Instituto de Ciências de Saúde de Quelimane
Direcção do Curso de nutrição
Nutrição em Saúde Pública: TN4-3º Semestre
Docente: Rabia Massinga
Ficha de apontamentos
Tema - Pacote Nutricional básico
Objectivos
Identificar as acções constituentes do pacote nutricional básico
Identificar os grupos alvos para cada tipo de suplemento
Descrever as formas de suplementação para cada suplemento específico
1. Introdução da Alimentação Complementar
Introdução
A alimentacao complementar é a evolução gradual da amamentacao exclusiva de uma
criança até a participação na dieta familiar. A palavra “complementar” demonstra a
importância da continuação da amamentação em conjunto com os alimentos
complementares.
Depois dos 6 meses de vida, as crianças necessitam de receber alimentos
complementares ao leite materno adequados em quantidade e qualidade. É importante
que os alimentos complementares sejam introduzidos no momento certo, não antes
nem muito tempo depois dos 6 meses.
Quando a AC é introduzida cedo a criança tomas menos leite materno e a mãe passa a
produzir menos leite e recebe menos factores proctetores dificultando assim, que se
complete as necessidades nutricionais do bebé. Se a AC for introduzida tarde ele
recebera menos calorias e micronutrientes que o necessário, levando a um lento
crescimento e vulnerabilidade a desnutrição.
Segundo IDS (2003), em Mocambique, cerca de 74% das crianças não recebe alimentos
complementares adequados para a sua sobrevivência, crescimento e desenvolvimento.
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Os alimentos complementares devem ser nutricionalmente ricos (em energia, proteinas
e micronutrientes).
A composição, a frequência e a quantidade de alimentos oferecidos são importantes
para o seu bom crescimento e desenvolvimento. Os alimentos oferecidos as crianças
devem ser enriquecidos para garantir melhor qualidade nutricional e os alimentos
devem ser naturais e acessíveis a todo momento.
É importante considerar a consistência das preparações a partir dos 6 meses, nao
devendo dar alimentos muito liquidos, pois a concentração de nutrientes sera reduzida.
Devido ao pequeno tamanho do estomago dos bebés eles devem comer comidas
enriquecidas com vitaminas, minerais e energia.
Recomendações específicas para alimentação complementar
Para a introdução da AC, ha alguns aspectos importantes a considerar de modo a
garantir a qualidade. É importante que sejam bem, lavados, conservados, a agua seja
tratada evitando a ocorrencia de diarreias. É igualmente importante que a criança tenha
o seu proprio prato.
Alimentação da criança ate aos 6 meses:
Amamentar exclusivamente ao peito 8 a 12 vezes ao dia
Alimentação dos 7 aos 9 meses:
Continuar amamentação e introduzir papas enriquecidas com base em alimentos
localmente disponiveis, oferecer fruta fresca de epoca, batata doce, abobóra (esmagada
para facilitar a sua ingestão), dar água
Dos 9 a 12 meses introduzir gradualmente a comida da familia, 3 vezes por dia
Suplementação com vitamina A, fortificação caseira com MNP’s.
Dos 12 aos 24 meses
Continuar a amamentacao, 3 a 4 refeicoes por dia e mais 2 lanches saudaveis.
A primeira refeição deve ser constituida de 1 papa enriquecida, aumentar gradualmente
a quantidade dos alimentos, considerar a consistência.
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Maiores de 2 anos
Papas enriquecidas, 3 refeições principais ao dia, seguidas de frutas e fazer 2 a 3
lanches.
Dificuldades mais comuns na alimentação complementar
Falta de apetite, introdução de AC tardiamente ou precocemente, baixa frequência de
alimentação, quantidades não adequadas, consistência inadequada, fraca diversificação
alimentar, falta de tempo para a preparação, tabús sobre alimentos, falta de apoio para
continuação da amamentação.
Consequências da alimentação complementar inadequada
Maior risco de doença, redução da ingestão do leite materno, deficiências de
micronutrientes, fraco crescimento, gravidez precoce e maior necessidade de recursos
para a criança doente.
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2. Alimentação equilibrada e da mulher grávida
Os alimentos fornecem nutrientes essenciais de que o organismo necessita para realizar
as funcoes vitais e manter-se saudável. Assim, torna-se importante que a alimentação
seja equilibrada de modo a satisfazer as necessidades nutricionais nas diferentes fases da
vida.
Alimentação equilibrada: deve ser composta por alimentos de base em maior
quantidade e enriquecidas pelos alimentos construtores, protectores e de energia
concentrada.
A nossa alimentação: os alimentos que devem compor a nossa alimentação devem ser
ter todos nutrientes necessário para o desempenho das funções vitais (HC, lipidos,
proteinas, minerais e vitaminas).
A nossa alimentação
Os hidratos de carbono tem a função de fornecer energia e são os alimentos de base,
segundo a piramide alimentar.
Lipidos: fonte de energia concentrada e participação na absorção de algumas vitaminas
(lipossoluveis).
Proteinas: sao importantes na construção e reparação de tecidos.
Sais minerais: tem a função de controle regulação de processos organicos.
Vitaminas: fornecem protecção ao organismo.
Alimentos de base
São alimentos que fornecem energia e são maioritariamente cereais, raizes e tubérculos.
São consumidos em quantidades maiores durante o dia. Estes alimentos são importantes
para manter o corpo em funcionamento e a temperatura do corpo; crescimento e
desenvolvimento.
São importantes para as crianças, grávidas e lactantes, pessoas com actividade fisica
moderada e pesada e desportistas.
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Nos primeiros 5 anos de vida o crescimento e rápido sendo assim importante que
consuma quantidades adequadas de alimentos de base para o bom aproveitamento das
proteinas e outros nutrientes.
Alimentos de energia concentrada
Fornecem grandes quantidades de energia, por isso devem ser consumidos em
quantidades pequenas, melhoram o saboroma dos alimentos. São fonte de energia
concentrada os óleos de cozinha, margarina, castanha de cajú, amendoim, cana de
acucar, acuçar, mel, coco, etc.
Os alimentos deste grupo são extremamente importantes para as criancas, pois, uma vez
que estas tem um estómago pequeno e nao toleram grandes quantidades de comida, esta
servirá para aumentar a energia oferecida numa refeição.
Alimentos construtores
São ricos em proteinas, maioritariamente de origem animal tais como carnes, peixes,
camarão, leite, ovos e outros e tambem podem ser de origem vegetal como no caso de
leguminosas como feijoes, amendoim, etc.
Tem como função principal a construção e reparação de tecidos e são importantes para
todas as pessoas e todos estados fisiológicos.
Alimentos protectores
Neste grupo encontramos as frutas, hortalicas e verduras tais como a banana, laranja,
couve, repolho, etc. Tem a função de proteger o organismo contra doencas e sao
necessários a todos grupos.
Alimentação da mulher grávida
A gravidez requer cuidados de saude e nutricionais, pois as necessidades nutricionais
aumentam para responder as necessidades da gestante, feto e assim como a preparação
para a lactação.
Alguns tabús estão envolvidas na alimentação da mulher grávida, variando de acordo
com a cultura de cada povo ou comunidade. Porém, a mulher grávida não deve ter
restrições alimentares, pois, todos alimentos fornecem um nutriente importante para a
saúde da mãe e do bebé.
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O estado nutricional da mulher antes e durante a gestação e importante para o estado
nutricional da criança, assim como do peso a nascença. Alguns nutrientes como o ácido
fólico e iodo afectam o feto logo após a sua concepção.
No primeiro trimestre de gravidez as necessidades de energia mantem-se sem alteracao,
apenas as proteinas, vitaminas e minerais devem ser consumidas com maior
regularidade.
Ganho de peso na gravidez
No segundo trimestre e terceiro trimestre da gravidez a mulher deverá ter um acréscimo
de 300 a 500 kcal no seu VET e aumentar o peso segundo o seu IMC:
De 18,5-24,9 kg/m2: 11,5 a 16 kg
<18,5: 12,5 a 18kg
>25: 7 a 11,5kg
Consequências da alimentação inadequada na gravidez
A falta de uma alimentação equilibrada na gravidez tem como consequências:
Baixo peso ao nascer;
Maior susceptibilidade as infecções;
Maior risco de morte no primeiro mês.
3. Suplementação com vitamina A
A vitamnina A é um micronutriente que pode ser encontrado nos alimentos de origem
animal sobre a forma de retinol e de origem vegetal sobre a forma pró-activa (caroteno),
requerida em pequenas quantidades em importantes processos biológicos. Sua
deficiencia (de cerca de 69% em crianças) afecta directamente processos fisiologicos
importantes colocando esta vitamina em destaque nas crianças, gravidas e lactantes.
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Fontes de vitamina A: leite humano, ovos, leite animal, figado, vegetais amarelados,
folhas verde-escuro, frutas amarelo-alaranjadas, etc.
A hipovitaminose A pode causar lesões oculares (xeroftalmia), baixa imunidade
(sarampo, diarreias, IRA) tornando-se assim importante prevenir esta deficiencia atraves
de suplementação nas crianças e mulheres no pós-parto e fortificação dos alimentos.
A suplementação com doses elevadas de vitamina A as crianças dos 6-59 meses, foi
integrada aos serviços de saúde em 2002 e em 2004 foi estendida para as maternidades
do País passando a ser administrada em mulheres no pós-parto até 6 semanas.
Prevenção da deficiência de vitamina A
Promocao do AME ate ao 6º mes, continuando ate aos 2 anos ou mais;
Incentivo ao consumo de alimentos fonte de vitamina A pela populacao, em especial
mulheres gravidas e criancas;
Suplementação periódica com megadoses de vitamina A em crianças dos 6-59 mees;
Suplementação com megadoses de vitamina A em mulheres no pós-parto imediato ate 6
semanas.
Suplementação com vitamina A
Quem deve fazer a suplementação com vitamina A?
A suplementação com vitamina A deve ser feita a criancas dos 6 a 59 meses e mulheres
ate 6 semanas no periodo pos-parto.
Criancas em tratamento para DAG, IRA grave.
Dosagem: menores de 6 meses-não devem receber vitamina A
6-11 meses: 100.000 UI (1/2 capsula> 4 gotas)
12-59 meses: 200.000 UI (1 capsula> 8 gotas)
Mulheres ate 6 semanas apos o parto: 200.000 UI (1 capsula).
O objectivo da suplementação com vitamina A é reduzir a deficiência de vitamina A
contribuindo para a redução da co-morbilidade associadas a sua deficiencia e morbi-
mortalidade em menores de 5 anos.
Periodicidade: para crianças de 6 a 59 meses a suplementação é feita de 6 em 6 meses e
para mulheres nos pós-parto, dá-se uma única dose.
Controlo de parasitoses
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Geralmente as crianças são propensas a sofrer de parasitoses intestinais (segundo OMS
e UNICEF 2004, cerca de 230 milhões de crianças dos 0-4 anos estão infectadas por
parasitas intestinais), assim recomenda-se a desparasitação de crianças a partir de 1 ano
e mulheres grávidas a partir de 20 semanas de gestação.
As crianças devem ser desparasitadas pois, estas tem um melhor estado nutricional e
crescem melhor quando livres de parasitas. Esta medida e uma das intervenções mais
simples para melhorar a saúde das crianças.
O desparasitante deve ser oferecido em simultâneo com a vitamina A aproveitando
assim sua a oportunidade de cobertura.
Deve-se administrar o desparasitante a partir dos 12 meses com um intervalo de 6 meses
entre uma dose e outra com um comprimido de 500mg de mebendazol.
Oportunidades de implementação
CCS, CCR, Triagem de pediatria, Enfermarias de pediatria, Brigadas Móveis
Integradas, APE’s e ACS.
4. Suplementação com salferroso e ácido fólico
O ferro e considerado um nutriente essencial, sua deficiencia é um dos principais
factores de risco de morte em todo mundo, afectando cerca de 20% de mulheres e 50%
de gestantes. Esta surge quando as necessidades fisiologicas não podem ser respondidas
pela ingestão alimentar ou quando a absorção de ferro não satisfaz as necessidades.
Segundo estudos realizados em 2011, mostram que a anemia afecta no Pais cerca de
54% das mulheres em idade fertil e 69% das crianças.
Durante a gravidez e lactação, dada a sua condição fisiológica as necessidades
nutricionais são mulher são aumentadas, e esta é também propensa a ter infecções, em
especial a malaria que é um factor de risco para o aumento das taxas de anemia.
Portanto, a suplementação com salferroso e ácido fólico para adolescentes, gestantes e
lactantes, eé uma das estrategias para redução da taxa de anemia por deficiência de ferro
para a redução da TBPN e reducção da mortalidade materna.
Causas da deficiência de ferro
Baixa ingestao dietetica do ferro; Perda de sangue, Gestacao; Parto; Baixa
disponibilidade de ferro heme em relação ao ferro nao heme; Ingestão excessiva de
fitatos, fosfatos e uso de antiacidos.
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Funções do ferro no organismo
As funções do ferro relacionam-se com a sua capacidade de participar nas reacções de
oxidação e redução. O ferro deve estar firmemente ligado a proteina para prevenir a
oxidação e evitar a danificação de membranas.
Tem como principais funções:
Transporte de sangue e oxigénio
Função imunológica e cognitiva
Transporte de electrons
Produção de energia ATP
Oxidação do triptofano
Prevenção da anemia
Fontes de ferro
A melhor fonte dietetica de ferro é o figado, seguido de frutos do mar, rim, coração,
carnes magras e aves. Nos alimentos de origem vegetal, encontram-se como melhores
fontes os fejões secos e as hortaliças. Outras fontes de ferro são a gema de ovo, frutas
secas, vinho e cereais.
A disponibilidade de ferro derrivado do alimento é importante na consideração das
fontes dietéticas, o ferro presente nos vegetais, apenas 50% ou menos esta disponível
em uma forma utilizavel pelo organismo.
Principais intervenções nutricionais
Providenciar suplementos de ferro a adolescentes dos 10-19 anos na escola, na
comunidadee na unidade sanitaria;
Suplementar a todas gestantes a partir da 12ª semana e mulheres no pos-parto ate
3 meses;
Desparasitar mulheres gravidas com dose única de mebendazol a partir da 20ª
semana para controlar parasitas intestinais;
Aconselhamento sob a importância da dieta da mulher gravida e aleitamento
materno;
Providenciar tratamento preventivo da malária.
Adolescentes
As raparigas adolescentes fazer 6 doses de suplementacao com salferroso e acido folico
durante 6 meses onde: Devem receber 4 comprimidos/dose, Deverão tomar 1
comprimido/ semana.
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Gestantes
Deverao tomar 1 comprimido/dia desde os 3 meses até ao parto.
Lactantes
Toma: 1cp/dia durante 3 meses.
5. Deficiência de iodo
O iodo é um elemento essencial para a sobrevivência, necessário para o crescimento e
desenvolvimento. Em Mocambique, a deficiência de iodo é endemica afectando
principalmente a populacao das provincias de Niassa, Nampula e Zambézia.
A deficiência de iodo causa aumento da glandula tiroide (bócio).
Fontes de iodo
As maiores fontes de iodo são os frutos do mar, água potável, hortaliças e leite.
Consequências da deficiência de iodo
As consequências da deficiência de iodo podem surgir em diferentes fases da vida mas,
as que surgem durante a gravidez são mais graves.
O deficiencia de iodo pode causar abortos, nados mortos, anomalias congênitas, atraso
mental e todas formas de crescimento retardado, bócio, hipotiroidismo e cretinismo.
Intervenção: fortificação de alimentos.
6. Suplementação com micronutrientes em pó
Os primeiros 2 anos de vida constituem um período de intenso crescimento e
desenvolvimento. Nesta fase as crianças estão mais susceptíveis às deficiências de
micronutrientes porque necessitam de quantidades maiores de vitaminas e minerais que,
muitas vezes,são difíceis de obter somente através da alimentação.
A anemia é uma das deficiências nutricionais mais comuns em Moçambique e é
resultado de uma alimentação inadequada associada à presença de doenças,
especialmente as infecciosas.
As reservas de ferro na criança que recebe o aleitamento materno exclusivo nos
primeiros 6 meses de vida são suficientes para suprir as suas necessidades fisiológicas
durante este período. Entretanto, a biodisponibilidade do ferro no leite materno pode
diminuir em até 80% quando outros alimentos são ingeridos pela criança menor de 6
meses de idade.
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A partir dos 6 meses de vida ocorre gradualmente o esgotamento das reservas de ferro, e
a alimentação passa a ter um papel predominante na satisfação das necessidades deste
nutriente.
Micronutrientes em pó (MNP’s)
É um complexo de minerais e vitaminas necessários somente em pequenas quantidades
no corpo, mas fundamentais para o crescimento e desenvolvimento adequados do
organismo.
Em pequenas saquetas de dose única de 1 grama, equivalente a
quantidade recomendada para consumo diário.
Cada saqueta contém 15 vitaminas e minerais a seguir mencionadas: vitamina A, B1,
B2, B6, B12, C, D e E, ácido fólico, ferro, zinco, cobre, selénio, iodo e niacina.
Grupo alvo
As crianças de 6-23 meses de idade constituem o grupo beneficiário prioritário para a
fortificação alimentar caseira com MNP, pois este é um período de rápido crescimento e
desenvolvimento, onde as necessidades de nutrientes estão particularmente aumentadas.
Quantidade recomendada
Use 1 saqueta por dia, de modo que sejam usadas as 60 saquetas. Não
há problema se esquecer de usar 1 saqueta, continue o esquema no dia
seguinte até que as 60 saquetas sejam usadas.
Esquema: 60 saquetas para 2 meses, descansa 4 meses e recebe mais 60 saquetas no 4º
mes. A criança deverá receber 3 doses de MNP’s sendo a 1ª dose aos 6 meses, 2ª dose
aos 12 meses e 3ª dose aos 18 meses.
Condições especiais de uso de MNP’s
Malária, anemia (diagnosticada através do exame de sangue, por exemplo) ou
deficiências de micronutrientes ou que estão frequentemente doentes podem ter outras
doenças graves associadas.
Diarreia: As crianças com diarreia devem ser tratadas de acordo com os protocolos
nacionais e podem continuar a receber os MNP.
HIV e Tuberculose: As crianças infectadas pelo HIV também devem beneficiar-se do
consumo regular de MNP, seguindo o mesmo esquema de dosagem e formulação
aplicado às crianças sadias.
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Desnutrição: as crianças em tratamento para a desnutrição não deverão receber MNP’s,
pois, estas recebem o ferro suficiente nos suplementos utilizados para o tratamento da
desntrição.
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