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Ritual Fúnebre Arísùn no Batuque RS

Este documento descreve os rituais fúnebres no Batuque do Rio Grande do Sul chamado Arísùn. Ele traça paralelos entre os rituais yorubás e como eles foram preservados no Batuque, explicando conceitos como a importância do culto aos ancestrais, os rituais da morte, funeral e luto. O documento também descreve em detalhes os rituais do funeral, velório, sacrifício animal e refeições durante o período de luto.

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Ritual Fúnebre Arísùn no Batuque RS

Este documento descreve os rituais fúnebres no Batuque do Rio Grande do Sul chamado Arísùn. Ele traça paralelos entre os rituais yorubás e como eles foram preservados no Batuque, explicando conceitos como a importância do culto aos ancestrais, os rituais da morte, funeral e luto. O documento também descreve em detalhes os rituais do funeral, velório, sacrifício animal e refeições durante o período de luto.

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ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS. 

Rudinei Borba

Pesquisador Independente e
Autodidata

Fevereiro / 2013

RESUMO
O propósito do nosso trabalho é estudarmos o ritual fúnebre conhecido como
 Arísùn no Batuque do Rio Grande do Sul, onde traçaremos um paralelo com a diáspora
tradicional  yorùbá, demonstrando que nosso culto preservou, mesmo que
resumidamente, a ritualística não aculturada  yorùbá. Através deste texto, talvez
possamos entender melhor os conceitos que envolvem a morte e o culto dos Éégún.

PALAVRAS CHAVES: Batuque,  yorùbá, morte, arísùn, éégún, ìgbàlè, ìsinkú,


ancestrais, funeral, velório, sono.

ABSTRACT
The purpose of our work is to study the funeral ritual known as Arísùn Batuque
in Rio Grande do Sul, where outline a parallel with the traditional Yoruba diaspora,
demonstrating that our worship preserved, even if briefly, the Yoruba acculturated not
ritualistic. Through this text, perhaps we can better understand the concepts that involve
death and the cult of Éégún.

KEYWORD: Batuque, yorùbá, death, arísùn, éégún, ìgbàlè, ìsinkú, ancestors, funeral,
wake, sleep.
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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2
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

SUMÁRIO

1.  Introdução.................................
Introdução........................................................
..............................................
..............................................
.................................5
..........5

2.  A Importância do Culto Éégún....................


..............................................
.................................................
..................................6
...........6

3.  A Morte...................
Morte.............................................
.................................................
..............................................
..............................................
.......................10
10

4.  O Ìsinkú (o Funeral)................


Funeral).......................................
..............................................
..............................................
.................................15
..........15

4.1.  A Exposição do Corpo Morto...........................................


Morto..................................................................
.....................................16
..............16
4.2.  O Preparo do Caixão........................................
Caixão...............................................................
...............................................
...............................18
.......18
4.3.  O Velório.................
Velório...........................................
.................................................
..............................................
..............................................
.......................20
20
4.4.  O Cortejo Fúnebre.......
Fúnebre..................................
..................................................
..............................................
.........................................21
..................21
4.5.  O Sepultamento........
Sepultamento...............................
..............................................
..............................................
..............................................
.........................22
..22

5.  O Arísùn......................
.............................................
..............................................
..............................................
.............................................2
......................233 

5.1.  O Sacrifício dos Animais na Noite do Sexto Dia.................


Dia........................................
.................................25
..........25 
5.2.  A Mesa do Café: A primeira ou a última refeição com o morto?..........................26 

6.  O Ìgbalè......................
.................................................
..................................................
..............................................
..........................................27
...................27

7.  Consideraçõess Finais.................


Consideraçõe Finais........................................
...............................................
...............................................
..............................29
.......29

8.  Referências Bibliográficas..........


Bibliográficas.................................
..............................................
..............................................
.............................30
......30

3
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

SUMÁRIO DE IMAGENS

Imagem 1..................
1............................................
.................................................
...............................................
...............................................
..............................33
.......33
Cortejo
Foto Fúnebre
tirada  yorùbá (1)
pela fotógrafa realizado
Veera Lehtona Rep. Pop. do Benin

Imagem 2..................
2............................................
..................................................
...............................................
..............................................
..............................33
.......33
Cortejo Fúnebre yorùbá (2) realizado na Rep. Pop. do Benin
Foto tirada pela fotógrafa Veera Lehto

Imagem 3..................
3............................................
..................................................
...............................................
..............................................
..............................34
.......34
Mulheres ( Ìsokún
 Ìsokún) despedindo-se do morto na Rep. Pop. do Benin
Foto tirada pela fotógrafa Veera Lehto

Imagem 4..................
4............................................
.................................................
...............................................
...............................................
..............................34
.......34
Bebida servida aos convidados do funeral na Rep. Pop. do Benin
Foto tirada pela fotógrafa Veera Lehto

Imagem 5..................
5............................................
.................................................
...............................................
...............................................
..............................35
.......35
Um descendente tendo contado com Éégún na Nigéria
Foto sem informação

Imagem 6..................
6............................................
.................................................
...............................................
...............................................
..............................35
.......35
Integrantes da aldeia levando tecidos novos para que fosse ofertado ao morto no
momento do preparo de seu funeral.

4
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

INTRODUÇÃO

O objetivo deste trabalho é estudarmos o nosso ritual fúnebre conhecido por


 Arísùn1 no Batuque do Rio Grande do Sul, buscando explicações filosóficas e culturais
na religião tradicional  yorùbá2, onde poderemos ter um entendimento mais amplo dos
nossos rituais, observarmos o quanto o nosso culto conseguiu preservar algumas
particularidades em relação ao praticado pela diáspora africana não aculturada.
Não adentraremos no vasto conteúdo ritualístico do nosso Batuque, como
número e cor de velas, cor das aves e da pelagem dos animais a serem sacrificados, de
como sacralizar um ìgbàlè3, como montar sacos do carrego, etc. Entendemos que este
assunto já foi discutido por outros autores afro-gaúchos.
Focalizaremos nosso trabalho no entendimento da importância do culto ancestral
no Batuque, tentando desmistificar o sentimento de medo do culto Éégún4  e
registrarmos o quanto
quanto preservamos sua ritualística. O trabalho se dividirá em cinco
partes, como segue:
A Importância do Culto Éégún;
A Morte;
O Ìsinkú (funeral);
O Arísùn;

O Ìgbalè.

1.  Podendo ser traduzido como “Aquele que viu o sono” (a tradução é nossa), assunto que será
amplamente estudado no decorrer do nosso trabalho.
2. Os Iorubás (em iorubá: Yorùbá) são um dos maiores grupo étno-linguístico ou grupo étnico na África
Ocidental, composto por 30 milhões de pessoas em toda a região. Constituem o segundo maior grupo
étnico na Nigéria, com aproximadamente 21% da sua população total.
3. Casa dos mortos, Ilé-Éégun, podendo ser traduzido como “terra dos ancestrais” (a tradução é nossa) .
4. Forma abreviada da palavra Egúngún, querendo dizer “Mascarado”, ou seja, espírito materializado de
um ancestral, antepassado.

5
 

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A IMPORTÂNCIA DO CULTO ÉÉGÚN

Cultuar Éégún é a forma de manter viva nossa ancestralidade, pois sem a


presença desta não seríamos nada, não teríamos vivido e com certeza não estaríamos
escrevendo este texto. Acreditamos que existe a necessidade de colocarmos a
ancestralidade numa posição mais viva e presente, em um patamar digno, sem falsos
dogmas ou misticismos, para que a mesma deixe de ser temida, ou até mesmo deixar de
ser confundida e ou vinculadas a um  Iwin5 ou até mesmo um Ajogun6 . 
Cultuar Éégún é o mesmo que cultuar o espírito de nossos mortos (ancestrais),
estes reverenciados em conjunto ou de forma individualizada no ìgbàlè.  Ser
reverenciado como Éégún  não é simples, pois o iniciado no culto de Òrìsà  deve ter
passado por princípios de condutas exemplares no àiyé 7 , vivendo dentro dos princípios
básicos de honestidade, moral, ética e um caráter digno de ser louvável até mesmo após
a morte.
Abímbólá8  (1971, p. 03-04) descreve muito bem importância do culto Éégún 
dentro do âmbito familiar e religioso, como segue:

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    

5. Espírito perturbador ou escurecido. Também conhecido como ser imaginário de forma humana.
6. São os Ajogun: Òfò – Prejuízos, Ègbà – Paralisia, Èjò – Problemas, Èpè – Maldição, Èwòn – Prisão,
Èse – qualquer outro malefício que possa afetar os seres humanos, entre outras energias maléficas.
7. Espaço visível que habitamos e que coexiste paralelamente com o espaço abstrato (òrun).
8. Wándé Abimbólá recebeu da maioria dos  Bàbáláwo o título  Àwíse Àgbàiyé  –
  – Porta voz mundial da
cultura yorùbá no mundo.

6
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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   

Através da fala de Abímbólá compreendemos o papel importante de um


ancestral para sua família religiosa, bem como, na forma cultuada dos mesmos, presente
 junto ao culto dos Òrìsà, nos ajudando, nos conduzindo a um bom caminho e dando
assistência as nossas vidas.
Percebemos também que os Éégún estão separados dos  Ajogun, que é suficiente
para entendermos que os nossos ancestrais não estariam em posição de nos causar danos
as nossas vidas, muito pelo contrário, o autor mencionado diz que eles nos ajudam a
superarmos nossos obstáculos da vida, afinal, somos seus descendentes vivendo

paralelamente no mundo visível.


Pensamos que render culto a um Éégún é tão importante quanto cultuar nossos
Òrìsà, pois um yorùbá acredita que não há um sem o outro . Um Éégún só será honrado
após a morte se tiver tido uma vida digna, podendo se tornar mais tarde um protetor de
sua família.
Quando um patriarca ou matriarca de nossa família está viajando 9, geralmente a
estrutura familiar fica abalada, mas com a ajuda contínua do ancestral que obteve o

9. Dentro do pensamento tradicional  yorùbá, nunca se a expressão “morrer”, onde para os mesmos um
ancestral nunca morre, pois seria o mesmo que aniquilar sua existência. Acredita-se que a pessoa faz
Sùn  (dorme) e ou está viajando, o que dá o entendimento que poderá voltar de viagem a qualquer
momento, ou seja, reencarnando num de seus descendentes.

7
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

privilégio de anteceder do òrun10, acaba regrando os bons costumes e o caráter de seus


descendentes.
Muitas vezes quando um filho acaba caindo no submundo das drogas, no

alcoolismo, no roubo e todos os aspectos influenciados pelos  Ajogun, são comuns até
mesmo dentro da nossa cultura familiar, escutar: “Se o seu (pai) e ou no caso sua (mãe)
estivesse vivo, queria ver o que o mesmo ou a mesma acharia de seu comportamento”
(o grifo é nosso).
Um ancestral insatisfeito com os comportamentos sociais inaceitáveis de sua
família, onde citamos o adultério, o desrespeito aos mais velhos, às transgressões de
interdições ou o não cumprimento de leis que regem a vida social do povo, muitas vezes
o Éégún  poderá atuar como conselheiro, avaliando as situações, aconselhando seus
filhos e devotos, para que a ordem seja restabelecida. Além de prestar auxílio ligado à
ordem social, os ancestrais são evocados para auxiliar no progresso da agricultura,
garantindo chuvas e boas colheitas, etc.
A melhor maneira de ser reconhecido após a morte é vivendo uma vida justa,
com caráter e dignidade, podendo assim ser lembrado por seus descendentes, caso
morra acima dos setenta anos, estará maduro para fazer sua jornada de retorno até o
òrun, sem ser influenciado
i nfluenciado nesse caminho de volta.
Pensamos que assim que uma pessoa tenha alcançado o seu tempo de vida na
terra, teríamos que efetuar uma consulta oracular para saber qual a sua atual situação no
òrun, onde  Ifá e ou Òrìsà mostrará se foi uma morte natural ou castigo por algum tipo
de transgressão. O oráculo também poderá mais tarde indicar se o “viajante” já foi
 julgado merecedor,
merecedor, ou não, de ser
ser cultuado como Éégún.
Corroborando nosso pensamento, temos a parte de um documentário chamado
“O mensageiro entre os dois mundos”  onde o tema principal era mostrar as viagens de
Pierre Verger11  na África, explicando locais por onde passou quando efetuava suas
pesquisas. No final deste documentário mostra a partida 12 de Verger para o òrun, onde

10. Além, espaço sagrado, mundo invisível onde habitam as divindades.

11. Nasceu
culto aosemorixás.
Paris,Foi
no na
diaÁfrica
4 de novembro
que Vergerderecebeu
1902, mais tardedetornou-se
o nome Fatumbi,fotógrafo
"nascido edeum estudioso
novo graças do
ao
 Ifá", em 1953. 
12. Verger parte em jornada ao Òrun em 11 de fevereiro de 1996.

8
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

seu sacerdote consulta o oráculo de Ifá13 através dos ikin14 para saber qual era a situação
de Verger no outro mundo. O resultado da consulta causou grande emoção, tanto de
Gilberto Gil (responsável pela apresentação do documentário), como também das
demais pessoas envolvidas na gravação. Verger havia alcançado seu status de ancestral,
dando sequência aos seus rituais fúnebres.
Encontramos importante texto15 de autoria do Bàbáláwo Ifágbenusolà Aworeni,
demonstrando que não há malefício algum em cultuar Éégún, como segue:

 8     8  9


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           
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Através da fala de Ifágbenusolà podemos enten


entender
der que o culto dos Eégún foi mal
compreendido na diáspora afro-brasileira, onde alguns adeptos acreditam ser prejudicial
tocar as roupas de Eégún. O autor nos ajuda a concluir o raciocínio dessa primeira parte
do nosso trabalho, descrevendo claramente a importância do culto ancestral, bem como,
desmistifica o algum tipo de perigo no culto.
Acreditamos que o medo pode estar dentro de nós, pois se não termos uma boa
conduta na terra, como poderemos cultuar nossos Éégún? Pensamos que atualmente
algumas pessoas não querem viver a vida de forma regrada, passando a ignorar algumas
al gumas
formas comportamentais impostas por nossa sociedade e que também nossa
ancestralidade poderia desqualificar.

13. Oráculo sagrado de Òrúnmìlà, o Deus da adivinhação Yorùbá.


14. Caroço do fruto do dendezeiro, utilizado para adivinhação no oráculo de Ifá.
15. Disponível em INTERNET, ver in: <http://www.vodoo-beninbrazil.org/br/sintese.html>
http://www.vodoo-beninbrazil.org/br/sintese.html >

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ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

Temos a intenção de causar um questionamento, que possamos entender o


porquê não cultuar nossa ancestralidade? Por que temer os Eégún? Por que temer nosso
pai e ou mãe que não vivem mais neste mundo? Pensamos que a resposta a essas
perguntas se encontram no entendimento das diferenças entre um Éégún e um espírito
qualquer que não atingiu seus status de culto. 
Também pensamos que o medo do culto Éégún possa estar associado ao fato de
se lidar com a morte, mas que na próxima parte do nosso texto poderemos estudá-la
melhor.

A MORTE

Na nossa sociedade o medo da morte faz parte do nosso cotidiano, onde ffazemos
azemos
de tudo para aumentar nossos anos de vida, mas acabamos esquecendo que a melhor
maneira de se viver muitos anos é através do nosso caráter.
Omotobàtálá16 (informação pessoal) nos diz que: "Ser mentiroso não priva uma
 pessoa de se fazer rico. Romper um contrato não priva alguém de ter uma idade
avançada. Porém o dia que morrer, aí terá problemas".

Na religião tradicional  yorùbá  acredita-se que teremos um julgamento após


nossa morte, pois os Òrìsà não apoiam os mentirosos, ladrões, injustos, degenerados,
adúlteros, assassinos, etc. Os Òrìsà  mandam sempre seus seguidores dizer a verdade.
Omotobàtálá (informação pessoal) ainda diz: "[...] Seja sincero, mesmo que sozinho! Seja
verdadeiro, faça o bem! Aquele que é verdadeiro, as divindades o apoiarão! Diga a verdade,
mesmo que sozinho [...]”.

Através do pensamento de Omotobàtálá fica  visível que a religião  yorùbá  possui


limites e é regrada no bem, deixando sempre de lado o mal.
Segundo a cultura Yorùbá o òrun, também conhecido como “espaço invisível” é
o nosso local de origem e onde devemos retornar. Dentro desta cultura, a melhor coisa é
estar vivo, portanto o àiyé  seria
  seria o melhor lugar para vivermos. Segundo nossa crença,

esta é totalmente baseada na reencarnação, diferente um pouco do pensamento


16.  Aworìsà  e escritor Obalufon Osvaldo  Omotobàtálá  realizou pesquisas e se iniciou na Rep. Pop. do
Benin, onde publicou diversos livros explicando a cultura Yorùbá Nàgó.

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ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

kardecista que acredita numa reencarnação em qualquer parte do mundo, o  yorùbá tem a


crença numa nova existência dentro do mesmo âmbito familiar.
Segundo (Bascom, 1960, p. 06) o fato dos humanos poderem escolher o seu

destino não se limita em saber quando de seu regresso a seu criador, ou seja, a o seu
local de origem. Portanto uma pessoa nunca saberá quando irá morrer, onde informa:

 < -         
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Ao ler o material fornecido por Bascom, chegamos ao entendimento que fica um


tanto difícil saber quando uma pessoa morrerá, pois poderá ser através de seus atos na
terra, como também com influência de alguma dessas forças negativas, que
mencionamos anteriormente. À única divindade que sabe o momento de uma pessoa
run, pois este retira o Èmí 17  no momento que decidir.
partir (morrer) é Oló      run
Segundo o texto18  do Olúwo Ifátókun Itaniy19, fornece claramente esse
pensamento quando diz:

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17. Traduzido como “Espírito”, ao contrário de èémí (respiração).


INTERNET , ver in: <www.edibere.com.ve>
18. Disponível INTERNET, www.edibere.com.ve >

19. Olúwo Ifátókun Itaniy


adisa mokoranwale   é descendente
, representante religioso
de todos  no Àràbà
do atual
 Bàbáláwo mundo.Àgbàiyé, o Chief Aworemi Awoyemi
20. O Yorùbá acredita num trajeto longo entre o òrun (mundo abstrato) e o àiyé  (mundo
 (mundo físico), por isso
chamam a pessoa que morreu de viajante (a citação da nota é nossa).

11
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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-    "  (A tradução é nossa)

Através da fala do bàbáláwo, realinhada com o pensamento de Omotobàtálá,

demonstra que existe crença de um julgamento após a morte. Ifátókun Itaniy ainda diz:

 B  * *  2    $  
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 *  F A$ -     
      (A tradução é nossa). 

Ao ler a parte do texto, entendemos que existe um caminho longo a ser traçado
pelo indivíduo antes do nascimento, sendo importante que a pessoa esteja preparada
para viajem a caminho da terra. Estando este pensamento adequado à nossa crença,
pensamos que existe também o trajeto de retorno ao òrun  após o término de nossa
existência aqui nesse plano.
Dentro da tradição yorùbá a morte é conhecida como  Ikú, sendo uma entidade
muito temida por ser o “Rei dos Ajogun”. Entendemos que o medo da morte não deveria
ocorrer quando estamos vivendo de acordo com a filosofia imposta por nossa cultura,
onde podemos consultar as divindades através do oráculo e fazer as oferendas
recomendadas,
recomendadas, onde possamos ser vitoriosos nos obstáculos de nossas vidas.
Ifátókun  Itaniy  informa também: “[...] O apego às coisas materiais do mundo
cria medo da morte. Quando um homem morre, se transforma em um Egúngún, ou seja,
em um mascarado [...]”. O bàbáláwo  fortalece a crença que não devemos viver
apegados a bens materiais.
Bascom (1960, p. 403-404) nos ajuda a entender o caminho que um espírito
possa tomar após a morte:

 A  A# 


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12
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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 22  

Através da fala do autor, temos um melhor entendimento do mundo abstrato


òrun, onde o mesmo chamou de céu, informando também às possíveis punições que
possamos sofrer após a morte. Através dos estudos apresentados, podemos falar mais
detalhadamente sobre “Ikú”, “o Rei dos  Ajogun”, estando este encarregado de levar o
espírito da pessoa de volta ao òrun.
 Ikú  também é conhecido por Oníkó, este último era seu nome em tempos
primordiais e pela sua ação de causar a morte, a expressão  Ikú ficou mais conhecida
 Ikú Oníkó
atualmente, ou seja,  é a sua qualidade e  é seu nome mais primitivo.
Segundo Ifátókun  Itaniy, ainda em seu site na web, relata que “Ikú Oníkó é um
servente de Olórun, sendoi criado para trazer de volta à alma do viajante a cidade do
céu”. Informa ainda o itan do odù Ogbe Oyekún:

 % %& %2 %5/ 


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13
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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 "             
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        " 
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 *   #    +    +
           
-         5# 
  (a
tradução é nossa). 

Ao ler o texto entendemos que  Ikú realmente tinha um nome mais primitivo, e


também considerado muito importante para o cumprimento do ciclo natural da vida,

obedecendo apenas a Olórun.


Para nós a morte de uma pessoa jovem é vista como sendo uma ttragédia,
ragédia, por não
ter alcançando seu tempo na terra, onde esta pode ter sido castigada por alguma
divindade ou influenciada por alguma força maligna, podendo ser ajogun e ou Àbíkú21.
Com essas informações mais detalhadas, podemos melhor compreender um essa
etapa do nosso ciclo de vida, onde acreditamos, assim como os  yorùbá, a morte ser
apenas o recomeço de uma nova existência.
Nenhuma pessoa pode escapar de um dia morrer, ou seja, a morte é certa, a vida
não. É preciso encarar a morte como um fato natural e viver a vida plenamente, curtindo
ela da melhor maneira possível, de preferência respeitando todas as pessoas, amando o
próximo e na medida do possível perdoando quando preciso. Devemos consultar o
oráculo para saber quais as oferendas a executar, contando com ajuda de Èsù22 é claro.

21. Significa “Aquele que nasce para morrer”, uma


uma sociedade que vive entre o òrun  e o àiyé  que
  que traz
desgraça para famílias, enviando uma criança que brevemente retornará, morrendo antes de alcançar
sua
egbémaior
òrun idade, estesles
des àbíkú, estão ligados
enfants qui aos  Ajogun
naissent . Para
pour sabermaintes
mourir mais, ver:
fois Verger,
. BulletinPierre.  La société
de l'IFAN, vol.
XXX, Série B, nº 4. (Dakar), 1968, pp. 1448-1487
22. No Batuque o Òrìsà Èsù é conhecido pela sua qualidade, onde é chamado de Bàrà.

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ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

O ÌSINKÚ (O Funeral)

No nosso Batuque a palavra  Ìsinkú23  não é muito conhecida, por não termos
ainda a vivência do idioma  yorùbá, mas o funeral está muito presente no nosso culto.
Sabemos que quando um adepto do Batuque falece são executados os rituais
fúnebres, mas poderemos entender através do nosso estudo que conseguimos preservar,
mesmo que resumidamente, a forma ritualística herdada dos nativos  yorùbá.
Analisaremos o quanto os cultos, o afrodescendente e o nativo, estão realinhados em
seus conceitos de rito.
A morte24 nas religiões Africanas é uma fase de transição da vida, e requerem

ritos de passagens. Para o yorùbá, morrer com idade avançada requer um funeral digno
(com muita festa), pois estes retratam uma boa morte e vista dessa crença, muitas
pessoas preparam de antemão o seu próprio funeral, guardando dinheiro e encarregando
pessoas para efetuarem a cerimônia fúnebre. Este pensamento não difere no Batuque,
onde muitas vezes o sacerdote também deixa algum descendente encarregado de
efetuarem seu funeral, antes mesmo de virem a partir em direção ao òrun.
A morte de um adepto do Batuque com idade avançada não interessa somente à
sua família e ao grupo de parentes e amigos, mas envolve todas as pessoas, uma vez que
este falecido gozava em vida de status, passando a ser reconhecido pelos seus atos por
toda sociedade religiosa, acabando envolvendo muitas pessoas de outras casas em seu
funeral.
Padre Toninho Nunes documentou um texto 25 que vem de encontro com nosso
pensamento, onde relata um funeral tradicional na Costa do Marfim, onde relata:

     2  2 "     -


            6 

23. Traduzido como “ritual da morte”, ou seja, funeral, enterro, sepultamento.


24. Utilizaremos no nosso texto a expressão “morrer”, mesmo sabendo que
que esta não é usual pelos povos
 yorùbá, assim nosso texto ficará melhor entendível.
http://www.pime.org.br/mundoemissao/culturaculmorte.htm  
25. Disponível INTERNET, in: http://www.pime.org.br/mundoemissao/culturaculmorte.htm

15
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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Através da fala do padre, fica evidente que são executados rituais semelhantes
do nosso Batuque, envolvendo dança, roda ritualística, festa e a presença do tambor nos
rituais.

A Exposição do Corpo Morto

Dentro dos rituais fúnebres do Batuque há uma exposição do corpo do morto que
teve grande destaque em sua vida. Utilizando ainda o texto de padre Toninho, temos
uma semelhança com o praticado pelos povos africanos não aculturados, como segue:

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16
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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Ao ler esta parte, percebemos que o Batuque também mantém vivo e presente a
forma de expor o corpo do morto, que é vestido com sua melhor vestimenta ritual, onde
os adeptos prestam suas últimas homenagens. Seguindo relato de padre Toninho, o
mesmo informa:

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Através do relato, entendemos que o culto do Batuque está muito próximo ao


tradicional africano não aculturado, onde os rituais fúnebres dos sacerdotes com nível
elevado são muito semelhantes entre ambas às culturas.
26
Segundo trabalho realizado pela Universidade da Geórgia , mostra à
importância da cerimônia fúnebre dos yorùbá, como segue:

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26. Importance
Disponível INTERNET, ver in:
of ceremonies in http://www.africa.uga.edu/Yoruba/unit_18/cultureunit.html
Yoruba Culture (Illustrations of Yoruba Ceremonies:  Naming;
Wedding and Funeral).

17
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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        (a tradução é nossa).

Ao ler o texto
t exto percebemos que o Batuque Afro-Sul preservou essa mesma forma
de prática no culto, onde efetua os rituais fúnebres apenas de pessoas que atingiram

idade avançada e que merecerão serem lembradas após seu final de vida.
O texto ainda registra que a morte prematura é considerada trágica entre ambas
as culturas, onde nos faz entender que nem todos os espíritos poderão se tornar Éégún.

O Preparo do Caixão

No Batuque o caixão pode ser preparado no templo religioso, vestindo o defunto


com suas roupas religiosas, mas na maioria dos casos não são efetuados banhos
ritualísticos antes de por o morto no caixão, diferenciando nessa parte do costume
tradicional yorùbá.
Corroborando nosso estudo, Elenito de Souza27, (2006, p. 59) registrou que: “só
são efetuados os rituais funerários completos se o iniciado possuir nível elevado dentro
do culto, caso contrário os rituais terminam no momento da preparação do caixão”.  
Através da fala do autor, entendemos que não é realizado cortejo fúnebre nem
homenagens, caso à pessoa não tenha um nível elevado dentro da nossa sociedade
religiosa.

27. Hélio Elenito de Souza é conhecido no meiomeio religioso do Batuque como


como “Pai Hélio de Xangô”,
sendo descendente religioso do saudoso Pai Adão de Bará (Èsù Bí-omi) e iniciado a mais de setenta
anos. O autor é um dos poucos a escrever sobre o ritual de Éégún no Batuque do nosso Estado.

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ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

Segundo Omotobàtálá (2003, p. 20) nos informa sobre os costumes yorùbá Nàgó 


da preparação do corpo do morto, para posteriormente ser velado:

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nossa).

Através da fala de Omotobàtálá, percebemos que palavra  Arísùn  é traduzida


como  Arésùn. Não é nossa intenção dizer qual a forma certa da tradução da palavra,
onde preferimos utilizar a nossa interpretação.

O autor informa que há um momento para se chorar no culto, onde pensamos


que seja feito uma consulta oracular para ver que tipo de morte a pessoa teve, como
vimos anteriormente. Entendemos que caso
caso for uma morte natural seria dado um tipo de
cerimônia, a com honras, diferente de uma morte trágica, onde seria motivo de grande
tristeza e choros.
Essa mesma importância ritual de preparar o corpo do morto e dar o devido tipo
de enterro foi registrada por Babayemi (1980 p. 49), onde diz:

 %          3#   #  


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"   2          

19
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

$   #   42"        # 
        0  <  

       - +    4" #
        "  @S  
 2 #     2  4"   2   #
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*      (a tradução é nossa). 

Através da fala do autor percebemos que são feitos sacrifícios na cova do morto,
diferenciando do nosso culto do Batuque, onde vivemos numa cultura “social” diferente
da yorùbá. Ao estudarmos esse material tradicional,
t radicional, entendemos um pouco mais porque
efetuamos um funeral diferenciado dos demais cultos religiosos do Brasil.
Notamos também no texto a preocupação de se efetuarem rituais durante os

próximos dias após a morte do indivíduo, assegurando que seu espírito alcance o
caminho correto após sua morte. Esta parte será mais bem discutida na sequência do
nosso trabalho, quando abordaremos a mesa do café efetuada no Batuque.

O Velório

Segundo Elenito de Souza, (2006, p. 125) diz que: “[...] são servidas aos
visitantes do velório, bebidas alcoólicas, café, biscoitos, pães, etc.[...]”.  

O autor em sua obra (p. 126) também relata que: “[...] é efetuado roda em volta
do caixão para serem entoados cantos de rezas fúnebres pelo Onílù [...]” e grifa que
este procedimento só é realizado quando o morto tenha nível elevado no culto .  O
mesmo não nos fornece a explicação que esse procedimento serve para homenagear o
morto no momento do enterro, como feito pelos nativos yorùbá, focando sua explicação
apenas nos rituais praticados dentro do Batuque.

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ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

O Cortejo Fúnebre

Após o velório, o caixão é levado até o cemitério através do cortejo fúnebre, este
realizado ao som do “tambor chocho28” para render homenagens ao falecido. O caixão é
embalado até sua chegada ao cemitério, onde os participantes seguem atrás, abanando
lenços brancos e despedindo-se do morto.
Omotobàtálá (2003, p. 22) atribui a posse dos lenços brancos às mulheres,
atribuindo as mesmas a qualidade Ìsokún, como segue:

  * "     2 >  
    +?     %   
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 "  JG+' 
JG+' 
L >?  (a tradução é nossa).

No ritual do cortejo no Batuque o onílù  entoa sempre o àdúrà-orin  (reza


cantada)  de despedida do morto, onde podemos informar sua transcrição fonética, bem
como uma “possível” tradução da mesma, como segue: 
Onilù: A tè tè ko là’wo

Pronúncia: Atétéko láuô

(Nós veneramos, cultuamos, não desapareça para o culto).


 Dáhùn (Resposta): Fà’ra fó rì là’nà a tè tè ko là’wo fà’ra fó rì là’nà

(Lentamente o corpo dança e é plantado, penetrando no caminho, nós veneramos,


cultuamos, não desapareça para o culto, lentamente o corpo dança e é plantado,
penetrando no caminho). 
Através do estudo da “possível” tradução, pensamos que o caixão é embalado
devido alusão à reza entoada pelo cortejo fúnebre. Entendemos também que o apelo

28. No Batuque o Onílù  (tamboreiro) é encarregado do toque para o ritual fúnebre de Éégun, onde o
mesmo deixa soltas as cordas que esticam o couro do tambor, fazendo com que o mesmo produza
um som chocho, diferente do som estridente tocado para o culto aos Òrìsà.

21
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

feito através da reza cantada, serve para que o morto não se perca ou desapareça no
caminho de retorno ao òrun.

O Sepultamento

Como vimos anteriormente, no Batuque também se utiliza os lenços brancos


para despedida do morto, onde estes são depositados dentro do buraco onde o caixão é
colocado. Abímbólá (2000, p. 39) informa que:

     #   2 >?   
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*  1&2+ 
   A' 
      4"    
#    0    (a tradução é nossa).

Ao ler Abímbólá, entendemos que esse buraco faz alusão ao acesso de um


ancestral ao outro mundo, o òrun. O sepultamento é parte importantíssima do culto,
tanto no Batuque, quanto na tradição  yorùbá  não aculturada, onde encontramos
importante texto29 de Laura Fortes, intitulado “Egúngún: The Masked Ancestors of the
Yoruba” que acreditamos ser de suma importância para completar nosso entendimento,
como segue:

 H %      *     "
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29. Disponível na INTERNET, ver in: <http://www.mythicarts.com/writing/Egungun.html>


http://www.mythicarts.com/writing/Egungun.html >

22
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

 *      "        
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 *  4    3   (a tradução é nossa).

Segundo a fala de Laura Fortes30, podemos ver o quanto é importante dar um


funeral adequado para nossos ancestrais, pois os mesmos poderão não responder a nosso
favor do òrun. Somos em partes, responsáveis pelo caminho que um ancestral deve
tomar após sua morte, portanto devemos nós do Batuque sempre ter em mente o quanto
isso é importante e necessário.

O ARÍSÙN

No Batuque a expressão  Arísùn é usada para informar o dia em que serão


efetuados os rituais fúnebres, estes que geralmente tem seu início no sexto dia após a
morte do adepto religioso. Neste devemos ter adquiridos todos os animais, comidas e
apetrechos pertinentes para dar início a ritualística.
Entendemos que a expressão  Arísùn  faz alusão a aquelas pessoas que
participaram da primeira etapa do culto, ou seja, a parte do velório e do sepultamento,

que posteriormente poderão ser chamadas de “Aquele que viu previamente o sono”,
onde o espírito não morre
morr e e sim descansa (dorme), como vimos anteriormente.
Acreditamos que o Éégún  só será homenageado após sabermos se o mesmo
alcançou seu status de ancestral, como vimos no caso do saudoso Verger apresentado
por nós. Caso seja positiva a resposta oracular, pensamos que o Éégún será acordado
neste sétimo dia, mencionado também por Omotobàtálá   (2003, pg. 23) quando utiliza a
expressão: “fifa Éégún okú wàlé (trazemos o Éégún do morto a casa)” 
A expressão apresentada
apresentada pelo autor dá o entendimento de trazermos o espírito do
morto de volta a casa, caso esse venha a ser instalado no ìgbàlè para ser homenageado

30. A autora do título em questão é PHD de uma universidade


universidade da Pensilvânia.

23
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

por seus descendentes, bem como, para poder continuar agindo como intermediário
entre os adeptos do culto.
Pensamos que nesse instante o Éégún  passa a ser um protetor de sua família

instalado no ìgbàlè, mas entendemos que o mesmo também poderá ajudar seus
descendentes mesmo que não instalado “individualmente”, onde passará a ser cultuado
na forma ancestral coletiva, desde que tenha
t enha merecimento é claro.
Thompson Drewel (1992, p. 41) menciona que o ritual é dividido em “sete”
partes, ou seja, em sete dias para ter êxito no envio do espírito do falecido ao òrun, pois
acredita também que o espírito não desaparece com a morte. 
Drewel diz que o funeral marca o fim e o começo de uma nova
vida, denominando o primeiro dia como “Ojo Ìsinkú” sendo o mais importante e
também o primeiro dia do ritual funerário. Classifica o terceiro dia de “Itaokú”, estando
reservado para a festa e celebração. O quarto dia, “Irenokú”, é o dia do jogo adivinha
tório e ao sétimo dia, o “Ijekú”, marca o fim da celebração ritual, que na qual
chamamos no Batuque de Arísùn.
O autor na mesma página, explica melhor a ritualística empregada nesses dias,
como segue:

 = %$ A/0 


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24
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

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+@  (a tradução é nossa). 

Através do texto do autor, pensamos que o Batuque conseguiu preservar os


rituais ao longo dos tempos, onde ambos envolvem sete dias para serem realizados os
preceitos. Chama-nos a atenção que Drewel também menciona o sétimo dia como sendo
o dia em que poderemos saber se o morto alcançou seu status de ancestral ou não,
igualmente como vimos anteriormente.

O Sacrifício dos Animais na Noite do Sexto Dia

Na noite do sexto para o sétimo dia no Batuque, são realizados os sacrifícios no


ìgbàlè  para homenagear o ancestral, caso esse tenha merecimento. Nesta noite os
animais sacrificados são limpos para que sejam cozidos e preparados no dia seguinte.

25
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

Ao sétimo dia são feitas as comidas ritualísticas, sendo uma parte das mesmas
oferecidas ao ancestral no  Ìgbàlè e a outra aos participantes do culto. Neste sétimo dia,
bem cedo, será feita a “primeira” ou “última” refeição com o morto.

A Mesa do Café: A primeira ou a última refeição com o falecido?

Na manhã do sétimo dia é montada no chão do ilé , uma mesa de café para
homenagear o Eégún, onde apenas iniciados com grau elevado participam da refeição,
sendo reservada a cabeceira da mesa para o Eégún. São oferecidas como oferendas as
comidas que a pessoa mais gostava em vida, bem como, outras preparadas
ritualisticamente.
É comum escutarmos no nosso culto que o Eégún  recebe suas “últimas”
refeições nos rituais do sétimo dia, por não termos ainda o “culto individualizado” de
Éégún no nosso Batuque, onde neste culto o espírito é “mascarado” e sentado no ìgbàlè.

Acreditamos que só cultuamos no Batuque os Éégún  na sua forma ancestral


coletiva, usando o ìgbàlè para homenagear todos os ancestrais de uma só vez, diferente
da forma menos usual que mencionamos. Com esta prática “coletiva”, temos a
impressão que o Éégún recebe a oferenda pela última vez no ìgbàlè. 
Pensamos que caso uma pessoa não tenha morte madura, morrendo muito cedo,

não deveríamos efetuar a mesa do café, terminando o culto no momento da preparação


do caixão.
Após o ritual da mesa do café, efetuamos refeições ao longo do dia, utilizando os
animais sacrificados na noite anterior, bem como, servimos bebidas alcoólicas e café
preto para os participantes. Esse nosso banquete é igualmente realizado nos funerais
 yorùbá, onde tivemos o entendimento através dos trabalhos mencionados anteriormente.

No final deste dia também praticamos o ritual da preparação dos sacos do


carrego, que constam os pertences do morto, bem como, seus objetos ritualísticos de
culto aos Òrìsà. Estes objetos são quebrados e colocados dentro dos sacos, juntamente
com as oferendas propiciatórias, sendo levados de volta a sua origem, podendo ser no
mato, rio ou mar.

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O ÌGBÀLÈ  

Ao pesquisarmos em dicionários tradicionais Yorùbá, não chegamos ao


entendimento da palavra  Ìgbàlè,  então efetuamos possíveis interpretações da mesma.
Dizemos “possíveis” porque não achamos material que comprove o verdadeiro
significado da palavra, então a tradução foi feita por nós.
Segundo o dicionário “A dictionary of the yoruba language” (2001, p. 110) a
palavra “IGBA” tem alguns significados dependendo de sua acentuação, como segue:

X2F  -  "       

 
A2F 
A2F  =
 =

A2+F <2    


A2+F <2
  + +  *
X2+F 
X2+F

     +


A2F 
A2F

    *  


A2F 
A2F

   
X2+F 
X2+F

Encontramos no mesmo dicionário o significado da palavra “ILE”:

F M M
A' 

 >  ? 
 >
A' %/0 

Ao verificar as traduções das palavras, pensamos que poderia ter o significado


de i + àgbà + ilè traduzido como “terra ou chão dos anciões”, que nos pareceria mais
coerente devido à proposta do nosso trabalho, onde pensamos que somente os ancestrais
“dignos” que alcançaram a totalidade do tempo na terra, poderão assim ser
reverenciados.
O ìgbàlè  é uma pequena casa feita geralmente no lado direito, da parte dos
fundos do templo Ilé-Òrìsà31, onde é escavado um buraco retangular no solo para serem

31. Casa dos Orixás, templo religioso.

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efetuados os sacrifícios para os Eégún. Para um  yorùbá é através desse local que os
mortos seguem em viajem até o òrun.
Abímbólá (1997, p.71) atribui a terra como o local de descanso dos ancestrais,

como segue:

 B     1&2+ 


 "    
 *  " *  *    #   
 2# #    4  #F  +  
 24         24 *
         "   ,
   " #   #   24    (a
tradução é nossa).

Geralmente neste buraco dentro da casinha são depositadas velas, moedas,


comidas ritualísticas, bem como apetrechos que o ancestral mais gostava em vida. Não
acreditamos que este espaço sirva apenas para efetuarem rituais de desligamento do
morto, e sim num local onde poderá ser invocado o ancestral familiar de maneira
coletiva.
Não acreditamos que este local deva ser usado para algum uso de feitiços como
alguns acreditam, pois como poderemos usar este espaço sagrado, onde respondem
aqueles que após a morte julgam nossos comportamentos? Pensamos que seria o mesmo
que fazer algo errado e ser condenado neste mesmo momento, pois através do ìgbàlè, os
Eégún são os guardiões do Ilé  contra
 contra espíritos maléficos e escurecidos.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acreditamos que através da nossa criação católica, acabamos criando medo de


lidar com o a “morte”, criando certo pânico em se lidar com nossos mortos. Temos que
ter em mente que diversas culturas religiosas homenageiam os mesmos.
O propósito do nosso trabalho foi tentar mudar a imagem negativa que a palavra
Éégún causa atualmente em algumas pessoas, onde acabamos generalizando qualquer
espírito que viveu nesse plano baixo esse nome. Entendemos que um espírito só recebe
o nome de Éégún  por merecimento, passando a viver junto dos Òrìsà  e de nossos
demais ancestrais no òrun.
Não foi nosso propósito discutir toda ritualística do Batuque, e sim tentar

mostrar o quanto conseguimos preservar nossos rituais através dos tempos, sem tentar
resgatar nada dos mesmos.
Tentaremos todos viver plenamente para que possamos ultrapassar os setenta
anos, para que tenhamos um funeral digno e merecedor de grandes homenagens, estas
podendo ser realizadas pela sociedade e a religião que pertencemos, ou seja, o Batuque
Afro-Sul.

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Tadução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura, Publicado em : Saída de Iaô, cinco
ensaios sobre a religião dos orixás  – Pierre Verger, Organização de Carlos Eugênio
31
 

ARÍSÙN - O Ritual Fúnebre no Batuque do RS – Rudinei Borba

Marcondes de Moura, Fundação Pierre Verger, Editora Axis Mundi, 2002. Trancrição e
notas de: Luiz L. Marins, São Paulo, 2011, in, Internet, Revista Olorun, n. 06, Outubro
de 2011, <http://www.olorun.com.br > e <http://culturayoruba.wordpress.com>

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WOLFF, Erick.  A Entronação do Aláààfin e sua conservação: a nação Kanbina, no
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32
 

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IMAGENS

Imagem 1- Cortejo Fúnebre yorùbá (1) realizado na Rep. Pop. do Benin

Foto tirada pela fotógrafa Veera Lehto

Imagem 2- Cortejo Fúnebre yorùbá (2) realizado na Rep. Pop. do Benin


Foto tirada pela fotógrafa Veera Lehto
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Imagem 3- Mulheres ( Ìsokún


 Ìsokún) despedindo-se do morto na Rep. Pop. do Benin
Foto tirada pela fotógrafa Veera Lehto

Imagem 4- Bebida servida aos convidados do funeral na Rep. Pop. do Benin


Foto tirada pela fotógrafa Veera Lehto
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Imagem 5- Um descendente tendo contado com Éégún na Nigéria


Ni géria
Foto sem informação

Imagem 6- Integrantes da aldeia levando tecidos novos para que fosse ofertado ao morto
no momento do preparo de seu funeral.

Foto tirada por Padre Toninho e divulgada no site informado no nosso texto.

 
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Rudinei Borba
Rudinei Borba
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