Curso de Engenharia Elétrica
Máquinas Elétricas
Elementos Básicos
Prof. Luiz Bizerra de Aguiar
Fevereiro 2015
0
APRESENTAÇÃO
Este texto apresenta os elementos básicos sobre Máquinas Elétricas, com
foco nos princípios que fundamentam os seus funcionamentos, necessários aos
estudos posteriores relativos às suas Aplicações e Acionamentos, assim como nos
Sistemas Elétricos de Potência. Eles ampliam os conhecimentos já adquiridos em
outras disciplinas, principalmente de Conversão de Energia.
Aqui são vistos os conhecimentos essenciais à análise das máquinas elétricas
rotativas de corrente alternada e de corrente contínua, sejam geradores ou motores,
em condições de regime permanente, que servem também de suporte para os
estudos em regime dinâmico e transitório.
Dessa forma, são vistos resumidamente os elementos que tratam da
conversão eletromecânica de energia, como introdução geral ao estudo das
máquinas elétricas, que servem como preparação aos estudos detalhados
subsequentes para cada tipo de máquinas.
Trata-se, portanto, de um texto básico orientativo para os alunos da disciplina
Máquinas Elétricas, em carater introdutório, que deve ser complementado com
resoluções de exercícios, discussões em sala de aula e consultas às referências
indicadas.
Prof. Luiz Bizerra de Aguiar
1
INDICE
1. INTRODUÇÃO GERAL ÀS MÁQUINAS ELÉTRICAS..........................3
2. MÁQUINAS SÍNCRONAS....................................................................41
3. MÁQUINAS DE INDUÇÃO...................................................................71
4. MÁQUINAS DE CORRENTE CONTÍNUA...........................................90
REFERÊNCIAS........................................................................................109
2
1 - INTRODUÇÃO GERAL ÀS MÁQUINAS ELÉTRICAS
Nesta apresentação é feita inicialmente uma introdução às máquinas elétricas
rotativas, com uma visão dos princípios gerais e elementos comuns aos diferentes
tipos de máquinas. Pressupõe-se conhecidos os aspectos básicos decorrentes do
eletromagnetismo e da conversão eletromecânica de energia, assim como os
princípios gerais e preliminares sobre as máquinas.
Em seguida, são apresentados os estudos específicos de cada tipo de
máquinas, geradores ou motores, de corrente alternada e de corrente contínua, em
regime permanente, cujo conhecimento é essencial aos estudos posteriores das
aplicações e acionamentos das máquinas e suas funções nos sistemas de potência.
1.1 - ASPECTOS PRELIMINARES
As máquinas elétricas rotativas podem ser dos tipos: máquinas de corrente
alternada (CA) e máquinas de corrente contínua (CC), em função de a tensão
principal utilizada ser alternada ou contínua. Essas máquinas podem ser geradores
ou motores, em função do tipo da conversão de energia processada.
Os geradores convertem energia mecânica em energia elétrica; são os
geradores que fornecem a energia elétrica às cargas das instalações elétricas em
geral. Os motores convertem energia elétrica em energia mecânica para as diversas
aplicações que envolvem acionamentos.
Nos geradores de corrente alternada a tensão obtida, que é a tensão
principal, é alternada. Nos geradores de corrente contínua a tensão obtida, a
principal, é contínua. Nos motores de corrente alternada a tensão aplicada, que é a
tensão principal, é alternada e nos motores de corrente contínua a tensão aplicada,
a principal, é contínua.
As máquinas de corrente alternada podem ser síncronas e assíncronas. As
máquinas síncronas, geradores ou motores, são as que apresentam uma relação
direta, fixa, entre a velocidade de rotação e a frequência da tensão principal. As
máquinas assíncronas, ou de indução, geradores ou motores, apresentam uma
relação direta, não fixa, entre a velocidade de rotação e a frequência da tensão, e
3
apresenta um escorregamento, resultando em velocidades de rotação diferentes da
síncrona, para determinada frequência da tensão.
As máquinas de corrente alternada podem ser, em geral, monofásicas ou
trifásicas, em função da tensão principal, gerada nos geradores ou aplicada nos
motores, serem monofásicas ou trifásicas.
A Figura 1.1 mostra um esquema de uma usina hidroelétrica com indicação
do gerador acionado pela turbina, assim como da transformação da tensão induzida
para a transmissão da energia gerada.
Figura 1.1 - Esquema de usina hidroelétrica com indicação do gerador e turbina
A Figura 1.2 mostra uma imagem de um gerador de eixo horizontal, com
indicação da unidade de potência hidráulica, que contem a turbina, o servomotor
para controle da velocidade, o acoplamento do rotor e a excitatriz para alimentar o
campo no rotor.
Figura 1.2 - Gerador de eixo horizontal
4
A Figura 1.3 mostra, como exemplos, imagens de motores: síncrono, de
indução e de corrente contínua.
Figura 1.3 - Exemplos de motores
Nas máquinas elétricas rotativas podem-se distinguir, de forma global, duas
partes básicas: uma fixa, o estator, e outra móvel ou girante, o rotor. Essas partes,
por sua vez, são constituídas de partes componentes, como bobinas ou
enrolamentos, anéis, escovas, terminais, diferenciadas dependendo do tipo de
máquina. A parte externa da máquina é a carcaça.
A Figura 1.4 mostra uma imagem esquemática de uma máquina elétrica
apresentando em separado o rotor e o estator e suas partes componentes.
Figura 1.4 - Esquemca de uma máquina elétrica com rotor e o estator separados
O estator e o rotor são formados de material ferromagnético, nos quais são
colocados circuitos elétricos, constituindo-se nos enrolamentos do estator e
enrolamentos do rotor. Em geral, os enrolamentos são alojados em sulcos ou
ranhuras existentes na periferia do núcleo de ferro laminado, mas apresentam
diferenças nas máquinas cujos campos sejam produzidos por imãs permanentes.
5
A Figura 1.5 mostra um estator de um grande gerador síncrono.
Figura 1.5 – Estator de um grande gerador
A Figura 1.6 mostra o rotor cilíndrico de um grande gerador síncrono de 2
polos.
Figura 1.6 - Rotor cilíndrico de um gerador síncrono
Observa-se que a máquina de corrente alternada é um dispositivo ou
equipamento reversível, ou seja, a mesma máquina pode funcionar basicamente
como gerador ou motor, dependendo de como são as entradas aplicadas e as
saídas resultantes. As diferenças entre os geradores e os motores dependem dos
detalhes dos projetos específicos.
A máquina de corrente contínua é, também, um dispositivo ou equipamento
reversível, ou seja, a mesma máquina pode funcionar basicamente com a função de
6
gerador ou de motor, dependendo de como são as entradas aplicadas e as saídas
resultantes.
Em muitas situações a reversibilidade não faz sentido, notadamente quando
se trata de grandes geradores de energia elétrica que só podem funcionar
efetivamente com geradores.
1.2 - EFEITOS ELÉTRICOS E MECÂNICOS
Em ambos os enrolamentos, no estator e no rotor, a presença das correntes
elétricas estabelece campos magnéticos na estrutura magnética, cujos campos no
estator e no rotor apresentam a tendência de ficarem alinhados, resultando em
torques, ou conjugados, associados ao giro do rotor.
Inversamente, a ação mecânica do movimento no rotor, associada à presença
dos campos magnéticos do rotor e do estator, provoca o aparecimento de tensões
induzidas.
Nos geradores o movimento de rotação do rotor, onde está o campo
magnético, provoca no estator o aparecimento de uma força eletromotriz (fem), ou
tensão induzida. As tensões induzidas são determinadas a partir dos campos
magnéticos variáveis no tempo, utilizando-se da lei de Faraday sobre a variação do
fluxo concatenado com o tempo. A conversão de energia resulta da variação do
fluxo concatenado em função do movimento mecânico.
Nos motores a aplicação de uma tensão ao circuito do estator provoca o
movimento de rotação do rotor, em decorrência dos torques resultantes dos fluxos
magnéticos, no estator e no rotor.
Eletricamente podem ser também utilizados termos como indutor e induzido
para representar a causa e o efeito, em um gerador ou em um motor,
respectivamente.
Normalmente para os geradores CA o indutor está no enrolamento do rotor,
que é também o campo ou a excitação, e o induzido está no enrolamento do estator,
onde a tensão é induzida, ou produzida, com o movimento do rotor. No caso dos
motores CA, o indutor é o enrolamento do estator, onde é aplicada a tensão,
provocando no rotor, o induzido, uma tensão induzida, como também torque e
rotação.
7
A Figura 1.7 mostra esquemas básicos para geradores e motores, que podem
ser tanto para corrente alternada como contínua.
Figura 1.7 - Esquemas básicos para geradores e motores
A armadura é a parte da máquina onde está a tensão principal, ou ativa, e o
campo, ou excitação, é onde fica a corrente que gera o campo primário da máquina.
Geralmente nas máquinas de corrente alternada a armadura fica no estator e nas de
corrente contínua fica no rotor.
A excitação nas máquinas de corrente alternada fica no rotor, no caso de ser
síncrona, seja gerador ou motor. Sendo máquina de indução não há excitação
própria no rotor para produzir campo primário; o campo no rotor é estabelecido pela
corrente induzida no seu enrolamento curtocircuitado. A excitação nas máquinas de
corrente contínua fica no estator.
Na conversão de energia observa-se o princípio de conservação de energia,
com a energia mecânica, a energia elétrica e a energia magnética, envolvendo as
variáveis de cada um desses sistemas:
Sistema elétrico: tensão e corrente; potência e energia elétrica;
Sistema mecânico: velocidade e força ou velocidade angular e torque;
potência e energia mecânica;
Sistema magnético: força magnetomotriz e fluxo magnético; potênca e
energia magnética.
Todas as máquinas elétricas são baseadas nas ações de dois campos
magnéticos colocados em posições convenientes. Um condutor percorrido por
corrente dentro de um campo magnético, de um ímã ou de eletroímã, sofre a ação
do campo.
8
As relações entre as variáveis elétricas, mecânicas e magnéticas nas
máquinas elétricas, embora sejam bastante complexas, podem ser apresentadas
sob formas simplificadas, muito simples, o que facilita o estudo dessas máquinas.
Normalmente são utilizadas as seguintes unidades básicas:
- Elétricas: tensão v ou e (também V ou E) – Volt (V) e corrente i (também I) -
Ampère (A);
- Mecânicas: velocidade u – metro por segundo (m/s) ou velocidade angular ω
– radiano por segundo (rad/s) e força f - Newton (N) ou torque T = f.r – Newton.
metro (N.m),);
- Magnéticas: força magnetomotriz F – Ampè[Link] (A.e) e fluxo magnético
ϕ - Weber (Wb); ou ainda intensidade do campo magnético H – Ampé[Link]/metro
(A.e/m) e indução magnética (densidade de fluxo magnético) B – Weber/m2 (Wb/m2).
Considerando um condutor de comprimento L (m), dentro de um campo
magnético de indução B, sendo percorrido por uma corrente elétrica i, ele tende a se
deslocar sob a ação de uma força f, que se origina da reação entre os campos B e o
produzido pela corrente i, ou por um torque T, se colocado de forma a poder girar
com um raio r (m). Dessa forma, resulta também a presença de uma tensão no
circuito do condutor em função do movimento.
Admitindo-se que o campo magnético de indução B é perpendicular ao
condutor L, a força f e o torque T, resultantes da passagem da corrente i, são
determinados de maneira simples pelas expressões:
Inversamente, a corrente pode ser determinada pela ação da força ou do
torque através dessas mesmas expressões.
Por outro lado, aplicando-se uma força ou um torque no condutor dentro do
campo magnético, produzindo uma velocidade u ou velocidade angular ω nesse
condutor, tem-se a tensão induzida e, dada pelas expressões simples:
Inversamente, a velocidade e a velocidade angular podem ser determinadas a
partir da tensão aplicada através dessas expressões.
9
* * *
Exemplo:
Considerando uma estrutura magnética formando um campo num espaço em
que é colocado um condutor que pode girar dentro dele, com os seguintes dados:
B=1,5 Wb/m2, L = 2 m e r = 0,3 m pode-se verificar, como exemplo:
a) Para i = 20 A, tem-se f = 60 N e T = 18 N.m. Inversamente, para resultar T
= 36 N.m seria necessário i = 40 A:
b) Para ω = 200 rd/s tem-se e = 180 V. Inversamente, para resultar e = 90 V
seria necessário ω = 100 rd/s.
* * *
Das expressões que relacionam forças ou torques com a corrente e tensão
com velocidade ou velocidade angular resultam as seguintes relações entre as
variáveis elétricas e mecânicas:
Essas expressões indicam a proporcionalidade entre forças e correntes com
tensões e velocidades, e entre torques e correntes com tensões e velocidades
angulares, assim como a igualdade entre as potências elétricas e mecânicas, de
translação ou de rotação.
Na conversão rotacional a determinação do torque no campo magnético de
um sistema de excitação única Tc, assim como da energia, pode ser feita a partir da
corrente i e do fluxo concatenado λ, para uma variação no ângulo de rotação θ,
através da expressão da variação da energia no campo magnético Wc:
A corrente i e o torque Tc, são dados por:
10
Daí resulta para o torque Tc e a energia Wc que:
Ou seja, o torque no campo magnético é diretamente proporcional ao
quadrado do fluxo concatenado λ, à derivada da indutância L(θ) em relação a θ
dividida por 2, e inversamente proporcional à indutância. A energia é diretamente
proporcional ao quadrado do fluxo concatenado e à indutância, dividida por 2.
1.3 - INFLUÊNCIA DOS POLOS
Todas as máquinas elétricas rotativas possuem polos para melhor orientar os
campos magnéticos. Os polos podem ser no estator ou no rotor, configurados de
formas diferenciadas dependendo do tipo de máquina. Esses polos exercem
influência no torque e na velocidade de rotação das máquinas. Os enrolamentos
estão localizados no rotor e no estator, normalmente em volta dos polos, ficando em
ranhuras ou sulcos, de forma concentrada ou distribuída.
As máquinas de corrente alternada apresentam uma relação direta entre a
frequência da tensão elétrica e a sua velocidade de rotação. As máquinas síncronas
possuem uma velocidade de rotação fixa, que está relacionada, de uma forma
rígida, com a frequência.
Nas máquinas assíncronas, ou de indução, a velocidade de rotação,
apresenta um escorregamento, e gira a uma velocidade abaixo da síncrona, se for
motor, ou acima da síncrona no caso de ser gerador.
Os rotores apresentam seus enrolamentos em formas diferentes, dependendo
do tipo de máquina, sendo em forma cilíndrica, ou de polos lisos, e em forma não
cilíndrica, ou de polos salientes.
Sendo f a frequência em hertz (Hz), ou ciclos por segundos, n a velocidade
angular, em rotações por segundo, e q o número de pares de polos da máquina,
tem-se a relação bastante simples dada pela equação:
11
Normalmente essa relação é expressa em termos de n rotações por minutos
(rpm) e o número de polos p (p = 2q), conforme segue:
Como o número de polos p é constante para uma determinada máquina,
verifica-se que a velocidade de rotação n depende diretamente da frequência f da
tensão de alimentação sendo, portanto, a rotação síncrona n = ns, característica das
máquinas síncronas. Em correspondência tem-se velocidades angulares ω em rad/s.
Para as máquinas assíncronas define-se o escorregamento s a partir da
rotação da máquina n e da rotação síncrona ns como referência, da seguinte forma:
* * *
Exemplo:
Para a rede elétrica em que a frequência é f = 60 Hz, se um gerador síncrono
tem 2 polos (p = 2), tem-se que essa máquina deve girar com n = ns = 3600 rpm para
manter aquela frequência. Inversamente, sendo a rotação da máquina n = 3600 rpm,
obtem-se a frequência da tensão f = 60 Hz.
Sendo a velocidade síncrona ns = 3600 rpm, um motor com uma velocidade
de n = 3528 rpm apresenta um escorregamento s = 0,02 ou 2 %. No caso da
velocidade ser n = 3672 rpm o escorregamento seria s = - 0,02 ou -2%
(escorregamento negativo) sendo, portanto, gerador.
* * *
1.4 - SISTEMAS DE EXCITAÇÃO
A excitação de uma máquina é o circuito com a tensão ou corrente aplicadas
nos enrolamentos, do estator ou do rotor, dependendo do tipo de máquina, para
produzir campos magnéticos primários que se interagem nos movimentos com os
outros campos secundários ou de reação. A fonte para essa excitação é a excitatriz,
normalmente externa à máquina, que alimenta os campos em determinados
contatos através de escovas.
12
As máquinas podem ser de diferentes tipos dependendo da excitação do
enrolamento do campo, através da aplicação de uma corrente, geralmente de
corrente contínua. Podem ser na parte fixa (estator), ou na parte móvel (rotor).
Apresenta funções distintas dependendo se é gerador ou motor. Nos geradores dos
sistemas de energia a excitação é colocada na parte rotativa e é essencial para a
formação dos campos magnéticos responsáveis pela geração de energia.
Em máquinas rotativas, as tensões são geradas nos enrolamentos, ou grupos
de bobinas, pela rotação mecânica desses enrolamentos através do campo
magnético, por rotação mecânica de um campo magnético pelos enrolamentos, ou
por concepção do circuito magnético em que a relutância varie com a rotação do
rotor.
Nos geradores dos sistemas de energia a excitação é colocada na parte
rotativa e é essencial para a formação dos campos magnéticos responsáveis pela
geração e controle da tensão do sistema. As tensões são geradas nos
enrolamentos, ou grupos de bobinas, no estator pela rotação mecânica dos
enrolamentos no rotor, ou do campo magnético, ou por concepção do circuito
magnético de modo a que a relutância varie com a rotação do rotor.
No caso das máquinas de corrente contínua pode-se ter os seguintes tipos de
excitação, dependo do projeto: excitação separada, excitação shunt ou derivação,
excitação série e excitação mista ou composta. Cada um desses tipos tem
aplicações específicas, com vantagens e desvantagens, comparando-se uns com os
outros.
Por quaisquer desses métodos mencionados, o fluxo pelas bobinas são
alterados ciclicamente, e uma tensão variável no tempo é gerada no circuito que não
seja o do campo primário. Um conjunto de bobinas ligados entre si onde a tensão é
gerada ou aplicada é referido como um enrolamento de armadura. Os enrolamentos
estão distribuídos em ranhuras ou sulcos, no rotor e no estator, normalmente em
volta dos polos.
Como gerador de corrente contínua o enrolamento do estator é o
enrolamento de campo, que é excitado por uma fonte de corrente contínua, e no
eixo do rotor impõe-se um torque mecânico. Quando o enrolamento do rotor, que é a
armadura e também o induzido, corta as linhas de força produzidas pelo campo ou
indutor, uma tensão é induzida nele, obedecendo à lei de Faraday.
13
A tensão obtida é alternada, aproximadamente senoidal, que por meio de uma
retificação mecânica, através do comutador, é transformada em tensão
aproximadamente contínua. Com processos de retificação complementar, através de
eletrônica de potência, obtem-se a tensão contínua.
1.5 - MÁQUINAS DE CORRENTE ALTERNADA
As máquinas de corrente alternada são síncronas e assíncronas. Nas
máquinas síncronas o enrolamento do rotor é excitado com corrente contínua na sua
parte estacionária, através de contatos rotativos, e a relaçao entre a frequência da
tensão e a velocidade de rotação é fixa. Nas máquinas assíncronas a tensão é
aplicada no enrolamento do estator, induzindo corrente no enrolamento do rotor com
o movimento do rotor em relação ao estator.
No caso dos geradores síncronos, com a rotação do rotor, as tensões são
induzidas no enrolamento do estator, para fornecer corrente às cargas. Nos motores
síncronos a tensão é aplicada nos enrolamentos do estator e produz a rotação do
rotor. Nessas máquinas síncronas há sincronismo entre a rotação do rotor e
frequência da tensão.
A Figura 1.8 mostra uma vista esquemática de um gerador síncrono
monofásico com apenas um enrolamento no rotor, formando um par de polos, ou
seja, dois polos. Neste caso o rotor não é cilíndrico, apresentando saliências, sendo
o gerador chamado de polos salientes. O estator apresenta também apenas um
enrolamento (a, -a).
Figura 1.8 - Vista esquemática de um gerador síncrono de 2 polos
14
A Figura 1.9 mostra as formas de ondas espaciais da densidade do fluxo
magnético B e da tensão induzida no entreferro e, em uma máquina síncrona
monofásica.
Figura 1.9 - Densidade de fluxo e tensão em uma máquina síncrona.
A Figura 1.10 mostra vista esquemática de um gerador síncrono monofásico
de 4 polos salientes, com indicação dos fluxos e dos enrolamentos. No rotor os
enrolamentos são dispostos para formar polos alternados e não em posições
opostas. No estator os enrolamentos (a1, -a1) e (a2, -a2) ficam conectados em
paralelo.
Figura 1.10 - Vista esquemática de um gerador síncrono monofásico de 4 polos.
A Figura 1.11 mostra a distribuição espacial da densidade de fluxo no
entreferro B de uma máquina síncrona de 4 polos.
Figura 1.11 - Distribuição espacial da densidade de fluxo no entreferro de máquina síncrona
15
Os ângulos mecânico θe e elétrico θae, assim como a frequência elétrica fe em
hertz (Hz), ou em radiano por segundo (rad/s), e rotação mecânica n, em rotações
por minuto (rpm), estão relacionados com o número de polos p através das
expressões:
Resulta daí que (fazendo fe = f):
Observa-se que para p = 2 tem-se θae = θe, isto é, os ângulos elétrico e
mecânico são iguais; para p = 4 tem-se θae = 2θe, isto é, o ângulo elétrico é o dobro
do ângulo mecânico, e assim por diante.
Também, na frequência f = 60 Hz, para p=2 tem-se n = 3600 rpm; para p = 4
tem-se n = 1800 rpm etc.
A Figura 1.12 mostra um esquema dos enrolamentos de campo de um rotor
cilíndrico, formando apenas de 2 polos, com indicação dos fluxos.
Figura 1.12 - Esquema dos enrolamentos de campo de um rotor cilíndrico de 2 polos.
Em geral os geradores são trifásicos, estabelecendo nos terminais de saída
tensões aproximadamente senoidais defasadas de 120 0. A Figura 1.13 mostra
esquemas de geradores trifásicos de 2 polos e de 4 polos, salientes, com as
ligações dos enrolamentos em estrela.
16
Figura 1.13 - Esquemas de geradores trifásicos de 2 e 4 polos e ligações em estrela
A Figura 1.14 mostra as ligações dos enrolamentos em estrela para o gerador
trifásicos de 4 polos, com os enrolamentos (a, -a) e (a’, -a’) conectados em série;
igualmente para os enrolamentos (b, -b) e (b’, -b’) e (c, -c) e (c’, -c’).
Figura 1.14 - Ligações dos enrolamentos em estrela do gerador de 4 polos
Nas máquinas assíncronas ou de indução o enrolamento do estator é
alimentado com corrente alternada, não havendo campo primário ou excitação no
rotor. O enrolamento do rotor é curto circuitado e a corrente nesse enrolamento é
produzida por indução, de forma semelhante ao que acontece nos transformadores.
Em geral, as máquinas de indução são motores de indução, que recebem
tensão no estator e produz a rotação do rotor. No entanto, têm-se também
geradores de indução, em que o rotor pode ser acelerado para a obtenção de tensão
no estator, a exemplo dos utilizados, em geral, nas usinas eólicas.
Nas máquinas de indução não há sincronismo entre a rotação e a frequência
da tensão, embora haja sincronismmo entre os fluxos magnéticos do estator e do
17
rotor. Há um escorregamento que faz o motor girar abaixo da velocidade sincrona e
o gerador acima dessa velocidade.
A Figura 1.15 mostra uma curva característica típica de um motor de indução,
expressando o torque ou conjugado em função da velocidade em percentagem da
velocidade síncrona.
Figura 1.15 - Curva característica típica de um motor de indução
1.5 - MÁQUINAS DE CORRENTE CONTÍNUA
O enrolamento de armadura de uma máquina de corrente contínua está no
rotor, no caso do gerador, com a corrente saindo dele através de contatos com
escovas de carvão. O enrolamento de campo está normalmente no estator sendo
excitado por corrente contínua. No caso do motor a corrente entra no enrolamento
do rotor, com a excitação no estator.
A Figura 1.16 mostra vistas esquemáticas de uma máquina de corrente
contínua elementar, com indicações do comutador, dos enrolamentos e das
escovas.
Figura 1.16 - Máquina de corrente contínua elementar com comutador
18
A Figura 1.17 mostra as ondas da densidade de fluxo B e da tensão induzida
e de um gerador de corrente contínua.
Figura 1.17 - Densidade de fluxo e a tensão em máquina CC
1.6 - FORÇA MAGNETOMOTRIZ
Algumas máquinas rotativas têm os enrolamentos na armadura de forma
concentrada em número reduzido de ranhuras ou sulcos. No entanto, a maioria
delas apresenta os enrolamentos distribuídos por diversas ranhuras ao longo do
entreferro.
As bobinas individuais da armadura são conectadas entre si de forma a
manter o campo magnético com mesmo número de polos do enrolamento do campo.
Com enrolamentos distribuídos obtem-se uma forma de onda da força
magnetomotriz mais uniforme, com uma melhor aproximação da forma de onda
senoidal.
Os campos magnéticos na armadura podem ser estudados a partir da análise
do campo magnético produzido por apenas uma bobina de N espiras
compreendendo um ângulo de 1800 elétricos, ou π radianos, chamada de bobina de
pleno passo.
A Figura 1.18 mostra um esquema do fluxo produzido por um enrolamento
concentrado de uma bobina de passo pleno em uma máquina de entreferro
uniforme, com indicação das correntes, dos fluxos, do eixo magnético do estator e
da rotação.
19
Figura 1.18 - Esquema do fluxo produzido por uma bobina de passo pleno
A Figura 1.19 mostra o gráfico para a força magnetomotriz F produzida no
entreferro por uma correnta i no enrolamento concentrado, isto é, F = Ni. A
intensidade do campo magnético Hg de entreferro em determinada posição angular
θa, sob um dos polos, medido a partir do eixo magnético da bobina do estator, é a
mesma na posição defasada de π, isto é, em θa+π, sob o polo oposto, porem tem
sentido contrário.
Figura 1.19 - Força magnetomotriz com enrolamentos concentrados
A força magnetomotriz desenvolve-se praticamente no entreferro, metade
para uma posição e metade na posição oposta, alternando-se em degrau a cada 2π,
sendo desprezível o valor na parte magnética.
Máquinas CA
O desenvolvimento em série de Fourier da função periódica retangular da
força magnetomotriz produzida no entreferro por uma bobina apresenta
componentes senoidais espaciais, com grande predominância da componente
fundamental Fg1, com indicação tracejada na Figura 1.19.
20
A expressão dessa componente fundamental da força magnetomotriz Fg1 é
dada por:
* * *
Exemplo:
Sendo dados para uma máquina CA: N = 100 espiras e i = 10 A, tem-se que
o valor máximo ocorre em θa = 00, resultando Fg1M = 637 Ae. O mesmo valor ocorre
em θa = 1800, porem com sinal negativo. Em θa = 900 e θa = 2700 a força
magnetomotriz Fg1 passa por zero.
* * *
A Figura 1.20 mostra o esquema de uma máquina trifásica com enrolamentos
distribuídos, de dois polos, e o gráfico correspondente para a força magnetomotriz F
de uma fase.
Figura 1.20 - Força magnetomotriz com enrolamentos distribuídos
O desenvolvimento em série de Fourier da função periódica da força
magnetomotriz apresenta componentes senoidais, com grande predominância da
componente fundamental Fg1, indicada na Figura 18. Considerando que a máquina
possua p polos e Nf espiras por fase em série, com a corrente por fase ia a
expressão dessa componente Fg1 pode ser dada pela seguinte forma:
21
O valor ke é um fator de enrolamento, compreendido normalmente entre 0,85
e 0,95 para enrolamentos trifásicos, dependendo da distribuição dos enrolamentos
considerado no projeto da máquina. O valor keNf representa o número efetivo de
espiras por fase.
* * *
Exemplo:
Sendo dados para uma máquina CA: N = 100 espiras, ke = 0,90, p = 2 polos,
ia=10 A, θa = 0, tem-se o valor máximo Fg1M = 573 Ae; o número efetivo de espiras
por fase é keNf = 90.
No caso da máquina ser de 4 polos (p = 4), tem-se Fg1M = 286 Ae.
* * *
A Figura 1.21 mostra o esquema de um gerador trifásico de rotor cilíndrico
com enrolamentos distribuídos e o gráfico correspondente para a força
magnetomotriz de entreferro.
Figura 1.21 - Gerador trifásico de rotor cilíndrico com enrolamentos distribuídos
Considerando que a máquina possua p polos, Nr espiras no rotor, corrente no
rotor Ir, fator de enrolamento kr e θr o ângulo espacial em relação ao eixo magnético
do rotor, a expressão da componente fundamental da força magnetomotriz Fg1 no
entreferro pode ser obtida a partir dos dados relativos ao rotor. A expressão
resultante é dada por:
22
Máquinas CC
A Figura 1.22 mostra o esquema de uma máquina de corrente contínua de
dois polos, com indicação dos enrolamentos da armadura (no rotor) e do campo (no
estator) e respectivos eixos magnéticos. A ação do comutador faz com que o eixo da
armadura seja sempre perpendicular ao eixo do campo, resultando em conjugado
unidirecional contínuo.
Figura 1.22 - Esquema de uma máquina de corrente contínua de dois polos
A Figura 1.23 mostra o desenvolvimento em plano da máquina CC de dois
polos, representando o estator e o rotor, e a onda de força magnetomotriz,
aproximadamente em forma de dente de serra e também na forma triangular.
Figura 1.23 - Desenvolvimento em plano da máquina CC de dois polos e a onda da FMM
A Figura 1.24 mostra a onda equivalente em dente de serra, ou triangular, da
FMM, sua componente fundamental e a corrente retangular laminar equivalente,
para uma máquina CC.
23
Figura 1.24 - Onda equivalente em dente de serra da FMM para máquina CC
A Figura 1.25 mostra a representação de uma máquina de corrente contínua
de 4 polos e a planificação da corrente e da onda FMM sob a forma de dente de
serra.
Figura 1.25 - Máquina CC de 4 polos e a planificação da corrente e da onda FMM
Considerando que Ca é o númeo total de condutores no entreferro de
armadura, m o número de caminhos paralelos no enrolamento de armadura, p o
número de polos e ia a corrente de armadura (em A), o valor de pico, ou valor
máximo da força magnetomotriz FgM, da onda em dente de serra da FMM de
armadura, pode ser determinado através da seguinte expressão, em Ampére
espira/polo (A.e/polo):
A corrente que passa em cada condutor ic é a corrente total ia dividida pelo
número de caminhos paralelos m, isto é, ic = ia/m, que é a corrente em cada espira.
O número de espiras em série na armadura é Na = Ca/2m. Assim, tem-se para FgM a
seguinte expressão:
24
A componente fundamental espacial da onda de FMM é dada por:
* * *
Exemplo:
Sendo dados: Ca = 100, m = 2, p = 2 polos e ia =10 A, tem-se diretamente a
força magnetomotriz máxima FgM = 125 Ae.
Tendo-se o número de espiras, que no caso é Na = 25 espiras, obtem-se o
mesmo valor FgM = 125 Ae. O máximo da componente fundamental é Fg1M = 101 Ae.
Considerando Ca = 2 e m=1, ou seja, apenas um condutor com 2 caminhos
paralelos, obtem-se Na = 1, ou seja, apenas uma espira. Com a mesma corrente de
10 A tem-se FgM = 5 Ae e Fg1M = 4 Ae.
* * *
1.7 - CAMPOS MAGNÉTICOS
Máquinas com Entreferros Uniformes
A Figura 1.26 mostra uma representação da máquina com entreferro
uniforme, com indicação da espessura do entreferro, do eixo magnético, da bobina
do estator.
Figura 1.26 - Representação da máquina com entreferro uniforme.
A distribuição de força magnetomotriz (FMM) no entreferro uniforme
25
apresenta intensidade do campo magnético Hg radial, com valor aproximadamente
constante, sendo determinado a partir da FMM Fg e da espessura g do entreferro
sendo, portanto:
A Figura 1.27 mostra a representação da força magnetomotriz Hg no
entreferro e a componente fundamental Hg1 para enrolamento concentrado.
Figura 1.27 – Representação de Hg e Hg1 para enrolamento concentrado.
A componente harmônica espacial fundamental de Hg, indicada como Hg1
pode ser obtida diretamente da componente fundamental Fg1, sendo dada pela
seguinte expressão:
Na condição em que θa=00 tem-se o valor máximo de Hg1, a amplitude da
componente fundamental da onda espacial senoidal, isto é:
* * *
Exemplo:
Sendo Fg1M = 1000 Ae e g = 1 mm, ou seja, g = 0,001 m, resulta que
Hg1M≈637000 Ae/m. Tem-se também que Bg1M ≈ 0,8 Wb/m2
* * *
26
Para o caso de enrolamento distribuído pode-se determinar a intensidade do
campo magnético Hg e sua componente harmônica espacial fundamental Hg1, esta
sendo dada pela expressão:
Neste caso Nf é o número de espiras por fase e ke (ou kenr) é um fator de
enrolamento das bobinas, com valor entre 0,85 e 0,95 dependendo da distribuição
dos enrolamentos considerados no projeto.
A indução magnética ou densidade de fluxo magnético B pode, então, ser
determinada da sua relação com a intensidade do campo magnético H: B = μH,
sendo μ ≈ μ0 = 4π x 10-7 a permeabilidade do ar do entreferro.
A componente espacial fundamental da densidade de fluxo magnético no
entreferro, vista do rotor, resulta, portanto:
* * *
Exemplo:
Para um valor usual da densidade de fluxo, da ordem de B = 1,6 Wb/m2, ou
1,6 T (Tesla), e sendo dados Nr = 264 espiras, kr = 0,935, p = 4 polos e g=0,7mm,
tem-se para a corrente no rotor Ir = 11,4 A.
* * *
Máquinas com Entreferros não Uniformes
As estruturas magnéticas dessas máquinas são mais complexas que as de
entreferro uniforme, assim como a distribuição dos campos magnéticos no entreferro
e suas ondas de força magnetomotriz, intensidade do campo e densidade de fluxo
magnético.
A análise detalhada dessas distribuições requer soluções mais completas
para os problemas do campo magnético. No entanto, normalmente são empregadas
soluções aproximadas com simplificações que permitem obter resultados
satisfatórios.
27
A Figura 1.28 mostra a representação de estruturas de máquinas típicas com
entreferros não uniformes, ou de polos salientes, sendo a da esquerda uma máquina
de corrente contínua e a da direita uma máquina síncrona.
Figura 1.28 – Estruturas de máquinas típicas de polos salientes.
1.8 - ONDAS GIRANTES DE FMM
Enrolamentos Monofásicos
A componente harmônica espacial fundamental da FMM Fg1, com
enrolamentos monofásicos, é dada pela expressão:
Para uma excitação com uma corrente ia senoidal, de frequência ωe, da forma
ia = Iacosωet, tem-se para a distribuição da FMM:
As expressões da amplitude máxima FM e do ângulo elétrico θae são:
Isto significa que a distribuição da FMM permanece fixa no espaço com uma
amplitude que varie senoidalmente no tempo com frequência ωe, sendo também
expressa pelo ângulo elétrico θae.
De outra forma, a distribuição da FMM pode ser dada pela expressão:
28
Isto indica que a onda da FMM pode ser expressa pela composição de duas
ondas progressivas Fg1+ e Fg1-, uma num sentido com frequência ωe e outra no
sentido contrário com frequência -ωe, sendo:
A Figura 1.29 mostra a representação da FMM espacial fundamental de
entreferro para enrolamento monofásico em quatro diferentes tempos.
Figura 1.29 - FMM espacial fundamental de entreferro para enrolamento monofásico
A Figura 1.30 mostra a FMM espacial fundamental total decomposta nas duas
ondas progressivas, como também sua decomposição fasorial.
Figura 1.30 - FMM total decomposta nas ondas progressivas e decomposição fasorial
29
Enrolamentos Trifásicos
A Figura 1.31 mostra a representação de uma máquina síncrona trifásica de
dois polos, com indicação dos enrolamentos do estator e os eixos das três fases a, b
e c, tendo a fase a como referência.
Figura 1.31 - Máquina síncrona trifásica de dois polos
As correntes sendo senoidais podem ser consideradas como dadas pelas
expressões:
A FMM fundamental expressas pelas suas ondas progressivas para as três
fases toma a seguinte forma:
A FMM fundamental total Ft é obtida como a soma fasorial das FMM das
fases:
Fazendo as devidas substituições e desenvolvimentos, resulta:
A Figura 1.32 mostra a representação da FMM e a produção do campo
30
magnético girante a partir das correntes das fases, que possibilita uma análise
gráfica da máquina.
Figura 1.32 - Representação da FMM e a produção do campo magnético girante
Pode-se verificar que a composição dos vetores nas diversas situações
apresenta uma onda de FMM resultante de amplitude constante girando com uma
velocidade angular uniforme.
1.8 - TENSÃO GERADA
Máquina CA
A Figura 1.33 mostra uma representação de uma máquina trifásica, entreferro
uniforme, com indicação das bobinas e eixos magnéticos das fases, com vistas à
determinação da tensão gerada.
Figura 1.33 – Representação de máquina trifásica com as bobinas e eixos magnéticos
Para máquinas CA com entreferro uniforme, de comprimento g, número de
espíras em série do campo Nf, fator de enrolamento do campo kf, corrente do campo
If e múmeo de polos p, o valor de pico da densidade de fluxo magnético BM é:
31
O fluxo de entreferro por polo ϕp pode ser determinado através da integral da
densidade do fluxo sobre a área do polo. Sendo θr o ângulo em relação ao eixo
magnético do rotor, r o raio até o entreferro e l o comprimento axial do ferro do
estator/rotor, encontra-se o seguinte valor para ϕp:
O fluxo concatenado λa correspondente, considerando as frequências
mecânica ωm e elétrica ωe, é dado pelas expressões:
A tensão induzida ea na armadura, por fase, é:
Para um fluxo ϕp constante, tem-se:
Em regime permanente, com valores eficazes de correntes e tensões, tem-se
para a tensão induzida Eef:
Verifica-se, portanto, que a tensão induzida eficaz Eef é diretamente
proporcional à frequência fe, ao fluxo de entreferro por polo ϕp, ao número de espíras
em série do campo N, e ao fator de enrolamento do campo kf
* * *
Exemplo:
Sendo fe = 60 Hz, ke = 0,933, Nf = 18 espiras e ϕp = 3,31 Wb, tem-se Eef = 14,8
kV por fase.
* * *
32
Máquina CC
Figura 1.34 mostra uma representação da tensão induzida em uma máquina
CC.
Figura 1.34 - Representação da tensão induzida entre escovas em uma máquina CC
O valor médio, equivalente à CC, é dado por:
De outra forma, tem-se:
* * *
Exemplo:
Sendo p = 2 polos, m = 2, Ca = 100, ϕp = 2 Wb e n = 600 rpm,, tem-se Ea= 2
kV. Tem-se ainda Na = 25 espiras.
* * *
1.9 – CONJUGADO OU TORQUE
Os conjugados ou torques nas máquinas rotativas dependem basicamente
das correntes envolvidas no estator e no rotor. Podem ser determinados a partir do
equacionamento do funcionamento utilizando as funções da energia ou da coenergia
do sistema eletromecânico, considerando os aspectos relativos aos circuitos
acoplados ou aos campos magnéticos.
33
A Figura 1.35 mostra uma máquina elementar de dois polos com entreferro
uniforme, indicando a distribuição dos enrolamentos e uma resentação esquemática
utilizada na análise dos conjugados,
Figura 1.35 - Máquina elementar de dois polos com entreferro uniforme
A coenergia W’ do sistema pode ser dada em função das correntes da estator
is e do rotor ir e dos acoplamentos definidos pelas indutâncias próprias do estator Lss
e do rotor Lrr e mútuas entre estator e rotor Lsr, através das expressões:
O torque é determinado a partir da derivada da coenergia, da seguinte forma:
Portanto, o torque varia diretamente com as correntes do estator e rotor, da
indutância mútua entre o estator e rotor, o número de polos e o seno do ângulo
elétrico. O sinal negativo (-) indica que o conjugado atua no sentido do alinhamento
dos campos magnéticos do estator e rotor.
Por outro lado, utilizando-se dos campos magnéticos através do fluxo
magnético por polo ϕp, da força magnetomotriz F, da indução ou densidade do fluxo
magnético B e das dimensões do entreferro, pode-se determinar também o
conjugado ou torque T.
A Figura 1.36 representa uma máquina de dois polos e o diagrama vetorial
das ondas de FMM
34
Figura 1.36 - Máquina de dois polos e o diagrama vetorial das ondas de FMM
A expressão encontrada para o torque é a seguinte:
Nessa expressão Bsr é a densidade do fluxo resultante no entreferro, Fr é o
valor máximo da onda de força magnetomotriz do rotor, δ r é o ângulo do eixo da
onda de FMM do rotor em relação à resultante, D é o diâmetro médio do entreferro e
l seu compromento axial. Expressão semelhante pode ser indicada em termos das
variáveis referidas ao estator Fs e δs.
O valor máximo de FrM é encontrado para δr = -π/2 partir da expressão:
* * *
Exemplo:
Sendo dados Bsr = 1,5 T, D = 27 cm, l = 32 cm, p = 4 polos, kr=0,976, Nr = 786
espiras e IrM =18 A, tem-se que FrM =4395 A.e e T=1789 N.m.
Para p = 4 polos a velocidade síncrona é ns =1800 rpm e o frequência f = 60
Hz, donde ωm = ωe/2 = 60π rd/seg. A potência máxima resulta em PM = ωm P = 337
kW.
* * *
35
Pode-se obter, também, a seguinte expressão para o torque:
Nessa expressão ϕsr é fluxo resultante por polo do efeito combinado das
forças magnetomotrizes do estator e do rotor, Fr é o valor máximo da onda de força
magnetomotriz do rotor e δr é o ângulo do eixo da onda de FMM do rotor em relação
à resultante. Expressão semelhante pode ser indicada em termos das variáveis
referidas ao estator Fs e δs.
1.10 - ASPECTOS DE OPERAÇÃO E APLICAÇÕES
Algumas características complementares relativas ao funcionamento e
aplicações das máquinas elétricas são indicadas a seguir, como considerações
preliminares sobre a operação do gerador síncrono, dos motores de corrente
alternada, síncrono e assíncrono ou de indução, do motor de corrente contínua e
aplicações gerais das máquinas elétricas.
Os diversos tipos de máquinas de corrente alternada, síncronas e de indução,
e de corrente contínua, tem geralmente enrolamentos distribuídos e, dessa forma,
são analisados através das forças magnetomotrizes, densidade de fluxo e tensões
aplicadas ou induzidas.
Os motores de corrente alternada, síncronos e assíncronos ou de indução,
são os mais utilizados, porque a distribuição de energia elétrica é feita normalmente
em corrente alternada. Seu princípio de funcionamento é baseado no campo girante,
que surge quando um sistema de correntes alternadas trifásico é aplicada em polos
defasados fisicamente de 120º.
As correntes são defasadas 120º elétricos e, em cada instante, um par de
polos possui o campo de maior intensidade, cuja associação vetorial possui o
mesmo efeito de um campo girante que se desloca ao longo do perímetro do estator
e que também varia no tempo.
Nos motores de indução e síncrono trifásicos o estator apresenta
basicamente a mesma forma construtiva. Os enrolamentos do estator são alojados
em sulcos ou rnhuras existentes na periferia do núcleo de ferro laminado, sendo
alimentados por fonte trifásica, e os dos rotores apresentam formas diferentes, pois
no síncrono há excitação e no de indução são curtocircuitados. Os campos
36
magnéticos no rotor e estator, indutores ou induzidos, apresentam um campo
resultante, que varia com o giro do rotor sendo, portanto, um campo girante.
Gerador Síncrono
Na operação do gerador síncrono, também chamado de alternador, a energia
mecânica é fornecida à máquina pela aplicação de um torque para rotação do seu
eixo. A fonte de energia mecânica pode ser, por exemplo, de origem hidráulica, a
gás, a vapor, nuclear etc. Os geradores síncronos são utilizados na grande maioria
das centrais hidroeléctricas e termoeléctricas e funcionam em sincronismo entre si.
Para que o gerador síncrono seja capaz de efetivamente converter a energia
mecânica aplicada no seu eixo, é necessário que o enrolamento de campo,
localizado no rotor da máquina, seja alimentado por uma corrente contínua, de fonte
de tensão contínua, que é a excitação da máquina. Ao girar, o campo magnético
produzido no rotor tem um movimento relativo ao campo que aparece nos
condutores dos enrolamentos do estator.
A tensão nos terminais do gerador apresenta uma frequência relacionada
diretamente com a velocidade de rotação do rotor e pelo número de polos. Estando
o motor conectado à rede elétrica com determinada frequência, esta estabelece a
velocidade do rotor da máquina.
A Figura 1.37 mostra um gerador síncrono trifásico de uma hidroelétrica, visto
de sua parte superior.
Figura 1.37 – Exemplo de gerador síncrono.
A Figura 1.38 mostra a imagem do estator de um gerador de corrente
alternada trifásico.
37
Figura 1.38 - Estator de um gerador de corrente alternada trifásico
A Figura 1.39 mostra um rotor de um gerador de 190 MVA utilizado em uma
hidroelétrica.
Figura 1.39 - Rotor de um gerador de uma hidroelétrica.
A Figura 1.40 mostra uma hidroelétrica e uma termoelétrica, em que a
produção de energia elétrica é obtida através de geradores, que são de corrente
alternada e são geradores síncronos.
38
Figura 1.40 – Usinas hidroelétrica e termoelétrica com geradores síncronos.
Motores Síncronos
No motor síncrono o rotor é constituído por bobinas enroladas
convenientemente nos núcleos magnéticos (polos) e alimentados por uma fonte de
corrente contínua.
Os motores síncronos têm aplicações em indústrias de grande porte, em
processos que requerem acionamentos com velocidade praticamente constante,
como também nos casos em que há necessidade de compensação de reativos e de
controle de tensão.
A Figura 1.41 mostra imagem de um motor síncrono indicando, em particular,
sua excitatriz.
Figura 1.41 - Imagem de um motor síncrono
39
Máquinas de Indução
No motor de indução têm-se dois tipos de rotores, em curto-circuito: rotor tipo
gaiola de esquilo (ou simplesmente gaiola) e rotor bobinado; em ambos os tipos os
núcleos magnéticos são laminados.
O motor de indução funciona baseado no princípio de funcionamento da
criação de um campo magnético rotativo, por indução. A partir da aplicação de
tensão alternada (trifásica ou monofásica) no estator, consegue-se produzir um
campo magnético rotativo, o campo girante, que atravessa os condutores do rotor,
produzindo a rotação.
O campo magnético variável induz no rotor uma tensão que cria o seu próprio
campo magnético girante, o qual ao tender alinhar-se com o campo girante do
estator produz um movimento de rotação no rotor.
A velocidade de rotação do rotor é ligeiramente inferior à velocidade de
rotação do campo girante do estator, não estando, portanto, sincronizado com esse
campo girante. Com a velocidade de rotação do rotor acima da síncrona tem-se o
gerador de indução
A Figura 1.42 mostra imagem de um motor de indução.
Figura 1.42 - Motor de indução
Uma máquina de indução sendo acionada por um afonte de modo a adquirir
uma rotação acima da síncrona passa a gerar energia constituindo-se, portanto, no
um gerador assíncrono ou gerador de indução.
A Figura 1.43 mostra um parque de geração eólica em que são utilizados
normalmente geradores de indução.
40
Figura 1.43 - Geração eólica com geradores de indução
Compensadores Síncronos
Os compensadores síncronos são máquinas síncronas intermediárias entre
os motores síncronos e os geradores síncronos. Como motor não aciona carga
mecânica, isto é, mecanicamente opera em vazio. Como gerador não fornece
potência ativa, isto é, eletricamente a geração ativa é nula.
Um compensador síncrono é um equipamento utilizado em sistemas elétricos
de potência com a função básica de estabelecer controle da tensão terminal com
dispositivos dinâmicos, através do sistema de excitação e, dessa forma, fornecer
potência reativa ao sistema elétrico ao qual está conectado.
A Figura 1.44 mostra um grande compensador síncrono utilizado num sistema
de potência.
Figura 1.44 – Exemplo de compensador síncrono.
41
Motor CC
Os motores de corrente contínua são utilizados em diversas aplicações que
requerem precisão e flexibilidade. A Figura 1.45 mostra imagem de um motor de
corrente contínua de média potência.
Figura 1.45 - Motor de corrente contínua de média potência
A Figura 1.46 mostra a imagem da armadura de um motor de corrente
contínua.
Figura 1.46 - Armadura de um motor de corrente contínua
42
2 - MÁQUINAS SÍNCRONAS
As máquinas de corrente alternada podem ser geradores ou alternadores e
motores. São máquinas síncronas e assíncronas. As máquinas síncronas giram com
a velocidade síncrona, obedecendo a uma relação direta com a frequência da rede
elétrica ou da tensão induzida.
As máquinas síncronas podem ser, portanto, geradores síncronos e motores
síncronos, como também compensadores síncronos, cujas características principais,
em estado permanente, são analisadas na apresentada a seguir.
2.1 - PRELIMINARES
Nas máquinas síncronas os enrolamentos ou bobinas são os circuitos que
ficam no estator, a parte fixa, e no rotor, a parte girante. Os enrolamentos principais
são o do estator, ou induzido, e o do rotor, ou indutor. Pode haver ainda nas
máquinas síncronas outros enrolamentos, que são os enrolamentos auxiliares, os
enrolamentos de compensação e os enrolamentos amortecedores, dependendo do
tipo da máquina.
O enrolamento do rotor é alimentado por uma corrente contínua para
produção do campo magnético indutor, ou campo primário, sendo também chamado
de excitação, ou sistema de excitação. Com o movimento do rotor e, portanto, do
campo indutor, fica estabelecida uma tensão no enrolamento do estator, ou
armadura, sendo a tensão principal.
O campo magnético estabelecido no estator varia com o movimento do rotor,
sendo um campo girante, resultando dessa combinação em sincronismo dos
movimentos do rotor e do campo do estator, como também em um conjugado
constante.
Nos geradores síncronos o movimento do rotor, com o campo magnético
indutor, induz uma tensão no estator, a tensão induzida ou tensão gerada. Estando o
gerador em vazio, a potência elétrica produzida é praticamente nula, como também
o conjugado ou torque. Com o gerador em carga, a corrente elétrica resultante no
estator cria um campo magnético de reação no estator, chamado de reação de
armadura. A potência elétrica produzida, como também o conjugado, dependem
43
diretamente da carga.
Nos motores síncronos com a aplicação da tensão no estator, combinada com
o campo magnético indutor, resulta o movimento do rotor, em sincronismo com o
campo girante aplicado e, portanto, com velocidade angular constante. Estando o
motor em vazio, a potência elétrica resultante é praticamente nula, como também o
conjugado ou torque. Com o motor em carga, a potência elétrica resultante e o
conjugado dependem diretamente da carga acionada.
O campo magnético indutor estabelece o fluxos magnéticos que circulam no
rotor, no estator e no entreferro. Esses fluxos são direcionados pelo polos, que nas
máquinas síncronas ficam normalmente no rotor. Os tipos e número de polos
dependem do tipo da máquina, do formato do rotor e de como são feitos os
enrolamentos.
As máquinas síncronas podem ser de polos lisos ou cilíndricos e polos
salientes, dependendo do formato do rotor ser cilíndrico ou apresentar saliências,
respectivamente.
Normalmente são mais utilizados rotores cilíndrícos em turbogeradores de
dois e quatro polos, em que resultam velocidades elevadas, e os de polos salientes
em hidrogeradores, com muitos polos, em que resultam velocidades relativamente
baixas, assim como em muitos motores síncronos.
A Figura 2.1 mostra esquemas de geradores monofásicos de 2 e 4 polos, com
indicações de enrolamentos, fluxos e eixos.
Figura 2.1 - Esquemas de geradores monofásicos de 2 e 4 polos
A Figura 2.2 mostra esquemas básicos de geradores trifásicos de 2 de 4
44
polos, com indicações dos enrolamentos nos estatores e rotores, formação dos
polos e as fases.
Figura 2.2 - Esquemas de geradores trifásicos
A Figura 2.3 mostra esquemas de máquinas CA monofásicas de dois polos,
com rotor cilíndrico e com rotor de polos salientes, indicando os enrolamentos e os
fluxos magnéticos.
Figura 2.3 - Esquemas de máquinas CA momofásicas de dois polos
A máquina síncrona pode funcionar como gerador assim como motor,
dependendo do que a ela seja aplicada, se torque ou tensão, respectivamente, mas
a forma de operação de ambos é basicamente a mesma, porem de forma inversa.
Estando a máquina ligada à rede elétrica, a tensão dos terminais está relacionada
com a frequência de rotação da turbina.
Na operação como gerador a energia mecânica é suprida pela aplicação de
um torque para rotação do eixo da máquina. A fonte de energia mecânica pode ser
de origem hidráulica, térmica, nuclear etc. O movimento do rotor em relação estator
45
produz a tensão induzida elétrica, de acordo com a lei de Faraday. Obtem-se, então,
a tensões de rede elétrica, geralmente trifásicas senoidais, defasadas de 1200, para
alimentar os sistemas elétricos de energia.
Na operação como motor o campo girante, que surge quando um sistema de
CA trifásico é aplicado em polos defasados fisicamente de 120º, faz girar o rotor,
tendo em vista que um par de pólos possui o campo de maior intensidade, cuja
associação possui mesmo efeito de um campo girante que se desloca ao longo do
perímetro do estator e que varia no tempo.
Figura 2.4 mostra uma vista de uma máquina elementar CA trifásica, com
indicação dos eixos magnéticas das fases e as bobinas.
Figura 2.4- Vista de uma máquina elementar CA trifásica
2.2 - CARACTERÍSTICAS BÁSICAS
As características das máquinas síncronas indicam os comportamentos em
termos das tensões, correntes, velocidades e conjugados. Dentre elas estão as
características: conjugado x ângulo de carga, tensão x corrente e característica
velocidade x conjugado. As características são apresentadas em curvas que
relacionam as variáveis envolvidas.
Característica Conjugado x Ângulo de Carga
Como as tensões nos enrolamentos do estator são alternadas e trifásicas,
circula nos mesmos uma corrente alternada de mesma frequência que a tensão, que
produz campo magnético também alternado variante no tempo. Devido à disposição
espacial dos enrolamentos no estator, os fluxos magnéticos circulam pelo estator, de
46
forma que o campo magnético resultante, com o do rotor, gira em torno da
circunferência do estator com velocidade angular proporcional à frequência da
tensão alternada do estator.
Assim, quando um dos polos do campo magnético gerado pelo enrolamento
de campo do rotor interagir com o campo girante resultante com o estator, a
tendência é de alinhar-se com o polo de sinal oposto. Com o giro do polo do campo
girante do estator surge no rotor um binário de forças que gera um torque de forma
que o rotor gire e mantenha os campos do enrolamento de campo do rotor e o
campo girante do estator alinhados.
No caso do gerador o torque mecânico imposto ao rotor combinado com o
torque eletromagnético de reação do campo girante induzido no estator faz o rotor
girar seguindo o sentido e velocidade do campo resultante. No motor os campos
devido à excitação do rotor e à corrente pela tensão aplicada ao estator produzem
torques eletromagnéticos no mesmo sentido que fazem o rotor girar pelo trorque
eletromecânico resultante.
Em regime permanente o torque ou conjugado nas máquinas síncronas T
varia diretamente com a força magnetomotriz do campo Ff, ou rotor do Fr (Ff = Fr)
portanto com a corrente i e o número de espiras N (Ff=N.i), com o fluxo magnético
ΦR, resultante dos fluxos do estator e rotor (ΦR = Φsr), no entreferro por polo, e o seno
do ângulo δRF, ou fase entre os eixos magnéticos da força magnetomotriz no rotor e
do fluxo magnético do estator (δRF = δr), isto é:
A constante de proporcionalidade k depende de cada máquima, que
determina a componente fundamental da onda da força magnetomotriz,
aproximadamente senoidal, e varia proporcionalmente com o quadrado do número
de pares de polos. É dada aproximadamente pela expressão:
A expressão para o torque T é dada por:
De outra forma, pode ser dada pela seguinte expressão, em módulo:
47
Sendo dados ou conhecidos os valores de p, ϕR e Ff o torque máximo TM fica
determinado por:
O torque T representa uma senoide dada pela expressão:
Portanto, graficamente as máquinas síncronas apresentam uma característica
conjugado x ângulo conforme mostra a Figura 2.5.
Figura 2.5 - Característica conjugado x ângulo
A curva torque x ângulo indica no lado direito a característica correspondente
ao gerador síncrono e do lado esquerdo a característica correspondente ao motor
síncrono. Na velocidade ω a potência eletromecânica é P = Tω e a característica
potência x ângulo é da mesma forma.
Pode-se observar que para o ângulo δRF = 900 tem-se o valor máximo para o
torque, como também para a potência. Até esse ponto a operação da máquina é
estável e além dele o funcionamento passa a ser instável.
Indutâncias e Circuitos Equivalentes
A Figura 2.6 mostra um diagrama esquemático de uma máquina síncrona
trifásica de rotor cilíndrico de 2 polos, que serve de base para estudos ralativos às
indutâncias e a formação de circuitos equivalentes.
48
Figura 2.6 - Diagrama esquemático de uma máquina síncrona trifásica de rotor cilíndrico
Os acoplamentos magnéticos entre os enrolamentos das máquinas síncronas,
que estão no estator e no rotor, definem as indutâncias próprias e mútuas, de forma
semelhante aos transformadores, porem de forma mais complexa por envolverem
mais enpolamentos e movimentos relativos.
Os valores das indutâncias variam inversamente com as relutâncias e,
portanto, com a posição relativa entre o rotor e o estator expressa pelo ângulo θm.
Esssas indutâncias podem ser definidas como composta de uma parcela
independente do ângulo, indicadas com L (letra em itálico), e outra variável com
cosθm, indicadas com L (letra em lucila).
As indutâncias próprias do rotor ou do campo Lff e do estator para as fases
Laa, Lbb e Lcc, assim como as indutâncias mútuas entre o estator e o rotor Laf, Lbf e
Lcf e entre as fases no estator Lab, Lbc e Lca.
Os fluxos concatenados nos enrolamentos das fases da armadura λa, λb e λc e
do enrolamento do campo λf são determinados a partir das correntes e das
indutâncias, conforme as seguintes expressões:
49
Matricialmente tem-se:
Ou de outra forma, destacando as fases e o campo:
A indutância própria do rotor é dada por:
A parcela Lff0 é devido à componente fundamental espacial do fluxo de
entreferro e Lfl é devido à dispersão do fluxo no enrolamento do campo.
A indutância própria do estator é dada por:
A parcela Laa0 é devido à componente fundamental espacial do fluxo de
entreferro e Lal é devido à dispersão do fluxo no enrolamento da fase a. Expressões
semelhantes são estabelecidas para as fases b e c.
A indutância mútua entre o estator e o rotor é dada por:
As indutâncias mútuas de armadura entre as fases podem ser obtidas
supondo que a indutância mútua depende apenas do fluxo fundamental espacial do
entreferro. Pode-se verificar que todas essas indutâncias são iguais, sendo dadas
pelo seguinte resultado:
50
Com as devidas substituições na expressão do fluxo concatenado λa, na fase,
a, e considerando tratar-se de sistema trifásico equilibrado em estado permanente,
pode-se obter como resultado a seguinte espessão:
Pode-se, então, definir a indutância síncrona Ls através da expressão:
A parcela (3/2)Laa0 é a reatância de magnetização e Lal é a reatância de
dispersão do enrolamento da armadura.
Tem-se, então:
Isto significa que o fluxo concatenado em cada fase é igual ao produto da
indutância síncrona pelo corrente da fase somado ao produto da indutância mútua
entre o campo e a fase pela corrente do campo.
Equações e Circuito Equivalente
A tensão induzida nos terminais de uma fase, eaf na fase a, sem carga, resulta
da variação fluxo do enrolamento do campo e é a tensão gerada, ou tensão interna,
sendo dada pela equação:
A tensão terminal na máquina depende da corrente da armadura ia e do fluxo
concatenado λa, sendo:
Em termos eficazes, a amplitude da tensão gerada resulta em:
A expressão complexa para a tensão terminal Va, em valores eficazes, são:
51
No caso de motor, tem-se:
A partir da equação com a tensão gerada e tensão terminal pode-se
estabelecer os circuitos equivalentes da máquina síncrona, para os casos de
gerador e de motor, conforme a Figura 2.7.
Figura 2.7 - Circuitos equivalentes da máquina síncrona
Tem-se para a reatância síncrona Xs:
A primeira parcela dessa reatância síncrona é a reatância de dispersão,
indicada como Xal, e a segunda é a reatância de magnetização efetiva, indicada
como Xφ, resultando em:
Observa-se que o valor da resistência Ra é muito menor que Xs sendo, em
geral, desprezada. Em valores pu (por unidade) na base da potência e tensão
nominais da máquina tem-se Xs em torno de 1,0 pu, Xal em torno de 0,2 pu, Xφ torno
de 0,8 pu e Ra em torno de 0,01 pu. Esses valores podem variar em função do
tamanho ou potência da máquina. Em geral, para tamanhos menores a resistência
cresce e a reatância decresce; para tamanhos msiores a resistência decresce e a
reatância cresce;
52
A Figura 2.8 mostra o circuito equivalente da máquina síncrona com as
componentes de magnetização Xφ e de dispersão Xal, para a reatância síncrona e a
tensão de entreferro Eg.
Figura 2.8 - Circuito equivalente com as componentes das reatâncias
* * *
Exemplo:
Considerando um motor síncrono em que f = 60 Hz (ω=2πf=377), Vt = 460 V
(tensão de linha), Ia = 120 A, fp = 0,95 indutivo, Xs = 1,68 Ω e Ia = 120 A, pode-se
determinar as demais váriáveis e parâmetros.
Tem-se que: Va = 265,6 V (tensão de fase), ϕ = -18,20 (ângulo devido ao fator
de potência) e Ia = 120/-18,20.
Com a aplicação da expressão das tensões no circuito são determinadas: Eaf
= 278,8/-43,40 (fasor) e Eaf = 278,8 V (módulo).
Sendo dada ainda a corrente If = 47 A determina-se Laf = 0,0223 H = 22,3 mH.
* * *
Observa-se que os dados e resultados desse exemplo podem ser
transportados para o diagrama fasorial relativo ao motor síncrono indicado na Figura
2.9.
Figura 2.9 - Diagrama fasorial relativo ao motor síncrono
53
Exemplo semelhante pode ser analisado o caso considerando o gerador
síncrono. Mantendo todos os dados indicados, com a diferença na inversão da
corrente, pode-se verificar que o valor de Eaf será maior que Va. Usando-se o valor
calculado de Laf pode-ae verificar que o valor de If necessária será maior que o
anterior.
Características a vazio e em curto circuito
Normalmente se tem para as máquinas sincronas curvas características a
vazio, em curto circuito e em carga.
A Figura 2.10 mostra curvas relativas à condição em vazio, isto é, sem carga,
através da relação entre a tensão na armadura e a corrente de campo, com e sem
saturação, girando na velcidade síncrona, com e sem saturação. Essa característica
corresponde também à relação entre a componente fundamental espacial do fluxo
do entreferro e a força magnetomotriz devido à corrente de campo.
Figura 2.10 – Característica a vazio da máquina síncrona
Na tensão nominal da armadura a vazio Vn tem-se Eaf = Va = Vn com a
corrente If = Ifa, na curva saturada, e If = Ifb na curva não saturada ou linha do
entreferro. Daí pode-se calcular as indutâncias nas condições saturadas (Laf)s e não
saturadas (Laf)ns
* * *
Exemplo:
Sendo a tensão nominal de linha V=13,8 kV, donde Eaf =7,97 kV (de fase),
obtida com a corrente de excitação If = Ifa = 318 A (com saturação), em f = 60 Hz (ω
= ωe = 377 rd/s) determina-se que (Laf)s = 94 mH.
54
Estimando que If = Ifb = 263 A (sem saturação) pode-se determinar que
(Laf)ns= 114 mH.
Observa-se que a indutância saturada é menor que a indutância não
saturada, o mesmo acontecendo com as reatâncias correspondentes; neste caso a
redução de 18%.
* * *
A Figura 2.11 mostra a curva característica na condição em curto circuito de
uma máquina síncrona, isto é, conectando as três fases em um mesmo ponto, que
relaciona a corrente de armadura de curto circuito em função da corrente de
excitação do campo.
Figura 2.11 – Característica de curto circuito da máquina síncrona
Com a armadura em curto a tensão terminal é Vt = 0. Da equação do circuito
equivalente do gerador síncrono resulta:
A tensão de entreferro é:
A Figura 2.12 mostra o diagrama fasorial para as condições de curto circuito,
com indicação das correntes e tensões, como também do fluxo magnético e da força
magnetomotriz.
55
Figura 2.12 - Diagrama fasorial para as condições de curto circuito
Desprezando-se a resistência Ra, resulta:
Tem-se que a corrente na armadura varia proporcionalmente com a tensão de
entreferro e, portanto, também com a corrente de armadura. Dessa forma, para uma
determinada corrente de excitação If0 tem-se a tensão Eaf0 na característica a vazio,
não saturada, e Ia0 na característica em curto circuito. A reatância síncrona da
máquina sem saturação (Xs)ns pode, então, ser determinada conforme a expressão:
A Figura 2.13 mostra em um só gráfico as curvas características na condição
em vazio e em curto circuito de uma máquina síncrona, relacionando a tensão na
armadura na condição em vazio (do lado esquerdo) e a corrente de curto circuito na
armadura (do lado direitoo), ambas como função da corrente do campo.
Figura 2.13 - Curvas características a vazio e em curto circuito
56
A Figura 2.14 mostra curvas características nas condições em vazio e em
curto circuito de uma máquina síncrona, destacando a curva de magnetização com
saturação. A característica p representa uma aproximação não saturada para a
operação na caraterística saturada em torno da tensão nominal.
Figura 2.14 - Características em vazio e em curto circuito e magnetização.
Considerando a operação da máquina síncrona em condições saturadas,
pode-se determinar a reatância síncrona saturada a partir das características em
vazio e de curto circuito. Para uma corrente de excitação de campo conveniente,
como Of na Figura 2.14, a corrente de armadura de curto circuito é O’b e a tensão
gerada saturada é Oa.
Se a tensão de fase Va correspondente a Oa é Vag e a corrente de armadura
por fase Iacc correspondente a O’b é Ia, então a reatância síncrona saturada (Xs)s é
dada por:
A reatância síncrona saturada normalmente é considerada como a reatância
síncrona Xs da máquina, sendo Vag = Vn, Ia = I’a e também desprezando a resistência
da armadura. Tem-se, então:
A razão entre a corrente de campo necessária para gerar a tensão nominal a
vazio e a corrente de campo para gerar a corrente de armadura nominal em curto
57
circuito é definida como relação de curto circuito RCC. Tem-se, então, pelo gráfico
da Figura 2.14 que:
Pode-se verificar que reatância síncrona Xs, expressa em por unidade (pu) na
base da potência e tensão nominais da máquina, é igual ao inverso da relação de
curto circuito RCC, isto é:
De outra forma, a relação de curto circuito RCC pode ser vista como uma
relação entre a corrente de campo a vazio CCAV e a corrente de campo em curto
circuito (CCCC), tendo-se:
* * *
Exemplo:
Seja uma máquina síncrona trifásica de potência nominal S = 45 kVA, tensão
terminal nominal de linha Vt = 220 V, donde Vn = 127 V (tensão de fase), p= 6 polos,
f =60 Hz.
Tem-se na característica em vazio a tensão terminal em função da corrente
de campo: Vn = 127 V com I’’f = 2,84 A e V’ = 116,7 V com I’f = 2,20 A na linha do
entreferro.
Tem-se na característica em curto circuito a corrente de armadura em função
da corrente de campo: I’’a = 152 A com I’’f = 2,84 A e I’a = 118 A com I’f = 2,20 A.
Verifica-se que a reatância não saturada é (Xs)ns = 116,7/118 = 0,987 Ω/fase
e a reatância saturada é Xs = (Xs)s = 127,7/152 = 0,836 Ω/fase ou Xs =0,775 pu. A
relação de curto circuito é RCC = 2,84/2,20 = 1,29, donde Xs = 1/RCC = 0,775 pu.
A Figura 2.15 ilustra este exemplo, com a indicação dos principais resultados
obtidos.
* * *
58
Figura 2.15 – Ilustração do exemplo
As perdas nas máquinas síncronas podem ser avaliadas a partir das
condições em vazio e de curto circuito. Em vazio têm-se as perdas por histerese e
por correntes de Foucault e também em atrito e ventilação. Em curto circuito têm-se
as perdas por corrente de carga nominal.
A resistência Ra,ef pode ser obtida a partir das perdas efetivas de curto circuito
pef da corrente de armadura de curto circuito ia, através da expressão:
A Figura 2.16 mostra curvas com as perdas nas condições em vazio, em
função da tensão, e em curto circuito em função da corrente na armadura. São
incluídas as perdas suplementares devidas à corrente na armadura ser alternada.
Figura 2.16 – Perdas em vazio e em curto circuito
59
Características de Ângulo de Carga
Em regime permanente, têm-se as características de ângulo de carga,
indicando a potência fornecida pela máquina em função do ângulo de carga. São
utilizados o circuito equivalente e o diagrama fasorial mostrados na Figura 2.17.
Figura 2.17 - Circuito equivalente e o diagrama fasorial
A potência P2 transferida através da impedância Z da fonte, com a tensão E1,
para a carga, com a tensão E2, resulta na corrente I com o fator de potência cos ,
onde é o ângulo entre a tensão e a corrente na carga. Dessa forma, tem-se:
Com as representações em forma polar, e considerando a tensão na carga
como referência, isto é, δ2=0 e δ1= δ, tem-se:
Tem-se como resultado para a corrente I:
A expressão da potência transferida S é dada por:
A potência na carga é dada por:
60
A parte real dessa expressão é a potência ativa da carga, que resulta em:
Ou, de outra forma igual, em termos de seno, em que θ=900-α e α=tg1(R/X):
A potência transferida vista da fonte pode ser obtida de forma semelhante,
resultando:
Tendo-se em vista que normalmente a resistência da armadura da máquina é
muito menor que a reatância (R<<X), a impedância é praticamente igual à reatância
(Z≈X e α≈0), resultando para as potências:
O ângulo δ é o ângulo de potência, que cresce com a carga até o limite
máximo Pm, quando α=900. Sendo dados E1, E2 e X tem-se, portanto, para a
potência máxima:
Sendo E1 e E2 tensões de fase a potência é por fase; a potência trifásica é
três vezes essa potência. Se E1 e E2 são tensões de linha a potência obtida é
trifásica. Esses valores podem ser dados em unidades usuais ou em por unidade
(pu), na base de potência e tensão nominal da máquina.
Considerando que na máquina síncrona a tensão gerada é Eaf, a tensão
terminal é Vt e a reatância é a reatância síncrona Xs, a potência transferida da
geração para o terminal é:
61
A Figura 2.18 mostra a curva característica conjugado x ângulo, nessas
condições. A parte do lado direito corresponde à operação da máquina como
gerador e do lado esquerdo como motor.
Figura 2.18 - Característica conjugado x ângulo
* * *
Exemplo:
Sendo dados para a máquina de polos lisos: Eaf = 1,1 pu, Vt= 1,0 pu, Xs = 1,0
pu e δ = 300, tem-se que: P = 0,55 pu e Pm = 1,1 pu.
Se essa máquina tem potência nominal de Pn = 100 MVA essas resultados
correspondem a P= 55 pu e Pm = 110 MVA.
* * *
Estando a máquina conectada ao sistema elétrico num ponto em que a
impedância equivalente de Thévenin é XEQ e a tensão é VEQ, conforme a Figura 2.19,
a potência transferida da máquina para o sistema, como gerador, ou do sistema para
máquina, como moror, é dada por:
62
Figura 2.19 - Máquina conectada ao sistema elétrico equivalente
Característica de Operação e Curva de Capabilidade
A Figura 2.20 mostra uma forma característica composta de um gerador
síncrono, apresentando curvas que relacionam a excitação do campo necessária
para manter a tensão nominal no terminal em função da carga ou corrente de
armadura. São consideradas cargas nas condições com fatores de potência: fp =1,0,
fp = 0,8 indutivo e fp = 0,8 capacitivo,
Figura 2.20 - Forma característica composta
Observa-se que para fp = 1,0 a excitação varia pouco em relação ao valor
inicial. Para fp = 0,8 indutivo a excitação é crescente com a carga, sendo
superexcitada, e para fp = 0,8 capacitivo, a excitação é decrescente com a carga,
sendo subexcitada.
A capabilidade de um gerador corresponde à sua capacidade de geração,
sendo representada através de curvas que indicam os valores das potências
reativas necessárias em função das potências ativas geradas.
A Figura 2.21 mostra curvas caracteríscas de capabilidade de um gerador
síncrono de grande porte, refrigerado a hidrogênio. São indicadas as curvas com
63
variações do fator de potência da carga e variações da pressão do hidrogênio usado
na refrigeração, assim como as limitações devido ao aquecimento da armadura e ao
aquecimennto do campo.
Figura 2.21 - Curvas de capabilidade de um gerador síncrono
Considerando que a tensão terminal da máquina é constante e a tensão
gerada está limitada a um valor máximo determinado pela corrente de campo, tem-
se, por fase:
Com Ra = 0, tem-se que:
Determina-se, então, a expressão que relaciona as variações das potências
ativas e reativas:
Essa equação indica que as variações de P e Q podem ser representadas em
uma circunferência de centro –Va2/Xs e raio VaEaf/Xs, que faz parte da curva de
64
capabilidade da máquina, conforme mostra a Figura 2.22. O gráfico mostra também
as limitações pelos aquecimentos do campo e da armadura.
Figura 2.22 - Construção da curva de capabilidade
A Figura 2.23 mostra de outra forma as curvas que relacionam as correntes
na armadura e a corrente de campo de um gerador síncrono, denominadas curvas
em V.
Figura 2.23 - Curvas correntes na armadura x corrente de campo, curvas em V.
Dessa forma, a corrente de campo está no eixo horizontal e a corrente de
armadura no eixo vertical. São mostradas as curvas para vários fatores de potência,
indutivos e capacitivos, com o campo nas condições de superexcitação e
subexcitação, respectivamente.
65
Máquinas de Polos Salientes
Em máquinas de polos salientes a direção de magnetização, resultante do
fluxo produzido pela onda de FM, é determinada pelas protuberâncias dos polos do
campo. A permeância ao longo do eixo polar, ou eixo direto do rotor, é
apreciavelmente maior do que à apresentada no eixo interpolar, ou eixo transverso
ou de quadratura.
As Figuras 2.24 e 2.25 mostram representações dos fluxos de entreferro de
uma máquina síncrona de polos salientes ao longo do eixo direto e do eixo em
quadratura, respectivamente, assim como as componentes correspondentes às
ondas de densidade de fluxo na superfície da armadura, produzidas pelo campo e
pela componente fundamental espacial síncrona girante da FMM da reação da
armadura.
Figura 2.24 - Fluxos de entreferro ao longo do eixo direto de uma máquina síncrona de polos
salientes
Figura 2.25 - Fluxos de entreferro ao longo do eixo em quadratura de uma máquina de polos
salientes
66
Verifica-se que a corrente I apresenta duas componentes Id e Iq,
respectivamente nas direções dos eixos direto e em quadratura, que apresentam
quedas de tensão nessas direções.
Das relações entre as correntes e quedas de tensão nas direções dos eixos
resultam também as reatâncias de eixo direto Xd e de eixo em quadratura Xq, que
incluem os fluxos de dispersão e de magnetização, e estabelecem as reatâncias de
dispersão Xal e de magnetização de eixo direto Xφd e de eixo em quadratura Xφq.
Desta forma, tem-se:
A Figura 2.26 mostra o diagrama fasorial de um gerador síncrono de polos
salientes com as tensões, as correntes e reatâncias de eixo direto e em quadratura.
Figura 2.26 - Diagrama fasorial de um gerador síncrono de polos salientes
A expressão da tensão gerada é:
A Figura 2.27 mostra o diagrama fasorial de um gerador síncrono de polos
salientes com indicação dos fluxos, tensões e correntes componentes.
Figura 2.27 - Diagrama fasorial com indicação dos fluxos, tensões e correntes componentes
67
A Figura 2.28 mostra o diagrama fasorial de um gerador síncrono de polos
salientes com as relações entre as tensões e correntes componentes.
Figura 2.28- Diagrama fasorial com as relações entre as tensões componentes
A Figura 2.29 mostra de outra forma o diagrama fasorial de um gerador
síncrono de polos salientes com as relações entre as tensões e correntes
componentes.
Figura 2.29 - Relações entre as tensões componentes em diagrama fasorial
Característica de Ângulo de Potência
As máquinas síncronas de polos salientes apresentam, portanto, as
reatâncias de eixo direto Xd e de eixo transverso ou em quadratura Xq. Considerando
uma máquina síncrona conectada a uma barra infinita de um sistema, com a
reatância equivalente XEQ, tem-se para as reatâncias totais de eixo direto e em
quadratura:
68
A Figura 2.30 mostra os diagramas unifilar e fasorial da máquina síncrona de
polos salientes e impedância série do sistema equivalente, desprezando a
resistência.
Figura 2.30 - Máquina síncrona de polos salientes e impedância série do sistema equivalente
Com a decomposição da tensão do sistema VEQ em tensões no eixo direto Vd
e no eixo em quadratura Vq, respectivamente em fase com Id e Iq, e sendo δ o ângulo
de carga, tem-se:
A potência ativa da máquina por fase é dada por:
As correntes de eixo direto Id e em quadratura Iq são:
Com a substituição dos valores dessas correntes na expressão da potência
ativa da máquina resulta e os devidos desenvolvinmentos, pode-se encontrar o
seguinte resultado:
69
Essa expressão da potência ativa P define a característica potência x ângulo
de potência de uma máquina síncrona de polos salientes, conforme mostra a Figura
2.31. Observa-se que essa característica apresenta duas componentes, uma
correspondente à máquina de polos lisos e a outra sendo uma componente de
frequência dupla do ângulo de carga.
Figura 2.31 - Característica de ângulo de potência de uma máquina de polos salientes
Considerando apenas a máquina com a tensão gerada Eaf e a tensão terminal
Va, sem o equivalente do sistema XEQ, as reatâncias são apenas as da máquina Xd e
Xq. Tem-se, então, a para potência transferida da geração para a carga dada pela
expressão:
* * *
Exemplo:
Sendo dados para a máquina de polos salientes: Eaf =1,05 pu, Va =1,0 pu,
Xd=1,0 pu, Xq = 0,6 pu e δ = 300, tem-se como resultado P = 0,813.
Se a potência nominal da máquina for Pn = 50 MVA, tem-se para a potência
de transferência: P = 40,65 MVA.
* * *
70
3 - MÁQUINAS DE INDUÇÃO
As máquinas de indução são semelhantes às máquinas síncronas, porém
não tem excitação ou campo primário, sendo o enrolamento do rotor curtocircuitado.
São máquinas assíncronas, mas construídas de tal maneira a se obter dois campos
magnéticos girantes.
O comportamento das máquinas de indução é baseado no princípio de
indução, de forma semelhante ao transformador. Na análise dessas máquinas, além
dos conceitos físicos relativas a correntes e fluxos, empregam-se circuitos trifásicos
equivalentes, na forma monofásica, necessários ao estudo das características
eletromecânicas.
Introdução
Utilizam-se na análise das máquina de indução os conceitos relativos às
correntes e fluxos envolvidos, aos conjugados e velocidade, às potências e à
influência das resistências do rotor, e são analisados os comportamentos em vazio,
em condições de curto crcuito e em carga.
Os circuitos equivalentes podem ser usados para estudar as características
eletromecânicos de uma máquina de indução, bem como o efeito do carregamento
apresentado pela máquina, sua fonte de energia, seja uma fonte de frequência fixa,
como um sistema de potência, ou um acionamento com uma frequência ou tensão
variável.
Em um motor de indução há deslizamento, ou escorregamento, de
frequências de correntes que são induzidas nos enrolamentos do rotor, como
deslizamentos de rotor após passar a onda de fluxo síncrono rotativo do estator,
resultando em velocidade diferente da síncrona.
As correntes do rotor, por sua vez, produzem uma onda de fluxo que gira em
sincronismo com a onda de fluxo do estator e o binário de campos é produzido pela
interação destas duas ondas de fluxo. Aumentando a carga no motor diminui a
velocidade do rotor, resultando em maior deslizamento, com aumento das correntes
induzidas no rotor e o torque é maior.
71
O exame das interações de fluxo de FMM em um motor de indução mostra
que, eletricamente, a máquina é uma forma de transformador. O campo rotativo
induz tensão de frequência do estator nos enrolamentos do estator e de frequência
de escorregamento nos enrolamentos do rotor.
Assim, a máquina de indução transforma tensões e ao mesmo tempo muda
de frequência. Quando visto a partir do estator, todos fenômenos são transformados
com a frequência do estator. A FMM do rotor reage sobre os enrolamentos do
estator da mesma maneira como a FMM da corrente secundária em um
transformador reage no primário.
Um dos fatos importantes que afetam as aplicações do motor de indução é
que o deslizamento em que ocorre o torque máximo pode ser controlado pela
variação da resistência do rotor. A alta resistência do rotor dá melhores condições
de partida, mas o desempenho é fraco. Uma baixa resistência do rotor, no entanto,
pode resultar em condições de partida insatisfatórios.
Tipos de motores de indução
Há dois tipos básicos de motores de indução: gaiola de esquilo e rotor
bobinado dependendo de seus enrolamentos.
O estator é composto de chapas finas de aço magnético tratadas
termicamente ou aço silício para reduzir as perdas por correntes parasitas e
histerese. Tem formato em anel com ranhuras internas para alojar os enrolamentos,
que cria um campo magnético no estator.
O rotor é também composto de chapas finas de aço magnético, tratadas
termicamente, com o formato também de anel. Os enrolamentos são alojados
longitudinalmente
No motor tipo gaiola de esquilo o rotor é composto de barras de material
condutor que se localizam em volta do conjunto de chapas do rotor, curto-circuitadas
por anéis metálicos nas extremidades.
No motor tipo rotor bobinado o rotor é composto de enrolamentos distribuídos
em torno do conjunto de chapas do rotor. Como os enrolamentos do rotor estão
curtocircuitado a tensão induzida faz com que circule uma corrente pelo enrolamento
do rotor o que, por consequência, produz um fluxo magnético no rotor que tende a
se alinhar com o campo magnético girante do estator.
72
A Figura 3.1 mostra exemplos de rotores bobinado e gaiola utilizados nas
máquinas de indução.
Figura 3.1 - Exemplos de rotores bobinado e gaiola
A Figura 3.2 mostra o rotor de um pequeno motor do tipo gaiola de esquilo e
sua estrutura após em corrosão.
Figura 3.2 - Rotor de um motor do tipo gaiola de esquilo
Como o valor das tensões induzidas no rotor, no caso de rotor bobinado,
dependem da relação de espiras entre o estator e o rotor, o estator pode ser
considerado como o primário e o rotor como seu secundário, de forma semelhante a
um transformador.
Em geral os motores de rotor bobinado são maiores, mais caros e requerem
mais manutenção. Os de gaiola são mais simples e podem operar com frequência
praticamente constante. Através de controles adequados da frequência com
inversores tem sido crescente a utilização desses motores com frequência variável.
Em geral as máquinas de indução são motores. No entanto, através de
acionamentos adequados por uma turbina, e operando com rotação acima da
síncrona, pode-se gerar potência ativa e injetar no sistema onde está conectado,
73
constituindo-se em gerador de indução ou gerador assíncrono, tendo-se aplicações,
por exemplo, em usinas eólicas.
A Figura 3.3 mostra exemplo de motor de indução em corte, com rotor
bobinado.
Figura 3.3 – Exemplo de motor de indução rotor bobinado
Figura 3.4 mostra um exemplo de motor de indução em corte, com rotor
gaiola de esquilo.
Figura 3.4 – Exemplo de motor de indução rotor gaiola de esquilo
Características dos motores de indução
Os motores de indução apresentam escorregamento, e a frequência do rotor
não acompanha a do sistema. São assíncronos.
Sendo n a rotação da máquina de indução, em rotações por minuto (rpm), e
ns a rotação síncrona, em rpm, o escorregamento s é:
74
Daí resulta a expressão na rotação do motor n em função do escorregamento
s e da rotação síncrona ns:
Sendo ωs a frequência síncrona em rad/seg, a frequência mecânia ωs é:
Sendo fe a frequência da tensão aplicada, em Hz, tem-se para a frequência
da tensão no rotor fr, relativa à frequência da tensão do estator:
Algumas características relativas aos motores de indução são apresentadas
através de curvas de conjugado x velocidade. A Figura 3.5 mostra a curva típica de
conjugado x velocidade de um motor de indução operando com tensão aplicada e
frequência constante. As formas dessas curvas dependem dos tipos de motores.
Figura 3.5 - Curva típica de conjugado x velocidade
O torque ou conjugado no motor de indução pode ser determinado através da
expressão:
Pode-se observar por essa expressão que o conjugado depende do fluxo
resultante por polo ϕsr, resultante do efeito combinado das forças magnetomotrizes
75
do estator e do rotor, do valor máximo da onda de força magnetomotriz do rotor Fr e
do ângulo δr do eixo da onda de FMM do rotor em relação à resultante. O sinal
negativo (-) significa qse a corrente induzida de rotor circula em sentido de
desmagnetizar a fluxo do entreferro produzido pela corente do estator.
De outra forma, o torque pode ser expresso por:
Assim, o torque fica dependendo diretamente da corrente do rotor Ir e do
ângulo δr. O valor de K é praticamente constante, dado que o fluxo ϕsr é
aproximadamente constante, sendo constante a tensão e frequência aplicadas no
estator.
O escorregamento em condições normais é pequeno, situando-se na faixa de
2 a 10 % e, em correspondência, a rotação situa-se entre 98 % e 90 % da rotação
síncrona. Normalmente o conjugado inicial, ou de partida, é maior que o conjugado
nominal; nessa condição a rotação é n = 0 e o escorregamento s = 1.
O conjugado cresce com rotação até um valor máximo, da ordem do dobro do
inicial, passando a decrescer em seguida na direção do conjugado e rotação
nominais, conforme pode ser observado na própria Figura 3.5.
Correntes e Fluxos em Máquinas de Indução
A Figura 3.6 mostra, de forma planificada, as ondas de densidade de fluxo e
de conjugado de um motor de indução de rotor bobinado, trifásico de dois polos, em
duas situações.
Figura 3.6 - Ondas de densidade de fluxo e força magnetomotriz em motor de indução.
76
Figura 3.8 mostra as ondas de densidade de fluxo e de tensões para motores
de gaiola de esquilo.
Figura 3.8 - Ondas de densidade de fluxo e de tensões
Figura 3.9 mostra as correspondentes ondas de densidade de fluxo e
correntes para motores de gaiola de esquilo.
Figura 3.9 - Ondas de densidade de fluxo e de correntes
Figura 3.10 mostra as ondas de densidade de fluxo de força magnetomotriz e
da componente fundamental (FMM) do rotor de motores de gaiola de esquilo.
Figura 3.10 - Ondas de densidade de fluxo, FMM e componente fundamental
77
Circuito Equivalente do Motor de Indução
Sendo V1 a tensão de fase no terminal do estator, E2 a tensão (força contra
eletromotriz) gerada pelo fluxo do entreferro resultante, I1 a corrente no estator, R1 a
resistência efetiva do estator e X1 a reatância de dispersão do estator, a equação da
máquina de indução em estado permanente pode ser dada pela equação:
A corrente I1 no estator é decomposta na corrente de carga I2 do rotor e na
corrente de excitação Iφ. Esta é decomposta na corrente de magnetização Im e na
corrente de perdas no núcleo Ic, tendo-se em correspondência a reatância de
magnetização Xm e a resistência de perdas no núcleo Rc, em paralelo, formando um
ramo de derivação. A tensão E2s e corrente I2s no rotor dependem dos valores de
saída do estator e do escorregamento s; o rotor apresenta uma resistência R2 e uma
reatância X2, resultando sX2 na frequência de escorregamento.
A Figura 3.11 mostra um circuito equivalente de um motor de indução, com
indicações dos ramos, com as resistências e reatâncias e as tensões e correntes
envolvidas. À esquerda é o circuito equivalente do estator e à direita o circuito
equivalente do rotor na frequência de escorregamento.
Figura 3.11 - Circuitos equivalentes de um motor de indução
A impedância equivalente do secundário vista do primário é dada por:
Sendo Nef a relação de espiras efetiva entre os enrolamentos do estator e do
rotor, tem-se:
78
Por outro lado:
Tem-se, então:
Resulta em:
A Figura 3.12 mostra o circuito equivalente de um motor de indução reunindo
o estator o e o rotor.
Figura 3.12 - Circuito equivalente do motor de indução
A Figura 3.13 mostra uma forma alternativa para o circuito equivalente do
motor de indução.
Figura 3.13 - Forma alternativa do circuito equivalente do motor de indução
79
Potências e Conjugados
Da análise do circuito equivalente podem ser determinadas as características
do motor de indução, envolvendo as correntes, as velocidades, os conjugados, as
potências e as perdas.
Pelo circuito equivalente do motor verifica-se que a potência Pg transferida
através do entreferro desde o estator é dada por:
No motor monofásico a potência tem essa mesma forma. No motor de q fases
essa expressão toma a forma:
Considerando os casos mais usuais dos motores trifásicos (q = 3), tem-se:
A potência de perda no estator Pe é:
A potência de entrada Pent é:
As perdas totais do rotor Pr podem ser calculadas a partir das perdas do rotor
equivalente, pois I2s=I2, sendo dadas por:
A potência eletromecânica Pm desenvolvida pelo motor resulta da diferença
entre a potência gerada no entreferro e as perdas discipadas no rotor:
Ou de forma equivalente:
Resulta também que:
80
Isto significa que da potência total fornecida Pg através do entreferro para o
motor a fração 1 - s é convertida em potência mecânica Pm, que representa o
rendimento da máquina, e a fração s é dissipada em perdas Pr nos condutores do
rotor.
* * *
Exemplo:
Sendo dados para uma máquina de indução: s = 0,02 e Pg = 100 kW, tem-se
que: Pm = 98 kW e Pr = 2 kW.
As perdas no rotor representam 2 % da potência total fornecida, sendo o
rendimento 98 %, considerando apenas a relação entre Pm e Pg. Caso s = 0,1 as
perdas no rotor resultariam em 10%, valor bastante elevado.
* * *
Observa-se ainda a relação direta entre Pr e Pm:
O conjugado eletromecânico Tm corresponde à potência mecânica Pm,, sendo
dado em termos da velocidade angular mecânica ωm ou da velocidade angular
mecânica síncrona ωs por:
Resulta para Tm:
A potência e o conjugado no eixo do motor, Pe e Te, resultam das diferenças
entre a potência e o conjugado mecânico, Pm e Tm, e as perdas mecânicas no rotor
Prot (atrito, ventilação e demois perdas rotacionais) sendo, portanto:
O rendimento do motor η é dado pela relação entre a potência de saída no
eixo Peix e a potência de entrada no estator Pent (isto é, P1), ou seja:
81
Como aproximação, o rendimento do motor pode ser visto como a relação entre
a potência mecânica Pm e a potência total fornecida pelo estator Pg.
* * *
Exemplo:
Considerando um motor de indução trifásico de p = 2 polos, f = 60 Hz,
n=3502rpm, Pent = 15,7 kW, I1 = 22,6 A e R1 = 0,20 Ω/fase, tem-se que ns =3600 rpm,
e s = 0,0272. Admitir Prot = 320 W.
Resulta para as potências: Pe = 3I12R1 = 306 W, Pg = Pent – Pe = 15,7 – 0,306
= 15,4 kW, Pm = (1-s)Pg = 15,0 kW, Pr = 419 W e Peix = Pm - Prot = 14,7 W.
O rendimento é η = 14,7/15,7 = 0,936 = 93,6 %. Considerando a relação entre
Pm. e Pg o rendimento seria 97,28 %.
* * *
A resistência do ramo de magnetização, responsável pelas perdas no núcleo,
é muito menor que a reatância de magnetização, isto é, Rc << Xm sendo usualmente
desprezível. A Figura 3.14 mostra os circuitos equivalentes correspondentes aos
apresentados nas Figuras 3.12 e 3.13, com a resistência de perdas no núcleo
desprezível.
Figura 3.14 - Circuitos equivalentes com resistência de perdas no núcleo desprezível
Uso do Teorema de Thévenin
A partir dos circuitos equivalentes mostrados na Figura 3.9 pode-se
determinar outro equivalente, mais compacto, com a aplicação do teorema de
Thévenin, que é utilizado para o estudo das características de conjugado e potência
do motor de indução.
82
A Figura 3.15 mostra o equivalente de Thévenin para o motor de indução.
Figura 3.15 – Equivalente de Thévenin para o motor de indução
A tensão da fonte equivalente V1e do motor é a que aparece nos terminais em
circuito aberto a impedância equivalente Z1e é vista do terminal com a fonte em curto
circuito. Considerando a resistência do ramo de magnetização desprezível, a tensão
V1e pode, então, ser determinada por:
A impedância equivalente Z1e é o resultado de Z1 em paralelo com jXm, sendo:
A corrente é dada por:
Resulta para o torque mecânico ou conjugado Tm:
Ou também:
A partir dessa expressão são determinadas as curvas características de
conjugado x escorregamento da máquina de indução.
A Figura 3.16 mostra a representação dessas características, indicando as
regiões em que a máquina opera como motor e como gerador.
83
Figura 3.16 - Curva de conjugado x escorregamento
Na caraterística conjugado x escorregamento apresentada podem ser
observadas as regiões nas condições de operação das máquinas de indução, como
motor e como gerador, assim como a região de frenagem. Podem ser observados
também os pontos correspondentes ao conjugado de partida, conjugado máximo e
conjugado nulo.
Das expressões do torque mecânico ou conjugado Tm e da corrente I2 podem
ser determinados os valores do conjugado e da corrente para determinado valor do
escorregamento s. Fazendo-se s = 1 tem-se o conjugado de partida Tp e da corrente
de partida I2p; verifica-se que com s = 0 o conjugado a corrente são nulos.
O conjugado máximo TM pode ser determinado derivando a expressão de Tm
em relação a s e igualando a zero. Determina-se, então, o escorregamento s = sM e
o correspondente valor TM. No entanto, pode-se observar do circuito equivalente e
da expressão de Tm que o máximo TM ocorre em sM para o qual se tem:
Resulta para o conjugado eletromecânico máximo TM:
84
Ou também:
* * *
Exemplo:
Sendo dados para um motor trifásico: potência P = 20 kW, tensão V1 = 460 V
(de linha), p = 6 polos, f = 60 Hz; resistências e reatâncias por fase: R1 = 0,271 Ω,
R2=0,188 Ω, X1 = 1,12 Ω, X2 = 1,91 Ω e Xm = 23,1 Ω, tem-se que: V1e = 253,3 V,
R1e=0,246 Ω, X1e = 1,071 Ω.
No ponto de conjugado máximo tem-se: sM = 0,063, nm = 1125 rpm, TM = 237
N.m. Na partida o conjugado é Tp = 31,7 N.m e a corrente é Ip = 84,1 A.
* * *
Os motores de indução do tipo gaiola na operação em condições de
frequência constante apresentam pouca variação de velocidade (da ordem de 10 %
entre a condição de vazio a plena carga), sendo praticamente um motor de
velocidade constante. No motor bobinado a velocidade depende da resistência do
enrolamento do rotor, inclusive de resistência incluída no circuito externamente.
A Figura 3.17 mostra características de conjugado eletromecânico x
velocidade de um motor de indução com rotor bobinado, mostrando o efeito da
variação da resistência do circuito do rotor.
Figura 3.17 – Conjugado x velocidade e efeito da resistência do circuito do rotor
85
Ensaios a Vazio e Rotor Bloqueado
As características dos motores de indução e os seus parâmetros podem ser
determinados, na prática, através de testes ou ensaios a vazio e com o rotor
bloqueado ou travado, de forma semelhante aos testes que se faz com os
transformadores.
Em circuito aberto obtem-se as informações em relação à corrente de
excitação e às perdas em vazio. São conhecidos ou medidos os valores em vazio da
tensão de fase V1v, da corrente de linha I1v e a potência total de entrada Pv.
As perdas rotacionais Prot, em condições normais de funcionamento, podem
ser determinadas subtraindo-se as perdas Ps do estator da potência de entrada Pv
em vazio, desprezando-se as perdas do rotor, sendo, portanto:
O movimento do rotor é regido pela seguinte equação, sendo J o momento de
inércia das partes rotativas:
Tem-se que:
Resulta para as perdas no núcleo:
Nas condições em vazio tem-se que a resistência de perdas no núcleo Rc é
dada por:
Tem-se para a reatância em vazio Xv, que é a reatância própria do estator, de
forma aproximada:
A potência reativa Qv, é obtida a partir de Qv e de Sv = 3 V1v I1v, sendo dada
por:
Resulta de outra forma, para a reatância em vazio Xv:
86
Sendo, geralmente, R1<< X11 (e Qv<< Sv) tem-se para Xv:
Com o rotor bloqueado, ou rotor travado, obtem-se as impedâncis de
dispersão. São conhecidos ou medidos os valores com o rotor bloqueado da tensão
de fase V1b, da corrente de linha I1b, a potência total de entrada Pb e a frequência fb.
Com base nas medições de rotor bloqueado a potência reativa Qb pode ser
determinada a partir da potência ativa Pb e da potência aparente total de rotor
bloqueado Sb = 3V1bI1b, sendo dada por:
A reatância de rotor bloqueado Xb, com correção de frequência de rotor
bloquedo fb para a frequência nominal fn, é dada em função da potência reativa Qb e
da corrente I1b por:
A resistência de rotor bloqueado Rb é dada por:
A impedância de rotor bloqueado Zb é dada por:
Desenvolvendo, tem-se:
Daí, tem-se a resistência Rb e a reatâncias Xb de rotor bloqueado:
Considerando que R2 <<Xm, tem-se:
87
Dessas expressões, resultam:
Sendo Xv ≈ X11 = X1 + Xm, tem-se Xm ≈ Xv -X1, donde:
Tendo-se a relação entre X1 e X2, às vezes considerada como
aproximadamente igual a 1, pode-se obter X1. Com Xv e X1 obtem-se, então:
A Tabela 3.1 apresenta uma distribuição de reatâncias de dispersão em
motores de indução, com base em norma do IEEE.
Tabela 3.1 - Distribuição de reatâncias de dispersão em motores de indução
Considerações sobre as Aplicações dos Motores de Indução
As aplicações dos motores de indução consideram as diversas características
em termos de partida, conjugado, escorregamento e corrente, que são divididas em
classes. Uma dessas classificações considera as classes A, B, C, e D, conforme as
características apresentadas a seguir;
Classe A: conjugado de partida normal, corrente de partida normal e
escorregamento baixo;
Classe B: conjugado de partida normal, corrente de partida baixa e
escorregamento baixo;
Classe C: conjugado de partida alto e corrente de partida baixa;
Classe D: conjugado de partida alto e escorregamento alto.
88
Essas características dos motores de indução estão apresentadas nos
gráficos da Figura 3.18.
Figura 3.18 – Características típicas de motores de indução por classes
89
4 – MÁQUINAS DE CORRENTE DE CONTÍNUA
São apresentados a seguir as máquinas de corrente contínua, com seus
princípios, propriedades e caraterísticas em estado permanente.
4.1 - PRINCÍPIOS
As máquinas de corrente contínua são os equipamentos ou dispositivos
capazes de fazer conversões entre energia mecânica e energia elétrica, com a
utilização de corrente contínua. Podem ser geradores ou motores de corrente
contínua.
Os geradores, também denominadas de dínamos, convertem energia
mecânica em energia elétrica, gerada sob a forma de tensão e corrente contínua. Os
motores convertem energia elétrica, sob a forma contínua, em energia mecânica.
Praticamente não há diferença significativa entre um motor e um gerador de
corrente contínua, podendo a máquina ser usada de uma forma ou de outra,
dependendo do que nela seja aplicada, a energia mecânica ou a energia elétrica,
respectivamente. Pode-se dizer que o motor e o gerador de corrente contínua
apresentam operações de forma inversa, um do outro; pode ser a mesma máquina
usada com a função de gerador ou de motor
A quase totalidade da energia elétrica é produzida e utilizada sob a forma de
tensão ou corrente alternada prevalecendo, então, a geração de corrente alternada.
A geração de corrente contínua tem sido muita rara, e somente em casos bem
específicos ela pode ser justificada, mesmo assim de pequeno porte comparada
com a alternada.
A maior dificuldade para o uso dos motores de corrente contínua está
relacionada com a grande disponibilidade da corrente alternada pelos sistemas de
energia e a necessidade da conversão da CA para a CC, o que se reflete nos custos
desses motores CC.
As máquinas de corrente contínua são constituídas basicamente do rotor e
do estator, como suas partes principais. Fazem parte também dessas máquinas
alguns componentes como o anel comutador, as escovas, os enrolamentos da
90
armadura, enrolamentos do campo e enrolamentos compensadores, que são
essenciais para seu funcionamento.
A diferença básica entre as máquinas CC e as máquinas CA está no uso da
comutação, necessária para fazer a inversão da corrente nos ciclos em que ela
passaria a ter sinal negativo, facilitando o processo de obtenção da corrente
contínua.
A Figura 4.1 mostra um esquema básico para uma máquina de corrente
contínua elementar, indicando o polo no estator, o enrolamento do rotor, o
comutador, as escovas e sentido da rotação.
Figura 4.1 - Esquema de uma máquina CC elementar com comutador
A Figura 4.2 mostra outro esquema básico representativo de máquinas de
corrente contínua elementares, indicando o enrolamento do campo, no estator, da
armadura, no rotor e dos eixos direto e em quadratura, ou transverso.
Figura 4.2 - Esquema básico de um máquina CC
91
Os condutores dos enrolamentos da armadura passam pelas ranhuras do
rotor e são conectados externamente, conforme pode ser observado no esquema
mostrado na Figura 4.3.
Figura 4.3 mostra um esquema de enrolamentos no rotor, com indicações dos
eixos magnéticos.
Figura 4.3 - Esquema de enrolamentos no rotor ou armadura da máquina CC
O rotor da máquina de corrente contínua é a parte girante, montada sobre o
eixo da máquina, construído de um material ferromagnético envolto por um
enrolamento e o anel comutador. O enrolamento suporta uma alta corrente em
comparação à do enrolamento de campo e é o circuito responsável por transportar a
energia proveniente da fonte de energia.
A armadura é onde fica a tensão principal, gerada ou aplicada, que no caso,
fica no rotor; é o enrolamento do rotor, enrolamento de armadura, ou também
induzido.
O estator é a parte fixa ou estática da máquina, montada em volta do rotor,
de forma que ele possa girar internamente. É constituido também de material
ferromagnético, envolto por um enrolamento de baixa potência, o enrolamento de
campo ou excitação, ou ainda indutor, que tem a função de produzir um campo
magnético fixo, de polos salientes, para interagir com o campo da armadura. A
externa do estator é a carcaça.
O anel comutador é uma peça, constituída de um anel de material condutor,
montada no rotor com a finalidade de realizar a inversão adequada do sentido das
correntes que circulam no enrolamento de armadura, segmentado por um material
isolante, de forma a fechar o circuito entre cada uma das bobinas do enrolamento de
92
armadura e as escovas no momento adequado. O anel é montado junto ao eixo da
máquina e gira junto com a mesma. O movimento de rotação do eixo produz a
comutação entre os circuitos dos enrolamentos.
As escovas são peças de carvão montadas para fazer contato com a
armadura, com a finalidade de permitir a condução de energia entre o circuito do
rotor e a parte externa da máquina.
Os enrolamentos são os circuitos, ou bobinas, que fazem parte da máquina e
são montados na armadura e no estator. São, respectivamente, os enrolamentos de
armadura ou rotor e os enrolamentos de campo ou de excitação. No estator há o
enrolamento principal, mas em algumas máquinas pode haver enrolamentos
auxiliares.
Nos polos de comutação ficam os enrolamentos de comutação, que tem como
função diminuir o faiscamento no anel comutador. Em algumas tipos de máquinas é
possível encontrar enrolamentos de compensação, ou enrolamentos
compensadores, que tem como função compensar o efeito desmagnetizante da
reação de armadura.
Podem ser definidos ou identificados na máquina de corrente contínua os
eixos de campo, ou eixo direto, e o eixo da FMM, em quadratura, em que aparece a
tensão induzida. Os polos principais ficam estator, mas pode haver também polos de
comutação.
A Figura 4.4 mostra um esquema básico para uma máquina de corrente
contínua típica, em que são indicadas suas partes constituintes.
Figura 4.4 – Esquema da Máquina CC com as partes constituintes
93
Figura 4.5mostra um esquema de uma máquina CC de 4 polos.
Figura 4.5 - Esquema de uma máquina CC de 4 polos
A Figura 4.6 mostra uma máquina de corrente contínua em corte, onde são
indicadas as partes componentes.
Figura 4.6 - Máquina CC em corte com indicação das partes componentes
A Figura 4.7 mostra um estator e um rotor de um motor CC com as bobinas
série e derivação, interpolos e enrolamentos de compensação.
Figura 4.7 - Estator e rotor de um motor CC
94
4.2 - FUNCIONAMENTO
Uma máquina de corrente contínua serve, praticamente, para funcionar como
gerador ou como motor, dependendo do que a ela seja aplicado, se torque ou
tensão, respectivamente, mas a operação de ambos é, basicamente, de forma
inversa. Alguns detalhes dessas operações são indicadas a seguir.
Operação como gerador CC
No gerador CC a energia mecânica é suprida pela aplicação de um torque e
da rotação do eixo da máquina, uma fonte de energia mecânica que pode ser, por
exemplo, uma turbina hidráulica, uma turbina eólica, turbina térmica, dentre outras
formas.
A fonte de energia mecânica tem o papel de produzir o movimento relativo
entre os condutores elétricos dos enrolamentos de armadura e o campo magnético
produzido pelo enrolamento de campo e, desse modo, provocar uma variação da
intensidade e do fluxo magnético, e assim, pela lei de Faraday, induzir uma tensão
entre os terminais do condutor.
Desta forma, a energia mecânica fornecida ao eix, é armazenada no campo
magnético da máquina, que estabelece a tensão gerada e, através das escovas,
transfere a tensão para a parte externa, para alimentar alguma carga conectada à
máquina.
Operação como motor CC
No caso de motores, o funcionamento é praticamente de modo inverso: a
energia elétrica é fornecida aos condutores do enrolamento da armadura pela
aplicação de uma tensão elétrica em seus terminais pelo anel comutador (coletor),
fazendo com que circule uma corrente elétrica nesse enrolamento que produz um
campo magnético no enrolamento da armadura.
Como o corpo do estator é constituído de materiais ferromagnéticos, com a
aplicação da tensão nos terminais do enrolamento de campo da máquina tem-se
uma intensificação do campos magnéticos e, portanto, a produção de polos
magnéticos (norte e sul) espalhados por toda a extensão do estator.
Pela atuação do anel comutador, que tem como função alternar o sentido de
circulação da corrente no enrolamento da armadura, quando se aplica uma tensão
95
no comutador, com a máquina parada, a tensão é transferida ao enrolamento da
armadura fazendo com que nele circule uma corrente que produz um campo
magnético e outros pares de polos no enrolamento da armadura.
A orientação desse campo, através da posição dos polos norte e sul,
permanece fixa, e simultaneamente tem-se uma tensão elétrica aplicada no
enrolamento de campo no estator. Assim, a interação entre os campos magnéticos
da armadura no rotor e do campo no estator apresentam a tendência de se alinhar,
ou seja, o polo norte de um dos campos tende a se aproximar do polo sul do outro.
Estando os campos da armadura e do estator não alinhados, surge um binário
de forças que produz um torque no eixo, fazendo-o girar. Com isso, o eixo gira o
anel comutador, montado sobre ele, e com isso o anel comutador muda o sentido de
aplicação da tensão, fazendo a corrente circular no sentido contrário, mudando o
sentido do campo magnético produzido.
Assim, ao girar o anel comutador muda a posição dos polos magnéticos norte
e sul do campo da armadura e como o campo produzido pelo enrolamento de campo
no estator fica fixo, tem-se novamente a produção do binário de forças que mantém
a mudança dos polos e, conseqüentemente, o movimento do eixo da máquina.
Funcionalidade das máquinas CC
As máquinas de corrente contínua apresentam uma série de propriedades ou
características em seu funcionamento que ainda justificam suas aplicações, mesmo
diante das aplicações mais generalizadas das de correnta alternada.
Os motores de corrente contínua são ainda muito utilizados em grande
variedade de atividades, principalmente nas indústrias. Atualmente, no entanto,
componentes eletrônicos de tensão alternada já são capazes de controlar a
velocidade do motor assíncrono facilmente e, pelo seu menor custo e recursos de
aplicação, estão substituindo os motores de corrente contínua na maior parte das
aplicações.
Entretanto, devido a alguns aspectos relacionados com sua versatilidade e
flexibilidade no uso, assim como pela facilidade de controle e amplas faixas de
velocidade nas aplicações as máquinas de corrente contínua continuarão a ser
bastante utilizada.
96
Essas máquinas têm facilidade de controle, sendo esse controle muito preciso
para a obtenção da saída dos motores em termos de velocidades e torques; há
também simplicidade dos acionamentos das cargas que a elas são acopladas.
As máquinas de corrente contínua apresentam também bons desempenhos
em diversas situações tanto em condições de regime permanente como nas
operações dinâmicas.
4.3 - CARACTERÍSTICAS DAS MÁQUINAS CC
As principais características das máquinas de corrente contínua estão
expressas através das curvas que relacionam as variáveis envolvidas: tensão,
corrente, velocidade e conjugado. Essas características são basicamente as
seguintes:
Característica tensão x corrente
Característica velocidade x conjugado
Essas características dependem fundamentalmente dos enrolamentos de
campo, dos diversos tipos de excitação, conforme será visto adiante: independente,
série, derivação e composto, ou suas combinações.
A Figura 4.8 mostra exemplos de máquinas de corrente contínua, sendo uma
de média e outra de grande potência.
Figura 4.8 - Exemplos de máquinas CC
Esquemas Básicos das Máquinas CC
Um esquema básico, muito elementar, de um gerador CC com 2 polos,
utilizado na análise das máquinas CC, está mostrado na Figura 4.9. Pode-se notar o
97
estator, o rotor, os polos, as escovas, a comutação, as bobinas da armadura e o
sentido de rotação.
À direita está uma representação muito simplificada, como utilizada nos
circuitos.
Figura 4.9 – Máquina CC elementar e representação esquemática
Considerando que Bsr é a densidade do fluxo resultante no entreferro, Fr é o
valor máximo da onda de força magnetomotriz do rotor, δ r é o ângulo do eixo da
onda de FMM do rotor em relação à resultante, D é o diâmetro médio do entreferro e
l seu compromento axial, a expressão do torque eletromecânico é:
De outra forma, em termos das variáveis de eixo direto, com Fs = Fd e Bsr = Bd
no estator, Fr = Fa1 no rotor e ϕd, pode-se escrever:
Resulta que, com δr = 900:
Sendo o valor de pico da onda fundamental da FMM da armadura Fa1,
expressa em termos do númeo total de condutores no entreferro de armadura Ca, do
número de caminhos paralelos no enrolamento de armadura m e do número de
polos p e da ia a corrente de armadura (em A), sendo dado por:
98
Obtem-se, então, em termos ϕd, ia e da constante de enrolamento Ka:
A Figura 4.10 ilustra a distribuição espacial da densidade de fluxo magnético
e a tensão entre as escovas de uma máquina de corrente contínua.
Figura 4.10 - Distribuição espacial da densidade de fluxo magnético e a tensão entre as
escovas de uma máquina CC.
Como efeito da distribuição dos enrolamentos da armadura em diversas
ranhuras tem-se uma onda resultante pulsante, com forma próxima da tensão
contínua, conforme pode ser observado na Figura 4.11, uma tensão quase
retificada.
Figura 4.11 - Forma de tensão em uma máquina CC, quase retificada.
99
A tensão gerada e retificada é observada entre as escovas de forma
ondulada, mas tendo um valor médio, como uma tensão contínua ea, sendo uma
tensão de velocidade, dada em termos de ϕd, ωm e da constante de enrolamento Ka
pela expressão:
As potências elétrica, associda à tensão de velocidade e corrente de
armadura, e mecânica, associda ao torque mecânico e velocidade angular, são
praticamente iguais, desconsiderando as perdas. Tem-se, então:
As características de fluxo magnético ϕd, ou tensão ea, versus a força
mognetomotriz Fd (NfIf), ou corrente If, correspondem às curvas de magnetização da
máquina.
A Figura 4.12 mostra formas típicas das curvas de magnetização de uma
máquina de corrente contínua. Os fluxos e tensões apresentam valores diferentes de
zero para corrente zero, devido a magnetismo residual das estruturas magnéticas.
Figura 4.12 - Formas típicas das curvas de magnetização de uma máquina CC
Em geral é mais conveniente expressar a curva de magnetização em termos
de determinada referência de tensão eao e velocidade ωao, obtendo-se a seguinte
relação:
Daí resulta:
100
Algumas máquinas de corrente contínua utilizam imã permanente em vez de
eletroímã, em função do tipo de utilização.
A Figura 4.13 mostra um motor CC de imã permanente desmontado.
Figura 4.13 - Motor CC de imã permanente desmontado
Classificação das Máquinas CC
As máquinas de corrente contínua podem ser classificadas segundo a
maneira como se alimenta a máquina através de seu campo. Pode ser de excitação
independente ou separada, de excitação série, de excitação shunt ou em derivação
(paralelo) e de excitação composta (compound).
Excitação independente ou separada
Na configuração de excitação independente ou separada o circuito de
excitação da máquina é alimentada por uma fonte adicional CC independente ou
separada da fonte de corrente contínua que alimenta a armadura, conforme mostra
o esquema da Figura 4.14.
Figura 4.14 – Esquema do motor CC com excitação separada
101
Em geral, o enrolamento de campo que produz a excitação é constituído de
condutores que não suportam grandes correntes, pois a excitação, em geral, utiliza
correntes baixas para produzir o campo magnético em comparação com as
correntes que circulam no enrolamento de armadura.
Excitação série
Com a excitação série o circuito do enrolamento de campo que produz a
excitação está em série com o circuito de armadura, sendo assim necessário apenas
uma fonte para alimentar o circuito de campo e o da armadura, conforme mostra o
esquema da Figura 4.15.
Figura 4.15 – Esquema do motor CC com excitação série
Como neste caso, a corrente que circula no enrolamento de campo que
produz a excitação é a mesma corrente que circula no enrolamento da armadura, é
necessário um enrolamento próprio para o circuito de excitação, capaz de suportar
correntes relativamente altas da armadura.
Excitação Shunt ou em Derivação (paralelo)
Com a excitação shunt ou em derivação o circuito do enrolamento de campo
que produz a excitação está em paralelo ou em derivação com o circuito de
armadura, conforme mostra o esquema da Figura 4.16.
Figura 4.16 – Esquema do motor CC com excitação derivação
102
Nessa configuração é necessário apenas uma fonte de corrente contínua para
alimentar o circuito de armadura e de campo, pois ambos os circuito estão em
paralelo. Como o enrolamento de campo está em paralelo ou em derivação com o
circuito de armadura, é possível utilizar o mesmo tipo de condutor do caso de
excitação independente.
Excitação composta
A configuração de excitação composta, também chamada compound,
corresponde a se ter dois enrolamentos de excitação, um em série e outro em
derivação, podendo haver o esquema de ligação longo ou curto e composto aditivo
ou subtrativo, conforme mostra o esquema da Figura 4.17.
Figura 4.17 – Esquema do motor CC com excitação composta
Nesse esquema de ligação utiliza-se uma combinação da excitação série e
shunt, de forma a aproveitar os benefícios de ambas as ligações. Em muitas
aplicações o enrolamento série é utilizado para compensar o efeito desmagnetizante
da reação de armadura.
A Figura 4.18 mostra um esquema de um gerador de corrente contínua com
excitação composta, com indicação das tensões e dos sentidos das correntes; para
as tensões tem-se que: Ea > Va > Vt. Na operação como motor os sentidos das
correntes seriam invertidos, tendo-se para as tensões: Ea < Va < Vt.
Figura 4.18 – Esquema do gerador CC com excitação composta
103
As características das máquinas de corrente contínua indicam o
comportamento dessas máquinas em várias condições, que dependem
fundamentalmente dos tipos de excitação empregada. Essas características indicam
o comportamento das máquinas basicamente em termos de correntes, tensões,
torques e velocidades.
A Figura 4.19 mostra as curvas representativas das características tensão x
corrente para os geradores de corrente contínua, em regime permanente, para os
diferentes tipos de excitação.
Figura 4.19 - Características dos geradores CC tensão x corrente
Pode-se observar as diferenças entre essas características, destacando-se
que a de excitação composta apresenta, em geral, melhor desempenho.
A Figura 4.20 mostra as curvas representativas das características velocidade
x torque dos geradores CC para os tipos de excitação shunt, série e composta.
Figura 4.20- Características dos geradores CC velocidade x torque
104
A Figura. 4.21 mostra um gráfico comparativo entre os tipos de motores CC,
contendo uma relação entre corrente na armadura e torque do motor para os
diferentes tipos de excitação.
Figura. 4.21 - Comparativo entre os tipos de motores CC
Análise dos Circuitos Equivalentes
Nas máquinas de corrente contínua verificam-se relações diretas entre os
toques e as correntes e entre as tensões e as velocidades.
A Figura 4.22 mostra um esquema de um motor CC com o circuito
equivalente relativo à armadura, com indicação dos parâmetros e varióveis em
regime permanente, necessário à analise das relações entre o torque e a corrente e
entre a tensão e a velocidade.
Figura 4.22 – Esquema de um motor CC
Têm-se as equações para tensões e corrente na armadura, no caso do motor:
105
A potência de entrada Pt nos terminais do motor é dada por:
A potência eletromagnética Pe é dada por:
Sendo gerador as equações para tensões e corrente ficam:
A tensão gerada resulta da velocidade, sendo:
O torque mecânico resulta da corrente, sendo:
* * *
Exemplo:
Sendo dados para uma máquina CC: P = 25 kW, Ea = 125 V, nm = 3000 rpm,
Vt = 128 V (operação como motor), Ra = 0,02 Ω, tem-se que: Ia = 150 A, Pt =19,20kW,
Pe =18,75 kW, ωm =100π rd/s e Tm=59,7 N.m.
Caso Vt = 124 V (operação como gerador), tem-se que: Ia = 50 A, Pt =6,20 kW,
Pe =6,25 kW e Tm=19,9 N.m.
* * *
Tem-se ainda que:
A Figura 4.23 mostra um circuito equivalente de uma máquina CC para o caso
de excitação separada, em cuja análise deve-se incluir a equação referente ao
campo.
106
Figura 4.23- Circuito equivalente para excitação separada
Considerações sobre as Aplicações do Motores CC
Em geral, a vantagem das máquinas CC reside na sua flexibilidade e
versatilidade. Antes da ampla disponibilidade de unidades de motor CA, máquinas
CC foram essencialmente as opções disponíveis para muitas aplicações que
requeriam um alto grau de controle.
Suas principais desvantagens decorrem da complexidade associada com o
enrolamento da armadura e do sistema comutador/escova. Não só essa
complexidade adicional aumenta o custo em relação às máquinas CA, como
também aumenta a necessidade de manutenção e reduz o potencial de
confiabilidade dessas máquinas.
As vantagens de motores CC ainda permanecem, e eles continuam a manter
competitividade e forte posição em ambos os tamanhos, grandes para aplicações
industriais e em tamanhos menores para uma grande variedade de aplicações.
Geradores de corrente contínua apresentam uma solução simples em
algumas situações muito particulares. Apesar do problema de converter energia
mecânica para energia elétrica em forma CC precisar de geradores de corrente de
alimentação do retificador, esses sistemas são certamente uma opção que deve ser
considerada.
Entre os geradores de corrente contínua os de excitação separada têm a
vantagem de permitir uma vasta gama de tensões de saída. As máquinas auto-
excitados são mais comuns mas podem produzir tensões instáveis em menores
tensões de saída, onde a linha de resistência de campo torna-se essencialmente
tangente, na curva de magnetização.
Os geradores compostos podem produzir uma característica de tensão
relativamente plana ou se eleva com a carga, enquanto que o shunt ou de excitação
107
separada pode produzir uma característica de tensão com inclinação, a menos que
meios reguladores externos, como um enrolamento do campo série, sejam
adicionados.
Entre motores de corrente contínua, as características em movimento indicam
que o motor série opera com uma velocidade em queda com a carga; na ausência
de carga a velocidade geralmente torna-se muito alta alta e o torque é
aproximadamente proporcional ao quadrado da corrente, mas com baixos níveis de
fluxo essa potência fica entre 1 e 2 com o aumento da saturação.
O motor shunt de corrente de campo constante opera com uma pequena
inclinação mas a velocidade é quase constante à medida que a carga é adicionada.
Iigualmente importante, no entanto, é o fato de que a sua velocidade pode ser
controlada em faixas amplas de controle do campo em derivação, controle de tensão
da armadura, ou um combinação de ambos. Dependendo da relação de forças entre
o campo shunt e série, o motor composto é intermediário entre os outros dois e pode
ter as vantagens de um ou do outro.
Em uma ampla variedade de aplicações de baixa potência em sistemas que
são executados a partir de uma fonte CC (aplicações automotivas, eletrônicos
portáteis etc), máquinas CC são os de menor relação custo-benefício. Estas
máquinas CC são construídas em uma ampla gama de configurações, e muitos
deles são baseados em imã permanente excitação.
Apesar da grande variedade de máquinas CC que pode ser encontrado
nessas várias aplicações, o seu desempenho pode ser analisado utilizando os
modelos e técnicas apresentadas.
108
REFERÊNCIAS
BIM, E. Máquinas Elétricas e Acionamento. Elsevier Editora, 2ª Edição. São
Paulo, 2012.
CARVALHO, G. Máquinas Elétricas Teoria e Ensaios. Editora Érica Ltda, São
Paulo, 4ª. Edição, 2011.
ELLISON, A.J. Conversão Eletromecânica de Energia. USP, Editora Polígono,
São Paulo, 1972
FALCONE, Aurio G. Eletromecânica. Edgard Blücher, São Paulo 1978.
FITZGERALD, A. E., KINGSLEY, C. Máquinas Elétricas: com Introdução à
Eletrônica de Potência, 6a. Ed. Bookman, Porto Alegre, 2006.
KOSOW, IRVING L. Máquinas Elétricas e Transformadores. Ed. Globo, 7ª
Edição, Porto Alegre, 1972.
MAMEDE FILHO, João. Instalações Elétricas Industriais. LTC Editora, 7ª. Edição,
Rio de Janeiro, 2007.
TORO, V. Del. Fundamentos de Máquinas Elétricas. Editora LTC, Rio de
Janeiro, 1999.
109