MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA
PETIÇÃO Nº 10.438/DF – ELETRÔNICO
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RELATORA : MINISTRA CÁRMEN LÚCIA
REQTE. : PAULO ROBERTO GALVÃO DA ROCHA E OUTROS
REQDOS. : JAIR MESSIAS BOLSONARO
PARECER AJCRIM-STF/PGR Nº 355699/2022
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Excelentíssima Senhora Ministra Relatora,
O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pela Vice-Procuradora-
Geral da República, no uso de suas atribuições constitucionais e legais, em
atenção ao despacho exarado em 29 de junho de 2022, vem, perante Vossa
Excelência, manifestar-se nos termos que seguem.
1. RELATÓRIO
A petição em epígrafe foi autuada a partir de notitia criminis
apresentada junto ao Supremo Tribunal Federal pelos Senadores da República
PAULO ROBERTO GALVÃO DA ROCHA (PT/PA), HUMBERTO SÉRGIO
COSTA LIMA (PT/PE), FABIANO CONTARATO (PT/ES), JACQUES
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WAGNER (PT/BA), JEAN PAUL TERRA PRATES (PT/RN), PAULO RENATO
PAIM (PT/RS) e ZENAIDE MAIA CALADO PEREIRA DOS SANTOS (PROS/
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RN) em face do Presidente da República JAIR MESSIAS BOLSONARO,
atribuindo-lhe a prática dos crimes de violação de sigilo processual (artigos
153, §1º-A e 325 do Código Penal1) e obstrução de justiça (artigo 2º, §1º, da Lei
12.850/20132).
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Narram os noticiantes que, “conforme amplamente divulgado na
mídia, na data de 24 de junho de 2022, desdobramentos das apurações processuais, em
sede de inquérito policial e processual judicial, acerca de possíveis atos criminais de
corrupção passiva, tráfico de influência, advocacia administrativa e prevaricação pelo
ex Ministro da Educação – Milton Ribeiro trazem a lume posturas do Excelentíssimo
1
Art. 153 - Divulgar alguém, sem justa causa, conteúdo de documento particular ou de correspondência confidencial, de que é
destinatário ou detentor, e cuja divulgação possa produzir dano a outrem:
Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa, de trezentos mil réis a dois contos de réis.
(...)
§ 1o-A. Divulgar, sem justa causa, informações sigilosas ou reservadas, assim definidas em lei, contidas ou não nos sistemas de
informações ou banco de dados da Administração Pública:
Pena – detenção, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
Art. 325 - Revelar fato de que tem ciência em razão do cargo e que deva permanecer em segredo, ou facilitar-lhe a revelação:
Pena - detenção, de seis meses a dois anos, ou multa, se o fato não constitui crime mais grave.
§ 1o Nas mesmas penas deste artigo incorre quem:
I – permite ou facilita, mediante atribuição, fornecimento e empréstimo de senha ou qualquer outra forma, o acesso de pessoas
não autorizadas a sistemas de informações ou banco de dados da Administração Pública;
II – se utiliza, indevidamente, do acesso restrito.
§ 2o Se da ação ou omissão resulta dano à Administração Pública ou a outrem:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
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Art. 2º Promover, constituir, financiar ou integrar, pessoalmente ou por interposta pessoa, organização criminosa:
Pena - reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa, sem prejuízo das penas correspondentes às demais infrações penais
praticadas.
§ 1º Nas mesmas penas incorre quem impede ou, de qualquer forma, embaraça a investigação de infração penal que envolva
organização criminosa.
2
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Presidente da República Jair Messias Bolsonaro que apontam para possível prática de
violação de sigilo processual e obstrução de justiça”3.
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Afirmam que “o jornal O Globo traz notícia – instruída com trechos
de gravações de ligações telefônicas interceptadas, que integra elementos de prova da
investigação criminal – de que ”o Ministério Público Federal cita possível interferência
ilícita de Bolsonaro na investigação contra Milton Ribeiro”4.
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Ressaltam que o alerta do Presidente da República se
concretizou com a prisão e o cumprimento de mandados de busca e apreensão
em desfavor do ex-Ministro da Educação MILTON RIBEIRO e de outros
investigados, em violação ao sigilo das investigações e em vulneração à
colheita de provas.
Os representantes requerem “a intimação da Procuradoria-Geral
da República para, se assim convencida, oferecer denúncia contra o representado JAIR
MESSIAS BOLSONARO, atual Presidente da República, pelos fatos expostos, sem
prejuízo de outros que identifique como violadores da ordem jurídica e dos deveres
funcionais, à luz da legislação brasileira, de modo que sejam devidamente apuradas e
sancionadas as responsabilidades decorrentes da postura do mais alto dirigente da
3
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sabendo-da-operacao.ghtml
4
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milton-ribeiro-e-envia-caso-ao-stf.ghtml
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que-vao-fazer-buscas-e-apreensao.ghtml
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nação e do Governo deletérias ao Estado de Direito e aos princípios Republicanos,
caros à nossa sociedade e essenciais à nação, em possíveis atos de obstrução da justiça e
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violação de sigilo funcional, tipificadas em lei”.
Os autos foram remetidos à Procuradoria-Geral da República
para manifestação.
É o relatório.
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2. QUESTÃO PRELIMINAR: DA AUSÊNCIA DE LEGITIMIDADE AD
CAUSAM
A notícia-crime possui inegavelmente natureza extrajudicial,
de sorte que o procedimento adequado no âmbito dos Tribunais Superiores é o
peticionamento perante a Procuradoria-Geral da República, objetivando a
adoção das medidas cabíveis, como corolário do sistema constitucional
acusatório (art. 129, inciso I, CF) e em consonância com a determinação
expressa do art. 230-B do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal:
Art. 230-B. O Tribunal não processará comunicação de crime, encaminhando-a à
Procuradoria-Geral da República. (Atualizado com a introdução da Emenda
Regimental 44/2011) (Grifo nosso)
Nesse sentido, cumpre trazer à colação as seguintes decisões do
Supremo Tribunal Federal:
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(…) 4. Nos termos do art. 230-B do Regimento Interno do STF, “o Tribunal não
processará comunicação de crime, encaminhando-a à Procuradoria-Geral da
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República” (grifei). A rigor, portanto, notícias de crimes devem ser apresentadas
diretamente ao Ministério Público, não ao Supremo Tribunal Federal, que deve
se limitar a encaminhá-las ao Parquet.
5. No sistema acusatório, não cabe ao Poder Judiciário, como regra, determinar, de
ofício, a instauração de inquérito. De acordo com o art. 21, XV, do RISTF, cabe ao
Relator “determinar a instauração de inquérito a pedido do Procurador-Geral
da República, da autoridade policial ou do ofendido” (Grifei).
6. O crime apontado pelo noticiante é de ação penal pública (CP, art. 319).
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Portanto, o noticiante não possui legitimidade para requerer a instauração de
inquérito. O direito que detém é o de apresentar a notícia-crime diretamente ao
Ministério Público. Sendo o noticiado o Procurador-Geral da República, deverá
direcionar o pedido diretamente ao Vice-Procurador-Geral ou a outros Sub-
Procuradores-Gerais.
7. Diante do exposto, extingo a petição, nos termos do art. 21, § 1º, do
Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal. 5 (grifos originais)
(d) Os precedentes da Primeira Turma autorizam o imediato arquivamento da
autodenominado “notitia criminis”, ao estabelecer que “Qualquer pessoa que,
na condição exclusiva de cidadão, apresente ‘notitia criminis’, diretamente a este
Tribunal, em face de detentor de prerrogativa de foro, é parte manifestamente
ilegítima para a formulação de pedido para a apuração de crimes de ação penal
pública incondicionada (INQ nº 149/DF, Rel. Min. Rafael Mayer, Pleno, DJ
27.10.1983; INQ-AgR nº 1.793/DF, Rel. Min. Ellen Gracie, Pleno, maioria, DJ
14.6.2002; PET-AgR - ED nº 1.104/DF, Rel. Min. Sydney Sanches, Pleno, DJ
23.5.2003; PET nº 1.954/DF, Rel. Min. Maurício Corrêa, Pleno, maioria, DJ
1º.8.2003; PET-AgR nº 2.805/DF, Rel. Min. Nelson Jobim, Pleno, maioria, DJ
27.2.2004; PET nº 3.248/DF, Rel. Min. Ellen Gracie, decisão monocrática, DJ
23.11.2004; INQ nº 2.285/DF, Rel. Min. Gilmar Mendes, decisão monocrática, DJ
13.3.2006 e PET-AgR nº 2.998/MG, 2ª Turma, unânime, DJ 6.11.2006; Pet.
3825-QO, Tribunal Pleno, Rel. para Acórdão Ministro Gilmar Mendes, j.
5
Disponível em: http://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=15344973525&ext=.pdf. Acesso em 07.02.2022.
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10/10/2007)” (PET 6266-AgR, Primeira Turma, Rel. Min. Luiz Fux). Na mesma
linha: PET 8811, Rel. Min. Roberto Barroso.6 (Grifo nosso)
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O acesso à Corte Constitucional está sujeito a diversas filtragens
processuais, a exemplo do pré-questionamento como requisito de
admissibilidade do recurso extraordinário (Súmula 356 do Supremo Tribunal
Federal); da exigência de repercussão geral dos temas constitucionais
deduzidos em recurso extraordinário (art. 102, § 3°, da Constituição Federal);
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da legitimação ativa especial que mostre a correspectiva pertinência temática
do requerente em ações do controle concentrado de constitucionalidade (art.
103 da Constituição Federal), entre outros.
No sistema processual brasileiro, o peticionamento perante o
Supremo Tribunal Federal não é amplo e irrestrito. Ao revés, trata-se de um
acionamento racional, criterioso e de qualidade, sobretudo no campo penal e
diante da especificidade da investigação de detentor de foro por prerrogativa
de função perante essa Corte.
No caso, os peticionantes carecem de legitimidade ad causam,
condição subjetiva indispensável para a deflagração de processo perante a
Suprema Corte, considerados os pedidos formalizados.
É certo que não se pretende cercear o direito constitucional de
petição do ora requerente, previsto art. 5°, inciso XXXIV, alínea “a”, da
6
Disponível em: https://redir.stf.jus.br/paginadorpub/paginador.jsp?docTP=TP&docID=753179905. Acesso em 07.02.2022.
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Constituição Federal, e germinado do right of petition da Carta Magna de 1215.
Ao contrário, busca-se à luz do devido processo legal reafirmar que o percurso
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adequado é o direcionamento de notícia-crime à Procuradoria-Geral da
República onde seria tratado e examinado como Notícia de Fato, de acordo
com a Resolução nº 174, de 4 de julho de 2017:
Art. 1º A Notícia de Fato é qualquer demanda dirigida aos órgãos da
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atividade-fim do Ministério Público, submetida à apreciação das Procuradorias
e Promotorias de Justiça, conforme as atribuições das respectivas áreas de atuação,
podendo ser formulada presencialmente ou não, entendendo-se como tal a
realização de atendimentos, bem como a entrada de notícias, documentos,
requerimentos ou representações. (Grifo nosso)
Essas comunicações, de volume inegavelmente expressivo e em
desfavor de autoridades públicas, incluindo-se o Presidente da República e
Ministros de Estado, são processadas como Notícias de Fato na Procuradoria-
Geral da República, justamente para funcionarem como uma espécie de
purificador e de anteparo à Corte Constitucional, a fim de não sobrecarregar a
já pesada estrutura investigativa do Supremo Tribunal Federal.
Com isso, evita-se que centenas de representações, algumas
apócrifas, desconexas e/ou infundadas, aterrissem direta e desnecessariamente
no campo da supervisão judicial da Corte, transformando-se em Petições
natimortas sem o devido tratamento racional e eficiente, na direção oposta ao
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que preconiza o art. 1°, alínea “a”, da Convenção de Mérida contra a
Corrupção (Decreto 5.687/2006).
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Para complementar, essas Notícias de Fato atuam de forma
similar às “verificações de procedência das informações”, medidas preparatórias de
eventual instauração de inquérito policial, como estabelece o art. 5°, § 3° 7 do
Código de Processo Penal.
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Acerca da matéria, a doutrina elucida:
Como o próprio nome sugere, cuida-se de investigação preliminar e simples,
verdadeiro filtro contra inquéritos policiais temerários, que possibilita a
colheita de indícios mínimos capazes de justificar a instauração de um
inquérito policial. Sua instauração, muito comum diante de denúncias
anônimas, afasta a possibilidade de imputação do crime de abuso de autoridade
do art. 27 da Lei n. 13.869/19, vez que o parágrafo único desse dispositivo prevê
que não haverá crime quando se tratar de investigação preliminar sumária,
devidamente justificada. As diligências levadas a efeito nesses procedimentos –
comumente chamados de verificação de procedência de informações (“VPI”) – são
relativamente simples e devem ser documentadas em relatórios. […] Seu
fundamento normativo é extraído do art. 5º, § 3º, do CPP, in fine.
(Brasileiro, Renato. Manual de processo penal. 8ª ed. Salvador: JusPodivm, 2020,
p. 198) (Grifo nosso)
Nesse mesmo horizonte, insere-se a figura da denominada
“investigação preliminar” de que cuida o art. 183 da Instrução Normativa n°
1/1992 da Polícia Federal em relação à instauração de seus inquéritos. O
7
§ 3º Qualquer pessoa do povo que tiver conhecimento da existência de infração penal em que caiba ação pública poderá,
verbalmente ou por escrito, comunicá-la à autoridade policial, e esta, verificada a procedência das informações, mandará
instaurar inquérito.
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próprio Supremo Tribunal Federal compreende dessa forma, nos seguintes
termos:
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Firmou-se a orientação de que a autoridade policial, ao receber uma denúncia
anônima, deve antes realizar diligências preliminares para averiguar se os
fatos narrados nessa “denúncia” são materialmente verdadeiros, para, só
então, iniciar as investigações. 2. No caso concreto, ainda sem instaurar
inquérito policial, policiais civis diligenciaram no sentido de apurar a
eventual existência de irregularidades cartorárias que pudessem conferir
indícios de verossimilhança aos fatos. Portanto, o procedimento tomado pelos
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policiais está em perfeita consonância com o entendimento firmado no
precedente supracitado, no que tange à realização de diligências
preliminares para apurar a veracidade das informações obtidas
anonimamente e, então, instaurar o procedimento investigatório
propriamente dito. (HC 98.345/RJ) (Grifo nosso)
A autuação de Notícias de Fato como Petições no Supremo
Tribunal Federal, ademais, mostrou-se via para possíveis intenções midiáticas
daqueles que cada vez mais endereçam comunicação de crime imediatamente
à Suprema Corte, em vez de trilharem o caminho devido do sistema
constitucional acusatório do art. 129, inciso I, noticiando os fatos ao Ministério
Público, a fim de iniciar as perscrutações de hipotético delito, fase
eminentemente pré-processual, como se atentou o Ministro Marco Aurélio:
A rigor, cabe informar à autoridade policial ou ao Ministério Público Federal,
titular de uma possível ação penal incondicionada, a prática criminosa, mas parece
ter mais repercussão vir ao Supremo. (Petição 9.605) (Grifo nosso)
O acesso à justiça ao longo da História passou por
transformações para atender à expectativa humanística desse direito, de modo
que há de ser visto como um requisito essencial dos Direitos Humanos de um
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sistema jurídico moderno e igualitário que busca garantir os direitos de todos
os cidadãos, sob a ótica efetiva e não apenas formal, consagrado no art. 7.6 da
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Convenção Americana de Direitos Humanos (promulgada pelo Decreto n°
678/1992) e no art. 5°, inciso XXXV, da Constituição Federal. Abusar desse
direito significa desprezar as lutas para a sua positivação no ordenamento
jurídico, seja no plano interno, seja no plano internacional.
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Portanto, o Supremo Tribunal Federal, ao refletir sobre o abuso
do direito de petição, entende que “[…] Há manifesto abuso do direito de
peticionar quando o autor pretende se valer do Poder Judiciário como órgão de
passagem para pleitos […]” (Pet 8.224/DF-AgR, Relator Ministro Luiz Fux, DJe
de 6-7-2020) (Grifo nosso).
Por fim, os fatos trazidos à baila pelos Requerentes reproduzem
praticamente o teor de notícia-crime apresentada pelo Deputado Federal
REGINALDO LÁZARO DE OLIVEIRA LOPES na PET 10.426/DF e pelo
Deputado Federal ISRAEL BATISTA na PET 10.434/DF, nas quais o Ministério
Público Federal já se manifestou pela negativa de seguimento da pretensão
justamente por perfilhar caminho alheio ao determinado pelas normas
constitucionais e processuais de regência.
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3. DA LITISPENDÊNCIA
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Os fatos relatados pelos peticionantes figuram como objeto do
inquérito policial que, segundo noticiado pela imprensa 8, foi declinado pela
15ª Vara Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal ao Supremo Tribunal
Federal em razão de suposta interferência, por pessoa com foro por
prerrogativa de função na Corte Suprema, nas investigações e no
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cumprimento das medidas cautelares determinadas pelo juízo de 1º grau.
Considerando que os fatos ora representados já estão, em tese,
abrangidos por inquérito policial que foi declinado ao Supremo Tribunal
Federal por suposto envolvimento de pessoa com prerrogativa de foro, não se
justifica, a princípio, deflagrar mais um procedimento investigativo com
idêntico escopo, sob pena de se incorrer em litispendência e violação ao
princípio do “ne bis in idem”.
Nessa linha, ao que tudo indica, os autos do referido inquérito
ainda não aportaram no Supremo Tribunal Federal ou estão na pendência de
remessa à Procuradoria-Geral da República.
Avulta ressaltar que somente por meio do devido acesso ao
procedimento formal investigativo será possível o pleno conhecimento dos
8
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interferencia-de-bolsonaro.ghtml
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elementos de informação que foram colhidos após a deflagração de medidas
cautelares e, por consequência, a devida apreciação pelo Parquet e as
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providências a serem adotadas.
De fato, a representação criminal que deu ensejo à presente
Petição apenas narra o teor de matéria jornalística que, por sua vez, faz
menção a suposto vazamento de operação policial que culminou com a prisão
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do ex-Ministro da Educação e de outros investigados e ao resultado parcial de
investigação em primeira instância que teria sido declinada à Corte Superior,
tal qual já fizeram a PET 10.426/DF e a PET 10.434/DF, com possibilidade de
aportarem inúmeras outras petições de idêntico conteúdo na Corte Superior.
Em verdade, a presente notícia-crime, a PET 10.426/DF e a PET
10.434/DF não inovam nem trazem consigo quaisquer elementos para
contribuir com as investigações em andamento.
Portanto, a cognição ministerial deve ser formada a partir do
exame dos elementos de informação já documentados no referido
procedimento investigativo, sem necessidade de instauração de novas Petições
sobre a mesma situação, sob pena de “bis in idem”.
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4. CONCLUSÃO
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Ante o exposto, o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL manifesta-se
pela negativa de seguimento à Petição, em razão da falta de legitimidade ad
causam dos peticionantes e de os fatos representados já estarem contemplados
no mencionado inquérito em curso.
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Brasília, data da assinatura digital.
Lindôra Maria Araujo
Vice-Procuradora-Geral da República
FG/GSC
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