Glória Carvalho de Barros
WINNICOTT PRINCIPAIS CONCEITOS
Para Winnicott a criança nasce indefesa. É
um ser desintegrado que percebe de forma
desorganizada os diferentes estímulos
provenientes do exterior. O bebê nasce
também com a tendência ao
desenvolvimento.
A tarefa da mãe é oferecer um suporte
adequado para que as condições inatas
alcancem um desenvolvimento ótimo.
O ser humano nasce como um conjunto
desorganizado de pulsões, instintos,
capacidades perceptivas e motoras que
conforme progride o desenvolvimento vão
se integrando, até alcançar uma imagem
unificada de si e do mundo externo.
Donald Winnicott
Holding
Para Winnicott a sustentação ou holding protege contra a
afronta fisiológica.
O holding deve levar em consideração a sensibilidade
epidérmica da criança – tato, temperatura, sensibilidade
auditiva, sensibilidade visual, sensibilidade às quedas – assim
como o fato de que a criança desconhece a existência de tudo o
que não seja ela própria. Inclui toda a rotina de cuidados ao
longo do dia e da noite.
A sustentação compreende, em especial, o fato físico de
sustentar a criança nos braços, e que constitui uma forma de
amar. A mãe funciona como um ego auxiliar.
Preocupação Materna Primária
Winnicott propõe que, durante os últimos meses de
gestação e primeiras semanas posteriores ao parto,
produz-se na mãe um estado psicológico especial, ao
qual chamou de “preocupação materna primaria”.
A mãe adquire graças a esta sensibilização, uma
capacidade particular para se identificar com as
necessidades do bebê.
Não-Integração e Integração
O holding feito pela mãe é o fator que decide a passagem
do estado de não-integração, que caracteriza o recém-
nascido, para a integração posterior. O vínculo entre a mãe
e o bebê assentará as bases para o desenvolvimento
saudável das capacidades inatas do indivíduo.
O papel da mãe é prover o bebê de um ego auxiliar que lhe
permita integrar suas sensações corporais, os estímulos
ambientais e suas capacidades motoras nascentes.
Angústias Inimagináveis
Quando a mãe não fornece a proteção necessária ao frágil ego
do recém-nascido; a criança perceberá esta falha ambiental
como uma ameaça à sua continuidade existencial provocando
nela a vivência subjetiva de que todas as suas percepções e
atividades motoras são apenas uma resposta diante do perigo
a que se vê exposta.
Aos pouco o bebê procura substituir a proteção que lhe falta
por um “fabricada” por ele. O sujeito vai se envolvendo em
uma casca, às custas da qual cresce e se desenvolve o self. O
individuo vai se desenvolvendo como uma extensão da casca,
como uma extensão do meio atacante.
Self Verdadeiro
Mãe Suficientemente Boa
Winnicott diz que “mãe suficientemente boa” é a que
responde a onipotência do lactante e, de certo modo, dá-
lhe sentido.
O self verdadeiro começa a adquirir vida, através da força
que a mãe, ao cumprir as expressões da onipotência
infantil, dá ao ego débil da criança.
Mãe Não-Suficientemente Boa
Falso Self
A mãe que “não é suficientemente boa” é incapaz de
cumprir a onipotência da criança, pelo que
repentinamente deixa de responder ao gesto da mesma,
em seu lugar coloca o seu próprio gesto, cujo sentido
depende da submissão ou acatamento do mesmo por
parte da criança.
Esta submissão constitui a primeira fase do self falso e é
própria da incapacidade materna para interpretar as
necessidades da criança
Verdadeiro e Falso Self
Nos casos mais próximos da saúde, o falso self age como uma
defesa do verdadeiro, a quem protege sem substituir. Nos casos
mais graves, o self falso substitui o real e o indivíduo.
Na saúde o self falso se encontra representado por toda a
organização da atitude social cortês e bem educada. Produziu-
se um aumento da capacidade do individuo para renunciar a
onipotência e ao processo primário, em geral, ganhando assim
um lugar na sociedade que jamais se pode conseguir manter
mediante unicamente o self verdadeiro.
O falso self, especialmente quando se encontra no extremo
mais patológico da escala, é acompanhado geralmente por uma
sensação subjetiva de vazio, futilidade e irrealidade.
Desenvolvimento psíquico
Winnicott propõe que a maturação emocional se dê em
três etapas sucessivas:
Integração e personalização;
Adaptação à realidade;
Pré-inquietude ou crueldade primitiva.
Mãe Ambiente e Integração
Na etapa inicial de desenvolvimento a questão primordial é
a presença de uma mãe-ambiente confiável que se adapte às
necessidades do bebê de maneira virtualmente perfeita.
Winnicott inclui entre as “necessidades do ego” tanto os
cuidados físicos quanto os psíquicos. Nem a realização
mecânica das tarefas físicas ligadas ao lidar com o bebê, e
nem a resposta imediata às suas demandas pulsionais
implicam a satisfação das necessidades do ego.
Mãe Ambiente e Integração
A integração é obtida a partir de duas séries de
experiências: por um lado tem especial importância a
sustentação exercida pela mãe, que “recolhe os pedacinhos
do ego”, permitindo a criança que se sinta integrada dentro
dela; por outro lado há um tipo de experiência que tende a
reunir a personalidade em um todo, a partir de dentro (a
atividade mental do bebê).
Chega um período em que a criança, graças às experiências
citadas, consegue reunir os núcleos do seu ego, adquirindo
a noção de que ela é diferente do mundo que a rodeia.
Personalização
Esse momento de diferenciação entre “eu” e “não-eu” pode ser
perigoso para o bebê, pois o exterior pode ser sentido como
perseguidor e ameaçador. Essas ameaças são neutralizadas,
dentro do desenvolvimento sadio, pela existência do cuidado
amoroso por parte da mãe.
A personalização – definida por Winnicott como “o
sentimento de que a pessoa de alguém encontra-se no próprio
corpo”. O desenvolvimento normal levaria a alcançar um
esquema corporal, chamando-o de unidade psique-soma.
A psique e o soma – que formam o esquema corporal de todo
indivíduo – interpenetram-se e desenvolvem-se em uma
relação dialética, e apresentam o paradoxo da diversidade na
unidade.
Psique e Soma
Para Winnicott mente e psique são conceitos
diferentes; trata-se de registros relacionados, mas
heterogêneos.
A psique é a elaboração imaginativa das partes,
sentimentos e funções somáticas e não se separa, nem
se divide do soma.
A mente, no desenvolvimento saudável, não é nada
mais do que um caso particular do funcionamento do
psicossoma, surgindo como uma especialidade a partir
da parte psíquica do psicossoma.
Adaptação à Realidade
A medida que o desenvolvimento progride, a criança tem
um ego relativamente integrado, e com a sensação de que o
núcleo do si-próprio habita o seu corpo. Ela e o mundo são
duas coisas separadas. A etapa seguinte é conseguir
alcançar uma adaptação à realidade.
Nessa etapa a mãe tem o papel de prover a criança com os
elementos da realidade com que irá construir a imagem
psíquica do mundo externo. A adaptação absoluta do meio
ao bebê se torna adaptação relativa, através de um delicado
processo gradual de falhas em pequenas doses.
Fantasia e Ilusão
Para Winnicott a fantasia precede a objetividade, e o seu
enriquecimento com aspectos da realidade depende da ilusão
criada pela mãe; tudo repousa no vínculo precoce da criança
com sua mãe. Mas o acoplamento entre alucinação infantil e
os elementos da realidade fornecidos pela mãe nunca poderá
ser perfeito. No entanto, o lactante pode vivê-lo como quase
ótimo, graças a uma parte de sua personalidade, que procura
preencher o vazio entre alucinação e realidade – a mente.
Winnicott considera que a atividade mental da criança faz
com que um meio ambiente suficiente se transforme em um
perfeito, converte o relativo fracasso da adaptação em um
sucesso adaptativo. O que libera a mãe de ser quase perfeita é
a compreensão da criança.
A Mente
A mente se desenvolve através da capacidade de compreender e
compensar as falhas; é uma função do ambiente à medida que ele
começa a falhar, é apenas à medida que o ambiente falha que ele
começa a existir para o bebê enquanto realidade.
Se no início, a tarefa da mãe é adaptar-se de maneira absoluta às
necessidades do bebê, em seguida, será de fundamental
importância que ela possa fornecer um fracasso gradual da
adaptação para que a função mental do bebê se desenvolva
satisfatoriamente.
O resultado disto será a emergência da capacidade do próprio
sujeito de cuidar de seu self, atingindo um estágio de dependência
madura.
Mente e Psicossoma
Quando o ambiente não proporciona os cuidados que o
psicossoma considera como elementares, a mente se vê
obrigada a uma hiperatividade, o pensamento do indivíduo
começa a assumir o controle e a organizar o cuidado ao
psique-soma, podendo ocasionar uma oposição entre
mente e psicossoma, ocasionado um distanciamento do
verdadeiro self.
Em estado de saúde, a mente não usurpa as funções do
meio, mas possibilita uma compreensão e eventual
aproveitamento de sua falha relativa.
Crueldade primitiva
Fase de Pré-Inquietude
Depois de a criança ter alcançado a diferenciação entre ela e o
meio circundante e se adaptar em certa medida à realidade,
pela absorção de pautas objetivas dela, que modificam suas
fantasia, o último passo que deve dar é integrar em um todo as
diferentes imagens que tem de sua mãe e do mundo.
A criança pequena tem uma cota inata de agressividade, que se
exprime em determinadas condutas auto-destrutivas. O bebê
volta seu ódio sobre si mesmo para proteger o objeto externo;
mas esta manobra não é suficiente e em sua fantasia a mãe
pode ficar intensamente danificada.
Agressão e Cuidado
A mãe é, além do objeto que recebe, em certos momentos, a
agressão da criança, é também aquela que cuida dela e a
protege. Quando a criança exprime raiva e recebe amor, a
criança confirma que a mãe sobreviveu e é um ser separado
dela. O bebê adquire a noção de que suas próprias pulsões não
são tão danosas e pode, pouco a pouco, aceitar a
responsabilidade que possui sobre elas.
Simultaneamente a mãe que é agredida e a mãe que cuida vão
se aproximando na mente do indivíduo, que assim adquire a
capacidade de se preocupar com seu bem-estar, como objeto
total. Isto constitui o grande sucesso que Winnicott identifica
como a última das etapas do desenvolvimento emocional
primitivo.
Fantasia e Ilusão
Winnicott considera que a atividade mental da criança
faz com que um meio ambiente suficiente se
transforme em um perfeito, converte o relativo fracasso
da adaptação em um sucesso adaptativo.
O que libera a mãe de ser quase perfeita é a
compreensão da criança.
Tempos do Brincar
O modo como Winnicott concebe o brincar tem a ver
com vários tempos.
Primeiro tempo: bebê e objeto estão fundidos. A visão
que o bebê tem do objeto é subjetiva. a mãe
suficientemente boa se orienta para concretizar aquilo
que o bebê está pronto a encontrar.
Segundo tempo: o objeto é repudiado como não-eu,
aceito novamente e objetivamente percebido. neste
tempo, a mãe devolve ao bebê o objeto que ele
repudiou.
Tempos do Brincar
No estágio seguinte a criança fica só na presença de
alguém, brinca supondo que a pessoa a quem ama e
confia estará disponível ao ser lembrada após ter sido
esquecida.
Inicialmente, a criança brinca sozinha ou com a mãe.
Gradativamente outras crianças são procuradas como
companheiras e ajustadas a determinados papéis. As
brincadeiras favorecem os contatos sociais.
Brincar e Criatividade
O brincar é essencial, diz Winnicott, porque é através
dele que se manifesta a criatividade.
No espaço potencial, o paciente pode mobilizar todos
os recursos disponíveis em sua personalidade.
A criação não pode ser feita apenas com disciplina; ela
se manifesta em um espaço propriamente criativo
Objetos e Fenômenos Transicionais:
Escolha e Utilização
Winnicott alerta para duas situações tipicamente
observáveis no bebê: a primeira é o punho na boca – a
estimulação da zona erógena oral –; a outra é a escolha de
um objeto (boneca, urso, pedaço de cobertor) para brincar.
Estes são considerados fenômenos do desenvolvimento e
são separados por um intervalo de tempo: são os objetos e
fenômenos transicionais.
“Introduzi os termos 'objetos transicionais' e
'fenômenos transicionais' para designar a área
intermediária entre o polegar e o ursinho, entre o
erotismo oral e a verdadeira relação de objeto, entre a
atividade criativa primária e a projeção do que já foi
introjetado, entre o desconhecimento primário de
dívida e o reconhecimento desta. (…)
Objetos e Fenômenos Transicionais:
Escolha e Utilização
“Por essa definição, o balbucio de um bebê e o modo como
uma criança mais velha entoa um repertório de canções e
melodias enquanto se prepara para dormir, incidem na área
intermediária enquanto fenômenos transicionais,
juntamente com o uso que é dado a objetos que não fazem
parte do corpo do bebê, embora ainda não sejam
plenamente reconhecidos como pertencentes à realidade
externa”.
Winnicott postula que o objeto transicional não é o objeto em
especial que é transicional, mas sim o uso que o bebê faz dele.
O bebê elege um objeto real e representante da sua transição de
um estado fusional com a mãe para um estado de diferenciação e
de percepção dela como algo externo e separado de si.
Objetos e Fenômenos Transicionais:
Escolha e Utilização
O uso do objeto transicional demonstra que a
separação de fato não existe, pois o vazio entre bebê e a
mãe pode ser ocupado por um pedaço da realidade.
Esse objeto pode ser reivindicado na hora de dormir,
em momentos de solidão, ou quando um humor
depressivo ameaça manifestar–se. Uma das funções do
objeto transicional é a de acalmar o bebê.
Espaço Potencial
O espaço potencial é uma área hipotética e mutável
que se relaciona com a experiência de viver da pessoa.
Para ser desenvolvido é necessário que nos primórdios
de vida do bebê ele tenha confiado no amor materno –
ambiente suporte.
“O espaço potencial é algo que pode acontecer se
houver espaço para crescer". Desse modo, ele pode
expandir–se ao longo da vida, pois depende dos
resultados das experiências reais da pessoa.
A Clínica Winnicottiana
Os objetivos do tratamento psicanalítico: “A análise é para
quem quer, quem pode e quem precisa. Se isso não é possível,
faço outra coisa. Sou um analista fazendo outra coisa, e por
que não?".
No trabalho psicanalítico que tenha como foco o registro das
representações, o conhecimento do mundo interno fantasioso
chega, muitas vezes, a ser desprezado pelo paciente, que busca
primariamente por sustentação e espaço humano
compartilhados, os quais possam guardar poderes de
transformação.
O holding e o manejo do setting, tal como concebidos por
Winnicott, tornam-se os instrumentos primordiais nesta
clínica.
Regressão e Criatividade:
Repetição e Esperança
É importante considerar o papel da regressão na clínica
winnicottiana: trata-se, em termos de fases, de maior ou
menor dependência no desenvolvimento do ego.
Quando se trata de regredir à fase de dependência
absoluta é preciso ter confiança.
Em Winnicott, a compulsão à repetição também pode
significar uma esperança; repete-se até conseguir a
resposta favorável que não se teve antes.
Regressão e Criatividade:
Repetição e Esperança
“É preciso experimentar pela primeira vez o que já foi
vivido antes". O que foi vivido antes – o
desmoronamento pelo qual passou a criança quando
não dispunha ainda de um ego suficientemente
integrado para ter uma verdadeira experiência – deve
ser experimentado na análise.
Regredir a estados de não integração é um processo
que se encontra na base da criatividade.
O Espaço Potencial e a Análise
Na visão winnicottiana deve-se procurar estabelecer uma
analogia entre o espaço transicional e o espaço analítico. Do
mesmo modo que o bebê precisa de um meio ambiente para
se constituir, o analisando necessitará de um novo meio
ambiente, o analítico, que funciona como o espaço potencial
onde acontecem as comunicações significativas e, na
transferência, se elaboram os conflitos e se reconstroem os
traços de sua personalidade, até então difíceis de serem
verbalizados.
Assim, como faz a mãe apresentando os objetos ao seu bebê,
também o mesmo fará o analista apresentando ao seu
analisando os conteúdos do seu inconsciente, de uma
maneira que ele possa assimilá-los sem traumas.
A Empatia
Segundo Winnicott é também a empatia que deve marcar o
setting analítico, quando se trata de problemas relacionados
a um fracasso ambiental num estágio primitivo do
desenvolvimento emocional do individuo.
“Um analista tem de exibir toda a paciência, a tolerância e a
confiança de uma mãe devotada a seu bebê; tem que
reconhecer nos desejos do paciente, necessidades; tem que
pôr de lado outros interesses de forma a ser disponível,
pontual e objetivo; tem que parecer querer dar o que só é
realmente dado porque o paciente necessita”.
O Amor e o "Estar com"
Não é a interpretação que o paciente necessita em
determinados momentos, mas sim a compreensão
silenciosa e o estar com proporcionado pela presença viva e
alerta do analista.
A fala, ou mesmo o movimento, poderia arruinar o
processo ou ser excessivamente doloroso para o paciente.
São as inúmeras falhas, seguidas do tipo de cuidado que as
corrigem, que acabam por constituir a comunicação do
amor, assentada sobre o fato de haver ali um ser humano
que se preocupa.
“É através da percepção criativa, mais do que
qualquer outra coisa, que o indivíduo sente que a
vida é digna de ser vivida".
D. W. Winnicott, 1975