Controle Quimico
Controle Quimico
RESUMO
A remoção mecânica da placa bacteriana é a forma
mais utilizada de higiene bucal. Entretanto, muitos indiví-
duos não apresentam destreza e motivação suficientes para
realizar uma correta higienização. Assim, o uso complemen-
tar de agentes químicos tem sido estudado como um modo
de superar as deficiências na higiene bucal. O objetivo des- INTRODUÇÃO
te trabalho foi apresentar uma revisão sobre o uso de pro-
dutos para higiene bucal contendo agentes químicos des- Os agentes químicos têm emergido, cultural-
tinados ao controle da placa bacteriana supragengival. Fo- mente ou por pesquisas, no intuito de habilitar os
ram revisados estudos in vitro e ensaios clínicos dos seguin- indivíduos a manter sua saúde bucal. A profissão
tes agentes químicos: clorexidina, óleos essenciais, triclosan, odontológica, em geral, tem o desafio de aperfeiço-
cloreto de cetilpiridínio e novos produtos como delmopinol ar e também, se possível, desenvolver a miríade de
e dióxido de cloro. Os autores concluem que diversos estu- agentes químicos para combater e superar fatores
dos demonstram eficácia de enxaguatórios contendo patogênicos, no caso, o biofilme dental.
clorexidina e óleos essenciais, assim como dentifrícios con- A limpeza mecânica dos dentes através da
tendo triclosan. No entanto, mais estudos são necessários escovação com dentifrício é a forma de higiene oral
para comprovar a eficácia dos demais agentes químicos. mais comumente empregada pelas pessoas nos pa-
UNITERMOS: controle químico, biofilme dentário, íses desenvolvidos. Entretanto, é comum observar-
gengivite. R Periodontia 2008; 18:00-00. mos na clínica odontológica que muitos pacientes
falham na prática de um padrão elevado de remo-
ção de placa, já que a gengivite é altamente predo-
minante mesmo em idades precoces (Lavstedt et al.,
1982, Addy, 1986). Isso supostamente se origina tan-
to da falha no cumprimento das recomendações
sobre a limpeza dos dentes quanto da falta de des-
treza em relação aos hábitos de limpeza dos dentes.
1
O nível sócio-econômico e o conhecimento sobre o
Professor Doutor da Disciplina de Periodontia da FOUSP
processo de doença também influenciam o padrão
2
Pós Doutoranda da Disciplina de Periodontia da FOUSP e a qualidade da higiene bucal (Addo-Yobo et al.,
3
1991). Desta forma, o uso complementar de agen-
Mestre em Periodontia pela FOUSP
tes químicos tem sido estudado como um modo de
Recebimento: 00/00/00 - Correção: 00/00/00 - Aceite: 00/00/00 superar as deficiências nos hábitos mecânicos de lim-
99
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
peza praticados por muitos indivíduos. ros e eficazes (Food and Drug Administration, 2003).
De acordo com Van der Ouderaa (1991), para ser em- Por sua vez, a American Dental Association avalia pro-
pregado na cavidade bucal, um agente químico deve apre- dutos antiplaca e antigengivite desde 1931, por meio de seu
sentar: 1) segurança, ou seja, não deve ser tóxico ou induzir Seal of Acceptance Program. No entanto, enquanto a ADA
à reação alérgica, 2) sabor agradável e facilidade de manipu- avalia produtos, a FDA avalia ingredientes ativos. Para obter
lação, o que motivaria o paciente a usar o produto, 3) eficá- o Seal of Acceptance da ADA, o fabricante deve mostrar evi-
cia, que consiste na capacidade de reduzir os níveis de dência de que seu produto seja eficaz e seguro, segundo
biofilme dentário e gengivite, 4) especificidade para a normas publicadas pela ADA em 1986 e revisadas em 1997
microbiota periodontopatogênica e 5) boa substantividade, (American Dental Association, 1997). Essas normas são mos-
ou seja, capacidade de permanecer na cavidade bucal por tradas no quadro 1:
período de tempo suficiente para exercer seus efeitos. Dois bochechos contendo anti-sépticos (e seus equiva-
Apesar da grande diversidade de produtos com agentes lentes genéricos) receberam o selo da ADA para controle de
químicos para higiene bucal, poucos apresentam evidência placa supragengival e gengivite: digluconato de clorexidina
científica de eficácia e segurança. Assim, o objetivo desta a 0,12% (Peridex) e óleos essenciais (Listerine).
revisão é apresentar uma revisão sobre o uso de produtos No Brasil, qualquer produto, antes de ser comercializado,
para higiene bucal contendo agentes químicos, destinados deve ser apreciado pela Agência Nacional de Vigilância Sani-
ao controle da placa bacteriana supragengival. tária (Anvisa) na gerência competente. Os produtos para hi-
giene bucal disponíveis no mercado brasileiro são sujeitos a
REQUISITOS PARA PRODUTOS ANTI-PLACA E ANTI- regularização pela Gerência Geral de Cosméticos da Anvisa,
GENGIVITE conforme previsto nas Resoluções 79/00 e 335/99. Esta le-
Nos Estados Unidos, a Food and Drug Administration gislação, bem como os informes para o registro ou notifica-
(FDA) regulamenta produtos antiplaca e antigengivite. Al- ção dos produtos, pode ser acessada pelos interessados no
guns destes produtos podem ser vendidos sem prescrição banco de dados desta agência ([Link]/
médica (OTC: over-the-counter products), enquanto outros cosmeticos/[Link]). Estudos de segurança e eficácia dos
necessitam de prescrição. Em 2003, o Dental Plaque produtos são itens fundamentais a serem avaliados por este
Subcommitee of the Non-prescription Drugs Advisory órgão.
Committee da FDA publicou os requisitos para que produ- Alguns dos produtos comercializados no Brasil são mos-
tos antiplaca e antigengivite possam ser aceitos como segu- trados na tabela 1.
Quadro 1
REQUISITOS PARA PRODUTOS ANTIPLACA E ANTIGENGIVITE (ADA, 1997)
1 - Devem ser testados em populações de típicos usuários do produto, em ensaios clínicos aleatórios de delineamento
paralelo ou cruzado. O produto teste deve ser comparado com controle negativo (placebo) ou um controle ativo, se
indicado.
2 – Deve haver evidência de pelo menos dois ensaios clínicos aleatórios independentes, com no mínimo 6 meses de
duração. Deve ser avaliada gengivite e placa supragengival no início do estudo, algum tempo experimental intermediá-
rio (exemplo: 3 meses) e após 6 meses.
3 – Deve ser documentada redução significativa de placa e gengivite nos dois estudos quando comparada com o
controle negativo. A redução de gengivite deve ser de pelo menos 15% em um dos estudos e deve haver redução
média de 20% nos dois estudos, quando comparado com o controle negativo.
4 – Uma análise microbiológica deve avaliar a placa qualitativamente para complementar os índices que mensuram a
placa quantitativamente.
5 – Além de eficaz, o produto deve mostrar segurança. Não deve haver alteração nos tecidos moles bucais (ulcerações,
candidíase, infecções secundárias, etc.) e nos dentes. O uso do produto não pode provocar alterações na composição
da microbiota bucal ou promover o desenvolvimento de resistência microbiana ou emergência de patógenos oportunis-
tas.
6 - O perfil toxicológico dos produtos deve incluir ensaios de carcinogenicidade e mutagenicidade, além dos testes
normalmente empregados para segurança da droga.
100
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
Tabela 1
ALGUNS AGENTES QUÍMICOS COMERCIALIZADOS NO BRASIL.
Princípio ativo Nome do produto Fabricante Concentração
Cloreto de Anti-séptico bucal Cool Mint Johnson & Johnson 0,05%
Cetilpiridínio Plax Kids® Colgate® 0,05%
Plax Sem Álcool®
Scope Proctor & Gamble Não informa
Triclosan Colgate Total 12 Colgate® 0,03%
(creme dental) ®
Plax Clássico®
Plax Fresh Mint®
Óleos essenciais Listerine Original® Johnson & Johnson Timol 0,064%
Eucaliptol 0,092%
Salicilato de metila 0,06%
e mentol 0,042%
Listerine Cool Citrus® Johnson & Johnson Timol 0,064%
Listerine Cool Mint® Eucaliptol 0,092%
Listerine Fresh Burst® Salicilato de metila 0,06%
Listerine Tartar control® Mentol 0,042%
Listerine Defesa dos dentes Sorbitol
e das gengivas®
Listerine Vanilla Mint®
Gluconato de Periogard® Colgate® 0,12%
Clorexidina Gel Dental Maxi Control® Bitufo 0,12%
Solução Bucal Perio Therapy®
NoPlak Max® Daudt 0,12%
Perioxidin Enxaguatório® Laboratório Lacer 0,12%
Perioxidin Gel® 0,2%
Parodontax® GlaxoSmithKline® 0,2%
101
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
documentada em estudos de curta (Löe & Schiott, 1970; Seal of Acceptance, em 1988. Em dois estudos, os indivídu-
Flotra et al., 1972) e longa duração (Löe et al., 1976; os foram acompanhados por 6 meses (Lamster et al., 1983;
Grossman et al., 1986; Segreto et al., 1986) mostrando re- De Paola et al., 1989) e no outro, por 9 meses (Gordon et al.,
duções de placa e gengivite de 55 e 45%, respectivamente. 1985). Nos três estudos o bochecho associado ao controle
O uso de solução de clorexidina na forma de mecânico do biofilme dental reduziu significativamente os
enxaguatório bucal a 0,12% é um dos mais utilizados pois, índices de placa e gengival quando comparados ao placebo.
segundo a literatura, essa concentração apresentou bons Não foram observadas, nestas investigações, alterações
resultados para a redução de biofilme dental e gengivite. aberrantes na mucosa ou aparecimento de manchas sobre
Segreto et al. (1986) e Keijser et al. (2003) mostraram que a os dentes. O efeito colateral associado a este produto foi a
realização de dois bochechos diários com 15ml de solução sensação de queimação.
de clorexidina a 0,12% produzia efeitos clínicos semelhantes Uma meta-análise recente avaliou a eficácia de
aos de dois bochechos diários com 10 ml da solução a 0,2%. bochechos com óleos essenciais na redução de placa e
Quando comparada a outros agentes, a clorexidina se gengivite (Gunsolley et al., 2006). A meta-análise de ensaios
mostra bastante superior na redução da formação de biofilme clínicos de 6 meses de duração mostrou eficácia na redução
dental. Renton-Harper et al. (1996), compararam clorexidina, de placa e gengivite.
cloreto de cetilperidínio, C31G e triclosan na inibição de
biofilme dental. A clorexidina se mostrou mais eficaz que os Triclosan
demais agentes, sendo seguida por cloreto de cetilperidínio, O triclosan é um antimicrobiano não iônico pertencente
triclosan e C31G. aos fenóis e que tem sido largamente usado em vários pro-
Os efeitos adversos mais comuns relacionados com o dutos, incluindo antiperspirantes e sabonetes (Lindhe et al.,
uso desta droga incluem manchamento ou pigmentação dos 1997). Atualmente, o triclosan tem sido introduzido nos den-
dentes e língua, sensação de queimação, lesões tifrícios como uma forma de inibição da placa bacteriana e
descamativas, alteração do paladar e formação acentuada da gengivite e também pode ser utilizado na forma de
de cálculo supragengival. Quanto à pigmentação dentária, bochechos. Sabe-se que esse efeito antimicrobiano é mode-
esta parece depender da concentração do produto e varia rado e tem duração de aproximadamente cinco horas
muito de indivíduo para indivíduo, sendo facilmente removi- (Jenkins et al., 1991). Quando o citrato de zinco ou o
da após profilaxia (Al-Tannir & Goodman, 1994). copolímero (PVM ácido éter) é adicionado ao triclosan, sua
substantividade é aumentada consideravelmente (Binney et
ÓLEOS ESSENCIAIS al., 1996; Cummins & Creeth, 1992; Gaffar et al., 1994).
Produtos contendo óleos essenciais fenólicos (Listerine) Estudo recente de Davies, Ellwood e Davies (2004) ana-
apresentam uma combinação de timol (0,064%), mentol lisou, por meio de uma revisão sistemática, a efetividade dos
(0,042%), eucaliptol (0,092%) e salicilato de metila (0,060%), dentifrícios contendo triclosan (0,3%), copolímero
além de álcool, com concentração variando entre 21,6% e polivinilmetil éter ácido maléico (2%) e fluoreto de sódio em
26,9%. sílica base (0.243%) na melhora do controle de placa e da
Os óleos essenciais têm a capacidade de romper a mem- saúde gengival. Os autores concluíram que os dentifrícios
brana celular de bactérias, resultando em morte celular. Tam- contendo triclosan e copolímeros demonstraram maior efici-
bém causam desnaturação de proteínas e inibem a ativida- ência no controle da placa e na saúde periodontal em rela-
de enzimática de microrganismos (Walker, 1988). Além dis- ção aos dentifrícios convencionais.
so, podem extrair endotoxinas de patógenos Gram-negati-
vos, o que poderia diminuir a patogenicidade da placa Cloreto de Cetilpriridínio
(Ouhayoun, 2003). Há evidência de que óleos essenciais O Cloreto de cetilpiridínio (CPC) é um agente
penetram no biofilme dentário e exercem ação bactericida antimicrobiano catiônico, cujo mecanismo de ação é seme-
contra bactérias localizadas dentro do biofilme (Pan et al., lhante ao da Clorexidina, ambos alteram a estrutura da pa-
2000). rede celular microbiana. Compostos de CPC possuem am-
Três estudos clínicos de longa duração foram submeti- plo espectro de ação e rápido efeito bactericida em patógenos
dos ao Conselho em Terapêutica Dental para mostrar a Gram-positivos e fungos (Pitten & Kramer, 2001). São rapi-
efetividade do LISTERINE (Warner-Lambert Co) (Lamster et damente adsorvidos às superfícies bucais e perdem sua ati-
al., 1983; Gordon et al., 1985; De Paola et al., 1989), obten- vidade em três horas. Portanto, são agentes de baixa
do o American Dental Association Council on Scientific Affairs substantividade e menor eficácia clínica (Bonesvoll & Gjermo,
102
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
1978; Moran et al., 2000). O colutório que é apresentado ção significativa de Streptoccocos produtores de dextrano
normalmente numa concentração de 0,05% mostrou efeti- (Elworthy et al., 1995). Ainda os mesmos autores, através
va inibição da formação de placa bacteriana, quando admi- desses resultados, sugerem que o delmopinol pode interfe-
nistrado pelo menos quatro vezes ao dia (Bonesvoll & Gjermo, rir na formação da matriz da placa reduzindo a aderência
1978). dos principais microrganismos formadores do biofilme ou de
Estudos clínicos controlados de longa duração mostram bactérias successionais.
que quando comparado a um controle negativo ou placebo, A efetividade do delmopinol, acoplada à sua capacida-
o cloreto de cetilpiridínio apresenta efeitos adicionais na re- de em reduzir o potencial de manchamento dos dentes tan-
dução de placa supragengival em relação à remoção mecâ- to qualitativa quanto quantitativamente quando compara-
nica da placa (Witt et al., 2005; Witt et al., 2006; Stookey et da a clorexidina faz desse composto uma alternativa atrativa
al., 2005; Mankodi et al, 2005; Rawlison et al, 2008). Ainda a clorexidina para o controle químico da placa bacteriana
assim, a eficácia superior da clorexidina é indiscutível, o que (Lang et al., 1998, Addy et al., 2007). Enxaguatórios
a caracteriza como controle positivo em alguns desses expe- contendo delmopinol ainda não são comercializados no
rimentos (Moran et al, 2000; Stookey et al, 2005; Quirynen Brasil. A indústria farmacêutica Sinclair ® comercializa
et al., 2005). enxaguatórios contendo decapinol (princípio ativo de
Estudos mais recentes vêm testando uma nova formu- mesmo mecanismo de ação do delmopinol) nos Estados
lação para o CPC, sem álcool e com a concentração de Unidos e Europa.
0,07%. Num acompanhamento de seis meses, os resulta- Um outro agente alternativo importante, atualmente
dos mostraram que a redução de placa e gengivite foi tão muito em uso, é o dióxido de cloro (Cl2O), que faz parte da
eficaz quanto à dos óleos essenciais, tidos como controles família dos compostos clorados. O dióxido de cloro não se
positivos (Witt et al., 2005; Albert et al., 2007). hidrolisa em solução aquosa e a maior parte da molécula é
A associação de clorexidina e CPC também foi analisada considerada o agente ativo. As características desodorizan-
com objetivo de manter altos níveis de redução de placa tes e antibacterianas do Cl2O em solução aquosa são bem
bacteriana com menores efeitos adversos. Quirynen et al. conhecidas. (Gordon et al., 1972; White, 1992; Tárzia, 2003).
(2005) demonstraram que a formulação não alcoólica de Aparentemente há mais de um mecanismo de ação do
0,05% de clorexidina associada a 0,05% de CPC foi efetiva cloro sob formas vegetativas de bactérias. Um deles, pro-
como agente antiplaca, quando comparada ao controle posto por volta de 1950, sugere que ao penetrar através da
positivo (solução alcoólica de clorexidina a 0,2%), e também membrana celular, elimina a célula bacteriana por inibição
apresentou redução dos efeitos colaterais subjetivos. da via glicolítica. Porém os mecanismos pelos quais a via
glicolítica é inibida e qual concentração de dióxido de cloro
Novos produtos presente nos enxaguatórios disponíveis no mercado é efeti-
A maioria dos agentes químicos antiplaca, incluindo a va ainda não estão bem esclarecidos (Andrade e Macedo,
clorexidina, tem sua efetividade baseada na combinação de 1996). Se existe a possibilidade de inibição dessa via, o Cl2O
atividades bactericidas e bacteriostáticas associadas à pode ser importante na redução de microorganismos
substantividade na cavidade oral (Schiott 1972, Jenkins et cariogênicos (Tarzia, 2003). Essa hipótese tem sido testada
al., 1988). Agentes de 3ª geração começam a emergir. São com resultados ainda não publicados. Enxaguatórios con-
caracterizados, entretanto, pela habilidade em inibir ou im- tendo Cl2O são comercializados no Brasil através do nome
pedir (interromper) a formação de placa bacteriana demons- comercial SaúdeBucal® e também são conhecidos pela sua
trando não ter efeito sobre a bactéria. O derivado do capacidade de reação e neutralização dos Compostos
morpholinoethanol, delmopinol, é um exemplo dessa cate- Sulfurados Voláteis, um dos principais causadores de mau
goria de novos agentes químicos de controle de placa (Addy hálito. Na Europa, mais precisamente no Reino Unido,
et al., 2007). Tem sido demonstrado que esse composto é enxaguatórios contendo dióxido de cloro são comercializados
capaz de inibir a formação de placa in vitro e in vivo e a com o nome de Retardex®.
gengivite (Collaert et al., 1992, Hase et al., 1995), apesar de É importante ressaltar que a realidade do cirurgião-den-
seu mecanismo de ação ser destituído de efeitos bactericidas tista hoje compreende a relação desse profissional com um
e bacteriostáticos (Simonsson et al., 1991; Rundegren et al., paciente que tem acesso a todo tipo de informação, inclusi-
1992a). Estudos envolvendo a placa bacteriana e o ve aquelas relacionadas aos produtos naturais ou chama-
delmopinol revelaram que o biofilme neoformado possui a dos fitoterápicos. Em resposta, fórmulas personalizadas co-
aderência comprometida (Rundegren et al., 1992b) e redu- meçam a emergir oferecendo uma variedade de produtos
103
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
feitos para auxiliar o paciente-consumidor a manter sua saúde eficácia ainda são contraditórios (Adams and Addys, 1994;
sem ingredientes ativos “artificiais”. Além disso, atualmente Torres et al., 2000). Além dela, outros fitoterápicos como
se nota uma maior aplicação de plantas medicinais e produ- guaco e própolis também estão envolvidos em estudos com
tos de origem natural na terapia de certas doenças e não é resultados satisfatórios (Manara et al., 1999).
inconcebível, portanto, o interesse despertado pelos A diversidade molecular no reino vegetal é ainda consi-
fitoterápicos na Odontologia. derada ilimitada, apesar dos avanços científicos (Simões et
Nos Estados Unidos, fabricantes de produtos para uso al., 1999). Portanto, é bastante lógica a valorização da sabe-
odontológico, incluindo também indústrias farmacêuticas, doria popular que fornece indícios de plantas portadoras de
têm direcionado sua produção à necessidade emergente de efeitos terapêuticos, as quais podem representar a etapa ini-
atender esse mercado de produtos de higiene oral a base de cial de novos projetos de pesquisa. Ainda sugere-se que os
ingredientes naturais requerido por um grupo restrito de produtos odontológicos contendo substâncias naturais apre-
pacientes (Haffajee et al., 2008). Porém, os resultados de sentem boas perspectivas no mercado devido à aceitação
estudos feitos com esses produtos ainda são empíricos e popular da fitoterapia. Muitos produtos com extratos
necessitam de mais investigações tanto laboratoriais quan- fitoterápicos estão sendo estudados, porém com resultados
to clínicas. ainda empíricos. Estes podem ser introduzidos no mercado
O uso de extrato de semente de grapefruit (conhecida odontológico, desde que amplamente amparados, por es-
no Brasil como pomelo ou toranja) tem mostrado inibir uma tudos laboratoriais e clínicos específicos.
ampla variedade de biótipos bacterianos, Gram-positivos e
gram-negativos, bem como ter propriedades antioxidativas CONCLUSÕES
e protetivas benéficas a mucosa gástrica. Em 2002, Reagor Diversos estudos mostram eficácia de enxaguatórios
et al. demonstraram o efeito antibacteriano de extrato de contendo clorexidina e óleos essenciais. Da mesma forma,
semente de grapefruit em concentrações seguras. No estu- estudos têm demonstrado eficácia de dentifrícios contendo
do de Haffajee et al., 2008, os autores encontraram que triclosan. No entanto, mais estudos são necessários para
enxaguatórios contendo extrato de planta de grapefruit foi comprovar a eficácia dos demais agentes químicos.
efetivo em inibir bactérias orais, demonstrando assim o uso
como potencial agente antiplaca e antigengivite. Apesar de ABSTRACT
menos potente quando comparado a clorexidina, esse The mechanical removal of plaque is the most widely
enxaguatório foi mais efetivo comparado a enxaguatórios used form of oral hygiene. However, many individuals do
contendo óleos essenciais na inibição do crescimento de not have enough dexterity and motivation to carry out a
bactérias orais in vitro. Além disso, esse produto pode servir proper cleaning. Thus, the additional use of chemical agents
como alternativa a aqueles pacientes que desejam evitar o has been studied as an alternative to overcome the
uso de álcool, preservativos, flavorizantes e colorantes artifi- deficiencies in oral hygiene. The purpose of this study was to
ciais. O mesmo grupo de pesquisadores tem conduzido es- present a review on the use of products for oral hygiene
tudos clínicos em humanos para esclarecer o entendimento containing chemical agents for the control of supra-gingival
do papel desses enxaguatórios naturais no manejo da do- plaque. Clinical trials and in vitro studies of the following
ença periodontal, mas investigações futuras ainda são ne- agents were reviewed: chlorhexidine, essential oils, triclosan,
cessárias para esclarecer o exato mecanismo de ação de pro- cetylpyridinium chloride and new products such as
dutos a base desse extrato. delmopinol and chlorine dioxide. The authors conclude that
Ainda com relação aos produtos naturais, a sanguinarina several studies show effectiveness of mouthrinses containing
é um alcalóide vegetal derivado da planta Sanguinarina chlorhexidine and essential oils as well as dentifrice containing
canadensis e encontrado no enxaguatório de nome comer- triclosan. However, addicional studies are needed to prove
cial Viadent® , nos EUA, e Perioguard® , na União Européia. A the effectiveness of other chemical agents.
mesma tem sido adicionada tanto em dentifrícios quanto
em enxaguatórios, mas os resultados publicados sobre sua UNITERMS: chemical control, dental biofilm, gingivitis.
104
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1- Addo-Yobo C, Williams SA, Curzon ME. Oral hygiene practices, oral gingivitis development. J Clin Periodontol 1989; 16(5): 311-5.
cleanliness and periodontal treatment needs in 12-year old urban and
rural school children in Ghana. Community Dent Health. 1991 16- Denton GW. Chlorexidine. In: Block, S.S. Desinfection, sterilization
Jul;8(2):155-62. and preservation. [Link]. Philadelphia: Lea & Febiger, 1991. 638p.
2- Addy M. Chlorhexidine compared with other locally delivered 17- Elworthy A J, Edgar R, Moran J, Movert R, Kelty E. & Wade W G A. 6-
antimicrobials. A short review. J Clin Periodontol 1986; 13: 957-964. month home use trial of 0.1% and 0.2% delmopinol mouthwashes. II.
Effects on the plaque microflora. Journal of Clinical Periodontology
3- Addy M, Moran J, Newcombe RG. Meta-analyses of studies of 0.2% 1995; 22: 527–532.
delmopinol mouth rinse as an adjunct to gingival health and plaque
18- Flotra L. Different modes of chlorexidine application and related local
control measures. J Clin Periodontol 2007; 34: 58–65.
side effects. J Periodontal Res 1973; 12: 41-44.
4- Addy, M, Moran J, Wade W. Chemical plaque control in prevention of
19- Food and Drug Administration. Oral Health Care drug products for
gingivitis and periodontitis. In: Lang, N.P. & Karring, T. (eds). Proceedings
over-the-counter human use: antigingivitis / antiplaque drug products.
of the 1st European Workshop on periodontology. London: Quintessence
Establishment of a monograph; proposed rules. Fed Regist May 29,
Publishing. 1994; 244-257.
2003; 68: 32232-32287.
5- Adams D, Addy M. Mouthrinses. Adv Dent Res 1994; 8 (2): 291-301.
20- Francis JR, Addy M, Hunter B. A comparison of three delivery methods
6- Albert-Kiszely A, Pjetursson BE, Salvi GE, Witt J, Hamilton A, Persson of chlorexidine in handicapped children. 2. Parents and house-parents
GR, Lang NP. Comparison of the effects of cetylpyridinium chloride preferences. J Periodontol 1987; 58 (7): 456-459.
with an essential oil mouth rinse on dental plaque and gingivitis - a six-
month randomized controlled clinical trial. J Clin Periodontol. 2007 21- Gaffar A, Afflitto J, Nabi N, Herles S, Kruger I, Olsen S. Recent advances
Aug;34(8):658-67. in plaque, gingivitis, tartar and caries prevention technology. Int Dent J
1994;44:63-70.
7- Al-Tannir M, Goodman HS. A review of chlorexidine and its use in
special populations. Spec Care Dent 1994; 14 (3): 116-122. 22- Gjermo P, Baastad KL, Rölla G. The plaque-inhibiting capacity of 11
antibacterial compounds. J Periodontal Res 1970; 5 (2): 102-109.
8- American Dental Association Council on Scientific Affairs. Acceptance
Program Guidelines: Chemotherapeutic Products for Control of 23- Gordon JM, Lamster IB, Seiger MC. Efficacy of Listerine antiseptic in
Gingivitis. Disponível em [Link] inhibiting the development of plaque and gingivitis. J Clin Periodontol
guide_chemo_ging.pdf. Publicado em Julho 1997. Acessado em 21 1985; 12(8): 697-704.
de Abril de 2008.
24- Gordon G, Kieffer R, Rosenblatt D. The Chemistry of Chlorine dioxide.
In Lippard S. J. (Ed) Progress in Inorganic Chemistry 15, New York,
9- Andrade NJ, Macedo JAB. Higienização na indústria de alimentos. S.
Wiley-Interscience 1972: 210-287.
Ed., São Paulo, Livraria Varela Ltda, 1996, p. 29, 30, 55, 95.
12- Collaert B, Attstrom R, de Bruyn H, Movert R. The effect of delmopinol 27- Haffajee AD, Yaskell T, Socransky SS. Antimicrobial Effectiveness of
rinsing on dental plaque formation and gingivitis healing. J Clin an Herbal Mouthrinse Compared With an Essential Oil and a
Periodontol 1992; 19: 274-280. Chlorhexidine Mouthrinse. J Am Dent Assoc 2008; 139: 606-611.
13- Cummins D, Creeth JE. Delivery of antiplaque agents from dentifrices, 28- Hase JC, Ainamo J, Etemadzadeh H, Astrom M. Plaque formation
gels and mouthwashes. J Dent Res 1992; 71:1439-49. and gingivitis after mouthrinsing with 0.2% delmopinol hydrochloride,
0.2% chlorhexidine digluconate and placebo for 4 weeks, following
14- Davies RM, Ellwood RP, Davies GM . The effectiveness of a toothpaste an initial professional cleaning. J Clin Periodontol 1995; 22: 533–539.
containing triclosan and polyvinyl-methyl ether maleic acid copolymer
in improving plaque control and gingival health. A systematic rewiew. 29- Heasman PA, Seymour RA. Pharmacological control off periodontal
J Clin Periodontol 2004; 31:1029-33. disease. I. Antiplaque agents. J Dent 1994; 22: 323-335.
105
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
31- Hugo WB, Longworth AR. The effect of chlorhexidine on 46- Ouhayoun JP. Penetrating the plaque biofilm: impact of essential oil
electrophoretic mobility, cytoplasmic constituents, dehydrogenase mouthwash. J Clin Periodontol 2003; 30 Suppl 5:10-2.
activity and cell walls of Escherichia coli and Staphylococcus mutans.
Journal of Pharmacy and Pharmacology 1966; 18: 569-584. 47- Pan P, Barnett ML, Coelho J. Determination of the in situ bactericidal
activity of an essential oil mouthrinse using a vital stain method. J Clin
32- Jenkins S, Addy M, Newcombe R. Triclosan and sodium lauryl sulphate Periodontol 2000; 27: 256-261.
mouthwashes. I. Effects on salivary bacterial counts. J Clin Periodontol
1991;17:85-9. 48- Pitten FA, Kramer A. Efficacy of cetylpyridinium chloride used as
oropharyngeal antiseptic. Arzneimittelforschung. 2001;51(7):588-95.
33- Jenkins S, Addy M, Wade W. The mechanism of action of chlorhexidine:
a study of plaque growth on enamel inserts in vivo. J Clin Periodontol 49- Quirynen M, Soers C, Deskeyder M, Pauwels M, van Steenberghe D.
1988; 15: 415–424. A 0,05% cetyl pyridinium chloride/ 0,05% chlorexidine mouth rinse
during maintenance phase after initial periodontal therapy. J Clin
34- Jones CG. Chlorexidine: is it still the gold standard? Periodontol. Periodontol. 2005; 32: 390-400.
2000 1997; 15: 55-62.
50- Rawlinson A, Pollington S, Walsh TF, Lamb DJ, Marlow I, Haywood J,
35- Keijser JA, Verkade H, Timmerman MF, Van Der Weijden FA. Wright P. Efficacy of two alcohol-free cetylpyridinium chloride
Comparison of 2 commercially available chlorhexidine mouthrinses. J mouthwashes - a randomized double-blind crossover study. J Clin
Periodontol. 2003; 74(2): 214-8. Periodontol. 2008 Mar;35(3): 230-5.
36- Kornmann, K.S. The role of supragingival plaque in the prevention 51- Reagor L, Gusman J, McCoy L, Carino E, Heggers JP. The effectiveness
and treatment of periodontal diseases. J Periodontal Res 1986; 21: 5- of processed grapefruit-seed extract as an antibacterial agent, I: an in
22. vitro agar assay. J Altern Complement Med 2002; 8(3): 325-332.
37- Lamster IB, Alfano MC, Seiger MC, Gordon JM. The effect of Listerine® 52- Renton-Harper P, Addy M, Moran J, Doherty FM, Newcombe RG. A
Antiseptic on reduction of existing plaque and gingivitis. Clin Prev Dent. comparison of chlorexidine, cetylperidinium chloride, triclosan and
1983;5:12-16. C31G mouthrinse products for plaque inhibition. J Periodontol 1996;
67(5): 486-489.
38- Lang N P, Hase J C, Grassi M, Hammerle C H, Weigel C, Kelty E, Frutig
F. Plaque formation and gingivitis after supervised mouthrinsing with 53- Rundegren J, Hvid E B, Johansson M, Astrom M. Effect of 4 days of
0.2% delmopinol hydrochloride, 0.2% chlorhexidine digluconate and mouth rinsing with delmopinol and chlorhexidine on the vitality of
placebo for 6 months. Oral Diseases 1998; 4: 105–113. plaque bacteria. J of Clin Periodontol 1992a; 19: 322–325.
39- Lavstedt S, Modéer T, Welander E. Plaque and gingivitis in a group of 54- Rundegren J, Simonsson T, Petersson L, Hansson E. Effect of delmopinol
Swedish schoolchildren with special reference to toothbrushing habits. on the cohesion of glucan-containing plaque formed by Streptococcus
Acta Odontol Scand. 1982;40(5): 307-11. mutans in a flow cell system. Journal of Dental Research 1992b; 71:
1792–1796.
40- Lindhe J, Karring T, Lang NP. Tratado de periodontia clínica e
implantologia oral. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan S.A.; 1997. 55- Schiott CR. Effect of chlorhexidine on the microflora of the oral cavity.
Journal of Periodontal Research 1972; 8 (Suppl. 12): 7–10.
41- Löe H, Schiott CR. The effect of mouthrinses and topical application
of chlorexidine on the development of dental plaque and gingivitis in 56- Segreto VA, Collins EM, Beiswanger BB, De La Rosa M, Isaacs RL,
man. J Periodontal Res 1970; 5 (2): 79-83. Lang NP, Mallatt ME, Meckel AH. A comparison of mouthrinses
containing two concentrations of chlorexidine. J Periodontal Res 1986;
42- Löe H, Schiott CR, GlavindL, Karring T. Two years oral use of 21: 23-32.
chlorexidine in man. I. General design and clinical effects. J Periodontal
Res 1976; 11 (3): 135-144. 57- Siegrist, B.E.; Gusberti, F.A.; Brecx, M.C.; Weber, H.P.; Lang, N.P. Efficacy
of supervised rinsing with chlorexidine digluconate in comparison to
43- Mankodi S, Bauroth K, Witt JJ, Bsoul S, He T, Gibb R, Dunavent J, phenolic and plant alkaloid compounds. J Periodontal Res 1986; 21:
Hamilton A. A 6-month clinical trial to study the effects of a 60-73.
cetylpyridinium chloride mouthrinse on gingivitis and plaque. Am J
Dent. 2005 Jul;18 Spec No:9A-14A. 58- Simões CMO, Schenkel EP, Gosmann G, Mello J CP, Mentz LA, Petrovick
PR. Farmacognosia: da planta ao medicamento 1999.
44- Manara LRB, Anconi SI, Gromatzky A, Conde MC, Bretz WA. Utilização
da própolis em odontologia. Revista da Faculdade de Odontologia de 59- Simonsson T, Arnebrant T, Peterson L. The effect of delmopinol on
Bauru 1999; Jul/Dez 7(3/4):15-20. the salivary pellicles, the wettability of tooth surfaces in vivo and bacterial
cell surfaces in vitro. Biofouling 1991; 3: 251–260.
45- Moran J, Addy M, Jackson R, Newcombe RG. Comparative effects of
quaternary ammonium mouthrinses on 4-day plaque regrowth. J Clin 60- Stookey GK, Beiswanger B, Mau M, Isaacs RL, Witt JJ, Gibb R. A 6-
Periodontol. 2000; Jan; 27(1):37-40. month clinical study assessing the safety and efficacy of two
cetylpyridinium chloride mouthrinses. Am J Dent. 2005 Jul;18 Spec
106
VOL. 18 - Nº 03 - SETEMBRO 2008
No:24A-28A.
61- Tarzia O. Halitose: Um desafio que tem cura. São Paulo: Editora de
publicações biomédicas; 2003.
62- Van der Ouderaa FJG. Anti-plaque agents. Rationale and prospects
for prevention of gingivitis and periodontal disease. J Clin Periodontol
1991; 18: 447-454.
107