Processo nº 26/2009
Inventário obrigatório
Bens sujeitos à partilha;regime aplicável à partilha de bens não pertencentes à
herança; forma do contrato promessa; a questão da venda de imóvel
pertencente à herança
Sumário:
1. A sucessão por morte dá-se com o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das
relações jurídico-patrimoniais de uma pessoa falecida, de acordo com o artigo 2024.º do C.
Civil.
2. A menção no mapa de partilha, de um imóvel (bem sujeito a registo), pressupõe a
apresentação da certidão matricial correspondente, passada pela Repartição de Finanças
competente (artigo 1338.º, n.º 2, do C. de Processo Civil) bem como a certidão de descrição
ou omissão de descrição do mesmo prédio, passada pela Conservatória do Registo Predial
(artigo 100.º, n.º 6, do Código do Registo Predial).
3. Atento ao princípio da equiparação, consagrado no n.º 1 do artigo 410.º do C. Civil, ao
contrato-promessa aplica-se o regime do contrato prometido.
4. É nula a venda de bens alheios, do que se conclui também ser nula a promessa de venda de
um bem alheio, de acordo com o disposto no artigo 892.º, do C. Civil.
5. Para a venda de um imóvel que constitua património hereditário, é exigível que os
comproprietários tenham uma actuação conjunta, de acordo com o artigo 1405.º, n.º 1, do
C. Civil.
6. O contrato-promessa de compra e venda não é idóneo para que se opere a transmissão da
propriedade da coisa, mas sim a compra e venda, como prevê o artigo 879.º do C. Civil.
7. Não se pode ordenar o registo de um bem em nome do promitente-comprador, sem que se
mostre respeitado o princípio do trato sucessivo consagrado no artigo 12º, do Código do
Registo Predial.
ACORDÃO
Acordam, em Conferência, na Secção Cível do Tribunal Supremo:
O Digníssimo Vice-Procurador-Geral da República, no uso da competência conferida pela alínea
b), do n.º 3, do artigo 17, da Lei n.º 22/2007, de 1 de Agosto, veio requerer a anulação das
sentenças proferidas nos autos da acção de inventário obrigatório registada sob o n.º 18/2001,
da acção executiva para entrega de coisa certa n.º 5/2000/S e dos embargos de executado com o
n.º 22/2006/S, que correram seus termos na 1.ª Secção do Tribunal Judicial da Província de
Maputo, com os seguintes fundamentos:
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Por morte de Mário Margarida Ribeiro da Costa Passarinho Fumo, procedeu-se ao
inventário obrigatório cujos autos correram seus termos sob o n.º 18/2001, na 1.ª
Secção do Tribunal Judicial da Província de Maputo;
Maria Amália Manganhela Fumo, cônjuge sobreviva do autor da sucessão, foi nomeada
cabeça-de-casal e mais tarde removida do cargo a pedido de Dulce Dinamene Passarinho
Fumo, filha do falecido, com fundamento no seu desinteresse no prosseguimento do
processo de Inventário;
Por sugestão do conselho de familia, foi nomeada Dulce Dinamene Passarinho Fumo para
exercer o cargo de cabeça-de-casal;
Maria Amália Manganhela Fumo, apesar de ser mãe dum dos co-herdeiros, sendo este
menor, não foi convocada para a reunião do conselho de família que deliberou sobre a
sua remoção como cabeça-de-casal e nomeação de Dulce Fumo;
A primeira intervenção de Maria Amália Manganhela Fumo no processo só teve lugar na
conferência de interessados e na fase final do Processo de Inventário;
No seguimento do Processo de Inventário Obrigatório, foi proferida sentença
homologando o mapa de partilha que inclui o imóvel sito na Cidade da Matola, Avenida
Honório Barreiro n.º 262, descrito na Conservatória do Registo Predial de Maputo como
o prédio n.º 31466, a folhas 135, do Livro B/82, que é propriedade do Estado;
Subsequentemente, depois do Tribunal ter autorizado a venda judicial do imóvel acima
descrito, entre Dulce Dinamene Fumo (cabeça-de-casal) e Najibuniça Cassamo Ismael foi
celebrado um contrato-promessa de compra e venda, ao qual declararam atribuir
eficácia real;
Da certidão da escritura do contrato-promessa de compra e venda consta que a
promitente vendedora, Dulce Dinamene Fumo, na sua qualidade de cabeça-de-casal, agiu
em representação dos herdeiros do inventariado Mário Margarida Ribeiro da Costa
Passarinho Fumo;
Najibuniça Cassamo Ismael pagou integralmente o valor correspondente ao preço de
compra do imóvel;
Najubuniça Cassamo Ismael instaurou a acção executiva para entrega de coisa certa
(entrega do imóvel) registada sob n.º 5/2000/S, que também correu seus termos na 1.ª
Secção do Tribunal Judicial da Província de Maputo, contra Maria Amália Manganhela
Fumo, que ocupava o imóvel juntamente com seu filho menor;
Maria Amália Manganhela Fumo deduziu embargos registados sob o n.º 22/2006/S,
tendo como fundamentos a sua ilegitimidade, por o imóvel ser propriedade do Estado;
alegou ainda o facto da escritura que serviu de base à execução ter sido assinada à sua
revelia, o que, no seu entender, não devia ter sucedido, visto ser mãe de um dos co-
herdeiros, na altura menor;
Os embargos deduzidos por Maria Amália Manganhela foram julgados improcedentes,
com fundamento no trânsito em julgado da sentença homologatória do mapa de partilha;
Os dados comprovativos do registo predial atestam que o imóvel continua registado a
favor do Estado;
O mapa de partilha, constante de folhas 91 e 92 dos autos do Processo de Inventário n.º
18/2001, não é acompanhado de documentos comprovativos de que os bens sujeitos a
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registo, o imóvel e três viaturas, pertenciam ao falecido; no mesmo mapa de partilha,
homologado por sentença de fl. 97 dos autos do Processo de Inventário, não é feita a
descrição detalhada dos bens sujeitos a partilha;
Maria Amália Manganhela Fumo, mãe do co-herdeiro Hulisses Passarinho Fumo, na
altura menor, participou na conferência de interessados acompanhada do seu Advogado,
mas não impugnou os actos processuais praticados à sua revelia;
A descrição dos bens foi feita em violação do disposto no n.º 3, do artigo 1327.º, do
Código de Processo Civil, visto que não foram fornecidos elementos probatórios da
titularidade dos bens sujeitos à registo;
Foi omitida a notificação de Maria Amália Manganhela Fumo em quase todas as fases do
processo, embora tivesse legitimidade para exercer o cargo de cabeça-de-casal nos
termos do disposto no n.º 3, do artigo 2080.º, conjugado com o n.º 1, do artigo 2082.º,
ambos do Código Civil;
Tendo sido incluso no mapa de partilha um imóvel do Estado, a falta de impugnação e a
não interposição de recurso não impedem que se promova a anulação da sentença, na
parte em que ela inclui no acervo hereditário dum particular um bem que é propriedade
do Estado;
O artigo 2024.º do Código Civil, dispõe que a sucessão consiste no chamamento de uma
ou mais pessoas à titularidade das relações jurídicas patrimoniais de uma pessoa
falecida e a consequente devolução dos bens que a esta pertenciam;
O imóvel sito na Avenida Honório Barreto, n.º 262, descrito na Conservatória do Registo
Predial de Maputo sob o n.º 31466, a folhas 131, do Livro B/82, nunca foi propriedade de
Mário Margarida Ribeiro da Costa Passarinho Fumo, daí a insusceptibilidade da sua
inclusão no mapa de partilha homologado por sentença transitada em julgado, proferida
nos autos da Acção de Inventário Obrigatório n.º 18/2001, da 1.ª Secção do Tribunal
Judicial da Província de Maputo;
A sentença que julgou improcedentes os embargos, com fundamento no trânsito em
julgado da sentença homologatória do mapa de partilha, também é nula pois a promoção
feita pelo digno Magistrado do Ministério Público para a homologação da partilha não é,
só por si, bastante para considerar válida a venda de um imóvel propriedade do Estado;
A promitente vendedora não pode ter agido de boa fé porque a escritura por si
outorgada não se sustenta em qualquer certidão de registo predial, seja a favor do
inventariado, seja a favor da promitente vendedora ou mesmo do Estado;
A outorga de um contrato-promessa, no lugar do contrato de compra e venda, só indicia
que a promitente compradora tinha a consciência de que a promitente vendedora não
era a proprietária do imóvel prometido;
A promessa com eficácia real devia ser registada, nos termos do artigo 413.º do Código
Civil, o que não sucedeu;
Nos embargos deduzidos pela embargante, esta alegou que o imóvel incluso no mapa de
partilha era propriedade do Estado, sendo por isso o título executivo ineficaz não só
relativamente ao Estado, como erga omnes, o que permitia a oposição à venda a todo o
momento.
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Terminou pedindo a anulação das sentenças proferidas nos autos da Acção de Inventário
Obrigatório n.º 18/2001, na Acção Executiva para Entrega de Coisa Certa n.º 5/2000/S e nos
autos dos Embargos do Executado n.º 22/2006/S, que correram termos na 1.ª Secção do
Tribunal Judicial da Província de Maputo, por serem manifestamente ilegais e injustas.
Colhidos os vistos legais, cumpre agora passar a apreciar e decidir:
Da consulta aos autos, constata-se que:
Por morte de Mário Margarida Ribeiro da Costa Passarinho Fumo, foi instaurado
inventário obrigatório, cujos autos foram registados sob o n.º 18/2001, tendo corrido
seus termos na 1.ª Secção do Tribunal Judicial da Província de Maputo (Apenso I);
Por despacho de 08 de Junho de 2001, Maria Amália Manganhela Fumo foi designada
cabeça-de-casal, conforme fl. 10v dos Autos de Inventário Obrigatório;
A Senhora Dulce Dinamene Passarinho Fumo requereu a remoção da cabeça-de-casal
inicialmente designada, alegando sonegação de bens e inércia em promover celeridade
processual (fls. 14 e 15 do Apenso I);
Na sequência da reunião do Conselho de Família, por despacho de 27/05/2002, a
Senhora Maria Amália Manganhela Fumo foi removida do cargo de cabeça-de-casal e no
seu lugar foi designada a Senhora Dulce Dinamene Passarinho Fumo, uma das filhas do
falecido (ver fl. 25 e verso do Apenso I);
O falecido deixou os filhos Mário Fernando Jamaldine Passarinho Fumo, Dulce Dinamene
Passarinho Fumo, Ursula Isabel Passarinho Fumo, Nausica das Dores Passarinho Fumo,
Ulisses Passarinho Fumo e Francisco Fumo (fls. 26, 27, 29 e 30 do Apenso I);
Na sequência do despacho do juiz da causa de 18 de Dezembro de 2003, Maria Amália
Manganhela Fumo foi notificada, no dia 29 de Dezembro de 2003, para todos os termos
do Inventário Obrigatório, tendo-lhe sido fixado um prazo de 10 (dez) dias para deduzir
oposição ao Inventário ou impugnar a legitimidade e competência da cabeça-de-casal (fls
71 e 72 do Apenso I). Não consta dos autos qualquer impugnação feita, no prazo fixado,
pela Senhora Maria Amália Manganhela Fumo, tanto em relação aos termos do
Inventário nem em relação à legitimidade ou competência da cabeça-de-casal;
Elaborado o Mapa de Partilha, o mesmo foi posto à reclamação, tendo para o efeito sido
notificados todos os herdeiros e seus representantes legais (fls. 93 a 96 do Apenso I);
Depois da promoção do Ministério Público (no sentido de se proceder à homologação),
por sentença de 22 de Novembro de 2004 (fl. 97 do Apenso I) foi homologado o Mapa de
Partilha constante de fls. 91 e seguintes do mesmo Apenso I;
Conforme atestam os documentos de fls. 100 a 102 do Apenso I, todos os herdeiros ou
seus representantes legais foram notificados da sentença homologatória do Mapa de
Partilha e nenhum deles interpôs recurso;
Os co-herdeiros Dulce Dinamene Passarinho Fumo e Mário Jamaldine Passarinho Fumo,
requereram a venda judicial do imóvel constante do Mapa de Partilha, sito na Rua
Honório Barreto, n.º 262, Matola (fl. 125 do Apenso I);
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Por despacho de 27 de Abril de 2005, após promoção nesse sentido do Ministério
Público, o Juiz deferiu o pedido de venda judicial do imóvel e ordenou a publicação de
editais para o efeito (fl. 126V do Apenso I);
Entre Dulce Dinamene Fumo, na qualidade de cabeça-de-casal, e Najibuniça Cassamo
Ismael Lalgy, representada por Mahomed Mussá Chitará, foi celebrado, sob a forma de
escritura pública, um contrato-promessa de compra e venda do imóvel sito na Rua
Honório Barreto, n.º 262, Matola (fls. 149 a 150 do Apenso I);
A promitente compradora pagou à cabeça-de-casal o valor de 1.900.000.000,00MT (um
bilião e novecentos mil Meticais da antiga família) e tal montante foi partilhado, por
igual, por todos os filhos do autor da sucessão; cada um dos co-herdeiros recebeu a
quantia de 300.833.333MT (trezentos milhões, oitocentos e trinta e três mil e trezentos e
trinta e três Meticais da antiga familia), com excepção Ulisses Passarinho Fumo, cuja
representante legal preferiu que o montante fosse depositado na conta do tribunal (fls.
161 a 166 do Apenso I);
Tendo como título executivo a escritura pública da promessa de compra e venda do
imóvel, foi instaurada Acção Executiva para Entrega de Coisa Certa n.º 05/06/S (ver o
Apenso II);
Nos autos da Acção Executiva n.º 05/06/S, foi requerida, por Maria Amália Manganhela
Fumo, a junção de cópia da comunicação do Ministro de Obras Públicas e Habitação, nos
termos do qual se dava a conhecer ao tribunal que o imóvel sito na Av. Honório Barreto,
n.º 262, Bairro Hanhane – Matola, não era propriedade do autor da sucessão e, por isso,
não poderia integrar o acervo hereditário; o mesmo despacho do Ministro instruía a
APIE a celebrar contrato de arrendamento com os ocupantes do imóvel e indeferia um
pedido de permuta por não haver provas da sua existência (fls. 25 e 26 do Apenso II);
O pedido referido no parágrafo que antecede foi indeferido, por despacho de 12.04.2007,
a fl. 27 do Apenso II, com fundamento no facto da sentença homologatória da partilha ter
transitado em julgado;
Por despacho de 12.04.2007, a fl. 27 do Apenso II, foi ordenada a entrega judicial do
imóvel à exequente;
Face à ordem judicial para que o imóvel fosse registado em nome da promitente
compradora, Najibuniça Cassamo Ismael Lalgy, a Conservatória do Registo Predial de
Maputo informou ao tribunal que tal não era legalmente possível pelo facto do imóvel ser
propriedade do Estado e nunca ter sido registado em nome do de cujus (fl. 50 do Apenso
II);
Reagindo à comunicação de entrega judicial do imóvel à senhora Najibuniça Cassamo
Ismael Lalgy, a Direcção Provincial de Obras Públicas e Habitação de Maputo, também
informou ao tribunal que o imóvel em disputa era propriedade do Estado e havia sido
celebrado contrato de arrendamento sobre o mesmo entre a APIE e Maria Amália
Manganhela Fumo (fls. 52 a 55 do Apenso II);
Maria Amália Mazive Manganhela Fumo, com fundamento no facto do imóvel ser
propriedade do Estado, deduziu embargos à execução movida por Najibuniça Cassamo
Ismael Lalgy, os quais foram registados sob o n.º 22/06/S (ver Apenso III);
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Através do despacho saneador-sentença de 28 de Março de 2007 (ver Apenso III), Os
embargos foram julgados improcedentes, pelo facto da sentença homologatória da
partilha ter transitado em julgado e não ter sido alegado nenhum facto que, nos termos
do artigo 813.º do C. Processo Civil, constituísse fundamento dos mesmos.
A principal questão a resolver é a de saber se a inclusão, no património hereditário, do imóvel
sito na Avenida Honório Barreto, n.º 262, descrito na Conservatória do Registo Predial de
Maputo sob o n.º 31466, a folhas 131, do Livro B/82, fere ou não a lei e, em caso afirmativo,
quais as consequências legais.
Dos documentos juntos aos autos (fls. 139, 142, 187 a 190 do Apenso I, bem como fls. 50, 51, 53
e 54 do Apenso II), se conclui que no momento da abertura da sucessão, por morte de Mário
Margarida Ribeiro da Costa Passarinho Fumo, o imóvel sito na Avenida Honório Barreto, n.º 262,
descrito na Conservatória do Registo Predial de Maputo sob o n.º 31466, a folhas 131, do Livro
B/82, era propriedade do Estado por reversão ao abrigo do Decreto-Lei n.º 5/76, de 5 de
Fevereiro.
Como bem sustenta o Digníssimo Vice-Procurador-Geral da República, a sucessão por morte dá-
se com o chamamento de uma ou mais pessoas à titularidade das relações jurídico-patrimoniais
de uma pessoa falecida, o que claramente se retira do estabelecido no artigo 2024.º do C. Civil.
O que sucede na sucessão por morte é uma modificação subjectiva das relações jurídicas de que
era sujeito (activo ou passivo) uma pessoa falecida, subingressando um novo ou novos sujeitos
na mesma posição jurídica que era assumida por aquele.
Ensina Diogo Leite de Campos [Lições de Direito da Família e das Sucessões, 2.ª Edição,
Almedina – Coimbra, 2001, pg. 454] que a sucessão por morte situa-se no âmbito da aquisição
derivada translativa, em que “o direito do sucessor é o mesmo que pertencia ao anterior titular”.
Porquanto, pela prova produzida, o imóvel acima descrito não chegou a ser propriedade do
falecido, conclui-se que o mesmo não poderia, por sucessão mortis causa, passar para os seus
herdeiros.
A partilha é um mero processo de obter a divisão do património hereditário pelos vários co-
herdeiros; por isso, a sentença homologatória do mapa de partilha não pode constituir um título
aquisitivo de um novo direito de propriedade de que não era titular a pessoa falecida.
O artigo 2123.º do C. Civil, sobre partilha de bens não pertencentes à herança, estabelece que “a
partilha é nula nessa parte, sendo-lhe aplicável, com as necessárias adaptações...o preceituado
acerca da venda de bens alheios”.
Não se pode invocar o artigo 892.º do C. Civil, aplicável por remissão feita pelo artigo 2123.º do
C. Civil, para se impedir o Estado de invocar a nulidade perante o comprador, ainda que este
tenha agido de boa fé. Na verdade, o agente do Ministério Público junto da 1.ª Secção do Tribunal
Judicial da Província de Maputo não tinha poderes de disposição sobre o imóvel em questão e a
sua actuação não se confunde com a de proprietário do mesmo.
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O regime aplicável à partilha de bens não pertencentes à herança é o da nulidade (nulidade
substantiva), que nos termos do artigo 286.º do C. Civil é invocável a todo o tempo.
Acresce dizer que o artigo 1337.º, n.º 2, do C. de Processo Civil obriga a que a menção dos bens
seja acompanhada de todas as circunstâncias necessárias para a sua identificação.
Ora, tendo sido mencionado um imóvel que, como é sabido, é um bem sujeito a registo, era
suposto que fosse junta pela cabeça-de-casal a certidão matricial correspondente, passada pela
Repartição de Finanças competente (artigo 1338.º, n.º 2, do C. de Processo Civil) bem como a
certidão de descrição ou omissão de descrição do mesmo prédio, passada pela Conservatória do
Registo Predial (artigo 100.º, n.º 6, do Código do Registo Predial).
Fica claro, deste modo, que ao relacionar os bens, no que tange ao imóvel, a cabeça-de-casal não
respeitou o disposto no artigo 1337.º, n.º 2, do C. de Processo Civil.
Assim, foi homologado o mapa de partilha, por sentença, sem que se mostrassem juntos aos
autos documentos que permitissem aferir se o imóvel que constava da relação de bens era ou
não propriedade do falecido, o que, aliás, levou a que fosse considerado como fazendo parte do
património hereditário um bem de terceiro – do Estado. É caso para dizer que o juiz conheceu de
questões de que não podia conhecer.
A nulidade da partilha, na parte referente ao imóvel do Estado, acaba por ditar a inexistência de
direito a tutelar, pela exequente, no processo de execução para entrega de coisa certa n.º
5/2000/S. Com efeito, a exequente agiu na pressuposição errada de que era titular do direito de
propriedade sobre imóvel cuja entrega exigia ou de que poderia vir a adquirir validamente tal
direito; esta causa de pedir não existia.
O título executivo usado no processo acima referido foi o contrato-promessa de compra e venda
entre a cabeça-de-casal, como promitente vendedora, e a senhora Najibuniça Cassamo Ismael
Lalgy, como promitente compradora, cuja nulidade é evidente, como se demonstrará de seguida.
Atento ao princípio da equiparação, consagrado no n.º 1 do artigo 410.º do C. Civil, ao contrato-
promessa aplica-se o regime do contrato prometido. Nos termos do disposto no artigo 892.º do
C. Civil é nula a venda de bens alheios, do que se conclui também ser nula a promessa de venda
de um bem alheio. Ou seja, a promessa de venda feita pela cabeça-de-casal, por incidir sobre bem
alheio, é nula, o que desde já se declara.
Ainda que o imóvel objecto de promessa de compra e venda não fosse alheio, sempre se diria
que o contrato-promessa foi celebrado contra disposições legais de carácter imperativo. Uma
vez que se mostrava feita a liquidação e a partilha já havia sido homologada por sentença
transitada em julgado, não poderia a promitente vendedora continuar a administrar a herança
na qualidade de cabeça-de-casal, isto por um lado; por outro lado, se agisse como
comproprietária, teria que obter o mandato dos outros comproprietários, o que não resulta dos
autos. Sobre o todo (imóvel), exigir-se-ia que a actuação dos comproprietários fosse conjunta,
como se alcança do estabelecido no artigo 1405.º, n.º 1 do C. Civil, o que não sucedeu.
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A exigência de actuação conjunta também é imposta aos co-herdeiros, quanto à herança indivisa,
como claramente resulta do artigo 2091.º, n.º 1, do C. Civil. O cabeça-de-casal exerce poderes de
mera administração e jamais poderia, sem o concurso dos outros co-herdeiros, alienar os bens
da herança, fora dos casos especialmente previstos por lei. Porque não poderia alienar os bens
da herança, a cabeça-de-casal também não poderia prometer alienar tais bens, visto que o
regime da promessa é o do contrato prometido (artigo 410.º, n.º 1, do C. Civil).
Inexistindo causa de pedir e sendo inexequível o título executivo, por ser nula a escritura da
promessa de compra e venda, conclui-se que não existiam os pressupostos para que fosse
validamente tomada a decisão de entrega judicial do imóvel à exequente. Aliás, a ineptidão do
requerimento inicial da execução, resultante da inexistência de causa de pedir, gera nulidade de
todo o processo, como estatui o n.º 1 do artigo 193.º do C. de Processo Civil. São, pois, nulas
todas as decisões tomadas no processo executivo, incluindo a que ordenou a entrega judicial do
imóvel à exequente. Neste caso, também se está perante uma situação enquadrável no artigo
668.º, n.º 1, al. d), do C. de Processo Civil, visto que o juiz conheceu de questões de que não podia
conhecer.
Sendo nulo todo o processo executivo, e nula, por consequência, a decisão que ordena a entrega
judicial do imóvel à exequente, fica prejudicada a apreciação das decisões tomadas
relativamente aos Embargos.
Não podemos deixar de censurar a actuação do tribunal de primeira instância, ao ordenar que
fosse efectuado o registo do imóvel em nome da promitente compradora, sabido que não é com o
contrato-promessa de compra e venda que se opera a transmissão da propriedade da coisa, mas
sim com a compra e venda, como prevê o artigo 879.º do C. Civil. Mais grave ainda, não se podia
ordenar o registo em nome da promitente compradora, ainda que esta efectivamente tivesse
comprado o imóvel, sem que se mostrasse respeitado o princípio do trato sucessivo consagrado
no artigo 12 do Código do Registo Predial.
Pelas razões apontadas, dão provimento ao requerido pelo Digníssimo Vice-Procurador-Geral da
República e, ao abrigo do artigo 668.º, n.º 1, al. d), do C. de Processo Civil, anulam a sentença
homologatória do mapa de partilha proferida nos autos da Acção de Inventário Obrigatório n.º
18/2001, apenas na parte respeitante a inclusão no mapa de partilha do imóvel sito na Avenida
Honório Barreto, n.º 262, descrito na Conservatória do Registo Predial de Maputo sob o n.º
31466, a folhas 131, do Livro B/82.
Anulam igualmente, nos termos do artigo 193.º, n.ºs 1 e 2, al. a), e do artigo 668.º, n.º 1, al. d),
todos do C. de Processo Civil, o despacho que ordena a entrega judicial do imóvel acima referido
à exequente Najibuniça Cassamo Ismael Lalgy, proferido nos autos Acção Executiva para Entrega
de Coisa Certa n.º 5/2000/S.
Sem custas.
Maputo, 16 de Maio de 2012
Ass.) Adelino Muchanga e Luís Filipe Sacramento
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