EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ DE DIREITO 1° VARA PENAL DE
INQUÉRITOS POLICIAIS E MEDIDAS CAUTELARES DE BELÉM-PA.
Autos do Processo nº. 0806413-24.2022.8.14.0401
GABRIEL ROBERTO FONSECA PENA, já qualificado nos autos flagrâncias em
epígrafe, que lhe move a Justiça Pública, vem, perante Vossa Excelência, sob o patrocínio
da Defensoria Pública do Estado, através do Defensor Público que esta subscreve, com
alicerce no Art. 5º, LXVI, Lei Maior e artigos 316 e 319 do Código de Processo Penal
vigente, REQUERER REVOGAÇÃO DE SUA PRISÃO PREVENTIVA COM OU
SEM APLICAÇÃO DAS MEDIDAS ALTERNATIVAS PREVISTAS NO ARTIGO
319, CPP, pelos fundamentos de fato e de direito que passa a expor:
DOS FATOS
O indiciado foi detido em flagrante pela suposta infração dos Artigos 146 e 288, § único
do CPB e art. 244 – B do ECA.
No dia 16 de abril de 2022 policiais militares realizavam rondas ostensivas pelo bairro do
Marco quando foram informados que uma moradora havia visto nacionais se evadindo de um
carro. Ao chegarem ao local havia um carro Fiat Mobi com um cidadão que se apresentou
como condutor do veículo, e informou que trabalha como motorista de aplicativo, que lhe foi
solicitado uma corrida, tendo o condutor pego primeiramente dois requerentes, e depois mais
três, que eles lhe informaram que não iriam fazer nada com ele, mas que iram utilizar o seu
carro, tendo ele sido colocado deitado no porta-malas. No momento em que os policiais
estavam ouvindo o condutor do veículo, um homem apareceu informando que um dos
assistidos estava no quintal da casa dele, tendo os policiais indo até a casa n°1724 e feito a
prisão em flagrante.
Era o que importava resumir.
DO INDICIADO
Por oportuno, registra-se que o assistido GABRIEL ROBERTO FONSECA PENA,
possui os requisitos subjetivos e objetivos para responder a ação penal em liberdade, haja
vista ser TECNICAMENTE PRIMÁRIO, é paraense, com residência e domicilio no distrito
da culpa, na estrada Marinho, N°26, entrada pela rua Augusto Correa, Guamá, Belém, tem a
profissão de "Ajudante de Pedreiro" possui laços familiares que garantem que não se furtará a
responder a todos os atos processuais, bem como se subjugará aos ditames da jurisdição e
aplicação da lei penal, portanto, MERECE RECEBER TODAS AS GARANTIAS
CONSTITUCIONAIS CONCERNENTES À SUA LIBERDADE. Ademais, em nenhum
momento apresentou resistência à sua prisão e colaborou com o andamento do inquérito
policial.
Excelência, não se busca, com a presente petição, invadir o mérito acusatório, posto
que este seja analisado criticamente no momento processual oportuno. Busca-se, isto sim, a
REVOGAÇÃO DA PRISÃO PREVENTIVA do requerente, uma vez que no caso concreto
não houve motivo de fato que ensejasse o mandado prisional.
Sabe-se Excelência, nada obsta que o juiz, durante a instrução criminal, revogue a
prisão do acusado, sobretudo quando o requerente preenche, para tanto, os requisitos legais.
Assim, por todo o exposto, clama a Vossa Excelência pela revogação da prisão
preventiva, uma vez que preenche todos os requisitos legais para responder ao processo em
liberdade plena ou com a imposição de alguma das medidas cautelares, previstas no Código
de Processo Penal em seu art. 319.
DOS FUNDAMENTOS
Elencadas tais circunstâncias, não é possível constatar que o indiciado
demonstre intenção de obstar o curso do processo a que responde, nem de
constituir ameaça à sociedade, inexistindo, portanto, quaisquer das hipóteses
autorizadoras à decretação de prisão preventiva, previstas no artigo 312 do
Código de Processo Penal, à luz dos ditames da Lei nº 12.403/11.
Afirma-se, ainda, que caso o requerente seja beneficiado com a concessão
da liberdade provisória, compromete-se, desde já, a contribuir com a busca da
verdade processual, comparecendo a todos os atos processuais para os quais
forem intimados. Logo, é mister que o juiz faça análise detida da necessidade da
prisão preventiva, conforme manda o CPP, de modo que não se vislumbra, in
casu, nenhuma demonstração por parte do assistido que o mesmo
esteja tumultuando as investigações nem que pretendam fazê-lo ou
frustrar a aplicação da lei penal, pois o assistido vem cumprindo com
a verdade pré-processual diante da autoridade policial quando
reduzido a termo suas condutas.
Resta somente, agora, que o Vosso sábio entendimento julgue
por bem da Justiça reconhecer o jus libertatis do nosso assistido.
DA AUSÊNCIA DE QUAISQUER REQUISITOS
AUTORIZADORES DO DECRETO DE PRISÃO
PREVENTIVA – DA AUSÊNCIA DE
FUNDAMENTAÇÃO DA DECISÃO QUE A
DETERMINOU
A prisão, medida de extrema necessidade e de exacerbado rigor, em
nenhum caso, comportará simplesmente a gravidade do delito hipoteticamente
imputado. Deverá, antes, corresponder a requisito exigido por lei e atender a
primordiais preceitos constitucionais de presunção de inocência, em especial
quando se verifica, claramente, que o preso é primário e possui
residência fixa. Ademais, como de resto em toda a decisão de cunho
jurisdicional – mormente aquela que recomenda a privação da liberdade, bem
mais precioso do homem –, a custódia preventiva deve estar esteada em ato
fundamentado, no qual se vislumbra cristalina legalidade.
Não se vislumbram, nos autos, de antemão, quaisquer motivos
autorizadores da custódia preventiva.
Em primeiro lugar, não há necessidade de garantia da ordem
pública, circunstância que, na ótica da decisão, revestiria de legalidade o ato ora
impugnado.
Servimo-nos da doutrina, que é maciça e definitiva, com relação ao
significado de referido requisito:
“Diz-se ser necessária, para garantia da ordem pública,
quando o agente está praticando novas infrações
penais, fazendo apologia de crime, incitando a pratica do
crime, reunindo-se em quadrilha ou bando. Aí, a paz social
exige a segregação provisória.”
Segundo FERNANDO CAPEZ, brilhante penalista, membro do Ministério
Público do Estado de São Paulo, a prisão preventiva que leva em conta o requisito
da garantia da ordem pública “é decretada com a finalidade de impedir que o
agente, solto, continue a delinquir, ou de acautelar o meio social, garantindo a
credibilidade da justiça, em crimes que provoquem grande clamor popular”.
Não existe, vê-se com clareza, nada que autorize a manutenção da prisão
pelo argumento da ordem pública. Esta não é e não pode ser definida por um
critério subjetivo e temerário de “gravidade de delito”.
Acerca da configuração desse requisito como embasamento para manter o
paciente preso, é a categórica posição da jurisprudência:
“PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. PRISÃO
PREVENTIVA. FUNDAMENTO DE GARANTIA DA
ORDEM
PÚBLICA. NÃO-OCORRÊNCIA. 1) A prisão para
garantir a ordem pública tem por escopo impedir
a prática de novos crimes, não se erigindo o fato
objetivo de ser o paciente jovem indicativo de sua
necessidade, circunstância, aliás, que deve recomendar
maior cautela no manejo de excepcional medida. Clamor
popular, isoladamente, e gravidade do crime, com
proposições abstratas, de cunho subjetivo, não
justificam o ferrete da prisão, antes do trânsito em
julgado de eventual sentença condenatória. 2)
Ordem concedida. (Acordão unânime da 6ª turma do
STJ, HC nº 5626- MT, Relator Ministro Fernando
Gonçalves – J. 20/05/97 – DJU 1
16.06.97 p. 27.403 – ementa oficial)”
A eleição fria, e não fundamentada, de um requisito da prisão preventiva
não se coaduna com o caráter de ultima ratio da prisão. Também com relação a
tal aspecto, é manso o entendimento jurisprudencial, bem assim da melhor
doutrina especializada, a exigir, para a manutenção da prisão provisória, motivos
plausíveis, informados pela realidade dos fatos e pela efetiva necessidade de que
o agente continue encarcerado.
“PENAL. PRISÃO PREVENTIVA. DECRETO.
FUNDAMENTAÇÃO. INSUFICIÊNCIA. A simples referência
à natureza do crime e à necessidade de garantia da ordem
pública e futura aplicação da lei penal, sem justificativa
completa, não constituem base válida para a prisão
preventiva. Habeas Corpus deferido. (Acordão unânime da
6ª turma do STJ, RHC nº 6136-SP, Relator Ministro William
Patterson – J.24.2.97 – DJU 1 07.04.97
p. 11.168 – ementa oficial)
PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. PRISÃO
PREVENTIVA. PRESSUPOSTOS. FUNDAMENTAÇÃO
INSUFICIENTE. A prisão preventiva, medida extrema que
implica sacrifício à liberdade individual, concebida com
cautela à luz do princípio constitucional da
inocência presumida, deve fundar-se em razões
objetivas, demonstrativas da existência de motivos
concretos, sucetíveis de autorizar sua imposição. Meras
considerações sobre a periculosidade da conduta e
a gravidade do delito, bem como à necessidade de
combate à criminalidade não justificam a custódia
preventiva, por não atender aos pressupostos
inscritos no art. 312, do CPP. Recurso ordinário
provido. Habeas Corpus concedido. (RHC nº 5747-RS,
Relator Ministro Vicente Leal, in DJ de 02.12.96, p.
47.723).”
A decisão do decreto da prisão preventiva deve ser motivada
convincentemente. Não basta como fundamento dizer que é para garantia da
ordem pública, por conveniência da instrução criminal e/ou para assegurar a
aplicação da lei penal, repetindo a letra fria da lei. Se o decreto de prisão
preventiva se der para garantia da ordem pública, o fundamento não
é só a menção do fator indicativo, mas o fato concreto que aponta sua
aplicação.
Sendo assim, eleger a circunstância da garantia da ordem pública, como já
demonstrado acima, configura evidente coação ilegal.
É lógica que não se está a negar, simplesmente, a viabilidade de
harmonização entre o princípio constitucional do estado ou presunção de
inocência e o instituto da prisão provisória, agora na modalidade preventiva.
Atento ao tema ensina FERNANDO CAPEZ, em contrapartida:
“No entanto, a prisão provisória somente se justifica, e se
acomoda dentro do ordenamento pátrio, quando
decretada com base no poder geral de cautela do juiz, ou
seja, desde que necessária para uma eficiente
prestação jurisdicional. Sem preencher os requisitos
gerais da tutela cautelar (fumus boni iuris e periculum in
mora), sem necessidade para o processo, sem caráter
instrumental, a prisão provisória, da qual a prisão
preventiva é espécie, não seria nada mais do que uma
execução da pena privativa de liberdade antes da
condenação transitada em julgado, e, isto sim, violaria o
princípio da presunção da inocência. Sim, porque se o
sujeito está preso sem que hajanecessidade
cautelar, na verdade estará apenas cumprindo
antecipadamente a futura e possível pena
privativa de liberdade.”
No mesmo sentido, a abalizada palavra de LUIZ FLÁVIO GOMES, e o
amparo de moderna jurisprudência:
“A prisão cautelar não atrita de forma irremediável com a
presunção da inocência. Há, em verdade, uma convivência
harmonizável entre ambas desde que a medida de cautela
preserve o seu caráter de excepcionalidade e não perca a
sua qualidade instrumental a prisão cautelar não
pode, por isso, decorrer de mero automatismo
legal, mas deve estar sempre subordinada à sua
necessidade concreta, real e efetiva, traduzida
pelo fumus boni iurise o periculum in mora.”
Portanto, os fundamentos que justificam a decisão são frágeis quanto ao
caso concreto, visto o não preenchimento dos requisitos para decretar a prisão
preventiva do assistido, pois não demonstra a real necessidade da custódia
cautelar.
I. DO PEDIDO
Ex Positis, verificando que os requerentes satisfazem os requisitos
objetivos e subjetivos para responder à futura ação penal no gozo constitucional
de seu jus libertatis e que os previstos nos artigos 312 e 323 ambos do Código
de Processo Penal, não se encontram presentes, a defesa técnica REQUER a
Vossa Excelência:
● A REVOGAÇÃO DA PRISÃO
PREVENTIVA com a concessão de liberdade
provisória em favor do assistido, com fulcro nos artigos
321, artigos 323 (a contrario sensu) do CPP, ordenando a
expedição do competente Alvará de Soltura;
● Se for outro o entendimento, requer-se a
substituição da cautelar excepcional antes da sentença por
medidas cautelares substitutivas à prisão como forma de
garantir a efetividade do processo e aplicação da lei penal,
nos termos do art. 319 do CPP.
Nestes termos
Pede e espera deferimento.
Belém – Pará, 26 de abril de 2022.
Paulo Roberto Silva Avelar Lucas Pereira Palheta
Defensor Público Estagiário/Nudecrim