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01 Estética e Arte

O documento discute o tema da estética e arte. Explica que a estética é o ramo da filosofia que lida com questões de beleza e gosto artístico. Também define arte como uma forma de comunicação sem palavras e discute como a percepção da beleza evoluiu ao longo da história dependendo de fatores culturais e sociais.

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01 Estética e Arte

O documento discute o tema da estética e arte. Explica que a estética é o ramo da filosofia que lida com questões de beleza e gosto artístico. Também define arte como uma forma de comunicação sem palavras e discute como a percepção da beleza evoluiu ao longo da história dependendo de fatores culturais e sociais.

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Estética e História das Artes | Prof.

Bhabi Andrade

#01 Estética e Arte

A palavra “estética” tem origem no termo grego “aisthesis” – que significa percepção; sensação – e
foi usada pela primeira vez no século XVIII, pelo filósofo alemão Alexander Baumgarten. Para ele, a
palavra "estética" (também conhecida como filosofia da arte) refere-se aos princípios que regem a
natureza e a apreciação da beleza, especialmente nas artes visuais. Como estudo acadêmico e teórico, a
estética refere-se ao ramo da filosofia que lida com questões de beleza e gosto artístico.

A estética é, portanto, um ramo da filosofia relacionado à essência e à percepção da beleza e da feiura.


É definida como um ramo da filosofia que lida com a beleza e também como a teoria fundamental que
dá base à filosófica da arte (GOMBRICH, 2015). Em uma análise mais aprofundada, o conceito de
estética deriva dos termos gregos: “aisthesis” (sensação); e “ica” (relativa). Portanto, para os gregos:
“estética” era uma sensação relativa à percepção das coisas. Sua finalidade é mostrar se os objetos são
percebidos de uma maneira particular (o modo estético) ou se eles têm, em si, qualidades específicas
(estéticas).

O primeiro filósofo que tratou em profundidade dessa questão da percepção das coisas, do ponto de
vista estético, foi Platão (em Banquete, República, e Hípias Maior), para quem a arte (“techné”) era
aquela habilidade manual ou intelectual que exigia algum domínio técnico e conhecimento para
produzir algo. Platão divide as artes em duas classes: as artes produtivas de objetos reais – sejam elas
materiais ou naturais (plantar uma árvore, por exemplo) –, e as artes produtivas de imagens ou “eidola”
(uma imagem que existe como ideia). No entanto, o conceito moderno de "estética" foi introduzido em
1753 pelo filósofo alemão Alexander Gottlieb Baumgarten (citado por MODERNO, 2016: 89), que a
definiu como a "filosofia da beleza, aquela ao qual o estudo da essência da arte, e a relação desta com
um observador, adiciona a percepção de beleza e outros valores ".

Como estudo acadêmico e teórico, a estética refere-se ao ramo da filosofia que lida com questões de
beleza e gosto artístico. Seus objetivos são analisar, entender e explicar os seguintes questionamentos:
1. O que é beleza?
2. O que faz algo bonito?
3. O que é arte?
4. Qual é a diferença entre arte boa e arte ruim?
5. Qual é o valor da arte?
6. Quem está qualificado para decidir o que é arte?
7. Qual é a diferença entre arte e (digamos) entretenimento?
01
A arte é considerada uma imitação da realidade e a estética como algo inseparável da produção artística
(incluindo a moralidade e a intencionalidade política). O pensamento estético moderno começou a
tomar forma na Alemanha durante o século XVIII, onde se destacou o filósofo Johann Gottlieb Fichte,
que considerava a beleza como uma virtude moral. Também os filósofos Kant, Hegel, Schopenhauer e
Nietzsche produziram obras que abordam e discutem os conceitos e questões relativas à estética. Para
Hegel, a estética representa a filosofia da arte e deve ser entendida como uma preocupação filosófica,
jamais como uma ciência.

Durante o século XIX, os artistas começaram a questionar as abordagens tradicionais da estética,


segundo as quais a arte é imitação da natureza e as obras de arte são tão úteis quanto bonitas. Assim,
inicia-se o caminho para a arte abstrata, para a arte concreta, uma arte que não é bonita pelo que
representa, mas pelo que é em si mesma. Depois desse objetivo, tenta-se eliminar toda referência à
realidade, não só no que é representado, mas no que acompanha o trabalho: o título, o apoio etc.
Devemos diferenciar, no entanto, o conceito de estética atual da estética ou filosofia da arte, uma vez
que esta última abrange um âmbito muito mais limitado do que a estética em sua abrangência atual
(estética plástica responsável pela modelagem corporal e facial, cirurgia cosmética etc.) limitada a
obras de arte e excluindo a natureza como objeto de estudo.

o que é beleza?
Para os gregos beleza era um sentimento que transmitia harmonia física ou artística, e que inspirava
prazer e admiração. Portanto, essa é uma apreciação subjetiva que não implica necessariamente
equilíbrio simétrico, embora os gregos tivessem algumas regras para alcançar a harmonia em uma obra
de arte. A beleza é a força emocional que um sujeito recebe do objeto que ele aprecia. Essa força
emocional é um estímulo que causa a sensação de prazer naqueles que a apreciam. Prazer ou
complacência são obtidos, em consequência, pela interconexão entre o que se espera e o que se recebe.
Quando as sensações coincidem com o que é esperado, a fruição (prazer) estética é alcançada.

Cada pessoa contém em seu interior um padrão comparativo (repertório) que a interconecta com o que
lhe é oferecido. Em alguns casos, esse esquema comparativo ou padrão vem de tradições culturais e,
em outros casos, é devido à natureza do ser humano. É fácil harmonizar com aqueles que falam
português, ou a mesma língua da pessoa; com alguém que tem a mesma tradição cultural, mas também
é fácil concordar com aqueles que são honestos e naturais. Essas percepções intangíveis também
provocam prazer estético.

Podemos concordar com aqueles que são a favor do mesmo critério político, ou cultural, mas também
podemos fazê-lo com quem é responsavelmente generoso e isso é natural. Na tradição católica da
Gênesis (primeira Bíblia escrita), a beleza é uma arte transmitida pelo anjo Azazel que, após a expulsão
de Eva do Paraíso, “mostrou às mulheres a arte de pintar o contorno das pálpebras com antimônio”
(HEGEL, 2009: 06).

02
No entanto, os critérios da beleza na arte (estética) evoluíram de acordo com crenças, religião, ciência,
moral e até tecnologia, definindo novos parâmetros de beleza em cada época. Desde a antiguidade
clássica há escritos, considerações e dissertações sobre beleza. Naquela época, a beleza era uma
qualidade que fazia com que algo parecesse bonito para nós, isto é, que gostássemos disso.

Na Idade Média, a investigação da beleza costumava ser classificada como um ramo da teologia,
porque se considerava que a beleza era um atributo de Deus. O pensador mais notável foi Santo
Agostinho, que disse que a beleza consiste na unidade e na ordem que surgem da complexidade. Tal
ordem poderia ser, por exemplo, ritmo, simetria ou proporções simples. Estima-se que beleza é aquilo
que agrada aos olhos e aos sentidos e que, portanto, causa emoção e prazer agradáveis; No entanto,
nem tudo que nos causa prazer tem que ser belo, porque que a beleza também tem um grau subjetivo e
depende dos olhos e do repertório do espectador e dos parâmetros da época e do tempo.

Cena do filme Moonrise Kingdom (2012)

Diretor: Wes Anderson

A simetria tem sido considerada como um indicador de beleza humana, assim como, da saúde humana.
E ao lado dela outros elementos, como olhos grandes, pernas longas e juventude. Atualmente,
considera-se que a mídia, a moda, a publicidade e a indústria cinematográfica são as principais
geradoras de conceitos associados à beleza física de homens e mulheres. Filmes e publicidade –
especialmente de origem norte-americana – são aqueles que afirmam que mulheres com um corpo
magro, olheiras, maçãs do rosto salientes, lábios cheios são lindas ou não. E, claro, esses parâmetros
mudam quando é necessário direcionar o consumidor para novas formas estéticas. O oposto da beleza é
a fealdade, que produz desconforto e descontentamento, e gera uma percepção profundamente negativa
do objeto (antiestética).

03
Na arte, a beleza é aquela percepção que está associada a um conjunto de princípios estéticos
intrínsecos a disciplina filosófica da estética ou filosofia da arte. Neste sentido, a beleza é a maior
aspiração artística, que combina a harmonia de formas, impacto expressivo, potencial simbólico e
verdade filosófica dentro dos recursos oferecidos pelas expressões artísticas como a música, a
literatura, a dança, arquitetura, escultura, pintura e cinema, a fim de nos mover, impressionar,
comunicar, fazer refletir, provocar admiração e prazer.

Os seres humanos sempre fizeram arte, desde tempos muito remotos. E eles usaram todo tipo de
materiais disponíveis para fazer arte. De pinturas rupestres e estátuas esculpidas a pinturas a óleo, as
pessoas usavam a arte para transmitir muitas coisas – para marcar grandes eventos, comentar a
passagem do tempo, celebrar e lamentar, ou adornar espaços pessoais de satisfação e sentimento de
pertencimento –. Em uma caverna na Espanha pré-histórica, alguém pintou imagens de animais há
quase 14 mil anos. Nós não sabemos exatamente por que essa pessoa desenhou uma série de búfalos,
mas ela estava expressando (e comunicando) algo sobre sua vida e experiência.

Arte é uma forma de comunicação sem palavras. As pessoas


tendem a se comunicar com palavras, tanto escritas quanto
verbais. Mas às vezes, transmitir ideias é feito de outras
maneiras. Diz o velho ditado "uma imagem vale mais que mil
palavras". Isso porque a arte pode gerar ideias usando um tipo
diferente de vocabulário. Algumas pessoas respondem mais a
imagens visuais do que palavras. Estudiosos e cientistas
fizeram muitos estudos sobre como aprendemos, e hoje
sabemos que diferentes partes do nosso cérebro processam o
que o olho vê de muitas maneiras. Faz sentido que as pessoas
busquem diferentes meios de comunicação, especialmente
quando as palavras não são eficazes; e a arte visual traduz
ideias através de símbolos visuais.

A arte também dá liberdade à imaginação, permitindo que o


Arte rupestre em parede de caverna indivíduo experimente o mundo ao redor de maneiras
no Vale de Vezere
diferentes e, em seguida, registre como ele se sente sobre isso
França sem depender de palavras.

Georges Rouault, pintor expressionista do início do século XX (apud GOMBRICH, 2015: 567)
descreve desta forma o que sentia ao criar e produzir uma pintura: “Para mim, pintar é uma maneira de
esquecer a vida. É um grito na noite, um riso estrangulado. Eu descobri que podia dizer coisas com
cores e formas que eu não podia dizer de outra maneira - coisas para as quais não tinha palavras".
Georges Rouault (1871-1958) foi um pintor expressionista francês que usou a tinta de uma forma
muito emocional. Em muitas de suas obras ricamente coloridas, a tinta é grossa e táctil, o que significa
palpável.

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Segundo ARGAN (2016), observando um quadro de Rouault afirma que podemos vê-lo colocando
seus sentimentos na tela. Desta forma, podemos considerar que a arte é uma forma através da qual o
artista pode expressar suas emoções.

Em vez de refletir estados do mundo externo, a arte é realizada para refletir o estado interior do artista.
E mesmo quando a arte é realizada como retrato de uma representação da existência externa, essa
representação é admitidamente vista através do “temperamento” do artista, da sua sensibilidade, como
parte de uma expressão da sua vida interior (ARGAN, 2016).

Entretanto, a arte não é uma linguagem em si, e cada prática artística (pintura, escultura, videoarte,
gravura, música etc.) é uma forma de expressão que usa diferentes linguagens como intermediação para
que o artista possa comunicar suas ideias. As artes visuais usam a linguagem visual para isso. Elas não
são lineares, e não significam as coisas da mesma maneira que a linguagem verbal pode expressar. O
tipo de comunicação que a arte envolve é de uma ordem diferente da que vemos na linguagem falada
(que pode ser funcional, diretiva, inquisitiva, pragmática e assim por diante).

As práticas das artes visuais usam a linguagem visual na medida em esta favorece a modos de externar
pensamentos capazes de expressar ideias ou conceitos que podem ir além das capacidades e limitações
da linguagem falada. É por isso que achamos que cada um de nós vê coisas “diferentes” em uma obra
de arte em particular. Não é que uma obra de arte visual signifique coisas totalmente diferentes de uma
só vez, mas que lutamos para traduzi-la em outro código (visual) e sempre somos imprecisos em nossas
tentativas. Assim como mesmo na linguagem falada e escrita, não há um significado absoluto e fixo
para qualquer sentença, as artes visuais estão sempre sujeitas à interpretação; e a interpretação acontece
dentro de certos parâmetros, sempre há algo que aponta em uma direção geral de acordo com o
repertório de quem analisa.

a questão do belo
A Aesthesis, como uma dimensão própria do homem, tem despertado, desde a Grécia antiga, interesse
e preocupação no ser por aquilo que, efetivamente, o agrada. Essa disposição ao questionamento do
belo, a busca incessante pela compreensão e delimitação do conceito de beleza move a estética no
transpassar da vida humana como disciplina filosófica, como mera fruição, como criação, como um
ideal ou como uma ruptura.

Para Platão, o belo é o bem, a verdade, a perfeição; existe em si mesma, apartada do mundo sensível,
residindo, portanto, no mundo das idéias. A idéia suprema da beleza pode determinar o que seja mais
ou menos belo. Em O banquete, Platão define o amor como a junção de duas partes que se completam,
constituindo um ser andrógino que, em seu caminhar giratório, perpetua a existência humana.

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Esse ser, que só existe no mundo das idéias platônico, confere à sua natureza e forma uma espécie
peculiar de beleza: a beleza da completude, do todo indissociável, e não uma beleza que simplesmente
imita a natureza. Assim, temos em Platão, uma concepção de belo que se afasta da interferência e da
participação do juízo humano, ou seja, o homem tem uma atuação passiva no que concerne ao conceito
de belo: não está sob sua responsabilidade o julgamento do que é ou não é belo.

A dialética de Platão aponta para duas direções: o mundo das idéias, num plano superior, do
conhecimento, que é, ao mesmo tempo, absoluto e estático; a outra direção segue para o mundo das
coisas, dos humanos. Este, de aparência sensível, é constituído pela imitação de um ideal concebido no
mundo das idéias: portanto, num processo de cópia. Gilles Deleuze aponta para uma terceira
possibilidade que quebra a dicotomia platônica: a cópia fiel e o simulacro, não mais tido como
degenerescência da semelhança ao mundo das idéias, um mero fantasma. Para os gregos, o belo
artístico situava-se no embate entre as boas cópias e o simulacro.
Esses dilemas permearam o fazer artístico por muito tempo, com maior ou menor intensidade, na busca
de uma aura artística ou de um certo grau de superioridade:
Entre as artes, a superior é aquela de um produtor divino, o Demiurgo, que compôs o universo imitando
as idéias verdadeiras e as formas imutáveis. Seguindo o Demiurgo, o legislador também concebe a
comunidade humana de acordo com as Idéias do Bem, da Justiça e da Verdade. Em terceiro lugar na
hierarquia, estão os poetas e os artistas que também visam aos ideais, mas, diferentemente do
Demiurgo, eles podem falhar no conhecimento da realidade última, produzindo meras aparências da
natureza sensível. Quando o artista (…) é guiado pela visão da educação que o filósofo possui, sua
imitação será verdadeira (eikastika), em oposição à falsa imitação (fantastika) (Lima, 1973:15)

Já Aristóteles, diferentemente de Platão, acredita que o belo seja inerente ao homem, afinal, a arte é
uma criação particularmente humana e, como tal, não pode estar num mundo apartado daquilo que é
sensível ao homem. A beleza de uma obra de arte é assim atribuída por critérios tais como proposição,
simetria e ordenação, tudo em sua justa medida.

Posteriormente, a autoridade eclesiástica da Idade Média introduz na concepção do belo a identificação


direta com Deus, como um ser único e supremo a serviço do Bem e da Verdade. Tanto Santo
Agostinho quanto São Tomás de Aquino identificam a beleza com o Bem, ademais da igualdade, do
numero, da proporção e da ordem: estes atributos nada mais são do que reflexos da própria beleza de
Deus. A finais da era medieval, a autoridade eclesiástica rejeita a autoridade científica que se faz
presente e notória, exatamente por esta se distanciar da associação dos fenômenos às vontades divinas.
Assim, na Renascença, o artista passa para uma dimensão maior, não de mero imitador, nem de um
serviçal de Deus, mas de um criador absoluto, cujo potencial genial faz surgir uma arte de apreciação,
de fruição. Aristóteles é interpretado de maneira normativa. Seu conceito de arte enquanto mimese e a
classificação dos três gêneros literários – épico, lírico e dramático, gêneros estes imiscíveis e imutáveis
– passam a ser normas de conduta criativa dos artistas de transição. Assim sendo, regras e padrões
fixos são estabelecidas para nortear a produção da obra de arte, bem como sua apreciação, mesmo
estando a arte a serviço da Igreja.
06
A difusão das academias ao longo do século XVII prima pela preservação dessas releituras
renascentistas dos preceitos aristotélicos, num liame objetivo da conceituação do belo, em busca de um
juízo universal, de uma verdade absoluta e inexorável.

No século XVIII, em virtude da enorme ebulição em que se encontram as sociedades européias –


Revolução Industrial, Revolução Francesa, os reflexos da independência americana – pululam novas
idéias (nem sempre tão novas assim) que fazem emergir a necessidade de uma estética posta em prática
para atender aos anseios e às necessidades ideológicas da burguesia ascendente bem como ao império
napoleônico. A adoção de padrões neoclássicos, reforçados na certeza cartesiana do conhecimento
justificado por sua própria existência[1] coaduna-se paradoxalmente a aceitação da clareza e da
distinção – conceitos ambos subjetivos – como constituinte do critério de verdade.

De certa forma, esse paradoxo é resolvido por Hume, cuja filosofia empírica que, apesar de resultar
num ceticismo paradoxalmente aceitável e refutável ao mesmo tempo, trouxe à tona das discussões o
subjetivismo para solucionar celeumas e querelas em torno da questão do gosto. E não se trata de um
subjetivismo desmedido, visto que há que se considerar critérios adotados pelo bom senso, obtido pela
prática do “discernimento da beleza”: Quem nunca teve a oportunidade de comparar os diversos tipos
de beleza, indubitavelmente se encontra completamente incapacitado de dar opinião a respeito de
qualquer objeto que lhe seja apresentado. Só através da comparação podemos determinar os epítetos da
aprovação ou da censura, aprendendo a discernir sobre o devido grau de cada um. (Hume, 1989:266)

O subjetivismo humeano – o que permite o julgamento pessoal e individual do belo, bem como uma
visão romântica do mundo, especialmente na transição entre os séculos XVIII e XIX – não chegou a
extremos, fato que seria considerado, na visão de Bertrand Russell (1967:8), uma “forma de loucura”.
Outrossim, Hume defendia a adoção de critérios por parte do crítico de arte, para que este não se
deixasse enganar por “qualidades grosseiras” do objeto. Para o filósofo ceticista, o objeto, por si só,
não contém peculiaridades de sua constituição material que façam dele algo belo ou não.

É conveniente observar, contudo, que os estudos da estética não se prestam apenas ao universo das
grandes artes acadêmicas ou aos interesses especializados dos críticos, mas também à percepção do
belo na prática da vida cotidiana. Esse pensamento se deu graças aos estudos críticos de Immanuel
Kant, na sua Crítica da Faculdade do Juízo (1790). Para Kant, a estética é um estado de vida de direito
próprio, uma capacidade de fruição intimamente relacionada a outras capacidades cognitivas do ser
humano, sem depender, necessariamente, da aquisição de conhecimento, ou seja: para contemplar o
belo, o sujeito não se vale das determinações das capacidades cognitivas das faculdades do
conhecimento. Na percepção do objeto, o sujeito abarca a plenitude de suas características e não as
características isoladas. A contemplação estética não requer intelecção tal como a contemplação
teórica, com fins de conceituação e/ou classificação do objeto, importando, apenas, nessa
contemplação, a percepção do objeto. Isso não quer dizer, porém, que se trata de uma percepção
meramente subjetiva.

07
Tal percepção dos fenômenos dá-se de uma maneira especial, podendo ser confirmada, sim,
intersubjetivamente. De maneira divergente, segundo Kant, os juízos estéticos seriam impossíveis.
Entretanto, convém lembrar que a observação da manifestação estética só pode ser apreendida por
aqueles que tiverem, a priori, recursos sensoriais e cognitivos, além de estarem dispostos a praticar o
exercício da atenção a ser dirigida à presença sensitiva de um determinado objeto.

Sintetizando a teoria do juízo estético kantiana, observamos que o filósofo prussiano chega a um
conceito mínimo da percepção estética, pois, para todos os objetos, independentemente de serem eles
obras de arte, ou objetos oriundos da natureza, ou objetos da vida cotidiana pública ou privada, estes
possuem, minimamente, algum aspecto que se manifesta a partir da atenção que se dá a esta
manifestação. Conceitos tais como objeto estético e percepção estética são, nesse sentido,
indissociáveis.

Muito embora essa associação possa dar a ilusão de que o sujeito fique, de certo modo “preso” ao
objeto por conta de sua capacidade perceptiva, Kant esclarece que, por meio da percepção estética, o
sujeito se liberta das imposições do conhecimento conceitual. Essa liberdade nos permite, segundo
Martin Seel, “experimentar a determinabilidade de nós mesmos no mundo” e ainda completa:
Kant vê na experiência do belo (e mais ainda do sublime) a realização das capacidades mais elevadas
do ser humano. A riqueza do real admitida na contemplação estética é experimentada como afirmação
prazerosa de sua ampla determinabilidade por nós. (Seel, 2004)

Já para Hegel, a dificuldade de se estudar a Estética é o fato de


seu objeto – o belo – ser de ordem espiritual (Hegel, 1988:4),
pois o belo não é um objeto de existência material, mas de
existência subjetiva, inerente à atividade espiritual de cada
indivíduo. Contudo, esse fato não chega a ser comprometedor
para a compreensão do fenômeno estético, porque o
“verdadeiro conteúdo do belo não é senão o espírito”
(1988:73). No centro do espírito está a verdade divina, está
Deus: “Deus é o ideal, que está no centro.” (idem, p. 74). Hegel
toma a arquitetura como a “primeira realização de arte” e, para
atender a Deus, tem grande responsabilidade de, a partir de
matéria inorgânica, promover transformações que a aproximem
do espírito. Destarte, Hegel traça a missão da arquitetura a
primeira arte a se aproximar de Deus, por meio do espírito de
quem a cria e quem a utiliza: A arquitetura mais não faz do que
rasgar o caminho para a realidade adequada de Deus e cumpre
Madonna with the Long Neck
a sua missão trabalhando a natureza objetiva e procurando
Parmigianino

08
arrancá-la aos matagais exteriores, para que eles deixem de ser exteriores, para que o mostrem, fiquem
aptos a exprimi-lo, capazes e dignos de o receber. Arranja o lugar para as reuniões íntimas constrói um
abrigo para os membros destas reuniões, uma proteção contra a tempestade que ameaça, contra a chuva
e as intempéries, contra as feras. Exterioriza, dando-lhe uma forma concreta e visível, o comum querer-
ser. Esse é o seu destino, esse é o conteúdo que lhe cumpre realizar. (id. ibidem).

Por conta de tais considerações, é possível notar que Hegel e sua fenomenologia vêm ao encontro dos
anseios do romantismo alemão – chegando, por vezes, até mesmo a se identificar com o naturalismo de
Schelling. Isso implica dizer que, no âmago das questões das relações entre espírito e divindade está a
fundamentação epistêmica da modernidade, fato este que merece um estudo mais aprofundado.

Cúpula da Catedral de Florença

Duomo de Florença

Quando o Feio surge na Arte, é um


meio de… nos fazer captar de modo
intuitivo, o sentido da vida.”

09
vale a leitura
ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: Uma psicologia da visão criadora. São Paulo,
Cengage, 2016.

DONDIS, A. Donis. Sintaxe da Linguagem Visual. São Paulo, Martins Fontes, 2015.

GOMBRICH, Ernest H. A História da Arte. São Paulo, LTC, 2015.

HEGUEL, G. W. F. O Belo na Arte. São Paulo, Martins Fontes, 2009.

MODERNO, João Ricardo. Estética e Imaginação Criadora. São Paulo, Forense Universitária,
2016.

PEIRCE, Charles S. Peirce. Semiótica. São Paulo, Perspectiva, 2015.


SANTAELLA, Lúcia e NOTH, Winfried. Introdução à Semiótica. São Paulo, Paulus, 2016.

KRAUSS, Rosalind. Os Papeis de Picaso. São Paulo, Iluminuras, 2006.


BORDENAVE, Juan Enrique Diaz. Além dos Meios e Mensagens. São Paulo, Vozes, 2009.

CHISHOLM, Hugh. The Encyclopedia Britannica, Vol. 1: A Dictionary of Arts, Sciences,


Literature and General Information; A to Androphagi, Forgotten Books, 2018.

ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo, Companhia das Letras, 2016.

10

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