0% acharam este documento útil (0 voto)
163 visualizações34 páginas

Tragédia de Inês de Castro

O poema narra a trágica história de amor entre D. Pedro e Inês de Castro. Apesar do amor do povo por ela, Inês é morta a mando do rei D. Afonso IV, influenciado pela vontade do povo. Inês faz um emocionante discurso pedindo clemência pelo bem de seus filhos, mas é executada mesmo assim. Sua morte é lamentada por toda a natureza.

Enviado por

Carolina Mota
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
163 visualizações34 páginas

Tragédia de Inês de Castro

O poema narra a trágica história de amor entre D. Pedro e Inês de Castro. Apesar do amor do povo por ela, Inês é morta a mando do rei D. Afonso IV, influenciado pela vontade do povo. Inês faz um emocionante discurso pedindo clemência pelo bem de seus filhos, mas é executada mesmo assim. Sua morte é lamentada por toda a natureza.

Enviado por

Carolina Mota
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato DOCX, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

RESUMOS DO EPISÓDIO INÊS DE CASTRO

Os Lusíadas - Episódio de Inês de Castro


(Luís de Camões)

O episódio de Inês de Castro encontra-se no canto III d' Os Lusíadas , desenrola-se entre as estrofes 118 e 135 e pertence ao Plano Narrativo da
História de Portugal.

É Vasco da Gama (narrador) quem conta ao rei de Melinde (narratário) este trágico episódio que começa com o regresso vitorioso de D. Afonso
IV. o Bravo, da Batalha do Salado.

Antes ainda de se centrar em Inês, o narrador começa por chamar a nossa atenção, na estrofe 119, para o cruel amor, que considera como
principal culpado da morte de Inês. O amor é descrito como feroz e tirano, desejoso de sangue humano.

Na estrofe 120, o narrador centra a sua atenção em Inês, que descreve como uma jovem linda e alegre que passeava despreocupadamente
pelos campos do Mondego (Coimbra) onde costumava encontrar-se com o príncipe D. Pedro. A Natureza surge como amiga e confidente de
Inês, testemunha do amor entre os dois.

Alertado pelo murmurar do povo que não via com bons olhos a recusa de D. Pedro em casar-se, o rei, D. Afonso IV, acaba por, contra a sua
vontade, ordenar a morte de Inês. O rei é claramente desculpabilizado por Camões que atribui culpas ora ao amor, ora ao destino, ora ao povo.

Na estrofe 124, os carrasco levam Inês perante o rei, que, apesar de comovido, é, mais uma vez, convencido pela vontade do povo.

Entre as estrofes 126 e 129, Inês desenvolve o seu discurso, suplicando ao rei para que lhe poupe a vida e argumenta relembrando-o de que
até os animais mais ferozes têm sentimentos e de que ela, como inocente (pois o seu único crime foi o amor), merece pelo menos a
oportunidade de criar os seus filhos, ainda que fosse condenada a um desterro em terras longínquas apenas habitadas por animais selvagens.
Chama ainda a atenção do rei para os seus filhos, que, afinal, são netos dele.
O rei comove-se com as palavras de Inês, mas o seu destino estava traçado e o rei acaba por seguir a vontade cruel do povo.

Na estrofe 132, assistimos à morte de Inês levada a cabo pelos carrasco que a matam sem piedade com as suas espadas.  A Natureza, outrora
amiga e confidente de Inês, chora a sua morte. As lágrimas das ninfas do Mondego transformam-se na bela fonte que ainda hoje podemos
visitar na Quinta das Lágrimas em Coimbra - a fonte dos amores.

Estrutura
Est. Resumo Interpretação
interna

O poeta depois de ter cantado a bravura de D. Afonso IV na vitória de Salado, volta-se para
Conclusão do episódio da Batalha
um caso com carga socio trágica de um amor infeliz da "misera e mesquinha / que despois
118 do Salado e introdução do
de morta foi rainha". É após esta referência histórica que é "desenterrado" o caso "triste e
episódio de Inês de Castro.
dino" de D. Inês. de Castro.
Exposição:

O poeta apresenta-nos o Amor como o grande culpado da morte de Inês, como se fosse a
Identificação e caracterização do
119 sua pior inimiga. Dizem que a sede de amor nem com lágrimas se satisfaz: ela exige
culpado do fim trágico de Inês
sacrifícios humanos nos seus altares.

Conflito Amor despreocupado de Inês. Inês estava a viver tranquilamente os anos da sua juventude e o seu amor por Pedro nos
120 e (há indícios trágicos como sinais saudosos campos do Mondego onde confessava à natureza o amor que pelo dono do seu
121 de alerta - 120, vv. 3, 4 e 121, vv. coração. Na ausência do seu amado socorre-se das lembranças: de noite em sonhos; de dia
5, 6) em pensamentos. Para ele isto eram memórias de alegria.

122 (vv. Amor de D. Pedro Pedro recusa-se a casar com outras belas senhoras e princesas porque o seu amor por Inês
1-4) fá-lo desprezar os outros. Vendo esta conduta apaixonada e estranha, o pai, D. Afonso IV,
considerando o murmurar do povo e a atitude do filho que não se queria casar...

Reação de D. Afonso IV (note-se ... decide a morte de Inês para desse modo libertar o filho, preso pelo amor, julgando que o
. 122
a influência do povo - 122, e a sangue de uma morte infamante apagasse o fogo desse amor. Que loucura foi essa, que
(vv. 5-8)
pergunta de retórica do poeta - permitiu que a mesma espada que combateu os Mouros se levante contra uma dama
e 123
123, vv. 5-8) delicada?

O rei inclina-se a perdoar a Inês quando é levada pelos carrascos à sua presença, mas o
Inês é levada à presença do rei. povo, com razões falsas e firmes, exige a morte. Ela, com palavras inspiradas mais pela por
 124 e
(repare-se nos sentimentos que o de deixar os filhos e o seu príncipe que pelo receio da própria morte... .. levanta os olhos
125
texto transmite) (as mãos estavam a ser atadas pelos carrascos) e depois de olhar comovidamente os
filhinhos que estavam junto de si, disse para o rei e avô:

Se até os animais ferozes, que a natureza fez cruéis, e nas aves selvagens que só pensam
Discurso de Inês perante o rei.
em caçar, vimos haver piedade para com crianças pequenas como aconteceu com a mãe de
126- referência à piedade que
Nino e com Rómulo e Remo, ... tu que és humano (se é humano matar uma donzela fraca e
animais selvagens já
sem força, só por amar quem a ama), tem em consideração estas criancinhas. Decide
demonstraram com seres
compaixão delas e minha pois não te impressiona a minha inocência. E se na guerra contra
. 126 a humanos 127- Inês pede ao rei
os Mouros mostraste saber dar a morte, sabe, agora, dar a vida a quem não cometeu
129 que tenha o mesmo sentimento
nenhum erro para a perder. Mas mesmo assim se achas que a minha inocência merece
pelos seus filhos (netos dele)
castigo, desterra-me para a fria Cítia ou a Líbia ardente onde viverei em sofrimento para
128- 1ª- apelo à capacidade do
sempre. Manda-me para onde haja tigres e leões (animais selvagens) e verei se encontro
rei de perdoar 128 (2ª) e129-
entre eles a piedade que não encontrei entre humanos; e aí criarei estas criancinhas, a
alternativa à morte de Inês
minha única consolação, a pensar em Pedro que amo.

. 130 O rei vacila, mas o povo e o O rei queria perdoar-lhe, impressionado com aquelas palavras, mas o pertinaz povo e o
Destino (Fado) não deixam Destino não perdoam. Os que aconselharam a morte e julgando que estavam a fazer um
(pergunta de retórica do poeta - grande feito desembainharam as espadas. É contra uma dama indefesa que vos amostrais
vv. 7-8) valentes e cavaleiros?

Do mesmo modo que Pirro prepara o ferro para matar a jovem Policena, que se oferece ao
sacrifício, com os olhos postos em sua mãe, de quem era a sua única consolação... ... assim
131 - Morte de Inês comparada à de os algozes de Inês, sem se preocuparem com a vingança de D. Pedro, se encarniçavam
132 Policena contra ela, espetando as espadas no colo de alabastro, que sustinha as obras que fizeram
Pedro apaixonar-se por ela, e banhando em sangue o colo de alabastro já regado com
lágrimas suas.

      Bem puderas, ó Sol, não ter brilhado naquele dia, como aconteceu com o sinistro
      Reação do Sol - comparação
      133 banquete em que Atreu deu a comer a Tiestes os filhos deste. E vós, côncavos vales, que
com outro caso hediondo
ouvistes o nome de Pedro, na sua voz agoniante, por muito tempo fizestes eco do nome.

Assim como a bonina que é cortada antes do tempo por uma menina descuidada fazendo
  Desenlace Comparação de Inês morta com a
134 com que a flor murche rapidamente, também aconteceu o mesmo a Inês que perdeu a cor
bonina
e a vivacidade da pele.

Reação da Natureza à morte de A natureza e as mulheres de Coimbra choraram durante muito tempo a sua morte e quis
135
Inês eternizá-la na fonte das lágrimas que ainda existe.

D. Pedro após ter subido ao torno decidiu vingar-se fazendo um acordo com D. Pedro de
136 -
Vingança de D. Pedro Castela para recuperar os algozes de Inês que aí se tinham refugiado. A partir daí D. Pedro
137
foi imperdoável com aqueles que fizessem qualquer tipo de crime, aplicando a justiça.
(Canto III, estrofes 118 a 135)

Passada esta tão próspera vitória,


Tornado Afonso à Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória O rei D. Afonso IV voltou a Portugal, depois da vitória contra os mouros,
Quanta soube ganhar na dura guerra, esperando obter tanta glória na paz quanto obtivera na guerra. Então
O caso triste e dino da memória, aconteceu o triste e memorável caso da desventurada que foi rainha depois
Que do sepulcro os homens desenterra, de ser morta, assassinada.
Aconteceu da mísera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

Tu, só tu, puro Amor, com força crua, O Amor, somente ele, foi quem causou a morte de Inês, como se ela fosse
Que os corações humanos tanto obriga, uma inimiga. Dizem que o Amor feroz, cruel, não se satisfaz com as lágrimas,
Deste causa à molesta morte sua, com a tristeza, mas exige, como um deus severo e absoluto, banhar os seus
Como se fora pérfida inimiga.
altares (“aras”) em sangue humano: requer sacrifícios humanos.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga, A palavra “pérfido”, na obra, geralmente refere-se aos Mouros inimigos.
É porque queres, áspero e tirano, Nesse verso, parece indicar que Inês foi morta com a mesma crueldade que
Tuas aras banhar em sangue humano. se usava contra eles.

Inês estava em Coimbra, sossegada, usufruindo (“colhendo doce fruito”) da


felicidade ilusória (“engano da alma, ledo e cego”) e breve (“Que a Fortuna não
Estavas, linda Inês, posta em sossego, deixa durar muito”) da juventude. Nos campos, com os belos olhos húmidos de
De teus anos colhendo doce fruito, lágrimas de amor, repetia o nome do seu amado aos montes (para cima, para o
Naquele engano da alma, ledo e cego, alto) e às ervas (para baixo, para o chão).
Que a Fortuna não deixa durar muito, As formas “fruito” e “enxuito” são variantes de “fruto” e “enxuto”. Durante muito
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito, tempo, enquanto a Língua Portuguesa se solidificava, essas variantes foram
Aos montes insinando e às ervinhas utilizadas simultaneamente. A Língua Portuguesa acabou por definir “fruto” e
O nome que no peito escrito tinhas. “enxuto” como a forma culta. Na época de Camões, palavras como despois, fruito,
enxuito e escuito eram as mais usadas. Ele, então, prefere estas formas para se
adequar à estrutura poética de Os Lusíadas – a oitava rima -, formada por versos
decassílabos (heróicos ou sáficos), e respeitar o sistema rítmico dos versos –
abababcc. Portanto, fruito (verso 2) e enxuito (verso 6) são as rimas cabíveis a muito
(verso 4). Estas formas arcaicas ainda são utilizadas em muitas regiões.

As lembranças do Príncipe D.Pedro respondiam-lhe, em pensamentos e em sonhos,


quando ele estava longe. Isto é, a memória do amado fazia com que Inês
Do teu Príncipe ali te respondiam conversasse com ele, quando este estava ausente. Ambos não se esqueciam um do
As lembranças que na alma lhe moravam, outro e se “comunicavam” através da memória, em forma de pensamentos e
Que sempre ante seus olhos te traziam, sonhos. Assim, tudo quanto faziam ou viam os fazia felizes, porque se lembravam
Quando dos teus fermosos se apartavam; dos respectivos amados.
De noite, em doces sonhos que mentiam, Esta estrofe é bastante ambígua. As lembranças do Príncipe vinham à mente de Inês
De dia, em pensamentos que voavam; como resposta aos seus cuidados amorosos; por outro lado, as mesmas lembranças,
E quanto, enfim, cuidava e quanto via agora de Inês, existiam (moravam) na alma do príncipe quando estava longe da
Eram tudo memórias de alegria. amada. Os sonhos e os pensamentos dos versos 5 e 6, dois modos de lembranças,
pertencem indistintamente ao amado e à amada. E o sujeito de cuidava e via, no
verso 7, tanto pode ser ela quanto o Príncipe.

De outras belas senhoras e Princesas


Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas, O Príncipe recusa casar-se com outras mulheres (tálamo: casamento, leito conjugal)
Quando um gesto suave te sujeita. porque o amor despreza, rejeita tudo que não seja o rosto do amado (gesto significa
Vendo estas namoradas estranhezas, rosto, semblante) a quem está sujeito. Ao ver este estranho amor, este
O velho pai sesudo, que respeita comportamento estranho de não querer se casar, o pai sisudo (sério, grave) atende
O murmurar do povo e a fantasia ao murmurar do povo e…
Do filho, que casar-se não queria,
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo c’o sangue só da morte ladina … decide matar Inês, para que o filho seja libertado do seu amor. O pai acredita que
Matar do firme amor o fogo aceso. só o sangue da morte apagará o fogo do amor. Que fúria foi essa que fez com que a
Que furor consentiu que a espada fina, espada cortante que afrontara o poder dos Mouros fosse levantada contra uma
Que pôde sustentar o grande peso frágil e indefesa mulher?
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hûa fraca dama delicada?

Traziam-na os horríficos algozes


Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes Quando os horríveis e cruéis carrascos trouxeram Inês perante o rei, este já estava
Razões, à morte crua o persuade. compadecido (com dó) e arrependido. No entanto, o povo persuadia, incitava o rei
Ela, com tristes e piedosas vozes, a matá-la. Inês, então, com palavras ou com a voz triste, sentindo mais pela dor e
Saídas só da mágoa e saudade saudade do príncipe e dos filhos do que pela própria morte…
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

Pera o céu cristalino alevantando,


Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando Levantando os olhos cheios de lágrimas ao céu (somente os olhos, porque um
Um dos duros ministros rigorosos); carrasco prendia-lhe as mãos) e, depois, olhando para as crianças – que amava
E despois, nos mininos atentando, tanto e temia que ficassem órfãs -, disse para o avô cruel (o rei):
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o avô cruel assi dizia:

Se já nas brutas feras, cuja mente “Se já vimos que até os animais selvagens, cujos instintos são cruéis, e as aves de
Natura fez cruel de nascimento, rapina têm piedade com as crianças, como demostraram as histórias da mãe de
E nas aves agrestes, que somente Nino e a dos fundadores de Roma…”
Nas rapinas aéreas tem o intento, Semíramis, rainha da Assíria e mãe de Nino, a abandonara num monte. Nino foi
Com pequenas crianças viu a gente alimentada por aves de rapina. Rômulo e Remo, fundadores de Roma, foram
Terem tão piedoso sentimento abandonados quando infantes e amamentados por uma loba.
Como c’o a mãe de Nino já mostraram,
E c’os irmãos que Roma edificaram:

Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito Sendo assim, ele, o rei, que tinha o rosto e o coração humanos (se é que é humano
(Se de humano é matar hûa donzela, matar uma mulher só porque esta ama um homem que a conquistou), poderia ao
Fraca e sem força, só por ter sujeito menos ter respeito e consideração às crianças, ainda que não se importasse com a
O coração a quem soube vencê-la), triste morte da mãe. Inês suplica, então, que o rei se compadeça dela e das crianças,
A estas criancinhas tem respeito, já que não queria perdoá-la ou absolvê-la de uma culpa, um crime, que não tinha
Pois o não tens à morte escura dela; cometido.
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

E se, vencendo a Maura resistência,


A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência, E se o rei sabia dar a morte, como o mostrara ao vencer os Mouros, também saberia
A quem peja perdê-la não fez erro. dar a vida a quem era inocente. Mas, se apesar da sua inocência, ainda a quisesse
Mas, se to assi merece esta inocência, castigar, que a desterrasse, expulsasse, para uma região gelada ou tórrida, para
Põe-me em perpétuo e mísero desterro, sempre. As ninfas do Mondego (rio de Portugal), durante muito tempo, lembraram
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente, chorando a morte de Inês. E, para sua memória eterna, as lágrimas transformaram-
Onde em lágrimas viva eternamente. se numa fonte chamada “dos amores de Inês”, acontecidos ali. A fonte que rega as
flores é refrescante porque é feita de lágrimas e de amores.

Põe-me onde se use toda a feridade,


Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade Que ele a colocasse entre as feras, onde poderia encontrar a piedade que não
Que entre peitos humanos não achei. achara entre os homens. Ali, por amor daquele por quem morria ou sofria, criaria os
Ali, c’o amor intrínseco e vontade filhos, que era recordações do pai e seriam consolação da mãe.
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.
Queria perdoar-lhe o Rei benino, O rei bondoso queria perdoar Inês, comovido por suas palavras. Mas o povo
Movido das palavras que o magoam; obstinado, persistente e o destino de Inês (que assim o quis) não lhe perdoaram. Os
Mas o pertinaz povo e seu destino que proclamavam que ela deveria morrer puxam suas espadas. Mostram-se
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. valentes atacando uma dama.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra hûa dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?

 Qual contra a linda moça Policena, Assim como Pirro se prepara com a espada (“ferro”) para matar Policena, por
Consolação extrema da mãe velha, ordem do fantasma de Aquiles, e ela – mansa e serenamente -, movendo os olhos
Porque a sombra de Aquiles a condena, para a mãe, enlouquecida de dor, oferece-se ao sacrifício…
C’o ferro o duro Pirro se aparelha; Aquiles, herói da guerra de Tróia, era invulnerável por ter sido submergido, logo ao
Mas ela, os olhos, com que o ar serena nascer, na água da lagoa Estígia (Lagoa da Morte). Personagem da Ilíada de Homero,
(Bem como paciente e mansa ovelha), morreu durante a guerra de Tróia, quando foi atingido por uma seta no calcanhar, o
Na mísera mãe postos, que endoudece, único ponto vulnerável do seu corpo. Pirro, filho de Aquiles, teria sido aconselhado
Ao duro sacrifício se oferece: pelo fantasma (“sombra”) do pai a matar Policena, noiva do herói morto. Matou-a
quando esta se encontrava sobre o túmulo de Aquiles.

Tais contra Inês os brutos matadores, Do mesmo modo agem os cruéis assassinos de Inês. No pescoço (“colo”) que
No colo de alabastro, que sustinha sustenta o belo rosto (“as obras”: o sorriso, o olhar, os movimentos do rosto) pelo
As obras com que Amor matou de amores qual se apaixonou (o deus Amor, Cupido, fez morrer de paixão) o príncipe, que
Aquele que despois a fez Rainha, depois a fará rainha, eles (os matadores) banham, lavam suas espadas e também as
As espadas banhando e as brancas flores, faces pálidas (“brancas flores”) e molhadas de lágrimas de Inês; atacavam
Que ela dos olhos seus regadas tinha, enraivecidos, sem pensarem no castigo que o futuro lhes reservava.
Se encarniçavam, fervidos e irosos, Camões supõe que Inês foi degolada, como Policena oferecendo o pescoço ao
No futuro castigo não cuidosos. golpe, e o sangue escorreu sobre seu rosto.

Bem puderas, ó Sol, da vista destes, Naquele dia, o sol deveria ter-se escondido, como fizera quando Tiestes comeu os
Teus raios apartar aquele dia, próprios filhos em um banquete servido por Atreu, para não ver o terrível crime. A
Como da seva mesa de Tiestes, última palavra de Inês – o nome de Pedro, o príncipe – ecoou longa e
Quando os filhos por mão de Atreu comia! repetidamente através da região.
Vós, ó côncavos vales, que pudestes Camões iguala a crueldade da morte de Inês à da história de Atreu e Tiestes. Tiestes
A voz extrema ouvir da boca fria, era filho de Pélops e irmão de Atreu. Seduziu a esposa do irmão. Atreu deu a comer
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes, a Tiestes os filhos que nasceram daquela união.
Por muito grande espaço repetistes.

Assi como a bonina, que cortada Como uma flor colhida precocemente pelas mãos travessas (“lascivas”) de uma
Antes do tempo foi, cândida e bela, menina para colocá-la numa grinalda (“capela”), assim está Inês, sem perfume e
Sendo das mãos lascivas maltratada sem cor. Morta, pálida, com as faces (“do rosto as rosas”) secas, murchas, sem
Da minina que a trouxe na capela, rubor. O padrão de beleza feminino era uma combinação de branco na testa, colo,
O cheiro traz perdido e a cor murchada: etc. (“branca e viva cor” ) e vermelho (“viva cor”) nas “rosas” do rosto.
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

As filhas do Mondego a morte escura As ninfas do Mondego (rio de Portugal), durante muito tempo, lembraram chorando
Longo tempo chorando memoraram, a morte de Inês. E, para sua memória eterna, as lágrimas transformaram-se numa
E, por memória eterna, em fonte pura fonte chamada “dos amores de Inês”, acontecidos ali. A fonte que rega as flores é
As lágrimas choradas transformaram. refrescante porque é feita de lágrimas e de amores.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.

RESUMOS DO EPISÓSIDO DESPEDIDAS DE BÉLEM


Canto IV – est. 84-93
Neste episódio, Luís de Camões enaltece os Descobrimentos e a dor, o sofrimento e o sacrifício das pessoas envolvidas direta
(marinheiros) ou indiretamente (familiares, amigos) nesse feito. O Poeta exprime estes sentimentos através da narração que
Vasco da Gama faz ao rei de Melinde, narrando a partida da armada para a viagem de descoberta do caminho marítimo para a
Índia, em analepse, dando particular relevo às despedidas dos navegadores portugueses em Belém (Canto IV, est. 88-93). Há
um particular destaque para o grande sofrimento e dor dos Portugueses no momento da partida das naus, sendo referido o
doloroso sacrifício e desespero de quem ficava em terra.
 

Síntese do episódio
Narrador: Vasco da Gama
Narratário: Rei de Melinde
 
Estrutura do episódio
Est. 84 - 89
Depois de relembrar a História de Portugal, Vasco da Gama narra ao rei de Melinde a partida da armada para a viagem de
descoberta do caminho marítimo para a Índia, em analepse. No porto de Lisboa, preparam-se as naus para a viagem. Os nautas
aprontam-se também espiritualmente, pedindo a Deus orientação e apoio para a viagem. Vasco da Gama refere que quando
recorda o momento da partida, cheio de dúvida e de receio, tem dificuldade em conter as lágrimas. Naquele dia, o povo da
cidade de Lisboa juntou-se na praia de Belém para assistir à partida das naus e para se despedir dos amigos e parentes que
iriam embarcar. Acreditava-se que a viagem seria longa e perigosa. Os homens não conseguiam esconder a emoção e as
mulheres choravam com desespero e medo de não os voltarem a ver.
 Estância 84 - Vasco da Gama situa a ação, referindo que as naus estão quase a partir de Lisboa.
 Estância 85 - Descrição geral dos soldados e das naus.
 Estância 86 - Preparação espiritual dos marinheiros (missa, comunhão e procissão) e pedido de proteção e ajuda a Deus.
 Estância 87 - Emoção do narrador pela longa e perigosa viagem que o afastará da pátria e da família. Estabelecimento de
relação entre o nome do local que os marinheiros se encontravam e a cidade da Palestina onde nasceu Jesus (Belém).
 Estância 88 - Vasco da Gama e os companheiros vão em procissão para as naus, enquanto a gente da cidade os esperava.
 Estância 89 - Aos suspiros dos homens junta-se o choro das mulheres, por temerem não voltar a ver os familiares que partiam.
 
Est. 90-93
 Estância 90 – A mãe tenta dissuadir o filho a embarcar levando-o a refletir sobre a decisão tomada. Argumentos usados:
                -o filho vai deixar a mãe desamparada na velhice, sem sustento material e efetivo;
                -o filho vai morrer no mar.
 Estância 91 – A esposa dirige-se ao esposo realçando o seu amor e culpando-o de pôr em causa as suas vidas. Argumentos
usados:
                -não consegue viver sem o amor do marido;
                -morrendo ele, também ela morrerá;
                -o marido troca o amor pela incerteza do mar;
                -o marido vai destruir a relação amorosa.
 Estância 92 – A natureza testemunha a tristeza vivida e partilha os sentimentos dos mais velhos e dos mais jovens
(personificação dos montes). Acentua-se o sofrimento provocado pela dor da separação, através da hipérbole que compara o
número de lágrimas com o número das crianças e dos mais velhos.
 Estância 93 – Vasco da Gama decide o embarque imediato sem despedidas, evitando mais sofrimento ou uma mudança de
ideias.

Caracterização psicológica das personagens do episódio:


 Vasco da Gama
                -dúvida;
                -receio;
                -emoção.
 Navegadores portugueses
-ânsia de partir em busca de novos mundos;
-ousadia e coragem;
-determinação.
 Mulheres (mães e mulheres)
                -desesperadas;
                -emocionadas.
 Velhos e jovens
- Não conseguem conter as emoções.
 
Atitude face ao empreendimento dos Descobrimentos
Apesar de todo o sofrimento, dor e sacrifícios a que este empreendimento obrigou, Luís de Camões enaltece os
Descobrimentos. No seu discurso ao rei de Melinde, Vasco da Gama confidencia-nos como impediu os seus homens de
fazerem a última despedida tal era o estado de comoção naquele momento, dando os que ali estavam como certa a sua
morte: "Por perdidos as gentes nos julgavam" (est.89, v.2). A missão a cumprir sobrepunha-se a qualquer sentimento, por
mais forte que ele fosse: "Por não nos magoarmos, ou mudarmos/ Do nosso propósito firme começado" (est. 93, vv.3-4)

Ideias Importantes

 Este episódio está inserido no Plano da Viagem.


 Os marinheiros portugueses partiram de Lisboa no dia 8 de Julho de 1497
 D. Manuel I primeiro incentiva os marinheiros oferecendo-lhes uma pequena renumeração
 D. Manuel I elogia os marinheiros, dando-lhes palavras de alento e de coragem
 Depois de preparadas as naus, os marinheiros preparam-se espiritualmente
 As pessoas que estão a assistir à partida sentem-se tristes, desesperadas, receosas e saudosas
 Os marinheiros também partem com dúvidas e receios
 Os marinheiros partem sem as despedidas habituais, para evitar maior sofrimento e para não haver desistências.
 (Estrofe 84) Estado de espírito: ansiosos, felizes
 (Estrofe 86) Preparação espiritual
 Objectivo da Viagem (estrofe 85): “Pera buscar do mundo novas partes”
 (Estrofe 87) Mostra que o narrador é Vasco da Gama e o receptor/ narratário é o Rei de Melinde
 (Estrofe 88) Reacção das pessoas à partida dos marinheiros
 (Estrofe 89) Descrição dos sentimentos (medo)
 (Estrofe 90) Discurso de uma mãe que vê o filho partir
 (Estrofe 91) Discurso de uma esposa que vê o marido partir
 (Estrofe 92) Reacção da Natureza (triste, comovida e chora)
 (Estrofe 93) Sofrimento é mais para quem fica mas, os marinheiros partem sem as despedidas habituais
 O narrador é participante e quanto à sua posição é autodiegético

Este episódio está divido em três partes:


1ª Parte (estrofe 83 à estrofe 86)
 Localização da acção no tempo e no espaço (Reinado de D. Manuel I; Lisboa)
 Preparação das naus
 Preparação espiritual dos marinheiros (oração e pedido de auxílio)

2ª Parte (estrofe 87 à estrofe 92)


 Descrição da procissão solene até às naus
 Reacções das pessoas que assitem à partida
 Reacções da Natureza à partida dos marinheiros

3ª Parte (estrofe 93)


 Partida para a Índia sem as despedidas habituais

Figuras de estilo
Estrofe Nome da figura de Estilo Exemplo

84 Perífrase “Porque a gente marítima e a de Marte”

86 Perífrase “ Que sempre as nautas ante os olhos anda/ Pera o sumo Poder, que a etérea Corte”

87 Anáfora “ Que nas praias do mar está assentado,/ Que o nome tem da terra, pêra exemplo,”

87 Apóstrofe “ Certifico-me, ó Rei, que, se contemplo”

89 Enumeração “Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso”

90 Apóstrofe “ Qual vai dizendo: - “ó Filho, a quem eu tinha”

90 Dupla Adjectivação “ Que em choro acabará, penoso e amaro”

90 Anáfora “ Porque me deixas, mísera e mesquinha?/ Porque de mim te vas, ó filho caro”

91 Apóstrofe/ Dupla Adjectivação “ Qual em cabelo:”ó doce e amado esposo”

91 Aliteração “Quereis que com as velas leve o vento?”


92 Personificação “A branca areia as lágrimas banhavam,/ Que em multidão co elas se igualavam.”

RESUMOS DO EPISÓDIO ADAMASTOR


Narrador: Vasco da Gama
Narratário: Rei de Melinde
 
Planos da narração:
-Plano da Viagem
 Geograficamente, o Adamastor é o Cabo das Tormentas;
Contudo, cruzam-se outros planos no discurso do Adamastor:
- Plano Mitológico
 Na mitologia é o temível gigante vencido pelo amor a Tétis;
- Plano da História de Portugal
 Tem o poder de vaticinar acontecimentos futuros aos Portugueses, fazendo profecias (post-eventum).
Estrutura do episódio
Estâncias Partes Conteúdo

- “Uma nuvem que os ares escurece”, “temerosa e


37-38 1.      Preparação do ambiente
carregada”
- “Bramindo, o negro mar de longe brada”

39-40 2.      Retrato do gigante - figura colossal


- medo que provoca

41-48 3.      Discurso do gigante (1ª parte)- ameaças/elogio da “gente ousada”.


49 4.      Interpelação de Vasco da
- pedido de identificação
Gama
- espanto e sangue frio que revelou

5.      Discurso do Adamastor (2ª


50-59 - retrospectiva autobiográfica – humanização do
parte)
monstro (frustração amorosa)

- choro e desaparecimento do gigante


60 6.      Epílogo (conclusão)
- pedido de Vasco da Gama a Deus para que as
profecias do gigante não se realizassem
 
Este episódio é importante, pois nele se concentram as grandes linhas da epopeia:
 o real maravilhoso (dificuldade na passagem do cabo);
 a existência de profecias (história de Portugal);
 lirismo (história de amor, que irá ligar-se mais tarde, à narração do maravilhoso da Ilha dos Amores);
 é considerado um episódio trágico, de amor e morte;
 é denominado como um episódio épico, em que se consolida a vitória do homem sobre os elementos (água, fogo,
terra, ar).
 
O episódio “O Gigante Adamastor” é um episódio simbólico na medida em que esta figura representa os perigos e
as dificuldades que se apresentam ao Homem que sente o impulso de conhecer e de descobrir o mundo. Só
superando o seu próprio medo, este poderá vencer (ideia veiculada pelo Humanismo). O Adamastor é, portanto,
uma figura mitológica criada por Camões, concentrando todos os perigos e dificuldades que os portugueses tiveram
de transpor.
Não é por acaso que o episódio do Adamastor ocupa o lugar central no poema épico. O canto V marca o meio da
obra e é com ele que termina o primeiro ciclo épico da narração. Marca também a passagem do mundo conhecido
para o desconhecido, a passagem do Ocidente para o Oriente.
 
Caracterização do Adamastor
O Adamastor surge a partir de uma nuvem com uma figura " robusta e válida", como um monstro horrendo de
tamanho descomunal, "De disforme e grandíssima estatura "; rosto severo e barba suja, desalinhada; olhos
"encovados" e negros; cabelos " cheios de terra e crespos"; " boca negra" e " dentes amarelos". Apresenta uma "
cor terrena e pálida", tem uma " postura medonha e má", sendo a sua voz horrenda , grossa, " pesada " e amarga.
 
Discurso do Adamastor
O Adamastor inicia o seu discurso com um tom assustador (" E da primeira armada, que passagem/ Fizer por estas
ondas insofridas, /Eu farei de improviso tal castigo,/ Que seja mor o dano que o perigo!", est. 43, vv.5-8). Porém,
deixa transparecer uma certa admiração e espanto por este povo aventureiro que ousou o que jamais algum ser
humano ousara fazer: " Ó gente ousada, mais que quantas/ No mundo cometeram grandes cousas,/ (...) Pois os
vedados términos quebrantas/ E navegar meus longos mares ousas" (est. 42, vv.1-6).
Destacam-se as profecias de Adamastor que intensificam o momento de terror vivido pelos marinheiros
portugueses: "Antes, em vossas naus vereis, cada ano,/ (...)/ Naufrágios, perdições de toda a sorte, / Que o menor
mal de todos seja a morte!", est. 44, vv. 5-8).
Contudo, no final do episódio, o Adamastor deixa de lado a figura assustadora e medonha para dar lugar a um ser
sofredor e castigado, mostrando assim uma faceta muito humana. Se por um lado representa uma figura causadora
de sofrimento, por outro assume-se como um ser vítima de um fracasso amoroso: "Da mágoa e da desonra ali
passada, / A buscar outro mundo, onde não visse/ Quem de meu pranto e de meu mal se risse." (est.57,vv.6-8) e
"Comecei a sentir do fado immigo,/ Por meus atrevimentos, o castigo." (est.58, vv.7-8).

Reação de Vasco da Gama e seus homens


Vasco da Gama e os seus homens, perante a visão horrenda do Adamastor, começam por sentir receio: "Arrepiam-
se as carnes e o cabelo / A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo" (est.40, vv.7-8). No entanto, esse sentimento é
depois substituído por uma certa admiração: "Lhe disse eu : " Quem és tu ? Que esse estupendo / Corpo, certo, me
tem maravilhado!" ( est. 49, vv. 3-4 ).
O temor causado por esta figura não demoveu Vasco da Gama dos seus propósitos, terminando o episódio d'Os
Lusíadas com um apelo, pois mais horrendo que o aspeto do Adamastor eram as suas profecias para o futuro, tanto
que pediu a Deus que lhes evitasse semelhante sofrimento.
 
Simbologia do gigante e do mostrengo
O Adamastor, embora associado à representação do denominado Cabo das Tormentas, é uma personificação do
medo e do receio que os navegadores revelavam ao enfrentar o desconhecido. Simboliza também as histórias
fantásticas relacionadas com seres monstruosos que habitavam os mares e que destruíam todos aqueles que
tivessem a ousadia de entrar nos seus domínios, histórias essas em que os navegadores da época acreditavam.
O monstro representa ainda o guardião, que se encontra a impedir o acesso ao "tesouro", obrigando assim o
homem a praticar um ato heróico e a vencer o medo. Vasco da Gama e seus homens, no reinado de D. Manuel I,
descobriram o caminho marítimo para a Índia, chegaram até ao "tesouro", e Luís de Camões imortalizou-os na sua
obra épica.
Em síntese, a figura do Adamastor representa os obstáculos, as dificuldades a vencer, os perigos do mar, as forças
do mal, o desconhecido.  O seu desaparecimento simboliza a superação do medo, os perigos e obstáculos
enfrentados e ultrapassados e o completo domínio dos mares pelos Portugueses (dimensão épica).

Ideias importantes:

 O Adamastor sente-se lesado por os seus mares estarem a ser invadidos por aquela gente
 Glorificação/ elogio dos feitos dos Portugueses pela sua coragem e confiança
 Ameaças (naufrágios, tempestades, perdições de toda a sorte, morte)
 Discurso autobiográfico (quem é, o que fazia, história de amor não correspondida)

Caracterização do Adamastor: Tem/é:

 Aspecto aterrador;
 Grande e disforme;
 Pernas e braços imensos;
 Olhos encovados;
 Cabelos crespos e sujos;
 Boca negra;
 Dentes amarelos;
 Ar medonho;
 Rosto sombrio;
 Postura agressiva;
 Voz horrenda e grossa;
 Sensível;
 Apaixonado;
 Solitário;
 Triste

Acções importantes no episódio:

 Preparação do ambiente para o aparecimento do Gigante (cenário);


 Visão do Gigante (retrato físico e psicológico) / reacção dos marinheiros;
 Discurso do Adamastor (elogios e profecias/ameaças)
 Interpelação de Vasco da Gama (pergunta quem ele é)
 Desaparecimento do Gigante e do cenário que o enquadra

Divisão do episódio em partes: Introdução (37 a 40)

 Preparação do ambiente para o aparecimento do Adamastor;


 Descrição física e psicológica

Desenvolvimento (41 a 59)

 Discurso do Gigante num tom de voz ameaçador (ameaças e profecias);


 Retrospectivas autobiográficas
 Confissão dos seus insucessos amorosos

Conclusão (60)

 Desaparecimento do Adamastor e agradecimento de Vasco da Gama

Principais contrastes no episódio:


 Prosperamente os ventos sopravam # uma nuvem carregada e assustadora;
 Aspecto gigantesco do Adamastor # pequenez dos marinheiros;
 Tom de voz horrendo e grosso # voz pesada e amarga;
 Ameaças e profecias trágicas # história do amor não correspondido;
 O Gigante que ameaça e assusta # O Gigante que ama e chora;
 Força brutal do Gigante # Fragilidade da ninfa Tétis

Figuras de estilo

Estrofe Figura de Estilo Exemplo

 38  Aliteração  “Bramindo, o negro mar de longe brada”


 39  Dupla Adjectivação  “Se nos mostra no mar, robusta e válida”
 40  Comparação  “Que pareceu sair do mar profundo”
 41  Apóstrofe  “E disse “Ó gente ousada mais que quantas”
 45  Perífrase  “E do primeiro Ilustre, que a ventura”
 48  Eufemismo  “… as almas soltarão”/ “Da fermosa e misérrima prisão”
 57  Hipérbole  “Ó Ninfa, a mais bela fermosa do Oceano”
 57  Gradação  “Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada?”
RESUMOS DO EPISÓDIO TEMPESTADA E CHEGADA À ÍNDIA
Canto VI – est. 84-93
Enquanto o Consílio dos Deuses do Mar se realizava, os navegadores continuavam, a sua viagem, contando
histórias a bordo. É nesse momento que os marinheiros são surpreendidos pela Tempestade, em cuja descrição se
cruzam dois planos narrativos: da viagem e dos deuses.

Divisão do episódio em três partes:


 Tempestade e agitação a bordo (agitação dos elementos da natureza – vento, nuvens e mar – e dos elementos
humanos – marinheiros);
              - Os sinais que alertam a proximidade da tempestade são o vento e a nuvem negra.
              - O mestre manda amainar, ou seja, tomar ou carregar as velas mais altas, atirar tudo ao mar  e dar à
bomba.
             - Os verbos utilizados para transmitir as ordens são os seguintes: “amaina” e “alija”
             - O responsável pela tempestade foi Baco, que não queria que os portugueses chegassem à Índia.
            - A tempestade provocou efeitos terríveis, ela fez com que as naus ficassem muito estragadas, o que
provocou uma grande aflição aos portugueses. Elementos textuais que podem ilustrar esta afirmação:
“Quebrando leva o mastro pelo meio,/Quase toda alagada; A gente chama/ Aquele que a salvar o mundo
veio.”
- Expressões que traduzem a violência da tempestade: “Mostra a possante nau, que move espanto.” e
“Vendo que se sustém nas ondas”.
 
 Súplica de Vasco da Gama à divina guarda;
 
 Intervenção de Vénus.
 
 
Principais argumentos utilizados por Vasco da Gama na sua suplica a Deus:
- A omnipotência divina (Deus já ajudara outros povos em dificuldades).
- Os portugueses estão ao serviço de Deus (vão espalhar a fé cristã por terras desconhecidas), logo tinham uma
missão religiosa.
- Louva aqueles que morreram lutando pela fé cristã, pois era preferível uma morte heróica e conhecida em África a
combater, do que uma morte devido a um naufrágio anónimo, sem honras, nem vitórias.
- Os versos que traduzem o estado de espírito de Vasco da Gama são os seguintes: “Ora com nova fúria do céu
subia” e “Confuso de temor, da vida incerto”.
- O pedido de Vasco da Gama não foi atendido. A tempestade não acalmou.
- A responsável pelo fim da tempestade foi Vénus.
- Expressões que comprovam a bonança da tempestade: “E logo à linda Vénus se entregavam/ Amansadas as iras
e os furores/ De lhe serem leais esta viagem”

Recursos expressivos:
Estrofe Recurso Expressivo Exemplo
75 Perífrase “Aquele que a salvar o mundo veio”
“Em pedaços a fazem cum ruído/ Que o
71 Anáfora
Mundo pareceu ser destruído”
“… os ventos, que lutavam/ como touros
84 Comparação
indómitos”
81 Apóstrofe “Divina Guarda, angélica, celeste”
78 Antonomásia “O grão ferreiro sórdio que obrou”
84 Personificação “…os ventos, que
lutavam/..bramando…/Pela exárcia,
assoviano.”
“Alija (disse o mestre rijamente),/ Alija
72 Anáfora
tudo ao mar”
86 Hipérbole “Estas obras de Baco são, por certo,”
“…o segundo/Povoador do alagado e
81 Dupla Adjectivação
vácuo mundo”
71 Dupla Adjectivação “Quanto se dá a grande súbita procela”

RESUMOS DO EPISÓDIO A ILHA DOS AMORES


Narrador: Não participante
Personagens: Vénus e Cupido
Plano da narrativa: plano dos deuses
Est. 18 - 25
Vénus decide preparar uma recompensa para os Portugueses que, entretanto, já tinham iniciado a viagem de regresso a
Portugal. Assim, para lhes dar «nos mares tristes, alegria» (IX, 18) e compensá-los pelas dificuldades que Baco lhes tinha
criado durante a viagem, pretende proporcionar-lhes o merecido «descanso / No Reino de cristal, líquido e manso» (IX,
19). Para isso, considera sensato contar com a ajuda do «seu filho» (IX, 20) Cupido e, depois de pensar em tudo isto,
resolve preparar no meio do oceano, uma «ínsula divina» (IX, 21). Nessa ilha, os Portugueses seriam esperados pelas mais
belas ninfas («aquáticas donzelas», IX, 22), que os receberiam «Com danças e coreias» porque estariam apaixonadas pelos
navegadores. Vénus já tinha usado uma estratégia semelhante quando fez com que Dido se apaixonasse por Eneias para o
receber bem em Cartago (IX, 23) e, tal como nessa altura, decide recorrer a Cupido. Assim, dirige-se no seu carro puxado
por cisnes e pombas aos «Idálios montes» (IX, 25), onde se encontrava o seu filho. Este estava ocupado a preparar uma
«famosa expedição» para corrigir os erros dos que estavam «Amando cousas que nos foram dadas / Não pera ser amadas,
mas usadas.»
Est. 26-29
As estrofes 26 a 29 apresentam exemplos desse amor errado que Cupido pretende corrigir e constituem uma crítica que,
em muitos aspetos, continua a ser bastante atual. Na estrofe 26, refere-se a história de Actéon, castigado pela deusa
Diana, que o transforma em veado, por só se importar com a caça e desprezar a beleza e o amor. Na estrofe 27, são
criticados aqueles que, apesar de ocuparem cargos de grande responsabilidade, só se preocupam com eles próprios e são
vaidosos e presunçosos, assim como as pessoas que se movimentam nos meios poderosos praticando a adulação. Na
estrofe 28, a crítica dirige-se ao amor pelo poder e pela riqueza, sobretudo daqueles que são hipócritas e fingem «justiça e
integridade» e às leis que beneficiam os mais poderosos em vez de ajudarem o povo. A estrofe 29 resume todas estas
críticas vistas através dos olhos de Cupido - «ninguém ama o que deve» - e conclui com a decisão do filho de Vénus: reunir
os seus exércitos para castigar quem não lhe for obediente.
 
A aventura de Lionardo - Canto IX – est. 75-84
Narrador: Não participante
Personagens: Lionardo, Efire, os Portugueses e as ninfas
Plano da narrativa: plano da viagem e plano dos deuses
Este episódio passa-se na Ilha dos Amores e relata o momento em que um dos Portugueses, Lionardo, persegue a ninfa
Efire, dirigindo-lhe palavras de amor e de desejo até que esta se deixa finalmente alcançar.
 
Est. 75-84
Na estrofe 75, faz-se a descrição de Lionardo que, apesar das suas qualidades, tinha tido vários desgostos de amor, não
perdendo, no entanto, «a esperança / De inda poder seu Fado ter mudança», ou seja, de que o seu destino mudasse. Ora,
Lionardo corria precisamente atrás de Efire, que, além de ser um «exemplo de beleza», «mais caro que as outras dar
queria / O que deu, pera dar-se a Natureza» (IX, 76), isto é, fazia-se ainda mais rogada do que as restantes ninfas. A partir
dos três últimos versos da estância 76 e até ao final da estrofe 81, as palavras de Lionardo são reproduzidas em discurso
direto: este começa por elogiar a beleza «indigna de aspereza» (IX, 76) de Efire e por queixar- -se de, ao contrário das
outras ninfas, ela não se render «à vontade do inimigo» (IX, 77), ou seja, não aceitar o amor de quem a persegue.
Pergunta-lhe, depois, se continua a fugir por causa do destino («aquela ventura, IX, 77) que tem feito com que Lionardo
seja infeliz no amor e pede-lhe que não acredite nessa sua má sorte que «Mil vezes a cada hora» lhe mentia. De resto,
explica Lionardo na estrofe 78, o seu azar é tanto que, mesmo que Efire esperasse por ele, o destino arranjaria maneira de
não o deixar alcançá-la, e desafia a ninfa a parar para verem de que «sutil modo» (IX, 78) isso aconteceria. De seguida, o
marinheiro pede à ninfa que deixe de fugir, pois, se o fizer, conseguirá mais do que qualquer imperador ou exército, isto é,
vencer a “força dura” (IX, 79) do destino. Como Efire não lhe dá ouvidos, Lionardo acusa - -a de estar do lado da sua má
sorte e afirma que “Fraqueza é dar ajuda” (IX, 80) aos mais poderosos. Pergunta-lhe, depois, se não sente o peso da sua
alma, ou seja, do coração de Lionardo que ela já conquistou e que leva presa nos seus cabelos dourados («fios de ouro
reluzentes», IX, 80). O português questiona, então, se a sua alma estaria mais leve, o que significaria que o seu destino
teria mudado, e afirma que é só essa esperança que o leva a continuar a perseguição, uma vez que, se Efire, ferida pelo
Amor, esperar enfim por ele, «não há mais que espere» (IX, 81).
Nesta altura, Efire, que já só corria para continuar a ouvir as doces palavras de Lionardo, deixa-se finalmente alcançar por
ele, «Que todo se desfaz em puro amor» (IX, 82).
A estrofe 83 descreve os momentos de amor passados «na menhã e na sesta» pelos portugueses e pelas ninfas. Estas
coroam depois os «seus amados navegantes» (IX, 84) com flores, ouro e com as folhas de louro que simbolizam o seu
estatuto de heróis, unindo-se a eles «como esposas» para sempre. Assim, para além de ser uma merecida recompensa, a
Ilha dos Amores simboliza a união eterna dos portugueses com as ninfas que, como divindades que são, os elevam ao
estatuto de heróis imortais.
 
Despedida de Tétis e regresso a Portugal - Canto X – est. 142-146, 154-156
Narrador: Não participante (est. 142-144)
Personagens: Tétis (que recebeu Vasco da Gama na Ilha dos Amores) e os navegadores
Portugueses (est. 142-144)
Plano da narrativa: plano da viagem e plano dos deuses (est. 142-144)
 
Est. 142-144
Este excerto de Os Lusíadas é constituído por duas partes muito distintas: o episódio que relata a partida da Ilha dos
Amores e a chegada a Portugal (estrofes 142 a 144) e o epílogo, em que o Poeta tece as suas considerações finais (estrofes
145, 146 e 154 a 156).
Tétis (que, nas estrofes anteriores, tinha mostrado a Vasco da Gama a “máquina do mundo”, ou seja, o universo e os locais
do mundo onde o povo português iria alcançar grandes vitórias) explica que a união com as ninfas («eternas esposas», X,
142) foi uma recompensa pelos imensos esforços que fizeram durante a viagem. Os navegadores partem então da ilha,
levando na memória as ninfas, cuja companhia «hão de ter eternamente» (X, 143), simbolizando a sua glória. Depois de
uma viagem tranquila, com «mar sereno» e «vento sempre manso» (X, 144), os portugueses chegam finalmente a
Portugal.

Est. 145-146
Camões começa por dirigir-se à musa, num tom desanimado, para se queixar da «gente surda e enrouquecida» (X, 145)
que não reconhece o seu talento («engenho») e da pátria, que se deixa dominar pela cobiça, pela tristeza e pelo
pessimismo. A partir da estrofe 146, dirige-se ao rei D. Sebastião, a quem tinha dedicado Os Lusíadas, chamando-lhe a
atenção para os seus «vassalos excelentes».

Est. 154-156
Na estrofe 154, Camões faz a sua própria caracterização – apesar da sua origem humilde, não lhe falta estudo, experiência
e talento. Por isso, oferece ao rei os seus serviços de guerreiro («braço às armas feito», X, 155) e de poeta («mente às
Musas dado», X, 155), nas vitórias que D. Sebastião alcançará no norte de África. Camões cantará esses feitos do rei, que
serão superiores aos dos heróis da Antiguidade, Alexandre e Aquiles.

Ilha dos Amores


Terminada a viagem do Gama e antes de regressarem a Portugal, o poeta dirige os nautas para a Ilha dos Amores, onde, por acção de Vénus
e Cupido, receberão o prémio do seu esforço.
Trata-se de uma ilha paradisíaca, de uma beleza deslumbrante. A descrição do consórcio entre os portugueses e as ninfas está repassada de
sensualidade. Os prazeres que lhes são oferecidos são o justo prémio por terem perseguido o seu objectivo sem hesitações.
Em primeiro lugar, serve para desmitificar o recurso à mitologia pagã, apresentada aqui como simples ficção, útil para "fazer versos
deleitosos". Em segundo lugar, representa a glorificação do povo português, a quem é reconhecido um estatuto de excepcionalidade. Pelo seu
esforço continuado, pela sua persistência, pela sua fidelidade à tarefa de expansão da fé cristã, os portugueses como que se divinizam.
Tornam-se assim dignos de ombrear com os deuses, adquirindo um estatuto de imortalidade que é afinal o prémio máximo a que pode aspirar
o ser humano.
De certo modo, podemos dizer que é o amor que conduz os portugueses à imortalidade. Não o amor no sentido vulgar da palavra, mas o amor
num sentido mais amplo: o amor desinteressado, o amor da pátria, o amor ao dever, o empenhamento total nas tarefas colectivas, a
capacidade de suportar todas as dificuldades, todos os sacrifícios. É esse amor que manifestam Gama e os seus homens; é ele que permite a
tantos libertar-se da "lei da morte". É também esse amor que conduz Camões a "espalhar" os feitos dos seus compatriotas por toda a parte e
tornar-se, também ele, imortal.

RESUMOS DO EPISÓDIO TÉTIS DESPEDE-SE DOS PORTUGUESES

Reflexão do Poeta
Os últimos versos da obra revelam sentimentos contraditórios: o desalento, o orgulho e a esperança.

1. O poeta recusa continuar o seu canto, não por cansaço, mas por desânimo, o que provêm da contratação…metida no gosto da cobiça
e na rudeza, imagem que representa o Portugal do seu tempo;
2. Mas exprime o seu orgulho naqueles que continuam dispostos a lutar pela grandeza da pátria;
3. E afirma a esperança de que o rei saiba aproveitar e estimular essas energias para dar continuidade á glorificação do “peito ilustre
lusitano”
4. Em suma, a glória do passado deverá ser encarada como um exemplo presente para construir um futuro grandioso.

Você também pode gostar