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Conceito de Literatura

1. A literatura é difícil de definir de forma concisa devido às suas múltiplas funções e abordagens possíveis (contextual vs textual). 2. Literatura pode ser entendida de forma ampla, incluindo todos os textos impressos, ou de forma restrita, referindo-se apenas aos grandes escritores e suas obras canonizadas. 3. A definição moderna de literatura surgiu no século XIX e inclui romances, peças de teatro e poesia, rompendo com a estrutura de gêneros clássica defin
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Conceito de Literatura

1. A literatura é difícil de definir de forma concisa devido às suas múltiplas funções e abordagens possíveis (contextual vs textual). 2. Literatura pode ser entendida de forma ampla, incluindo todos os textos impressos, ou de forma restrita, referindo-se apenas aos grandes escritores e suas obras canonizadas. 3. A definição moderna de literatura surgiu no século XIX e inclui romances, peças de teatro e poesia, rompendo com a estrutura de gêneros clássica defin
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1.

Conceito de Literatura: natureza e função

Literatura não é um conceito de fácil definição. Na Poética de Aristóteles,


o filósofo já observava a inexistência de um termo genérico para designar
ao mesmo tempo os diálogos socráticos, os textos em prosa e o verso. “A
arte que usa apenas a linguagem em prosa ou versos [...] ainda não
recebeu nome até o presente” O termo, embora de origem relativamente
recente – século XIX – é literatura. Antes disso, literatura designava,
etmologicamente, a escritura, a erudição, o conhecimento das letras. Mas,
a nova acepção do termo não resolveu o enigma presente em vários textos
como “O que é arte?, de Tolstoi, “O que é poesia”, de Roman Jakobson, e
“O que é Literatura”? de Jean-Paul Sartre. Barthes mesmo renuncia a uma
definição e declara: “Literatura é aquilo que se ensina e ponto final”. Uma
forma de tautologia, de dizer que “literatura é literatura” . Mas pode-se dizer
de outra maneira? Nelson Goodman, em vez de se perguntar “o que é
arte”?, questiona “quando é arte”? ´ Não seria possível fazer o mesmo com
a literatura? Qual é esse campo, essa categoria, esse objeto? Qual é sua
“diferença específica”? pergunta Antoine Compaignon. Qual a sua natureza,
a sua função? Qual a sua extensão e a sua compreensão?

A aporia, resulta, sem dúvida, da contradição entre dois pçontos de vista


possíveis e legítimos: o ponto de vista contextual (histórico, psicológico,
sociológico, institucional) e o ponto de vista textual (linguístico). A literatura,
ou o estudo literário, está sempre imprensada entre duas abordagens
irredutíveis: uma abordagem histórica, no sentido amplo (o texto como
documento) e uma abordagem linguística (o texto como fato da língua, a
literatura como a arte da linguagem).

Genette que julga “tola” a pergunta “O que é literatura”? , sugeriu, no


entanto, distinguir dois regimes literários complementares: um regime
constitutivo, garantido pelas convenções logo fechado – e um regime
condicional, logo aberto, dependente de uma apreciação revogável.

No sentido de sua extensão, segundo Compagnon, literatura é tudo que


é impresso e todos os livros que uma biblioteca contém, incluiindo a história
oral. Essa acepção corresponde à nõção clássica de belas-letras, que
compreendia tudo o que a retórica e a poética podiam produzir, não
somente a ficção, mas também a história, a filosofia, a ciência e a
eloquência. Como equivale à noçao de “cultura” adotada a partir do século
XIX, se considerarmos essa acepção, a literatura perde toda a sua
especificidade, ou seja, a qualidade propriamente literária lhe é negada.
Entretanto, a literatura assim compreendida reinava absoluta pois era “a via
régia para a compreensão de uma nação”.

No sentido restrito, a literatura varia consideravelmente entre as épocas


e as culturas. Na acepção moderna, separada ou extraída das belas-letras,
aparece no século XIX com o declínio do tradicional sistema de gêneros
perpetrado por Aristóteles. Para ele a arte poética compreendia
essencialmente o gênero épico e o gênero dramático, com a exceção do
gênero lírico, que não era fictício nem imitativo – uma vez que nele o poeta
se expressava em primeira pessoa, A epopeia e o drama constituiam ainda
os dois grandes gêneros da Idade Clássica, isto é, a narração e a
representação, ou as duas formas maiores de poesia, entendida como
ficção ou imitação. Até então, a literatura no sentido restrito (a arte poética)
era o verso. Mas ocorreu um deslocamento capital ao longo do século XIX:
os dois grandes gêneros, a narração e o drama, abandonaram cada vez
mais o verso para adotar a prosa. Compagnon registra então, que com o
nome de poesia, não se conheceu senão, o gênero que Aristóteles excluíra
da ´poética, ou seja, a poesia lírica, a qual, em revanche, tornou-se
sinônimo de toda poesia. Desde entõ, por literatura se compreendeu o
teatro, o romance e a poesia, retomando-se a tríade pós-aristotélica
dos gêneros épico, dramático e lírico, mas doravante os dois primeiros
seriam identificados com a prosa e o terceiro apenas com o verso, antes
que o verso livre e o poema em prosa dissolvessem ainda mais o velho
sistema de gêneros.

O sentido moderno de literatura, que compreende o romance, o teatro e


a poesia, é inseparável do Romantismo, conforme afirma Compagnon, isto
é, da adirmação da relatividade histórica e geográfica do bom gosto, em
oposição à doutrina clássica da eternidade e da universalidade do cânone
estético. A literatura, é concebida, além disso, em suas relações com a
nação e com a sua história. A literatura, ou melhor, as literaturas, são antes
de tudo, nacionais. De forma mais restrita ainda, literatura são os grandes
escritores, em outra acepção romântica. O cânone clássico eram obras-
modelos destinadas a serem imitadas de maneira fecunda, o panteão
moderno é constuído pelos escritores que melhor encarnam o espírito de
uma nação. Passa-se assim, afirma Compagnon de uma definição de
literatura do ponto de vista do escritores (as obras a imitar) a uma definição
de literatura do ponto de vista dos professores (os homens dignos de
admiração). Nessa perfspectiva, tudo o que foi escritor por grandes
escritores pertence à literatura. Nova tautologia, a literatura é tudo o que os
escritores escrevem.

Compagnon nota um paradoxo na composição do cânone: composto de


obras valorizadas ao mesmo tempo em razão da unicidade de sua forna e
da universalidade (pelo menos em escala nacional) de seu conteúdo; a obra
é reputada simultaneamente única e universal; O critério romântico da
relatividade histórica é imediatamente contraposto à vontade de unidade
nacional. Evidentemente, identificar literatura com o valor litrário, é ao
mesmo tempo negar o valor de outros romances, dramas e poemas e de
modo mais geral, de outros gênerosde verso e de prosa. Todo julgamento
de valor repousa num atestado de exclusão. Dizer que um texto é literário,
subentende sempre que um outro não é. O estreitamento institucional da
literatura ignora, que, para aquele que lê, o que ele lê é sempre literatura,
seja Proust ou uma foto-novela. A literatura, nesse sentido restrito, seria
somente a literatura culta. Por outro lado, até o cânone dos grandes
escritores não é estável e conhece entradas e saídas, modificando a própria
noção de literatura. Isso corrobora o que afirma T. S. Eliot no seu ensaio
“Tradição e talento individual”, quando o surgimento de um novo escritor
altera toda a paisagem da literatura, o conjunto do sistema, suas
hierarquias e filiações: “uma ordem ideal, que é modificada pela introdução
entre eles da nova (da verdadeiramente nova) obra de arte. A ordem
existente é completa antes da chegasda da nova obra; para que a ordem
subsista, depois da intervenção da novidade, o conjunto da ordem existente
deve serf alterado, ainda que ligeiramente; e assim, as relações, as
proporções, os valores de todas as obras de arte em relação ao conjunto
são reajustados.

A tradição literária é o sistema sincrônico de textos literários, sistema


sempre em movimento, recompondo-se à medida que surgem novas obras.
Cada obra nova provoca um rearranjo da tradição como totalidade, e
modifica, ao mesmo tempo, o sentido e o valor de cada obra pertencente à
tradição.

O termo literatura tem uma extensão mais ou menos vasta, nos diz
Compagnon, dos clássicos escolares à história em quadrinhos, e o critério
de valor que inclui tal texto, não é si mesmo, literário nem teórico, mas ético,
social e ideológico, em suma, extraliterário.

Compagnon segue tentando definir o que a literatura faz e qual seu traço
distintivo. Pensando na função da literatura, Compagnon retoma Aristóteles
que compreendia que a função do texto poético era provocar a catarse, ou
seja, a purgação das emoções como terror e piedade. Aristóteles, além
disso, colocava o prazer de aprender na origem da arte poética: instruir e
agradar ou instruir agradando, serão as duas finalidades, ou a dupla
finalidade, qu também Horácio reconhecerá na poesia, classificada como
“doce e útil”. Essa é uma definição humanista da literatura, mas como
conhecimento especial, diverso da filosofia ou das ciências. Mas o que este
conhecimento tem como objeto? Tudo que é geral, provável e verossímil, a
dóxa, as sentenças e máximas que permitem compreende e regular o
conhecimento humano e a vida social. Segundo a visão romântica, esse
conhecimento diz respeito sobretudo ao que é individual e singular.
Segundo o modelo humanista, há um conhecimento do mundo e dos
homens propiciado pela experiência literária, um conhecimento que só – ou
quase só – a experiência literária nos proporciona. Essa concepção
humanista do conhecimento literário foi denunciada, por seu idealismo,
como visão de mundo de uma classe particular, comprometida com valores
dos quais sera, ao mesmo tempo, causa e consequência, sendo o primeiro
deles o indivíduo burguês.
A literatura serfve para produzir um consenso social; ela acompanha,
depois substitui, a religião como ópio do povo: depois da decadência da
religião e antes da apoteose da ciência, no interregno, seria atribuída à
literatura a tarefa de fornecer uma moral social. Mas se a literatura pode ser
vista como contribuição à ideologia dominante, como “aparelho ideológico
do Estado” para a crítica marxista, pode-se, ao contrário, acentuar sua
função subversiva. A literatura confirma um consenso, mas produz também
a dissensão, o novo, a ruptura. Trata-se do par imitação e inovação, antigos
e modernos.

Do ponto de vista da função chega-se também a uma aporia: a literatura


pode estar de acordo com a sociedade e também em desacordo, pode
acompanhar o movimento e também precedê-lo.

Da Antiguidade até mais ou menos a metade do século XVIII a literatura


foi definida como imitação ou representação (mimesis) das ações humanas
pela linguagem. É com tal que ele constitui uma fábula ou uma história.
Essa proposição permite pensar a literatura como ficção, ou ainda, como
uma mentira, nem verdadeira nem falsa, mas verossímil, um mentir-
verdadeiro. Aristóteles escrevia que o poeta deve ser “o poeta das histórias
mais que dos metros, pois é em razão da mimesis que ele é poeta, e o que
ele representa ou imita, são ações. Com essa concepção de poesia como
ficção, Aristóteles excluía a poesia didática, e a poesia lírica, como já dito.
Genette fala de uma poética “essencialista” ou ainda “constitutivista” em sua
versão temática. Segundo essa poética a maneira mais segura da poesia
escapar da dissolução e se fazer obra de arte é a ficção narrativa ou
dramática. Mas essa é uma definição ou uma propriedade da literatura? A
ficção como conceito vazio, n~zo era uma condição necessária e suficiente
da literatura, embora seja como ficção que a opinião corrente considera a
literatura.

A partir do século XVII, uma outra concepção de literatura se opôs à de


ficção, acentuando o belo – e suas acepções presentes na Crítica da
faculdade do juízo de Kant – como tendo um fim em si mesma.
Terry Eagleton propõe que pode ser definida como escrita imaginativa,
no sentido de ficção, um tipo de escrita que não é literalmente verídica.
Mas, logo a seguir, o crítico afirma que essa definição não procede Citando
exemplos de literatura inglesa, aos quais podemos acrescentar outros
tantos de literatura portuguesa, Eagleton afirma que século XVII, “literatura”
abarcava as peças de Shakespeare, os poemas de Milton e os sermões de
John Donne, os ensaios de Francis Bacon e, eventualmente até o Leviatã
de Hobbes. Assim, a distinção entre o que é fato e o que é ficção não se
sustenta. Em fins do século XVI, a palavra em língua inglesa “novel” foi
utilizada sem distinção para tratar de assuntos fic~cionais e factuais e e na
grande maioria das vezes, não se podia denominar nem mesmo as notícias
de jornais de factuais. A própria distinção que hoje fazemos entre essas
categorias não era aplicada. Algumas obras, tais como a Gêese bíblica, são
lidas como fatos para uns e ficção para outros. Para Eagleton, o conceito de
literatura, ao mesmo tempo que inclui muito factual, também exclui muita
ficção: considera por exemplo, que as histórias em quadrinhos do Super-
Homem, ainda que ficcionais, não são literatura, muito menos Literatura; da
mesma forma, questiona: se a literatura é escrita “imaginativa” e “criativa”,
isso quer dizer que a filosofia, a sociologia, a história são ciências sem
imaginação?

Como esse não parece ser um questionamento adequado, Eagleton


investiga se em vez de definir literatura como ficção, não se pode definí-la
pelo emprego da linguagem de forma peculiar. Segundo essa teoria,
preconizada pelo russo Roman Jackobson a literatura é uma “violência
organizada contra a fala comum”, pois intensifica e transforma a linguagem,
afastando-a da fala cotidiana. Se ouvimos algo como “Amor é fogo que arde
sem se ver” sabemos imediadamente que estamos em presença do
literário, porque a tessitiura, o ritmo e a ressonância das palavras supera
seu significado abstrato, ou melhor, existe uma desconformidade entre os
significantes e os significados. Trata-se de uma linguagem que chama a
atenção sobre si mesma e exibe sua existência material. É em uma suma,
uma definição proposta pelos formalistas russos, grupo surgido pós-
revolução de 1917 que esteve em voga até ser silenciado pelo stalinismo.
Tratavam-se de críticos militantes, que embuídos de espírito prático e
científico tranferiram a atenção para o texto literário em si. À crítica caberia
dissociar arte e mistério e preocupar-se com as maneiras pelas quais os
textos literários funcionavam na prática, como um tipo de organização
especial da linguagem. Tinha suas leis específicas, suas estruturas e
mecanismos, que deveriam ser estudados entre si e não reduzidos a
alguma outra coisa. Nessa acepção, a obra literária não era veículo de
ideias nem uma reflexão sobre a realidade social, nem a encarnação de
uma verdade transcedental: era um fato material, cujo funcionamento
deveria ser analisado. Em essência, o formalismo foi a aplicação da
linguística ao estudo da literatura; como a linguística de então era do tipo
“formal”, os formalistas passaram ao largo do “conteúdo” literário – instância
que normalmente recorre à psicologia ou sociologia – e se dedicaram ao
estudo da forma literária.

Não consideravam a forma como expressão do conteúdo; ao contrário, o


conteúdo era visto como motivação da forma, um pretexto para um tipo
específico de exercício formal. Os formalistas consideravam a lobra literária
como uma reunião mais ou menos arbitrária de “artíficios” aos quais depois
passaram a chamar funções, pois seriam elemrntos capazes de se
relacionarem entre si; seriam “funções” dentro de um sistema textual global.
Os “artifícios” incluiam todo tipo de elemento formal: som, imagem, métrica,
rima, ritmo, sintaxe, técnicas narrativas. E o que todos esses elementos
tinham em comum era a capacidade de provocar “estranhamento” ou
“desfamiliarização” A especificidade da linguagem literária, aquilo que a
diferenciava de outras formas de discurso, era sua capacidade de
“deformar” a linguagem comum de várias maneiras: podia intensificar,
reduzir, condensar, torcer, ampliar, inverter. Era uma linguagem que se
tornara estranha, e com ela, todo o cotidiano se transformava em não
familiar. Na royina cotidiana, as nossas reações se tornam automatizadas.
A literatura, ao nos impor uma consciência mais dramática da linguagem,
renova nossas reações, tornando os objetos mais perceptíveis. O discurso
literário torna estranha, aliena a fala comum; ao fazê-lo, porém,
paradoxalmente, nos leva a vivenciar a experiência de maneira mais íntima,
mais intensa. A narrativa usa artifícios como entraves e retardamentos para
nos manter atentos, e na linguagem literária, tais artifícios revelam-se
claramente. Os formalistas consideravam a linguagem literária como um
desvio da norma, uma espécie de violência linguística. A literatura é uma
forma especial de linguagem, em contraste com a linguagem comum que
usamos habitualmente. Mas, para se identificar um desvio, é necessário
identificar a norma. Os formalistas, no entanto, reconheciam que as normas
e os desvios se modificam de um contexto social ou histórico para outro.
Assim, a estranheza de um texto se confirmava apenas em contraposição a
um certo pano de fundo linguistico normativo, e se este se modificava,
determinado texto poderia deixar de ser considerado literário. Para os
formalistas, o caráter literário adivinha das relações diferenciais entre um
tipo de discurso e outro, não sendo uma característica perene. Não definiam
literatura, mas literaturidade – os usos especiais da linguagem – Porém,
como afirma Eagleton, não há nenhum artifício literário que não possa ser
usado na linguagem comum.

Nas obras em prosa, na maioria das vezes, o contexto mostra-nos que


determinado excerto é literário, mas a linguagem não tem nada que a
diferencie. Assim, pensar na literatura como os formalistas o fazem é
considerá-la toda como poesia. Quando tratam da prosa, os formalistas
estendem a ela tudo o que usavam para comptreender a poesia. Porém,
considera-se que a literatura seja muitas outras coisas além da poesia. Um
outro problema, referente ao conceito de “estranheza” é que todos os tipos
de escrita, desde que trabalhados com engenhosidade, podem ser
considerados estranhos. Eagleton então investiga a possibilidade de a
literatura ser compreendida como um discurso “não-pragmático”, pois não
tem nenhuma finalidade prática imediata, referindo-se apenas a um estado
geral de coisas. Por vezes, mas nem sempre, ela pode empregar uma
linguagem peculiar, como se quisesse tornar evidente esse fato – quando
por exemplo compara um mlher a uma rosa, pra deixar evidente que se
trata de uma maneira de falar e não de uma mulher específica encontrada
na vida real. Daí decorre um terceiro significado, o de que a literatura é uma
espécie de linguagem auto-referencial, uma linguagem que fala de si
mesma. Mas essa definição, afirma Eagleton também carrega problemas:
em grande parte do que se considera como literatura, o valor verídico e a
relevância prática do que é dito é considerada importante para o efeito
geral. Isso porque literatura é um conceito que não pode ser definido
objetivamente, mas depende da maneira como alguém resolve ler, e não da
natureza daquilo que é lido. Eagleton afirma que “alguns textos nascem
literários, outros atingem a condição de literários e a outros tal condição é
imposta”. Sob esse aspecto, a produção de um texto é muito mais
importante que sua origem. Nesse sentido, a literatura seria menos uma
qualidade inerente do que as várias maneiras pelas quais as pessoas se
relacionam com a escrita. Para Eagleton não é possível isolar uma única
característica comum que contivesse algo como a “essência” da literatura.
Eagleton cita John M. Ellis para quem a palavra “literatura” funciona como a
palavra “mato”: o mato não é um tipo específico de planta, mas qualquer
planta que por uma razão ou outra o jardineiro não quer no seu jardim”.
Eagleton argumenta que o conceito de literatura pode ser exatamente o
oposto: qualquer tipo de escrita, que por alguma razão, seja altamente
valorizada. Porém “literatura” e “mato” seriam termos mais funcionais do
que ontológicos: falam do que fazemos, não do estado das coisas. Nos
falam do papel de um texto num contexto social, suas relações com o
ambiente e suas diferenças com esse mesmo ambiente, a maneira pela
qual se comporta, as finalidades que lhe podem ser dadas e asd práticas
humanas que se acumularam à sua volta “Literatura”, nesse sentido, é uma
definição puramente formal, vazia.

A sugestão de que a literatura é um tipo de escrita altamente valorizada


é esclarecedora, mas tem uma consequência bastante devastadora.
Significa abandonar de vez a ilusão de que a categoria “literatura” é
objetiva, no sentido de ser eterna e imutável. Qualquer coisa pode ser
literatura e qualquer coisa que é considerada literatura pode deixar de sê-lo.
Qualquer ideia de que o estudo da literatura é o estudo de uma entidade
estável e bem-definida pode ser abandonada como uma quimera. A
literatura, entendida no sentido de uma coleção de obras de valor real e
inalterável, distinguida por certas propriedades comums, não existe. A
dedução de que ela não constitui uma entidade estável, resulta de serem
notoriamente va´riáveis os juízos de valor. Assim como uma obra pode ser
considerada como filosofia num século, e como literatura no século
seguinte, ou vice-versa, também pode variar o conceito do público sobre o
tipo de escrita considerado como digno de valor. Para Eagleton, não existe
um obra ou uma tradição literária que seja valiosa em si. Valor é um termo
transitivo: significa tudo aquilo que é considerado como valioso por certas
pessoas em situações específicas, de acordo com critérios específicos e à
luz de determinados objetivos

O fato de sempre interpretarmos as obras literárias à luz de


nossos próprios interesses poderia ser uma das razões pelas quais certas
obras literárias parecem conservar seu valor através dos séculos. Pode ser
que ainda conservemos muitas das preocupações inerentes à da própria
obra, mas pode ocorrer também que não estejamos valorizando exatamente
a "mesmà' obra, embora assim nos pareça. O "nosso" Homero não é igual
ao Homero da Idade Média, nem o "nosso" Shakespeare é igual ao dos
contemporâneos desse autor. Todas as obras literárias são "reescritas'',
mesmo que inconscientemente, pelas sociedades que as lêem; na verdade,
não há leitura de uma obra que não seja também uma "reescriturà'.
Nenhuma obra, e nenhuma avaliação atual dela, pode ser simplesmente
estendida a novos grupos de pessoas sem que, nesse processo, sofra
modificações.

Todas as nossas afirmações descritivas se fazem dentro de uma rede,


freqüentemente invisível, de categorias de valores; de fato, sem essas
categorias nada teríamos a dizer uns aos outros. Não que tenhamos
alguma coisa chamada conhecimento fatual que possa ser deformado por
interesses e juízos particulares, embora isso seja perfeitamente possível;
ocorre, porém, que sem interesses particulares não teríamos nenhum
conhecimento, porque não veríamos nenhuma utilidade em nos darmos ao
trabalho de adquirir tal conhecimento. Os interesses são constitutivos de
nosso conhecimento, e não apenas preconceitos que o colocam em risco. A
pretensão de que o conhecimento deve ser "isento de valores" é, em si, um
juízo de valor.
A estrutura de valores, em grande parte oculta, que informa e enfatiza
nossas afirmações fatuais, é parte do que entendemos por "ideologià'. Por
"ideologia" Eagleton entende a maneira pela qual aquilo que dizemos e no
que acreditamos se relaciona com a estrutura do poder e com as relações
de poder da sociedade em que vivemos. Disso decorre que nem todos os
nossos juízos e categorias subjacentes podem ser proveitosamente
considerados ideológicos. Ideologià não se refere apenas às crenças que
têm raízes profundas, e são muitas vezes inconscientes; são tambémos
modos de sentir, avaliar, perceber e acreditar, que se relacionam de alguma
forma com a manutenção e reprodução do poder social Os juízos de valor
não são, portanto, meros caprichos: têm suas raízes em estruturas
profundas de crenças, evidentes e inabaláveis. Portanto, pode-se dizer que
os juízos de valor que constituem a noção do que é considerado literatura
são historicamente variáveis e têm uma estreita relação com as ideologias
sociais. Ele se refere não ao gosto particular, mas aos pressupostos pelos
quais certos grupos sociais exercem e mantêm sobre os outros.

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