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Praias: Princípios e Diretrizes para A Gestão

Livro originado do projeto de pesquisa CAPES/Udelar: Análise comparativa de governança de praias urbanas entre Brasil e Uruguai

Enviado por

Briana Bombana
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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P R A I A S

PRINCÍPIOS E DIRETRIZES PARA GESTÃO

2022
P R A I A S
PRINCÍPIOS E DIRETRIZES PARA GESTÃO

“O s au tores sã o respo nsá vei s pel a esco l ha e


apre s e n ta çã o do s po nto s de vi sta co nti do s neste
liv ro e pel a s o pi ni õ es nel e expressa s, que nã o
s ão n e c essa ri a mente a s da U N ESC O
e n ão c o mpro metem a Org a ni za çã o ”
Apoio e Financi a d or
Co o rden ação d e A p e r f e i ç oa m e n t o d e P e s s o a l de N ív e l S u p e r io r – CA P E S
S ervi ço Muni c i p a l d e Á g ua , Sa n e a m e n t o B á s ic o e I n f r a e s t r u t u r a - S E M A S A

Organização e R ea l i za çã o
U ni versi dade d o Va l e d o I t a j a í – UN I VA L I
Cen tro U n i ver si t a r i o R e g i on a l d e l Est e – CU R E │ U n iv e r s ida d de la R e pú blic a U r u g u a y – U D E LA R

C oordenador es
Marcus Po l ett e
Dan i el Co n de

Organizadore s
Marcus Po l ett e
Bri ana An gél i c a Bom b a n a
Cami l a Lo nga re t e
Dan i el Co n de

Prof essores Pa r ti ci p a ntes


Dan i el Co n de
Marcus Po l ett e
R o semeri Mare n zi

Bols istas
Bri ana An gél i c a Bom b a n a
Gabri el a F el i x
Gui l h er me de G od oy Ba r a t e l l a
J uan Anto ni o A l v e s

Autores
J uan Pabl o Lo zoya
Dan i el de Ál a v a
Estel a Del gad o
Bri ana An gél i c a Bom b a n a
Gui l h er me de G od oy Ba r a t e l l a
Cami l a Lo nga re t e
Lui dgi March e se

D iagramador
Bo b Mo raes - St ud i o F e e l m a r

Agradecimen tos
Cami l o -Mateo Bot e ro Sa l t a r é n
S ér gi o A. Nett o - UN I SUL
S emasa - Itaj aí ( Se r v i ç o Mun i c i p a l d e Á g u a , S a n e a me n t o B á s ic o e I n f r a e s t r u t u r a - I t a ja i/ S C)
P884 P r a i a s: p r i ncí p i os e d i r e t r i z e s p a r a g e s t ã o / o r g a n i z a ç ã o
M a r cus P ol e t t e , B r i a n a B o m b a n a , C a m i l a
Long a r ete & Da n i e l C o n d e - I t a j a í : A u t o r
e ed i tor , 2 0 2 2.
6 4 p . : i l ., f ot o s .

Vá r i os a ut ore s .
I n c l ui b i b l i og r a f ia s
I SBN 9 7 8 -8 5 - 7 6 9 6 - 1 8 7 - 1

1 . G e re n c i a me n t o c o s t e iro . 2 . E c o s s is t e ma s . 3 . P r a ia s
4 . P r a i a s d e b a n h o . I . P o le t t e , M a rc u s . . . e t a l. I I . T ít u lo .

CD U : 5 5 1 . 4 3 5 . 3 2
I SBN: 9 7 8 -6 5 -8 7 5 8 2 -5 1 -1

Claud ia Bi tten co u rt B erl i m – C RB 14/964


S UM ÁRI O

1 . A P R E S E N TAÇ ÃO......................... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ...8

2 . A S Z O N AS C OSTEI RAS NO ANTRO PO C E N O . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 2

3 . O S I S T E MA C OSTEI RO EM M UD AN Ç A C O N T ÍN U A . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 0

4 . A BI O TA D AS P RAI AS ARENOSAS. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 4

5 . A S P R A I A S C OM O SI STEM AS SOCIO E C O L Ó G IC O S. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .2 8

6 . A S P R A I AS AO LONGO D O TEM P O . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3 7

7 . O T U R I S MO D E SOL E PRAI A........ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .5 0

8. BIBLIOGRAFIA....................................................................................................61
1.A PR ESE N T A Ç Ã O

Camilo-Mateo Botero Saltarén, PhD

G r u po d e In v esti g ac i ón en Si stema s C o st e ro s - P l a ya s co l C o r po r a t i o n (C o l ô m b ia )
R e d Ib ero am eri c ana de Gesti ón y Ce r t i fi ca ci ó n de P l a ya s Tu r í s t i ca s - P ROP L AYA S

As praias são um ecossistema que têm ganhado im- descobrir as origens deste conceito e os fatores de
portância dentro da literatura científica nas últimas mudança que permitem afirmar que estamos em uma
duas décadas. Efetivamente, outros ambientes na- nova era do planeta. Posteriormente, Juan Pablo apre-
turais marinho-costeiros têm recebido mais atenção senta as forçantes que geram impacto nas praias, fa-
pela comunidade científica internacional, como os re- zendo uma exposição suficiente para compreender
cifes de coral e os manguezais, aos quais correspon- fenômenos como o uso recreativo, a contaminação e
dem centenas de livros e manuais que os descrevem, as espécies invasoras, entre outros. Em síntese, este
avaliam e, inclusive, guiam seu manejo. Enquanto isso, capítulo permite ao leitor ser submergido em uma for-
ecossistemas como as praias, as falésias e as prada- ma não convencional de estudar as praias, sendo ao
rias de fanerógamas marinhas, apenas recentemente mesmo tempo uma base sólida para compreender o
começaram a receber a atenção devida. impacto humano sobre estes ecossistemas.

O livro que, neste momento, o leitor tem em mãos é A continuação, o professor Dr. Daniel de Álava apre-
uma resposta oportuna à baixa atenção que foi dada senta um capítulo completo sobre o sistema costeiro
a este importante ecossistema, as praias, especial- em mudança contínua. Nesta seção, são abarcados
mente pela perspectiva de sua governança. A equipe conceitos chave, como a Zona Litorânea Ativa (ZLA),
conformada pela Universidade do Vale do Itajaí (Brasil) que depois permearão as demais contribuições do li-
e a Universidad de la República (Uruguai), catalisada vro. De forma ampla, Daniel apresenta as característi-
pelo financiamento do Programa CAPES/UDELAR, ge- cas das costas arenosas, sua dinâmica e o zoneamen-
raram esta publicação de referência obrigatória. to funcional que permite estudá-las como unidades
geomorfológicas. Finalmente, define três sistemas de
Embora alguns dos capítulos possuam um enfoque interação no sistema costeiro, chegando à conclusão
especial nas praias arenosas, seu conteúdo é amplo e muito relevante que a conservação do estado dinâ-
abrange suficientemente esta faixa de interação entre mico da ZLA é a forma mais econômica e, portanto,
o mar e o continente, caracterizada por sua relativa conveniente para a proteção costeira.
baixa declividade e por sua formação por sedimentos
não consolidados. É assim que, a partir de seis capí-
tulos bem estruturados, o leitor poderá ampliar seus
conhecimentos sobre as praias como ambiente sócio-
ecológico no mundo atual.

O primeiro capítulo é uma perfeita introdução ao con-


ceito, cada vez mais aceitado, do Antropoceno, re-
alizada de forma clara e transparente pelo professor
Dr. Juan Pablo Lozoya. Nesta seção, o leitor poderá

8 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO P L A Y A S | PRIC IPIOS Y DIREC TRIC ES PARA L A GE S T I Ó N
O terceiro capítulo é uma contribuição conjunta da argumentando a relação sociedade – natureza e como
professora Dra. Estela Delgado e o professor Dr. Juan a primeira não é possível sem a existência da segunda
Pablo Lozoya, os quais se concentram em descrever e vice-versa. Continua com uma descrição fluida da
a biota das praias arenosas. Inicialmente sustentam gestão integrada das zonas costeiras e as três disci-
como as espécies que habitam esse ecossistema são plinas fundamentais que a conformam, para chegar à
altamente adaptadas anatômica e fisiologicamente às análise dos serviços ecossistêmicos como o benefí-
condições oceanográficas em constante modificação, cio que o homem obtém dos ecossistemas. Finaliza
além de estar distribuídas de forma diferenciada na o capítulo com a enumeração dos principais serviços
ZLA, tanto vertical quanto horizontalmente. Da mes- ecossistêmicos que são oferecidos pelas zonas cos-
ma forma, os autores descrevem aspectos ecológicos teiras e, em especial pelas praias.
como o nível das comunidades macrofaunísticas e a
diversidade das espécies, chegando a conclusões, tal O quinto capítulo é um aporte da Oc. Briana Angéli-
como que a abundância total e a biomassa aumentam ca Bombana e do Oc. Luidgi Marchese, os quais sin-
das praias refletivas às dissipativas. tetizam a evolução histórica das praias, incluindo um
olhar interessante das ciências ambientais.
A quarta seção é realizada novamente pelo Dr. Juan
Pablo Lozoya, quem aborda o tema interessante e atu-
al das praias como sistemas socioecológicos. Inicia

F O N T E: Bo b M o ra e s .

9
A partir do dinamismo das praias em termos morfoló-
gicos e de uso humano, a Briana e o Luidgi levam o
leitor a descobrir como estes espaços costeiros pas-
saram do desconhecimento geral ao tratamento médi-
co de banho de mar e, finalmente, ao atual desejo das
férias de banho de sol. Destacam-se, neste capítulo,
imagens históricas, que lembram um uso social e, in-
cluso, aristocrático da praia, o qual foi dando lugar a
um uso mais massivo e consumista, que predomina
hoje em dia. O aporte pela evolução deste tema no
Uruguai e no Brasil é outro aspecto que faz deste ca-
pítulo muito valioso.

Por último, os oceanográfos Guilherme de Godoy Ba-


rattela, Camila Longarete e Luidgi Marchese apre-
sentam um capítulo concentrado no Turismo de Sol e
Praia, da motivação desta tipologia turística, até pon-
tos concretos sobre a sua gestão. Enlaçam com mes-
trança aspectos como o caráter massivo deste tipo
de turismo e o paradoxo entre os benefícios (desen-
volvimento urbano e econômico) e os múltiplos efei-
tos negativos (concentração de riqueza, apropriação
de espaços públicos, segregação social e degradação
ambiental). Terminam o capítulo com algumas conclu-
sões de gestão relevantes, como o aumento repentino
do número de turistas não sempre é acompanhado
pela disponibilidade ou existência de infraestruturas
para sua atenção.
F O N T E : s k y s cr a pe rc i t y.c o m .

10 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


Como o leitor poderá observar, o conjunto de auto-
res realizou um esforço destacado para incluir temas
múltiplos relacionados às praias, mas sem perder de
vista o seu fio condutor comum. Este resultado é to-
talmente compatível com o projeto de cooperação que
permitiu sua execução, enfocado na análise compa-
rativa do processo de governança de praias urbanas
entre o Brasil e o Uruguai. Um exemplo a seguir de
cooperação sul-sul.

Este aporte à literatura científica seguramente será


útil para a comunidade acadêmica da América Latina,
tanto pelo idioma no qual está escrito, como pela per-
tinência do enfoque selecionado pelos autores. Adi-
cionalmente, o fato de que a maioria dos autores estão
integralmente em suas carreiras científicas lhe agrega
um valor imenso, assim podendo assegurar que este
livro será um catalizador de novas publicações que
permitirão posicionar as praias em um âmbito de pleno
reconhecimento. Definitivamente, uma obra cientifica
que continua fortalecendo as ciências do mar no nos-
so continente.
FO N TE : Bob Mor a e s.

F O N T E : A l e x a n dre Pe ro t t o .

11
2. AS ZO N A S C OS T EI R AS N O AN TR O P O C E N O

Juan Pablo Lozoya, Dr.

Ce n t ro In t erd isc i pl i nari o Manejo Co s t e ro I n t e gr a do de l C o n o Su r


Ce n t ro Un iv ersi tari o de l a Regi ón Est e – U n i v e r s i da d de l a Re pú bl i ca (U r u gua i)

O
planeta Terra é um planeta de zonas costeiras, do, que chegam até elas por via marítima, principal
onde a superfície aquática (360M km2, 71%) rota de transporte de mercadorias. No entanto, estas
e a terrestre (150M km2) interagem intensa- megacidades também geram grandes volumes de re-
mente ao longo de 1.634.701km que, em sua maioria, síduos (domésticos, industriais, etc.) que muitas vezes
são praias arenosas (Burke et al., 2001, McLachlan & também são despejados no mar (Tett et al., 2011). Em-
Brown 2006, Martínez et al., 2007). bora menos de 4% da população mundial reside atu-
almente nestas megacidades costeiras, o seu rápido
Em 2004, cerca de 3 bilhões de seres humanos ha- desenvolvimento, a grande densidade de habitantes
bitavam os primeiros 230km da faixa costeira, o que que possuem e os altos níveis de consumo que ca-
significa que quase 50% da nossa espécie estaria mo- racterizam o cotidiano de tais habitantes, fazem com
rando em apenas 10% da área terrestre, com densida- que estes assentamentos gerem grandes impactos no
des médias 2,5 vezes maiores que as observadas no meio-ambiente costeiro (Sekovsky et al., 2012).
restante das zonas do planeta (UNEP, 2004 in Tett et
al., 2011). No ano de 2012, as cinco áreas metropoli- Esta concentração generalizada na zona costeira está
tanas mais populosas do mundo se situavam na zona marcada na rápida expansão da população humana e
costeira com importantes portos industriais: Tóquio no modelo atual predominante de desenvolvimento e
(31,5 milhões de habitantes), Jakarta (28 milhões de crescimento global. Ambos os fatores têm sido os prin-
habitantes), Seul (25,5 milhões de habitantes), Karachi cipais responsáveis por enormes impactos nos ecos-
(24,1 milhões de habitantes) e Manila (21,9 milhões de sistemas costeiros e, assim, nas praias (McLachlan &
habitantes) (Figura 1). Brown, 2006; Defeo et al., 2009; Tett et al., 2011). Esta
tendência formaria parte do que - a escala global - tem
Estas megacidades costeiras são vórtices gigantes sido batizada por diversos cientistas como Antropo-
que atraem e concentram grandes quantidades de ali- ceno, uma nova época geológica na qual estaríamos
mento, água, energia e matérias prima de todo o mun- entrando (Crutzen & Stoermer, 2000; 2010).

12 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


FON TE: sven -sch e u e rme i e r

F i g u r a 1 : A s c i n c o c i d a d es
m á s p o pu l o s a s do m u n d o s e
e n c o n t r a m l o c a l i za d a s n a zo n a
c o s t e i r a s ( m e g a c i da de s co s t ei r as ,
F O N T E: i k no w t he pi l o t . c o m

re s pe c t i v a m e n t e , T ó q u i o co m 3 1 ,5
m i l h õ e s d e h a bi t a n t e s e Man i l a
c o m 2 1 , 9 m i l h õ e s d e h a bi t an t es ).

13
O Antropoceno se refere ao intervalo de tempo con- necessidades, também gerou uma grande deterio-
temporâneo no qual muitos processos e condições ração ambiental (Carballo & Villasante, 2009). Isto é,
geologicamente significativas (e.g. ciclo da água, ci- devido a que o crescimento econômico mencionado
clos dos gases e elementos fundamentais) estão sen- foi realizado a partir de uma perspectiva que defende
do profundamente alterados pelas atividades humanas que o capital natural pode ser substituído pelo capital
(Figura 2). Embora infalivelmente todas as atividades humano. Neste sentido, o modelo atual de crescimen-
realizadas pelos seres to não tem considerado
vivos afetem de alguma que certos recursos não
maneira nosso entor- são renováveis ou que
no, a humanidade tem certos bens e serviços
provocado rompimen- ambientais são insubs-
tos nos grandes ciclos tituíveis (e.g. camada
biológicos, químicos e de ozônio, regulação
geológicos, através dos do clima). Igualmente,
quais elementos funda- também não tem obser-
mentais como o Carbo- vado que este desenvol-
no e o Nitrogênio circu- vimento produz dejetos
lam entre a terra, o mar que devem ser absor-
e a atmosfera. Desta vidos por algum sumi-
maneira, o ser humano douro natural que, sem
influencia no funciona- dúvidas, tem uma ca-
mento do planeta Terra pacidade limitada (EEA,
de modo equiparável às 2006).
grandes forças da Natu-
reza (Welcome to the An-
thropocene, [Link]
F O N T E : J o n B er k e l e y.

[Link]).

Nas últimas décadas um


importante crescimento
econômico em todo o
planeta está sendo produzido. Mesmo que de forma F i g u r a 2 : O A n t ro po c e n o ,
u m a n o v a é po c a g e o l ó g i c a
desigual, beneficiando principalmente os países de- n a qu a l o pl a n e t a Te r r a
estaria entrando como
senvolvidos, permitiu aos habitantes ter acesso a mais re s u l t a do d a i n f l u ê n c i a do
recursos, incluindo os recursos naturais, e dispor de ser humano, o que seria
e q u i pa r á v e l à s g r a n de s
mais serviços. Apesar de que isto tenha contribuído forças naturais.
para que seja possível satisfazer um maior número de

14 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


FON TE: J oh n n y C h a u .
Este cenário é agravado se consideramos que certos impactos ambientais
se acumulam e transcendem o âmbito geográfico no qual são efetuados,
transformando-se em problemas planetários (e.g. mudanças climáticas).
Neste âmbito, a degradação da zona costeira é devida a diversos fatores,
alguns de origem local ou regional, e outros que não são específicos do
litoral nem de seus habitantes, mas consequência de atividades e decisões
a escala mundial (Carballo & Villasante, 2009). Os processos de globaliza-
ção têm crescido significativamente com uma intensificação do movimento
de mercadorias e pessoas, que têm sido incentivado por diversos avanços
tecnológicos, entre outros. Por outro lado, os modelos atuais de desen-
volvimento, baseados principalmente em critérios de rentabilidade econô-
mica, têm contribuído ao desaparecimento de atividades centenárias tra-
dicionais que embora atualmente não seriam rentáveis economicamente,
podiam sê-lo do ponto de vista da sustentabilidade ambiental. Estes três
fatores (globalização, crescimento econômico e desaparecimento/modifi-
cação de atividades tradicionais) têm gerado mudanças nos comporta-
mentos humanos e, portanto, no desenvolvimento e na gestão das zonas
costeiras (Carballo & Villasante, 2009). Assim, o desenvolvimento costeiro
se converteu em um problema global, modificando os ecossistemas cos-
teiros e afetando, por sua vez, os recursos que sustentam seu próprio
funcionamento (Sardá, 2009).

15
Especificadamente, para as praias, e estreitamente vinculadas aos três fatores antes
mencionados, foram descritas diversas forçantes que - ao atuarem em distintas escalas espaciais
e temporais - seriam as principais geradoras de impacto (Defeo et al., 2009):

USO RECREATIVO: as atividades recreativas da zona costeira se encontram, em sua maioria, concentradas nas
praias. Nas últimas décadas, estas atividades foram potencializadas pelo crescimento exponencial das populações
humanas nas zonas costeiras, o aumento da mobilidade das pessoas e a disponibilidade de tempo livre (De Ruyck
et al., 1997; Caffyn & Jobbins, 2003; Fanini et al., 2006 em Defeo et al., 2009);

LIMPEZA DE PRAIAS: a limpeza das praias é uma prática muito habitual, principalmente em praias com alto uso
turístico. Exceto por algumas exceções, onde a coleta se realiza de forma manual, a limpeza costuma ser mecânica,
raspando e tamisando a areia. Embora existam equipamentos diferentes que limitam a quantidade de areia perdida,
além de retirar os resíduos, a coleta mecânica costuma remover também os propágulos de plantas características
de dunas e outras espécies e perturbam os organismos habitantes da areia (e.g. Dugan et al., 2003; Davenport &
Davenport 2006 em Defeo et al., 2009);

REGENERAÇÃO (Nourishment): Mais de 70% das praias do mundo atualmente sofrem com problemas de erosão
e, considerando a pouca efetividade das “obras duras” (e.g. espigões, quebra mares) para resolver este problema, a
regeneração de praias (em inglês, nourishment) tem sido a ferramenta mais utilizada. Ainda que esta solução possa
ser a mais aconselhada do ponto de vista econômico e da conservação do solo, a regeneração pode ter sérias
consequências nas praias (hábitats e biota) (e.g. Goldberg 1988, Speybroeck et al., 2006 em Defeo et al., 2009);

16 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


CONTAMINAÇÃO: A contaminação é uma questão séria para as praias, especialmente considerando seus valo-
res recreativos. Os contaminantes incluem uma grande diversidade de materiais de origem humana, desde a escala
molecular a grandes resíduos, afetando a fisiologia, sobrevivência, reprodução e comportamento das distintas es-
pécies, incluindo o ser humano (e.g. McLachlan 1977, Noble et al., 2006 em Defeo et al., 2009). Esta contaminação
pode gerar, da mesma forma, grandes impactos na percepção dos usuários sobre as praias, o que poderia gerar
importantes perdas para a indústria do turismo (Tudor & Williams 2006, Roca et al., 2009, Lozoya et al. na imprensa);

ESPÉCIES INVASORAS: As atividades humanas que podiam ser vetores para a introdução de espécies invasoras
nas praias não são algo recente como, por exemplo, o intercâmbio de grandes quantidades de água de lastro na
zona costeira para a manutenção de navios. Como resultado destas introduções, espécies invasoras de micrófitos
colonizaram zonas intermareais em diversas regiões costeiras do mundo (Inderjit et al., 2006 em Defeo et al., 2009);

EROSÃO COSTEIRA: O uso crescente da zona costeira por parte das populações humanas tem como conse-
quência uma intensificação do desenvolvimento urbano na Zona Litoral Ativa, sugerindo uma adequada gestão
desta zona (ver mais detalhes sobre a ZLA na seção 2). Não obstante, estes desenvolvimentos geralmente levam à
alteração do balanço sedimentar que nutre as praias. Como resultado, a maioria das zonas costeiras modernas do
mundo sofre, na atualidade, um incremento nas taxas de erosão (e.g. Nordstrom, 2000, Cooper & McKenna, 2008
em Defeo et al., 2009, Jiménez et al., 2011);

MUDANÇAS CLIMÁTICAS: Ainda que a magnitude das mudanças climáticas e suas consequências seguem
sendo incertas, as respostas ecológicas são cada vez mais evidentes no caso das praias (Brown & McLachlan
2002; Jones et al., 2007a em Defeo et al., 2009).

FO N T E: F e d e ri c o G i a mp i e r i .

17
FO N TE: Ze n y R osa l i n a .

Entretanto, paralelamente a esta crescente pressão sobre os ecossistemas naturais, as sociedades humanas e as
economias globais dependem cada vez mais dos serviços e benefícios ambientais que estes ecossistemas nos
fornecem gratuitamente. É por isto que se torna fundamental que estes ecossistemas se restaurem e se conservem
saudáveis, funcionais e resilientes (ver Box 1).

18 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


BOX 1- “CIÊNCIA DA SURPRESA”

A Resiliência é um atributo de cada sistema, vinculado à capacidade de amortecer, à habilidade de


absorver perturbações ou à magnitude do distúrbio que pode ser absorvida por um sistema antes que
este mude sua estrutura alterando as variáveis e os processos que controlam seu comportamento
(Holling et al., 1995). Um ecossistema resiliente pode suportar choques e se reconstruir quando seja
necessário (Resilience Alliance [Link] Em 1986, Holling levanta a existência de
padrões generalizados de mudanças inesperadas e crises em diversos recursos naturais. Este foi o
começo da “ciência da surpresa”. Isto corresponde com o período histórico onde a gestão dos re-
cursos naturais exploráveis se baseava em maximizar a produção e satisfazer assim as demandas
dos mercados e os objetivos econômicos. A gestão pretendia controlar o recurso natural, reduzir sua
variabilidade natural e melhorar assim a eficiência de exploração. Estas políticas de gestãotiveram su-
cesso em curto prazo, mas geraram mudanças imperceptíveis no funcionamento dos ecossistemas,
facilitando a ocorrência destas “surpresas”. A ocorrência destas “surpresas” estaria vinculada à perda
de resiliência ecológica. Esta gestão em curto prazo teria imobilizado o ecossistema, bloqueando sua
variabilidade natural e os pequenos processos de retroalimentação (feedbacks) que seriam fundamen-
tais para amortecer estas mudanças. Como resultado, feedbacks maiores e menos previsíveis hão de
ocorrer finalmente, afetando a funcionalidade do ecossistema e assim os recursos e serviços que este
provê (Berkes and Folke 1998).

19
3. O SISTEMA COSTEIRO EM MUDANÇA CONTÍNUA

Daniel de Álava, Dr.

C e n tro In t erd is c i pl i nari o Manejo Co s t e ro I n t e gr a do de l C o n o Su r


C e n tro Un iv ersi tari o de l a Regi ón Es t e – U n i v e r si da d de l a Re pú bl i ca (U r u gu a i)

O
que percebemos como “a zona costeira” é o que continuam esculpindo-a – especialmente desde o
resultado de um delicado e complexo estado Holoceno nos últimos 10 mil anos até a atualidade - re-
dinâmico, produto da interação de energias, lacionam-se com fatores climáticos e geomorfológicos
materiais, formas estruturais e também culturas. Se de escala regional. Em especial, devemos considerar a
observarmos a zona costeira em escala global, vamos presença de extremidades rígidas e suas dimensões –
encontrar uma alta diversidade e interação entre uni- como os promontórios rochosos -, o tipo de materiais
dades ambientais. Zonas costeiras com gelo em altas que se encontra presente (ex. rochas, areias, siltes,
latitudes, com falésias, costas rochosas, coralíneas, argilas), a topografia exposta e submarina, o regime e
estuários, costas com manguezais... Costas arenosas. potência dos ventos, a altura e incidência das ondas, a
Inclusive, atualmente, podemos observar zonas costei- disponibilidade de sedimentos e também as atividades
ras totalmente transformadas por distintas atividades humanas. Estas últimas, em particular, constituem for-
humanas, até “zonas costeiras de infraestruturas”, por çantes com potencial de alterar a estrutura do sistema
exemplo, no caso de grandes portos onde o litoral pré- costeiro, de gerar distúrbios e pressões que finalmen-
vio às atividades e suas transformações é agora irre- te podem chegar a constituir importantes impactos
conhecível. Então, o litoral pode ser percebido também ambientais negativos e impossíveis de reverter.
como um espaço problemático e conflitivo.
A título de exemplo, para compreender os processos e
A zona costeira é, portanto, um sistema altamente di- as dinâmicas que ocorrem no sistema costeiro e ten-
nâmico, onde as atividades humanas nem sempre se do em conta a nossa região, nos concentraremos no
ajustam às forças ou forçantes que determinam sua caso das costas conformadas por praias arenosas.
estrutura. É possível reconhecer que em qualquer país,
a zona costeira se estende desde o limite marinho (pla- Deste modo, as costas formadas por praias arenosas
taforma continental e mar territorial quese relacionam estão constituídas, desde o ponto de vista ecológico,
a fronteiras ecossistêmicas e jurídicas) até seus limites por dois componentes: 1. Um ecossistema marinho
geopolíticos no interior do continente (fronteira sócio- controlado pela ação das ondas e habitado pela bio-
demográfica). Existem numerosas definições sobre a ta marinha; e 2. Um ecossistema terrestre controla-
zona costeira, uma delas a considera como uma eco- do pela ação do vento, habitado pela biota terrestre
-região de interações físicas, biológicas e socioeco- (McGwynne & McLachlan 1992). Ambos os sistemas,
nômicas, onde ocorre um intercâmbio de energia e ainda que diferentes, interagem em uma única unida-
materiais entre ecossistemas terrestres, as bacias que de geomorfológica chamada “Zona Litorânea Ativa” (a
drenam a água doce, a atmosfera e o oceano. seguir ZLA, fig.3). A ZLA constitui uma interface entre
o oceano e o continente, em um estado de equilíbrio
Porém, o que faz que a zona costeira seja o que é dinâmico de acordo com o produto deste intercâmbio
e esteja no estado que a percebemos? Podemos en- de materiais e energia entre o mar e a terra, onde os
contrar uma resposta se nos detemos a observar e a sedimentos se mantêm constantemente em movimen-
compreender as variáveis, forças ou forçantes mais to (Tinley 1985, McGwynne & McLachlan 1992). Pode-
importantes que a modelam. Os processos dinâmicos mos diferenciar a ZLA em três unidades que mantêm

20 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


certa homogeneidade, tanto física como biológica: 1. uma interação da energia das ondas e a eólica; e 3.
ZLA inferior (ZLA-INFRA), que se estende desde onde ZLA superior (ZLA-SUPRA), que se estende desde as
as ondas quebram na praia (swash) até as zonas mais dunas frontais até o interior do continente, onde finali-
profundas onde predomina a energia das ondas e com za o transporte de areia pelo vento, com um predomí-
capacidade de mobilizar os sedimentos do fundo; 2. nio das energias eólicas e dinâmicas de vias fluviais e
ZLA média (ZLA-MESO), compreendida entre o swash pluviais (de Álava, 2007) (Figura 3).
e as dunas frontais (cordão litorâneo primário), com

U N I D A D E G E OM OR FOLÓGI CA - ZLA
de Álav a 2 007, a da pta do de T i nl ey (1985) e
Me c Gwynne & M cLa chl a n (1992)

Figu ra 3 : C onc e ito d e Zona Litor â ne a A t i v a ( Z L A ) . Z L A I N F RA : d e s d e a zo n a d e s w a s h a t é o n de


a energia da s ond a s te m c a p a c id a d e d e m o bi l i za r o s s e di m e n t o s d o f u n do ( pre d o m i n a a e n e rg i a
marinh a). Z LA MES O: c om p re e nd id a e ntre a zo n a de s w a s h e a s du n a s f ro n t a i s ( i n t e r a ç ã o da e n e rg i a
marinh a e e ólic a ). ZLA S UP R A: e ste nd e-s e d e s d e a s d u n a s f ro n t a i s a t é o i n t e r i o r do c o n t i n e n t e
(predomin a a e ne rgia e ólic a e a d inâ mica d e v i a s p l u v i a i s e f l u v i a i s ) o n d e f i n a l i za o t r a n s p o r t e d e
arei a p e lo ve nto. Fonte : Ad a p ta d o de T i n l e y ( 1 9 8 5 ) e M c G w y n n e & M c L a c h l a n ( 1 9 9 2 ) .

21
Tanto no tempo como no espaço, este modelo expres- É possível compreender a evolução e as mudanças
sa dinamismo, mobilidade, plasticidade e mudanças da ZLA tomando como exemplo a posição da linha de
nas estruturas geomorfológicas como produto da in- costa por erosão ou acreção, que depende do balan-
teração de energias entre o oceano, a atmosfera e o ço de sedimentos que podem ser transportados (fluxo)
continente. É possível modelar esta interação em três entre sistemas. Aqui intervêm quatro dinâmicas funda-
grandes sistemas (Figura 4): mentais (Figura 4):

SISTEMA MARINHO-COSTEIRO: inclui bancos 1. O transporte eólico de sedimentos desde o sis-


arenosos e interfaces submarinas e aéreas; tema dunar até as vias de drenagem (seta 1 su-
perior, Figura 4);
SISTEMA FLUVIO-PLUVIAL: representado por vias 2. O transporte eólico de sedimentos entre o siste-
permanentes e semipermanentes (rios, arroios e ma dunar e a zona de praia (seta 1 inferior, Figura
canhadas); 4).
3. O transporte de sedimentos desde as vias per-
SISTEMA DUNAR: dunas móveis e cordões manentes e semipermanentes até a zona de praia
litorâneos ou frontais de praia. e a zona submarina contígua (seta 2, Figura 4).
4. O transporte de sedimentos (areias e bioclastos,
Os fluxos de energia entre estes três sistemas em con- materiais de degradação das frentes rochosas
junto com as forçantes antes descritas (extremidades e barrancos costeiros) por correntes de deriva
rochosas, clima de ondas, regime de ventos, disponi- litorâneas (CDL) no nível dos arcos de praia e
bilidade de sedimentos, atividades antrópicas) consti- das unidades fisiográficas (Silvester & Hsu 1993)
tuem processos dinâmicos que continuam esculpindo (seta 3, Figura 4).
a zona costeira na atualidade.

SISTEMA DUNAR SISTEMA FLUVIAL - PLUVIAL


SDI: Dunas Transversais TRANSPORTE EÓLICO 1
SFP1: Canais Permanentes
SD2: Dunas frontais SFP2: Canais Semipermanentes

1 3 TRANSPORTE CORRENTES DERIVA LITORAL 3

SISTEMA MARINHO - COSTEIRO 2


Bancos rebentação
Interfaces submarinas e áreas

Configuração espacial Balanço


e evolução da ZLA Sedimentar

de Á l a v a , 2 0 0 2 , 2 0 0 7 .

Figura 4 : M ode lo d e f luxos e ntre os siste ma s a t u a n t e s n a e s c a l a de p a i s a g e m c o s t e i r a . A s f l e c h a s i n di c a m o s


transportes de se d im e ntos e ntre os siste ma s : 1 . Tr a n s p o r t e e ó l i c o , 2 . Tr a n s p o r t e f l u v i o -pl u v i a l , 3 . Tr a n s p or t e
por corren tes d e d e r iva litor â ne a . Duna s tr a n s v e r s a i s ( SD 1 ) , du n a s f ro n t a i s ( SD 2 ) , v i a s pe r m a n e n t e s ( SF P1 ),
via s se mip e r ma ne nte s (S F P2 ) . F o n t e : A d a p t a do D e Á l a v a ( 2 0 0 2 , 2 0 0 7 ) .

22 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


Aparece, então, que as praias dependem desses flu- as obras de infraestrutura
xos (representados pela seta na figura 4) e de que esse e a fixação de dunas por
ciclo não se interrompa. Mediante este modelo é pos- florestamento. Em geral e em
sível compreender o estado atual de um arco de praia situações “normais”, durante
partindo de uma situação prévia e também prever períodos de verão predo-
como pode evoluir frente a possíveis mudanças, dis- minam os processos de
túrbios e alterações nos fluxos de energia e, por tanto, acreção (crescimento da
de materiais. Um exemplo que podíamos marcar como praia) já que a energia marinha
“clássico” é o caso do florestamento e da urbanização é menor e predomina a deposi-
sobre as dunas, que reduzem a plasticidade e a ca- ção de sedimentos, enquanto
pacidade de adaptação da ZLA às forçantes naturais em períodos de inverno, onde a
(endurecimento da costa), culminando em um déficit energia marinha é maior, predomi-
de sedimentos disponíveis em todo o sistema. Com o nam os processos erosivos (retra-
passar do tempo, um dos resultados é, por exemplo, ção da praia).
a erosão de praias.
A conservação do estado dinâ-
É possível reconhecer duas situações ou tipologias de mico da ZLA é a forma mais
praias bem contrastadas, que dependem de como se econômica de proteção
realiza a perda de energia pelas ondas que chegam à frente a possíveis impactos
costa. É um processo dissipativo por unidade de área como, por exemplo, a possível
e a energia das ondas que chega vai diminuindo à me- adaptação a mudanças cli-
dida que se aproximam da costa. Essa energia que se máticas que nestas latitudes
dissipa é a que tem potencial de transportar materiais implicam na elevação do ní-
como é o caso das praias arenosas. vel do mar e o incremento de
eventos de alta energia como
A ZLA atua também como uma matriz dissipativa das os ciclones extratropicais
ondas, no sentido que estas ao quebrar vão descar- que geralmente vão acom-
regando sua energia. Os tipos de praia, neste sentido, panhados de intensas pre-
vão de um estado de alta dissipação de energia das cipitações. Compreender as
ondas, como por exemplo, em praias expostas onde complexas dinâmicas que têm
a área de dissipação da energia marinha é reduzida, interagido por milhares de anos
até outra de baixa dissipação, como no caso de praias entre a atmosfera, oceano e ter-
protegidas por uma extremidade rochosa, ou onde ra e que resultaram nas praias
existe uma área extensa para a perda de energia mari- que hoje vivemos, apresenta-se
nha. As características de cada uma destas tipologias como um verdadeiro desafio
e suas formas intermediárias condicionam também as com relação a se é possí-
características e a distribuição da biota. vel compatibilizar nossas
atitudes e atividades com
As praias mudam de forma e de estado, é possível sua conservação, ago-
reconhecer ciclos se não há distúrbios humanos como ra e no futuro.

23
4. A BIOTA DAS PRAIAS ARENOSAS

Estela Delgado, Dra. & Juan Pablo Lozoya, Dr.

C e n tro In t erd isc i pl i nari o Manejo Co s t e ro I n t e gr a do de l C o n o Su r


C e n tro Un iv ersi tari o de l a Regi ón Est e – U n i v e r s i da d de l a Re pú bl i ca (U r u guai)

A
s praias arenosas são ambientes fisicamente rigorosos (ver capítulo 2),
cujas características morfodinâmicas podem variar entre estados de alta e
baixa dissipação de energia de onda (Short & Wright, 1983; Short, 1996).
Portanto, constituem hábitats muito dinâmicos em suas condições físicas, tanto a
mesoescala (desde o mar até as dunas), como a macroescala (entre praias diferen-
tes). Isto determina que as espécies que aí habitam estejam altamente adaptadas
tanto anatomicamente como fisiologicamente. A grande capacidade de mobilida-
de, estruturas anatômicas que permitem um rápido enterramento, exoesqueletos
resistentes, comportamentos rítmicos, mecanismos de orientação e a plasticidade
comportamental e reprodutiva são algumas das adaptações que apresentam as es-
pécies a estas condições (Brown, 1996; Scapini et al., 2006; Delgado & Defeo, 2007;
Delgado & Defeo, 2008; Defeo et al., 2009; McLachlan & Defeo, 2013).

A Zona Litorânea Ativa (ZLA) destes ecossistemas, resultante da interação entre o


componente marinho e terrestre, apresenta três unidades fisicamente diferenciáveis:
infra, meso e supralitoral. Este gradiente físico existente desde o mar até as dunas,
é o principal estruturados dos padrões de zoneamento e distribuição de espécies
tanto espacial como temporalmente. Em geral, a macrofauna tende a agrupar-se
em manchas e mostra um gradiente decrescente de distribuição e composição de
espécies desde o infralitoral ao supralitoral. Estas agregações se mantêm no tem-
po, mas podem variar no espaço em função da susceptibilidade de cada espécie,
de suas componentes populacionais e das variações ambientais (Brazeiro & Defeo,
1996). Assim como as interações bióticas podem ser significativas, determinando

24 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


a distribuição das espécies, principalmente em ambientes mais benignos como
as praias arenosas de extremo dissipativo. Existem casos documentados onde a
competência intraespecífica produz segregação espacial entre adultos e juvenis
(Habitat Favorability Hypothesis, Defeo, & McLachlan, 2005) e a competência
interespecífica geraria a segregação espacial de espécies (e.g. Excirolana armata
e E. brasiliensis em praias dissipativas) (Martinéz & Defeo, com. pers.).

Na ZLA inferior, no infralitoral se encontram os produtores primários das redes


tróficas destes ecossistemas, representados principalmente por fito-plâncton,
macroalgas e fanerógamas (McLachlan & Brown, 2006). Onde 95% do fito-
-plâncton é constituído por diatomáceas (algas silicatadas) que flutuam livremen-
te na coluna d’água (McGwynne & McLachlan, 1992) e constituem o alimento de
moluscos e crustáceos filtradores coabitantes desta zona. A maioria das praias
de extremo dissipativo apresentam uma grande abundância de fito-plâncton na
zona de “surf” devido à ação combinada dos mecanismos de circulação locais, e
à topografia da zona de “surf” que favorecem a retenção do fito-plâncton (Lewin
& Schaefer, 1983) (Figura 5). Enquanto as praias refletivas se constituem, em sua
maioria, de ecossistemas subsidiados com baixa produtividade primária (McLa-
chlan, 1980; Lewin & Schaefer, 1983; Defeo & Scarabino, 1990; Campbell, 1996;
Dugan et al., 1994). Também no infralitoral, o zoo-plâncton e alguns macro-in-
vertebrados (ex. camarões) podem ser muito abundantes, propiciando que esta
zona de rompimento seja uma importante área de alimentação para os peixes
(Defeo et al., 2009).
F O N T E: M il a d a Vi g ero va .

25
A ZLA media, ou mesolitoral, compreende entre o swa-
sh e as dunas frontais, onde existe interação entre a
energia das ondulações e a energia eólica, abrigando
uma grande diversidade de organismos, desde bacté-
rias até macro-invertebrados (ex. crustáceos, molus-
cos, poliquetas, insetos), abrangendo a maioria dos
grupos tróficos (Defeo et al., 2009). Os interstícios entre Asterionella

os grãos de areia fornecem um ambiente relativamente


estável habitado por bactérias, fungos, protozoários e
meio-fauna. A produção primária nesta zona é baixa
devido ao fato de que a luz solar pode penetrar muito
pouco na superfície da camada arenosa e, portanto,
a trama trófica está sustentada pela matéria orgânica
particulada e dissolvida originada pela ação das marés
e ondulações (Brown & McLachlan, 1990; McGwynne
& McLachlan, 1992).

As bactérias aderidas aos grãos de areia ou livres entre


eles, utilizam a matéria orgânica e se reproduzem rapi-
damente, o que serve de alimento para ciliados, ame-
bas e zoo-flagelados, os quais também se alimentam
de outros protozoários ou componentes pequenos da
F i g u r a 5 : A g re g a ç õ e s
meio-fauna (McGwynne & McLachlan, 1992). A meio- d e a l t a de n s i d a d e d e
-fauna está constituída por pequenos metazoários (45- d i a t o m á c e a s d o G ê n e ro
A s t e r i o n e l l a pro du zi n do
500 um) (McGwynne & McLachlan, 1992) principal- c o l o r a ç ã o a m a r ro n za d a n a
p r a i a di s s i pa t i v a d e Ba r r a
mente por turbelários (vermes planos ou platelmintos), d e l C h u y, U r u g u a i . F o n t e :
nematódeos (vermes cilíndricos), oligoquetos (anelí- C o r t e s i a U N D E C I M A R.

deos), copépodes e mistacocáridos (crustáceos) que


cumprem um papel fundamental como degradadores
de matéria orgânica, fixação e reciclagem de nutrien-
nio e fito-plâncton à cavidade do manto e também às
tes, aportando energia à trama trófica (McGwenny &
brânquias. Desta forma, podem realizar o intercambio
McLachlan, 1992).
gasoso e captar os nutrientes enquanto permanecem
enterrados no sedimento. As espécies de bivalves do
Os macroinvertebrados habitantes da zona de swa-
gênero Donax dominam a comunidade macro faunís-
sh estão anatomicamente adaptados para cumprir
tica em termos de biomassa em praias oceânicas ex-
funções vitais de respiração, alimentação e reprodu-
postas de todo o mundo (revisão em McLachlan et al.,
ção em tais condições (Figura 6). Muitas espécies de
1996). Estes organismos filtradores apresentam uma
moluscos bivalves e crustáceos decápodes são habi-
distribuição intermareal (centrada na zona de swash
tantes típicos da zona de swash das praias arenosas
da onda) ou submareal rasa, desempenhando um im-
(McGwenny & McLachlan, 1992). Os moluscos bivalves
portante papel na estrutura trófica das praias (Ansell,
habitantes dos substratos arenosos apresentam um pé
1983; McLachlan et al., 1996).
muscular bem desenvolvido que os permite um rápido
enterramento na areia logo que a onda se retira. Assim
As espécies do gênero Emerita são crustáceos carac-
mesmo, um grande número de espécies apresenta si-
terísticos de praias arenosas expostas desde climas
fões inalantes e exalantes (de maior ou menor longitu-
temperados a tropicais (McLachlan, 1983; Contreras
de) que permitem o ingresso de água rica em oxigê-
et al., 1999; Defeo & Cardoso, 2002-2004). Muitas es-

26 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


A

F i g u r a 6 : A ) v i s t a do
mesolitoral da Zona
L i t o r â n e a A t i v a da P r ai a da
B Ba r r a d e l C h u y, U ru g u ay.
B) D o n a x h a n l e y a n u s ; C )
M e s o de s m a m a c t ro i des ;
e D ) E m e r i t a s br a s il i en s i s ,
m a c ro i n v e r t e br a d os
h a bi t a n t e s d a zo n a de
C
s w a s h . F o n t e : A u to r a
D

pécies do gênero Emerita constituem os invertebra- forma, a espécie assegura que as crias recém paridas
dos melhor adaptados aos ambientes de swash de tenham um maior tamanho e desenvolvimento que as
praias arenosas. Sua exitosa adaptação a este tipo de permita sobreviver nestas condições inóspitas (Mar-
habitat é dada tanto por seu comportamento esca- tinéz & Defeo, 2006).
vador e sua alimentação por filtração (mediante a um
par de antênulas plumosas), como também por sua No contexto de ecologia de praias arenosas, o paradig-
particular biologia reprodutiva e seu complexo padrão ma central prediz que, a nível de comunidades macro-
de ciclo de vida (Subramonuam, 1987; Subramoniam faunísticas, a diversidade de espécies, a abundância
& Gunamalai, 2003; Delgado & Defeo, 2006; Delgado total e a biomassa, aumentam desde praias refletivas
2007; Delgado & Defeo, 2008). a praias dissipativas (McLachlan & Dorvlo, 2005). Este
paradigma é fundamentado principalmente pela Hi-
A ZLA superior, ou supralitoral, compreendida desde pótese Autoecológica (HA) (Noy-Meir, 1979) aplicada
as dunas frontais até o interior do continente, pode a praias arenosas (MCLachlan, 1990) e a Hipótese
apresentar comunidades herbáceas de porte muito de Exclusão de Swash (HES) (McArdle & McLachlan,
baixo, adaptadas às condições de dessecação e com 1991; McLachlan et al., 1993). A HA estabelece que
grande desenvolvimento radicular, que cumprem um as comunidades estão estruturadas pelas respostas
importante papel na estabilização das dunas. Além individuais de cada espécie frente as variações no am-
disso, o supralitoral usualmente é uma zona importan- biente físico, sendo mínimas as interações biológicas.
te para a nidificação de tartarugas e de aves costeiras. Em consonância com a HA e restringindo-se à zona de
Nas praias refletivas, o supralitoral constitui um hábitat swash, a HES prediz que a exclusão de espécies até o
favorável para os invertebrados (Habitat Safety Hypo- extremo refletivo do gradiente morfodinâmico é devido
thesis, Defeo &Gómez, 2005). Por exemplo, os crus- à rigorosidade do ambiente intermareal e ao tamanho
táceos isópodes da espécie Excirolana braziliensis do sedimento, o que reflete a estreita relação entre os
apresentam um ciclo de vida direto como adaptação atributos comunitários e as variáveis físicas (McLa-
a este tipo de ambiente. As fêmeas incubam poucos chlan, 1990; Defeo et al., 1992; McLachlan et al, 1993;
embriões em uma estrutura semelhante ao “marsú- Jaramillo et al., 2000; Rodil & Lastra, 2004; McLachlan
pio” formada por prolongações corporais (osteguitos), & Dorvlo, 2005; Lercari & Defeo, 2006).
onde ocorre todo o desenvolvimento das crias; desta
27
5. AS PRAIAS COMO SISTEMAS SOCIOECOLÓGICOS

Juan Pablo Lozoya, Dr.

C e n tro In t erd isc i pl i nári o Manejo Co s t e ro I n t e gr a do de l C o n o Su r


C e n tro Un iv ersi tári o de l a Regi ón Est e – U n i v e r s i da d de l a Re pú bl i ca (U r u guai)

F
rente à necessidade iminente de alcançar um e co-evolucionam constantemente em diferentes es-
modelo de desenvolvimento sustentável base- calas espaciais e temporais. Um SES está composto
ado em um enfoque sistêmico integral (ex. En- por uma unidade bio-geo-física e pelos atores sociais
foque Ecossistêmico, Gestão Baseada nos Ecossiste- e institucionais associados a esta unidade. São sis-
mas), e considerando o vínculo intrínseco que existe temas complexos e adaptativos, e estão delimitados
entre a Sociedade e Natureza, surge o conceito de por fronteiras espaciais ou funcionais que rodeiam de-
Sistema Sócioecológico (SES; Berkes & Folke, 1998). terminados ecossistemas e as problemáticas de seu
contexto (Glaser et al., 2008). Desta maneira, os ecos-
Este conceito enfatiza a perspectiva “do ser humano sistemas saudáveis e funcionais fornecem a matriz
e a natureza”, com os ecossistemas integrados na biofísica e os serviços ecossistêmicos que permitem
sociedade humana. Atualmente é impossível conce- o desenvolvimento social e econômico. Entretanto, es-
ber “Natureza sem Sociedade e Sociedade sem Na- tes ecossistemas são hoje (e têm sido ao longo do
tureza”, não existindo nenhum sistema natural sem tempo), por sua vez, modificados e adaptados pelas
impacto humano e nenhum sistema social sem natu- decisões e pelas ações humanas (diretas e indiretas),
reza. Os sistemas sociais e ecológicos não estão so- que, em definitiva, afetam as capacidades do sistema
mente vinculados, estão realmente interconectados de sustentar o desenvolvimento social (Figura 7).

SISTEMAS SOCIECOLÓGICOS

PRESSÕES

SISTEMAS SOCIAIS SISTEMAS NATURAIS

Instituiões Estruturas dos ecossistemas


Organizações Funcionamento dos ecossistemas
Desenvolvimento Humano

PULSOS

BENS E SERVIÇOS ECOSSISTÊMICOS

F i g u r a 7 : D i a g r a ma
esquemático
de um sistema
Só c i o e c o l ó g i c o .
F o n t e : A da pt a d o de
Sa rd á R. c o m . pe r s .

28 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


FO N TE
M a s s i m o Vi t a l i

29
É neste sentido que Tett et al. (2011) descrevem que rem todas as dimensões e que incluam todos os ato-
na gestão dos sistemas sócioecológicos e, em es- res envolvidos (ex. população, setor privado, distintos
pecial, daqueles localizados nas zonas costeiras de- níveis de governo e academia). Neste sentido, a co-
vido à diversas coincidência de interesses, atores e municação tem sido destacada como uma instância
jurisdições, se deveria aspirar a “encontrar soluções fundamental, mas com especial ênfase na consulta
ecologicamente sustentáveis, socialmente equitativas já que este diálogo deve ser bidirecional e não mera-
e economicamente rentáveis”. Por isso, a compreen- mente comunicativo desde gestores a atores. A GIZC
são e gestão das zonas costeiras e, em particular, das tem sido conhecida como um componente inerente e
praias, requerem esforços conjuntos de ao menos três necessário do desenvolvimento sustentável das praias
disciplinas acadêmicas, cada uma delas com pontos e outras zonas costeiras, e vice-versa (Chua, 1993;
de vista muito particulares: i) a Economia: que consiste Vallega, 1993; Cicin-Sain et al., 1995). Com o objetivo
na maneira em que os seres humanos produzem e uti- de alcançar um balanço sustentável entre o desenvol-
lizam os recursos para satisfazer suas necessidades vimento das sociedades humanas e a qualidade e a
de bem estar, ii) a Sociologia: que descreve e analisa saúde dos ambientes costeiros, o principal objetivo da
as atividades sociais humanas e suas instituições, e GIZC é “melhorar a qualidade de vida das comunida-
iii) a Ecologia: que pretende compreender o papel dos des humanas que dependem dos recursos costeiros,
seres vivos no funcionamento do mundo natural (Tett mantendo a diversidade biológica e a produtividade
et al., 2011). dos ecossistemas costeiros” (GESAMP, 1996, Olsen et
al., 1997).
Estas estratégias integradas surgem como resultado
FO N TE : J ul i a C a mp os.

de uma evolução dos principais paradigmas da ges-


tão ambiental. Por estar centrada exclusivamente nos
recursos explotados (gestão tradicional, anos 1970-
1980) a gestão passou a enfocar-se nas fontes que
geram ditos recursos (Gestão Baseada nos Ecossis-
temas, EBM anos 1990) e além dos vínculos com as
sociedades que utilizam (e também afetam) os mes-
mos (SSE, anos 2000) (ex. Colby, 1991; Grumbine,
1997; Cheong, 2008; Curtin & Prellezo, 2010). Por sua
vez, nestas últimas décadas a gestão e governança
de bens públicos se tornaram progressivamente mais
complexas. As agências governamentais continuam
tendo o protagonismo nesta gestão, começando a
ser somente um dos seus múltiplos atores. Estes pro-
cessos de gestão são, assim, mais equitativos, mas
também mais complexos, devido à abordagem inter-
disciplinar imprescindível e necessária para analisar e
incorporar todas as dimensões do sistema.

A necessidade de integração na gestão é uma ca-


racterística da Gestão Integrada de Zonas Costeiras
(GIZC, ou ICZM na sigla em inglês) que, desde seu iní-
cio, e sobretudo desde a década de 90, quando foi
respaldada pela Convenção do Rio (1992), destaca a
necessidade de processos integrados que conside-

30 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


A s p r aias e os Se rvi ços Ecossi stê mi cos

Os ecossistemas costeiros resultam fundamentais para proposto pela EM, tem sido pioneira na investigação
as sociedades humanas, brindando diversos bens e do meio ambiente (ver box 2). A partir desta aproxi-
serviços que contribuem diretamente ao bem-estar do mação , as consequências a nível econômico, social e
ser humano. Conhecidos como serviços ecossistêmi- de bem-estar humano dos danos sobre o ecossiste-
cos (SE), estes são definidos como “o benefício direto ma parecem mais claras. Incorporando além de uma
ou indireto que o homem obtém dos ecossistemas” dimensão econômica, este conceito provê informação
(MEA, 2005). A Avaliação dos Ecossistemas do Milê- fundamental para os gestores frente a implementação
nio (EM) foi fundamental para o desenvolvimento deste de políticas efetivas de conservação que contribuam
conceito, sendo uma das principais conquistas a in- ao bem-estar social e desenvolvimento sustentável (de
clusão do SE na agenda global sobre sustentabilidade. Groot 1992, 2010, Constanza et al., 1997, Boyod & Ba-
A análise da gestão de recursos naturais através dos nhaf 2006, Fisher & Tuner 2008, Nahlik et al., 2012).
SE e sua vinculação direta com o bem-estar humano
F O N T E: Ma s s i m o Vi t a li .

31
BOX 2- OS SERVIÇOS
ECOSSISTÊMICOS E O
BEM-ESTAR HUMANO

A Avaliação dos Ecossistemas do Milênio (AEM)


define os serviços ecossistêmicos como os benefí-
cios que as pessoas obtêm dos ecossistemas, dis-
tinguindo quatro grandes categorias: i) os serviços
de fornecimento, ii) os serviços de regulação, iii) os
serviços culturais, e iv) os serviços de suporte. Em-
bora a espécie humana amorteça os efeitos das mu-
danças ambientais através da cultura e dos avanços
tecnológicos, suas sociedades seguem na atualida-
de dependendo do fluxo de serviços que proveem
os ecossistemas (MEA, 2005).

Serviços dos ecossistemas Componentes do Bem-estar

Segurança
Aprovisionamento
Segurança pessoal
Alimento
Acesso seguro aos recursos
Água doce
Segurança frente a desastres
Madeira e fibra
Combustível

Materiais essenciais para


uma vida decente
De apoio Regulação Suministros adequados Liberdade e eleição e ação
Ciclo de nutrientes Regulação de clima Oportunidade para poder
Alimento nutritivo suficiente
Formação do solo Regulação de inundação alcançar o que um indivíduo
Acesso a bens
Produção primária Regulação doenças valora fazer e ser
Purificação da água
Saúde
Fortaleza
Culturais Sentir-se bem
Estéticos Acesso à ar e água limpos
Espirituais
Educacionais
Recreativos Boas relações sociais
Coesão social
Respeito mútuo
Capacidade para ajudar a outros
Vida sobre a terra - Biodiversidade

Cor das Flechas Espessura das Flechas


Potencial para que Intensidade das conexões entre
medirem fatores serviços dos ecossistêmicos e
econômicos bem-estar humano

Fonte : Ava lia ç ã o d o s E c o s s i s t e m a s d o M i l ê n i o ( 2 0 0 5 ) .

32 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


O marco conceitual proposto pela Avaliação dos
Ecossistemas do Milênio - AEM coloca o ser huma-
no como parte integral dos ecossistemas, propondo
uma interação dinâmica entre eles, onde as mudan-
ças produzidas pelas atividades humanas afetam
(direta ou indiretamente) aos ecossistemas, modifi-
cando, assim, o bem-estar das próprias sociedades
(MEA, 2005).

Engenharia ecológica

Serv iços Ecossistêmicos

Serviços de
Aprovisionamento

Bem-estar
humano
Processos Serviços de
ecossistêmicos Regulação

Serviços
culturais

Restrições no
acesso e uso

Fonte : Ad a p t a do d e Be n n e t t e t a l . 2 0 0 9 .

33
Uma praia sadia e funcional brinda uma gran- funcionalidade natural da praia estaria vinculada
de quantidade de SE que são essenciais para o a garantir as condições que permitam o desenvol-
uso humano destes sistemas que, usualmente, vimento de ditas comunidades. A função recrea-
agrupam-se em três grandes categorias: de Pro- tiva das praias está relacionada com o papel de
teção, Natural e Recreativa (Ariza et al., 2010). A suporte físico das distintas atividades recreativas
função de proteção das praias está diretamente e de exploração turística que desempenham es-
relacionada com a segurança das infraestruturas tes sistemas. Para que sejam funcionais, as praias
que se encontram na parte traseira da praia (ou devem cumprir uma série de condições como ser
hinterland). A Praia dissipa/absorve a energia da larga o suficiente, prover condições seguras de
onda incidente durante o impacto de tormentas banho ou vistas e paisagens atrativas.
protegendo assim o hinterland e as infraestru-
turas. Neste sentido, para que a praia seja real- Para as áreas costeiras e, especificadamente,
mente funcional, sua porção emergida deve ter para as praias, são descritos diversos SE (e.g.
uma largura suficiente para que possa prover MEA, 2005; Beaumont et al., 2007; Defeo et al.,
esta proteção (Jimènez et al., 2011). Como men- 2009; Brenner et al., 2010; Lozoya et al., 2011).
cionado anteriormente, existem diversas comuni- Talvez como os mais característicos, poderiam
dades biológicas que habitam estes sistemas. A ser destacados:

F O N TE : J ul i a C am p os .

34 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


AMORTECIMENTO DE EVENTOS EXTREMOS
Fundamental na proteção de infraestruturas da parte interior da praia frente a grandes flutuações ambientais (ex.
tempestades, erosão, inundações). É particularmente importante nas zonas urbanas e está determinado pelas in-
fraestruturas existentes.
FON TE: Ti mot h y M ei n b erg.

FON TE: L u i s Acost a .


HÁBITAT
Este serviço se relaciona com a matriz física que as praias proporcionam, onde se desenvolvem distintas comunida-
des biológicas (ex. invertebrados bentônicos, aves locais e migratórias, tartarugas, mamíferos marinhos), incluindo
o próprio hábitat que estes podem gerar.

F O N TE : Bob Mor a e s.
F O N TE : S e t h D oyl e .

ALIMENTO
As zonas costeiras e as praias são tradicionalmente zonas muito ricas em alimentos, dando origem a diversas
pescarias artesanais (ex. bivalves, peixes), mas também em épocas mais atuais há um grande desenvolvimento da
pesca esportiva.
F O N T E: Ch a rl o t t e C o n e y be er.
F O N T E : B ri an Er i c k s o n .

35
RECREAÇÃO
Este serviço está diretamente relacionado às oportunidades de lazer, relaxamento e ao estímulo do corpo e da
mente impulsionados pelos ecossistemas. Além disso, este serviço é a base da uma imensa indústria de escala
mundial que resulta fundamental para o desenvolvimento econômico de muitos países.

FON TE: M a ssi mo Vi t a l i .


FON TE: B ob M ora es.

ESPIRITUAL, CULTURAL OU HISTÓRICO


Embora este serviço nem sempre seja considerado e valorizado em sua totalidade, os ecossistemas provêm uma
grande informação cultural, espiritual e histórica através de suas características naturais.

FO N TE : c l oud vi sua l .
FO N TE : Bob Mor a e s.

ESTÉTICO
Este serviço está vinculado às características da paisagem que os tornam atrativos a partir do desfrute sensorial de
um sistema ecológico funcional.
F O N T E: B o b Mo r ae s .

A zona litoral é particularmente atrativa para o ser humano, já que além de fornecer todos estes serviços, é
também um lugar estratégico para a indústria, a atividade comercial e o transporte (Tett et al., 2009).

36 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


6. AS PRAIAS
AO LONGO
DO TEMPO

Briana Angélica Bombana, Dra. & Luidgi Marchese, Dr.

¹ Laboratóri o de Co n s e r v a çã o e G e s t ã o C o s t e i r a
C e ntro d e C iênc i as Tec nol ógi c as da Te r r a e do M a r – C T T M a r – U n i v e r s i da d e d o
Val e do I t a j a í – U N I VA L I

37
On d e t u do come çou...

H
eráclito, criador da dialética, defendia que lações de sua margem. Corbin (1993) revisou inclusive
“nada é permanente, a não ser a mudança”. as visões dos gregos e romanos, encontrando muitas
De fato, as praias tanto do ponto de vista de citações na teologia e na literatura clássica deste te-
sua morfologia quanto do seu uso pela população, po- mor e inapetência pelo mar e pelas praias.
dem ser encaixadas nessa definição uma vez que têm
sofrido diversas modificações ao longo do tempo. Além disto, as terras costeiras também eram conside-
radas inúteis para as atividades produtivas desenvolvi-
Salvo alguns esparsos momentos da antiguidade - das na época, com destaque para os solos inférteis e
como na Roma antiga, com suas vilas balneárias ao muito salinos à agricultura.
lado do mar que remetiam a fins de higiene e esportivos
- as costas dos territórios com característica exposta Após o início da colonização de novos territorios além
foram principalmente vistas como um local inóspito mar, no final do século XV, foi dado o início a uma
que representava perigo às pessoas. Esta percepção modificação desta concepção e as zonas litorâneas
permaneceu por centenas de anos e começou a mu- europeias começaram a ser povoadas, principalmen-
dar a partir do período das grandes navegações. te os litorais de característica abrigada, ideais para o
estabelecimento de portos, seguidos posteriormente
Segundo Corbin (1993), historiador francês que traça a pelo desenvolvimento das atividades industriais (Mar-
história da praia no imaginário ocidental, no Ocidente, tins & Vasconselos, 2011). Muito embora, os vilarejos
antes do século XVII, a praia era um lugar tenebroso e cidades ainda apresentavam um olhar voltado aos
e pouco cobiçado. Os conceitos teológicos predomi- continentes, construídos de costas para o mar. Tal fato
nantes nessa época insinuavam imagens monstruosas se faz ainda mais importante no continente americano
do oceano, relacionando o mar com os restos de um dado que, constituído de países povoados ou colo-
dilúvio enviado como um castigo divino. As caracte- nizados, a ocupação deste território começou, quase
rísticas mutáveis do oceano, seu poder de destruição sempre, pelas praias, com as embarcações como o
durante os temporais e, em geral, sua impossibilidade principal meio de transporte para novas conquistas
de domínio por parte do homem, distanciava as popu- territoriais (Sabel apud Urry, 2001).

F O N T E: o o s u n Wo n .

38 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


VOCÊ SABIA QUE ...

Em Montevidéu, no Uruguai, a primeira “planta” da


cidade, onde atualmente se localiza a “Ciudad vie-
ja”, foi pensada para estar dentro de uma muralha
com casas que não direcionavam as suas frentes
à região costeira e portuária? Esta, então, era tida
como fonte de sujeira, doenças e “promiscuidade”.
Atualmente, na capital uruguaia, o turismo de sol e
praia é uma forma de ingresso econômico durante
os meses de verão.

Paralelamente, o litoral também começou a causar


curiosidade, o mar acaba sendo visto como caminho
para chegar a lugares desconhecidos, de novos co-
nhecimentos e conquistas (Martins & Vasconselos,
2011). No fim do século XVII, surgem os estudos da
oceanografia que permitem conhecer melhor esse
grande inimigo chamado oceano. Na metade do sé-
culo XVIII:

“a beira-mar readquire uma antiga função,


faz-se de novo lugar privilegiado dos enigmas
do mundo. Vai-se a ela para interrogar sobre o
passado da terra e as origens da vida. Melhor
do que em qualquer outra parte, ali é possível,
de fato, efetuar a leitura da multiplicidade dos
ritmos temporais, perceber o alongamento
da duração geológica, observar a indecisão
das fronteiras biológicas, a incerteza dos
reinos e as curiosas transições entre eles”
(Corbin, 1988).

Segundo o mesmo autor (Corbin, 1993), também pela


corrente teológica natural, a tendência de repulsão
da costa começa a variar. A mentalidade muda
em relação à costa e especialmente às praias,
passando de ser um lugar de rejeição para
outro de desejo profundo. Desta maneira,
começa a apreciação da paisagem am-
pla, sutil e relaxante da praia. Os homens
da época começam a incluir em seus
textos e diários de viagens a beleza da
costa, outorgando-a um valor estético e
artístico predominante.

39
A CHEGAD A DO BA NHO DE MA R...

Por t ob el lo Be a ch, E d i nbu rg h. Ci rc a 19 0 5

F i g u r a 8 : Po r t o Bel o Beach ,
No continente europeu, a medicina foi a responsável
E s c ó c i a - 1 9 0 5 . F o n t e:
por aproximar o homem à beira do mar, atribuindo F o t o s o bt i d a s n a i n t er n et .

propriedades terapêuticas à água marinha. Muito se


falava sobre as propriedades benéficas da água e do
ar marinho, estimulando a caminhada e a cavalgada
XVIII, quando recomendado para fins medicinais, com
nesse ambiente. A partir de 1750, o banho de mar é
receitas e programações feitas por médicos da épo-
quase um remédio infalível para inúmeras doenças.
ca, apresentava duração precisa e era acompanhado
Assim, em meados do século XIX começou-se um for-
por um profissional especializado em banhos curativos
te costume, associado à aristocracia, de utilizar a praia
(Figuras 8 e 9). Inglaterra e França foram os países
para banhos medicinais para diversos fins. Segundo
pioneiros, estendendo-se posteriormente a outros pa-
Rubio (2005), esta tendência iniciada no norte da Euro-
íses europeus. Este benefício do uso das praias como
pa, rapidamente se dispersou no Mediterrâneo. Desta
“medicamento” - que corroborava com práticas muito
forma, o uso contemplativo da praia que já existia pela
mais antigas, defensoras da água fria como favore-
praia se une ao uso terapêutico, proporcionado pelo ar
cedora da longevidade - fez com que os balneários
limpo e as águas marinhas.
fossem procurados por todas aquelas pessoas que
sofriam de alguma doença e que conviviam com con-
O banho de mar como atividade humana em costas
dições de insalubridade nos ambientes urbanos.
expostas aparece, portanto, em meados do século

40 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


F i g u r a 1 0 : Po s t a l d a Pr ai a de
Tal atividade acabou ganhando uma função de lazer Po c i t o s , M o n t e v i d é u , U r u g u ai
quando o mar, o sol e a paisagem costeira começam a - 1 9 1 0 . F o n t e : w w w. p a r l an ch .
bl o g s po t . c o m . b r
ser percebidos como cenários capazes não só de res-
tabelecer as condições físicas, mas também mentais
das pessoas:

“A essa altura, a figura da praia se turva, os


mitos se entrecruzam, os estereótipos se
acumulam em uma confusa concorrência.
As qualidades respectivas dos elementos,
as características da topografia, a eficácia
do equipamento hospitalar, a amplitude da
rede de sociabilidade e a riqueza da vida
cultural engendram uma instável distribuição
de méritos respectivos” (Corbin, 1988).

Ainda que a fruição da água do mar pelos banhistas já


houvesse começado – inclusive antes dos padrões bri- F i g u r a 9 : Po s t a l d e
C o n e y I s l a n d , N o v a Yo r k ,
tânicos, em comunidades de pescadores ou insulares
EUA - 1856. Fonte:
– neste momento, não havia a busca das mesmas para c o n e y i s l a n dre a d e r. c o m

o banho de sol, pois a queima da pele a ressecava.


As atividades até então contempladas incluíam princi-
palmente a caminhadas e conversas entre as pessoas
(Figura 10).

41
... E, DO BA NHO DE SOL

No século XIX, no continente europeu, a praia então


assume definitivamente o papel de vilegiatura balnear
e o banho de sol é evidenciado como benéfico (Fi-
gura 11), especialmente em países como a Inglaterra,
França, Itália e Espanha, por intermédio dos spas, do
iatismo, dos bailes e dos passeios à beira-mar (MinTur,
2010). Há um pouco mais de um século atrás, o “boca-
-a-boca” provavelmente trouxe algumas praias à tona,
à medida que as parcelas endinheiradas da popula-
ção europeia realizavam o “Grand Tour” da Europa.
Por exemplo, Deauville, Monte Carlo e Nice na França,
a costa Amalfitana na Itália e o Algarve em Portugal
estavam todos no itinerário dos viajantes (Williams &
Micallef, 2009).

*Figuras 12
Primeiramente, a consolidação deste fenômeno se dá
através da elite britânica que apresentava um poder
de criar tendências nas camadas sociais mais baixas,
como os burgueses, acabando por se estender à po-
pulação de um modo geral.

A industrialização e as mudanças sociais no prole-


tariado, especialmente o melhoramento das vias de
transporte (Figuras 12 e 13), e o advento das férias,
proporciona o acesso às cidades litorâneas e o visi-
tante já não é somente originário das classes abasta-
das, a praia se populariza (MinTur, 2010). O boom das
ferrovias no século XIX trouxe os resorts costeiros à
moda, permitindo que grandes massas trabalhadoras
passassem suas férias na costa (Williams & Micallef,
2009).

Neste contexto, cabe destacar o fenômeno da segre-


gação social, o qual passou a existir por parte da aris-
tocracia industrial europeia, pois a esta não lhe ape-
tecia compartilhar do mesmo balneário com outras
classes, fazendo-a selecionar um novo local ou, no
caso de decidir manter sua permanência, instituindo
uma clara divisão de localização indicada pela diferen-
ça das estruturas para os banhos de mar. Esta segre-
gação, inclusive, permaneceu no tempo e pode ainda
ser vista em diversos destinos praieiros.

42 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


F igura 1 1: “Don’t
be a palef ace!”:
Propagan da do
protetor solar
Coppertone -
Década de 50 .
Fon te:Cardcow.

VOCÊ SABIA QUE ...

No início, o desfrute das praias era realizado com a


ajuda de um banhista auxiliar? O prazer do banho de
mar estava na água salgada, fria e turbulenta, impli-
cando cuidados com a salvaguarda. Para o banho
de mar havia a necessidade da prescrição médica,
e companhia de um banhista auxiliar e do conheci-
mento da declividade da praia.

Figuras 12* e 13:


A n ú n c i o s da s l i n h a s
d e t re m b r i t â n i c a s
p a r a a s c i da de s
c o s t e i r a s n a m e t a de
do século XX. Fonte:
Pi n t e re s t .

43
A F ONTE DE L A Z ER

O início do prestigio da faixa litorânea com relação F i g u r a 1 4 : Pr ai a


d o C a j u , Rio de
ao ócio se salienta ainda mais nos países fronteiriços
J a n e i ro , Br a s i l .
com o mar Mediterrâneo – de águas mais quentes, por F o n t e : s o br as a.o rg

exemplo, em relação ao Reino Unido - e a praia surge


como é concebida ainda hoje (MinTur, 2010). Ocorri-
da inicialmente para uma demanda seletiva, é a partir
dos anos 60, com a factibilidade das viagens aéreas A praia começa a ser visitada e habitada por comuni-
(Williams & Micallef, 2009), que estes países começa- dades humanas cada vez maiores e, nos dias de hoje,
ram a ser locais de atração turística massiva que per- mais de 60% da população mundial vive a menos de
dura até os dias atuais. 50 Km da linha de costa. Essa migração não ocorre
apenas pela praia, mas também porque as pessoas se
O turismo se torna, então, um fenômeno social com o sentem estimuladas pelas oportunidades de trabalho
crescimento expressivo dos fluxos turísticos no litoral nas grandes cidades costeiras, já que permitem o in-
(MinTur, 2010). Há, até mesmo, quem defenda - como gresso de trabalho em diversos setores, como o caso
é o caso do próprio Corbin (1988) - que a moda das das zonas portuárias, turismo, entre outras atividades
praias tenha sido um fator importante para consolidar típicas litorais (Barragán, 2003). No final do século XX,
o turismo moderno. Como consequência, atualmente a praia já era a grande determinadora do turismo cos-
há um maior contingente de pessoas vivendo e pas- teiro (Torres, 1997), tendência que também dominou a
sando suas férias na costa, havendo um grande aces- primeira década do novo milênio.
so ao ambiente praia (Williams & Micallef, 2009).

44 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


No continente americano, há registros do uso das
praias para banhos de mar que datam do final do sé-
VOCÊ SABIA QUE ...
culo XIX e início do século XX, como por exemplo, a
praia do Caju no Rio de Janeiro (Figura 14) que foi ade-
A arquitetura voltada ao mar (Figura 15)
rida primeiramente por D. João VI e se torna, no século
também ocorre no século XIX, já que a
XIX, o primeiro balneário da cidade e do Brasil. Mas,
contemplação do encontro do mar com a
somente na década de 60 e 70 é que se destaca a
terra se convertia em um desejo coletivo
ampliação e a intensificação do segmento do turismo
de moradia.  
costeiro da Europa para outros continentes.

F i g u r a 15 : P r ai a de
Po c i t o s , Mo n t ev i déu ,
U r u g u a i - 1 9 3 8 . F o n t e:
Cabe ressaltar, porém, que no Brasil os primeiros li- pu n t av i [Link] m

torâneos foram os indígenas. Estes vistos como os


vários povos tupi–guarani que habitavam as praias
trouxeram novos costumes, sujeira, doenças, progres-
do país séculos antes da chegada dos portugueses.
so, destruição e violência. Como muitos indígenas ti-
Segundo a antropóloga e historiadora Maria Hilda Ba-
nham um comportamento nômade e/ou morreram em
queiro Paraíso, especialista em história indígena, os
batalhas, os europeus começaram a importar novos
indígenas brasileiros vieram dos Andes e, logo, alguns
escravizados, que vieram da África, pelo mar.
se distribuíram na zona litorânea do país. A vida dos
indígenas na beira do mar era uma delícia: pescaria,
Os indígenas sempre tomaram banho de mar. O hábi-
coleta, pequenas plantações. Para se locomover, usa-
to, no entanto, só foi incorporado pela população não
vam as pirogas, um modelo de canoa escavada em
indígena, quando o rei D. João VI precisou se curar
troncos que sobrevive até hoje.
com as águas oceânicas, como comentado anterior-
mente. Ele, mesmo não possuindo o hábito de tomar
Com a chegada dos portugueses e outros europeus, a
banho, por ser uma recomendação médica, teve que
calmaria inicial foi interrompida, mesmo com a doação
ceder. Construiu sua casa de banho, no litoral cario-
das capitanias hereditárias, deu-se a largada na colo-
ca e lá curava suas feridas. E, como tudo o que o rei
nização do Brasil, baseada na escravidão. As praias
fazia virava moda, diversas casas de banho foram
foram então, palco de massacres inomináveis, mas
abertas no Rio de Janeiro, inclusive suas roupas de
também de tórridas histórias de amor e alguns encon-
banho também tornaram-se tendências beachwear. A
tros cordiais. Os indígenas foram as primeiras vítimas:
diferença é que, pare eles naquela época, ir à praia era
assistiram a um desembarcar sem fim de estranhos
como ir ao campo fazer um piquenique: em pequenos
que
45
grupos e todos vestidos.

Com o passar do tempo e chegado o fenômeno do


veraneio, uma grande interessante aconteceu: assim
como já faziam os indígenas, começamos a nos des-
pir. E então, na década de 60 e 70 (Figura 17), ocor-
re uma ampla intensificação do segmento do turismo
costeiro em todos os continentes.

VOCÊ SABIA ?

Um dos últimos redutos que permanecem


preservados alguns costumes de praias
indígenas é a área norte do estado da Bahia,
acima de Salvador, até a divisa com Sergipe.
Atualmente, apesar das indústrias, dos
esgotos, do lixo, do desmatamento, ainda
é possível encontrar por lá locais onde se
vive a essência do espírito praiano indígena,
inclusive com transportes de canoas
adaptadas (Figura 16). Ocupada inicialmente
por indígenas, depois por aldeamentos
jesuíticos e vilas – que sobrevivem da pesca
e agricultura -, a partir dos anos 70, nessa
área, foram surgindo os loteamentos e
empreendimentos turísticos.

F i g u r a 1 6 : Re s qu í c i o s
do s c o s t u m e s pr a i a n o s
i n d í g e n a . F o n t e : i n t e r n et .

46 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


R io d e Janei ro Década de 60

Figu ra 17: Ip a ne m a ,
Rio de J a ne iro,
Brasil - Dé c a d a d e
6 0. Fon te : c ha r ly- s-
garage.

47
As di vers a s f unções d a s p r a i a s

Hoje, reconhece-se que as praias - além do benefí-


cio social e econômico que proporcionam, relaciona-
dos principalmente ao descanso, são inspiração para
o desenvolvimento de uma cultura associada a elas,
traduzida através da arte, música, literatura, cinema,
consumo e comportamento (Figuras 18 e 19).

F ig ura 1 8: M aya Beac h, Ta ilâ nd ia , a p r a ia d o f ilme “ T h e Be a c h ” l a n ç a do e m 2 0 0 0 . F o n t e : Ya c h t i n g L i f e s t y l e .

Figur a 19: Ma ya Be a c h , Ta i l â n d i a , a p r a i a do f i l m e
“ The B e a c h” la nç a d o e m 2 0 0 0 . F o n a F i g u r a 2 1 :
Ca p a d o livro libro s o b re a c u l t u r a do s u r f “ Po p
S ur f Culture : Mu s i c , D e s i g n , F i l m a n d F a s h i o n
f rom the B ohe m i a n Su r f Bo o m ” . F o n t e : C h d e s t e r &
P r iore , 2008. te : Ya c h t i n g L i f e s t y l e .

48 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


Ademais, com o avanço dos estudos costeiros, sabe- praias desempenham, tanto de regulação como cultu-
-se que as praias apresentam diversas outras funções ral (Chica et al., 2012), seriam outra forma de conceber
e serviços ecossistêmicos, como armazenamento e sua função como elemento que satisfaz as necessida-
transporte de sedimentos, dissipação da força da hi- des humanas.
drodinâmica marinha, resposta dinâmica ao aumento
do nível do mar, decomposição do material que conta- A função recreativa da praia, que parte da percepção
mina a areia, filtração e purificação da agua, manuten- humana deste ambiente como um espaço para o uso
ção da biodiversidade e recursos energéticos, áreas em seu tempo livre e de lazer, em termos históricos, é
de criação de peixes juvenis, lugares de nidificação de relativamente recente. Pois, foi só a partir do homem
tartarugas e aves, espaço de presa para aves e fauna do século XVII que começa a perder os costumes an-
terrestre (Zielinski & Botero, 2012). cestrais de medo e terror (Corbin, 1993) e até meados
do século XX, não era reconhecida como um lugar de
Segundo os autores (Ariza et al., 2008; Jiménez et al., descanso e relaxamento (Rubio, 2005). Assim, então,
2007; Rubio, 2005), são encontradas três principais somente agora a praia cumpre uma função social, per-
necessidades humanas que as praias satisfazem: mitindo a coletividade humana desfrutar de um espaço
multidimensional, no qual é possível banhar-se, con-
a. Proteção de zonas interiores da energia das templar a paisagem, solárium, entre várias ações pró-
ondas, especialmente a paisagem e as infra- prias do tempo livre.
estruturas humanas e edificações;
Dessa forma, é de grande importância a existência de
b. Oportunidades de usos recreativos, incluin- processos e instrumentos de gestão de praias, como
do a natação, o bronzeamento, mergulho, re- condicionante para que as funções cumpridas por tais
laxamento e várias atividades esportivas; ambientes possam ser mantidas. Ao adicionar a este
contexto que as praias são sistemas naturais que es-
c. A provisão de um cenário natural e reserva tão atualmente submetidos a uma grande pressão hu-
ecológica, que indica seu valor para a conser- mana e climática (Sardá et al., 2012) e que o turismo,
vação. aliado a assentamentos urbanos, aceleram o processo
de uso, ocupação e degradação da zona costeira e
Torres (1997) se aventura em estabelecer a imagem das praias (Harvey & Caton, 2003), destaca-se que a
turística do espaço da praia como o mais relevante, praia, estando integrada a realidade costeira, necessi-
inclusive superior à sua importância como suporte físi- ta ser abordada e gerida como um todo, desde uma
co. Mesmo assim, os serviços ecossistêmicos que as perspectiva sistêmica como de paradigma científico.

PARA TER EM CONTA:

• Em muitos países, como o Brasil e o Uruguai, as praias são


consideradas patrimônio de toda a população e tal ideia implica que esse
patrimônio deve ser passado de geração para geração.

• Há um antigo provérbio dos indígenas norte-americanos que diz “Nós


não herdamos a terra de nossos pais, nós a emprestamos de nossos filhos”.

• Assim, fica a pergunta: Como vamos entregar as praias para os


nossos filhos no futuro?

49
8. O TURISMO
DE SOL E PRAIA

Guilherme Godoy Barattela, Me.,


Camila Longarete, Me. & Luidgi Marchese, Dr.

¹ L a b orat ó rio de Conservaç ão e


G e s t ã o C ost eira
C e n tro d e C iênc i as Tec nol ógi c as d a
Te r r a e d o M ar – CTTMar –
U n i v ersid ad e do Val e do I tajaí –
U N I VAL I

C o m pr een são do concei to

V
árias são as definições utilizadas para o turis-
mo direcionado às áreas litorâneas, tais como
Turismo em Praias, Turismo Litorâneo, Turismo
de Sol e Mar, Ecoturismo Litorâneo, Turismo de Sol e
Praia ou Turismo Costeiro. Mesmo com a diversidade VOCÊ SABIA ?
de nomenclaturas, os impulsionadores destas modali-
dades turísticas predominantemente são os mesmos: A origem da palavra TURISMO tem seu nome
A presença conjunta de Beleza Cênica, Sol, Calor e derivado do francês tour, “volta, circuito,
Água (UNEP, 2009; MinTur, 2010) favorecendo o de- volta ao redor”, de tourner, “fazer a volta”, e
senvolvimento das atividades de recreação, descanso também do latim tornare, “fazer dar a volta,
e entretenimento (Orams, 2003). polir, girar um torno”. Ou seja, “sair, dar uma
volta e retornar”.
Embora os impulsionadores sejam os mesmos, as
características geográficas, paisagísticas, culturais e
de infraestrutura, particulares de cada localidade, di-
ferenciam as atividades e suas atratividades, gerando
fluxos de pessoas distinto das áreas circundantes, em
função de seus interesses nos atributos disponíveis
para a atividade turística. No entanto, muitas são as
iniciativas para prover serviços turísticos a partir da
implementação de infraestrutura (ex: Ecoequipamen-
tos, Resorts, Hotéis, Bares, Danceterias, e etc.) para
que estes somem aos atributos naturais e paisagís-
ticos, aumentando sua atratividade turística (UNEP,
2009). Ou seja, os processos turísticos em regiões li-
torâneas podem ser alterados no espaço e no tempo,
ajustando-se entre oferta e demanda (Zielinski & Bo-
tero, 2012). No entanto, as praias podem ser compre-
endidas como espaços de multiuso, pois podem atrair
mais de um perfil de usuário ao mesmo tempo.

50 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


CURIOSIDADE:

 Segundo a Organização Mundial de Turismo


em uma de suas publicações sobre turismo
urbano, mostra que dentre as 21 das cidades
mais visitadas do mundo em 2011, 11 delas
estão na zona costeira (OMT, 2012).
F O N T E: Mi k e W i ls o n .

51
VOCÊ SABIA?

Uma pesquisa realizada pela empresa de turismo 2012), através das atividades de lazer e recreação dis-
Expedia (2013) mostrou que 77% dos brasileiros poníveis. Neste sentido, são entendidas como ativida-
apontam a praia como destino essencial de férias? des recreativas do turismo de praia, qualquer atividade
Além de que também não se importam em retornar que vincule Banho, Surf, Kitesurf, Windsurf, Mergulho,
a uma praia já explorada (92%) quando este lugar os Equipamentos Náuticos, Esportes, Cultura, Gastrono-
agrada. mia, entre outras.

 O turismo de praias também é reconhecido pelos Embora o foco principal destes fluxos turísticos seja a
fluxos massivos durante os períodos ensolarados e praia, a influência exercida neste espaço ultrapassa a
de clima quente ou ameno do ano. Quando grandes barreira da beira-mar, e se reflete também em diver-
quantidades de pessoas buscam a costa para o re- sas atividades locais no entorno desta praia. A grande
laxamento e espairecimento associado ao banho de quantidade de banhistas na faixa de areia, o aumento
mar e infraestrutura disponível, com um cenário pai- acentuado na procura de hotéis, a maior presença de
sagístico diferente do local originário destes usuários, pessoas em restaurantes e, o aumento do tráfego nas
muitas vezes, tal comportamento é relatado como vias de circulação, são exemplos expressivos desta re-
sendo o “escape da vida urbana” (Zielinski & Botero, alidade.
F O N T E : C a m e ro n St o w.

52 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


VOCÊ SABIA ?

O EUA é considerado a destinação turística


mais importante do mundo, ao mesmo tempo,
uma única praia estadunidense “Miami Beach”
recebe mais visitantes que outras atrações
como os parques nacionais de Yellowstone,
Grand Canyon e Yosimite, todas em conjunto?

FO N T E: Je sse C ol l i ns.

MI A MI
F O NT E: S ar a K a u t e n .

B E A C H

53
A p ro blemát ica

O turismo costeiro pode ser considerado um elemento frágeis (Zielinski & Botero, 2012). Fato este prejudicial
paradoxal, pois é responsável pela aceleração do de- à estabilidade e a função ecológica da orla marítima,
senvolvimento urbano e econômico trazendo inúmeros manguezais, restinga, matas ciliares, recifes de corais,
benefícios em infraestrutura, assim como de natureza marismas e áreas inundáveis, aumentando a vulnera-
socioeconômica, por outro lado, é concentrador de bilidade às catástrofes naturais, perda da biodiversida-
riqueza, de apropriação de espaços, de segregação de e diminuição dos estoques e recursos ambientais
social e de degradação ambiental (Figura 20). disponíveis (UNEP, 2009), por meio do desenvolvimen-
to de atividades incompatíveis com o ambiente em que
Os fatores que influenciam sobre a qualidade do turis- estão inseridas.
mo de praia estão associados aos aspectos de gestão
patrimonial, ordenamento territorial, gestão energéti-
ca, gestão de recursos hídricos, gestão de zonas cos-
teiras e orla marítima, e também, da gestão ambiental,
uma vez que esta modalidade turística é um grande
consumidor de recursos ambientais. (UNEP, 2009;
MinTur, 2010).

Esta indagação é refletida pelo motivo que, essen-


cialmente, o turismo de praias se desenvolve, muitas
vezes, em áreas consideradas de preservação per-
manente (Williams & Micallef, 2009) e ecologicamente

F i g u r a 2 0 : N o t í c i a s s o bre p ro b l e m a s de ero s ão
o b s e r v a do s n a s pr a i a s d e C a n c ú n – D es t i n o
m e x i c a n o d e s o l e pr a i a i n t e r n a ci o n al men t e
re c o n h e c i d o . F o n t e : m e x i c o t r a v e l n et wo r k .o rg .

54 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


VOCÊ SABIA?
A década de 60 foi marcada pela eclosão do turismo de massa quando se regis-
traram e foram reconhecidos os impactos negativos da atividade turística? Nesta época,
este segmento foi inclusive desmistificado como a “indústria sem chaminés”.

FO N TE : Agust i n D i a z .
Não somente em questões ambientais, a gestão dos Uma das grandes questões que ainda é desfavorável
recursos direcionados as atividades turísticas podem ao cenário do turismo na costa, é que nem sempre
trazer grandes impactos nas comunidades locais. o aumento repentino do número de turistas é acom-
Afetam diretamente a estabilidade socioeconômica panhado pela provisão de infraestrutura necessária.
(Orams, 2003) e as características culturais das po- Como exemplo disto, a diminuição da eficiência do sa-
pulações residentes, bloqueando estas, ou não, ao neamento básico durante o período de alta tempora-
desfrute conjunto dos usufrutos gerados pelo turismo da, pelo maior número de usuários, pode gerar a con-
em suas praias e apreço pelo local (UNEP, 2009). Isto taminação do solo e água, resultando em um alto risco
requer uma gestão de recursos adequada a modo de a saúde humana e a integridade ambiental, que por
minimizar os impactos gerados pelas atividades vincu- sua vez pode influenciar negativamente a percepção
ladas a este setor. coletiva sobre a qualidade desta praia turística (Roca
et al., 2009).

55
O q ue f azer ? As certificações de qualidade de praias, am-

BOX 3
bientais ou turísticas, são ferramentas relativa-
A nível global, ainda pode ser notada a tendência da
mente modernas, que podem ser considera-
valorização ambiental das praias (Roca et al., 2009;
das também como ferramentas de gestão de
Lozoya et al., 2014). Desta forma, torna-se imprescin-
praias. Foi em meados da década de 1980, na
dível a implementação de ferramentas de gestão que
França que se criou a primeira certificação de praias
proporcionem ações que garantam as condições ide-
do mundo, chamada de Bandeira Azul.
ais de qualidade neste ambiente costeiro (Figura 21).
Algumas alternativas como gestão estratégica, plane-
As certificações de praias são esquemas que procu-
jamento participativo e fixação de critérios de certifica-
ram avaliar as características de uma praia em parti-
ção ambiental, objetivam prover de maneira otimizada,
cular, geralmente turística, através do cumprimento de
parâmetros de qualidade de água, cobertura de segu-
critérios mensuráveis. Estes esquemas são promovi-
rança, educação, acesso, qualidade da areia, informa-
dos como uma metodologia para a gestão de praias
ções e equipamentos, assim como práticas de uso e
pelas organizações que fornecem as certificações e
ocupação do solo (Williams & Micallef, 2009; Zielinski
pelas autoridades locais que as solicitam (FEE, 2006).
& Botero, 2012).
São denominados esquemas de certificação de praias
(ECP) (Beach Certification Schemes) todos os progra-
Atualmente, para o tema de gestão de praias, alguns
mas e iniciativas que buscam o reconhecimento públi-
pesquisadores têm dedicado devidos esforços para o
co de uma ou várias praias turísticas. Segundo Botero
desenvolvimento de ferramentas que permitam gerir a
(2013), um esquema de certificação de praias é um
praia adequadamente, considerando os impactos ge-
conjunto de elementos administrativos e operacionais,
rados pela indústria do turismo.
que através de um processo de avaliação sistemáti-
ca de requisitos pré-estabelecidos, avaliam a melhoria
Ferramentas como o Sistema de Informação Geográ-
contínua das condições holísticas da praia e reconhe-
fica (SIG), uma rede de monitoramento de qualidade
cem publicamente a sua efetiva gestão. Esta defini-
ambiental ou a avaliação da percepção dos usuários,
ção, portanto, concentra-se na avaliação contínua dos
geram informações úteis e valiosas, dado que seus
aspectos de conformidade (requisitos predefinidos) e
resultados serão utilizados como insumos de gestão
a existência de um quadro de gestão que vai além do
para uma praia em particular. Porém, apesar de serem
simples processo de auditoria.
uma fonte geradora de informação, as ferramentas de
gestão de praias, propriamente ditas, não tem função
Quanto às características mais comuns aos ECPs, Zie-
de gerar informação que apoie a gestão, e sim fazer
linski e Botero (2012) estabelecem as quatro seguintes:
gestão em si mesma, por isso sua menção de gestão.
Como exemplos destas ferramentas é possível citar: a
a. Aplicação voluntária;
capacidade de carga turística, o zoneamento bidimen-
b. Outorga de selo (logotipo);
sional de praias, a classificação das tipologias praias e
c. Fomento ao cumprimento da legislação e;
os esquemas de certificação de praias.
d. Avaliação por meio de terceira parte
independentes em forma de auditorias.

É possível dizer que os ECPs são uma das respostas


que a sociedade gerou frente ao crescimento vertigi-
noso que o turismo vem tendo desde os anos cinquen-
ta e sessenta. A partir dessa massificação do turismo
os destinos turísticos necessitaram diferenciarem-se
quando à qualidade de seus atrativos, e desta forma
cuidar melhor dos aspectos que lhes tornam um des-
tino procurado pela sociedade. Também por parte do

56 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


desenvolvimento da sociedade civil com maior preo- certificações de praias atuantes, estas estão disper-
cupação pelo cuidado ambiental e a exigência de pro- sas em todos os continentes do globo e especialmen-
dutos e serviços de qualidade por parte dos consumi- te concentradas no continente Europeu, na Austrália
dores, propiciou a aparição desses esquemas. e na América do Norte. Entretanto, no contexto Lati-
noamericano, existem nove programas de certificação
Em outras palavras as certificações têm o objetivo de praias (Figura 21), incluindo a Bandeira Azul, que
de estabelecer a qualidade da praia, para Williams e inclusive, é o programa que atualmente atua no Brasil
Micallef (2009), esta qualidade é definida pela habi- (Castro et al., 2012).
lidade de promover altos níveis de segurança, quali-
dade ambiental, equipamentos e serviços, paisagem As certificações, fazem parte então, do processo de
e limpeza do espaço praial. Contudo, cada esquema gestão costeira e/ou ambiental. Desta forma, a im-
de certificação de praia tem seus próprios requisitos plantação da certificação pode ser oriunda tanto da
pré-estabelecidos para garantir um nível de qualidade iniciativa pública quanto da privada. Esta última pode
ótimo para o visitante da praia, assim como para o ser representada por clubes de praias, restaurantes,
ambiente natural e a cultura local. No mundo hoje exis- quiosques, e estabelecimentos comerciais no geral
tem aproximadamente mais de 24 diferentes tipos de que estejam abertos à se adaptarem a algumas medi-
das que trarão benefícios.
Insti tuto C ol omb i a no
d e Nor ma s
Técni ca s y
In s t i t u t o M e x i c an o C er ti f i ca ci ón
de N orm a l i z ac i ó n y NTS-TS-0 0 1 -2
Cer t i f i c a c i ó n
MNX-A A - 1 2 0 -
SC F I - 2 0 0 6 Ministerio de Ciencia,
Tecno lo g ía y Medio
A mbiente
PLAYA AM BIEN TAL

Fo unda ti on f or
E nviron me n ta l
E ducati on -
BAN D ER A A ZU L

I n s t i t uto
C o s t a r r i c e n se
de Acueductos y
A l c a n t ar i l l ad os
B A N D E R A A Z UL
E C O L Ó G I CA

C e r t i f i c a ç ão Tu r í s t i c a
d e P r ai a – E q u a d or
INEN 2631 – F i g u r a 2 1 : C er t i fi cação
E C O P L AYA S de pr a i a s n a Amér i ca
L a t i n a . F o n te: Zi el i n s k i
& Bot ero , 2 0 1 2 .

Or ga ni z a ci ón
Ecol ógi ca Pl a y a s
Per ua na s
E CO PL AYAS

Insti tuto Ar genti no Ministerio de


d e Nor ma l i z a ci ón y Turismo
C er ti f i ca ci ón PLAYA N ATU R A L
I R AM 4 2 .1 0 0

57
A aplicabilidade do planejamento e gestão para o tu- O emprego efetivo de ações de gestão estratégica
rismo de Sol e Praia busca acompanhar e monitorar os pode gerar um grande poder de circulação de capi-
fluxos de visitantes e seu destino, por meio da defini- tal associada a conservação dos atributos ambientais.
ção de diretrizes, políticas e estratégias comuns para Fato este, que possibilita o desenvolvimento econômi-
lidar com os problemas, também comuns a todos que, co gerado propiciado a partir da geração de emprego
de alguma maneira, estão vinculados ao ambiente e renda, associada à manutenção da integridade do
praial. De forma a alcançar expectativas ótimas para ecossistema local, que implica na melhoria e manuten-
a utilização deste espaço de maneira ecologicamen- ção da qualidade de vida, e consequente valorização
te sustentável e economicamente viável (UNEP, 2009; do território.
Peral et al., 2010). Neste sentido, torna-se de extrema
importância o trabalho integrado dos setores públi-

F i g u r a 2 2 : F o t o s das
cos, privados e sociedade civil organizada, no esta- p r a i a s a m bi en t al men t e
c e r ti fi cadas de
belecimento de parcerias como parte essencial para Ba rc e l o n a , Es pan h a.
o posicionamento dos distintos locais a uma posição F on t e: Br i an a
Bo mban a.
competitiva dentro do mercado turístico (Iñiguez et al.,
2007).

Entretanto, não há regra básica para a elaboração


Por conseguinte, para a realização de um planejamen-
deste planejamento. Tornando-se, por assim dizer,
to ou gestão em uma praia turística, torna-se funda-
necessária a consideração das particularidades so-
mental a elaboração de processos que articulem infor-
ciais e ambientais, que as praias estão inseridas, na
mações e estratégias almejadas por todos, dentro da
tentativa de identificar os principais vetores de de-
área de abrangência de cada localidade, tanto em sua
senvolvimento a nível local, dos quais possibilitam às
estrutura como em sua funcionalidade, trabalhando de
gerações futuras os mesmos benefícios e qualidade
forma integrada, do regional ao local, identificando os
natural, desprendidos do desfrute atual.
pontos críticos a serem superados e os desafios a se-
rem vencidos.

58 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


BA RCEL ONA
P L A Y A

59
P R A I A S
PRINCÍPIOS E DIRETRIZES PARA GESTÃO

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64 P R A I A S | P R I NCÍ PI OS E DI R ETR I ZES PAR A GESTÃO


“Os au tore s sã o re spon sá ve is pe la e sc olh a e
ap re s en ta ç ã o dos pon tos de vista c on tidos n e ste
l i v ro e pe la s opin iõe s n e le e xpre ssa s, qu e n ã o
s ão nec e ssa r ia m e n te a s da U N E SC O
e não c om prom e te m a O rga n iz a ç ã o”

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