa: causa
supralegal, excludente de culpabilidade. São Paulo: Revista dos Tribunais,
2001.
123
CAPÍTULO 12
Human Enhancement: convergência tecnológica e
transumanismo à luz da filosofia da técnica heideggeriana
Caio Fernando de Castro95
RESUMO
124
novas tecnologias foram necessárias para auxiliar nos desdobramentos que
culminaram no fim deste trágico evento, como por exemplo, o cientista da
computação britânico – Alan Turing – que desenvolveu a teoria da “Má-
quina de Turing”, um dispositivo teórico que explica de maneira abstrata e
radical o funcionamento da máquina computacional e, que posteriormente,
veio a ser chamado de PC (Personal Computer). Essa Teoria da Máquina de
Turing é um dos fundamentos mais importantes para a história e a evolução
tecnológica, juntamente com descobertas nas áreas da medicina, biologia,
biotecnologia, neurociência e psicologia que surgiram na primeira metade
do século XX e se desenvolveram e se proliferaram fortemente na sua se-
gunda metade, impactando significativamente na vida humana e acabaram
culminando no surgimento de um campo epistemológico e científico cha-
mado de Convergência Tecnológica96. Primeiramente, vale lembrar que o
campo da CT possui distinções entre a perspectiva americana e a perspec-
tiva europeia; enquanto a primeira percebe esse fenômeno de forma mais
pragmática, científica e técnica, a segunda se preocupa mais com seus as-
pectos humanistas e éticos. Contudo, como o propósito desse texto não é
efetuar uma comparação entre as diferentes perspectivas e intuitos acerca
da convergência, não ocorrerá nesse momento uma análise dessa importân-
cia teórica. Por outro lado, se faz necessário nessa ambientação e contextu-
alização temática, informar também que a CT é uma área de estudos que
pode ser aplicada em diferentes áreas de pesquisa e atuação, como a medi-
cina, a biologia, a psicologia e até mesmo na área das comunicações.
Contudo, no âmbito dessa pesquisa filosófica, a CT enquanto ob-
jeto de estudo a ser explorada, será a Convergência Tecnológica NBIC
(Nano-bio-info-cogno), ou seja, a convergência que se dedica ao estudo da
sinergia das seguintes áreas: primeiramente, a Nanotecnologia, área de estudos
voltada aos serviços e tecnologias em escala nanométrica, ou seja, a mani-
pulação da matéria em nível molecular; em seguida, Biotecnologia, um dos
âmbitos multidisciplinares da CT que utiliza de conhecimentos das áreas
como biologia, química, genética, entre outras. Contando com um conjunto
de técnicas para produção de bens e serviços que vão desde a processos no
96Desse momento em diante a sigla “CT” fará menção ao termo mais geral, Conver-
gência Tecnológica, enquanto a sigla “CT-NBIC” fará menção ao campo específico da
Convergência Tecnológica NBIC (Nano-Bio-Info-Cogno).
125
setor alimentício até a pesquisas de biologia molecular; a terceira área, a
Tecnologia da informação, a mais popular e considerada a espinha dorsal da CT,
pode ser entendida como o conjunto de todas as atividades e soluções pro-
vidas por recursos computacionais, composto por uma combinação de
equipamentos (hardware) e sistemas operacionais, aplicativos e protocolos
de comunicação (software), podendo estes serem compactados por uma
linguagem computacional. Geram, portanto, maior impacto no âmbito da
convergência, visto que é a partir da inovação e evolução da TI, onde as
demais áreas se fundamentam para poder aplicar melhorias em seus respec-
tivos campos operacionais e objetos de pesquisa. E, por fim, as Ciências cog-
nitivas, considerada a área com maior multidisciplinaridade dentro da CT,
pois envolve teorias e conceitos da psicologia, antropologia, filosofia, ciên-
cia da computação, linguística e neurociências. Tal relacionamento episte-
mológico entre as áreas permite o embasamento e questionamento que as
ciências cognitivas necessitam para aprimorar sua compreensão acerca do
cérebro, da inteligência e da mente humana em sua dimensão biológica, cul-
tural e científica.
97
“Education and training at all levels should use converging science and technology
and prepare people to take advantage of them. We must experiment with innovative
ideas to motivate multidisciplinary research and development, while finding ways to
address ethical, legal and moral concerns. In many application areas, such as medical
technology and healthcare, it is necessary to accelerate advances that would take ad-
vantage of converging Technologies”.
126
lógica, epistemológica e científica de áreas cruciais no cotidiano da vida hu-
mana, uma vez que “neste momento na evolução da conquista técnica, a
melhoria da performance humana pela integração das tecnologias se torna possí-
vel” (ROCCO e BAINBRIDGE, 2002, p. IX). Ademais, fica claro que o
termo “convergência” faz menção à união e interligação, de forma sinérgica,
dessas 4 áreas tecnológicas em direção ao mesmo objetivo: otimizar o potencial
humano nas mais diversas áreas, como na medicina, na educação, na segu-
rança ou na saúde de um modo geral, fazendo uso de um conjunto de téc-
nicas, instrumentos e artefatos tecnológicos que possibilitem uma melhor
interação concreta - não somente entre as áreas de pesquisa –, mas também
entre esse fenômeno tecno-científico e o mundo factual, da vida material e
da qualidade de vida do ser humano. Diferentemente dos especialistas do
século XX, a fundamentação epistemológica da CT-NBIC demonstra a im-
portância da pluralidade das áreas científicas para que os objetivos supraci-
tados possam ser atingidos de forma mais rápida e eficiente.
Uma vez entendido o conceito, as definições e o propósito da CT-
NBIC, cabe nesse momento, apresentar um pouco da história e o conceito
do Transumanismo. Pois bem, a palavra “Transumanismo” (Transhumanism)
foi usada primeiramente pelo biólogo - e irmão de Aldous Huxley (Admi-
rável Mundo Novo) -, Julian Huxley em uma aula em duas partes intitulada
“Conhecimento, Moralidade e Destino” (Knowledge, Morality and Destiny) mi-
nistrada nos dias 19 e 20 de abril de 1951 em Washington, sendo, conse-
quentemente, publicadas em 1957, após algumas correções feitas por
Huxley, numa coleção de ensaios chamada “New Bottles for New Wine”, onde
o biólogo afirma haver uma necessidade para essa nova crença e que deve
se chamar Transumanismo, termo esse que deve ser compreendido como o
homem permanecendo homem, mas transcendendo a si mesmo, ao perceber novas possibi-
lidades de e para sua natureza humana. Se pode compreender também o Tran-
sumanismo como “[...] um movimento que busca promover a evolução da
raça humana para que vá além de suas atuais limitações fazendo uso da ci-
ência e da tecnologia” (HARRISON e WOLYNIAK, 2015, p. 465) e, por
fim, o “Transumanismo possui raízes no humanismo racional” (BOS-
TROM, 2005, p. 3), o que esta frase do físico Nick Bostrom demonstra, é
que a proposta transumanista tem, como objeto principal de investigação o
ser humano racional e, com a utilização de um método com ênfase na ciên-
cia empírica e na análise crítica, busca conhecer o mundo natural e o lugar
127
do ser humano dentro dele – demonstrando uma herança epistemológica
do antropocentrismo renascentista, assim como a ênfase científica e racio-
nalista do Iluminismo. A partir do que foi supracitado, principalmente, o
que fora apresentado tanto nos argumentos de Bostrom quanto de Harrison
e Woliniak, fica evidente a confirmação da afirmação de que o Transuma-
nismo possui raízes no humanismo racional. De modo tal que, na proposta
transumanista, o foco no estudo do ser humano natural parte de uma com-
preensão científica, aplicada por meio da experiência tecnológica, possibilite
a melhoria e superação da condição naturalista e dos limites das funções do
corpo humano.
98 Por questões metodológicas, o texto irá apresentar os principais conceitos que auxi-
liarão na reflexão filosófica acerca da questão do melhoramento humano na conver-
gência e no Transumanismo. Para um entendimento completo sobre “A questão da
técnica”, verificar a tradução de Marco Aurélio Werle em Scientiae Studia, São Paulo,
v. 5, n. 3, p. 375-398, 2007.
99
A techné, segundo o pensamento heideggeriano, se refere ao fazer humano, uma
atividade da práxis humana de produzir (poiésis) algo ou alguma coisa, ou seja, produzir
como um tornar algo presente a partir de uma não-presença.
128
como um desabrigar (Entbergen)100 , ou seja, um levar à frente que promove o
desafiar (Herausfordern) que “estabelece, para a natureza, a exigência de for-
necer energia suscetível de ser extraída e armazenada enquanto tal” (HEI-
DEGGER, 2007, p. 381). A técnica contemporânea enquanto emprego da
ciência prática em domínio da natureza, o que pode ser compreendido tam-
bém, como um domínio do ser humano na exigência perante aquilo que é natural; 2)
em saber que a técnica é um modo de compreensão da realidade, o que
significa que a técnica é um modo de manifestação de mundo – no mundo
ôntico, ou seja, no mundo material dos entes, como argumenta Heidegger
–, âmbito esse em que ocorre o desabrigar. Além disso, é válido compreen-
der que a técnica moderna para Heidegger, é um modo de manifestação do
ser dado em um sentido destinal de sua época, além de ser um modo de
desvelamento ou de desabrigar da verdade (alétheia), entendida como uma
representação exata da coisa manifestada. Logo, ao compreender a técnica
ontologicamente, Heidegger à torna um horizonte de abertura de ser (Da-
sein), compreendido aqui como ser em possibilidades no mundo) que se dá
como modo de manifestação do ente. Ademais, o pensamento heideggeri-
ano também compreende a técnica como um saber humano que, uma vez
aplicado ao cálculo científico, busca dominar e pôr (stellt) a natureza na exi-
gência de uma disponibilidade de recursos naturais, ou seja, o cálculo cien-
tífico é, por parte do ser humano, a aplicação do saber técnico na busca de
domínio da natureza que estabelece uma exigência dela (a natureza) como
fonte de recursos naturais a serem extraídos e armazenados.
129
interpretação acerca da CT-NBIC. Visto que o propósito da convergência
é justamente melhorar a performance humana por meio de aplicações téc-
nicas e o emprego de artefatos tecnológicos que se relacionem com a exis-
tência humana. Enquanto a filosofia da técnica de Heidegger, apresentada
nesse texto, nos fornece conceitos que demonstrem como o homem, por
meio da técnica e dos cálculos científicos, busca dominar aquilo que é na-
tural (o corpo humano) e alterá-lo, promovendo um aprimoramento de suas
capacidades, estabelecendo a técnica, como a ciência posta em prática exi-
gindo uma amplitude dos limites daquilo que foi, radicalmente, criado en-
quanto algo natural.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
130
dia pessoas daltônicas são capazes de ver o mundo sem os limites atribuídos
por sua deficiência visual; ou que uma pessoa com deficiência auditiva, con-
segue, por meio de implantes auditivos conectados neurologicamente, ouvir
o mundo num volume estabelecido como normal. Ou até mesmo o atleta
que, devido a um acidente perdeu algum membro do seu corpo consegue,
por meio de um implante protético, continuar praticando esportes e se tor-
nar um atleta de Paraolimpíadas. É possível perceber o tamanho da evolu-
ção científica oriunda da CT e quão contundente é o seu impacto na com-
posição dos corpos transumanos. Não obstante, outro fator importante, no
campo de influência sob os corpos humanos – destes corpos que nós
mesmo somos enquanto entes – é justamente ser capaz de perceber a ca-
racterística de possibilidade de melhoria da qualidade de vida que a CT evi-
dencia ao desenvolver, por meio dessa sinergia, uma vida mais confortável,
mais adequada, com redução de – ou sem nenhuma – limitação imposta
pelos problemas dos corpos naturais que podem ser aprimorados por meio
de objetos tecnologicamente artificiais, promovendo assim a possibilidade
de abertura de ser no seu destino epocal inscrito no mundo.
REFERÊNCIAS
131
CAPÍTULO 13
A Filosofia Indígena:
dos Males da terra à terra sem mal
Francisco José da Silva (UFCA)101
RESUMO
132
INTRODUÇÃO
102 GUTIÉRREZ, G. Deus o ouro nas Índias (século XVI). Tradução Bendni Lemos, SP,
Paulinas, 1993.
103 Entre os textos das testemunhas indígenas da conquista podemos citar as coletâneas
133
Índias” (1522), e contemporaneamente o escritor uruguaio Eduardo Gale-
ano (1940-2015), autor de “As veias abertas da América Latina” (2010).
Diante disso nos questionamos: seria o modelo civilizacional euro-
peu e moderno, o único modo de ser das várias culturas humanas? Estaría-
mos fadados a um modelo absoluto de sociedade autorreferente como pa-
drão universal? Qual a saída para adiar a possibilidade da “queda do céu”104
e do apocalipse do Antropoceno? O que os povos indígenas podem nos
ensinar sobre as possibilidades de existência para além dos modelos capita-
lista e sua ideologia liberal?
Para responder a estas questões, partimos do pensamento indígena
de Ailton Krenak, no ensaio Ideias para adiar o fim do mundo (2019), que se
nos afigura como uma crítica radical da sociedade moderna e do capita-
lismo, de sua ideia de civilização e de uma humanidade supostamente igual
e uniforme, fundada na ideia abstrata do humanismo europeu, essa reflexão
crítica sobre os “males da terra” será ampliada pela ideia de uma “Terra sem
males”, tal como pensada pelos povos Guarani, como uma espécie de “uto-
pia” (na visão do homem branco) da vida em união com a Mãe Terra. Um
lugar onde a vida pode ser vivida em sua plenitude e em sua imanência,
numa liberdade natural que não se funda na acumulação e consumo de
bens, nem em um coletivismo dirigido por um partido ou ideologia política,
nem muito menos numa crença religiosa, como a ideia de um paraíso cris-
tão.
OS MALES DA TERRA
104
KOPENAWA, D. A queda do céu, palavras de xamã Yanomami. SP, Companhia
das Letras, 2015.
105
Krenak significa “cabeça (kre) da terra (nak)”. Os Krenak são etnia indígena brasi-
leira antigamente conhecida como Botocudos, Aimorés ou Borun, que originalmente
vivia na região que vai de Minas Gerais, Mato Grosso a São Paulo, hoje vive a continua
resistência contra os abusos das mineradoras que tantos males tem causado ao longo
do Rio Doce em Minas Gerais.
134
nossa história: ao discursar na tribuna do Congresso Nacional, pintou o
rosto com a tinta preta do jenipapo (segundo costume indígena tradicional),
como forma de expressar luto e protestar contra o que considerava um re-
trocesso na luta pelos direitos dos indígenas brasileiros. Ailton se destaca
atualmente como um dos principais intelectuais indígenas brasileiros, tendo
participado de diversas palestras e mesas redondas sobre os temas ambien-
tais e a questão dos direitos dos povos indígenas. Suas conferências deram
origem a dois livros de grande repercussão, Ideias para adiar o fim do mundo
(2019) e “A vida não é útil” (2020). Suas reflexões incluem não apenas a crí-
tica da sociedade capitalista e ocidental do ponto de vista da cultura indí-
gena, mas traz uma concepção filosófica própria fundada no saber ancestral
indígena, em sua cosmovisão milenar, intuitiva e vivencial que em sua orga-
nicidade ultrapassa qualquer tentativa de apreensão pelo pensamento aca-
dêmico, uma vez que não se funda nos esquemas teóricos, metodológicos
e técnicos de objetividade e distanciamento dos objetos.
O livro que pretendemos refletir, “Ideias para adiar o fim do mundo” é
a adaptação de duas palestras (ideias para adiar o fim do mundo e Do sonho e da
terra) e uma entrevista (a humanidade que pensamos ser) realizadas em Portugal
entre 2017 e 2019, onde o líder indígena nos alerta sobre os males de nossa
sociedade, gerados principalmente por nosso divórcio com a Terra e a
crença ilusória nas seduções da sociedade mercadológica. Como pensa Kre-
nak, a sociedade moderna, (neo)colonial e capitalista desenvolveu-se sob o
signo da conquista, da exploração, da produção de mercadorias e da explo-
ração do trabalho humano. Em sua voracidade nada escapa da “boca devo-
radora e sanguinária” do Capital, que engolindo a terra, as árvores, os rios
e o próprio homem destrói as bases da própria vida na terra (natural e hu-
mana).
Tal processo se efetivou com o mito da modernidade esclarecida e
sua “missão” em nome da “civilização”, o “evangelho” da Europa capita-
lista moderna.
135
de estar aqui na Terra, uma certa verdade, uma concepção de ver-
dade que guiou muitas das escolhas em diferentes momentos da his-
tória (KRENAK, 2019, p. 11).
Enquanto isso – enquanto seu lobo não vem -, fomos nos alienando
desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar
que ele é uma coisa e nós, outra: a Terra e a humanidade. Eu não
percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza. Tudo é natu-
reza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natu-
reza (KRENAK, 2019, p. 16-17).
136
seria uma coisa despersonalizada, uma “mercadoria macro”, composta de
infinitas outras mercadorias (micro), que para seus exploradores não se
compõe de terra, água, árvores, animais e seres microscópicos, mas de gran-
dezas calculáveis e mensuráveis, de objetos de exploração, de venda e lucro.
Na visão indígena, tal como nos apresenta Krenak, a Terra é um
organismo vivo que engloba todos os seres e entidades vivas ou não, que
tem em si personalidade e que se comunica com todos os demais seres de
forma natural e simbólica. Essa visão da Terra como organismo vivo re-
monta as visões míticas indígenas como a “Pachamama”, a deidade máxima
dos povos andinos centrais que representa a maternidade, a fertilidade da
terra. Podemos encontrar ainda uma versão cientificizada dessa concepção
da terra como uma espécie de ser vivo na chamada hipótese de Gaia106 pro-
posta em 1972 pelo investigador e ambientalista britânico James E. Love-
lock (1919) em parceria com Lynn Margulis. Mesmo as modernas teorias
ecológicas e ambientais não conseguem alcançar o sentido originário que se
apresenta na reflexão indígena, a qual foi apenas insinuada pelos estudos
antropológicos de Levi Strauss (O Pensamento Selvagem, 1962), chegando às
suas cercanias por Eduardo Viveiros de Castro (Metafisicas Canibais, 2015) e
pelo filósofo cubano Raul Fornet-Betancourt (Mística da Terra, Mystik der
Erde, 1996) e, de certo modo, intuída por Marcos Antônio Valentim (Ex-
tramundanidade e sobrenatureza, 2018), mas compreendida e expressa em sua
inteireza e profundidade pelo próprio Ailton Krenak e, mais especifica-
mente, por Davi Kopenawa (A Queda do céu, 2015), na medida em que seu
saber é ancestral, originário, não apenas o resultado do saber acadêmico e
erudito, o qual se distancia das realidades, objetificando-as ao invés de in-
cluí-las em sua concepção. Assim, a razão moderna e seu “logos” perdem
sua raiz original presente na etimologia da língua grega que significava re-
colher, “legein”, como pensava Heidegger.
106
A hipótese de Gaia (retirado do nome da deusa grega Gaia) é também denominada
hipótese biogeoquímica, ela propõe que a biosfera e os componentes físicos da Terra
são intimamente integrados de modo a formar um complexo sistema interagente.
137
Para entender melhor essa perspectiva que personifica o Terra e
suas manifestações como parte de um todo vivo, podemos citar o próprio
Krenak, ao tratar por exemplo da relação de seu povo com o Rio Doce107,
107O Rio Doce é um curso de água entre os Estados de Minas Gerais e Espirito Santo,
cobrindo uma extensão de 853 quilômetros. A história dos crimes socioambientais co-
metidos na região do Vale do Rio Doce começa em 1942, ainda no governo de Getúlio
Vargas com a instalação da estatal Cia do Vale do Rio Doce para a exploração de minas
de ferro na região de Itabira, em 1997 a Cia é privatizada no governo de Fernando
Henrique provocando a demissão de milhares de trabalhadores, o controle acionário
da empresa passa então ao Consorcio Brasil, liderado pela Cia Siderúrgica Nacional de
Benjamin Steinbruch (27% do capital total). Entre os crimes socioambientais mais no-
tórios decorridos da gestão da Vale estão os de Mariana (2015), sob responsabilidade
da Samarco, e Brumadinho (2019). Sobre a tragédia de Brumadinho conferir:
[Link]
muito-alem-de-mariana-e-brumadinho.
138
uma apropriação por parte de corporações industriais capitalistas dos recur-
sos que se tornam fonte de lucro.
139
Os povos guarani e sua cultura são um exemplo desta forma de
resistência crítica ao colonialismo e a civilização europeia. A palavra “gua-
rani” significa em sua própria língua “guerreiro” e é o termo usado para
denominar os chamados ‘povos (pueblos) guaranis’, porque representam um
conjunto de diversas etnias espalhadas por toda a América do Sul (em es-
pecial Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai, e parte do território centro-
meridional do Brasil).
Os povos guarani tem sua sabedoria baseada na tradição oral, no
xamanismo108 e numa espécie de “profetismo” dos xamãs-profetas (os
karaí) que convenciam os índios, com a força de sua palavra, a abandona-
rem as vilas de colonização espanhola e irem cantando e dançando rumo “a
terra sem mal” (Yvy Marã e’y), que seria uma terra sem fome, guerra ou pes-
tes, que antecipa por uma perspectiva de certo modo “utópica”: a crítica a
sociedade contemporânea, tal como podemos reencontrar hoje no pensa-
mento de Ailton Krenak, ao analisar as condições em que nos encontramos
diante da catástrofe global do Antropoceno.
No próprio mito citado, já encontramos as referências sobre a rela-
ção entre os guaranis e a Terra como campo ontológico, espaço social e
cultural, como segue,
108
ELIADE define Xamanismo como “um conjunto de métodos extáticos e terapêu-
ticos cujo objetivo é o obter o contato com o universo paralelo, mas invisível, dos
espíritos e o apoio destes últimos na gestão dos assuntos humanos” (ELIADE, 2003,
p.267). Ainda sobre Xamanismo e suas características gerais consultar a obra funda-
mental de ELIADE, M. El Chamanismo e las técnicas arcaicas del extasis. Tradução Ernes-
tina de Champourcin, México, Fondo Cultura Econômica, 1992. Sobre o Xamanismo
guarani especificamente conferir WERÁ, KAKÁ. O Trovão e o vento, um caminho de evolu-
ção pelo xamanismo Tupi-guarani. SP, Editora Polar, 2016.
140
Segundo H. Clastres (1978, p.31), a maioria dos cronistas da colo-
nização (Fernão Cardim, Jean de Lery, André Thevet, Yves d’Evreux,
Claude d’Abbeville), evidencia a crença que a terra sem mal dos guaranis
caracterizava-se por uma espécie de paraíso terrestre nos moldes pagãos,
para a qual os melhores dentre eles poderiam migrar e gozar de uma vida
de prazeres, sem necessariamente passar pela morte, sem ligar-se a essa
crença uma ideia de recompensa ou castigo, que seria a razão pela qual os
cristãos evitaram assimilar sincreticamente essa ideia ao paraíso de sua reli-
gião. Ao contrário de outras crenças compartilhadas pelos indígenas, tais
como a criação, o dilúvio, a figura do Zomé (supostamente a versão de São
Tomé pelos indígenas).
Aqui percebemos a radical distinção entre a ideia de Terra sem mal
indígena e o chamado paraíso da concepção cristã, tal como aparece no
livro de Gênesis (cap.1). O paraíso cristão, como sabemos, não se confun-
dia com um lugar de gozo meramente hedonista, mas como o lugar de ori-
gem da humanidade (o jardim do Éden bíblico), onde havia uma harmonia
entre homem e natureza e que após o juízo final, seria a retribuição por uma
vida abnegada e livre de todos os desejos, concupiscências e sofrimentos
terrenos109. Daí o equívoco de algumas ideias como “a visão do paraíso”,
pela qual se atribuía a América recém-descoberta a ligação com o imaginário
do paraíso terrestre da tradição cristã, como se pode conferir no livro de
Sergio Buarque de Holanda, “A visão do Paraíso. Os motivos edênicos no descobri-
mento e colonização do Brasil” (1959).
Podemos ainda perceber um elemento de caráter político antiauto-
ritário na busca da terra sem mal, na medida em que, na origem deste fenô-
meno migratório encontramos a oposição profética a qualquer tipo de cen-
tralização de poder, uma vez que,
109 Sobre os mitos dos Guarani, conferir CLASTRES, P. A Fala Sagrada, mitos e cantos
sagrados dos índios Guarani. SP, Papirus, 1990.
141
a população contra esse chefe, procurando outros lugares onde não
houvesse dominação ou coerção, enfim uma terra sem males (RA-
MOS, 1995, p.87-88).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
142
permitiu o reencontro dessas duas visões originárias sobre a relação entre o
homem e a terra.
Desta forma, pudemos entender o cerne de nossa crise ambiental
que foi gestada e acelerada pela ação do homem no chamado período do
Antropoceno. Pretendemos tirar dessa reflexão a partir de Ailton Krenak e
dos povos guaranis, o ponto de partida para um pensar filosófico autenti-
camente indígena, que traz em seu íntimo a matriz do pensamento ancestral,
sapiencial e, falando contemporaneamente, a possibilidade de uma filosofia
intercultural. Essa filosofia que pode nos ajudar a superar tanto o núcleo
fundante do colonialismo (a prática econômica capitalista) quanto a pers-
pectiva filosófico-ideológica do neoliberalismo, tornando-nos menos ‘hu-
manistas’ (no sentido filosófico ocidental) e mais humanizados, mais ligados
ao “húmus” do qual somos parte, ou seja, mais enraizados à Terra110.
Diante dessa crise global da humanidade e da civilização talvez a
única saída para todo o planeta seja acompanhar os passos desses povos
indígenas que conduzem para bem longe da ameaça, que é a continuidade
do ideal de civilização dos brancos, a qual é responsável pela “queda do
céu”. Seguir esses passos ancestrais, que “caminham para trás” e que vem
de longínquas eras, pode ser nosso único caminho para chegar adiante e
assim “adiar o fim do mundo”.
REFERÊNCIAS
110A palavra humanismo como sabemos vem de humano que deriva do latim, “hú-
mus”, a matéria da terra, que foi aos poucos perdendo seu sentido original e relacio-
nando-se a humanitas, as produções culturais do homem.
143
CLASTRES, P. A Fala Sagrada. Mitos e cantos sagrados dos índios Gua-
rani. Tradução Nicia Adan Bonatti. SP, Papirus, 1990.
PORTILLA, M.L. (org.). A visão dos vencidos. Porto Alegre, LP&M, 1985.
144
SOLA, José A. Os índios norte-americanos, cinco séculos de luta e
opressão. SP, Moderna, 1995.
145
Organizador e Revisor
ISMAEL LIMA
146
REVISOR
WESLEY SOUSA
147
[Link]
148