QUADRO SINÓPTICO DA FILOSOFIA MEDIEVAL
ANTECEDENTES NA ANTIGUIDADE
JUDAÍSMO
PLATÃO (427-347)
ARISTÓTELES (384-322)
ESTOICISMO (sécs. III a.C.-III d.C.)
Filo de Alexandria (15 a.C.-50 d,C.)
CRISTIANISMO
NEOPLATONISMO (séc. III d.C.-VI)
PLOTINO (203-269)
Porfírio (233-300)
PATRÍSTICA (sécs. II-VIII)
Período Apologético (séc. II)
Padres Gregos: Padres Latinos:
São Justino (c. 150)
Tertuliano (160-230)
Gnosticismo (sécs. II-III): Valentino (c. 100-c.160)
Período Doutrinário (200-450)
Escola de Alexandria: Clemente de Alexandria ( -215)
ORÍGENES ( -254)
Escola de Cesareia da Capadócia: São Gregório de Nazianzo (330-390)
São Basílio (330-379)
São Gregório de Nissa (335-394)
SANTO AGOSTINHO (354-430)
Período Tardio (450-750)
PROCLO (410-480))
PSEUDO DIONÍSIO AREOPAGITA (c. 500) BOÉCIO (480--525)
Fechamento da Escola de Atenas por Justiniano (529)
São Máximo Confessor (580-662)
São João Damasceno ( -749)
ESCOLÁSTICA (sécs. VIII-XV)
Pré-Escolástica (séc. VIII-IX)
Renascimento Carolíngio: Alcuíno (c.740-804), Rabano Mauro (c.780-856)
JOÃO ESCOTO ERIÚGENA (c.800- c.877)
Primeira Escolástica (sécs. XI-XII)
Dialéticos e Antidialéticos: Berengário de Tours (c.1000-c.1088), Pedro Damião (c.1007-1072)
O Problema dos Universais: Roscelino de Compiègne (c.1050-c.1121), Guilherme de Champeaux (1060/70-1122)
SANTO ANSELMO (1033-1109)
PEDRO ABELARDO (1079-1142)
Escola de Chartres:
Gilberto de la Porrée (1085/90-1154), Teodorico de Chartres ( c.1100 -c.1157), João de Salibury (1115/20-1180)
Escola de São Vítor:
Hugo de São Vítor (c.1096-1141), Ricardo de São Vítor (1140/50 -1173)
São Bernardo de Claraval (1090-1153)
ISLÃ (séc. VII-)
Filosofia Árabe e Judaica (sécs. IX-XII)
Filósofos Árabes: Filósofos Judeus:
Alfarabi (c.870- c.950)
AVICENA (=Ibn Sina) (980-1037)
Algazel (=Al-Ghazali) (1058-1111) Avicebron (= Ibn Gabirol) (1021/2-1057/8)
AVERRÓIS (=Ibn Rushd) (c.1126-1198) MAIMÔNIDES (1138-1204)
Livro das Sentenças de Pedro Lombardo (1095/1100-1160)
TRADUÇÕES DAS OBRAS DE ARISTÓTELES (c.1150- c.1250)
Universidades (c. 1200- )
Apogeu da Escolástica (séc. XIII):
Lógicos:
Pedro Hispano (c.1205-1277)
Guilherme de Sherwood (1200/5-1266/72)
Franciscanos: Dominicanos: Averroístas:
Roberto Grosseteste (c.1170-1253) SANTO ALBERTO MAGNO (c.1200-1280)
Roger Bacon (1214/20-1292) Sigério de Brabante (c.1240-1282/4)
Alexandre de Hales (c.1185-1245)
SÃO BOAVENTURA (1217-1274) SANTO TOMÁS DE AQUINO (1225-1274)
Grande Condenação Antiaverroísta (1277)
Henrique de Ghent (c. 1217-1293)
JOÃO DUNS SCOTUS (1265/6-1308)
Escolástica Tardia (sécs. XIV-XV)
Via Antiqua: Místicos:
Escola Tomista: Hervaeus Natalis (c.1260-1323) Mestre Eckhardt (1260-1328)
Escola Escotista: Francisco de Mayronis (c.1288-1328) João Tauler (c.1300-1361)
Henrique Suso (1295/7-1366)
João de Ruysbroeck (1293-1381)
Via Moderna (Nominalistas):
GUILHERME DE OCKHAM (c. 1285-1348)
João Buridan (1295/1300-1358/61) Averroístas:
Gregório de Rimini (c.1300-1358) João de Jandun (c.1280/9-1328)
Nicolau de Autrecourt (c.1298-1369) Marsílio de Pádua (1275/80-1342/3)
Alberto da Saxônia (c.1316-1390)
Nicolau Oresme (c.1320-1382)
O NOVO TESTAMENTO E A FILOSOFIA
I. SÃO PAULO E A FILOSOFIA
Atos dos Apóstolos, 17, 16-34
Paulo em Atenas - Enquanto os esperava em Atenas, seu espírito inflamava-se
dentro dele, ao ver a cidade cheia de ídolos. Disputava, por isso, na sinagoga, com os
judeus e com os adoradores de Deus; e, na ágora, a qualquer hora do dia, com os que a
frequentavam. Até mesmo alguns filósofos epicureus e estoicos o abordavam. E alguns
diziam: “Que quer dizer este palrador?” E outros: “Parece um pregador de divindades
estrangeiras”. Isto, porque ele anunciava Jesus e a Ressurreição.
Tomando-lhe então pela mão, conduziram-no ao Areópago, dizendo:
“Poderíamos saber qual é essa nova doutrina apresentada por ti? Pois são coisas
estranhas que nos trazes aos ouvidos. Queremos, pois, saber o que isto quer dizer”.
Todos os atenienses, com efeito, e também os estrangeiros aí residentes, não se
entretinham noutra coisa senão em dizer, ou ouvir, as últimas novidades.
De pé, então, no meio do Areópago, Paulo falou:
Discurso de Paulo no Areópago – “Cidadãos atenienses! Vejo que, sob todos os
aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois, percorrendo a vossa cidade e
observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar com a inscrição:
„Ao Deus desconhecido‟. Ora bem, o que adorais sem conhecer, isto venho eu anunciar-
vos.
O Deus que fez o mundo e tudo que nele existe, o Senhor do céu e da terra, não
habita em templos feitos por mãos humanas. Também não é servido por mãos humanas,
como se precisasse de alguma coisa, ele que a todos dá vida, respiração e tudo o mais.
De um só ele fez toda a raça humana para habitar toda a face da terra, fixando os tempos
antes determinados e os limites do seu habitat. Tudo isto para que procurassem a
divindade e, mesmo se às apalpadelas, se esforçassem por encontrá-la, embora não
esteja longe de cada um de nós. Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como
alguns dos vossos, aliás, já disseram:
„Porque somos também de sua raça‟.
Ora, se nós somos de raça divina, não podemos pensar que a divindade seja
semelhante ao ouro, à prata, ou à pedra, a uma escultura da arte e engenho humanos.
Por isso, não levando em conta os tempos da ignorância, Deus agora notifica aos
homens que todos e em toda parte se arrependam, porque ele fixou um dia no qual
julgará o mundo com justiça por meio do homem a quem designou, dando-lhe crédito
diante de todos, ao ressuscitá-lo dentre os mortos”.
Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos, alguns começaram a zombar,
enquanto outros diziam: “A respeito disto te ouviremos outra vez”. Foi assim que Paulo
retirou-se do meio deles. Alguns homens, porém, aderiram a ele e abraçaram a fé. Entre
esses achava-se Dionísio, o Areopagita, bem como uma mulher de nome Dâmaris, e
ainda outros com eles.
Passagens Desfavoráveis à Filosofia:
Primeira Epístola aos Coríntios 1, 17-25; 2, 6-8:
Pois não foi para batizar que Cristo me enviou, mas para anunciar o Evangelho
sem recorrer à sabedoria da linguagem, a fim de que não se torne inútil a cruz de Cristo.
Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para
aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus. Pois está escrito:
Destruirei a sabedoria dos sábios
e rejeitarei a inteligência dos inteligentes.
Onde está o sábio? Onde está o homem culto?
Onde está o argumentador deste século? Deus não tornou louca a sabedoria deste
século? Com efeito, visto que o mundo por meio da sabedoria não reconheceu a Deus na
sabedoria de Deus, aprouve a Deus pela loucura da pregação salvar aqueles que creem.
Os judeus pedem sinais, e os gregos andam em busca da sabedoria; nós, porém,
anunciamos Cristo crucificado, que, para os judeus, é escândalo, para os gentios é
loucura, mas para aqueles que são chamados, tanto judeus como gregos, é Cristo, poder
de Deus e sabedoria de Deus. Pois o que é loucura de Deus é mais sábio do que os
homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
Vede, pois, quem sois, irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus; não há
entre vós muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de família
prestigiosa. Mas o que é loucura no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e
o que é fraqueza no mundo, Deus o escolheu para confundir o que é forte; e o que no
mundo é vil e desprezado, o que não é, Deus escolheu para reduzir a nada o que é, a fim
de que nenhuma criatura possa vangloriar-se diante de Deus. Ora, é por ele que vós sois
em Cristo Jesus, que se tornou para nós sabedoria proveniente de Deus, justiça,
santificação e redenção, a fim de que, como diz a Escritura, aquele que se gloria, glorie-
se no Senhor.
(...) No entanto, é realmente de sabedoria que falamos, sabedoria que não é deste
mundo, nem dos príncipes deste mundo, votados à destruição. Ensinamos a sabedoria de
Deus, misteriosa e oculta, que Deus, antes dos séculos, de antemão destinou para a
nossa glória.
Epístola aos Colossenses, 2, 8:
Tomai cuidado para que ninguém vos escravize por vãs e enganosas
especulações da “filosofia”, segundo a tradição dos homens, segundo os elementos do
mundo, e não segundo Cristo.
Passagens Favoráveis á Filosofia:
Epístola aos Romanos, 1, 20:
Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto entre eles, pois Deus lho
revelou. Sua realidade invisível – seu eterno poder e sua divindade – tornou-se
inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas, de sorte que não têm
desculpa.
Epístola aos Romanos, 2, 14-15:
Quando então os gentios, não tendo lei, para si mesmos são Lei; eles mostram a
obra da lei gravada em seus corações, dando disto testemunho sua consciência e seus
pensamentos que alternadamente se acusam ou defendem...
II. O VERBO (= LOGOS) NO EVANGELHO DE SÃO JOÃO
Evangelho segundo São João, Prólogo:
No princípio era o Verbo
e o Verbo estava com Deus
e o Verbo era Deus.
Tudo foi feito por meio dele
e sem ele nada foi feito.
O que foi feito nele era a vida,
e a vida era a luz dos homens;
e a luz brilha nas trevas,
mas as trevas não a apreenderam.
Houve um homem enviado por Deus.
Seu nome era João.
Este veio como testemunha,
para dar testemunho da luz,
a fim de que todos cressem por meio dele.
Ele não era a luz,
mas veio dar testemunho da luz.
Ele era a luz verdadeira
que ilumina todo homem;
ele vinha ao mundo.
Ele estava no mundo
e o mundo foi feito por meio dele,
mas o mundo não o reconheceu.
Veio para o que era seu
e os seus não o receberam.
Mas a todos que o receberam
deu o poder
de se tornarem filhos de Deus:
aos que creem em seu nome,
eles, que não foram
gerados nem do sangue,
nem de uma vontade da carne,
nem de uma vontade do homem,
mas de Deus.
E o Verbo se fez carne,
e habitou entre nós;
e nós vimos a sua glória,
glória que ele tem junto ao Pai
como filho único,
cheio de graça e de verdade.
João dá testemunho dele e clama:
“Este é aquele de quem eu disse:
o que vem depois de mim
passou adiante de mim,
porque existia antes de mim”.
Pois de sua plenitude
todos nós recebemos
graça por graça.
Porque a Lei foi dada
Por meio de Moisés;
a graça e a verdade
vieram por Jesus Cristo.
Ninguém jamais viu a Deus:
o Filho unigênito,
que está no seio do Pai,
este o deu a conhecer.
(Edição utilizada para a transcrição dos textos: Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002)
SÃO JUSTINO (c. 150)
<Dedicatória e Apresentação do Autor (Apologia I)>
1. Ao imperador Tito Élio Antonino Pio César Augusto, a Veríssimo, seu filho,
filósofo, e a Lúcio, filho por natureza do César filósofo e de Pio por adoção, amante do
saber, ao sagrado Senado e a todo o povo romano:
Em favor dos homens de toda raça, injustamente odiados e ultrajados, eu,
Justino, um deles, filho de Prisco, que o foi de Báquio, natural de Flávia Neápolis, na
Síria Palestina, compus este discurso e esta súplica.
(...)
<A Teoria do Roubo dos Filósofos (Apologia I)>
43. (...) Porque Deus não fez o homem à maneira das outras criaturas, por
exemplo, árvores ou quadrúpedes, que nada podem fazer por livre determinação, pois,
neste caso, <o homem> não seria digno de recompensa ou de elogio, não tendo por si
mesmo escolhido o bem e sim nascido já bom, nem, por ter sido mau, seria justamente
castigado, não o tendo sido livremente e sim por não ter podido ser outra coisa que o
que foi.
44. Esta doutrina nos foi ensinada pelo Espírito profético, que, por meio de
Moisés, nos atesta haver dito Deus ao primeiro homem, a que havia criado, desta
maneira: Olha que ante a tua face está o bem e o mal: escolhe o bem <cf.
Deuteronômio 30, 15>. (...) De sorte que o próprio Platão, ao dizer> A culpa é de quem
escolhe, Deus não tem culpa” <República 617e>, disse-o por tê-lo tomado do profeta
Moisés, pois deve-se saber que este é mais antigo que todos os escritores gregos. E, em
geral, em tudo que os filósofos e poetas disseram sobre a imortalidade da alma e da
contemplação das coisas celestes, valeram-se dos profetas, não somente para poder
entendê-lo, mas também para expressá-lo. Daí que pareça haver em todos como que
germes da verdade; no entanto, demonstra-se que não o entenderam exatamente porque
se contradizem uns aos outros.
(...)
<A Teoria do Verbo Iluminador (Apologia II)>
10. Assim, pois, nossa religião aparece mais sublime que todo ensino humano
pela simples razão que o Verbo inteiro, que é Cristo, aparecido por nós, fez-se corpo,
razão e alma.
Porque tudo que de bom disseram e descobriram filósofos e legisladores foi por
eles elaborado pela investigação e pela intuição, segundo a parte do Verbo que lhes
coube; mas, como não conheceram o Verbo inteiro, que é Cristo, também
contradisseram-se com frequência uns aos outros.
Tertuliano (c. 160- c. 225)
<A Condenação da Filosofia (Sobre a Prescrição dos Hereges,
cap. 7>
Eis as doutrinas de homens e demônios, nascidas do
engenho da sabedoria mundana para encantar os ouvidos. Esta é a
sabedoria que o Senhor chama de estultice, aquele mesmo Senhor
que, para confundir também a mesma filosofia, escolheu o que
passa por estulto aos olhos do mundo. Esta é a sabedoria profana
que temerariamente pretende sondar a natureza e os decretos de
Deus. E as próprias heresias vão pedir seus petrechos à filosofia.
Dela se originam os tais éons e não sei que inúmeras outras
formas, tais como a divisão tripartida do homem em Valentim,
que, por sinal, foi um discípulo de Platão. Dela provém o “deus
melhor” de Marcião, melhor, entenda-se, graças à sua
tranquilidade; pois Marcião viera dos estoicos. E se há os que
afirmam que a alma é mortal, é porque o aprenderam dos
epicureus; se há os que negam a ressurreição do corpo, é porque o
tomaram de todas as escolas filosóficas reunidas; se a matéria é
equiparada a Deus, é porque tal é a doutrina de Zênon; e, quando
se fala de um Deus de fogo, isto se deve a Heráclito. Hereges e
filósofos soem tratar dos mesmos assuntos: nuns e noutros
deparamos os mesmos temas enredados: Qual a origem e o
porquê do mal? Qual a origem e a natureza do homem? E, para
citar uma questão recentemente proposta por Valentim: Qual a
origem de Deus? E a resposta? Da “entímese” e do “éctroma”
(isto é, do desejo e do parto prematuro)!
Ó infortunado Aristóteles, tu lhes ensinaste a dialética, esta
arte de construir e destruir, tão ardilosa em suas sentenças, tão
afetada em suas supostas conclusões, tão teimosa em seus
argumentos, tão atarefada em logomaquias, a ponto de, enfadada
consigo própria, tudo revogar, para terminar sem haver tratado de
nada!
Eis aí a origem daquelas fábulas e genealogias
intermináveis, daquelas questões estéreis, daqueles discursos que
se propagam como um cancro; é contra eles que nos alerta o
Apóstolo, designando expressamente a filosofia como algo de que
é preciso acautelar-se, ao escrever aos Colossenses: “Estai alerta
para que ninguém vos colha no laço da filosofia e de vãos
sofismas, baseados em tradições humanas” e contrárias à
providência do Espírito Santo. É que ele estivera em Atenas e,
nos congressos ali realizados, viera a conhecer a sabedoria
humana, esta arremedadora e adulteradora da verdade; aliás, ela
mesma se encontra fracionada em numerosas heresias, em virtude
da grande multiplicidade de escolas que mutuamente se
digladiam.
Que tem a ver Atenas com Jerusalém? Ou a Academia com
a Igreja? Ou os hereges com os cristãos? A nossa doutrina vem do
pórtico de Salomão, que nos ensina a buscar o Senhor na
simplicidade do coração. Que inventem, pois, se o quiserem, um
cristianismo de tipo estoico, platônico e dialético! Quanto a nós,
não temos necessidade de indagações depois da vinda de Cristo
Jesus, nem de pesquisas depois do Evangelho. Nós possuímos a fé
e nada mais desejamos crer. Pois começamos por crer que para
além da fé nada existe que devamos crer.
(Extraído de BOEHNER, PH. & GILSON, E. História da Filosofia Cristã. Petrópolis, Vozes, 1985, p.
136-138)
<O Credo quia absurdum (= Creio porque é absurdo) (Sobre a
Carne de Cristo, cap. 5)>
O Filho de Deus foi crucificado, não envergonha porque
deve envergonhar. E o Filho de Deus morreu, é totalmente crível,
porque é absurdo (prorsus credibile est, quia ineptus est). E,
sepultado, ressuscitou; é certo, porque é impossível (certum est,
quia impossibile).
ORÍGENES (c. 185-253)
<A Eternidade da Criação (Sobre os Princípios , I, 2, 10)>
10. Examinemos também o que é dito (Sabedoria, 7, 25): É a mais pura
emanação da glória do todo-poderoso. E, em primeiro lugar, consideremos o que é a
“glória do todo-poderoso” e, depois, perceberemos também o que é sua “emanação”.
Do mesmo modo que ninguém pode ser pai se não há filho, nem senhor sem
possessão ou servo, assim, nem Deus pode ser chamado “todo-poderoso” se não há
ninguém sobre quem exerça poder; e, por isso, para que Deus se possa mostrar como
todo- poderoso, é necessário que exista o todo. Se, pois, alguém, quiser admitir que se
passaram séculos ou espaços de tempo - ou como se queira denominar isto – em que
nada do que foi criado ainda fora criado, isto, sem dúvida, mostra que naqueles séculos
ou espaços de tempo Deus não era todo-poderoso e, depois, se tornou todo-poderoso,
depois que começou a ter sobre quem exercer poder. E daí resultaria que fez um
progresso e alcançou o melhor a partir do pior, pois não se duvida de que é melhor ser
todo-poderoso do que não ser. E não é absurdo que Deus não tenha tido algo que era
digno de ter e, então, progredindo, o tenha alcançado? Se nunca há quando não foi todo-
poderoso, é necessário também subsistir aquilo pelo que é chamado “todo-poderoso”,
que sempre tenha havido em que executar seu poder e que isto tenha sido governado por
Ele como rei ou príncipe.
<A Sucessão dos Mundos (Sobre os Princípios, II, 3, 1-4)>
1. Resta, depois disto, que investiguemos se, antes deste mundo que existe agora,
existiu um outro mundo e, se existiu, se foi tal qual este que existe agora ou um pouco
diferente ou inferior; ou se absolutamente não existiu um mundo, mas algo tal como
entendemos aquele „fim‟ futuro depois de todas as coisas, quando for entregue o reino a
Deus Pai (Primeira Epístola aos Coríntios, 15, 24). (...)
3. (...) e assim parece que então também todo uso de corpos cessa. Se cessa, <o
corpo> volta ao nada, assim como também antes não existia. (...)
4. E, por isso, creio que os mundos que surgem são diferentes pela diversidade
de suas causas; assim se afasta o erro daqueles que afirmam que os mundos seriam
iguais uns aos outros, pois, quando se diz que um mundo é igual ao outro em tudo, isso
significa que Adão e Eva farão o mesmo que fizeram, que haverá de novo um dilúvio e
que o mesmo Moisés conduzirá para fora do Egito um povo de seiscentos mil em
número. Judas também trairá o Senhor outra vez, Paulo de novo guardará as vestes
daqueles que apedrejaram Estêvão, e tudo que nesta vida aconteceu, diz-se que de novo
acontecerá. Penso que não se pode apoiar isto em razão alguma, se as almas agem com
livre arbítrio e sustentam seus progressos e retrocessos pelo poder de sua vontade. As
almas não são, pois, levadas a fazer ou desejar isto ou aquilo por algum curso que volve
ao mesmo círculo depois de muitos séculos, mas o que quer que a liberdade do próprio
espírito pretender, para isso <as almas> dirigem o curso de suas ações.
SANTO AGOSTINHO (354-430)
<As Ideias (83 Questões Diversas, q. 46)>
1. Diz-se ter sido Platão quem primeiro deu às ideias seu nome. Não que
se tal nome não existisse antes de ele o instituir não existiriam as próprias coisas
que ele denominou “ideias” ou não seriam concebidas por ninguém, mas talvez
fossem denominadas por alguns de um modo, por outros, de outro: pode-se
atribuir qualquer nome a um objeto ainda não conhecido que não tenha um nome
usual. Não é verossímil que, antes de Platão, ou não tenha havido filósofos, ou
que nenhum tenha concebido o que Platão, como foi dito, chama de “ideias”, seja
isto o que for, porque tanta significação nelas se põe, que ninguém poderia ser
filósofo sem as ter concebido. É de se acreditar também que tenha havido
filósofos em outros povos além do grego: o próprio Platão, de resto, o
testemunha suficientemente, não apenas pelas viagens que empreendeu para
completar o seu saber, mas também mencionando-o em seus escritos. Sendo
assim, não se deve considerar que aqueles ignorassem as ideias, ainda que talvez
as tenham chamado por outro nome. Mas, sobre o nome, basta o que dissemos
até aqui; vejamos a coisa, que é o que se deve principalmente considerar e
conhecer, deixando ao arbítrio de cada um a escolha das palavras para denominar
a coisa que terá conhecido.
2. Em latim, podemos dizer “formae” (formas) ou “species” (espécies),
para mostrar que traduzimos literalmente. Se as chamamos “rationes” (razões),
deixamos de interpretar com propriedade, pois “rationes”, em grego, se chamam
“lógoi”, não “ideias”, mas quem quiser usar este vocábulo não se afastará da
própria coisa. As ideias são, com efeito, certas formas principais ou razões das
coisas, estáveis e imutáveis, que não são elas próprias formadas e, por isso,
eternas e, se encontrando sempre do mesmo modo, contidas na inteligência
divina. E, não surgindo, nem se extinguindo, diz-se, todavia, que, segundo elas, é
formado tudo que pode surgir e se extinguir e tudo que surge e se extingue.
Nega-se, porém, que a alma as possa intuir, a menos que seja racional, e
pela sua parte que a faz excelente, isto é, pela mente e pela razão, como que por
sua face ou seu olho interior e intelectivo. E não será toda e qualquer alma
racional, mas a que for pura e santa; esta se afirma ser apta a tal visão, isto é, a
que tiver aquele olho pelo qual se vê isto são, límpido e sereno, e similar às
coisas que pretende ver.
Que homem religioso e instruído na verdadeira religião, mesmo que ainda
não as possa intuir,ousará negar e não reconhecerá que tudo que existe, isto é,
tudo que para existir se contém em seu gênero por uma natureza própria, foi
criado tendo Deus por autor? que é por este autor que vive tudo que vive? E que
toda a conservação das coisas e a própria ordem pela qual as coisas que mudam
executam seus ciclos temporais de modo certo e dirigido sejam mantidas e
governadas pelas leis de Deus supremo? Isto estabelecido e concedido, quem
ousará dizer que Deus tudo fez irracionalmente? Se isto não pode ser retamente
acreditado ou dito, resta que tudo foi feito segundo a razão; e não o homem
segundo a mesma razão que o cavalo, pois é absurdo julgar deste modo. Os
indivíduos são, portanto, criados segundo razões próprias; mas onde se deve
considerar que existem tais razões senão na própria mente do Criador? Pois ele
não intuía nada fora de si, tal que, segundo esta intuição, fazia o que fazia; opinar
assim é sacrilégio. Se estas razões de todas as coisas a se criarem ou criadas se
contêm na mente divina, e, se só nela pode existir o eterno e o imutável – e estas
razões, princípios das coisas, chama Platão de “ideias” -, então não apenas
existem ideias, mas elas são verdadeiras, porque são eternas, permanecendo
imutavelmente o que são; e é pela participação delas que existe tudo que existe,
seja qual for seu modo de existir.
Mas a alma racional, entre as coisas que foram feitas por Deus, supera a
todas e está próxima de Deus quando é pura; e, na medida em que a Ele se une
pela caridade, nesta medida, de certo modo banhada e iluminada por Ele de uma
luz inteligível, contempla estas razões – não pelos olhos corpóreos, mas pelo que
tem de principal e que a faz excelente, isto é, por sua inteligência; e esta visão a
torna supremamente feliz. Estas razões, como foi dito, podem ser chamadas
“ideias” ou “formas” ou “espécies”, e a muitos é permitido denominá-las como o
queiram; a pouquíssimos, porém, ver o que é verdadeiro.
<A Doutrina da Iluminação (Sobre a Trindade XIV, 15, 21)>
Daí vem que os próprios ímpios pensem na eternidade, repreendam
justamente, louvem justamente muitas coisas na conduta dos homens. A que
regras se referem para julgar senão àquelas em que veem como cada um deve
viver, ainda que eles próprios não vivam assim? Onde as veem? Não em sua
própria natureza, já que, sem dúvida alguma, é pela alma que se veem tais coisas,
pois é evidente que sua alma é mutável, enquanto que estas regras aparecem
como imutáveis a quem quer que tenha podido ver nelas uma norma de vida;
tampouco <as veem> no estado habitual de sua alma, pois tais regras são regras
de justiça, enquanto suas almas são manifestamente injustas. Onde, pois, estão
escritas estas regras? Onde a alma, mesmo injusta, reconhece o que é justo? Onde
vê que deve ter o que não tem? Onde, então, estão escritas senão no livro daquela
luz que se chama Verdade? É lá que está escrita toda lei justa; é de lá que passa
ao coração do homem que pratica a justiça, não emigrando para ele, mas
imprimindo-se nele, assim como a imagem do anel se transfere à cera sem deixar
o anel. Aquele que não faz, embora veja o que deve fazer, dá as costas àquela luz,
que, no entanto, o atinge.
SANTO AGOSTINHO (354-430)
<Tempo, Eternidade e Criação (Confissões, XI, 12-14)>
12
<O que fazia Deus antes da criação do mundo>
14. Eis o que respondo a quem diz: “O que fazia Deus antes que fizesse o
céu e a terra”. Respondo não aquilo que – conta-se - alguém teria
respondido jocosamente, eludindo a virulência da questão: “preparava” –
disse – “o inferno para os que perscrutam <coisas tão> elevadas”. Uma
coisa é ver (videre), outra coisa é rir (ridere). Não respondo isto, pois, de
preferência, responderia “Não sei”, o que não sei, do que aquilo pelo qual
se ridiculariza quem perguntava sobre <coisas tão> elevadas e se louva a
quem responde <coisas> falsas; mas digo que Tu, Deus nosso, és o criador
de toda criatura, e, se, pelo nome de “céu e terra”, se entende toda criatura,
digo audaciosamente: antes que Deus fizesse o céu e a terra, não fazia
<coisa> alguma, pois, se fazia, o que fazia, senão uma criatura? E, quem
dera, soubesse eu tudo que, para minha utilidade, desejo saber deste mesmo
modo que sei que nenhuma criatura se fazia, antes que se fizesse alguma
criatura.
13
<O eterno hoje>
15. Mas se o volátil pensamento de alguém vaga por imagens de tempos
passados, se ele admira que Tu, Deus onipotente, criador de tudo e
mantenedor de tudo, artífice do céu e da terra, Te abstiveste de tão grande
obra, antes que a fizesses, por inumeráveis séculos, desperte e atenda,
porque admira <coisas> falsas, pois como poderiam passar inumeráveis
séculos que Tu não fizeras, já que és o autor e o instituidor de todos os
séculos? Ou que tempos existiriam que fossem instituídos sem Ti? Ou de
que modo passariam se nunca tinham existido? Portanto, como és o obreiro
de todos os tempos, se existiu algum tempo antes que fizesses o céu e a
terra, por que se diz que Te abstinhas de toda obra? Pois foste Tu que
fizeste o próprio tempo, e os tempos não poderiam passar, antes que
fizesses os tempos. Se, porém, antes do céu e da terra nenhum tempo
existia, por que se pergunta o que fazias então? Pois não existia então, onde
não existia tempo.
16. E não é no tempo que precedes os tempos; de outro modo, não
precederias todos os tempos, mas precedes todos <os tempos> passados
pela excelsitude sempre presente da eternidade e superas todos os futuros,
porque eles são futuros e, quando vierem, serão passados; Tu, porém, és
idêntico a Ti mesmo, e os Teus anos não morrem (Salmo 101, 28). Os Teus
anos não vão, nem vêm; estes nossos, porém, vêm e vão, para que todos
venham. Os Teus anos existem (stant) todos simultaneamente, porque eles
estão parados (stant), e os anos que vão não são excluídos pelos anos que
vêm, porque não passam. Estes nossos anos, porém, existirão todos, quando
todos não existirem. Os Teus anos são um único dia (Segunda Epístola de
Pedro 3, 8), e o Teu dia não é um dia-a-dia (cotidie), mas um este-dia
(hodie), porque o Teu hoje (hodiernus tuus) não cede ao amanhã, nem
sucede ao ontem. O Teu hoje é a eternidade; por isso, geraste o coeterno a
Ti, a quem disseste: Eu hoje te gerei (Salmo 2, 7; Epístola aos Hebreus 5,
5). Tu fizeste todos os tempos e existes antes de todos os tempos, e em
tempo algum não existia tempo.
14
<O que é o tempo?>
17. Portanto, em nenhum tempo, não fazias algo, porque Tu fazias o tempo,
e nenhum tempo é coeterno a ti, porque Tu permaneces, mas os tempos, se
permanecessem, não seriam tempos. O que é, pois, o tempo? Quem
explicaria isto fácil e brevemente? Quem poderia, para proferi-lo em
palavras, compreendê-lo em pensamento? O que, porém, evocamos de
modo mais familiar e mais conhecido, ao falar, que o tempo? E,
certamente, entendemos quando falamos e entendemos também quando
ouvimos a outrem falar <sobre ele>. O que é, portanto, o tempo? Se
ninguém me perguntar, eu sei; se, perguntado, quiser explicar, não sei.
SANTO AGOSTINHO (354-430)
<O Mal como Privação e sua Causa (A Cidade de Deus, XII, cap. VII-VIII)>
Capítulo VII – Não se deve buscar a causa eficiente da má vontade
Ninguém busque, pois, a causa eficiente da má vontade. Tal causa não é eficiente, mas
deficiente, porque a má vontade não é “efecção” (effectio), mas “defecção” (defectio).
Declinar (deficere) do que é em sumo grau ao que é menos é começar a ter má vontade.
Empenhar-se, portanto, em buscar as causas de tais defeitos, não sendo eficientes, mas,
como já dissemos, deficientes, é igual a pretender ver as trevas ou ouvir o silêncio. E,
contudo, ambas essas coisas nos são conhecidas, uma pelos olhos e outra pelos ouvidos,
não, porém, em sua espécie, mas na privação da espécie. Ninguém, por conseguinte,
procure aprender de mim o que sei que não sei, mas espere aprender a não saber o que
se deve saber ser impossível saber. Com efeito, as coisas que não se conhecem em sua
espécie, mas na privação da espécie, se podemos falar assim, se conhecem, de certo
modo, não as conhecendo e não se conhecem, conhecendo-as. Quando a penetração do
olho corporal se projeta sobre as espécies corporais, só vê as trevas quando começa a
não ver. De igual modo, o sentir o silêncio pertence aos ouvidos, não a outro sentido, e
somente se sente, não ouvindo. Assim, nossa mente contempla com o entendimento as
espécies inteligíveis. Quando faltam, porém, concebe-as, ignorando-as. Com efeito,
quem conhece os delitos? (Salmo 18, 13)
Capítulo VIII – O amor perverso inclina a vontade do bem imutável ao bem
mutável
O que sei é que a natureza de Deus jamais pode desfalecer (deficere), mas os
seres feitos do nada podem. Tais seres, quanto mais ser têm e mais bem fazem (então
fazem algo positivo), têm causas eficientes; se, porém, desfalecem e, em consequência,
obram mal (que outra coisa fazem, então, além de vaidades?) , têm causas deficientes.
Sei também que a má vontade consiste em fazer o que sem seu querer não se faria e, por
isso, a pena justa não se segue aos defeitos necessários, mas aos voluntários. O
desfalecimento não se encaminha (deficitur) a coisas más (mala), mas de modo errado
(male), ou seja, não a naturezas más, e sim desordenadamente (male), porque se faz
contra a ordem da natureza, do que é em sumo grau ao que é menos.
Assim, a avareza não é vício do ouro, mas do homem, que ama
desordenadamente (perverse) o ouro, por ele abandonando a justiça, que deve ser
infinitamente preferida a esse metal. E a luxúria não é vício da beleza e da graça do
corpo, mas da alma, que ama desordenadamente os prazeres corporais, desprezando a
temperança, que nos une a coisas espiritualmente mais belas e incorruptivelmente mais
cheias de graça. E a jactância não é vício do louvor humano, mas da alma que ama
desordenadamente ser louvada pelos homens, desdenhando o testemunho da própria
consciência. E a soberba não é vício de quem dá o poder ou do poder mesmo, mas da
alma que ama desordenadamente seu próprio poder, desprezando o poder mais justo e
poderoso. Por isso, quem ama desordenadamente o bem, seja de que natureza for,
mesmo conseguindo-o, se torna miserável e mau no bem, ao privar-se do melhor.
(Extraído de: Santo Agostinho. A Cidade de Deus contra os Pagãos. Petrópolis, Vozes, 1990. v. 2, p. 69-
70. Trad. Oscar Paes Leme).
SANTO AGOSTINHO (354-430)
<A Igualdade no Amor ao Próximo (Sobre a Primeira Epístola de São
João, Homilia 8, 5 )>
(...) Dás de comer aos que têm fome; melhor seria que não houvesse
famintos, nem ninguém que necessitasse de teus préstimos. Dás de vestir
aos nus; seria mais grato ao céu se todos os homens dispusessem de
vestuários e não fosse necessário dar de vestir a ninguém. (...) Trata de
eliminar a miséria entre os homens, e, assim, as obras de misericórdia serão
supérfluas. Crês que isto teria o efeito de extinguir o ardor da caridade? Ao
contrário: há maior perfeição em amar um homem feliz a quem nada se
pode dar; um tal se ama com amor mais puro e mais sincero. Com efeito,
quem dá esmolas ao pobre, talvez o faça com o desejo secreto de dominá-
lo, de sujeitá-lo a si próprio. (...) O que se deve desejar é que ele se torne
igual a nós! (Opta aequalem!) Tua aspiração deve ser esta: que ambos
estejais sujeitos àquele a quem nada podeis dar.
(Extraído de: BOEHNER, Ph. & GILSON, E. História da Filosofia Cristã. Petrópolis, Vozes,
1985, p. 190. Trad. Raimundo Vier, O.F.M.)
BOÉCIO (c. 480-525)
<O projeto não realizado de traduzir e comentar as obras completas de
Platão e de Aristóteles e de conciliar o pensamento dos dois autores
(Comentário ao de interpretatione de Aristóteles, segunda edição, II, 4)>
Eu <me proponho,> vertendo ao estilo romano toda a obra de
Aristóteles – <ou> o que quer que <dela> chegue às minhas mãos -,
escrever comentários em língua latina a toda ela, de tal modo que, se algo
da sutileza da arte lógica, da gravidade do conhecimento moral, da agudeza
da verdade da <ciência> natural foi escrito por Aristóteles, eu traduzirei
tudo sucessivamente e também <o> iluminarei com a luz do comentário;
vertendo os diálogos de Platão e também comentando-os, eu os trarei à
forma latina. Feito isto, certamente não desdenharei de trazer as opiniões de
Aristóteles e de Platão a uma concórdia e de demonstrar que eles não
discordam em todas as coisas, como muitos <julgam>, mas que concordam
em muitas, maximamente em filosofia.
<O conhecimento divino sobre os futuros contingentes (Consolação da
Filosofia, V, p. 6)
Já que, como há pouco foi mostrado, tudo que é conhecido não é
conhecido segundo a sua natureza, mas segundo a natureza dos que o
compreendem, vejamos agora, tanto quanto isto nos é permitido, qual é o
estatuto da substância divina, para que possamos reconhecer qual é também
o seu conhecimento.
É juízo comum de todos os que vivem pela razão que Deus é eterno.
Consideremos, pois, o que é a eternidade, pois isto nos torna manifestos, tanto a
natureza <divina>, quanto o conhecimento divino. Eternidade é a posse perfeita,
total e simultânea de uma vida interminável (interminabilis); isto se tornará mais
claro pela comparação com as coisas temporais. Pois o que quer que viva no
tempo avança, no presente, do passado para o futuro, e não há nada estabelecido
no tempo que possa abraçar todo o espaço de sua vida igualmente, mas ainda não
apreende o amanhã e já perdeu o ontem. E, nesta vida de hoje, não viveis mais
amplamente do que naquele momento móvel e transitório. O que, portanto, sofre
a condição do tempo, ainda que, segundo pensou Aristóteles do mundo, jamais
começasse a existir, nem deixasse de existir, e cuja vida fosse coextensa à
infinitude do tempo, ainda não seria, todavia, tal que se pudesse crer, com direito,
eterno. Pois não compreende e abraça simultaneamente todo o espaço de sua
vida, embora infinita, mas ainda não tem o futuro e o passado não mais tem. O
que, portanto, compreende e possui igualmente toda a plenitude de uma vida
interminável, a quem não falta futuro algum, nem fluiu passado, isto pode, com
direito, ser chamado “eterno”, e isto deve, necessariamente, tanto estar sempre
diante de si mesmo, possuindo a sua própria presença, como ter presente a
infinitude do tempo móvel.
Daí não estarem corretos aqueles que, ao ouvirem a opinião de Platão que
este mundo não tem início temporal, nem terá fim, consideram que, deste modo,
o mundo criado se torna coeterno ao criador. É, porém, uma coisa, ser conduzido
por uma vida interminável, o que Platão atribuiu ao mundo; outra coisa ter
abraçado juntamente (pariter) toda a presença de uma vida interminável, o que é
manifesto ser próprio da mente divina. E Deus não deve parecer mais antigo do
que as coisas criadas por uma quantidade de tempo, mas, antes, pela propriedade
da natureza simples. Pois o movimento infinito daquelas coisas temporais imita
este estatuto presencial de uma vida imóvel, e, como não pode retratá-lo, nem
igualá-lo, da imobilidade decai ao movimento, da simplicidade da presença
decresce à quantidade infinita do futuro e do passado; e, como não pode possuir
conjuntamente toda a plenitude de sua vida, justamente por, de algum modo,
nunca deixar de ser, parece, em alguma medida, emular o que não pode
preencher e exprimir, ligando-se a qualquer presença de um momento exíguo e
volátil, que, por conter uma certa imagem daquela presença permanente, faz com
que tudo aquilo em que toca pareça ser. Como, porém, não pôde permanecer,
toma o caminho infinito do tempo, e, deste modo, se torna tal que continua
seguindo uma vida cuja plenitude não pode ser completada, permanecendo.
Assim, se queremos impor nomes convenientes às coisas, digamos, seguindo
Platão, que Deus é eterno; o mundo, porém, perpétuo.
Já que todo juízo compreende aquelas coisas sujeitas a ele segundo sua
própria natureza, e Deus tem sempre um estatuto eterno e presencial, seu
conhecimento também, ultrapassando todo o movimento do tempo, permanece na
simplicidade de sua presença e, abraçando todos os infinitos espaços passados e
futuros, considera-os em seu simples ato de conhecimento como que ocorrendo
agora. Portanto, se queres pensar a presciência pela qual ele discerne (dinoscit)
todas <as coisas>, estimarás mais retamente não ser ela uma presciência como
que das <coisas> futuras, mas uma ciência de um instante que nunca se desfaz. E,
portanto, é chamada, não pré-vidência (praevidentia), mas, antes, pro-vidência
(providentia), porque, postado distante das coisas ínfimas, prospecta-as todas
como que do cimo mais excelso. Por que, então, postulas como se tornando
necessárias aquelas coisas que são percorridas pela luz divina, quando nem
mesmo os homens tornam necessárias as coisas que veem? Pois o teu olhar
acrescenta alguma necessidade às coisas presentes que vês?
(...)
E não confunde o juízo sobre as coisas, mas com um olhar de sua mente
distingue as necessárias das não necessárias, assim como vós, quando vedes
juntamente um homem caminhar na terra e o sol nascer no céu, embora as duas
coisas sejam vistas simultaneamente, discernis e julgais esta como necessária,
aquela como voluntária, assim também o olhar divino não perturba
absolutamente a qualidade das coisas que lhe são presentes, embora futuras na
condição do tempo.
<A Diferença entre Eternidade e Sempiternidade/Perpetuidade (Sobre a
Trindade, III)>
(...) O que, porém, é dito de Deus - “existe sempre” (semper est) -
significa somente uma coisa: que ele como que existiu em todo o passado, existe,
de que modo for, em todo o presente, existirá em todo o futuro. Segundo os
filósofos, isto pode ser dito do céu e dos demais corpos imortais, mas de Deus
não <pode ser dito> assim. Ele existe sempre porque “sempre” nele é do tempo
presente; e tal é a grande diferença entre o presente de nossas coisas, que é o
agora, e o das divinas: que o nosso agora, como que corrente, faz o tempo e a
sempiternidade; o agora divino, porém, permanecendo, não se movendo e
detendo-se, faz a eternidade, a cujo nome, se acrescentas “sempre”, fazes daquilo
que é o agora o curso constante e incansável e, por isso, perpétuo que é a
sempiternidade.
PSEUDO DIONÍSIO AREOPAGITA (c. 500 d. C.)
TEOLOGIA MÍSTICA
(...)
Capítulo III – O que significam teologia afirmativa e negativa
(...) Agora, pois, que iremos penetrar nas trevas que estão além do
inteligível, não mais se tratará mesmo de concisão, mas de uma cessação
total da palavra e do pensamento. Lá, onde nosso discurso descia do
superior ao inferior, à medida que ele se afastava das alturas, seu volume
aumentava. Agora que ascendemos do inferior ao transcendente, à medida
mesmo que nos aproximamos do cume, o volume de nossas palavras se
estreitará; no termo último da ascensão, estaremos totalmente mudos e
plenamente unidos ao inefável.
Mas, dirás, por que partir das mais altas, quando se trata das
afirmações, das mais baixas, quando se trata das negações? Respondo que,
para falar afirmativamente daquele que transcende a toda afirmação, era
preciso que nossas hipóteses afirmativas se apoiassem sobre o que é o mais
próximo dele. Mas, para falar negativamente daquele que transcende toda
negação, começa-se, necessariamente, por negar dele o que está mais
afastado dele. Não é mais verdadeiro, com efeito, que ele é, antes, vida ou
bem que ar ou pedra, e que mais se comete erro ao nomeá-lo rancoroso ou
colérico do que o supondo exprimível ou pensável?
Capítulo IV – Que a causa transcendente de toda realidade sensível não
é Ela mesma nada de sensível
Dizemos que a causa universal, situada além do universo inteiro, não
é nem matéria isenta de essência, de vida, de razão ou de inteligência, nem
corpo; que não tem nem figura, nem forma, nem qualidade, nem
quantidade, nem massa; que não está em lugar algum, que escapa a toda
apreensão dos sentidos; que não percebe, nem é percebida; que não está
sujeita nem à perturbação, nem à desordem sob o choque das paixões
materiais; que os acidentes sensíveis não a dominam, nem a reduzem à
impotência; que não é privada de luz; que não é, nem possui mutação, nem
destruição, nem partição, nem privação, nem fluxo, nem nada, em uma
palavra, que pertença ao sensível.
Capítulo V – Que a causa transcendente de todo inteligível não é nada de
inteligível
Elevando-nos mais alto, dizemos agora que esta causa não é nem
alma, nem inteligência; que não possui nem imaginação, nem opinião, nem
razão, nem inteligência; que não se pode exprimir, nem conceber; que não
tem número, nem ordem, nem grandeza, nem pequenez, nem igualdade,
nem desigualdade, nem similitude, nem dissimilitude; que não permanece
imóvel, nem se move; que não se mantém em tranquilidade; que não possui
potência, nem é potência; que não é luz; que não vive, nem é vida; que não
é essência, nem perpetuidade, nem tempo; que não se pode apreendê-la
intelectivamente; que não é nem ciência, nem verdade, nem realeza, nem
sabedoria, nem uno, nem unidade, nem deidade, nem bem, nem espírito, no
sentido em que o podemos entender; nem filiação, nem paternidade, nem
nada do que é acessível ao nosso conhecimento, nem ao conhecimento de
algum ser; que não é nada do que pertence ao não-ser, mas nada também do
que pertence ao ser; que ninguém a conhece tal qual ela é, mas que ela
mesma não conhece ninguém tal qual ele é; que escapa a todo raciocínio, a
toda denominação, a todo saber; que não é trevas, nem luz, nem erro, nem
verdade; que dela não se pode absolutamente nem afirmar, nem negar nada;
que, quando fazemos afirmações e negações que se aplicam a realidades
inferiores a ela, dela mesma não afirmamos, nem negamos nada, porque
toda afirmação permanece aquém da causa única e perfeita de todas as
coisas; porque toda negação permanece aquém da transcendência daquele
que é simplesmente despojado de tudo e que se situa para além de tudo.