RELAÇÕES HUMANAS NO TRABALHO
3º Módulo – Segurança do Trabalho
Rangel Xavier Martins
Engenheiro de Segurança do Trabalho
AULAS 02
Homem, trabalho e segurança
Introdução a matéria
O TRABALHO NA ANTIGUIDADE
▪ Quantos de nós já não escutamos esta máxima: o trabalho dignifica o
homem. Às vezes, o ditado vem na forma de outros discursos, como
“seu avô já trabalhava aos 8 anos de idade”. Em nossa sociedade, o
trabalho é motivo de orgulho, quase uma carta emancipatória. Quem
trabalha adquire diversos direitos morais que só se admitem a quem
tem uma função econômica dentro da sociedade. Mas nem sempre foi
assim.
▪ Trabalho já foi sinônimo de escravidão, servidão e de falta de
capacidade intelectual. Nos tempos antigos (Grécia e Roma, para
sermos mais exatos), o trabalho era destinado aos que não tinham
habilidades técnicas para exercer outras funções, como as políticas ou
artísticas. Uma frase de Platão explica o que era o trabalho para um
grego no século III a.C, por exemplo:
“É próprio de um homem bem-nascido desprezar o trabalho.”
▪ Naquela época, trabalhar não era uma boa ideia. Era fruto inclusive
de debates filosóficos, como o de Aristóteles, que discutia se havia
pessoas predestinadas para o trabalho e outras para a liberdade.
Trabalhar era coisa de escravo, e ser escravo nunca é bom negócio.
O TRABALHO ENFIM DIGNIFICA O HOMEM
▪ A ideia de que cumprir um papel no mundo trabalhista traz dignidade
às pessoas só foi aparecer já em nossos tempos modernos, fruto das
revoluções industriais que nos trouxeram um novo tipo de convivência
social. Uma sociedade onde a divisão de classes não era mais uma
escolha divina, como na Alta Idade Média e Idade Média Central –
época em que a estratificação social era vista como vontade divina -, ou
no início do Renascimento Comercial, quando as corporações de ofício
decidiam as regras sobre as próprias atividades.
A partir do aumento da industrialização, era necessário buscar outro
motivo além do sustento ou da vontade de Deus para o trabalho. A
atividade laboral passa então a empregar valores morais e sociais aos
que a exerciam, e consequentemente privar os que não trabalhavam
desses mesmos valores. Passamos também a viver uma nova relação
entre as pessoas, com uma grande divisão: os que tinham meios
econômicos de manter um empreendimento e os que tinham apenas
sua força de trabalho como meio de garantir sua existência. Surgem
assim as figuras do patrão e do empregado.
As condições de vida de um operário no século XIX, seja na Inglaterra,
berço da revolução industrial, ou em outros países europeus que
seguiram o caminho da industrialização, eram degradantes. Estavam
expostos à fome e aos mais diversos tipos de doenças (como a cólera e
o tifo, personagens de grandes epidemias do século XIX) que
encontravam terreno fértil em cidades recém (e mal) formadas, graças
ao grande fluxo de trabalhadores vindos do campo em busca de uma
nova forma de prover sua subsistência. Essas cidades eram
desprovidas de saneamento básico: esgotos corriam a céu aberto e
homens, mulheres e crianças dividiam espaço com infestação de ratos,
diversos insetos e outras pragas. Não raro, duas ou mais famílias
dividiam um quarto nas vilas operárias, que serviam tanto para abrigar
os trabalhadores quanto para garantir a dependência destes em relação
ao patronato, visto que as vilas eram de propriedade dos grandes
proprietários.
O operário encontrava tudo isso após uma jornada exaustiva de
trabalho (por vezes, de 16 horas), em condições insalubres, que
levavam a graves problemas físicos. Muitos trabalhadores com menos
de 30 anos se tornavam inaptos para o trabalho graças a sequelas
deixadas por anos de aspiração de pó de carvão, por exemplo. Na
grande maioria das vezes, essa atividade sequer lhes garantia o mínimo
para suprir suas necessidades básicas. Mulheres e crianças
trabalhavam em regimes parecidos e ganhavam menos, o que deixava
a produção mais barata e aumentava os lucros. Em contrapartida, isso
gerava desemprego entre homens adultos. Essa situação contrastava
com a gigantesca riqueza gerada na época.
O visível desequilíbrio entre as partes da produção não demorou a
causar conflitos, principalmente num momento da revolução industrial
em que parte da mão de obra estava sendo substituída pela automação
da produção, que traria as máquinas à cena. A classe operária e os
menos favorecidos em geral não gozavam de nenhum amparo jurídico,
embora movimentos na Inglaterra como o luddismo e o cartismo
procurassem solucionar esses problemas. Visando equilibrar essa
relação e acalmar os ânimos cada vez mais acirrados de sindicatos e
outros movimentos trabalhistas que se uniam às classes pobres contra
a classe burguesa liberal, os governos se organizaram para interromper
o que poderia ser o crescimento de novos ideais revolucionários (o
socialismo, por exemplo).
Reivindicações foram sendo incorporadas de maneira paliativa para que
tudo se mantivesse em funcionamento. Um exemplo são as pedidas do
próprio movimento cartista, na Inglaterra, que propunha medidas
socialistas. Leis como a da jornada de trabalho de 10 horas e a
participação dos operários no parlamento, que eram pautas do
movimento, foram sendo incorporadas pouco a pouco, fazendo com que
o cartismo perdesse força política e não ganhasse crédito por essas
conquistas. Entre os anos de 1860 e 1869, as reivindicações cartistas
foram quase totalmente inseridas na constituição inglesa.
O QUE MÉXICO E ALEMANHA TÊM COM A HISTÓRIA DOS DIREITOS
TRABALHISTAS?
O primeiro exemplo histórico de direito do trabalho não tinha
propriamente esse nome. Esses direitos trabalhistas eram chamados de
“sociais” e se consolidaram em 1917, no México, no contexto da
revolução mexicana, que levou à promulgação de uma nova
constituição no país naquele ano. Nela, constavam artigos que
legislavam acerca do período de trabalho (8 horas diárias), além de
estabelecer um salário mínimo como um montante capaz de sustentar o
trabalhador e sua família com dignidade.
▪ Logo após a experiência mexicana, a Constituição de Weimar
(Constituição do Império Alemão) de 1919 foi promulgada. Ela
também garantia “direitos sociais”, numa ruptura com o Estado liberal
e uma tentativa de ascensão do Estado social. Esses direitos
trabalhistas seguiam as convenções da recém-criada OIT
(Organização Internacional do Trabalho), que fazia parte do tratado de
Versalhes e buscava uma relação tripartite entre governos,
organização de empregadores e trabalhadores.
▪ A grande maioria das leis do trabalho brasileiras são pautadas nessa
relação entre o grande capital e os trabalhadores. Podemos dizer que
direitos trabalhistas emanam da ideia de garantir uma vida digna e
equilibrar essa relação, que é exatamente o papel que a OIT toma
para si até os dias atuais.
E O BRASIL?
▪ As conquistas sociais em relação ao trabalho no Brasil são tardias,
porque nosso desligamento com a escravidão e nossa indústria
também foram tardios. Porém, já no final do século XIX, havia
movimentos no sentido de garantir avanços legais, como a Fundação
da Liga Operaria no Rio de Janeiro e a lei que proibia o trabalho para
menores de 12 anos. No começo do século XX, assistimos ao
estabelecimento de normas que previam férias (15 dias por ano) e
alguns tipos de direito em relação aos acidentes de trabalho. A criação
destas leis foram impulsionadas pela abolição da escravidão, que
trouxe um novo viés trabalhista e econômico para o país.
▪ O governo brasileiro passou a buscar o equilíbrio entre os elos que
formam a corrente do capital industrial a partir do governo Vargas, com
a Constituição de 1934. Nela estavam previstos direitos trabalhistas
como salário mínimo, jornada de trabalho de 8 horas, repouso semanal,
férias remuneradas e assistência médica e sanitária. Fica exposto
nessas ações que as leis do trabalho não eram apenas do trabalho,
eram também sociais.
▪ Em 1943, no dia 1º de maio, foi promulgada a Consolidação das Leis
do Trabalho (CLT). O contexto de sua criação é particular: o governo
buscava legitimidade para a figura de Getúlio Vargas. Mais do que
apenas ser legítimo, Vargas, que acabara de instituir o Estado Novo,
buscava personificar a figura de “pai dos pobres”. O país passava por
uma fase de desenvolvimento: o número de trabalhadores aumentava e
suas reivindicações também. Por isso, era necessário unificar as leis do
trabalho.
▪A CLT garantiu parte das demandas dos trabalhadores. Leis
posteriores garantiriam também 13º salário, repouso semanal
remunerado e outras conquistas que abordaremos em outros momentos
desta trilha.
▪ Outras medidas foram tomadas na história recente, todas elas quase
sempre impulsionadas por momentos de tensão entre trabalhadores,
governos e grandes corporações. Os direitos trabalhistas, como
pudemos perceber nesta breve exposição da história dos direitos
trabalhistas, giram em torno dessas tensões e servem muitas vezes
como um anestésico funcional para as grandes massas.