ESCAPAR
Os benefícios de estar indisponível
SEM GRANDE SOLIDÃO, NENHUM TRABALHO SÉRIO É POSSÍVEL. —
Pablo Picasso
Frank O’Brien é o fundador da Conversations, uma empresa de marketing
de Nova York que constou da lista das 500 Empresas Privadas que mais
Crescem nos Estados Unidos, elaborada pela revista Inc. Em resposta ao
ritmo frenético dos locais de trabalho de hoje em dia, ele adotou uma prática
radical. Uma vez por mês, Frank reúne todos os 50 funcionários de sua
empresa em uma sala durante o dia inteiro. Os telefones são proibidos. E-
mails, ilegais. Não há pauta. O propósito da reunião é simplesmente escapar
para pensar e conversar. Veja bem, ele não faz essa reunião numa sexta-feira
do meio do mês, quando a produtividade pode estar baixa. A reunião
acontece toda primeira segunda-feira do mês.
A prática também não é apenas uma disciplina interna: até os clientes sabem
que não adianta esperar que sejam atendidos durante essa “Segunda-feira
sem ligações”.1 Ele faz isso porque sabe que seu pessoal não conseguirá
descobrir o que é essencial se estiver o tempo todo focado no trabalho. É
preciso espaço para descobrir o que realmente importa.
Ele escreveu: “Acho fundamental reservar um tempo para respirar, olhar em
volta e pensar. Esse nível de clareza se faz necessário para inovar e crescer.”
Além disso, ele usa a reunião como indicador para saber se os funcionários
estão passando tempo demais com coisas não essenciais. “Se alguém não
pode ir à reunião porque está muito ocupado, isso me revela que estamos
trabalhando com ineficiência ou que precisamos contratar mais gente.”
Infelizmente, nesta época de tempo escasso, não conseguimos fazer essa
pausa para repetir e discernir por omissão, só de propósito. Um líder com
quem trabalhei admitiu ter passado cinco anos além do necessário numa
empresa. Isso porque vivia tão ocupado que não fazia uma pausa para decidir
se deveria estar lá. As exigências cotidianas o impediam de realmente se
afastar para olhar de longe, visualizando um panorama mais amplo.
Do mesmo modo, um diretor importante de uma grande empresa global de
tecnologia me disse que passa 35 horas por semana em reuniões. E estar tão
consumido por elas que não encontra sequer uma horinha por mês para traçar
estratégias para sua carreira, muito menos para levar a empresa a um novo
patamar. Em vez de se dar espaço para conversar e discutir o que está
acontecendo e precisa acontecer, ele desperdiça o tempo com apresentações
intermináveis e conversas enfadonhas em que nada é de fato decidido. Antes
de avaliar o que é essencial ou não, é preciso explorar as opções. Enquanto
os não essencialistas reagem automaticamente à última ideia, agarram a
última oportunidade e respondem ao último e-mail, os essencialistas
preferem criar espaço para explorar e ponderar.
O valor de criar espaço para explorar foi enfatizado no meu trabalho com a
[Link] de Stanford (socialmente, o Instituto de Design Hasso Plattner da
Universidade de Stanford). A primeira coisa que notei quando entrei na sala
onde deveria dar um curso foi a falta de carteiras tradicionais. Em vez disso,
havia cubos de espuma para se sentar — por sinal, bastante desconfortáveis,
como logo descobri. Como quase tudo na [Link], isso é feito de propósito.
Nesse caso, os cubos estão ali para que, depois de alguns minutos
empoleirados com desconforto, os alunos se levantem, caminhem e
interajam, e não só com os colegas sentados à direita e à esquerda. E este é
o ponto importante: a escola usou o espaço físico para estimular novas
maneiras de pensar e se relacionar.
Também com esse , foi criado um esconderijo chamado “Booth Noir” — a
cabine negra. É uma salinha projetada deliberadamente para conter no
máximo três pessoas. Não tem janelas, é à prova de som e, de propósito, livre
de distrações. De acordo com Scott Doorley e Scott Wittho, no livro Make
Space (Abra espaço), ela vai “além do low-tech. É sem tech”. Está escondida
no andar térreo e, como ressaltam Doorley e Wittho, não Ěca no caminho de
lugar nenhum.
A única razão para ir lá é pensar. Nesse espaço criado para pensar e
focalizar, os alunos podem se afastar para enxergar com mais clareza. Por
alguma razão, há uma associação falsa com a palavra foco. Como no caso da
escolha, todos tendem a pensar que foco é uma coisa. Sim, foco é algo que
temos. Mas também é algo que produzimos. Para ter foco é preciso escapar
para criar o foco.
Quando falo de criar foco, não quero dizer apenas escolher uma questão ou
possibilidade e pensar nela obsessivamente. Quero dizer abrir espaço para
explorar uma centena de questões e possibilidades. Numa reunião recente na
d school (em outra sala sem mesas nem carteiras, mas com quadros brancos
do chão ao teto cobertos de post-its de todas as cores imagináveis), me
encontrei com Jeremy Utley. Ele é meu parceiro no desenvolvimento de um
novo protótipo de curso que, num momento de genialidade, Jeremy chamou
de “Projetar a vida essencialmente”. O único propósito do curso é criar
espaço para os alunos projetarem a própria vida. Toda semana, eles têm na
agenda uma desculpa para pensar. São forçados a desligar os computadores
e smartphones e acionar a potência total da mente. Realizam exercícios para
aprender deliberadamente a discernir o pouco que é essencial do muito que
é apenas bom. Não é preciso estar na [Link] para praticar esse hábito.
Todos podemos aprender a criar mais espaço em nossa vida. Espaço para se
concentrar Um executivo amigo meu é inteligente e motivado, mas vive se
distraindo.
É comum encontrá-lo no Twitter, no Gmail, no Facebook e em vários bate-
papos on-line ao mesmo tempo. Certa vez, na tentativa de criar um espaço
sem distrações, pediu ao assistente que desconectasse o cabo de internet do
seu computador. Mas mesmo assim encontrou várias maneiras de estar on-
line. Portanto, quando precisou terminar um projeto muito grande, recorreu
a medidas drásticas. Deixou o celular com alguém e foi para um hotel sem
acesso à internet. Depois de oito semanas de confinamento quase solitário,
conseguiu concluir o trabalho. É um tanto triste saber que esse executivo
tenha sido forçado a tomar uma medida dessas.
Mas, embora o método seja extremado, não posso questionar a intenção. Ele
sabia que, para dar a máxima contribuição a uma tarefa, precisava criar
espaço para desbloquear o pensamento. Isaac Newton passou dois anos
trabalhando no Principia Matemática, o famoso livro sobre a gravitação
universal e as três leis do movimento. Esse período de contentamento quase
solitário foi fundamental para uma verdadeira revolução que configurou o
pensamento científico dos 300 anos seguintes. Richard S. Westfall escreveu:
“Perguntaram a Newton como havia descoberto a lei da gravitação universal.
‘Pensando nela continuamente’ foi a resposta. […] Naquilo que pensava, ele
pensava continuamente, ou seja, com exclusividade ou quase.” Em outras
palavras, Newton criava um espaço ininterrupto para a concentração intensa,
o que lhe permitiu explorar os elementos essenciais do universo. Inspirado
por Newton, usei uma abordagem semelhante, embora talvez menos radical,
para escrever este livro. Agendei oito horas por dia para escrever: das 5h às
13h, cinco dias por semana. A regra básica era: sem e-mail, sem telefonemas,
sem compromissos nem interrupções até as 13 horas. Nem sempre consegui,
mas, no entanto, a disciplina fez uma grande diferença. Conseguirei a
resposta automática dos e-mails para dizer que eu estava em “modo monge”
até terminar o livro.
Ao criar espaço para explorar, pensar e escrever, além de terminar o livro
mais depressa ainda obtive controle sobre como passava o resto do tempo.
Parece óbvio, mas quando foi que você reservou tempo no seu dia cheio para
simplesmente se sentar e pensar? Não estou falando dos cinco minutos
durante a ida para o trabalho em que você monta a lista de afazeres nem da
reunião em que se distraiu repetindo sobre a abordagem de outro projeto em
que está trabalhando. Estou falando de reservar de forma deliberada um
período sem distrações, num lugar isolado, para não fazer absolutamente
nada além de pensar. É claro que hoje, neste mundo com excesso de
estímulos, isso está mais difícil do que nunca. Outro dia, um líder me
perguntou pelo Twitter: “Consegue se lembrar de como era estar entediado?
Isso não existe mais.” Ele tem razão. Alguns anos atrás, se fosse preciso
esperar no aeroporto o voo atrasado ou aguardar na sala de espera do médico,
o mais provável era estarmos lá sentados, Estando o nada, cheios de tédio.
Hoje, quem aguarda no aeroporto ou em salas de espera estar grudado na
ferramenta tecnológica preferida. É claro que ninguém gosta de estar
entediado, mas quando abolimos toda oportunidade de nos entediar também
abrimos mão do tempo que temos para pensar e processar.
Eis outro paradoxo: quanto mais rápida e assoberbada é a vida, mais
precisamos encontrar tempo para pensar. E quanto mais ruidosa está a
situação, mais precisamos construir espaços silenciosos de reflexão nos
quais consigamos realmente focalizar determinada questão.
Por mais ocupado que você se considere, sempre é possível arranjar tempo e
espaço para pensar durante o seu dia de trabalho. Jeff Weiner, presidente-
executivo do LinkedIn, por exemplo, reserva para isso até duas horas na
agenda todos os dias. Ele as divide em períodos de 30 minutos. É uma prática
simples desenvolvida quando as reuniões seguidas o deixavam com pouco
tempo para processar o que acontecia ao seu redor. A princípio, pareceu um
luxo, um desperdício de tempo. Mas ele acabou descobrindo que era a sua
ferramenta de produtividade mais valiosa. Ele a vê como a principal forma
de assegurar o controle do seu dia, em vez de ficar à mercê dele.
Nesse espaço, Jeff consegue pensar nas questões essenciais: como estará a
empresa daqui a três ou cinco anos; qual é a melhor maneira de melhorar um
produto já popular ou de satisfazer alguma necessidade ainda não atendida
dos clientes; como aumentar uma vantagem competitiva ou reduzir uma
desvantagem. Ele também aproveita esses momentos para se recarregar
emocionalmente. Isso lhe permite passar de solucionador de problemas a
instrutor, o que é esperado dele como líder. Para Jeff, criar espaço é mais do
que uma prática. Ele testemunhou o efeito da busca indisciplinada por mais
sobre as empresas e a vida dos executivos.
Portanto, para ele isso não é um slogan nem frase da moda — é uma filosofia.
Espaço para ler Podemos nos inspirar ainda mais com o exemplo de Bill
Gates, que regularmente tira uma semana de folga de suas tarefas na
Microsoft só para ler e pensar. Certa vez compareci a uma sessão de
perguntas e respostas com ele na sede da Fundação Bill e Melinda Gates, em
Seattle. Por acaso, ele acabara de voltar de uma dessas “Link Weeks” — as
“semanas de pensar”. Embora já tivesse ouvido falar dessa prática, eu não
sabia que ela data da década de 1980 e que ele a manteve mesmo durante a
época de maior expansão da Microsoft.
Duas vezes por ano, no período mais movimentado e frenético da história
da empresa, ele ainda assim criou tempo e espaço para se isolar durante uma
semana e não fazer nada além de ler artigos (seu recorde são 112) e livros,
estudar tecnologia e repetir sobre o contexto mais amplo. Hoje, ele continua
tirando folgas das distrações diárias de administrar sua fundação para apenas
pensar. Embora uma semana inteira pareça exagerado ou impossível, há
maneiras de reservar a cada dia um período para a reflexão. Uma prática que
considero útil é simplesmente ler literatura clássica (não um blog, nem o
jornal, nem o best-seller mais recente) durante os 20 primeiros minutos do
dia. Além de sufocar minha antiga tendência de verificar os e-mails assim
que acordo, isso deixa meu dia mais centrado.
Também amplia meu ponto de vista e me lembra de temas e ideias essenciais
o bastante para terem resistido à ação do tempo. Minha preferência é
literatura inspiradora, embora a escolha seja algo pessoal. Há muitíssimas
opções.
Só tenha o cuidado de selecionar algo que pareça eterno e que tenha sido
escrito antes de nossa época hiperconectada. Esses textos podem questionar
nossos pressupostos sobre o que realmente importa.
Se você pode investir duas horas por dia, duas semanas por ano ou mesmo
cinco minutinhos toda manhã, tanto faz; o importante é criar espaço para
escapar da sua vida assoberbada.