Capitulo 4
Capitulo 4
Morin (2000) faz alusão a cegueira do conhecimento, destaca o erro e a ilusão como os principais
riscos dessa “cegueira” a medida que subestimamos os problemas referentes a ilusão e ao erro cuja
origem pode ser de cunho mental, intelectual e da razão, sendo este último o que exige mais
atenção. Precisamos ser críticos e autocríticos para que obtenhamos a verdadeira racionalidade, o
que não significa que devemos deixar de usar a subjectividade e nossa afectividade para alcançar a
verdadeira racionalidade.
Morin (2005) suscita que: “a verdadeira racionalidade, aberta por natureza, dialoga com o real que
lhe resiste, opera o ir e vir incessante entre a instância logica, e a instância empírica; é o fruto do
debate argumentado das ideias, e não a propriedade de um sistema de ideias. O racionalismo que
ignora os seres, a subjectividade, a afectividade e a vida é irracional”. (2005, p.23)
Nessa perspeciva, a incerteza do conhecimento e o inesperado são valorizados, já que no momento
que o conhecimento se torna incerto e acontece o inesperado, nossas teorias e nossos saberes acerca
do mundo aprimoram-se e renovam-se. chama atenção a necessidade de valorar, na educação, os
questionamentos e as possibilidades de conceber e desenvolver o conhecimento e, na busca da
verdade, compreender que: “As actividades auto-observadoras devem ser inseparáveis das
actividades observadoras, as autocríticas, inseparáveis das críticas, os processos reflexivos,
inseparáveis dos processos de objetivação “. idem.p.31.
O segundo saber que Morin (2000) considera importante a educação do futuro são relacionados aos
princípios do conhecimento pertinente , defendido pelo autor, como o conhecimento que exige um
contexto, relações reciprocas entre o todo e as partes, relações multidimensionais entre o ser
humano, simultaneamente biológico, psíquico, social, afectivo e racional, e a sociedade, com suas
dimensões históricas, económicas, sociológicas, religiosas, dentre outras, e enfrentar a
complexidade entendida como a união entre a unidade e a multiplicidade do conhecimento.
Alguns problemas considerando-os essenciais, que afectam o conhecimento pertinente, dentre eles,
o parcelamento e a compartimentação dos saberes. Essa fragmentação é muito prejudicial ao
processo de ensino e aprendizagem no instante em que os discentes não conseguem estabelecer
conexões entre as áreas do conhecimento. Por isso, Morin (2000), afirma que a hiperespecialização,
consequência do sistema cartesiano de ensino, reforça esse distanciamento, o que gera especialista
que se aprofunda nas partes e desconhece o todo, de modo geral. Logo, a necessidade de religação
dos saberes é urgente para a formação plena e consciência planetária dos seres humanos por isso:
A educação básica visto que a falta de religação de saberes ocasiona , geralmente em uma
educação sem significado e consequentemente, leva a um desinteresse no processo e acto
de conhecer: devemos, pois, pensar o problema de ensino, considerando, por um lado, os
efeitos cada vez mais graves de compartimentação dos saberes e da incapacidade de
articulá-los, uns aos outros; por outro lado, considerando que a aptidão para contextualizar
e integrar é uma qualidade fundamental da mente humana, que precisa ser desenvolvida, e
não atrofiada “. Morin, (2003, p.15).
Na tentativa de transpor a fragmentação dos saberes, pelo menos de modo embrionário, com a
finalidade de estabelecer uma integração das áreas de conhecimento e buscar a compreensão dos
saberes na sua totalidade, e não apenas nas partes. Machado (2014) sugere como recurso eficaz,
chamar atenção aos princípios norteadores dos temas abordados no cotidiano escolar, ressaltando a
necessidade de uma reforma de pensamento em torno da concepção de conhecimento: “é preciso
concentrar-se em um pequeno numero de ideias fundamentais de cada matéria; justamente pela
posição basilar que ocupam, elas se irradiam por todos os assuntos, articulando-os e fazendo que
cada disciplina transborde nas demais. Para isso, é necessário passar a limpo o modo como se pensa
sobre o conhecimento nas diversas disciplinas”. Machado, (2014, p.20.)
Os autores Morin (2000) e Machado (2014), pautam para a necessidade de uma reforma de
pensamento, assim como no ensino, é extremamente necessário a evolução da educação já que
ainda hoje existem práticas educativas que não condiz com que é necessário para formação do
cidadão, não levando em consideração as condições tanto sociais, quanto humana, do indivíduo.
Com a finalidade de estabelecer uma integração das várias áreas de conhecimento, e com intuito de
buscar a compreensão dos saberes na sua totalidade, e não apenas nas partes.
O terceiro aspecto, é Ensinar a condição humana é outro factor que Morin (2003) afirma que “A
educação do futuro deverá ser o ensino primeiro e universal, centrado na condição humana” idem
p.47. o ser humano para se identificar como tal, precisa conhece sua história, sua cultura, situar-se
no universo para se reconhece a Terra- pátria. Para que isso aconteça é necessário que o ser humano
faça o imbricamento entre os conhecimentos que a ele são proporcionados, sendo actualmente um
desafio, já que hoje a fragmentação e a hiperespecialização são factores que não contribuem ao
alcance do conhecimento pertinente.
Para Morin a condição humana se apresenta por meio da cultura e sugere circuitos que favorecem a
sua plena formação humana. Nesse contexto, o circuito cérebro/mente /cultura conduz a
interdependência do ser humano e sua sociedade e cultura: não há cultura sem cérebro humano
(aparelho biológico dotado de competência para agir, perceber, saber, aprender), mas não há mente,
isto é, capacidade de consciência e pensamento, sem cultura. A mente humana é uma criação que
emerge e se afirma na relação cérebro- cultura. Morin, (2007, p.52).
Para ensinar a condição humana, Morin nos mostra que partindo de que o ser humano é uno e
indivisível, mas constituído de diferentes dimensões como social histórica, psíquica, biológica, etc.
e essa constituição deve ser objectivo de estudo desde o nível básico de ensino, e o que o
individualismo na sociedade sendo direcionado não egocentrismo egoísmos que nos leva a rejeição
do próximo,
Conforme Morin (2007), ensinar a identidade humana é relevante a conservação do nosso planeta.
Com a mundialização e a tecnologia, o mundo se torna completamente conectado, entretanto os
humanos são cada vez mais solitários e egoístas. Para que possamos nos identificar como seres
humanos, precisamos ter consciência que dependemos um do outro e ser solidários em nossas
acções. Na educação, é necessário compreender que o conhecimento pode acontecer por meio da
partilha, socialização e mediação das experiências vividas e dos saberes adquiridos. Isso requer
desprendimento da prática educativa tradicional que tem o professor como o dono saber e o único
habilitado a possuí-lo. Este constitui o quarto saber.
O quinto é a incerteza, que surgiu a partir da ideia da ciência cartesiana de que tudo que é cientifico
pertence ao reino da certeza, mas não é bem assim temos que ensinar aos alunos a pensar no
imprevisto, ensinar o principio da incerteza, no qual o nosso conhecimento científico, nunca é um
produto absoluto de certezas, pelo contrario tudo quilo que originado pelo homem é criado com
base na ideia da incerteza. Por isso Morin (2000), declara que a incerteza pode levar-nos ao
progresso do saber ou do conhecimento e da cultura, e que também essa ideia deve ser incorporada
nas diversas áreas do ensino da educação.
Enfrentar as incertezas é a quarta proposta de saber para educacao do futuro, pois é através das
incertezas somos capazes de mudar e evoluir, pois toda evolução é fruto do desvio bem-sucedido
cujo desenvolvimento transforma o sistema onde nasceu: desorganiza o sistema, reorganizando-o.
Há necessidade de encarar as incertezas do conhecimento como oportunidade de alcança-lo, aborda
a noção de ecologia da acção. Esta noção subtende a inserção do individuo no mundo das
interacções, tendo o meio ambiente como o interventor que pode mudar a intenção inicial desta
acção, o que deixa incerto a chegada a finalidade almejada.
Segundo Morina (2003), afirma o que há três princípios básicos que compreende a ecologia da
acção do risco e da precaução, do fim e dos meios e o da acção e contexto. Esses princípios
norteiam as condições necessárias para enfrentar as incertezas. “O pensamento deve então armar-se
e aguerrir-se para enfrentar a incerteza. Tudo que comporta oportunidade comporta risco, e o
pensamento deve reconhecer as oportunidades de risco como os riscos de oportunidades “. Morin
(2003, p.91).
Como já foi mencionado, a incerteza, assim como o inesperado, pode oportunizar a compreensão do
conhecimento, gerando assim novos conhecimentos. Mas o que se entende do acto do
compreender? Na tentativa de responder, Morin (2003) em sexta proposta para a educação do futuro
revela a pertinência que tem a educação o ensinar a compreensão. Inicia sua defesa a este saber
problematizando que o acto de compreender o planeta é entrelaçado pela incompreensão com o
mesmo. O autor trata de deixar claro que primeiro se compreende a incompreensão do outro para
agir em rumo a compreensão. Há duas formas de compreensão para Morin (2000), a compreensão
intelectual, a e compreensão humana, sendo que as mesmas apresentam obstáculos.
Apresenta alguns desses obstáculos, nos quais destaco e existência do mal-entendido ou do não
entendido na transmissão da informação; a existência da ignorância dos ritos e costumes do outro; a
existência da incompreensão dos valores imperativos sociais de outra cultura; a existência da
impossibilidade de compreender as ideias ou argumentos do outro. alem disso, tem - se o
egocentrismo, etnocentrismo e sociocentrismo que atrapalham o processo de compreensão.
O último dos saberes que destaca Morin, 2007 é a ética do género humano imprimindo a
denominação de antropo-ética a ética de três termos seguintes individuo/sociedade/espécie como
alicerce de ensinamento da ética para a educação do futuro. Desta forma, a antropo-ética estimula a
reflexão dos seres humanos para o alcance da cidadania planetária: por Morin nos enfatiza que: “Do
mesmo modo que é preciso proteger a diversidade das espécies para salvaguardar a biosfera, é
preciso proteger a diversidade de ideias e opiniões, bem como a diversidade de fontes de
informações e de meios de informação (imprensa, mídia), para salvaguardar a vida democrática “.
Morin (2007, p.108).
Dialogar não pressupõe consenso ou convergência de ideias e opiniões, mas deve pressupor
necessária e fundamentalmente a disposição para a convivência com os opostos e com os
antagónicos. É desse debate saudável e ético que surge a complementaridade de práticas e
teorias, que na geração do conflito faz emergir o crescimento, o desenvolvimento e a
aprendizagem, da criação de novos pensamentos, caminhos e paradigmas. É desse dialogo
respeitoso que se coloca a religação de qualidade e características, a partir de divergências e
diferenças. O conflito é rico porque gera oportunidades de mudança e novos meios de
intervenção na realidade. Petraglia, (2013, p.95)
Podemos concluir que, os saberes necessários a educação do futuro promovem a todos os agentes
envolvidos no processo educativo um momento de reflexão e acção para a promoção de uma
educação pautada na evolução do ser humano e a preservação planetária, em busca de uma mudança
de postura e pensamento no que concerne o entendimento e a responsabilidade de ser humano.
Portanto, a escola precisa de reconstruir para ser um local propício a uma educação que pensa e
procura preservar os saberes sobre ética de respeito e solidariedade.
Os saberes necessários a educação do futuro, tem como a finalidade a evolução os seres humanos de
maneira consciente da missão de preservar nossa Terra- pátria, ressalta a necessidade da educação
actualmente vivenciada sofrer uma metamorfose, uma reforma de pensamento em torno da
complexidade do conhecimento e sobre o ensino. Nosso sistema educacional mutila o
conhecimento, deste modo a educação torna-se fragmentada. Podemos entender que a educação que
era para transmitir conhecimento é cega quanto ao conhecimento humano, não presenciamos uma
preocupação em fazer conhecer o que é conhecer, ou seja, não se ensina o que é o conhecimento,
mesmo que tenhamos em mentes que é importante saber o que é conhecimento. E esses saberes é
comprometida com o outro, com o mundo, com nós mesmos, que podem surgir surgir saberes
renovados aptos a construir a educacao do futuro, que já começou e se move
Analisando-se esses sete saberes, especialmente o terceiro, o quaro, o sexto e o sétimo, fica evidente
a preocupação de Morin com a interface entre a ética e educação. Alem da reforma educacional, o
autor aponta também a necessidade de adaptar o século a ética, adaptar a ética ao século. Morin
(2005), a qual pode ser entendida como uma reforma ética. Nota-se, portanto, a interdependência
existente entre ambas as reformas, no caso específico da ética, busca-se o desenvolvimento da ética
complexa pautada na educação, da qual abordamos neste capítulo.
A missão da educação
Morin (2000), a missão da educação para a era planetária é fortalecer ascondicoes de possibilidade
da emergência de uma sociedade -mundo composta por cidadãos protagonistas, consciente e
criticamente comprometidos com a construção de uma civilizacai planetária. A resposta a pergunta
circulara de Karl Marx em suas teses sobre Feuerbach: “ Quem educará os educadores?”, consiste
em pensar que, em diferentes lugares do planeta, sempre existe uma minoria de educadores,
animados pela fé na necessidade de reformar o pensamento e em regenerar o ensino. São
educadores que possuem um forte senso de sua missão:
Freud afirmava que existiam três funções impossíveis de definir: educar, governar e
psicanalisar. Todas elas sao mais que funções ou profissões. O caractter funcional do
ensino leva a reduzir o docente a um funcionário . o caracter profissional do ensino leva a
reduzir o docente a um mero especialista. O ensino tem de deixar de ser apenas uma
função, uma especialização, uma profissão e voltar a se tornar uma tarefa politica por
excelência, uma transmissão de estratégias para a vida. Morin (2000, p.98).
Neste sentido, o ensino pode se servir a função de transmitir uma cultura que permita compreender
melhor nossa condição humana, nos fornecendo subsídios para vivermos de forma mais excelente,
enquanto que a educação pode cumprir a função de nos tornar mais felizes e melhores , dando
significado artístico ou poético a nossa existência. A missão da educação do futuro é ensinar a
compreensão entre as pessoas como condiçao e garantia de solidariedade intelectual e moral da
humanidade. Idem, p.98.
A resposta a pergunta circular de Karl Marx em suas teses sobre Feuerbach: “Quem educará os
educadores?”, consiste em pensar que, em diferentes lugares do planeta, sempre existe uma minoria
de educadores, animados pela fé na necessidade de reformar o pensamento e em regenerar o ensino.
Para Morin, Ciurana e Motta, (2003)
Por isso, Morin (2003), a educação na era planetária, integra um projecto de difusão do pensamento
complexo para fortalecer as estratégias de reformas da educação, em três eixos temáticos, a questão
do método visto como caminho que se inventa e nos inventa; a necessidade de esclarecer o uso da
palavra complexidade e relacionar o conceito de complexidade com a ideia de pensamento
complexo e o terceiro, que se refere ao destino da era planetária. E numa outra perspectiva, Morin
(2006):” dada a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em
todas as ideias, o desenvolvimento da compreensão necessita da reforma planetária das
mentalidades; esta deve ser a tarefa da educação do futuro”. Morin, (2006, p.104) citado por
Castilho, (2009, p.18).
A complexidade deve ser reflectida no âmago da classe dos professores, como fundamento no
desenvolvimento da complexidade colocando-os múltiplos desafios, considerando a
transdisciplinaridade, e a multidimensionalidade da ética e da formação ética de professores, nas
suas vertentes individuais e colectivas, pessoais, profissionais:
Ensinar a viver faz emergir a necessidade de educar para a compreensão por meio de uma ética da
compreensão que seja a sustentação da missão pessoal docente enquanto expressão do Eros
pedagógico. Ao mesmo tempo possibilita-se o aprofundamento nos conteúdos da cultura humana e
científica e nas relações de vivencia entre as bioclasses de adolescentes e professores, é imperativa
uma reforma epistemológica em prol da compreensão, liberta de visões reducionistas, aberta para os
riscos e as incertezas, a fim de que os caminhos trilhados sejam conscientes acerca das posições
fundantes como sustenta, Morin (2015).
Para Levinas (1998) citado por Silva (2015), a educação deverá ser pensada em uma perspectiva
ética e longe de constituir-se como possibilidade de acolhimento e responsabilidade com o outro em
um processo que permite ao sujeito sair de si em direcção ao encontro do outro, a transcendência.
Necessária para o comprometimento, acolhimento e a responsabilidade por aquele outro, no
desenvolvimento das acções educativas. E, para Ortega (2004) idem p,44, a pedagogia precisa de
uma reflexão profunda, não apenas com relação as aulas, mas também com a relação ao contexto na
qual se insere, torna-se oportuno observar que a educação não será o único caminho de solução dos
problemas actuais, o espaço educativo se constitui em um espaço de excelência para que a semente
de uma nova realidade seja plantada e possa germinar uma educação sem a ética.
A ética compreendida sob o ponto de vista da complexidade pode levar o ser humano, bem como
toda a humanidade, a pensar e agir segundo os princípios da compreensão e da solidariedade, e o
desenvolvimento de uma ética complexa pressupõe e possibilita uma verdadeira reforma do nosso
modo de pensar e, por conseguinte, da educação escolar, para Martinazzo, Grzeca (2011).
Para Morin (2005), portanto, existem ideias-guias ou princípios operativos de ética, como: A ética
da religação, que se opõe ao que se disjunta, reduz e fragmenta ou separa; a ética de religação
entrelaça todas as formas de fraternidade e solidariedade, para a reconstrução individual e colectiva:
Para uma educação voltada para a totalidade dos indivíduos da sociedade e baseada nos quatro
pilares da educação contemporâneas estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para a
Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO): aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer, é
preciso uma reforma do pensamento. Para Morin (2006) citado por Castilho (2009, p.16), enfatiza a
reforma do pensamento, para articular e organizar os conhecimentos e assim reconhecer os
problemas do mundo, é necessária a reforma do pensamento. Entretanto, esta reforma é
paradigmática: “é a questão fundamental da educação, já que se refere a nossa aptidão para
organizar o conhecimento. Os saberes desunidos, divididos, compartimentados são inadequadas as
necessidades das realidades ou problemas cada vez mais multidisciplinares, transversais,
multidimensionais, transnacionais, globais e planetários que estamos vivendo”. Idem.p.35. Destarte,
a educação do futuro precisa dominar a complexidade do global, perceber que o todo tem
qualidades ou propriedades que naos ao encontradas na unidade isolada que por seu ensejo
descaracteriza-se quando separada do todo. É preciso efectivamente recompor o todo para conhecer
as partes.
Notamos que, um dos objectivos da educação do futuro pretende a formar um novo cidadão com
valores que transitam por meio da solidariedade, consciência, compreensão, responsabilidade que se
pense global e aja localmente, sendo capaz de intervir e modificar a realidade social. A educação
deve compreender que existe uma relação inviolável e retro-alimentadora entre a antropologia e
epistemologia, relação que ilumina as dinâmicas do conhecer e do poder, de modo que não mutile o
saber.
A educação deve conduzir o homem a ser compreensivo. No entanto, Morin (2005), entende que a
incompreensão é a fonte de todos os males humanos. Endossa a importância que a compreensão tem
para a humanidade ao recordar Victor Hugo: “esforço-me em compreender para perdoar. O perdão
baseia.se na compreensão. Compreender um ser humano significa não reduzir a pessoa a falta ou ao
crime cometido e saber que ela tem possibilidade de recuperação”. Morin, (2005) citado por Gelati,
Trevisol (2008 p.185).
Estará no nosso entender que, a educação deve levar o homem a pautar pela compreensão. Não se
trata de acrescentar uma nova disciplina a programas escolares já sobrecarregados, mas de
reorganizar os ensinamentos de acordo com uma visão de conjunto dos laços que unem homens e
mulheres ao meio ambiente, recorrendo as ciências da natureza e as ciências sociais. Esta formação
poderia, igualmente, ser posta ao dispor de todos os cidadãos, na perspectiva de uma educação
compreensiva que se estenda ao longo de toda a vida.
A escola está se tornando um lugar diferente e, mesmos que não demonstre tantas mudanças depois
da Pandemia de 2020, é certo que desvios a racionalidade cartesiana surgirão com potencial de
serem fortalecidos. assim, tornou-se urgente investir em educacao que provoque forma de
pensamento capaz de analisar problemas e conflitos em diferentes domínios, habilidade de
antecipar, compreender e avaliar futuros próximo «s, negociar normas e valores impostos,
desenvolver colectivamente acções inovadoras, colaborar, compreender, respeitar, sensibilizar-se e
lidar com conflitos ambientais e sociais que surjam UNESCO )2017, citado por Berg et al 2020 .
A exigência de uma solidariedade em escala mundial supõe, por outro lado, que todos ultrapassem a
tendência de se fecharem sobre si mesmos, de modo a abrir-se a compreensão dos outros, baseada
no respeito pela diversidade. Neste metaponto Delors (1998) argumenta que: “a responsabilidade da
educação nesta matéria é, ao mesmo tempo, essencial e delicada, na medida em que a noção de
identidade se presta a uma dupla leitura: afirmar sua diferença, descobrir os fundamentos da sua
cultura, reforçar a solidariedade do grupo”. Delors (1998, p.47-48).
Por isso, Morin (2000), entende que, é necessário educar para compreender a matemática ou uma
disciplina determinada é uma coisa; educar para a compreensão humana é outra. Nela encontra-se a
missão propriamente espiritual da educação; ensinar a compreensão entre as pessoas como condição
e garantia da solidariedade intelectual e moral da humanidade.
O trabalho participativo e interdisplinar propõe trazer uma série de acções e reflexões a respeito do
acto de educar. Em um processo de formação no qual se pretende orientar os diversos segmentos
para o exercício de um trabalho participativo e cidadão, visando uma acção com a comunidade
escolar, interna e externa, trabalhando na perspectiva da construção conjunta da satisfação e
corresponsabilidade na elaboração de um projecto que rompa com paradigmas tradicionais, para o
êxito de uma ética do companheirismo. Ética que implica relação interpessoal, dialógica e solidaria.
Freire (1996).
O saber de que a ética precisa é um saber aberto, capaz de gerar um pensamento que concilie a
reflexão sobre o macrossocial e as escolhas pessoais. Essa razão se dá pela aprendizagem do saber
pensar para além da racionalidade, mas numa razão crítica e autocrítica. É necessário saber ver e
saber pensar com o pensamento complexo aberto e solidário, Limena (2008) citado por Gzreca
(2011).
Para D’ Ambrósio 2007, afirma que os desafios da escola e dos educadores, sugere que a escola
necessita estimular a aquisição, a organização, a geração e a difusão do conhecimento vivo,
integrado nos valores a expectativas da sociedade.
Neste contexto o educador tem a missão alem de compartilhar conhecimento, fazer com
que o educando seja agente multiplicador de saberes pertinentes a melhora de nossa
sociedade e de nosso planeta: O grande desafio para a educação é pôr em prática hoje o que
vai servir para o amanha. Pôr em prática significa levar pressupostos teóricos, isto é, um
saber/fazer acumulado de tempos passados, ao presente. Os efeitos da prática de hoje vão se
manifestar no futuro. Se essa prática foi correcta ou equivocada só será notado após o
processo e servirá como subsídio para uma reflexão sobre os pressupostos teóricos que
ajudarão a rever, reformular, aprimorar e saber/fazer que orienta nossa prática. D’
Ambrósio (2007, p.81).
Conforme Santos (2010) traz-nos a proposta de uma “ecologia de saberes” que constitui grande
desafio, propondo uma interpretação das inter-relações do conhecimento, onde estes se
correlacionariam, porém Não como, como na hierarquia da arvore e sim em suas alteridades. Uma
inter-relação entre os diversos conhecimentos e saberes, é o desafio ético-epistemológico deste
novo olhar, deste novo pesquisar.
O desafio é reconhecer estes saberes, suas inter-relações de conhecimento seus espaços na “ecologia
de saberes”, ou ainda se podemos relacionar os saberes. na ecologia de saberes cruza-se
conhecimentos. Na ecologia de saberes cruzam-se conhecimentos, também ignorâncias. No existe
uma unidade de conhecimento, como não existe uma unidade de ignorância. As formas de
ignorância são tao heterogéneas e inter-dependentes quanto as formas de conhecimento. A ecologia
de saberes capacita-nos para uma visão mais abrangente daquilo que conhecemos, assim como o
que desconhecemos, nos previne para que não sabemos é ignorância nossa
Para Morin (2000), o paradigma da complexidade, com intuito da visão do todo, em busca de um
pensamento complexo, estabelecendo conexões entre as diversas áreas do conhecimento por meio
de um pensamento multidimensional, que provoque a produção individual e colectiva dos alunos e
com enfoque critico, reflexivo transformador e globalizador. Morin 2000 tenta mostrar as
inspirações para o educador com os saberes necessários a uma boa prática educacional, o objectivo
desses saberes não é transformá-los em disciplinas, mas sim em directrizes para acção e para
elaboração de propostas e intervenções educacionais.
Assim, devemos compreendermos que na era hodierna, a educação encontra-se apoiada na visão do
passado que prevalece a fragmentação do conhecimento, o fraccionamento do saber e que leva o
indivíduo a entender o universo em que vive de forma fracciosa sem conexão com o todo ou o
universal, pois não prevalece o conhecimento integral e assim vem romper qualquer interacção
entre o local e o global do conhecimento, a educação deste modo necessita actuar na construção do
bem pensar , que alarga a compreensão humana. Morin (2005).
A educação é um desafio que está presente na vida, onde o indivíduo deve constantemente estar em
busca, pois tal atitude servirá para o crescimento. Como entende Morin (2002, p.11), “o saber não
nos torna melhores se não mais felizes e nos ensinar a assumir a arte prosaica do viver”. portanto,
falar de educação é destacar o papel que esta desempenha: como a de humanizar o indivíduo para
viver em sociedade. Ainda segundo o autor, quando o ser humano começar a ser humanizar poderá
controlar a sociedade que o controlar devido não entenderem a complexidade que circunda o
conhecimento: as sociedades domesticam os indivíduos por meio de mitos e ideias, que, por sua
vez, domesticam as sociedades e os indivíduos, mas os indivíduos poderiam, reciprocamente,
domesticar as ideias, ao mesmo tempo em que poderiam controlar a sociedade que o controla.
Morin (2007, p.29)
O saber unificado surgiu quando a consciência humana emergiu da natureza e expressou-se no mito.
Para Fazenda (2008), com os olhos de presente e de futuro, promove com Sócrates na história do
conhecimento:
Não é possível pensar em uma educação que não seja capaz de tornar o estudante mais solidário,
comprometido e consciente. deste modo estabelece um caminho para se pensar a educação de forma
multidimensional, sendo prioritário de uma ética complexa. Não basta um conhecimento
operacional, de técnica, mas se faz necessário um conhecimento específico e profundo, ou seja, um
conhecimento com consciência, com aprofundamento e com mais humanidades e não um saber que
apenas ensine a se operar determinada coisa. E acredita sendo necessária uma ética de solidariedade
para a construção de um pensamento complexo, estabelecendo inter-relações entre as diferentes
áreas do conhecimento, assim como propõe o respeito aos outros seres vivos e ao próprio planeta.
Educar com vista a convivência solidária, onde o balizamento para atitudes éticas são os interesses
pessoais e também colectivos, é prever não o cidadão isolado, mas as pessoas em comunhão umas
com as outras, onde o agir individual está conectado para a sensibilidade solidária, consciente e
responsável. Morin (2000, p.85) “as mentes formadas pelas disciplinas perdem suas aptidões
naturais para contextualizar os saberes, do mesmo modo que para integrá-los em seus conjuntos
naturais. O enfraquecimento da percepção do global conduz ao enfraquecimento da
responsabilidade (cada qual tende a ser responsável apenas por sua tarefa especializada), assim
como ao enfraquecimento da solidariedade (cada qual não mais sente os vínculos com seus
concidadãos).
Para Morin (2000) citado por Vieria (2016), a ética da complexidade constitui a religação ética,
todo olhara sobre a ética deve perceber que o acto moral é um acto individual de religação,
religação com o outro, religação com uma sociedade e no limite, religação com a espécie humana.
Morin sugere um comportamento solidário que leva os indivíduos a prática do amor, da amizade e
altruísmo. Dessa forma esses indivíduos estariam promovendo um acto de religação, e tal religação
passaria por laços de uma certa harmonia que levaria os indivíduos um compromisso ético solidário
pois ele alerta que se a ética é tão natural assim, é bom observar que o homem e a sociedade
possuem naturezas diferentes. Enquanto os indivíduos são movidos pelo egocentrismo que podem
levar ao egoísmo, a sociedade se move por competição, rivalidade. As sociedades não conseguem
que suas regras sejam impostas a todos os indivíduos, estando estes sujeitos a um comportamento
egoísta.
Morin (1998) considera o problema da responsabilidade um tema complexo, uma vez que cada um
é responsável pelo que diz e pelo que fala. E por outro lado, não é responsável pela interpretação
que s outros fazem do que diz ou das interpretações equivocadas de seus actos. E para Bakhtin
(2011) citado por Silva 2015citado por a educação ao enfatizar a necessidade do outro para a
constituição do sujeito e do papel da linguagem na comunicação humana no âmbito das interacções,
partindo do pressuposto de que educar implica o carácter libertador que traz para o centro não
apenas a questão do diálogo como possibilidade de educar sob perspectiva da alteridade ética. Uma
educação aberta a aprender com o outro, sob princípios do alteridade ética, na relação eu-outro.
Morin (2001) recomenda o ensino da ética como um dos saberes necessários a educacao. Um modo
de pensar capaz de unir e solidarizar conhecimentos separados, é capaz de se desdobrar em uma
ética da união e da solidariedade entre os humanos. E Para Castiano, Ngoenha e Guro (2012), o
problema de “Viver Juntos” implica que reconheçamos no Outro a possibilidade de enriquecer-nos
de forma recíproca com os valores uns dos outros, sendo Moçambique um mosaico multicultural.
E Castiano, e Ngoenha (2013), defendem a ideia de uma educação multi (inter) cultural que tenha
como fundamento uma ética global baseada numa teoria baseada no reconhecimento do outro, e não
apenas se limitar a uma ética comunicativa de Habermas, e a luz desta ética global do
reconhecimento recíproco, uma educação multiculturalista para Moçambique, tendo como
abordagens ligadas as questões de valores e contra-valores culturais locais, reflectir sobre bases,
jurídicas, políticas, sociais, e pedagógicas da interculturalidade ,assim como fornecer aso discentes
instrumentos de se precaverem contra imperialismo ético-cultural. E na mesma vertente, Mazula
(2018) que a nossa sociedade moçambicana é complexa e multicultural, e deve educar as crianças a
pautarem pela diversidade, cooperação, respeito e pela solidariedade por isso que salienta:
Conforme podemos constatar que para, Morin (2003), aborda a ética da complexidade, que procura
de unir e solidarizar conhecimentos separados, e, é capaz de se desdobrar em uma ética de união e
da solidariedade entre os humanos. E Castiano, e Ngoenha (2013), defendem a ideia uma ética
global para a uma educação multi (inter) cultural, baseada numa teoria baseada no reconhecimento
do outro, e não apenas se limitar a uma ética comunicativa partindo de pressuposto de Habermas,
sendo uma educação multiculturalista para o nosso país (Moçambique). Para Mazula (2018) a
sociedade moçambicana é complexa e diversificada, assim como multicultural, razão pela qual
deverá educar a criança com base com princípios de cooperação, respeito e solidariedade.
A compreensão do outro requer a tolerância que supõe a aceitação da expressão das idéias,
convicções e escoalhas contrárias as sua Morin (2000) enfatiza; a compreensão é ao mesmo tempo
meio e fim da comunicação humana. O planeta necessita, em todos os sentidos, de compreensões
mútuas. Dada a importância da educação para a compreensão, em todos os níveis educativos e em
todas as idades, o desenvolvimento da compreensão necessita da reforma planetária das
mentalidades; esta deve ser a tarefa da educação do futuro. Morin (2000, p.104)
Actualmente, a ética volta ao centro dos debates das ciências da educação, na medida em que a
escola se tornou um local problemático e na medida em que a sobrevivência do ser humano está
relacionada a sobrevivência do planeta, e se não houver um comportamento ético complexo,
teremos défice da solidariedade, acabaremos aniquilando a nós mesmos (era do exterminismo). A
ética e a solidariedade não são apenas, hoje uma virtude, um dever. Gadotti (2001). E coadunando
Freire (1997) afirma que não podemos pensar num novo aluno, sujeito da sua própria formação,
curioso, autónomo, motivado para a aprendizagem, disciplinado, organizado, mas sobretudo,
cidadão do mundo e solidário.
Notamos que, hoje a ética cinge-se no centro dos vários debates no campo das ciências, na medida
em que a escola se tornou um epicentro de vários problemas, porque carece de um comportamento
ético, e faz com que haja a falta de solidariedade. Desta forma acabamos aniquilando a nós mesmos.
Portanto, a ética e a solidariedade não podem serem vistas somente como uma virtude, ou um dever.
Daí que não podemos pensar num novo aluno, que é sujeito da sua própria formação, motivado para
a aprendizagem, disciplinado, mas sobretudo, deve ser um cidadão do mundo e solidário.
Os paradigmas que determinam os modos de pensamento e as visões de mundo, são incapazes de
compreender uns aos outros. As concepções de mundo excluem-se entre elas e evidentemente umas
não veem mais. A educação necessita de uma ética da complexidade, para a construção do bem
pensar para evitar o pensamento reducionista, fragmentado, e o grande desafio da ética da
complexidade é superar a incompreensão causada pelo mal pensar. Para enfrentar a incompreensão
o nosso autor traz a necessidade de um resgate a ética da complexidade, que liga e contextualiza os
saberes na promoção de acções solidárias.
Todavia, o respeito a diversidade das culturas e dos saberes, para o desenvolvimento de uma
aprendizagem comprometida com a transformação e a emancipação humana. Incentivando a
comunicação entre as diferentes áreas de conhecimento, valorizando a multiplicidade e a
diversidade no processo de construção do conhecimento. Esta perspectiva aponta para a formação
de cidadãos aptos a enfrentarem a problemática de seu tempo e seu lugar. Que sejam formados
cidadãos críticos e criativos com visão de profundidade capazes de atuarem na realidade de forma
consciente, responsável ética. Enquanto a educação não se fundamentar na ética da complexidade
encontrara-se mergulhada na violência, desrespeito, falta de solidariedade, etc. E sobretudo formar
bons sujeitos abertos as diferenças, ao diálogo.