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Itaytera 33

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Itaytera

Número 33 • Ano: 1989

“Suas segundas núpcias (do Major Otaviano Cícero de


Alencar Araripe) foram realizadas a 13 de janeiro de 1882, com minha mãe,
Rita Cavalcante Araripe, na citada povoação de Saco da Orelha, pelo Pe.
Francisco José de Carvalho, vigário da Paróquia, e delas provieram dez
filhos, só um destes nascido sob diversa jurisdição eclesiástica.

Constituímos, assim, eu e meus irmãos germanos,


apenas cinco sobreviventes, uma geração quase completa
de filhos de Pereiro.
Minha mãe, se bem que ali criada pelos tios João Lourenço da Silva e Joana
Rita Cavalcante, vivia na Fazenda Remédio, onde, em 15 de novembro de
1897, às nove horas da noite, num dia de sábado, consagrado, reza a
respectiva página da folhinha, a santa Gertrudes e São Leopoldo, vim ao
mundo. Ela era oriunda de Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte, e seus
pais foram o capitão Alberto Cavalcante de Morais e Joaquina Maria do
Espírito Santo, da Fazenda Aroeira...

Tristão Gonçalves, avô paterno de meu Pai, alma, no Ceará, das lutas da
Independência e da República do Equador e portador “de uma granítica
coerência política e ideológica”, deu a própria vida em holocausto às suas
inabaláveis e patrióticas convicções.
Pedro Jaime, meu avô paterno, nascido em 07.09.1809e falecido em 03.07.62,
exerceu, em Guixeramobim, funções de maior relevo, inclusive a de chefe
do Partido Liberal”.

(Antônio de Alencar Araripe, in "Recordações de Pereiro ".

Alencar Araripe n. em 15.11.97 e f. em 03.05.89)

INSTITUTO CULTURAL DO CARIRI - CRATO - CEARÁ


Itaytera
Número 33 » Ano: 1989

INSTITUTO CULTURAL DO CARIRI - CRATO - CEARÁ


ITAYTERA Cadeiras do Instituto Cultural do Cariri
Órgão do Instituto Cultural do Cariri

Presidente do I C C:
SECÇÃO DE LETRAS
JÉFFF.RSON DF. A LB UQU ERQ UE E SOUSA
1 - PA TR O N O - Pe. Dr. José Antônio jMaria Ibiapina
Diretor de Itaytera:
O C U PA N TE : João Lindemberg de Aquino
JO Ã O L1NDEMBERG DE A Q U IN O
2 - PA TR O N O - Bruno de Menezes
Redação: O C U PA N TE : Dr. Raimundo de Oliveira Borges
Praça J uarcz T.ívora, 950
Caixa Postal, 74 — CEP 63.100 3 - PA TR O N O - José Alves de Figueiredo
CR ATO — ESTADO D O CEARÁ — BRASIL O C U PA N TE : Pe. Neri Leitosa

★ 4 - P A TR O N O - Alexandre Arraes de Alencar


O C U PA N TE : Edméia Arraes de Alencar
Diretoria do I C C: 5 - PA TR O N O • Monsenhor Pedro Esmeraldo da Silva
Presidente:
O C U PA N TE : Vaga
JÉFFERSON DE A LBUQU ERQ UE F. SOUSA
6 - PA TR O N O - Dr. lrineu Nogueira Pinheiro
★ O C U PA N TE : Vaga

Vice-Presidente: 7 - PA TR O N O - Antônio Barbosa de Freitas


JOSÉ PEIXOTO DF. ALENCAR C O RTÊZ O C U PA N TE : Vaga

★ 8 - PA TR O N O - Álvaro Bomílcar da Cunha


O C U PA N TE : Dr. José Newton Alves de Sousa
Secretário Geral: 9 - P A TR O N O - Dom Francisco de Assis Pires
JOSÉ HUM BERTO TAVARES DE OLIVEIRA
OCUPANTE' : Prof. Dr. Rubens Gondim Lóssio
★ 10 - PA TR O N O - Pe. Emídio Leite Cabral
O C U PA N TE : Vaga
Secretário:
HUM BERTO ESMERALDO CABRAL 11 - PA TR O N O - Raimundo Gomes de Matos
O C U PA N TE : Vaga

12 - P A TR O N O - Leandro Bezerra Monteiro
Tesoureiro: O C U PA N TE : Vaga
JOSÉ DE PAULA BANTIM 13 - PA TR O N O - Dr. Otacílio Macedo
O C U PA N TE : Cláudio Martins

14 - PA TR O N O - Manoel Rodrigues Monteiro
Comissões O C U PA N TE : Dr. F. S. Nascimento
Da Revista Itaytera:
JO Ã O LINDEM BERG DE A Q U IN O 15 - PA TR O N O - Dr. Leandro Chaves Ratisbona
R A IM U N D O DE OLIVEIRA BORGES O C U PA N TE : Vaga
JU R A N D Y TF.MÓTHEO DE SOUSA
16 - PATR ONO - Pe. Francisco Pitta
★ O C U PA N TE : Aécio Feitosa

17 - PA TR O N O - João Brígido dos Santos


De Ciências, Letras e Artes: O C U PA N TE : Nertan Macedo
PLÁC IDO C IDAD E NUVENS
FRA NCISC O DF. ASSIS BRITO 18 - PA TR O N O - Raimundo Monte Arraes
R O N A LD O DE F. ALBUQU ERQ UE O C U PA N TE : Vaga

★ 19 - PA TR O N O - José Alves de Figueiredo


O C U PA N TE : Mozart Soriano Àderaldo
De Sindicâncias:
20 - PA TR O N O - Senador José Mariiniano de Alencar
ELOI TELES DE MORAIS
PE. A N T Ô N IO TEO D Ó SIO NUN ES O C U PA N TE : Vaga
A N T Ô N IO CORREIA C O E L H O 21 - PA TR O N O - Mons. Pedro Rocha de Oliveira
O C U PA N TE : Pe. Antônio Vieira

Aceitamos permutas com publicações congêneres de SECÇÃO DE CIÊNCIAS


todo o País e do exterior.
Os artigos, estudos e conceitos aqui publicados sào 1 - PA TR O N O - Dr. Barreto Sampaio
de absoluta responsabilidade dos autores.
O C U PA N TE : Dr. Napoleào Tavares Neves
Os originais nào serão devolvidos.

í
Editorial

ITAYTERA, 33 ANOS!
Atinge a nossa publicação, com o presente número, a chamada Idade
de Cristo, 33 anos. E fato raro, em revistas de caráter cultural, no Nordeste
pobre, carente e desassistido, neste País cada dia mais sombrio em seus
destinos e suas perspectivas.
Estamos caminhando rapidamente para um recorde de meio século,
que, para tanto, só nos faltam 17 anos.
Sinceramente, jamais pensávamos poder atingir a longevidade.
Os nossos propósitos, os nossos ideais, a firmeza de nossa luta inaba­
lável, todavia, têm sido mais fortes, e ITAYTERA tem vencido solene­
mente todos os percalços, passado por cima de todas as dificuldades.
Neste ano de 1989, temos a presente edição patrocinada “ in totum”
pelo Banco do Nordeste do Brasil, que acudiu ao nosso apelo, sensibili­
zou-se com o nosso programa, conheceu nossa teimosia, e ensejou-nos
os recursos para a publicação do presente número.
E ajuda que, sobremaneira, agradecemos, e nos comove, quando
o fardo da longa caminhada já se torna pesado e tão poucos são os Ciri-
neus...
O BNB é o maior agente regional de desenvolvimento, no Nordeste,
atuando ao lado da SUDENE na política de promover o nosso homem.
É nosso velho conhecido, amigo e colaborador.
Já promoveu, com o ICC, 2 Seminários para o Desenvolvimento
do Sul do Ceará, e tudo publicou de estudos sobre a região caririense,
quando desses dois certames. Sempre estimulou nossas atividades. E pro­
mete muito mais, quando temos o arrojado sonho da nossa sede própria,
cujo terreno já possuímos e onde pretendemos instalar todos os setores
do ICC, Diretoria, Secretaria, Arquivo, Auditório, Biblioteca, Clube do
Folclore, Mapoteca e outros anexos de cultura e pesquisa histórica. Um
arrojado projeto.
Honra-nos, sobretudo, esse incentivo, poderosa alavanca a nos esti­
mular a continuar a caminhada.
O Instituto Cultural do Cariri confessa-se grato ao Banco do Nordeste
do Brasil S.A. e reenceta a luta indormida de tantos anos, sob o pálio-
de tão importante patrocínio.
Não é de hoje que o BNB vem ajudando as letras cearenses, as
publicações técnicas, culturais, científicas, numa demonstração pujante
do seu amor à Cultura e às Artes. Agora chegou a nossa vez.
Estamos sumamente gratificados por este incentivo, e nosso espírito
se rejuvenesce para a luta continuar. Luta que há de ser produtiva e
boa, com a semeadutra de bons frutos, sempre em benefício do alevanta-
mento cultural de nossa região.
3
Cariri perde
Antônio de Alencar Araripe

Provocou grande consternação em todo o Cariri, especialmente no


Crato, o falecimento, em 03 de maio de 1989, do ex-deputado federal
Antônio de Alencar Araripe, aos 91 anos, em Fortaleza. Iria completar
92 anos em 13 de novembro próximo. O ICC tem sua sede num prédio
por ele cedido, sem ônus, na cidade do Crato e deve-lhe muito, pelo
apreço que ele sempre demonstrou à nossa entidade, pelas ajudas em
verbas (quando deputado), pela doação de livros etc. Eis um ligeiro relato
do que a imprensa publicou sobre sua morte, como singela homenagem
da nossa instituição, a esse vulto que ficou na História.

Luto
O Cariri perdeu um dos seus homens públicos mais ilustres de todos
os tempos, com a morte de Antônio Alencar Araripe, constituinte de
1946, deputado federal por várias legislaturas, presidente do Banco do
Nordeste, autor de vários artigos sempre em defesa das causas nordestinas
e de livros sobre o mesmo tema. O velho político caririense morreu ontem
e a coluna, na pessoa de seu filho, Jósio de Alencar Araripe, abraça
a família enlutada.

Coluna Edilmar Norões


Diário do Nordeste, 04.mai.89

Conceito
O dr. Antônio de Alencar Araripe, ontem sepultado, foi um dos
melhores advogados do Interior do Estado. O Tribunal de Justiça chegou
a incluir o seu nome numa lista tríplice para desembargador, juntamente
com Ademar Távora e Olinto Oliveira, em vaga destinada aos advogados.
O então governador Parsifal Barroso se fixou em Ademar Távora.
Um fato que mostra o alto conceito de que gozava o saudoso morto.

Coluna Vertical
O P O V O , 04.mai.89

5
O c o rp o f o i velado p o r p a re n te s e a m ig os.

Sepultado Antônio Araripe


Faleceu às primeiras horas de ontem, o advogado e jornalista A ntônio
de Alencar Araripe, aos 91 anos de idade, vítima de uma infecção pulmonar,
provocada p or problemas parkinsonianos. Ele form ou-se em Direito pela
Universidade Federal do Ceará, e foi prefeito da cidade de Crato p o r
três vezes.
D e acordo com sua filha, advogada Moema Araripe, A ntônio Araripe
era advogado com dedicação exclusiva ao ofício, trabalhando em várias
cidades e até em outros Estados do N ordeste como o Rio Grande do
Norte, p o r exemplo. Foi deputado federal em quatro legislaturas, tendo
sido constituinte em 1946, no processo de elaboração da Constituição
daquele ano. A n tes de concluir o últim o mandato com o parlamentar,
A ntônio Araripe, assumiu a Presidência do Banco do Nordeste do Brasil,
durante o governo Jânio Quadros em 1961. A posentou-se como Procu-

6
rador Geral do Estado, e publicou dois livros: “Doze anos de Parlamento ”
e “Problemas das Secas c outros Ensaios”. Casado com Ana da Franca
Alencar, desde o dia 5 de abril de 1923, deixou cinco filhos: Jósio de
Alencar Araripe, Rivanda de Alencar Araripe, Edda Alencar Carvalho,
Jales de Alencar Araripe e Moema de Alencar Araripe, além de 13 netos.
Biografia
Antônio de Alencar Araripe nasceu a 15 de novembro de 1897, na
Fazenda Remédio, que passou da jurisdição do município de Pereiro para
a de Iracema. Era filho de Otaviano Cícero de Alencar Araripe, serven­
tuário de Justiça, advogado e promotor em várias comarcas, e de sua
esposa D. Rita Cavalcante Araripe, oriunda de Pau do Ferros, no Rio
Grande do Norte. Iniciou seus estudos em Tauá, com a professora Maria
do Livramento de Paes Barreto, e aos preccptores particulares Joaquim
Queiroz, acadêmico Joaquim Pimenta, padre Francisco Silvano de Sousa,
vigário local.
Complementou esses estudos no Colégio São Francisco das Chagas
de Canindé, onde durante dois anos teve como um de seus professores
o poeta Cruz Filho. No Liceu de Fortaleza submeteu-se a exames parce­
lados dos preparatórios para a matrícula na Faculdade de Direito do Estado,
onde integrou a turma do Centenário dos Cursos Jurídicos de 11 de
agosto de 1927.
Dirigiu o estabelecimento em Lavras da Mangabeira de ensino primá­
rio, denominado “Externato Amor às Letras”, tendo como aluno o poeta
Filgueiras Lima e começou a frequentar os auditórios forenses, como
advogado provisionado pelo Tribunal de Justiça do Estado, a 7 de janeiro
de 1916. A 31 de maio de 1920 foi nomeado delegado Seccional do Recen-
seamento, então procedido. Além de suplente de deputado federal na
representação do Estado na legislatura que antecedeu o golpe de Estado
de 1937, elegeu-se para a Assembléia Nacional Constituinte em 1945,
prolongando seu mandato por doze anos. Como deputado federal, fez
parte das Comissões de Diplomacia c Tratados (vice-presidentej de Consti­
tuição e Justiça Mista de Leis Complementares.
BNB e Jornalismo
Em junho de 1959, o Tribunal de Justiça do Estado incluiu seu
nome na lista tríplice, da qual fez parte Olinto Oliveira e Ademar Távora.
A 18 de março de 1961, deu-se sua nomeação para presidente do Banco
do Nordeste do Brasil, de que foi exonerado pelo presidente João Goulart,
a 3 de janeiro de 1962. Em sua gestão criaram-se as agências de Tauá,
Campos Sales, Jaguaribc e Quixeramobim. A 23 de março de 1964, foi
nomeado Procurador Fiscal da Fazenda do Estado, passando à inatividade
por força compulsória.

7
Iniciou-se na imprensa através dos jornais “O Tempo”, de Aracati,
“A Gazeta do Cariri”, “A Região”, de Crato, colaborando a seguir em
publicações jurídicas desta capital e do Sul do País (Ceará Judiciário),
Revista de Direito de Bento Faria, Direito” e ‘‘Revista Forense”, e desde
a fundação de “O Povo”, e da revista cratense Itaytera, onde figurou
entre seus constantes colaboradores. Foi inscrito na Ordem dos Advo­
gados, secção do Ceará, em 1933, bem como na Associação Cearense
de Imprensa, e no Instituto Cultural do Cariri. Foi sepultado no Cemitério
Parque da Paz, às 16 horas de ontem.

Tribuna do Ceará, 04.mai.89

Morre Alencar Araripe, um Constituinte de 1946


Foi sepultado ontem em Fortaleza o ex-deputado federal constituinte
Antônio de Alencar Araripe, falecido durante a madrugada, aos 91 anos.
Ao lado de Plínio Pompeu, Araripe era o único remanescente vivo da
Assembléia Nacional Constituinte de 1946. Deputado federal por 12 anos,
interrompeu seu mandato em 1961, para assumir a presidência do Banco
do Nordeste do Brasil (BNB). Foi também Prefeito do Crato por duas
vezes, nomeado em 1930 e 1934.
Um dos fundadores da seção estadual da UDN, o deputado Antônio
Araripe se destacou na Câmara Federal pela defesa dos interesses do Nor­
deste, a ponto de ter sido chamado, pelo ex-Ministro da Agricultura
e deputado pernambucano Costa Porto, de ‘‘deputado das secas”. Advo­
gou com insistência, no Parlamento, a implantação da reforma agrária
nas terras do patrimônio do Governo e latifúndios improdutivos e a irriga­
ção, tendo sido responsável por vários projetos em benefício da Região.
Natural de Pereiro, começou sua vida pública em Lavras da Manga-
beira, onde dirigiu um colégio primário e foi professor do poeta Filgueiras
Lima. Pertencia a uma família ilustre na história do Ceará, que participou
dos movimentos revolucionários de 1817 e 1824. Era trineto de Bárbara
de Alencar e bisneto de Tristão Gonçalves. Um dos pontos interessantes
de sua biografia foi a atuação como advogado do beato José Lourenço,
do Caldeirão — comunidade que se formou na Serra do Araripe e que
foi chacinada em 1937, porque as autoridades julgaram tratar-se de uma
experiência comunista, num episódio transformado em documentário pelo
cineasta Rosemberg Cariry.
Formado em advocacia, Antônio Araripe atuou também como jorna­
lista e foi colaborador assíduo do O POVO desde sua fundação, em
1928, até uns cinco anos antes de morrer. Pertencente a uma prole nume­
rosa, tinha dois irmãos vivos: Socorro e José Caminha de Alencar Araripe,
este último jornalista e ex-Diretor Editor do O POVO. Do casamento
com Ana da Franca Alencar (Donita), teve cinco filhos: Rivanda, Jósio,
Edda, Jales e Moema.
O Povo, 04.mai.89
Falece Antônio Alencar Araripe,
Ex-Presidente do BNB (1961-1962)
Registramos com pesar o falecimento, na madrugada do último dia
3, do ex-Presidente do Banco, Antônio Alencar Araripe. Nomeado por
Jânio Quadros, sua gestão no BNB durou de 21 de março de 1961 a
5 de fevereiro de 1962, siruando-se entre as duas administrações de Raul
Barbosa. Nascido em 15 de novembro de 1897, no município cearense
de Pereiro, era filho de Otaviano Cícero de Alencar Araripe e Rita Caval­
cante Araripe.
Prefeito da cidade do Crato por duas vezes, após a Revolução de
1930, foi membro da Assembléia Nacional Constituinte em 1946 e Depu­
tado Federal em várias legislaturas. Durante sua permanência na Direção
do BNB procurou dar maior autonomia administrativa e operacional ao
Banco no setor de crédito cooperativo, bem assim dinamizar a assistência
ao pequeno agricultor. Nesse período, elaborou-se o II Plano de Expansão
de Unidades Operadoras, prevendo a implantação de 15 agências e obte­
ve-se o primeiro financiamento externo, em contrato firmado com o Banco
Interamericano de Desenvolvimento, atuando a SUDENE como interve-
niente.
Casado com Ana da Franca Alencar (Donita), deixou os filhos Rivan-
da, Jósio, Edda, Jales e Moema. A família enlutada, as condolências da
Administração e funcionários do Banco.
Manifestações pessoais de pesar poderão ser dirigidas para a residência
da família à Rua Pinho Pessoa, 1.405, CEP 60.115 — Fortaleza-CE.

Jornal “Notícias”, do BNB


05.mai.89

9
Homem Público Exemplar
Com o falecimento, na idade de 91 anos, de A ntônio de Alencar
Araripe, desaparece uma figura exemplar de homem público pelo seu
empenho no trabalho, pela seriedade de sua atuação, pela abnegação com
que servia à causa do povo, pela honestidade inconspurcável que o distin-
guia.
Andou por caminhos diversos, o do magistério, por exemplo. Foi
professor em Icó e Lavras da Mangabeira. Nesta última, teve como aluno
Filgueiras Lima e era com enternecimento que lembrava o grande poeta.
Na cidade dos sobradões, frequentaram a sua escola os irmãosJosé Antônio
e Marcial Dias Pequeno, este, jornalista e que ocupou postos de relevo
na administração federal e do então Estado da Guanabara.
A advogada esteve entre as suas principais atividades, a partir de
janeiro de 1916, como provisionado, depois, já formado pela nossa Facul­
dade de Direito, em 1927. Foi advogado de renome. Conhecia os bons
doutrinadores da ciência do Direito, devotado ao estudo que era. Possuiu
uma das melhores bibliotecas especializadas do Ceará, recentemente doada
à Universidade Vale do Cariri. Patrocinou causas de personalidades impor­
tantes, como o padre Cícero, e de ampla repercussão, como a do Beato
José Lourenço, e que lhe valeu a prisão. Publicou em opúsculos mais
de 20 trabalhos forenses. Colaborou na Revista de Direito”, de Bento
de Faria, na “Revista Forense” e no “Ceará Judiciário”.
O jornalismo atraiu-o de maneira irreversível. Fundou e dirigiu o
semanário “O Cariri”, editado, primeiro, em Juazeiro, e, depois, no
Crato, por vários anos. Escreveu para diversos jornais, como “O Tem po”,
de Aracati, “Gazeta do Cariri”, “A Região” e “A A ção”, do Crato.
Era o mais antigo colaborador do “O P O V O ”, cujas colunas abrilhantou
desde quando esse diário circulou, em 1928. Pertencia à Associação Cea­
rense de Imprensa e ao Instituto Cultural do Cariri, em cuja revista “Itay-
tera” tinha presença constante.
Dotado de prodigiosa memória, recompunha, até bem pouco, com
riqueza de pormenores, episódios de que fora contemporâneo e alguns
dos quais contaram com a sua participação direta.
A genealogia cearense não tinha segredos para ele, notadamente quan­
do se tratava dos Alencares, sobre os quais recolheu dados preciosíssimos,
que planejou reunir em livro. Nesse particular como no tocante ao exercício
da advogada, identificou-se, sobretudo, com o pai, Otaviano Cícero de
Alencar Araripe, rábula de nomeada e que versava com proficiência sobre
as origens das famílias do Ceará.
Erigiu a política como instrumento de servir à comunidade e não
como meio de saciar apetites pessoais ou de grupos. Ocupou a Prefeitura
do Crato, em duas oportunidades, e, segundo nota do jornal “O P O V O ”,
do tempo em que viviam Demócrito e Sarasate, foi o melhor prefeito
da Revolução de 3 0 no Ceará. Austero no manejo do dinheiro da municipa­

10
lidade, engenhoso e prático no rol das iniciativas administrativas, as mais
complexas, como a ponte no rio Granjeiro, e as mais simples, como
o nivelamento das calçadas, mas essenciais à modernização da cidade.
Constituinte de 46, iniciou, então, uma fase da vida em que avultam
as benemerências da ação parlamentar, que se desenvolveu durante 12
anos. Foi um dos melhores deputados federais do Ceará. Chamaram-no
“deputado das secas” pela sua persistência na abordagem do fenômeno
das estiagens e na defesa intransigente das obras que julgava necessárias
à redenção do Estado e do Nordeste e ao bem-estar das suas populações.
Partiram dele as primeiras verbas para a barragem do Orós, que
defendeu em mais de um discurso. Outros reservatórios foram construídos
ou estudados pelo D N O C S em decorrência da sua desvelada atenção.
Não houve Município, a que se ligou politicamente, que não haja
recebido a compensação de empreendimento de repercussão coletiva, fosse
o crédito agrícola, a estrada, a linha telegráfica, o açude, a eletrificação,
o hospital ou a escola, como a Escola Agrotécnica do Crato, de tão
relevantes serviços à região.
A sua visão não se confinava aos interesses agrícolas e pecuários
do Cariri e do Estado. Entre as medidas propulsoras do desenvolvimento,
assim compreendidas, está a industrialização. Daí, a sua luta pela monta­
gem de uma fábrica de cimento no Crato. Foi dos primeiros a abordar
o assunto e quem primeiro destinou verbas para os estudos que se tornavam
imprescindíveis. O conjunto industrial não surgiu no Crato, mas está
ali bem pertinho, no Município de Barbalha.
Há dois fatos da sua passagem pelo Parlamento que merecem registro
especial. O primeiro foi a indicação que formulou e da qual resultou
o pronunciamento da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara
dos Deputados, tendo como relator Afonso Arinos, sobre a violação do
preceito constitucional pelo Governo, que não respeitava o mandamento
que destinava 3% da renda tributária da União para o Nordeste. O segundo
decorreu da sua participação, como representante da UDN, na comissão
da Câmara que examinava a denúncia de favorecimento do governo ao
jornal “Última Hora”. Chamou a atenção geral a maneira como fazia
as argüições. Era o velho advogado, culto e familiarizado, com as normas
forenses, que se projetava em cenário de ressonância nacional.
Antônio de Alencar Araripe publicou alguns livros, enfeixando proje­
tos de suas justificativas, discursos e artigos de jornal. Todos eles encerram
valiosos depoimentos, análises seguras e pertinentes e a indicação de solu­
ção para casos que se eternizam.
N o seu último livro — “O Problema das Secas e Outros Ensaios”,
no capítulo intitulado “Fábrica de Cimento no Cariri”, Antônio de Alencar
Araripe fez este desabafo: “Em carta escrita ao Barão de Lucena, em
1870, confessa José de Alencar pertencer ao número ‘daqueles que não
se podem entregar por metade a uma coisa’. Também tenho a sorte de

11
militar entre as pessoas que, nç> exercício de atividades públicas e particu­
lares, costumam entregar-se de corpo e alma ao cumprimento das respec­
tivas obrigações. Como delegado seccional do recenseamento, em 1920,
prefeito de Crato, por duas vezes, deputado federal, presidente do BNB
e procurador fiscal do Estado, ou simplesmente como advogado, onde
quer que tenha funcionado, guardo a impressão de ter-me devotado por
inteiro à rigorosa observância dos deveres funcionais”.
Assim foi, com efeito, segundo o testemunho dos que tiveram o
privilégio de conhecê-lo, na intimidade e como cidadão de nobres e acriso-
ladas virtudes.
Coluna I. C. Alencar Araripe
Diário do Nordeste, ll.mai.89

12
Faleceu
o Padre Antônio Gomes

Na cidade de Brejo Santo, em 26 de janeiro de 89, faleceu, à noite,


o Pe. Antônio Gomes de Araújo. Foi historiador, professor, jornalista
e sacerdote de valor. Foi presidente do Instituto Cultural do Cariri e
vice-diretor da Faculdade de Filosofia do Crato. Homem de inteligência
brilhante, polêmico, foi considerado o maior historiador do Cariri. Seu
sepultamento ocorreu no dia seguinte, 27 de janeiro, no cemitério daquela
cidade, com grande acompanhamento. Deixou vaga difícil de ser preen­
chida em nossa região.

Padre Antônio Gomes de Araújo — Dados Biográficos


Nasceu o Pe. Antônio Gomes de Araújo na cidade de Brejo Santo,
filho de José Nicodcmos da Silva e Maria Gomes de Araújo, em 6 de
janeiro de 1900. No período de 1909 a 1918 fez seus estudos primários
com o tio Joaquim Gomes da Silva Basílio. Em 1919 entrou para o Semi­
nário de Fortaleza e, no Crato, de 1922 a 1926 cursou o Seminário Maior,
tendo sido, ainda estudante, professor na Princesa do Cariri, depois de
ordenado, professor no Seminário.
Em 17 de abril de 1927 recebeu o presbiterato, na Catedral do Crato,
voltando, ali, dois dias depois, para celebrar a primeira missa. E de 1927
a 1932 exerceu o magistério no Seminário do Crato. De 1929 a 1930
ensinou na Escola Técnica de Comércio do Crato. De 1930 a 1960 honrou
o magistério no Colégio Diocesano do Crato. Ensinou também no Colégio
Santa Teresa de Jesus e na Faculdade de Filosofia do Crato, tendo sido,
ali, titular da Cadeira de História Antiga e Moderna.
Nomeado em 20 de setembro de 1935 Inspetor do Ensino Normal
do Estado junto ao Colégio Santa Teresa, ficou nesse posto durante 3
anos.
Por mais de 50 anos dedicou-se às pesquisas históricas, produzindo
obras memoráveis. Coube-lhe devassar a origem do nascimento de Bárbara
de Alencar, por muitos decênios considerada cratense, quando, na realida­
de, nasceu em Exu.
Foi tamanha a sua produção sobre documentos históricos que ficou
conhecido como o Capistrano de Abreu do Cariri. Recebeu inúmeras
condecorações e diplomas, inclusive da Prefeitura do Crato.

13
Publicou:
• Concurso da Bahia na Formação da Gens Caririense — 1950
•Naturalidade de Bárbara de Alencar — 1953
• Pe. Pedro Ribeiro da Silva, fundador e primeiro capelão de J uazeiro
do Norte — 1955
•1817noCariri — 1962
• O Magnífico Reitor da Universidade Federal do Ceará — 1961
• Aldeiamento e Missão do Miranda e revelações de sua
arqueologia — 1967
•A Cidade de Frei Carlos, 1971
• Povoamento do Cariri — 1976 e alguns pequenos opúsculos, além de-
grandes trabalhos históricos em Itaytera, Região, A Província, jor­
nais locais etc. Deixou inédito — A Revolução dos Alencares. Escre­
veu na Revista Eclesiástica Brasileira, na revista Clã, na Revista
da Academia Cearense de Letras, na revista do Instituto do Ceará
etc.
Em 1953 fundou o Instituto Cultural do Cariri, com Irineu Pinheiro,
J. de Figueiredo Filho, Jéfferson de Albuquerque, Raimundo Girão e
outros, tendo sido seu vice-presidente até 1973, quando assumiu a presi­
dência com a morte de Figueiredo Filho, ficando no posto por 6 meses,
sendo sucedido pelo Dr. Jósio de Alencar Araripe. Há mais de 15 anos
vivia em Brejo Santo, doente, em casa de sua sobrinha Lisieux, que o
amparou na velhice com extrema bondade e dedicação, acompanhando-o
com solicitude nos últimos dias de sua vida.
Com o seu falecimento, o ICC declarou vaga a Cadeira n? 6, por
ele ocupada, tendo por Patrono o Dr. Irineu Pinheiro.

14
A Sedição de Juazeiro
Eneida Figueiredo Ara ripe

Introdução
Este trabalho de pesquisa e síntese 6 uma tentativa de reavivar os
fatos que deram lugar à sedição de Juazeiro, responsável por sérias mudan­
ças no cenário político c histórico do Ceará.
Foi fundamentado na narração de Rodolfo Teófilo, baiano de origem,
cearense de coração, exemplo de caráter íntegro e homem sério, farma­
cêutico e escritor, que, rabelista convicto, viveu aquele episódio deprimente
da história do Ceará, principalmente em Fortaleza.
Posteriormente, durante cuidadosa pesquisa sobre o assunto na obra
de Irineu Pinheiro, gentilmente cedida pelo Dr. Antônio Martins Filho,
de sua biblioteca particular, foram encontradas contradições, apontadas
em devido tempo, no texto.
Acredito que as versões contraditórias dos fatos apontados se devem,
não à distorção de um dos escritores, mas à credibilidade de cada um
em seus próprios valores.
De um lado, Rodolfo Teófilo, dando voto de fé a um governador
enérgico c popular, empenhado em desbaratar, de uma vez, a “política
dos coronéis”, dominante no interior. Do outro lado, Dr. Irineu Pinheiro,
integrante de uma família tradicionalista, favorável às oligarquias, parente
do coronel Antônio Luís Alves Pequeno. Este, de conduta moral irrepreen­
sível, fugia aos padrões dos “coronéis” da época, conluiados com assassinos
e cangaceiros. Era, todavia, profundamente comprometido com a política
dos Aciolly.
O objetivo deste despretensioso trabalho é uma contribuição para
os estudiosos do passado de nossa terra, num texto mais resumido e
simples. Para aqueles, que, por maior mérito e estruturada formação histó­
rica, poderão analisar, em profundidade, o texto, dando-lhe a adequada
aplicação téorica.

Fortaleza, 06 de outubro de 1988

I
Empossado Presidente do Estado em 14 de julho de 1912, Marcos
Franco Rabelo tinha muitas possibilidades de fazer uma boa administração,
trazendo progresso ao Ceará: honestidade, vontade de trabalhar, bons
assessores, verdadeiros homens de bem. Mas a ambição desenfreada de
alguns, que antepunham interesses pessoais às necessidades da comunidade

15
política a que pertenciam, frustraram-lhe os bons propósitos, levando
o Ceará, não somente a uma fase de retrocesso, como a verdadeiro desca­
labro, à irregularidade, ao derramamento de sangue.
A indicação do Dr. Francisco de Paula Rodrigues para a chefia do
partido situacionista, em âmbito nacional, provocou o ciúme e o descon­
tentamento de muitos que optavam por um diretório com representantes
de todas as facções políticas.
Talvez se fosse esse o critério adotado pelo Presidente do Ceará,
teria havido uma conciliação de ânimos. Rabelo, porém, revelando autono­
mia, optou por seu próprio arbítrio, da maneira que julgava mais acertada
e que oferecesse maior apoio ao seu governo.
Não foi essa a interpretação de Dr. Irineu Pinheiro em “O Juazeiro
e a revolução de 1914” : —
“Alheio à vida política e administrativa do Ceará, deste ausente havia
anos, faleciam ainda ao coronel Franco Rabelo, e infelizmente para os
que o guindaram à culminância do governo, aquelas qualidades que singula-
rizavam os verdadeiros homens de estado. De reduzida visão política,
cometeu, logo de início, dois gravíssimos erros. Rompeu, na esfera federal,
com o Partido Republicano Conservador, chefiado pelo Gal. Pinheiro
Machado, e, no Estado, com o padre Cícero Romão Batista, a quem
obedeciam extensas massas sertanejas de todo o Nordeste do Brasil” .
Diz também Dr. Irineu Pinheiro na obra há pouco citada:
“ Alegava-se não ter sido eleito o presidente Rabelo pelo número
de deputados exigidos pela constituição do Estado. Realmente, reconhece­
ram-no apenas 13 deputados em lugar de, pelo menos 16, número que
exprimia a maioria imposta pela lei” .
Solon Pinheiro, fervoroso rabelista, e que ajudara a derrubar a oligar­
quia dos Aciolly, tão nociva, política e financeiramente, ao Ceará, esperava
obter do novo governo, posições privilegiadas para seus amigos do interior.
Nada obtendo, regressou a Manaus, onde vivia, profundamente desgos-
toso.
Esse e outros casos deram lugar a uma verdadeira onda de insatisfação,
dando início a forte corrente de oposição ao governo de Rabelo.
Os chefetes do velho partido aciolino, só esperavam a oportunidade
para restaurar aquela poderosa oligarquia.
Os “ marretas”, do partido aciolino, sob a chefia de João Brígido,
jornalista, político injurioso e cáustico, passam a hostilizar abertamente
o governo estabelecido. Inimigo ferrenho dos Aciolly, João Brígido coli­
gou-se aos marretas, perdoando, dando e obtendo perdão de mútuas agres­
sões sofridas em campanhas passadas.
A Assembléia do Estado, fraudulentamente, convocou deputados au­
sentes, falsificando sua assinatura, a fim de cassar o direito de Franco
Rabelo como Presidente do Estado, reconhecido pela mesma Assembléia,
alguns meses antes.

16
Esta Assembléia terminaria o mandato em 31 de dezembro, tendo,
portanto, pouco tempo disponível, já que transcorria o mês de novembro,
para depor o Presidente do Estado.
Munidos de “habeas corpus” concedido pelo Supremo Tribunal Fede­
ral, os deputados marcam reunião para o dia 9 de novembro.
Nesse dia, o partido rabelista decidiu impedir, pelas armas, a entrada
dos deputados para a reunião da Assembléia, enfrentando a força federal,
constituída de 50 praças, a quem competia fazer cumprir o “ habeas cor­
pus” .
Populares e inimigos dos Aciolly, para assegurar a preservação do
mandato e possivelmente até a vida de seu presidente, armaram-se nas
ruas, dispostos a tudo.
A redação “ Folha do Povo” era um verdadeiro arsenal: rifles, muni­
ções, armas de toda espécie, bombas e dinamite.
O Secretário do Interior, Frota Pessoa, procurou os chefetes rabelistas
para dissuadi-los de um possível derramamento de sangue. Eles temiam
também por suas próprias vidas, com a volta dos Aciolly ao poder, e
estavam dispostos a lutar para defender-se e a suas famílias.
Uma saída possível para esse perigoso estado de exaltação de ânimos
seria a renúncia de Rabelo.
Mas, segundo Rodolfo Teófilo, haveria fortes razões para que essa
renúncia acarretasse uma onda de revolta muito pior, acompanhada de
saques, incêndios e todo tipo de represália, e que não poderia ser contida
pelo batalhão de segurança do Rabelo. Este não seria obedecido a qualquer
contenção da massa exacerbada. Nada poderia fazer, tamanho se mani­
festava o acirramento dos ódios cm ambas as facções políticas; talvez
até sua própria vida não seria poupada, no caso de vitória dos partidários
dos Aciolly.
Os acontecimentos se precipitaram com a invasão do palácio dos
Aciolly pela turba desvairada. Toda a família estava reunida ali, e não
sabemos o que teria acontecido, se uma senhora, com um crucifixo na
mão, não tivesse contido a massa, com suas súplicas para que não matassem
ninguém. A turba acalmou-se, consentindo na saída dos Aciolly, que
se refugiaram no Arsenal da Marinha, de onde embarcaram para o Rio
de Janeiro, dias depois.
Tem início uma onda de saques e incêndios em todas as casas dos
Aciolly, na fábrica de tecidos que lhes pertencia e nas residências de
vários amigos da família.
Era a resposta selvagem da massa descontrolada c sem formação,
e que tinha bem presentes as arbitrariedades de toda ordem, praticadas
no governo anterior dos Aciolly.
O estado pagaria, mais tarde, alta indenização pelos danos sofridos
por essa família, o que, aliás, foi muito criticado: ao Ceará não caberia
a responsabilidade de pagar pelos movimentos de desvario do povo, sem

17
que a ação de direito fosse a instância superior, não passando além do
juiz substituto, como aconteceu.
Dr. Irineu Pinheiro refere-se aos acontecimentos violentos citados:
“Não soube ou não pôde o coronel Franco evitar crimes perfeitamente
inúteis e que lhe macularam o governo de modo irremediável”.
Uma referência de Irineu Pinheiro sobre a deposição dos Aciolly,
anterior à gestão de Rabelo: “Apoiado em numeroso e disciplinado corpo
policial, o maior que já existiu no Ceará, cuja estrutura estava integralmente
intacta, só se lhe pode explicar a deposição por um fenômeno de ordem
psíquica, convencidas, na época, as populações do Norte de que, fatal­
mente, teriam de derrubar as oligarquias reinantes... ” (Fica clara a simpatia
do eminente historiador pelas oligarquias, que deram lugar à tão nefasta
política dos coronéis).

II
Pinheiro Machado, chefe do PRC (Partido Republicano Conserva­
dor), chefe supremo dos próceres da política nacional, temendo não ser
reeleito, caso o Rabelo permanecesse no Poder, quando perdería o Cole-
giado do Ceará, decide-se a derrubá-lo, mesmo apelando para a violência,
se necessário fosse. Contava com quase toda a Assembléia. O único depu­
tado favorável ao governo do Rabelo era o Dr. Manuel Oliveira, amigo
dileto do Mal. Dcodoro da Fonseca.
A Assembléia Estadual terminava o seu mandato. Procedeu-se a novas
eleições. O Partido Rabelista apresenta chapa com vinte e cinco nomes.
O da oposição apresenta, por sua vez, cinco nomes. Foram eleitos trinta
deputados rabelistas.
Segue-se um período de paz, em que se via o progresso de Fortaleza,
fruto da administração de Rabelo, assessorado pelo Intendente Municipal,
sr. Idelfonso Albano, apesar das dificuldades decorrentes dos parcos recur­
sos disponíveis.
Rabelo recebera um governo seriamente comprometido por dívidas
consequentes a vultosos empréstimos e peculato cometidos pelo governo
anterior dos Aciolly.
A repressão ao banditismo foi um dos maiores benefícios do governo
de Franco Rabelo.
Principalmente no Cariri, cada chefe político tinha um bando de
cangaceiros, dispostos a lhe cumprirem as ordens criminosas, satisfazen­
do-lhes, assim, os ódios e vinganças pessoais. A justiça nada podia fazer
a não ser manter “vistas grossas” . Do contrário, arriscaria ficar inteira­
mente desmoralizada.
Para esse combate à “política dos coronéis”, Franco Rabelo, logo
no início do seu governo, destacou para o Crato uma força de 200 praças,
com plenos poderes para usar de energia e rigor na repressão ao banditismo.
Essa força estava sob o comando do cap. Ladislau Lourenço de Sousa.

18
Breve as cadeias se encheram de criminosos. Mais de 500 ali foram
detidos. Foram chamados a responder processo e comparecer a júri chefetes
locais de grande prestígio político. Enfim se podia viajar com tranqüilidade,
já que diminuira muito a onda de assaltos, ocorridos anteriormente, pelas
estradas.
Os “ marretas”, apoiados pelos chefes políticos da capital federal,
liderados por Pinheiro Machado, armavam esquema bem urdido para
a deposição de Franco Rabelo.
O Pe. Cícero Romão Batista a tudo assistia, sem se manifestar. Mas,
fervoroso adepto do partido aciolino, aguardava o momento favorável
para alijar do poder, de uma vez por todas, o presidente do Estado.
Essa dubiedade do Pe. Cícero evidenciamos através de cartas trocadas
com o Rabelo, onde se defendia das acusações de fomentar a rebelião
para depô-lo. (PINFIEIRO, Irineu — Efemérides do Cariri, p. 183).
Francisco Rabelo contava com as simpatias da Câmara, de quase
toda a população de Fortaleza e de pequena força do Exército.

III
Um fato novo no cenário nacional vem toldar a tranqüilidade e paz
do governo de Rabelo, favorecendo o partido dos marretas — a escolha
do sucessor do Mal. Hermes da Fonseca.
A indicação do Presidente da República era disputada por dois parti­
dos: o PRC, comandado por Pinheiro Machado e que, como partido
majoritário, liderava a política nacional e tinha direito de escolher o candi­
dato a presidente — e o partido da coligação, chefiado por Danton Barreto,
que pleiteava ser essa escolha feita por todos os estados da Federação.
Coligaram-se contra Pinheiro Machado, e ao lado de Danton Barreto:
São Paulo, Minas, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará.
A candidatura do sr. Wenceslau Braz foi lançada e aceita. Era a
vitória para Pinheiro Machado, que a conseguiu à custa de todos os expe­
dientes que pudessem intimidar ou tolher os adversários, inclusive demis­
sões, ameaças, subornos.
O gesto de autonomia do Ceará, incorporando-se à coligação, custou-
lhe muito caro. Foi decretada pelo sindicato político PRC a deposição
do Presidente do Ceará.
Manobrando nesse sentido, vão ao Rio de Janeiro o Cel. João Brígido
dos Santos, o Dr. Aurélio de Lavor e Floro Bartolomeu da Costa, enviado
e braço direito do Pe. Cícero.
Caso a deposição do Rabelo não pudesse ser feita em Fortaleza pelos
marretas, começaria por um movimento sedicioso em J uazeiro, promovido
pelo Pe. Romão Batista, e viria sobre a capital do Estado.
Sobre os antecedentes da rebelião, diz Dr. Irineu Pinheiro em Efemé­
rides do Cariri, p. 183:

19
“Notavelmente contribuíram para a realização do movimento revolu­
cionário demoradas conversações entre o cel. Antônio Luís e o Dr. Floro
Bartolomeu”.
Em o Juazeiro do Pe. Cícero e a Revolução de 1914, p. 31, opina
Dr. Irineu:
“Foi, portanto, resolvido o movimento do Cariri, com o apoio, é
verdade, dos chefes da capital e do Rio” .
Apesar da enorme influência que o Pe. Cícero exercia sobre os romei­
ros, nada poderia ser feito, é claro, sem o apoio do governo federal.
A despeito dessas maquinações, a cidade gozava paz.
Um acontecimento, porém, vem toldar essa tranqüilidade. O Dr.
Gentil Falcão, deputado federal, a passeio em Fortaleza, eleito pelos rabe-
listas, bandeia-se para a oposição. Por desavenças políticas, atira, não
atingindo o alvo, em Francisco Pires Holanda, deputado estadual.
Algum tempo depois, Gentil Falcão era atingido no rosto por um
tiro de alguém que teve tempo de evadir-se antes de ser identificado.
Dias depois, a população, estarrecida, presencia o incêndio da Inspe-
toria de Obras Contra as Secas, na Rua Gal. Sampaio.
Vemos, que de parte a parte eram cometidos abusos ditados pelo
acirramento de ódios partidários.
Por todos os crimes responsablizavam o Presidente do Ceará.
No Rio, chegavam notícias de que Fortaleza se tornava um verdadeiro
ninho de celerados e desordeiros...
A vinda de Torres Homem, inspetor da 4a. região militar, determinada
pelo Presidente da República, tinha a finalidade de averiguar a anarquia
que se dizia imperar no Ceará.
Essa inspecção era um desrespeito à soberania do nosso Estado. Mais
uma conseqüência da impiedosa vingança de Pinheiro Machado.
Regressando Torres Homem ao Rio, sem ter apurado nenhum fato
contrário, comunica para o Presidente da União que “no Ceará reinava
a paz e a ordem”.
Mais do que nunca, as forças políticas opositoras, estavam decididas
a levar em frente a pretensão de derrubar o Poder Executivo do Ceará.
E só não puderam agir de imediato, à falta de contingente humano e
de uma liderança capaz de assumir o comando da rebelião.
A pedido dos marretas, foi transferido do Rio para o Ceará o capitão
Polydoro Rodrigues Coelho, que, abertamente, com o conhecimento do
Poder Executivo Federal, passa a conspirar contra o Presidente do Estado,
ao lado de seus correligionários políticos, Floro Bartolomeu, Aurélio de
Lavor etc. O objetivo imediato seria sublevar o Batalhão Militar do Estado
e matar Franco Rabelo.
Irineu Pinheiro refere-se a esse episódio em “O Juazeiro do Padre
Cícero e a Revolução de 1914” : “... em Fortaleza atentaram elementos
governistas contra a vida do cap. Polydoro Rodrigues Coelho, lançan­
do-lhe à residência uma bomba de dinamite” .

20
Mais adiante, Irineu Pinheiro refere-se a “ameaças” de incêndio às
casas de Antônio Luís Alves Pequeno, e até à cidade de Juazeiro, que,
diga-se de passagem, jamais se efetivaram. “Deveria Juazeiro, dizia-se,
ser destruído até os fundamentos. Não se contentariam os vencedores
com o extermínio dos fanáticos; era preciso arrasar-lhes o covil.” (Idem,
ibidem, p. 86).
Nova sindicância de Torres Homem não resultou em nada.
Frustrada a conspiração em Fortaleza, o lugar propício para o começo
da sedição seria Juazeiro, onde homens armados e liderança constituíam
elementos certos para a conflagração urdida e plenamente apoidada pelo
Presidente da Nação.
Essa trama ficou comprovada pelas cartas dirigidas a Pe. Cícero por
João Brígido dos Santos e Hermínio Barroso, apreendidas pelas forças
da situação.

IV
Em Juazeiro, um fato desencandeia, de modo ostensivo, as hostili­
dades contra Rabelo.
No dia 09 de dezembro de 1913, o Dr. Floro Bartolomeu da Costa,
médico recém-chegado da Bahia, orientador político do Pe. Cícero, “assal­
tara o quartel da força da polícia, que guarnecia a vila” (de Juazeiro).
(PINHEIRO, Irineu, opus cit, p. 11).
Pe. Cícero manda desarmar a força policial, 15 praças, e depõe todas
as autoridades estaduais.
(Concretizava-se a previsão do major Joaquim José da Rocha: “O
Pe. Cícero começou missionário, vai ficando milionário e acabará revolu­
cionário”. SOBRAL. Lívio — Revista do Instituto do Ceará, 1 v. 54,
1940).
Depois do episódio citado, pessoas do partido rabelista fugiram, com
suas famílias, para o Crato.
De acordo com ordens vindas do Rio, Floro Bartolomeu viaja a
Fortaleza, a fim de empossar-se Presidente do Estado, ficando o Ceará
com dois presidentes. Todo o povo cearense assiste a essa grande farsa.
Um dos primeiros atos do Floro foi dissolver o Batalhão Militar
e a Guarda Civil, nomear seus secretários, demitir intendentes e pedir
ao Governo Federal para recolher o armamento e policiar Fortaleza pelas
forças do Exército.
O Congresso ainda não se dissolvera.
Franco Rabelo sente-se com bastante força para se decidir a enfrentar
esse estado de coisas e manter-se no Poder. Mas os inimigos eram muito
fortes, já que contavam com o apoio do governo federal.
No dia 12 de dezembro de 1913, Franco Rabelo, a despeito das
perseguições dos inimigos, apoiados pelo governo federal, envia para Igua-
tu o Batalhão Militar do Estado, composto de 500 homens e chefiado

21
pelo Cel. Alípio de Lima Barreto, tenente do exército, homem enérgico
e experimentado.
O embarque desse destacamento se deu entre verdadeira aclamação
de populares. Era mais um voto de solidariedade e confiança do povo
no seu governador.
Talvez para substituir as forças governamentais, em parte por temer
pela vida de Rabelo, o povo armado, entre pescadores e trabalhadores
do mar, funcionários da estrada de ferro de Baturité, o Tiro de Guerra,
carroceiros, garis, passaram a guarnecer, dia e noite, o palácio presidencial.
Moços das mais distintas famílias, comerciários, negociantes, reveza-
vam-se nessa guarda. Foram meses em que durou a vigília, sem arrefeci­
mentos. Mais do que a própria milícia, Fortaleza nunca foi tão bem policia­
da. (Irineu Pinheiro não menciona esse episódio).
Chegava ao Crato a munição requisitada pelo Cel. Alípio, e que
ficara em Iguatu (ponto terminal da estrada de ferro Baturité), por receio
de saque durante as 30 léguas que separavam as duas cidades, e que seriam
percorridas a pé. Havia trechos intransitáveis, alagados, um verdadeiro
tremendal, conseqüentes às fortes chuvas caídas.
Emílio Sá, com o canhão que mandara forjar em Fortaleza, e a comitiva
do Dr. Freitas, solicitada como reforço pelo Cel. Alípio, ambos dedicados
amigos do Rabelo, conseguiram chegar ao Crato.
O Inspetor Geral Torres Homem, simpático à causa da situação
no Ceará, empresta munição. Um seu enviado, hóspede do Pe. Cícero,
constata o que já se suspeitava há muito: o apoio incondicional do governo
federal aos sediciosos de Juazeiro.
Essa ajuda de Torres Homem custou-lhe a demissão por Pinheiro
Machado.
Um triunfo para as forças do governo foi o desalojamento dos jagunços
de Pe. Cícero na estratégica “cerca de pedras” , paliçada em excelente
posição de defesa para a cidade de Crato.
No dia 20 de dezembro de 1914 o comandante Alípio marchava
sobre Juazeiro. Num confronto com jagunços, houve um pequeno tiroteio,
de que não resultaram mortes. Em Juazeiro do Pe. Cícero e a Revolução
de 1914, Irineu Pinheiro, p. 80, diz, citando João Brígido: “N o ataque
a Juazeiro sofreu a força policial a baixa de 80 homens, entre mortos
e feridos” .
Enquanto isso, Pe. Cícero cercava a cidade de vaiados. As conversas
divulgadas pelos marretas eram de que esses vaiados seriam abismos pro­
fundos, com pontas de madeira bem aguçadas, ao fundo. Ai de quem
ali caísse!... “ Os jagunços eram homens invencíveis, bravos e malvados” ,
diziam.
O pânico foi se alastrando entre os soldados da milícia do governo,
incultos, ignorantes e supersticiosos, tementes da força do Pe. Cícero.

22
Houve um período de trégua, até que chega de Fortaleza a ordem
para um segundo ataque. Propositadamente, o comandante Alípio retar­
dava o ataque, atitude que evidencia a sua possível aliança com o governo
federal.
Já Dr. Irineu Pinheiro justificava essa atitude do Cel. Alípio: “ Estava
certo o Cel. Alípio, depois do revés do seu ataque a Juazeiro, de que
só com forças muito mais numerosas ser-lhe-ia possível vencer os revolu­
cionários...” (opus cit, p. 115).
De volta a Fortaleza, essa atitude do Cel. Alípio valeu-lhe a dispensa
junto ao fiscal de batalhão.
O comando das tropas passa ao capitão Ladislau.
Fortaleza recebe um novo inspetor geral — Lino Ramos de Oliveira
— enviado pelo Mal. Hermes da Fonseca, com o acompanhamento de
1.500 soldados da tropa federal. Viera substituir Torres Homem.
Fortaleza enche-se de tropas federais com a vinda do novo inspetor.
Os soldados recém-vindos abarrotam os quartéis. Alguns foram também
destacados para guardar as casas dos chefes dos marretas — João Brígido
e Hermínio Barroso.
Essas forças não foram capazes de impedir, no entanto, a destruição
da tipografia “Unitário”, jornal de João Brígido. Foi um ato de vingança
popular contra as injúrias veiculadas naquele jornal e dirigidas contra
os rabelistas.
Não há nenhuma atenuante para o “quebra-quebra” dirigido contra
o prédio de José Lino da Justa, cidadão pacato e incapaz de ferir alguém.
Lino Barroso, ao compreender que estava a serviço de uma causa
injusta e ilegal, pede demissão.
O Ceará continuava com dois governos: Franco Rabelo, respondendo
pelas legítimas aspirações do povo, que continuava a montar guarda no
palácio, pronto a defendê-lo, e Floro Bartolomeu, com todo o apoio
do governo da União, que até lhe outorgava franquia telegráfica.
Todos os empregados federais, julgados rabelistas, foram demitidos
pelo Floro, ou transferidos para outros estados.
Esse estado de coisas exigia uma definição, e esta se condicionava
ao segundo ataque a Juazeiro.
As ordens, vindas de Rabelo, eram de sitiar a cidade. Cortadas as
comunicações, Juazeiro haveria de se render.

V
No dia 15 de janeiro de 1914, à frente de 600 homens, entre os
quais elementos da polícia, guarda civil e populares, comboio de víveres
e cargas de aguardente, o major Ladislau levantou acampamento de Crato,
a fim de marchar sobre Juazeiro.
A força dividiu-se entre as principais vias de acesso, a fim de obstruir
as entradas da cidade. Uma parte das tropas seguiu pela estrada de S.

23
José, acampando em Buriti. Outra, pela estrada de Malvas. O comandante
Ladislau (dc posse do canhão fabricado por Emílio de Sá em Fortaleza),
dirigiu-se para Santa Rosa.
Restava uma estrada desguarnecida — a da Paraíba, por onde conti­
nuavam a chegar armas, munições e cangaceiros para fortalecer o movi­
mento sedicioso.
Irineu Pinheiro contesta Rodolfo Teófilo, afirmando ser falsa a notícia
de que o governo federal auxiliasse os revoltosos com armas e munições.
Ele diz que a maior ajuda individual veio de Antônio Luís, que contribuiu
com sua experiência, aconselhando, ou com “cópias de armamento e de
munição de guerra” (Opus cit. p. 88).
Foi Antônio Luís que sugeriu fossem fundidas as cápsulas deflagradas
pelos inimigos, para se forjarem novas balas para a luta armada. Possuía
uma máquina de fazer balas, e outras de fabricar cartuchos, juntamente
com grande quantidade de espoletas.
Foi por aquela estrada da Paraíba que regressou o Floro, depois
de uma conferência com Pinheiro Machado, no Rio de Janeiro.
Na localidade de Santa Rosa, um ataque inesperado dos jagunços
provocou um confronto de tiros, que resultou na morte de um soldado
e três jagunços.
No dia 23 de janeiro, o comandante Ladislau, cansado por horas
de enervante expectativa, e também por ver sua tropa em total desconforto,
sofrida pela longa e cruel invernada, decidiu-se atacar Juazeiro.
As ordens do Presidente do Estado eram de fazer a cidade render-se
pela fome, num cerco bem demorado.
Tem início o tiroteio, que não obtém resposta dos jagunços. Caiu
a noite, sem que a aparente calmaria fosse perturbada.
Pela manhã, as forças legais despertaram assustadas por forte fuzilaria.
Os jagunços, durante a noite, tinham ocupado posições de ataque, entrin­
cheirados nos vaiados.
A tarde, uns duzentos homens fardados aproximam-se das forças
legais, dando vivas a Franco Rabelo. Eram falsos rabelistas, logo identifi­
cados e recebidos à bala. Desmascarados, passam ao mais veemente ataque.
Viram-se, no entanto, forçados a retirar-se para Juazeiro. Houve apenas
uma baixa, e esta entre os jagunços.
Muitos tiros dos soldados perderam-se no bamburral: quase não resta­
va munição.
Depois da refrega, acampados num bom lugar, esse detacamento
envia um portador, solicitando ao comandante Ladislau, uma remessa
de munição. Este, em resposta, manda dizer que resolvera reunir os três
pelotões de comandantes na localidade de Macacos.
Dc Macacos, Ladislau resolveu retirar-se para Barbalha.
Essa atitude surpreende profundamente os oficiais presentes, que pro­
curam de todas as maneiras dissuadi-lo.

24
Antes de prosseguir caminho para Barbalha, onde se aquartelaria,
Ladislau mandou libertar todos os jagunços aprisionados.
Três dias mais, e Juazeiro teria capitulado.
O comandante Ladislau costumava abusar do álcool. Por estar com­
pletamente embriagado, conforme testemunho de seus oficiais, por covar­
dia, por conveniência, ou por ter voltado suas simpatias para a causa
inimiga, é grandemente responsável por esse fracasso.
Franco Rabelo convenceu-se que, por si só, não poderia debelar
a sedição. Tenta ainda um último apelo ao Mal. Hermes da Fonseca.
Sem resultado.
Agora, podendo contar, abertamente, com a conivência do Governo
Federal, os jagunços poderíam invadir Fortaleza e depor Franco Rabelo.
Não seriam detidos pelas tropas federais; Fortaleza estaria totalmente
vulnerável.

Vi
O ataque dos sediciosos começou pelo Crato, fortificado por apenas
60 praças da polícia.
Teve lugar no dia 24 dc.janeiro de 1914, às 2h da tarde, por um
grupo de 300 jagunços. Mais de 100 populares juntaram-se aos soldados
para defender a cidade.
Enquanto sustentavam posições na renhida luta contra os atacantes,
eram enviados emissários ao Cel. Ladislau, que, fazendo ouvidos de merca­
dor, deixou de enviar o socorro tão ansiosamente solicitado.
Apesar disso, por haver mais disciplina e estratégia entre os soldados,
ou se pelo fato de os jagunços dispersarem muitas balas, a luta pendia
para os cratenses. Breve os jagunços ficaram sem munição.
Mas, eis que surge uma intervenção inesperada, que modifica inteira­
mente a situação: o cidadão Américo de Oliveira põe 5.000 cartuchos
à disposição dos jagunços, anteriormente adquiridos dos próprios milicia­
nos, a troco de aguardente.
Com esse inesperado recurso, os sediciosos puderam continuar a
luta. Dia 25 acabava a munição dos soldados cratenses, que, temerosos,
fogem para o vizinho sítio Lameiro, onde se refugiaram.
Liderava essa fuga o tenente Romão, acompanhado de Emílio de
Sá e outros, profundamente odiados pelas forças do Pe. Cícero.
Depois do primeiro e renhido encontro, não houve baixas entre as
forças legais. Contudo, 16 redes transportando cadáveres foram vistas,
retornando para Juazeiro.
Quando o Cel. Ladislau dignou-se enviar ajuda, a cidade de Crato
já estava em poder dos jagunços. Começa o saque.
O Cel. José Francisco Teixeira viu sua casa saqueada e depredada,
sob as vistas de seu inimigo político — Cel. Antônio Luís Alves Pequeno.

25
Prosseguiu o assalto à maioria das casas de comércio, todas de rabe-
listas. Seguiram comboios de mercadoria roubada para Fortaleza.
Sobre a tomada de Crato, diz Irineu Pinheiro em O Juazeiro do
Pe. Cícero e a Revolução de 1914, p. 89:
“Dilataram-se-nos os corações à nova alvissareira. Representava-nos
a vitória sobre o Crato a possibilidade de volta aos lares que, havia um
mês, abandonáramos inopinadamente”. E mais adiante: "A posse do Crato
era a posse do Cariri. Mas para o triunfo completo seria preciso irem
os rebeldes para Fortaleza...”
Após a vitória dos revolucionários, seguida de saques, Cel. Ladislau
foge com seu contingente para Iguatu, com um refém como garantia,
o Cel. Sá Barreto.
Mais uma vez evidencia-se a covardia do major Ladislau, deixando
desprotegida a cidade de Barbalha, deserta pela fuga de seus habitantes.
O vigário local era o único a permanecer na cidade, e consegue, à custa
de muitas súplicas, impedir o saque da mais importante casa comercial
de Barbalha, de propriedade do Sr. Barreto Sampaio. Porém em outras
ruas, incêndios e apropriação de haveres tinham lugar.

VII
Apesar de tudo que acontecia no interior, Franco Rabelo continuava
em palácio, defendido pelas mais diversificadas camadas da população,
que esperava, a qualquer momento, um ataque dos jagunços.
Depois de saqueada Barbalha e outras localidades, os jagunços dirigi­
ram-se para Iguatu. Não conduziam bagagens, só roupa do corpo. Sujos,
barbados, alguns já em farrapos, ostentavam, no peito ou na lapela, a
verônica do Pe. Cícero, única identificação desse exército bárbaro e desal­
mado de fanáticos, que aumentava, cada vez mais.
A alimentação deles consistia do que saqueavam no caminho, sempre
matando e incendiando, maldito rastro que deixavam à sua passagem.
Iguatu teve sorte idêntica à das cidades do Cariri.
O capitão do exército, José da Penha Alves de Sousa, que ajudara
a derrubar a oligarquia dos Aciolly, aliou-se à causa do Rabelo. Comandou
a expedição de socorro a Iguatu, que defendeu até perder a vida.
A notíca de sua morte em combate, na localidade de Miguel Calmon,
consternou a população de Fortaleza, que guardou luto, chegando a fechar
os cinemas e suspender o carnaval.
Entre as fileiras do partido rabelista, tramava-se forte represália, que
redundaria em desordens, de conseqüências imprevisíveis. O diabólico
plano consistia em fazer voar, à dinamite, o quartel-general como todo
o seu estado-maior e soldados, e depois incendiar a casa dos marretas.
A trama chegou, felizmente, aos ouvidos de Rabelo, que mandou
sustar sua efetivação, não havendo, portanto, prejuízos sérios para a ordem
pública.

26
Depois da invasão a Quixeramobim, Quixadá e Baturité, o objetivo
natural seria Fortaleza. Começava a se organizar a defesa da cidade. Eram
mais de 200 homens armados, entre os quais jangadeiros, pescadores,
estudantes, profissionais liberais, carregadores do cais, os mesmos que,
tão valentemente vinham, há tanto tempo, revezando-se na guarda ao
palácio do governo.
Franco Rabelo, com todo esse apoio popular, declarou que não renun­
ciaria.
Por outro lado, o Governo Federal enviava três navios de guerra
dos quais apenas dois chegaram a Fortaleza. Um deles encalhara em Natal.
As famílias da Capital estavam em pânico. Só sabiam de ameaças.
A tática dos chefes dos jagunços de incutir o terror entre o povo das
cidades que pretendiam invadir, funcionara em Barbalha, J ardim, Quixera­
mobim, Quixadá, Baturité. “Os jagunços viriam a Fortaleza em bandos
de 1.500 homens armados” . Cada vez eles chegavam mais perto. Na
realidade, Fortaleza já estava praticamente cercada, inteiramente vulnerável
à malta de jagunços, que poderíam, com absoluta impunidade, praticar
toda sorte de desatinos, já que estavam sob a proteção do Governo Federal.
Da parte das tropas já existia manifesta hostilidade às pessoas ligadas
ao Rabelo, que se manifestava em prisões arbitrárias, ao menor pretexto.
Uma denúncia falsa levou à prisão Joaquim Albano, membro de
venerável família cearense.
As ameaças continuavam e o povo não se rendia.

VIII
Em 4 de março de 1914 foi decretado estado de sítio pelo Governo
Federal.
O quartel-general dos jagunços era na cidade de Maranguape, depois
em Sousa e Messejana. Em cada cidade onde se aquartelavam, as autori­
dades e o povo fugiam, ficando somente os jagunços.
Cel. Setembrino, empossado no cargo de interventor, pelo Presidente
da República, intimou, por ofício, ao Cel. Marcos Franco Rabelo, a renun­
ciar ao cargo de Presidente do Ceará.
Diante dessa intimação peremptória, o Presidente do Ceará deixa
o governo.
Prevalecia o direito da força.
Em 14 de março de 1914, uma multidão de 5.000 pessoas estacionava
em frente ao palácio do governo para acompanhar Franco Rabelo, em
sua caminhada, do Palácio à nova morada. Era um ato público de solidarie­
dade e reconhecimento a um bom governo.
Os jagunços, já às portas de Fortaleza, aquartelados em Messejana,
iniciam nova onda de crimes e desordens na periferia da Capital, roubando
e matando, sem piedade.

27
Nada deixavam passar, apoderando-se do gado que vinha para a
feira, e de outras fontes de abastecimento.
Além de sobressaltado ante a perspectiva de assalto, talvez morte,
o povo temia passar fome.
O Interventor Setembrino entende, finalmente, que se faz necessário
reprimir os jagunços. Faz uma carta ao Pe. Cícero, pedindo para que
eles fossem desarmados.
A resposta: “Os jagunços eram defensores das liberdades constitu­
cionais, e, como soldados vitoriosos, deviam voltar com suas armas...”
Já estavam em mãos dos sediciosos todo o Cariri, até Lavras, S.
Mateus, Icó, Iguatu, Senador Pompeu, Quixeramobim, Quixadá, Baturité,
Acarape, Pacatuba, Maranguape, Porongaba, Soure e Messejana. Conti­
nuavam as prisões arbitrárias, sob o menor pretexto.
O Cel. Setembrino detinha todo o poder, assinando os atos de demis­
sões e apadrinhando a nomeação de partidários políticos para cargos bem
remunerados.
Pe. Cícero foi escolhido vice-presidente do Estado e Floro Bartolomeu
viu-se honrado com cadeira na Câmara dos Deputados.
Franco Rabelo, apesar das demonstrações de apreço e solidariedade
que recebia de seus amigos, sente sua segurança ameaçada, como a de
sua família e a de seus mais dedicados partidários. Resolve embarcar para
o Rio, acompanhando-o um séquito de amigos fiéis.
No dia 1? de abril aconteceu um dos episódios mais violentos da
história da sedição. Foi ferido um moço da família Albano e quase preso
com outros membros da família.
Fortaleza entrava em novo estado de sítio. Incoerentemente aumen­
tava a desordem.

IX
No dia 20 de abril, Floro Bartolomeu entra triunfalmente na cidade
de Fortaleza, acompanhado de 400 jagunços sujos, os mesmos bandidos
desalmados, que, protegidos pelo governo da União, haviam deixado por
todo o Estado um rastro de sangue, lágrimas e desespero, e agora vinham
policiar a cidade...
Seguiu-se um período de vergonha e angústia para o Ceará, de injus­
tiças clamorosas e desordens. Imperava a jogatina desenfreada, continua­
vam as prisões conseqüentes a informações falsas, sem o menor funda­
mento. Cidadãos honrados, suspeitos de conjuração, eram presos, espan­
cados e suas casas vasculhadas, sob o pretexto de ali esconderem armas
e dinamites.
Os jagunços, selvagens e indisciplinados, não se sujeitavam às normas
do quartel, e tais desatinos cometeram, tais atos de insubordinação, que,
breve, 87 dos mais ferozes foram desligados da milícia e recambiados
para Juazeiro.

28
Aos poucos, os novos dirigentes do Estado foram conhecendo os
“pacatos romeiros” ou “noviços policiais” do Jornal “Unitário” de João
Brígido.
No dia 24 de junho chega a Fortaleza o Cel. Benjamin Liberato
Barroso, nomeado pelo Governador, Presidente do Ceará.
Continuavam os desmandos. Espancamentos e até tentativas de assas­
sinato (na pessoa do jovem Caiuby Sá, filho de Emílio Sá), eram praticados
pelos jagunços contra os partidários do extinto governo de Rabelo e até
contra os soldados da própria força policial.
Já se encontrava no Rio o Cel. Setembrino, que pintava o Ceará
como um quadro de paz e ordem, o que não era verdade.
Disputas por cargos políticos, divergências entre os chefetes da revolu­
ção, jogaram João Brígido contra Floro Bartolomeu.
A Assembléia bipartiu-se: quinze deputados de um lado e quinze
de outro. O regimento exigia dezesseis. Terminou essa assembléia por
ser dissolvida pela União, já que o Governo tinha posto fim às leis votadas
pelos rabelistas. Não existia orçamento. Reinava a anarquia durante a
gestão do Cel. Barroso. As estatísticas de criminalidade aumentaram no
Estado, principalmente no interior, entregue aos jagunços. Fíouve espanca­
mento de um secreta, por polícias, no próprio vestíbulo do palácio governa­
mental. A jogatina era, praticamente, oficializada, com a fundação da
“Solidarística”.
No interior alastraram-se outras solidarísticas, a principal sob o con­
trole do Pe. Cícero.
Contos de réis foram investidos no jogo, sem retorno, levando à
ruína muita gente.
Fundaram-se mais e mais “solidarísticas” . Dominava a “febre do
jogo”, um verdadeiro delírio pela jogatina. Muitas viúvas perderam todos
os seus bens nessa paixão desenfreada.
O governo viu-se na contingência de fechar as "solidarísticas” com
a maior urgência.
Desperdiçavam-se rendas ou procedia-se à má distribuição de recur­
sos. O Floro era aquinhoado com 400 contos de réis, enquanto descon­
tavam percentuais em folhas de pagamento de pobres funcionários.
Continuavam a ocorrer tentativas de assassinato, assaltos, até que
o novo governador eleito, João Tomé de Sabóia e Silva (12 de julho
de 1916 até 1920), gradativamente, foi restabelecendo a ordem das coisas....

Fortaleza, O u tu b ro de 1988

29
ICC e Rotary
prestaram homenagens
a Patativa do Assaré

Na sede do Instituto Cultural do Cariri, às 17 horas do dia 9/4/89,


foi prestada expressiva homenagem da classe intelectual do Crato ao poeta
Patativa do Assaré, que, recentemente, completou 80 anos.
Ocorreu pequena sessão, presidida pelo Dr. Jéfferson Albuquerque,
sendo ladeado pelo Reitor e Vice-Reitor da Urca, Teodoro Soares e Pe.
Gonçalo Farias, pelo Sr. Plácito Paiva, Vice-Prefeito de Assaré, e Ronald
Albuquerque, representante da Câmara. Patativa deu entrada no recinto
sob aplausos. A saudação lhe foi feita por Jéfferson Albuquerque e Patativa
agradeceu realmente comovido.
A seguir, todos foram à área externa, onde Patativa descerrou uma
placa comemorativa de homenagem do ICC aos seus oitenta anos, tendo
sido saudado pelo Dr. Raimundo de Oliveira Borges. Patativa novamente
agradeceu e recitou diversos poemas.
Foi a vez, a seguir, do Rotary Club. Uma placa de prata lhe foi
oferecida pelos rotarianos do Crato, e fez a saudação o Dr. Carlos Barreto
de Carvalho. Novo agradecimento de Patativa.
Por último, falou o Vice-Prefeito de Assaré, Plácido Paiva, agrade­
cendo, em nome de sua comunidade, a todas essas manifestações de carinho
do povo cratense ao grande filho do Assaré.
O Juiz Nirson Monteiro e outras autoridades prestigiaram os dois
eventos, além de muitos rotarianos.
A seguir, o Instituto ofereceu um coquetel a todos os presentes,
numa reunião marcada pelo congraçamento e fidalguia.

30
Diocese do Crato
75 anos

Não poderiamos deixar de registrar o transcurso, neste ano, dos


75 anos dc criação da Diocese do Crato, criada pela Bula Catholica Eclesiae,
ano, 1914.
Foi seu primeiro bispo Dom Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva,
cearense de Quixeramobim, que a governou de 1915 a 1928.
Segundo Bispo, Dom Francisco de Assis Pires, baiano, de 1929 a
1960.
Terceiro Bispo, Dom Vicente Matos, de 1961 aos dias atuais, tendo
como auxiliar, Dom Newton Holanda Gurgel, ambos cearenses.
A Diocese é responsável pela arracada educacional do Crato, que
chegou à Universidade e por amplos programas sociais e humanitários
de largo alcance, capitaneados pela sua Fundação Pe. Ibiapina. Um amplo
programa assinala por todo o ano o transcorrer dessa gratíssima efeméride.

Dois fatos interessantes


Dois fatos curiosos foram revelados na plenária do Rotary, a respeito
da história da Diocese do Crato, que entrou no ano de seu jubileu dc
diamante.
Um deles revelado pelo Pe. Gonçalo Farias Filho.
Quando o Papa nomeou o segundo Bispo do Crato, fez a nomeação
para D. Antônio de Assis, de São Paulo, e Dom Francisco de Assis,
baiano, para a diocese de Jacobina. No comunicado expedido à imprensa,
e largamente noticiado pelos jornais, houve a troca de nomes: Dom Fran­
cisco de Assis, o baiano, para o Crato, e Dom Antônio de Assis, o
paulista, para Jacobina. A Nunciatura Apostólica e depois o próprio Vati­
cano, ante a dificuldade de desdizer a notícia, encamparam as nomeações
trocadas, e, assim, Dom Francisco ficou na Diocese do Crato (1932-1960),
deixando larga obra social, educacional e assistencial. E Dom Antônio,
o paulista, nunca veio para o Crato, ficando mesmo em Jacobina.
O outro fato revelado: o Dr. Cordeiro Lima, médico pernambucano,
foi o primeiro que veio para o Crato chefiar o serviço de peste e combater
as endemias. Realizou trabalho memorável. Ao par disso, era profunda­
mente carnavalesco, desfilando em blocos e trazendo o frevo e o gosto
do carnaval de rua para os cratenses.
Deixou a marca do Carnaval e o hábito da folia momina de rua
em nosso meio. Ao despedir-se do bispo Dom Francisco, quando foi
embora, Dom Francisco comentou, depois, com um amigo:

31
— Ele acabou com a peste mais deixou outra peste... (O Carnaval).
Fato revelado pelo médico Carlos Barreto.
Outro fato histórico da Medicina em Crato: o primeiro médico que
pisou terras cratenses foi o Dr. Manoel Medeiros, em 1862. Veio chefiar
o combate ao cólera-morbo. E o primeiro formado em medicina que
atuou na cidade do Crato.

32
Transladados restos mortais
do Bispo Dom Francisco Pires

Foram transladados, de sua sepultura original, frente ao altar de Nossa


Senhora de Fátima, na Catedral do Crato, para uma das colunas da nave
central, na mesma Catedral, os restos mortais do segundo bispo do Crato,
Dom Francisco de Assis Pires.
O fato ocorreu na tarde do dia 11 de maio de 1989, após solene
concelebração, presidida pelo bisbo auxiliar, Dom Newton Holanda Gur-
gel, que contou com a participação de vários sacerdotes.
O túmulo havia sido aberto na noite anterior e os ossos encontrados
foram acondicionados em urna de zinco. Após a concelebração, benção
dos ossos e cerimonial de colocação no espaço aberto na coluna central,
assistida por sacerdotes e leigos, presidentes de associações religiosas e
imprensa, tendo à frente o Sr. Jorge Romualdo. Grande número de fiéis
presenciou o ato e muitos se emocionaram, vendo os ossos daquele que
foi em vida um grande e santo homem de Deus, nosso segundo Bispo.

Quem foi
Dom Francisco de Assis Pires era das melhores famílias baianas.
Nasceu em Salvador a 4 de Outubro de 1880. Foi vigário em Conceição
da Praia, após ordenar-se em 1903. Segundo bispo do Crato para aqui
veio em 1932, desenvolvendo intensa atuação social e humanitária. Foi
Bispo até 10 de fevereiro de 1960, quando faleceu, sendo sepultado a
11 de fevereiro daquele ano. Permaneceu no seu túmulo original, portanto,
29 anos e 3 meses.
A Catedral está passando por reformas, para as festas dos 75 anos
da Diocese e o momento foi apropriado para essa transladação. Deve
ter sido feita uma ata, como é próprio, e quase obrigatório, nesses aconteci­
mentos.

33
Várzea Alegre
seus primeiros passos
Oliva Ribeiro Luna

Homenagem póstuma à memória dos fundadores do território de


que adiante falarei e à de meu esposo:
JO Â O LUNA DE OLIVEIRA e meus filhos:
FRANCISCO URSINO LUNA
ADEMAR RIBEIRO LUNA
JOSÉ RIBEIRO LUNA
Desejando falar sobre tempos tão distantes, quando foi delimitado
o território que é hoje o rico e progressista município de Várzea Alegre,
invoco as luzes do Espírito Santo para o meu trabalho de pesquisa, na
elaboração de dados concretos e corretos.
Encontrei livros que foram para mim um verdadeiro “Tesouro Escon­
dido” . Devo este achado aos Padres Monsenhor Francisco de Assis Couto,
Vigário Geral da Diocese de Iguatu, de saudosa memória, e o Pe. João
Sticker, alemão e Vigário da Freguesia de Nossa Senhora do Carmo dos
Inhamuns — Jucás-CE. Quero agradecer a essas pessoas que me forne­
ceram livros de suas citadas paróquias.
Tive também como guia, o livro “Passado no Presente” , de Pedro
Gonçalves de Morais (vulgo Pedro Tenente), que foi o primeiro a falar
dos nossos antepassados. Escreveu livros pelo dito popular que, mesmo
sendo verdadeiro, não oferece informação completa, como em pesquisas
nas fontes originais. A memória do meu conterrâneo, o meu agrade­
cimento.

★★★

Devido às secas, a impressão de aridez e inospitalidade do território


do Ceará, houve demora e dificuldades na exploração desta região, o
que só aconteceu depois de mais ou menos se haver desvanecido esta
imagem.
Iniciando pelo litoral, o invasor branco foi difundindo pouco a pouco
sua presença pelos sertões, ao sabor das concessões de sesmarias, e assim
começaram a se estabelecer as fazendas de criação, fator principal do
desbravamento da terra.
A agricultura, por sua vez, se incentivou dentro em breve, como
principal pioneira de nossa civilização.

34
A imigração portuguesa que por aqui entrou, como em todo o Brasil,
veio com intenção de explorar as riquezas fáceis desta região. Encontraram
os índios que não possuíam sociedades regularmente organizadas, sendo
então explorados e escravizados, eles que eram os verdadeiros proprietários
deste imenso, rico, belo e querido Brasil.
Seria oportuno lembrar os versos de Valentim de Magalhães:
Podes entrar forasteiro Vinde, ó gente estrangeira
Sem temor podes entrar Podeis sem temor entrar
E torrão hospitaleiro São livres e hospitaleiras
A que foi berço de Alencar. Estas plagas de Alencar.

★★★

Como imigrantes, chegaram Bernardo Duarte Pinheiro, português,


da freguesia de Santa Eulália de Passos, arcebispado do Porto, casado
com Ana Maria Bezerra, pernambucana de Tracunhaém, filha do alferes
Antônio Bezerra do Vale e Maria Alvares de Medeiros. Com eles vieram
Agostinho Duarte Pinheiro, irmão de Bernardo, e Vasco da Cunha Pereira
e juntamente requereram as terras que hoje constituem o município de
Várzea Alegre.
Segundo a tradição, Agostinho Duarte Pinheiro depois resolveu voltar
a Portugal, embora tivesse requerido terras no rio Cariús, onde se encontra
parte dos seus descendentes.
Bernardo Duarte fixou residência no lugar a que deu o nome de
Cabeça da Lagoa, que mais tarde ainda seria chamado Lagoas, Sítio das
Lagoas e Fazenda da Lagoa, sendo este o lugar do ponto demarcatório
do município e comarca de Várzea Alegre.
Bernardo Duarte atingiu a patente de tenente-coronel e aparece pela
última vez como testemunha no casamento de José Lobo, filho de Quitéria
da Mota, com Isabel Maria, filha de Francisco Duarte e Maurícia Moura.
A data de sua morte não encontrei, mas, em 1749, sua esposa Ana Maria
Bezerra, já era viúva, testemunhando o casamento dos seus escravos Ma­
noel e Vitória. (3? Livro do Icó).
Nos territórios de Cariús, Jaguaribe e Inhamuns, os portugueses
que os ocuparam, vieram da Arquidiocese de Braga, sendo alguns da
Ilha da Madeira.
Nesses tempos tão distantes, quando chegaram, os nossos antepas­
sados foram dando nomes aos lugares onde se localizavam. No percurso
de setenta anos, nas terras objeto deste estudo, encontrei apenas os lugares:
Lagoas, Juazeiro, São Caitano da Serra, Urucuzinho, Rosário, Serra dos
Cavalos, Furtuna, Aba da Serra ou Abra da Serra.
De acordo com as citações escritas abaixo, presume-se:
“Igreja de São Caitano da Serra, na casa de residência de João da
Cunha Gadelha” . O costume daquele tempo, nas casas de residência das

35
pessoas de maior posse, via-se um quarto bento ou “oratório”, muito
cm uso, onde se celebravam os atos religiosos.
Vejamos:
Aos 2 de março de 1755, na igreja de São Caitano da Serra, em
casa do Coronel João da Cunha Gadelha, o Pe. Francisco Callado de
Bitencour, batizou a Jozé, filho de escravos e foram padrinhos João Fer­
reira da Silva e Rosa Maria de Jesus.
Aos 23 de março de 1755, no Sítio Urucuzinho, em casa do Coronel
João da Cunha Gadelha, o mesmo padre batizou Euzébio, filho de João
de Souza e Januária, foram padrinhos o mesmo João da Cunha Gadelha
e sua esposa.
Tudo indica que o Coronel João da Cunha Gadelha tivesse doado
sua casa para igreja, indo residir no Sítio Urucuzinho.
Aos 23 de abril de 1755, na fazenda da Lagoa, o mesmo padre batizou
Francisco, filho do Tenente Francisco Pereira e Joana Maria dos Anjos;
foram padrinhos o Capitão Manoel Duarte Passos e Ana Maria Bezerra,
mulher de Bernardo Duarte Pinheiro, sendo estes avós do batizando.
(Livro 3? do Icó).

Filhos de Bernardo D uarte Pinheiro e Ana Maria Bezerra


1. Joana Maria dos Anjos casada com o Tenente Francisco Ferreira,
filho de Bento Ferreira Lima, português, e Maria Ferreira Gomes.
2. Manoel Duarte Passos c.c. Francisca Lopes Leitão, filha do Capitão
João Leitão Arnoso, de Igarassu, e de Luíza Pereira de Lira, de Tracu-
nhaém.
3. José Bezerra da Costa c.c. Maria Alves de Morais, filha de Gabriel
de Morais Rego e Catarina Pereira de Almeida.
4. Francisco Duarte Bezerra c.c. Bárbara de Morais Rego, irmã de Maria
Alves de Morais, supra.
5. Bernarda Duarte Pinheiro, c.c. o Cap. Inácio Dias Quaresma, residente
nos Oitis. Pais de:
5.1. Alexandre Dias Quaresma c.c. Maria Pereira, filha de Caitano
de Melo e Joana Ferreira, viúva de Luiz Pereira de Lira.
5.2. Atanásio Dias Quaresma c.c. Maria da Conceição, filha de Dio-
nísio Ferreira e Francisca Bezerra Lima.
5.3. Maria José do Espírito Santo c.c. João Soares de Azevedo, filho
de João Soares de Melo e Joana Ramos de Oliveira.
6. Isabel Álvares de Medeiros c.c. Francisco Pinheiro Torres, filho de
Manoel Pinheiro Torres e Maximiana de Sousa.

36
7. Valentina Duarte Bezerra c.c. Luiz de Oliveira Lima (Luiz Ribeiro),
filho do Cap. Francisco Xavier de Oliveira Campos e Anacleta da
Silva Carvalho (uma das sete irmãs Carcarás).
8. Clara Teresa de Jesus Duarte c.c. Gaspar Lobo de Sousa, pai de:
8.1. Luiz Lobo de Sousa c.c. Rita Francisca de Jesus, filha do Cap.
Marques e Catarina de Jesus.
8.2. Felipa Maria de Jesus c.c. Luiz Ribeiro, pai de:
8.2.1. João Ribeiro Campos.
8.3. José Sutério Bezerra
9. Inocência Duarte Pinheiro c.c. Félix Camelo, filho de Francisco Came­
lo Ferreira.
10. Tomaz Duarte de Aquino c.c. Vitorina de Sousa Lima, filha de Jerô-
nimo de Sousa Nogueira e Antônia Correia Lima.
11. Luíza Pereira de Lira c.c. João de Sousa Rego, filho de Jerônimo
de Sousa Nogueira e Antônia Correia Lima.

Irmãos de Ana Maria Bezerra c.c. Bernardo Duarte Pinheiro


1. João Bezerra do Vale, natural de Tracunhaém, casado com Ana Gon­
çalves Vieira, filha do Coronel Francisco Alves Feitosa, dos Inha-
muns, e de sua segunda mulher Catarina Cardoso da Rocha Resende
Macrina, pais de:
1.1. Eufrásio Alves Feitosa, coronel, de Arneiroz, c.c. Josefa Ferreira
de Barros, filha de Antônio Pereira do Canto.
1.2. Leonarda Bezerra do Vale c.c. Antônio de Sousa Carvalho.
1.3. Maria Madalena Vieira c.c. Capitão José Alves Feitosa, da Várzea
da Onça.
2. Domingos Alves de Medeiros c.c. Maria da Ressurreição Silveira, filha
do português José da Silveira e de Leonor Pereira do Canto. Deste
casamento não houve filhos. Domingos Alves de Medeiros, com a
índia Micaela Jorge foram os pais do Capitão José Alves de Medeiros,
do São Nicolau, c.c. Suzana Pereira da Silva, que, por sua vez, foram
pais de:
a) Antônio Alves Bezerra;
b) Domingos Alves de Medeiros c.c. Eulália de Passos Guimarães, filha
de Francisco Alves e Mauríeia Moreira de Carvalho, fazenda do
Rosário;
c) João Alves de Medeiros, em Janeiro de 1772, casado com Maria
Manoela Alvares;
d, e, f) Manoel Alves Bezerra, Isabel Pereira da Silva e Olívia Alves
Medeiros;

37
g) Leonarda Bezerra de Medeiros c.c. Manoel Cardoso;
h) Susana Pereira c.c. José, em Arneiroz, a 16.08.1796;
i) Luzia Pereira das Neves c.c. Arnau de Souza Barros;
j) Josefa Alves de Medeiros c.c. Domingos Francisco dc Gois, filho
de Antônio Francisco de Araújo e Joana do O, neto e paterno de
Pedro Ferreira e Atanásia Hus.
3. Pe. José Bezerra do Vale, do Umbuzeiro, nos Inhamuns.
4. Rosa Maria Bezerra c.c. o pernambucano Agostinho Rodrigues Cardo­
so, naturais da freguesia de Nossa Senhora do Desterro da Penha,
hoje cidade de També. Troncos de numerosas famílias dos Inhamuns
(Rego Barros, Araújo Pereira, Vieira de Sousa e outras).

★ ★ ★

Registros de batizado e casamento de Francisco Duarte Bezerra, pai


de Papai Raimundo, fundador de Várzea Alegre
Batizado — No Sítio da Lagoa, em 01.12 de 1739, o Pe. Luiz Mar-
reiros da Silva batizou a Francisco Duarte Bezerra, filho do Tenente-
Coronel Bernardo Duarte Pinheiro e Ana Maria Bezerra. Padrinhos: João
Ferreira Gomes e D. Maria Manoela, mulher do Sargento-Mor João de
Souza Gadelha. (Livro 3? da Freguesia do Icó).
Casamento — Na fazenda do Riacho dos Cavalos, em 04.08 de
1761, natural da freguesia do Icó em presença do Reverendo José Bezerra
da Costa, sendo presentes por testemunhas o Capitão Inácio Dias Qua­
resma e Francisco Ferreira Rios, se casaram solenemente por palavras
do presente, Francisco Duarte Bezerra, filho legítimo do Tenente-Coronel
Bernardo Duarte Pinheiro e Ana Maria Bezerra, e Bárbara de Morais
Rego, filha legítima do Capitão Gabriel de Morais Rego e Catharina
Pereira, naturais e moradores da freguesia dos Inhamuns.

★★★

Mediante diversas pesquisas, pude saber que os Correia Lima e os


Souza Lima tiveram seu berço no Sítio Rosário, onde assistiam casamentos
e apadrinhavam crianças:
lí — No Sítio Rosários, em 21.08.1734, o Pe. Antônio Barboza
Gerez batizou a José, filho do Sargento-Mor Hieronimo de Souza Noguei-

NOTA: Os documentos não falam em Pe. José Bezerra do Vale e sim em Pe. José Bezerra
da Costa que foi pároco da freguesia de índios de Arneiroz, por muitos anos.
Do casamento de João Bezerra do Vale, datado de 22 de fevereiro de 1732, vê-se referência
a uma certidão expedida pelo Pe. Antônio Jorge Bezerra, vigário da freguesia de Santo
Antônio de Tracunhaém.

38
ra, natural de Santa Maria, Arcebispado de Braga, Portugal, e Antônia
Correia Lima; foram padrinhos o licenciado Antônio Barboza Gerez e
Ana Maria Bezerra, mulher de Bernardo Duarte Pinheiro.
2°. — Em 15.08 de 1735, o Pe. Luiz Marreiros da Silva, na capela
de Nossa Senhora da Glória, Freguesia de Nossa Senhora do Carmo
de São Mateus, batizou a Félix, filho do Sargento-Mor Hieronimo de
Souza Nogueira e Antônia Correia Lima; foram padrinhos José de Castro
e Bernarda Correia da Silva.
3?— Na Fazenda Juazeiro, em 21.04 de 1755, o Pe. Anacleto Soares
da Veiga, batizou a Quitéria, filha de José de Souza Lima e Maria de
Souza; foram padrinhos o Alferes José de Souza Lima, solteiro, e Antônia
Correia Lima.

★ ★ ★

Além dos Correia Lima, no Sítio Rosário, residiam os Leandro, citan­


do-se especialmente o Sargento-Mor Leandro Bezerra. E ainda Leandra,
filha de Estevam Paz e Theodora Borges e outra Leandra, filha de Engracia
Caetano.

★ ★ ★

Relação de pessoas que residiam no referido Território de Várzea Alegre


e que assistiam a atos na capela de São Caetano
Antônio Barboza Correia
Ana, filha de Nicolau Rodrigues Brandam e Plácida Pereira da Cunha
Agostinho Duarte Pinheiro (capitão)
Antônio, filho de Bazílio Machado e Teodózia Borges, no Sítio Rosário
Agostinho de Moura, filho de Agostinho dc Moura e Maria Martins de Menezes,
no Sítio Brejo
Antônio Pinto, ajudante
Antônio Lopes de Andrade (Sargento-Mor) casado com Isabel Ferreira, no Sta. Rosa
Antônio, filho do Cap. Lourenço Correia c.c. Joscfa Bezerra, Sítio Sta. Rosa
Agostinho Duarte Brandam
Antônio da Cunha
Antônio Vieira
Antônio Martins Ferreira
Antônio Gomes (Alferes)
Antônio Pinto de Mendonça
Amaro da Rocha Freire, f. de Melquíades Rocha e Maria do Ó c.c. Maria do Carmo,
f. de Antônio dos Santos e Cosma Pereira, em S. Caetano.
Antônio Ramos
Alexandre Gomes
Alexandre Dias Quaresma, citado antes
Agostinho Duarte Passos, f. de Antônio Francisco Ferreira de Vasconcelos e Ana
Maria do Rosário, c.c. Maria Cavalcante de Albuquerque, filha dc João Ribeiro Campos
e Mariana da Assunção
Ana Maria, filha de Francisco dc Matos e Clara da Silva, em Cariuzinho
Antônio de Oliveira Carvalho (coronel)

39
Antônio Alvares da Silva
Antônio Pereira Leite
Antônio Ribeiro Pinto
Bernardo Duarte Pinheiro, citado antes
Bartolomeu de Albuquerque, natural de S. Pedro, Bispado de Algerico em Portugal,
filho de Bartolomeu de Albuquerque c Isabel Borges e casado com Isabel Borges Gonçalves,
filha do Cap. Simão Borges Gonçalves
Bernardo Duarte Passos
Baltazar de Montes (Sargento-Mor), Sítio S. Pedro
Bernarda, filha de Antônio Gomes dos Santos
Bento da Silva Oliveira, coronel, c.c. Bernardina Maria de Andrade
Bruno da Costa Rodrigues, capitão
Bartolomeu Vieira de Carvalho
Bernardo Nogueira, Capitão-Mor
Baltazar Belquior de Oliveira, filho do Cap. Francisco Xavier de Oliveira Campos
e Anacleta da Silva Carvalho e casado com Luíza Pereira de Lira, filha do Cap. Manoel
Duarte Passos e Francisca Lopes Leitão
Clara Teresa, filha de Bernardo Duarte Pinheiro
Cosma Nunes
Caetano Donato, filho de Maximiano de Mendonça, c.c. Teresa de Jesus, natural
do Pará, filha de Rosa de Tássia
Crispim Montes da Silva
Cosme da Fonseca Marques, escravo do Dr. Vitorino Pinto da Costa Mendonça e
c.c. Apolônia Pereira, escrava de João Correia
Domingos Alvares de Medeiros
Duarte Pacheco, alferes, c.c. Juliana de Lima
Eusébio, filho de João de Sousa, casado com Januária, cm S. Caetano
Elena, parda, filha de Maria (mameluca) escrava do Dr. Vitorino Pinto da Costa
Eufrázio, filho do Sargento-Mor João Bezerra do Vale e Ana Gonçalves Vieira, Sítio
S. Pedro, Inhamuns
Eugênio da Cruz Lima, filho de Jerônimo da Cruz Lima e Maria da Assunção, c.c.
Luíza Alvares Pereira, filha de Acácio Alvares Pereira
Francisco de Araújo, Sargento-Mor
Francisco Duarte Pinheiro, c.c. Jerônima Ferreira Banhos, Sítio Moreira, Lavras
Francisco Alvares Feitosa, coronel, c.c. Isabel Maria de Melo
Francisco Correia
Francisco, filho do Tenente Francisco Ferreira e Joana Maria dos Anjos, Lagoas
Francisca, filha de Inácio Dias Quaresma e Bernarda Duarte Pinheiro, Sítio Oitis
Félix da Costa, Sítio Cariuzinho
Francisco Coelho de Lemos
Francisco de Xavier Mendonça, filho de Jerônimo de Sá e Francisca Pinto, escravos
do Dr. Vitorino Pinto de Mendonça
Félix da Costa Siebra
Francisco Pereira Sandes, filho de Caetano Pereira Sandes e Joana Martins, c.c. Ana
Jocelina, filha de Joana, escrava de Bernardo Nogueira
Francisco Duarte de Aquino
Félix Gomes de Oliveira, filho de João de Oliveira Cunha e Ana de Araújo, c.c.
Ana Maria da Conceição, natural de Serinhaém
Gaspar Fagundes
Gonçalo da Cruz Monteiro, filho de ... Monteiro de Carvalho e Maria Bezerra de
Andrade, c.c. Francisca Martins dos Santos, dos Inhamuns, filha de Francisco das Chagas,
do S. Caetano
Hilária dos Santos
Horácio Gomes da Silva
Inácio Dias Quaresma, já citado
Isabel, filha de Joana, escrava de Bento Martins Aires, sito Várzea Grande
Isabel da Silva, filha de Julião, filho de João Leão e Lucinda Bezerra
Isabel Teixeira
Isabel, filha do Dr. Vitorino Pinto da Costa Mendonça e Teresa Bernarda da Costa

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João da Cunha Gadelha c.c. Maria Manoela Ferreira, residente em S. Caetano e depois
no J uazeiro
Jerônimo de Souza Nogueira c.c. Antônia Correia Lima, Sítio Rosário
José dc Castro Bezerra c.c. Bernarda Correia da Silva
João Fernandes c. c. Ana dos Santos
João dos Montes, Sargento-Mor, c. c. Antônia de Barros
João, filho de Basílio Machado e Teodósia Borges, Sítio Sta. Rosa
José Ferreira da Silva
José de Souza Lima, alferes
José Gonçalves de Carvalho
José Fernandes da Silva
João Nunes da Silva
João Rodrigues
José Bernardes Nogueira, Capitão-Mor
João Ribeiro Campos, filho dc Luiz Ribeiro e Fclipa Maria de Jesus, c.c. Antônia
Maria de Jesus, filha de Gaspar Lobo de Souza e Clara Teresa de Jesus, no S. Caetano
José Bastos da Silva c Oliveira
José Francisco Pinto
Joaquim Pinto
João Ferreira Gomes
José de Brito
Jerônimo Quirino
Joscfa dc Abreu
José Alvares, filho de Domingos Alvares de Medeiros, já citados
Jovita, filha de Domingas, escrava de Domingos Alvares de Medeiros
José Soares de Souza, filho de ... Soares de Souza e Antônia Francisca Bezerra, filha
de Bruno da Costa Pereira c Ana Maria Bezerra
José Nogueira, natural de Russas, filho dc Vitorino Nogueira e Bertuleza Cavalcante,
c.c. Ana Maria de Souza, filha do Tenente Simào Rodrigues Ferreira e Antônia Fernandes
João da Silva, crioulo forro, filho de Rita Francisca, casado com Maria Teresa, filha
de Romana Maria
João Cavalcante de Albuquerque, natural da Paraíba, filho de José Barbalho Bezerra
e Maria Inês de Melo, c. c. Domiciana Lins de Albuquerque e Oliveira
José Bernardo Nogueira
José Lobo, filho de Quitéria da Matta, c.c. Isabel, filha de Francisco Duarte e Maurícia
Moreno
João Soares dc Azevedo, filho de João Soares de Melo e Joana Ramos de Oliveira,
c.c. Maria José do Espírito Santo, filha do Cap. Inácio Dias Quaresma c Bernarda Duarte
Pinheiro
Jerônimo Pereira dc Matos c.c. Tomázia Duarte Bezerra, filha de Manoel da Cunha
José Barboza, natural da missão da Matuba, filho de José Barbosa c Rosália Maria,
c.c. Francisca Teresa de Jesus, natural dc Apodi, filha de Vitoriano de Melo e Teresa
de Jesus
José Nunes, filho de Matias Nunes c Isabel Antunes de Souza, c.c. Maria Alvares
dc Oliveira, filha dc Valentim Alvares dc Oliveira e F.ufrásia da Silva, no Arraial da Fortuna.
Jacó Anserr Moler, no Arraial da Fortuna
José Dias dc Oliveira, filho dc Francisco Dias de Oliveira e Joscfa Maria da Paz,
natural de S. Amaro de Jaboatão, c.c. Luíza da Silva, filha de Valentim Alvares de Oliveira
e Eufrázia da Silva
João Nunes de Almeida, natural de Abrantes, filho de Manoel Nunes dc Josefa Bento,
neto paterno de Manoel Nunes e Isabel Gomes, c.c. Romana Pereira, filha de Manoel
da Silva Pereira, natural de Amarante-Portugal, e Gertrudcs da Conceição, natural de
Minas Gerais, residente na serra do Quincuncá
Lourenço Alvares Feitosa
Leonardo, filho de João do Vale e Anara Jançal
Lourenço, filho de Luzia da Costa, Sítio S. Pedro
Luiz Gomes da Fonseca
Lauriana Teixeira
Leandro, escravo de Manoel Duarte Passos, filho de Eugênia, fazenda Juazeiro

41
Luiz, filho de Francisco do Rego, c.c. Incs Maria Bezerra, Sítio Caranguejo
Luiz Pereira de Barros
Luiz Pinto de Azevedo c.c. Bernarda Correia da Silva
Leandra, filha de Estêvão Paz e Tcodora Borges, no Sítio Rosário
Luiz Lobo de Sousa c.c. Clara Teresa
Manoel de Barros Rego c.c. Ana dos Santos, pais de Teresa e Antônio
Maria, escrava do Tenente-Coronel Bernardo Duarte Pinheiro
Manoel Duarte Passos
Manoel de Silva Andrade
Manoel Gonçalves de Souza c.c. Maria da Conceição
Marcos, escravo do Tenente Vasco da Cunha Pereira
Manoel Ferreira de Mendonça
Manoel Velho, ajudante, c.c. Maurícia Carneiro
Miguel da Silva, do Crato, filho de João Correia e Franciana da Silva, c.c. Maria
Barboza, filha de Felipe Dias e Rita Ribeiro, no S. Caetano
Manoel Vieira de Oliveira, filho de Manoel Gonçalves Viana c Josefa da Paixão c.c.
Maria da Conceição, filha de Manoel Pinheiro Torres e Maximiana de Souza
Manoel Nogueira da Costa, de Russas, filho de Gabriel Nogueira c Mariana de Jesus
Pereira, c.c. Maria de Jesus, filha de Lourenço Carneiro Pereira e Teresa Maria de Jesus,
na fazenda J uazeiro
Manoel Dias Ferreira, filho de José Dias Vieira e Maria Manoela dos Prazeres, c.c.
Maria da Paz Uchoa, de Goiana, filha de João Oliveira da Cunha e Ana dc Araújo
Manoel Alexandre Teixeira Mendes, natural da Paraíba, filho de Alexandre Ferreira
e Maria de Jesus, c.c. Maria Catarina Fernandes
Manoel e Vitória, escravos de Bernardo Duarte Pinheiro
Pedro e Catarina, escravos de Bernardo Duarte Pinheiro
Pedro, filho de Manoel da Costa Figueiredo e Maria Pereira das Neves, Sítio Juazeiro
Pascoal, filho de Antônio e Eugênia, índios, Sítio Oitis
Pedro Ferreira da Costa, natural de Serinhaém, filho de Manoel e Angélica Maria
da Conceição, c.c. Eurica Maria, natural de Goiana, filha de João de Oliveira Costa e
Ana Carneiro de Araújo, na faz. da Serra (Aba da Serra)
Pedro Antônio Pereira
Rosária Ribeiro Calado, Sítio Oitis
Rosa, filha de Maria, escrava do Tenente Vasco da Cunha Pereira
Rita, filha de Taciana, escrava de José da Silveira, no Riacho dos Cavalos
Tomaz Duarte de Aquino
Teresa, filha do Cap. Bruno da Costa
Tomázia, filha de Maria, escrava do Tenente-Coronel Vasco da Cunha Pereira
Vitorino Pinto da Costa Mendonça, testemunha ocular de quase todos os aconteci­
mentos mais importantes, sendo citado inúmeras vezes, como padrinho de batizados, teste­
munha de casamentos. Residia na fazenda Cabo e era casado com Tcreza Bernarda da
Costa. Foi 2: Ouvidor Geral da Capitania do Ceará Grande, tendo inaugurado a Vila
'do Icó

★ ★ ★

A Autora:
Oliva Ribeiro Luna, natural de Várzea Alegre-CE., filha de José
Alves Ribeiro, natural de Antenor Navarro, Paraíba, e de Otília de Carva­
lho Ribeiro, natural de Várzea Alegre.
Fez curso primário com a professora Josefa Guerreiro Mendes (Zezi-
nha), como era conhecida e seus alunos a chamavam de madrinha Zezinha).
Zezinha era professora interessada, que assumia o papel de educadora,
no sentido completo, cuidando não apenas das letras, mas, também, do

42
aspecto religioso e artístico. Oliva Ribeiro Luna foi por ela introduzida
nas artes do balé e conhecimentos de bandolim.
A autora estudou também com Leandro Correia ou Leandro de Ger-
vázio.
Concursada para o cargo do 1” Tabelionato de Jucás, com funções
acumuladas de Tabeliã, Escrivã Geral, Oficial do Registro Civil, foi tam­
bém Escrivã Eleitoral e Secretária da Junta de Alistamento. Atualmente
aposentada, reside em Fortaleza.

43
Poetas Cratenses

O Vulto Poema para Erisvalda


É apenas uma sombra na janela E um dia chegarei devagarinho
Suavemente a volitar descontraída E minha voz em tua porta ouvirás
A esguia silhueta, ... o vulto dela Chamar-te-ei pelo nome com carinho
Diáfana e lépida à própria luz jungida E venturosa pros meus braços correrás
A cada dia, cada hora... cada instante Embriagar-me-ei de vez no teu sorriso
Eu a vejo extasiada à minha frente O doce mel da tua boca sugarei
Sombra etérea, amada... deslumbrante Nos teus braços criarei meu paraíso
Emergindo do passado em meu presente Nos segregos do teu corpo dormirei
As vezes tento prendê-la junto ao peito Passem os dias,... as horas, passemos anos
Se evapora sorrateira... não tem jeito Inebriados de amor, ... risos ufanos
E logo volta sorridente embevecida Embevecidos em divinal felicidade
É apenas uma sombra na janela Fruirás na minh’alma o idílio santo
A esguia silhueta, ... o vulto dela Nos meus versos louvarei os teus encantos
A rodear constantemente minha vida! E ante nós curvar-se-á a eternidade

Cícero Jorge de Carvalho, poeta Cratensc.

O Exterminador
O Exterminador do presente, Ele se encontra com a avareza,
Continua matando a natureza. Está comprando tudo e vendendo.
Queima a flora e mata gente, Ele se encontra com a natureza,
Extermina a nossa pureza. Por isso tudo está morrendo.

Ele se encontra contaminando, Ele não quer se tocar,


A água, a terra e o ar. Que o seu governo não é certo.
Ele se encontra incendiando, Ele não quer nem notar,
A nossa razão de respirar. Que o fim do mundo está perto.

Ele se encontra matando, Ele insiste em governar,


Os lindos seres marinhos. O encantado planeta terra.
Ele se encontra transformando, Ele insiste em badernar,
As lindas flores em espinhos. O planeta com a guerra.

Ele se encontra estuprando, Porque a guerra traz o progresso,


Desflorando as meninas. Da venda dos armamentos.
Ele se encontra comprando, É a desordem e o regresso,
A virgindade feminina. Desse governo fraudulento.

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Desse governo que só mata, Desse poder que contribui,
Adulto, velho e criança. Com a fome e a violência.
Desse, que queima a mata, Desse que se envolui,
Que encarcera a esperança. Pro lado da turbulência.
Desse governo que zomba, Poluindo os nossos legumes,
Dos grandes ecologistas. Poluindo os nossos cereais.
Desse que constrói a bomba, Massacrando os belos cardumes,
Que forma grandes especialistas. Exterminando os animais.

O homem quer prolongar a vida


Destruindo a própria vida
Como é que pode?
Carlos Gomes
17.mai.89

45
Poeta Jardinense
J. Lindem berg de Aquino

O famoso médico e homem de sociedade, Dr. Napoleão Neves da


Luz, poeta desde a mocidade, incentivado pelos amigos, reuniu a sua
produção poética e lançou o bem feito livro POESIAS, que é um retrato
encantador de sua sensibilidade e um perfil exato de sua brilhante inteli­
gência.
Nascido e domiciliado em Jardim, onde tem prestado assinalados
serviços ao seu povo, exercendo o sacerdócio da Medicina com devota-
mento incomum, o Dr. Napoleão Neves da Luz se nos revela um poeta
de alma cheia, de grande sensibilidade, espírito romântico convivendo
com as musas, fazendo versos perfeitos pela métrica, belíssimos pelos
temas e maviosamente inspirados, alguns dignos das melhores antologias
brasileiras, como esse “Adeus, meu Pai”, que se inicia assim:

Adeus, adeus, meu Pai, tu vais embora, Ou este outro, sobre rejeição de co­
Deixando-nos trisconhos e saudosos, ração transplantado:
Com os corações de dor, despedaçados,
Nesc’hora da partida derradeira. Coração transplantado já bateu
Hoje tu vais para nunca mais voltar Noutro peito, sentindo outros amores
Ao convívio do lar, outrora alegre, Certamente por outras já sofreu
A esta pobre casa, hoje tão triste, Alegrias, tristezas e rancores
Onde somente as lágrimas povoam.
E conclui, assim dizendo:
Lindo, também, o soneto Mãe:
Não quero, no meu peito, um coração
Palavra que traduz tudo na vida Que não seja de Mim-Napoleão
Tudo de bom, de amor e de ternura, Para amar esta santa que é Maria.
Neste mundo de dor, labuta e lida
Só a mãe é oásis de brandura.

Há um outro que exalta seu tio Quincas, pardo seu primo e homô­
nimo, o médico Napoleão Tavares Neves. O tio cegou, mas o poeta
diz que “Não é cego quem vê com os olhos d’alma”.
Ainda citaríamos a bela poesia sobre a bola de bilhar, em que compara:
Tanta gente, também, parece ser
Qual bola de brilhar sempre a correr
Para o pão bem minguado conseguir.
O Cariri está de parabéns por esse novo lançamento literário, que
revela, já na maturidade, um poeta que, desde menino, escondia sua voca­
ção. Liberto de sua timidez, ele se nos apresenta sólido, forte, saudável,
vocacionado para as musas, inspirado e triste, como todo poeta, mas
gigante pelo sentimento e sensibilidade.

46
Saudação
Dr. Napoleão Tavares Neves

Ao Gabinete de Leitura de Barbalha Centenário:

Há precisamente um século que, no dia de hoje, Barbalha vivia mo­


mentos de raro fulgor intelectual: uma plêiade de denodados e valorosos
idealistas, obreiros da seara do pensamento, fundava em nossa terra o
Gabinete de Leitura de Barbalha, cujo centenário de fundação ora se
festeja com alegria, respeito e gratidão.

14 de maio de 1889 — 14 de maio de 1989


Cem anos de benemerências

Naquela recuada época um sopro de desejada renovação varria o


País. As idéias libertárias sopradas como um tufão da culta Europa queriam
progresso a todo o custo, inclusive progresso político e, evidentemente,
a República era o dourado sonho da maioria dos brasileiros sequiosos
de novos e mais amplos horizontes para a Pátria. Portanto, foi no calor
do entusiasmo republicano que o pensamento livre das mais lúcidas lideran­
ças barbalhenses gestacionou o Gabinete de Leitura de Barbalha na mente
arejada e madura da sua pacata gente capitaneada por admiráveis pioneiros,
autênticos bandeirantes do pensamento.
Em um preito de imorredoura gratidão, curvados em uma respeitosa
reverência, declinemos agora os seus nomes aureolados por nossa saudade
e acrisolados por nossa melhor gratidão:
Major Prof. Guilherme Brígido dos Santos — Foi seu primeiro
presidente, portanto, o presidente da fundação. Era irmão do irrequieto
e brilhante jornalista João Brígido dos Santos e só por este fato já se
pode aquilatar a sua competência e combatividade.
José de Sá Barreto Sampaio “Zuca Sampaio” — Seu primeiro secre­
tário, seu baluarte maior, o homem determinado que, enquanto viveu,
compareceu e falou em todas as suas reuniões. Foi um idealista. Portanto,
foi o secretário da fundação, em seguida, seu segundo presidente. Poste­
riormente, foi seu presidente por várias vezes e o sócio que mais vezes
ocupou esta árdua função, sendo hoje o seu presidente perpétuo.
Na verdade, José de Sá Barreto Sampaio misturou e confundiu sua
vida exemplar com a vida desta modelar instituição, sendo-nos difícil
determinar o plano de divagem entre as duas. Foi, não há de negar e a
História o proclama, a alma desta casa que era o seu lazer. Aqui desen­
volveu ele admirável e raro sacerdócio no magistério, sendo-nos impossível

47
determinar onde começava a cátedra e onde terminada o púlpito, alfabeti­
zando e evangelizando, com rara assiduidade e ímpar dedicação.
Presidiu os seus destinos com férrea determinação, “Como se fora
propriedade sua nem nunca poder ser”, de 1890 a 1919, de 1924 a 1925,
e posteriormente, de 1927 até quando as forças físicas não lhe permitiram
mais, por volta de 1935. Cerca de 39 anos de presidência.
Foi aí que ele ainda teve o bom senso de indicar o seu sucessor,
de maneira até certo ponto monárquica, na pessoa deste cirineu de invulgar
conduta que é o Dr. Antônio Lyrio Callou aqui presente no pedestal
imponente dos seus quase 87 anos de idade, vale dizer, de dedicação
total a Barbalha.
Dr. Manoel de Sá Barreto Sampaio — Foi o seu primeiro orador
oficial, portanto, o orador oficial da fundação. Médico de nomeada em
termos nacionais, oculista de fama internacional, inclusive com brilhante
atuação em Paris, “Cidade Luz” . Dr. Barreto Sampaio, que é o patrono
da cadeira que ocupo no Instituto Cultural do Cariri, sediado em Crato,
é glória da própria medicina brasileira.
Dr. M artinho de Luna Alencar — Foi o grande idealizador da
sua fundação, artífice da sua estruturação. Era um intelectual consumado,
jurista, magistrado, desembargador, inclusive tendo sido chefe de polícia
e procurador geral do Estado do Amazonas.
Padre Miguel Coelho de Sá Barreto — Sacerdote barbalhense de
peregrinas virtudes, orador sacro de nomeada consagrado em todo o Nor­
deste, poeta, jovem valor do clero cearense com apenas 29 anos de idade.
Antônio Cândido das Dores — Esplêndida liderança comunitária
prematuramente desaparecido em pleno vigor físico.
Dr. Joaquim Sampaio Cardoso — Magistrado de invulgar integri­
dade, morto tragicamente como juiz de Barbalha no desempenho da sua
ímpar judicatura, em 1901. Mártir da integridade.
Mendo de Sá Barreto Sampaio — Magnífica vocação de empresário
moderno que, no desdobramento do futuro, seria vitorioso empresário
no Recife.
Manoel Ramalho de Alencar — Serviço e dinamismo juntos em
ajustado casamento.
Antônio Callou de Sá Barreto — Combatividade e civismo em ajus­
tada simbiose.
Prof. Martiniano Bispo de Sousa Ferraz — Incorrigível sonhador,
impenitente romântico, poliglota, educador, figura folclórica da Barbalha
de outrora, imortalizado no romance “Recordações da Comarca” do escri­
tor barbalhense, Dr. Odálio Cardoso de Alencar. Chegou a ensinar até

48
Esperanto em Barbalha. Foi pioneiro da cultura do caju na Chapada do
Araripe.
Severino Ferreira Duarte — Trabalho e honestidade de braços dados
com o idealismo.
Pereira Grangeiro — Vocação política com desejo de servir.
E mais:
Raimundo José Batista
Sancho Pereira Filgueiras
José Joaquim de Sousa
Joaquim José Cavalcante Chaves
Ladislau Leite da Cruz
Misbilton Dias Pedrosa
Antônio Pinto de Sá Barreto
Antônio Augusto de Alencar
Alexandre Barbosa da Cruz
Fenelon Cavalcanti D ’Albuquerque Chaves
Gregório Severino Duarte
José Pereira da Silva Filho
José Maia Brígido
José Furtado de Lacerda
Segundo Henrique Fernandes Lopes Sobrinho, no livro “ Barbalha
em Tempos Passados” , os fundadores foram apenas vinte, mas o Dr.
Antônio Lyrio Callou cita nomes que não estão na relação do livro em
epígrafe.
Preferi não pecar por omissão e fundi as duas relações, totalizando
vinte e seis fundadores.
Em face destes nomes, descubramo-nos reverentemente, certos de
que foram eles verdadeiros super-homens que deram a Barbalha, a partir
do nada, uma das glórias maiores da sua rica História e a sustentaram,
sabe Deus com que sacrifícios, até torná-la firme, sólida, chegando até
nós: o Gabinete de Leitura de Barbalha, hoje na beleza imponente dos
seus cem anos de efetiva existência, fazendo o BEM sem olhar a quem,
instruindo, alfabetizando, educando, promovendo, semeando auroras nos
espíritos, nas mentes e nos corações.
Para nós seus nomes são imortais, não da imortalidade triunfante
e ruidosa dos que venceram nos campos de batalha, mas da amena imorta­
lidade dos que plantaram o BEM, acenderam luzes na escuridão das mentes,
promoveram o progresso da terra e o bem-estar da sua gente, desinteressa­
damente, “pelo simples prazer do bem distribuído sem a mínima idéia
de remuneração” de que nos falava Ruy Barbosa.
A todos eles já falecidos e na casa do Pai, a coroa sempiterna do
nosso mais profundo reconhecimento nesta hora singular da vida da nossa

49
comunidade que só é o que é porque eles foram o que foram: idealistas,
patriotas, abençoados, sonhadores, determinados e magníficos operários
da causa do BEM.
Para dimensionar-lhes a grandeza, basta que se diga que fundaram
em Barbalha o Gabinete de Leitura apenas dois anos após a fundação
em Fortaleza de instituição congênere, guardadas as devidas proporções:
o célebre Instituto Histórico, Geográfico e Antropológico do Ceará, em
4 de março de 1887.
Portanto, aqui em Barbalha Tomás Pompeu, Pompeu Sobrinho e
o Barão de Studart tiveram magníficos seguidores.
E Fortaleza fica no litoral onde o progresso chega sempre mais cedo,
até mesmo por ser a capital do Estado e o mais antigo município do
Ceará.
E Barbalha fica 600 km sertão adentro, engastada em uma das dobras
majestosas da colossal Chapada do Araripe, orvalhada pelas lágrimas crista­
linas da Fonte do Caldas.
E de homens desta têmpera que hoje tanto carece esta Nova República
infelizmente já tão senil, sobretudo pela carência de espírito público dos
seus políticos, pela evidente falência dos seus mais caros valores éticos
e pela decadência, senão pela morte mesmo, da honestidade na sua vida
pública com raras e honrosas exceções.
Em uma visão panorâmica e simplista, parece que até agora só uma
coisa boa a Nova República nos trouxe: acabou com os nossos mais
decantados mitos, trazendo o País à sua chocante realidade que, infeliz­
mente, é uma realidade de pigmeus.
Entre nós, no presente, parece não haver mais lugar para o ufanismo,
para os iluminados com mágicas soluções iluministas, porque tudo foi
desmitificado pela crueza da hora presente que é de angústias.
Decididamente, vivemos uma hora extrema que mais parece a 25’.
hora, com a força fisiológica do estômago querendo falar mais alto do
que o racionalismo da mente.
E já dizia o grande José Américo de Almeida: “A fome não tem
virtudes” ! E a fome campeia no mundo hodierno com a explosão demo­
gráfica de par com o encurtamento das áreas agrícolas.
Meus Amigos!
Tudo isto já será um ocaso dos valores morais com a falência das
forças da produção?
Seria já a profética inversão dos valores de que nos falava Ruy Barbosa
quando, segundo ele, “o homem teria vergonha de ser honesto” ?
Se ainda não o é, pelo menos nos parece, pelo que temos visto acon­
tecer em torno de nós.

30
Meus Senhores e minhas Senhoras,
Mas, com que intuito estes denodados pioneiros idealizaram o Gabi­
nete de Leitura de Barbalha? Foi por simples diletantismo?
Não e não.
Fundaram-no, isto sim, para que cumprissem religiosamente estas
sublimes metas:
MINISTRAR O ENSINO PRIMÁRIO GRATUITO.
INCENTIVAR O CULTO ÀS LETRAS.
TRABALHAR PELO PROGRESSO DE BARBALHA.

Magníficas metas, estas, meus amigos.


Sublimes desideratos, meus senhores.
Sim, alfabetizar, instruir, educar, cultuar as letras, promover, desen­
volver o progresso, gratuitamente, tudo isto, fora das posições oficiais,
sem remuneração de qualquer natureza, por puro idealismo!
Em outras palavras, instalaram aqui uma fábrica de cidadania, com
a matéria-prima da instrução, do civismo e da liberdade.
Mas, perguntarão os que não conhecem Barbalha: estas metas tão
ousadas foram realmente cumpridas e satisfeitas?
E a resposta vem pronta: foram e como foram; estão sendo e como
estão sendo. O Gabinete de Leitura de Barbalha transformou-se, ao longo
deste século de vida, em um verdadeiro canteiro de colégios, maravilhosa
sementeira de onde Barbalha, como por encanto, tirou numerosos educan-
dários, uns de vida efêmera, outros de duradoura existência.
Daqui do Gabinete de Leitura saiu o nosso Colégio Santo Antônio,
verdadeira forja de lideranças regionais, hoje com vôos de pleno sucesso
nos céus do Cariri e regiões limítrofes, sob a segura orientação dos Padres
Salvatorianos.
Daqui saltou para a amplidão dos largos horizontes do triunfo o ’
Colégio Nossa Senhora de Fátima, verdadeiro “Facho de Luzes” .
Aqui nasceu e floresce o Grupo Escolar Municipal Joaquim Duarte
Grangeiro, com reais e inumeráveis serviços aos barbalhenses, sobretudo
aos mais carentes.
Aqui nasceu, vive e exporta vitalidade o Centro Educacional Lyrio
Callou com quase mil alunos dos dois sexos, com curso noturno para
os que trabalham.
E no passado, eu me permitiría citar pelo menos dois notáveis educan-
dários que fizeram época no Cariri:
O Ateneu Barbalhense, do educador Prof. Onulfo Lins e o Colégio
São José, do educador Prof. Paulo Serra, deixando de citar numerosos
outros educandários de vida efêmera a despeito de brilhante, valendo desta­
car a atuação aqui, nos amplos desvãos desta augusta casa, do célebre
Prof. José Joaquim Teles Marrocos, o homem que discursava em francês

51
fluente e que escreveu um diário em três línguas: português, francês e
latim, hoje em poder da Ordem Salesiana, em Juazeiro do Norte.
Era ele jornalista vibrante, abolicionista convicto, político, panfletista,
e acima de tudo, libertário.
Por dever de justiça, citaria ainda também o célebre educador, Prof.
Dr. Soriano de Albuquerque, um vocacionado para o magistério, plantador
de colégios, que, aqui como no Crato, plasmou o caráter da juventude
de então na forja da rígida disciplina com um aprendizado em bases já
de uma admirável e inusitada pedagogia.
Aqui, Zuca Sampaio vinha diariamente, à noite, com um lampeão
na mão porque ainda não havia energia elétrica e alfabetizava, sobretudo
adultos, dando-lhes, paralelamente, uma consciência religiosa de par com
uma consciência cívica, vale dizer, plasmava a cidadania numa antecipação
de quase um século do revolucionário e polêmico Método Paulo Freire
que alfabetiza dando, concomitantemente, uma consciência política.

Meus Senhores e minhas Senhoras,


Durante este longo e profícuo século de existência, pelo que consegui
pesquisar, o Gabinete de Leitura de Barbalha teve, até hoje, cerca de
oito presidentes:
1) Major Prof. Guilherme Brígido dos Santos, de 1889 a 1890.
2) José de Sá Barreto Sampaio, “Zuca Sampaio”, de 1890 a 1918,
de 1924 a 1925, de 1926 até bem próximo da sua morte, em 1940. 38
anos de presidência.
3) Manoel Rodrigues Peixoto de Alencar, “Né Peixoto”, de 1918
a 1921.
4) José Duarte de Sá Barreto, de 1921 a 1922.
5) Dr. Manoel Florêncio de Alencar, de 1923 a 1924.
6) Dr. Antônio Filgueiras Sampaio, de 1925 a 1926.
7) Dr. Antônio Lyrio Callou, de 1935 a 1987. 4 anos de presidência,
recorde absoluto, hoje, seu presidente de honra.
8) Dr. Fabriano Livônio Sampaio, o atual presidente, o presidente
do Centenário, neto da geração dos fundadores, neto de “Zuca Sampaio”,
desde 9 de maio de 1987.

Meus prezados amigos,


Ao longo destes cem anos de vida efetiva e atuante, o Gabinete
de Leitura de Barbalha foi, como que, uma escola de educadores, por
aqui tendo passado nomes aureolados e respeitados, como os nomes dos
professores Juarez Bastos, José Duarte, Dr. Antônio Reinaldo Alves de
Sousa, Dr. Joel Teixeira de Medeiros Bastos, Nestor Fernandes Távora,
Edmundo Milfont, Padre Emídio Lemos, Dr. José Garrido da Nóbrega,
entre muitos outros.

52
Mas o Gabinete de Leitura foi também o cenário grandioso onde
Barbalha viu passar todas as conquistas do progresso mental, material
e tecnológico deste século de grandes cometimentos.
Por exemplo, com o advento da radiofonia, o primeiro rádio que
chegou em Barbalha, veio para o Gabinete de Leitura, e aqui foi instalado
em meio às expectativas de toda a comunidade que para cá acorreu sequiosa
de conhecer aquilo que seria a maravilha da comunicação de massa até
hoje.
Não foi, portanto, sem razão de ser que o Governo do Estado o
considerou de utilidade pública cm 19 de outubro de 1921, pelo Decreto
ní 1895.
Mas, o Gabinete de Leitura prosseguiu na sua caminhada de beneme-
rências e 28 anos depois, gestacionou, nas suas reuniões e entre os seus
sócios, a idéia de fundação da Liga Barbalhense Contra o Anafalbetismo
acontecida em 1917, portanto, meio século antes do MOBRALe da Funda­
ção Educar, tendo como fundamentos basilares a coragem cívica do advo­
gado José Bernardino de Carvalho Leite, o trabalho incansável de Manoel
Rodrigues Peixoto de Alencar, “Né Peixoto”, e a sempre bendita teimosia
de José de Sá Barreto Sampaio, “Zuca Sampaio” , o mesmo “Zuca Sampaio”
que em 1? de abril de 1883, portanto, há 106 anos, foi co-fundador aqui
da Conferência de São Vicente de Paulo, a 6‘. de todo o Ceará e a 2i
do Cariri em ordem cronológica, só sendo precedida pela Conferência
Vicentina do Crato, cujo nascimento foi saudado magnificamente pelo
barbalhense, Padre Miguel Coelho de Sá Barreto, em um dos mais empol­
gantes sermões da sua vida de renomado orador sacro.
E, pode-se dizer que o sucesso de todas estas beneméritas instituições
comunitárias estimulou a que, em 1944, Barbalha fundasse o seu Centro
de Melhoramentos, novamente orientado e presidido pelo espírito de Zuca
Sampaio representado por seus filhos Leão, José, Paulo, Antônio e Pio,
todos na linha de frente deste notável empreendimento comunitário que
dividiu a História de Barbalha em duas etapas: antes e depois do seu
Centro de Melhoramentos.

Meus amigos,
Dois anos antes de Barbalha fundar o seu Gabinete de Leitura, em
7 de agosto de 1887, Jardim fundou o seu notável “Clube ou Grêmio
Literário e Recreativo Jardinense” , inclusive com biblioteca aberta ao
público. Pois bem, por falta de um timoneiro tipo “Zuca Sampaio” , o
“ Grêmio Literário e Recreativo Jardinense” só chegou a ultrapassar pouco
mais de dez anos de vida, morrendo quando morreu o seu inteligente
mentor, o Pároco, Padre Miguel Coelho de Sá Barreto.
Assim, não exageram os historiadores quando dizem que a férrea
vontade de “Zuca Sampaio” consolidou e impulsionou o Gabinete de
Leitura de Barbalha até nossos dias, sobretudo com aquela sua assiduidade

53
que nem os catedráticos universitários de hoje regiamente remunerados
podem oferecer.
Efetivamente, para se manter e consolidar uma instituição como esta,
é preciso idealismo, civismo, amor, trabalho, disponibilidade e determi­
nação. E isto, só os predestinados podem oferecer gratuitamente, pelo
simples desejo de promover o BEM.
Se “Zuca Sampaio” foi o presidente do cinqüentenário, da consoli­
dação, Dr. Antônio Lyrio Callou foi o presidente da expansão.
E, coisa curiosa, quase todos os presidentes do Gabinete de Leitura
foram indicados por seus antecessores, numa sucessão até certo ponto
monárquica que tem dado muito certo.
Será que este sucesso é o responsável pelo fato de Barbalha ter hoje
tão convictos monarquistas?

Meus senhores,
Não resta dúvidas que o voto direto, secreto e universal foi uma
das maiores conquistas da humanidade, mas, mesmo assim, ainda precisa
ser escoimado das mazelas que tanto o distorcem.
Para bem exercitá-lo o povo precisa de mais cultura e mais consciência
do seu valor e mais independência econômica, a fim de saber libertar-se
das maléficas influências que, infelizmente, ainda manietam a livre manifes­
tação da sua vontade que deveria ser realmente soberana e livre e não
o tem podido ser.
Por isto, o voto direto, secreto e universal nem sempre escolhe o
mais capaz e o mais competente, mas o de lábia mais envolvente e o
mais bem apessoado. E Barbalha provou o travo desta escolha injusta
recentemente. Talvez por isto, o todo-poderoso Primeiro Ministro de
Cuba, Fidel Castro, haja afirmado alhures que o voto direto é muito
bom para escolher misses.

Meus amigos,
Vivemos um difícil ano eleitoral de suma importância para o Brasil.
Do acerto ou não da nossa escolha para Presidente da República vai depen­
der talvez o nosso futuro.
Vamos pedir inspiração ao passado desta augusta casa, oficina da
mais lídima cidadania, para que saibamos cada vez mais escolher os nossos
dirigentes, com descortino e acerto, sabedoria e isenção.
O voto direto, secreto e universal, se bem exercitado, tem a força
da desintegração atômica.
Vamos, pois, exercitá-lo bem para que possamos ter transformações
. radicais pacificamente e sem revoluções, certos de que é verdadeiro aquele
desabafo do grande cearense, Marechal Juarez Távora, quando afirmou,
melancolicamente, depois de ter feito tantas revoluções: “Hoje, prefiro
um mal governo a uma boa revolução” .

54
E as amargas lições da História têm mostrado que as revoluções
sangrentas são sempre muito onerosas para a humanidade. Por pouco
que matem, matam sempre muito e já dizia o grande Victor Hugo: “Se
matar um é crime, matar muitos não pode nem deve ser glória”.
Tudo isto vem muito a propósito da hora crucial que vive a Nação
Brasileira, querendo enveredar, perigosamente, pela senda sinuosa do ter­
rorismo anti-cristão e anti-humano.
O Gabinete de Leitura de Barbalha que ora nos abriga tem sido
uma oficina de cidadania e de humanismo.
Que sua vida seja, para todos nós, um belo e eloquente exemplo
para que, nesta hora extrema que Cid Sampaio chamou de “O último
aceiro”, possamos dizer-lhe alto e bom som: SALVE SOL.
Sim, SALVE SOL iluminante, sol vivificador, sol aconchegante e
criativo. Repito: SALVE SOL e SOL CENTENÁRIO!!!
GABINETE DE LEITURA DE BARBALHA, oficina da mais pura
cidadania!!!

Oração proferida na sessão solene de co­


memoração do Centenário do Gabinete
de Leitura de Barbalha, como seu orador
oficial, em 14.05.89, por escolha unânime
da sua atual Diretoria.

55
Virgílio Arraes:
Carta do Pe. Francisco Arraes

Caro Lindemberg,
Um grande abraço.
Queremos agradecer-lhe de coração a sua atenciosa correspondência
de 25.03.87 e dizer-lhe o quanto ficamos sensibilizados pela sua amizade
e pelo interesse que demonstra pela nossa família e agora em particular
o apreço que revela, traduzido em atos, pela memória do nosso inesquecível
progenitor.
Não sendo esta a ocasião própria para nos referirmos às virtudes
privadas de Virgílio Arraes, que foram dignas de nota (pois foi ele filho,
esposo e pai extremoso e boníssimo, assim reconhecido pela unanimidade
da família) aqui desejamos focalizar somente o cidadão em relação com
a sua comunidade.
Era V. A. um ser visceralmente político — entendida a política como
a arte do bem público. Considerava a sua cidade como um prolongamento
essencial da sua família; e a todos estendia a sua amizade, e até quando
no exercício de funções públicas — o seu desvelo. Ainda em plena juven­
tude, antes de constituir família, já militava nas hostes do Partido Repu­
blicano Cearense, chefiado, no Estado, pelo Presidente Acyolli, e capita­
neado, no Cariri, pelo Coronel Antônio Luís e pelo Pe. Cícero do Juazeiro.
Nosso pai era, no Crato, um dos líderes desse partido, então vulgarmente
conhecido pelo nome de “marreta”. Ele era também integrante assíduo
e indispensável da famosa “roda” da farmácia de Zuza Figueiredo, onde
se reunia, todas as noites, a nata social e política local. E quando do
entrechoque, nada incruento, entre as milícias do Crato e do Pe. Cícero,
que então procurava depor o Cel. Franco Rabelo, o partido de V. A.
colocou-se ao lado das forças vitoriosas do líder juazeirense.
Na vitória a sua ação foi moderadora e sua intervenção evitou que
muitos dos vencidos fossem humilhados e maltratados ou tivessem os
seus bens requisitados pelas tropas vencedoras. O reconhecimento dos
cratenses ao seu espírito público o elevou, por duas vezes, à dignidade
de edil da municipalidade. E sua atitude, não distinguindo correligionários
ou adversários, na hora em que o ódio explodia na refrega, granjeou-lhe
entre os concidadãos a fama de homem bondoso e de coração magnânimo.
Depois do seu casamento com uma prima também da família Arraes
e descendente, pelo lado materno, da tradicional estirpe dos Alencar,
continuou na atividade política e comercial, tornando-se, ao lado do cunha­

56
do Godofredo Arraes, um dos principais comerciantes da cidade, e um
dinâmico e profícuo participante de sua vida social. Foi o organizador
incansável, fundador e o Diretor da Associação dos Empregados do Co­
mércio, a que dedicou o melhor dos seus esforços. Somente esta obra
seria suficiente para lhe proporcionar duradoura fama, e aos que com
ele erigiram essa obra extraordinária e pioneira, de cunho eminentemente
social e cultural.
Aqui cabe um ligeiro parêntese: sendo próspero comerciante de teci­
dos, a recessão mundial consequente à guerra de 1914 o atingiu em cheio.
Podendo, como tantos outros, requerer concordata e assim se esquivar
à crise, preferiu pagar aos seus fornecedores até o último “ceitil” como
dizia, sem prevalecer-se das facilidades da lei. Reduzidos os estoques,
decidiu transferir-se para um meio mais modesto, onde naturalmente vol­
tou a eclodir a sua natural liderança. E em 1927, mudou-se, tempora­
riamente para a cidade de Campos Sales, situada nas fraldas da chapada
do Araripe, impelido também pelas delicadas condições de saúde de sua
estremecida esposa. Aí encontrou-se em plena atividade política com a
revolução de 1930, tornando-se, reconhecidamente, o principal chefe da
Aliança Liberal no município, seguindo o líder da Aliança no Ceará,
o seu primo Raimundo de Monte Arraes.
Vitoriosa a Revolução de Vargas, V. A. foi alçado à condição de
Prefeito Municipal de Campos Sales. Nesta função, pôs completamente
de lado a demagogia, tornando-se proverbial a sua honestidade. Deixou
obras que consolidaram a infra-estrutura do município, então carente
de qualquer planejamento ou visão de conjunto. Construiu a primeira
barragem de maior porte da região, solucionando o problema da água;
calçou várias ruas da cidade, ergueu a ponte do Guarany e abriu estradas
vicinais — tudo com as parcas verbas da Prefeitura, complementadas muitas
vezes com recursos do próprio bolso. Inaugurou também um sistema
até então inédito no país: a prestação de contas públicas diretamente à
população, afixando em grandes cartazes, nos logradouros públicos, todos
os detalhes da receita e das despesas do município.
Infelizmente para Campos Sales, pela sua brevidade, a sua gestão
durou apenas pouco mais de um ano. As intrigas da capital do Estado
e os interesses das facções subalternas culminaram num expediente para
o afastamento de V. A. do posto onde tanto servia aos interesses da
população. Mirabile dictul — a sede da Prefeitura do município foi transfe­
rida para o então distrito de Assaré, localidade dez ou mais vezes menor
do que a cidade de Campos Sales!...
Mas a dedicação dos campo-salenses a V. A. continuou pelos anos
afora, e jamais o seu partido foi derrotado em qualquer eleição ali realizada,
tendo sido reconduzido Vereador por diversas vezes. E quando da redemo-
cratização de 1946, foram unânimes os apelos dos melhores da comunidade
para que ele aceitasse a sua nomeação para Prefeito, com eleição de antemão
assegurada.

57
Não aceitando o honroso convite e de volta ao Crato já em caráter
definitivo, montou e por muitos anos esteve à frente da Sorveteria Brasil,
situada num dos principais sobrados da cidade, e que se tornou ponto
obrigatório de freqüência de toda a sociedade cratense. Pelos moldes de
aparelhamento inéditos no interior do Estado, e pelo alto padrão de higiene
e pureza natural dos seus produtos, era o estabelecimento comparado
favoravelmente por todos os que o freqüentavam aos melhores congêneres
de Fortaleza e Recife.
Posteriormente, já nos umbrais da idade provecta, ainda exerceu,
por espírito público, as funções de delegado, e sua ação neste cargo foi
mais de prevenção ao crime que repressão. Procurava harmonizar os desa­
vindos e aplacar os ódios, exercendo sobre a juventude paternal vigilância.
Na comunidade, embora já fora do âmbito político propriamente dito,
sua ação foi das mais benfazejas e benemerentes. Foi vereador, também
em Crato, e por duas vezes.
Na Associação Vicentina, por que tinha especial predileção e de que
durante toda a vida adulta foi sócio assíduo e atuante, jamais deixou
de acompanhar um enterro — prática de que fazia absolutamente questão
— muitas vezes cobrindo do próprio bolso as despesas dos funerais de
indigentes e desconhecidos.
Foi portanto Virgílio Arraes uma alma de escol, cuja memória ainda
permanece viva junto a todos os que o conheceram.
Dados biográficos:
Nasceu a 25 de outubro de 1890, em S. Domingos, hoje Quixariú,
Campos Sales. Casou aos 2 de fevereiro de 1918 com Marcionília de
Alencar Arraes, sua prima. Marcionília foi professora nas Escolas Reuni­
das, depois Grupo Escolar de Campos Sales, lecionando também posterior­
mente no Externato Santa Inês do Crato, fundado e dirigido pela saudosa
Lourdinha Esmeraldo. Colaborou na imprensa cearense, foi secretária
da Ação Católica no Crato. Ultimamente publicou, no Rio de Janeiro,
o livro “Flores Campesinas”.
Teve os seguintes filhos:
Dr. José Jayme Arraes — advogado, com um dos mais antigos
e profícuos escritórios do Rio. Foi Chefe de Gabinete do Presidente do
S.A.P.S. Fundou e dirigiu a “Voz do Norte”.
Abigail — Diplomou-se aos 15 anos com o primeiro lugar da sua
turma, sendo a oradora oficial da cerimônia de colação de grau. Alta
funcionária do I.B.C. no Rio de Janeiro, então Capital, onde faleceu
prematuramente. A família publicou, em sua memória, o livro “Abigail” ,
muito apreciado pela crítica.

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Armando — Aposentado como Inspetor do I.A.A. e hoje, com
sua esposa, dirige a sua renomada casa de antiguidades, uma das mais
antigas de Belo Horizonte.
Lívio — Aposentado como funcionário graduado do Serviço Médico
do Banco do Brasil.
Afrânio — Advogado pela Faculdade Nacional de Direito, faleceu
prematuramente como Inspetor do Banco Central em Brasília.
Marcílio — Aposentado do Banco do Brasil, exercendo altas comis­
sões.
Francisco — Sacerdote jesuíta, tendo exercido altas funções da sua
Ordem em Roma e foi por vários anos Professor de Direito Constitucional
Americano nos Estados Unidos. Formado em Ciências Políticas pelas
Universidades de Georgetown e Columbia, nos Estados Unidos.
Lisieux — Professora e atualmente funcionária graduada do IAPAS
no Rio de J aneiro.
Heliomar — Aposentado do Banco do Brasil, onde exerceu altas
funções, tanto no Estado do Ceará como na Direção Geral em Brasília.
Virgílio — Formado em Violino pelo Conservatório Nacional, com
cursos de especialização nos Estados Unidos, com excursões profissionais
pela América e Europa. Primeiro lugar no concurso para a Sinfônica
do Teatro Municipal, onde atingiu o posto máximo da carreira, o de
Spalla da mesma Orquestra. Atualmente é Técnico em Assuntos Culturais
da Universidade Federal Fluminense, a nível superior.
São estes, pois, caro Lindenberg, os subsídios que hoje remetemos
em satisfação ao seu pedido, e que são referentes à vida do nosso inesque­
cível pai e esposo boníssimo. Omitimos a menção de inúmeras outras
facetas da sua personalidade, as quais, mesmo dignas de nota, alongariam
muito isto que pretendemos seja tão-somente um esboço de traços biográ­
ficos.
Mais uma vez lhe agradecemos todos os seus esforços e a sua dedicação
em preservar viva a digna memória de Virgílio Arraes.
Sem mais, com um grande abraço,
Marcinha, Pe. Francisco e Virgílio Filho.

Necrológio nos Estados Unidos


Quando Virgílio Arraes morreu, um jornal de Jersey City noticiou
o fato, nesse singelo necrológio, em homenagem ao seu filho, o Pe. Fran­
cisco Arraes, à época, professor de Direito Constitucional Americano,
no St. Peter’s College, daquela cidade americana:

59
Virgílio Arraes, Father of Priest
Virgílio Arraes, father o f Rev. Francis Arraes, S. J a rtative ol
Brazil, who teaches Constitucional Law and Urban Studies at St. Peter’s
College, dicd on Sunday in Rio de Janeiro, Brazil.
Mr. Arraes svas mayor o f the City o f Campos Sales following the
Revolution o f 1930 and was an important political figure in the country
for many years.
A concelebrated Mass, officiated by Father Arraes, will behcld tomor-
row in St. Aloysius Churcb, Jersey City, at 10:30 a.m.

Virgílio Arraes faleceu no Rio de Janeiro a 7 de novembro de 1970. Foi


vereador em Crato duas vezes, orador da Associação Caririense Esperantisra e
membro de diversas outras instituições comunitárias em Crato.

60
Faleceu o escritor
Gustavo Augusto Lima

Os meios culturais e didáticos do Ceará sofreram uma grande perda,


com o falecimento do Dr. Gustavo Augusto Lima, ocorrido em Fortaleza.
Homem de sólida cultura e cearense dos mais ilustres, sua morte constitui
perda irreparável na galeria dos grandes filhos do Estado. Reproduzimos
ligeira biografia sua, saída na “orelha” do seu último livro.

Nasceu no dia 5 de janeiro de 1917, na cidade de Lavras da Mangabeira,


Ceará, filho dc João Augusto Lima e de Marieta Leite Lima.
Fez o Curso Primário no Grupo Escolar da cidade natal. O ginasial
foi feito no Ginásio do Crato, de 1929 a 1933. Transferido para Fortaleza,
concluiu o 5:‘ ano no Colégio Castelo Branco no ano de 1934. Em 1936
fez vestibular na Escola de Agronomia do Ceará, onde em 1939 diplo-
mou-se em Engenheiro Agrônomo.
Exerceu as seguintes funções: Secretário c Prefeito, por duas vezes,
do Município dc Lavras; Deputado Estadual; Servidor do Tribunal de
Contas do Ceará; Subassistente da Secretaria de Agricultura, em Fortaleza;
estagiou por cerca dc seis meses no Instituto Baiano do Fumo, junto
à Estação Experimental de Fumo, no Município de Afonso Pena — Bahia;
Encarregado do Serviço de Fomento do Fumo em sua terra; Engenheiro
Agrônomo e Professor de Agricultura Geral e Especial do Colégio Agrícola
de Lavras da Mangabeira, do qual foi Diretor e fundador do Estabele­
cimento e do Posto Agropecuário. Publicou Cultura do Arroz, em 1973,
Cultura do Milho, em 1975, Cultura do Feijão-de- Corda, em 1979, Cul­
tura do Arroz — 2; Edição — em 1982. E sócio correspondente do Instituto
Cultural do Vale Caririensc. E membro da Associação dos Engenheiros
Agrônomos do Ceará e do Conselho de Engenharia, Arquitetura e Agro­
nomia da 9; Região.

Obras do Autor:
Cultura do Arroz — 1: Edição — 1973
Cultura do Milho — 1: Edição — 1975
Cultura do Feijão-de-Corda — 1: Edição — 1980
Cultura do Arroz — 2: Edição — 1982
Cultura da Cana-de-Açúcar — 1; Edição — 1984
Faleceu em 28.12.88, em Fortaleza.

G ustavo A u g u sto Lim a.

61
Teresina
Ano Vinte e Cinco
Francisco de Vasconcellos

Eu havia me formado em Direito a 19 de dezembro de 1961. Um


mês depois, numa sexta-feira, 19 de janeiro de 1962, eu iniciava minha
primeira viagem ao Nordeste.
Meu vizinho em Petrópolis, Gabriel Luiz Gorges, descendente de
colonos germânicos originários de Geisfeld, Bispado de Trier, região do
Mosel, trabalhava para Pio Fanti, um empresário de ônibus de origem
italiana, que possuía um caminhão Mercedes Benz ano 1959. Ao volante
deste carro mourejava Gabriel levando móveis de São Paulo para vários
pontos do Nordeste e trazendo de lá para cá as mercadorias eventualmente
disponíveis.
Há muito ele insistia comigo para que fizéssemos uma viagem juntos.
O momento escolhido não poderia ser melhor. Livre da Faculdade, cum­
prida etapa importante de minha existência, habilitado para a vida profis­
sional, seria válido tomar um banho de brasilidade, antes de encarar o
dia-a-dia do Fórum.
O meio de transporte era ideal, pois eu teria oportunidade não só
de viver o quotidiano do caminhoneiro, mas também de ver desdobrar-se
diante dos meus olhos, lenta e paulatinamente o espetáculo que oferece
a saga nordestina, seja no sertão, seja no litoral.
Nesse tempo a única ligação terrestre entre o Centro-Sul e o Nordeste
era a legendária Rio-Bahia, BR-04, aberta durante a guerra por motivos
estratégicos. Não passava de uma trilha que acompanhava os acidentes
geográficos, sem obras de arte de vulto.
Mas em 1962, a nova Rio-Bahia, planejada sobre a rota da matriz
e adaptada a todas as exigências das rodovias modernas, estava em plena
construção. Já se contavam longos trechos asfaltados, mas os desvios
ainda eram inúmeros e o aproveitamento dos vestígios da velha pista,
uma necessidade inelutável. Enfim já se vislumbrava a futura BR-116,
que seria inaugurada e entregue ao tráfego em 1963, ainda no governo
João Goulart.
Tive oportunidade, por conseguinte, de conviver com a construção
da Rio-Bahia e de ver sumir pouco a pouco o leito do primitivo caminho
pelo qual transitaram tantos heróis anônimos, tropeiros motorizados, es­
crevendo a verdadeira história da conquista deste país.
Vale lembrar que a rodovia que então despontava tinha seu marco
zero em Areai, no município fluminense de Três Rios, onde se entroncava
na histórica União e Indústria e terminava em Feira de Santana, Bahia,

62
prolongando-se para o Nordeste em várias direções, através das antigas
trilhas de terra batida.
Uma semana levamos para cumprir o trecho Petrópolis-Recife. Eram
cerca de 16 horas de viagem diária, com pernoites em pontos já conhecidos
do motorista. Alimentação abundante e barata em lugares estratégicos,
desses que os caminhoneiros recomendam.
Ao longo dos 2.400 km de estrada, as inúmeras cidades de hoje,
dotadas de infra-estrutura, iluminação abundante, telecomunicação, esta­
ção rodoviária, hotéis decentes, ruas pavimentadas, não passavam de ar­
raiais que dormitavam à margem do progresso. Lembro-me da desolução
de Jampruca, município de Capanário, MG., hoje a 12 km da BR-116;
dos logradouros estreitos e mal-calçados de Vitória da Conquista, BA;
da pobreza de Serrinha, Araci e Jeremoabo, ao norte de Feira de Santana;
dos hotéis do Deserto e do Peba, únicos vestígios da presença humana
nos 98 km da famosa reta do Mirim, no sertão de Pernambuco; das
modestas cidades de Arcoverde, Pesqueira, Tacaimbó, Sanharó, Belo Jar­
dim, Gravatá, Vitória de Santo Antão, velhos burgos pernambucanos
carentes de tudo. Enfim o Recife, capital do Nordeste, ainda com todas
as características de uma cidade colonial.
O primeiro contato foi com a Praça Maciel Pinheiro e ruas circunja-
centes, onde seriam descarregados os móveis. Impressionou-me a arbori-
zação abundante naquele canto.da Boa Vista. Depois, Santo Antônio,
Recife Velho e São José, onde o Mercado transbordava pelos logradouros
próximos e pelo Cais de Santa Rita, com aquela impressionante variedade
de peixes e de frutas. Os pátios, igrejas e casario seculares, traziam a
tona um Brasil pachorrento e ainda carregado de características medievais.
O Pina era o máximo, com lagostas e camarões a preço de banana e
Boa Viagem, o balneário sem pressa e sem compromisso, com ruas sem
pavimentação, casas aprazíveis com quintais enormes juncados de fruteiras
e a brisa constante a embalar as tardes nos poucos bares existentes, onde
a cervejinha gelada e a agulha frita alimentavam os papos preguiçosos.
Nas ruas do centro circulavam ônibus de duas classes e ainda trafegavam
os últimos bondes. Podia-se atravessar a Guararapes lendo jornal, sem
risco de atropelamento, contava-me enfático um recifense ufanista.
Na altura, o Jornal do Comércio do Recife e o Diário de Pernambuco,
veiculavam notícias desse jaez:
Brasil condenará regime comunista de Fidel Castro;
Museu da Abolição funcionará no Sobrado Grande da Madalena;
Prazo a Cuba para rever a sua posição;
Usa-se a Aliança para o Progresso com intimidação;
Coexistência com Cuba mas condenação a Fidel Castro por adotar o comunismo;
Ditadura militar prega já Lacerda;
Dean Rusk sugeriu um contra-ataque de 4 pontos contra o comunismo cubano;
Ação enérgica contra Fidel perde terreno;
Foguete norte-americano vai em direção à lua;
Os EUA insistem em pôr o regime de Fidel Castro em quarentena.

63
Como se vê os assuntos não eram muito diferentes dos de hoje e
até certos nomes e situações são os mesmos. Mas o Nordeste que então
eu via e sentia pela primeira vez, com a sensibilidade e o espírito crítico
do pesquisador que despontava, era, pelo menos a nível material, bem
diferente do Nordeste dos dias que correm.
A viagem de volta incluiu uma escala em Salvador, a Velhacap como
então era cognominada em oposição a Brasília que acabara de nascer.
O Largo dos Mares foi o ponto de descarga. E foi também onde me
alojei, num hoteleco de quinta categoria. Nesse tempo a Praça Cayru,
coração do chamado Comércio, era juncada de oitis. Ali funcionava o
terminal de ônibus da Cidade Baixa. As frutas da estação rolavam pelas
calçadas e o Mercado Modelo fazia a festa de autóctones e forasteiros,
num clima de muita tipicidade e descontração. Ainda não havia soado
a hora do turismo massificado que desgraçaria a arte popular da Boa
Terra.
A Rua Chile seguia sendo o ponto nobre da Cidade Alta, ligando
as praças Castro Alves e Tomé de Souza, partindo-se daí para a Sé, o
Terreiro de Jesus, a Igreja de São Francisco, o Convento do Carmo,
onde os holandeses assinaram a rendição em 1625, a Igreja de Santo Antô­
nio, onde o Conde Bagnuolo rechaçou os holandeses em 1638, o Pelou­
rinho à época inteiramente entregue ao léu da sorte.
A chamada orla marítima, mal começava, sendo Itapoã longínquo
areai crivado de coqueiros. Agua de Meninos que depois ardeu, segundo
dizem criminosamente, vivia a informalidade de uma feira permanente,
no autêntico estilo árabe, sob as vistas da velha Igreja de São Joaquim,
rodeada de casas doadas por D. João VI, para recolhimento de órfãos
desvalidos.
A chegada a Petrópolis ocorreu a 6 de fevereiro de 1962. Era uma
terça-feira. O rádio de bordo anunciava a morte de Portinari, pouco
antes de chegarmos ao ponto de partida.

★ ★ ★

Esse primeiro contato com o Nordeste foi de tal forma gratificante,


marcou tanto os meus ainda não-concluídos vinte e quatro anos, que
não resisti a um novo convite do meu amigo Gabriel, formulado durante
a festa de São Judas Tadeu patrocinada por Maria Tereza Monteiro de
Queiroz Vieira, em Correas, 2? Distrito de Petrópolis.
E assim a 8 de novembro de 1962, quinta-feira, estava eu novamente
na boléia da “Mercedinha” , desta vez destinado a Fortaleza, Ceará.
Até Feira de Santana, a grande novidade correu por conta dos avanços
da Rio-Bahia em vésperas de inauguração. Mesmo assim, ficamos retidos
num enorme engarrafamento, pouco além de Muriaé, por causa das chuvas
torrenciais que caíam em território mineiro, pondo em risco cortes e
aterros recém-terminados.

64
De Feira para cima seguia intocada a trilha cruzada por raros automó­
veis c poucos ônibus, freqüentadíssima, entretanto, pelos caminhões e
incipientes carretas mal-adaptadas às surpresas que o caminho oferecia.
Os vestígios de Canudos marcaram um momento de emoção antes
do Tarrachil, ponto em que cruzaríamos em balsa o Rio São Francisco.
Salgueiro, em pleno sertão pernambucano era paupérrimo burgo cer­
cado de caatinga braba.
Sem que houvesse qualquer vislumbre de asfalto, de rede elétrica,
de fios para telecomunicação, de satélites para transmissão de imagem,
de redes para canalização d’água, lia-se de repente numa placa à beira
da estrada: CEARÁ. Logo depois aparecia o Jati, trazendo de volta as
páginas românticas de José de Alencar.
Brejo Santo já em pleno Cariri, fazia a festa da fartura num restaurante
de beira de estrada. Era autêntico banquete oriental.
Mais além, o Ipaumirim. Aí quebrou-se a carcaça do diferencial da
“Mercedinha” . O recurso mais próximo estava em Cajazeiras, alto sertão
paraibano. Para ali levamos a peça que deveria ser soldada. Num dos
raros hotéis da despretensiosa urbe, deram-me uma rede para dormir,
um pinico para qualquer necessidade noturna, uma bacia e um jarro com
água para a higiene matinal c um fifó para clarear o quarto. Tudo muito
rudimentar, mas autêntico e limpo.
Sanado o problema, seguimos viagem enfrentando poeira e costeleta,
até Messejana, onde um arremedo de asfalto, desses marcados pelo interesse
eleitoreiro nos levou à Praça do Ferreira, coração da capital cearense.
Fortaleza nesse tempo não ia além de Mucuripe. A Aldeota começava
a fazer sucesso e a Praia do Futuro não era mais que um deserto. As
ruas tinham péssimo calçamento e a iluminação era sofrível. Fora do
comércio e da função pública não havia espaço para vôos promissores.
A cidade vivia basicamente entre as praças do Ferreira e José de Alencar
com prolongamento até o Passeio Público, então lugar aprazibilíssimo.
O Mercado estourava de belo artesanato regional, de frutas, de doces
e de gêneros variados. F>a ponto obrigatório para o visitante que dali
saía carregado de lembranças e gulodices.
As manchetes da época, estampadas pela Gazeta de Notícias, davam
conta de uma verba de 90 milhões para a hidroelétrica de Araras, de
um faturamento de 6 bilhões de cruzeiros que o Ceará tivera com a produ­
ção de cera e de algodão, da construção de uma fábrica de asfalto, da
ameaça de Cuba de abater qualquer avião que cruzasse seu espaço aéreo.
Como se vê o assunto de Cuba seguia na ordem do dia, agora revigo­
rado pelo insucesso do bloqueio que a inabilidade norte-americana lhe
queria impor.
A longa viagem de volta teve uma digressão no Icó, de onde alcança­
mos Iguatu, Jucás e Cariús, onde um carregamento de algodão esperava
transporte para a fábrica de Andorinhas no município fluminense de Magé.

65
Ali ainda encontrei corroído pelo tempo enorme quantidade de mate­
rial que seria utilizado na construção de um açude durante o Governo
do Presidente Epitácio Pessoa. Tanto gasto inútil numa terra ávida por
investimentos sadios.
No dia 1“ de dezembro de 1962, sábado, cruzava gloriosamente a
faixa final, retornando à casa, no Caetetu, em Petrópolis.

★★★

Para quem nascera e se criara no Rio de Janeiro, a cidade encantada


dos brasileiros, a eterna corte engalanada sobre a qual convergiam todas
as atenções oficiais, num clima de autêntica mania, conforme a visão
crítica de Sílvio Romero, a urbe que imaginava não haver salvação fora
dos seus muros, segundo sagaz observação do Mestre Câmara Cascudo;
para quem veraneava em Petrópolis, cidade mito que nascera em berço
de ouro, bafejada pelos mais alcandorados sonhos da aristocracia brasileira,
completamente distante da verdadeira realidade nacional, o Nordeste era
um mundo surpreendente, uma experiência gratificante, para quem o co­
nhecia em carne e osso, com o espírito liberto de preconceitos e os olhos
da compreensão e da pesquisa honesta.
De repente eu me vira ali em pleno regime feudal, alimentado pela
incúria das oligarquias dominantes e pela parlapatice dos políticos e com­
preendera o drama de um povo fadado à pobreza e ao êxodo, injustas
punições para tamanho capital humano.
Ah, se aqueles povos tivessem conhecido a Universidade desde o
século XVI, como lograram os dominicanos, mexicanos, colombianos,
peruanos!!!
Maldita a hora em que a Confederação do Equador não obteve êxito.
Talvez ainda tivesse havido tempo de reparar tanta injustiça e de sacudir
uma raça intrépida e mentalmente brilhante, resgatando-a da subcondição
humana em que alcançou o século XX.
O Nordeste que eu conhecera em 1962, não diferia muito daquele
de trezentos anos atrás. E, em 1964, quando tornei àquelas plagas com
o interesse definido de aí fazer investigações folclóricas, o quadro perma­
necia inalterado.
O poder civil nestas terras de Santa Cruz agonizava sob os desmandos
do janguismo. O país caminhava para o caos, para o radicalismo barato,
bárbaro e improdutivo. O Nordeste anacrônico e medieval, presa fácil
nas mãos de extremistas irresponsáveis ardia nas chamas dos movimentos
sindicais, das greves políticas e das fujicações das ligas camponesas.
Reinava a desordem, a insatisfação e a insegurança.
Foi nesse clima que viajei para Crato, no Ceará, num ônibus da
Viação Varzealegrense, nos primeiros dias de janeiro de 1964.
Na altura ainda não existia a Rodoviária Novo Rio. A exigüidade
do superado terminal da Praça Mauá não permitia que todas as linhas

66
com saídas do Rio de Janeiro partissem de sua única plataforma. Assim,
os ônibus que se destinavam ao Nordeste faziam ponto, em geral, em
suas agências espalhadas nas imediações do Campo de São Cristóvão.
A Varzealegrense não fazia exceção à regra.
A viagem do Rio a Crato durava em média quatro dias. Havia pernoite,
porque só um motorista conduzia o coletivo durante todo o percurso.
Asfalto, somente até Feira de Santana. Daí em diante tudo era piçarra
e catabi.
Certo companheiro de viagem recomendou-me que procurasse em
Crato o professor José de Figueiredo Filho, homem polivalente, que sabia
tudo do Cariri.
Foi a melhor recomendação que poderia receber. Avistei-o em sua
casa da rua Lima Verde, nV 2, logo assim cheguei ao meu destino. Selamos
uma amizade que durou até sua morte em agosto de 1973. Foram portanto
nove anos de convívio epistolar, de visitas mútuas, de entrosamento intelec­
tual perfeito. Foi dele a sugestão para que eu criasse “ Encontro com
o Folclore” , e foi através dele que comecei a colaborar em Itaytera, honra
e glória da cultura caririense.
Após as coletas necessárias, sempre guiado por Figueiredo Filho,
dcsloquei-me para Teresina, valendo-me de uma rodovia empiçarrada,
leito da futura BR-316.

★★★

Ninguém ignora que o Brasil levou cerca de 450 anos se movendo


por ilhas. O litoral era tudo c a cabotagem cobria os principais portos,
mantendo o contato entre as comunidades costeiras, de norte a sul deste
verdadeiro continente.
A busca do sertão, do verdadeiro coração brasileiro, não deixou de
ser uma preocupação desde os tempos coloniais. A captura do silvícola,
os criatórios de gado e o ouro nortearam a conquista das montanhas,
matas intricadas, planaltos e campos, levando o meridiano de Tordesilhas
até quase os contrafortes andinos.
As tropas, os vaqueiros, os faiscadores, fizeram a história anônima
e grandiosa dessa escalada. Os caminhos por eles trilhados foram as bússo­
las de um sistema viário que se afirmou ao longo dos séculos, alinhavando,
precariamente embora o território pátrio. Mas a maioria dessas trilhas
mal conseguia ser carroçável até meados da presente centúria. Poucas
se prestavam ao trânsito de veículos modernos. Por outro lado, as ferrovias
que aqui apareceram a partir dos anos cinqüenta do século passado jamais
obedeceram a um plano integrado e metódico, de maneira que em inúmeros
casos fracassaram, tornando-se inúteis ao ponto do desativamento.
Sendo o Brasil fruto do casamento da sesmaria com a tropa, os gover­
nos da República, sensíveis a essa inelutável tendência brasileira, procu­
raram dinamizar o nosso sistema rodoviário, buscando nas linhas trans-

67
versais uma comunicação mais efetiva do litoral com o sertão, numa urdi­
dura eivada de senso geo-político. Isto não quer dizer que tivessem sido
desprezadas as grandes linhas longitudinais, estratégicas, algumas turísticas
outras integrativas, todas.
Surgia assim o plano rodoviário nacional que se completaria na capila­
ridade das redes estaduais e municipais.
E bom registrar, por uma questão de justiça, que antes do advento
do regime republicano, três grandes vultos haviam se empenhado na luta
rodoviária, buscando nas ligações transversais uma melhor integração do
litoral com o “hinterland” pátrio. Refiro-me a Júlio Frederico Koeler
iniciador dos trabalhos da Estrada Normal da Estrela; a Mariano Procópio
Ferreira Lage que, fazendo prosseguir essa estrada beirando o Piabanha
e o Paraibuna, construía a estrada União e Indústria, que colocaria o
Rio de Janeiro em contato com Juiz de Fora, com vistas a conectar-se
com a Mantiqueira e o Planalto Central; a Teófilo Ottoni que, criando
a colônia germânica do Mucuri, na região leste de Minas Gerais, intentou
ligar o litoral baiano ao planalto mineiro, buscando o vale do J equitinhonha
e o Rio São Francisco.
Washington Luiz governou abrindo estradas, mas a única que deixou
perfeita e acabada, segundo os melhores padrões da época, foi a Rio-Pe-
trópolis, que hoje leva o seu nome. No fundo ele estava voltado para
o Planalto Central, que não pôde atingir devido às carências de sua época.
Mas verdade se diga, as grandes rodovias brasileiras começaram a
aparecer depois de 1950, implantando-se aqui a chamada República dos
Empreiteiros, na avaliação feliz e oportuna de Samuel Wainer em seu
recente livro de memórias. É então que o problema é atacado de verdade
e que as ilhas brasileiras vão cedendo lugar a um continente de verdade.
E quando o solo pátrio começa a ser pavimentado, permitindo melhor
fluxo de veículos e a explosão da indústria nacional, pela maior facilidade
da circulação das mercadorias.
Eu vi o Brasil ser asfaltado. Essa escalada teve início justamente quan­
do eu começava a ver as coisas com interesse e espírito crítico. Em 1950,
somente a Rio-Petrópolis, a Via Dutra, recém-inaugurada, podiam ter
o nome de rodovia, com capeamento, faixas de segurança e sinalização.
Ainda me recordo que se viajava na terra, de Juiz de Fora a Belo Horizonte,
de São Paulo a Curitiba e daí a Porto Alegre, de Petrópolis a Salvador
etc. etc.
Foi incontestavelmcnte Juscelino Kubistschek o homem que multidi-
recionou o progresso nacional, tendo entre suas metas, prioritárias a nossa
rede rodoviária adaptada aos padrões internacionais.
Aquele pólo hegemônico, longe do litoral, sonhado desde a Indepen­
dência, materializou-se em Brasília, nascida da audácia do Presidente que,
em complemento a ela, projetou e realizou a ligação de Belém do Pará
com o Rio de Janeiro e o sul do país. Era a integração nacional de corpo

68
inteiro e estupendo avanço do ponto de vista geopolítico, fato que não
escapou à sensibilidade dos analistas dos países vizinhos.
O campo estava pois aberto às futuras escaladas que houveram por
bem consolidar a nova capital e conectá-la com todo o país, através de
um redimensionamento da malha rodoviária nacional. Criou-se uma nova
mentalidade e uma outra visão do Brasil a partir de Brasília. Mas o cumpri­
mento dessas diretrizes e de outras mais somente tomariam vulto a partir
de abril de 1964.

★★★

Se o Nordeste deve enormemente à Revolução de 64, o Piauí tem


para com ela uma dívida irresgatável.
Os arroubos libertários do após-Revolução confirmam aquela lei física
aplicada à vida em geral, de que a toda ação corresponde uma reação
igual e em sentido contrário. Aí estão pois expressões típicas de um período
de transição, tais como entulho do autoritarismo, atitude fascista e
outras tais, que já vão se desgastando na medida em que a perspectiva
temporal permite um repensar do passado próximo e uma reavaliação
do comportamento dos fatos que fizeram a História. Fala-se por exemplo
do custo social do progresso brasileiro nos vinte anos do chamado período
revolucionário. Escoimados certos exageros e distorções, que obra gigan­
tesca no mundo não impõe custo social e também político e financeiro?
O que se não pode negar, a não ser que se tenha muita má-fé, é que
o Brasil de 1985, máxime em termos materiais, está a milhares de anos
luz daquele de 1964, que já era bem diferente do de 1950.
Naquela madrugada de janeiro de 1964, em que saí de Crato, no
rumo de Teresina, gramei mais de doze horas de viagem, passando por
lugarejos mofinos promovidos a cidades. Araripina, Picos, Valença, Eles-
bão Veloso, engatinhavam na barbárie, com falta de tudo. Nada de luz
elétrica, telefone, asfalto, calçamento, água encanada, esgoto e assistência
em geral. Estavam ainda em pleno período colonial.
Noite fechada, o ônibus cruzou as ruas escuras da capital piauiense
estacionando numa praça diante da agência.
Um menino tomou a mala da minha mão e levou-me ao Teresina Hotel
de Alarico Hidd, na parte alta da rua Paissandu, quase praça Pedro II.
Naquele “black out” em que velas e lamparinas davam a impressão
de um mergulho no passado, perguntei ao hoteleiro onde eu poderia
jantar.
Resposta imediata e sem cerimônica: — A esta hora, só na zona.
Era na parte baixa da Paissandu, quase à beira do Parnaíba, e o
único ponto iluminado da cidade. Desconhecendo os hábitos da terra,
não quis arriscar-me e resolvi dormir de estômago vazio.

69
No dia seguinte, inteirei-me da situação. A luz de Teresina era forne­
cida por uma usina movida a lenha, estabelecida na rua Santa Luzia.
A cidade, dividida em dois setores, tinha cada um deles iluminado em
dias alternados. Na noite da minha chegada a vez era da zona, nesse
tempo enormíssima, hoje quase extinta.
Fundada em 16 de agosto de 1852, na Chapada do Corisco, vertendo
para o Parnaíba e para o Poti, Teresina tinha quase 112 anos quando
a vi pela primeira vez. Além dos problemas energéticos, já aludidos, a
capital piauiense, substituta de Oeiras, vivia, em janeiro de 1964, à míngua
de tudo. A Cidade Verde, cognome justíssimo pela exuberância da flora
nas ruas e praças, quase não tinha transporte urbano. Havia linhas que
não possuíam mais que dois coletivos, em péssimo estado de conservação,
sem bancos, sem janelas, sem pintura, com motores que tinham entre
vinte e trinta anos de uso. Hotéis, apenas o Teresina, onde me hospedara,
e o Hotel Piauí, patrimônio do Estado, fronteiro à Praça Deodoro, man­
dado construir pelo governo, dada a inexistência de um local decente
onde pudessem se hospedar pessoas gradas de passagem pela capital
piauiense. Ainda assim o hotel deixava muito a desejar, com garçons
mal-ajambrados, comida sofrível, pobreza total. Hoje não alcançaria meia
estrela na classificação da EMBRATUR. Entretanto era o ponto para
as reuniões diurnas e noturnas. Fora dali, as alternativas eram os bares
infectos e a zona, regorgitando de gente baixa e mal-encarada.
O centro urbano, mal-calçado, conservava uns poucos templos dignos
de menção — Igreja de Nossa Senhora das Dores, datada de 1871, na
Praça Saraiva; Igreja de São Benedito, com frente para a avenida Antonino
Freire, sagrada em 3 de junho de 1886; Igreja do Amparo, na Praça
Deodoro, antigo parque da Bandeira. Os prédios públicos e alguns particu­
lares davam um certo ar de nobreza à urbe, pela circunspecção de suas
linhas, sendo abundante as janelas ogivais. Na Praça Pedro II, destacava-se
o Teatro Quatro de Outubro e, em torno da Praça Deodoro, alinhavam-se
as repartições oficiais quer do Estado, quer do Município. Num dos
flancos da Praça, via-se o Mercado com feira quase permanente de comes­
tíveis, roupa e artesanato. Pios de inhambu, colheres de mandacaru, urupe-
mas, objeto em fibra regional, redes de dormir, vassouras de palha de
carnaúba, sapatos, malotas e alpercatas de couro, podiam ser encontrados
aí, a preços razoáveis para a época. Todo esse material, segundo informa­
ções obtidas no local, procedia primordialmente do Ceará e do Maranhão.
À margem do rio Parnaíba, divisor natural das terras piauienses e
maranhenses, viam-se inúmeros barracos feitos de palha de babaçu, onde
se aglomerava a população pobre. Diziam-me na altura, que a medida
que o rio ia enchendo, na época das águas, os barracos iam mudando
de lugar, sempre em busca de terreno seco e seguro. Teimosos heróis
anônimos viviam ali, aperfeiçoando a paciência e a perserverança, a dar
lições na burguesia flácida e pretensiosa, discursiva e palavrosa, distante
do verdadeiro Brasil.

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Do outro lado do rio, espraiava-se a pequena cidade maranhense
de Timon, antigo São José de Flores, burgo que à época possuía até
um jornal, o Correio do Timon.
Com todo esse atraso material em relação ao chamado mundo civili­
zado, Teresina era uma cidade esplendorosamente verde, aprazível, pacata,
onde assalto era apenas grito de carnaval. Ali ainda viviam velhos hábitos
interioranos. Registrei na altura o entregador de roupa procedente das
lavadeiras, que usava uma bicicleta tendo balaio preso ao porta embrulho,
forrado de pano branco, com sarrafo atravessado pelo lado de dentro,
perto da boca. Nesse suporte eram penduradas as roupas transportadas
que, protegidas pelo trançado do balaio, chegavam impecáveis ao destino.
Variante desse tipo de entregador anotei em Salisbury, hoje Harare, na
antiga Rodésia, agora Zimbabue e também em Maputu, capital de Moçam­
bique. Eram mulheres que penduravam cabides de onde pendiam roupas
por todos os lados do corpo e assim caminhavam pelas ruas no rumo
dos fregueses.
Um outro tipo popular da Teresina de 1964 era o vendedor ambulante
de carne, que atravessava uma vara sobre os ombros, de onde pendiam
peças do produto, como acontece com os mercadores de galináceos vivos,
ainda encontrados em vários rincões brasileiros.
Teresina, cidade cujo nome é uma homenagem à Imperatriz Teresa
Cristina, foi, depois de Petrópolis, a segunda cidade projetada que o
Brasil conheceu. Niterói teria sido a primeira, conforme o historiador
Carlos Wehrs, não fosse o abandono do projeto por parte dos poderes
competentes.
Oeiras, a antiga capital piauiense, vinda de princípios do século XVIII,
cedeu aos impulsos das idéias progressistas do aurorescer do segundo
reinado. Perto dela, no lugar Boa Esperança, município de Jaicós, o Padre
Marcos de Araújo Costa fundou, em torno de 1820, colégio onde foram
educados os filhos das principais famílias do Piauí, os Souza Martins,
Coelho Rodrigues e outros. O Visconde de Parnaíba, Manoel de Souza
Martins, senhor feudal da Província, foi um dos alunos daquele educan-
dário.
Mesmo com o deslocamento do eixo político-administrativo para
Teresina, o velho colégio de Boa Esperança seguiu na sua função educa­
dora, até que outros estabelecimentos teresinenses ocupassem o seu lugar.
Boa Esperança é hoje não só uma grata reminiscência, mas uma mensa­
gem de alívio e de esperança, pois é das centrais elétricas desse nome
que provém a energia que redimiu o Piauí e fez de Teresina uma capital
de verdade. Luz é vida e força é progresso.
Vinte e cinco anos se passaram. Nunca mais voltei a Teresina. Não
obstante acompanhei o multidirecionado progresso brasileiro de 1964 a
1988.

71
Voltava de Natal, onde fora participar das homenagens aos noventa
anos de nascimento de Luís da Câmara Cascudo. Já que estava no Nordeste
e dentro daquele meu velho programa de reciclar Brasil, resolvi viajar
até o Recife e daí a Teresina, servindo-me do sistema rodoviário.
Embarquei na moderníssima estação da capital pernambucana num
ônibus confortável da tradicional empresa Princesa do Agreste. Rompi
o ano de 1989 viajando pelo sertão de Pernambuco, sempre sobre o asfalto
hoje um tanto danificado pela incúria do governo atual, criador da operação
desmonte. Aqueles burgos precários e acanhados são hoje cidades com
estações rodoviárias, hotéis, ruas calçadas, farta iluminação, orelhões por
toda parte, animação em todos os quadrantes. Picos, Valença e Elesbão
Veloso, já no Piauí, denunciam que por ali passou forte onda de progresso.
Enfim Teresina e sua Estação Rodoviária Lucídio Portela, inaugurada
em 1983.
Não muito longe dali o imponente estádio Albertão, encravado em
densa zona residencial de classe média baixa.
Tomei um táxi e à medida que o auto rolava por avenidas asfaltadas
dotadas de ciclovias, tinha a impressão de haver chegado em outro planeta.
Mas era Teresina mesmo. A presença do rio Parnaíba não deixava margem
a dúvidas. Desembarquei diante do Teresina Palace Hotel, ostentando
duas estrelas no frontispício. Não mais aquele albergue escuro e descon­
fortável, mas um hotel com apartamentos, banho privado, TV, frigobar
e outras mordomias. Café da manhã régio, restaurante impecável. Era
portanto um outro estabelecimento, embora construído no mesmo lugar
onde Alarico Hidd explorava o seu negócio. O Hotel Piauí desaparecera.
Em seu lugar estava o Luxor Hotel do Piauí, com suas quatro estrelinhas,
ar condicionado central e todo um serviço de categoria, para turista nenhum
botar defeito. E quantos hotéis encontrei em Teresina!!! São mais’de
dez hoje, puxando a lista o Rio Poty, com jardins de Burle Marx, cento
e vinte apartamentos, salões de convenções, restaurante (cozinha francesa),
piano-bar, pista de dança, piscina, sauna, “Shopping center” contando
dezesseis lojas.
Os transportes urbanos melhoraram enormemente. Inúmeras linhas
de ônibus trabalhando com veículos até certo ponto aceitáveis. E já se
fala em pré-metrô.
As praças e parques seguem verdíssimos e agora me pareceram mais
bem cuidados. A Praça Saraiva, lembra a Place des Palmistes de Caiena,
capital da Guiana Francesa; a Praça Deodoro, está completamente gradeada
e tem algo de um “Green Park” em pleno trópico; as praças Rio Branco,
do Liceu, João Luiz Ferreira, da Liberdade ajudam a vestir a urbe com
a exuberância das folhagens regionais.
Lá para os lados do Ininga, implantou-se a Universidade Federal
do Piauí, criada em 1969 e instalada em 1972.

72
Na Praça da Liberdade está a Biblioteca Estadual desde 14 de novem­
bro de 1973; no auditório Herbert Parentes Fortes, na Av. Manoel Rosa,
funciona o Cinema de Arte; na Praça Marechal Deodoro estão o Teatro
de Arena e o Museu Histórico do Piauí; na Praça Demóstenes Avelino
está o Museu de Arte Didática; na rua Coelho Rodrigues, o Museu Artís­
tico Histórico.
No lado par da Avenida Antonino Freire sobre um taboleiro verde
guardado pelo buritisal de cocares armados, pousa o Palácio de Karnak,
sede do governo estadual, linda construção grega em estilo jônico, presença
helênica no tropicalíssimo Piauí.
Mais de vinte restaurantes para todos os gostos espalham-se pela
cidade. Ao longo do Parnaíba corre a avenida Maranhão, homenagem
ao Estado vizinho c uma balaustrada de concreto guarnece a beira do
rio, onde se alinham inúmeros pontos de ônibus urbanos. Não mais os
barracos de palha de babaçu, embora sob a ponte interestadual exista
discreto bolsão de miséria.
A iluminação, graças à Usina de Boa Esperança, é feérica e não
há repartição pública que não tenha ar condicionado central, mormente
a agência do Correio c a Telepisa.
O velho mercado está melhor servido de mercadorias. Dentro e fora
do prédio é um mercar permanente de gaiolas de buritirana, pios de inham-
bu, esteiras, centros de mesa e serviços americanos de seda de buriti,
luminárias de carnaúba, mucunã e sisal, redes e tarrafas de tucum, artigos
de couro, artesanato em madeira, lúdica infantil, roupa, pássaros diversos,
frutas de ocasião etc. etc.
Enfim, Tcresina é hoje uma festa, uma cidade onde se respira otimismo
e tranquilidade, onde assalto continua sendo grito de carnaval.
Basta que se atente para as datas adrede mencionadas e que se tenha
alguma dose de isenção e honestidade, para se afirmar corajosamente que
não só Teresina, o Piauí, o Nordeste em geral, mas todo o Brasil se
beneficiaram enormemente com o movimento de 64.
E se quiserem, lá vão mais alguns exemplos: a Estação Rodoviária
de Fortaleza, CE., foi inaugurada a 23 de março de 1973; o novo prédio
da Biblioteca Pública do Ceará, criada cm 23 de março de 1867, foi entregue
ao público a 6 de fevereiro de 1975; a moderna e confortável Prefeitura
de Crato, CFL, começou a funcionar em 1979; o Terminal Rodoviário
de Governador Valadares, MG., é de abril de 1976 e o de Teófilo Otoni
no mesmo Estado é de 3 de julho de 1971 etc., etc.
E as hidroelétricas, as empresas de telecomunicação, as universidades,
a rede hoteleira, as opções turísticas, o transporte integrado? Negar o
óbvio é asnice ou falta de caráter.
Não poderia encerrar essa etapa da reciclagem brasileira, especial­
mente nordestina, sem viajar de ônibus de Teresina a Brasília. Foram
34 horas praticamente sobre asfalto, percorrendo o sul do Piauí, parte

73
da Bahia e de Goiás. É verdade que cruzei algumas corrutelas piauienses
— Água Branca, São Pedro, Regeneração, Amarante, Cristino Castro,
Monte Alegre, Corrente, — mas também foi gratificante contemplar o
progresso de Floriano e Canto do Buriti e depois, já em território baiano,
as lindíssimas plantações de soja da região de Barreiras, distante ainda
630 km da Capital Federal.
A bordo, piauienses, maranhenses, cearenses, mineiros e até o carioca
autor dessas linhas se deslumbravam com a possibilidade de viajar da
ribeira do Parnaíba ao Planalto Central, numa aventura impossível vinte
e cinco anos antes.

Em 23 de janeiro de 1989

74
Cobras
A vida no sertão
A n ten o r Gom es de B arros Leal

Rendo-me aos tempos de minha meninice, de minha juventude e


dc homem, quando conheci a vida das populações rurais, seus costumes,
seus sentimentos e suas cativantes virtudes.
O sertão, mesmo no estio, com os açudes e o verde vivo do canavial,
que dança com o zunido dos ventos, é verdadeiramente maravilhoso.
Mais ao longe, vemos os xerófilos, que enfeitam os campos, dando a
impressão de inverno, destacando-se o juazeiro e o pau-branco com as
suas copas bem ramificadas e abundantes de folhas. Dentro deste contexto,
porém, temos a parte negativa. As labutas dos nossos fazendeiros são
de uma crueldade impressionante; basta que lembremos a castração que
se faz de macete, de volta e de faca em novilhos, carneiros, bodes, cachor­
ros, frangos, touros, cavalos e jumentos. Difícil está um desses machos
morrer como nasceu.
Atualmente, em fazendas ricas, a “ torquês veterinária” executa o
trabalho menos doloroso porque é mais rápido. As fêmeas e a criação
miúda não escapam ao sofrimento. São ferradas com ferro em brasa,
ou têm as orelhas retalhadas pelos sinais do seu dono. Depois vêm as
vaquejadas para deleite dos homens. Corre o boi, e o indômito vaqueiro
na corrida desabalada, com agilidade extraordinária, segura-lhe a cauda
num impulso violento de baixo para cima, fazendo-o rolar pelo chão
por cima de pau e pedra. Feliz a rês que não quebra as pernas, o pescoço
ou o quarto.
Não há motivos para estranheza, dizermos que o homem é o mais
inconseqüente e cruel dos animais, chamado de racional, ainda mais quando
o vemos exterminando a nossa fauna e devastando as nossas matas.
Também ao lado da malvadez humana temos ainda as onças, os ga­
viões, os carcarás, o morcego que a noite sangra o animal para beber
o sangue, mas, como conseqüência do extermínio da nossa fauna, devemos
dizer que, felizmente já escasseiam mesmo nas serras, as terríveis onças
que matam os rebanhos, como sejam a Suçuaruna, a Pintada, a Maçaroca,
a Pixuna e a valente Onça Preta que ataca o homem principalmente o
negro, devido ao cheiro desagradável do seu suor. Temos ainda o terrível
gavião que devora os pintos e passarinhos, a raposa matreira que durante
a noite ataca os galinheiros, e o peverso carcará que se banqueteia arran­
cando os olhos e as línguas dos borregos e dos bacorinhos, quando não
estão protegidos pela presença das mães, que se transformam em indomá­
veis feras contra os agressores.

75
No quadrilátero formado pelo rio Curu, a Serra da Uruburetama,
o litoral e o rio Aracati Assu, existe uma perigosa aranha conhecida pelo
nome de Viúva Negra ou Flamenga (preta e vermelha) cuja ferroada já
tem causado a morte de muitas pessoas; as que não morrem, passam
a sofrer, durante certo período, de numerosos achaques. Contra a picada
da Latrodectus moctans (Viúva Negra), existe o soro Antictênico por
via intramuscular e em caso grave por via endovenosa.
Também é sabido que os sapos daquela zona são sujeitos a uma
espécie de hidrofobia. Quando doentes correm atrás das pessoas, e, se
mordê-las, causam graves ferimentos de difícil cicatrização, já se tendo
registrado casos de morte.
Por fim, temos as cobras venenosas: cascavel, jararaca, coral e surucu­
cu. A cascavel (venenos hemolíticos e neurotóxicos) é uma cobra do gênero
Crotalus, cujo veneno é muito ativo, e a cauda, munida de pequenas
cápsulas secas, emite, quando agitada, um ruído comparável ao farfalhar
de folhas.
A jararaca (veneno proteolítico), é o nome de várias espécies de serpen­
tes venenosas da família dos crotalídeos e a coral (veneno ncurotóxico)
é uma cobra venenosa, cujo corpo é formado de anéis pretos, amarelos
e vermelhos.
A surucucu é a mais peçonhenta das cobras existentes no território
cearense e só é encontrada na Serra de Baturité — Ceará. Possui dois
venenos, neurotrópico e proteolítico, da cascavel e da jararaca, respecti­
vamente.
Venenos:
Coagulantes, que coagulam o sangue.
Proteolíticos, que destróem células da pele, músculos e veias.
Hemolíticos, que destróem os glóbulos vermelhos do sangue.
Neurotóxicos, que atuam sobre alguns centros nervosos do cérebro.
E importante que se diga que não é verdade que a serpente venenosa
tenha a cabeça em forma de triângulo, nem que seus olhos sejam iguais
aos de um gato durante o dia, nem que perca o veneno. Também não
é verdade, que a idade da cascavel seja determinada pelo número de anéis
do seu chocalho. Pode-se porém afirmar que cada vez que a cascavel
muda de casca, cria um anel que desaparece com o correr do tempo,
passando a ser chamada de “cascavel de sabugo” . Outra idéia falsa é
a existência de cascavel de quatro ventas. Com exceção da coral, a cascavel
e a jararaca têm dois buracos entre as ventas e os olhos, que são as fossetas
nasais, que servem para perceberem o calor que exala dos animais pró­
ximos.
Não esqueçamos que o veneno da cascavel é muitas vezes mais letal
que o da jararaca. As outras cobras são mais traiçoeiras, porque primam
pelo silêncio. Facilmente podemos distinguir a VENENOSA da não vene­
nosa. A cobra que tem veneno possui duas presas, morde a vítima e

76
fica no local ou anda devagar e pára por perto. Embora ande preguiço­
samente, é ágil no bote, que é certeiro, atingindo sempre no meio da
perna para o pé, dificilmente alcança o joelho de um adulto, razão por
que o trabalhador rural devia usar botas, ou, pelo menos, calça bem
cumprida, de tecido grosso e bem larga. Todas as cobras nadam bem
e podem mordem dentro d’água.
Só a coral venenosa tem dois dentes (presas) superiores dianteiros
fixos. A coral que não tem veneno tem apenas pequenos dentes no fundo
da boca.
A cascavel e a jararaca têm dois dentes (presas) móveis e geralmente
deitados no céu da boca, projetando-se para fora quando irritadas e prepa­
radas para o bote.
A cascavel prefere as capoeiras rasas, os coivarais, enfim os lugares
secos, enquanto a jararaca vive mais nos locais úmidos, como sejam baixios
de açudes, moitas dos rios, lagoas e alagadiços. Todas as cobras sobem
em árvores em caso de grandes chuvas e só param no meio da mata
para descançar. As cobras venenosas rastejam suas vítimas, assustam-se
com facilidade e rapidamente dão o bote, que atinge o alvo. As não-ve-
nenosas gostam de viver enroscadas nas árvores, nos troncos ou nos galhos.
Como se alimentam de rãs, de caçotes, jias, mocós, catitas, sapos, preás
etc. demoram mais em beira de estradas, de caminhos estreitos, dentro
das lavouras, ao redor das casas, das cercas e dos currais. A várzea ao
longo do rio não é menos perigosa que o local da pescaria. A CASCAVEL,
cm tempo de chuva ou quando o terreiro está molhado, procura entrar
nas casas por debaixo das portas. Se a pessoa mordida não for medicada
com soro, suas possibilidades de escapar com vida dependerão da dose
inoculada c também da espécie de cobra que a tenha mordido. O repouso
absoluto se faz necessário antes da aplicação do soro.
Vemos assim que o principal motivo da morte é o atendimento tardio,
a falta de repouso e a dosagem insuficiente. Isto acontece freqüentemente
com as crianças, que por serem menores recebem pequena dose de soro.
O soro é para a neutralização do veneno; portanto a dosagem deve ser
a mesma do adulto. Também o tamanho da cobra não indica menor
perigo. As pequenas cascavéis e corais, mesmo com um palmo de compri­
mento, podem matar uma pessoa adulta. Convém repetir que o veneno
das cobras pode matar, conforme o local da mordida, em poucas horas
ou até em sete dias por coagulação do sangue, pela destruição das células
da pele, dos músculos e das veias, produzindo até a gangrena. Destróem
os glóbulos vermelhos e atacam os centros nervosos do cérebro.
Sabemos que existem pessoas tão sensíveis, que, mordidas por cobra
não venenosa, ficam em estado de morte, e se curam com a chegada
do REZADOR, com aplicação da “pedra de tabuleiro”, de dente de
jacaré ou bebida de cachaça, chá de ateira, de raiz de cabeça de negro
etc. Daí a necessidade da identificação da serpente, se é ou não venenosa.

77
Vejamos: a mordida da jararaca produz dor forte em poucos minutos
e vai aumentando gradativamente. Depois vem a inchação, a vermelhidão,
até ficar o local bem roxo, abrindo feridas. Por isso se diz: “Jararaca
quando não mata, aleija” . Horas após a mordida, podem aparecer vômitos
e urina sangüínea e turva, assim como sangramento das gengivas, dos
ouvidos, do útero, dos intestinos, febre e frios.
A dor da mordida da cascavel é forte se for na ponta dos dedos,
poucas horas depois desaparece, ficando o dedo dormente e dando a
impressão de ferroadas de vez em quando. As presas são finas o que
dificulta perceber-se o local da mordedura. Dentro de uma hora a visão
da pessoa vai faltando, as pálpebras se fecham e só com muita dificuldade
ela consegue entreabri-las. A urina torna a cor de café fraco, até faltar
completamente. Perto de morrer, o doente sente agitação em todo o corpo.
Mordida da Cobrai Coral. Dentro de meia hora, começa a faltar
a visão e adormecer a perna ou o braço. Aparecem salivação, dificuldade
de engolir e de falar. Aparecendo agitação no corpo e dificuldade de
respirar, é sinal de morte próxima.
Tratamento: Sabemos que existem nos grandes centros alguns servi­
ços especializados, com métodos eficicntíssimos, usando aspiração, antito-
xinas, transfusões etc. além de técnicas especiais de determinação da quanti­
dade de tóxico inoculada.
No sertão tudo é diferente. A vítima logo depois da mordedura
da cobra permanece em repouso absoluto até ser levada para casa em
cadeira ou rede -— nesse ínterim procura-se matar a cobra para abrir
a boca e verificar se é venenosa, isto é, se tem as duas presas.
Qualquer pessoa, mesmo que tenha os dentes estragados ou furados
e não tenha ferida na boca e no estômago, chupa com força no local
da cisura. O veneno da cobra não penetra pelas cáries dos dentes nem
pela mucosa ou pele. Não saindo sangue fura-se o local umas seis vezes
com agulha, espinho ou ponta de faca fina. Não se deve cortar. Tenta-se
retirar o sangue com força, o mais possível, sem medo do veneno. O
sangue é aspirado e cuspido. Mesmo que a pessoa engula o sangue com
o veneno, não há perigo nenhum. Isto deve ser feito com a maior urgência,
dentro de 10 a 15 minutos. O veneno da cobra só mata, quando injetado.
Engolido, repito, não produz nenhum mal. Terminada essa operação de
chupar o sangue, o doente é levado imediatamente para casa a fim de
receber o soro indicado. NÃO se amarra a perna ou o braço do doente.
Ele é reanimado com chás quentes adoçados com açúcar ou rapadura,
de 2 em 2 horas. Duas ampolas, ou mais, de soro devem ser aplicadas
por via subeutânea, uma, logo depois a outra nas costas, na barriga,
na face lateral da coxa ou na fase interna da perna. Só em casos gravíssimos,
devem ser injetadas uma ou mais ampolas na veia, o mais DEVAGAR
POSSÍVEL. O resultado será animador quando se verifica que o pulso
está voltando. OBEDECER religiosamente à dosagem indicada na bula,

78
que pode elevar-se a dez ou mais ampolas para cada vida, independente
da idade do bebê ou pessoa pequena e fraca. Na picada de CASCAVEL
aplicar o soro ANTICROTALICO do Instituto Vital Brasil. Na picada
de JARARACA, aplicar o soro ANTIBOTRÓPICO do referido Insti­
tuto. Na picada da CORAL, na falta de soro ANTIELEPÍNICO aplicar
o soro ANTIOFÍDICO. Na picada da SURUCUCU, na falta do soro
ANTILAQUÉSICO aplicar o soro ANTIOFÍDICO do Instituto Vital
Brasil.
Repito: o soro é para a neutralização do veneno injetado pela cobra
e não tem relação com a idade ou o peso da vítima. No caso de dúvida
da espécie da cobra, cascavel, jararaca, coral ou surucucu, convém aplicar
com a máxima urgência o soro antiofídico do Laboratório Vital Brasil,
que serve para mordedura das quatro terríveis serpentes, razão da maior
quantidade de ampolas para cada caso.

Im portante:
Todos os sintomas podem, nos casos tratados, reaparecer entre o
8v e 20‘.' dias, o que indica novo tratamento — “não levar em consideração,
nos casos graves, o perigo de um possível acidente anafilático se o doente
já tiver tomado soro em ocasião anterior ao acidente atual; o risco de
morte pela peçonha é, nos casos graves, sempre muitas vezes maior do
que o de um acidente por hipersensibilidade ao soro.
POSOLOGIA: Compêndio Médico Andrei — 22\ edição, páginas
534 e 535.
Sintomas benignos: 5 ampolas do soro antiofídico. Sintomas graves:
8 ampolas do soro antiofídico. Sintomas gravíssimos: 15 ampolas do soro
antiofídico. Todas as injeções de soro devem ser aplicadas na mesma
ocasião, uma após a outra, aparecendo sintomas alérgicos, depois da aplica­
ção do soro, deve-se procurar o médico urgentemente para que sejam
tomadas as devidas providências.
E assim é a vida do Sertão, cheia de benesses e de perigos, mas
o que nos conforta é sabermos que temos meios para enfrentá-la com
coragem e amor.

Nota: No senão de Boa Viagem — Ceará — vi duas pessoas com edema (inchação)
cm todo o corpo, no segundo dia da aplicação do soro, que ficaram curadas
com um purgante de sal amargo.

79
Leitura científica
Tópicos do livro “Parasitologia Médica”
páginas 381 a 389
Drs. Ruy, Inácio e Enio
Ofidismo
— Aparelho inoculador de peçonha:
O aparelho produtor e inoculador de peçonha (aparelho ióforo) é
formado pelo conjunto das glândulas secretórias de peçonha (salivares
modificadas) e dos dentes maxilares diferenciados para injetar a peçonha
e que possuem, ou não, um canal ou sulco longitudinal, em conexão
com a glândula.
De acordo com a posição e estrutura destes dentes inoculadores,
as serpentes podem ser grupadas em quatro séries:
Aglifodonte (Aglifas) — sem dentes maxilares diferenciados. Todos
os dentes mais ou menos iguais, maciços (sem sulco ou canal) serpentes
consideradas não peçonhentas (boipeva, caninana etc).
Opistoglifodonte (opistóglifas) — com um par de dentes maxilares
diferenciados, localizados na parte posterior e providos de um sulco longi­
tudinal dorsal. Dada a posição dos dentes, a inoculação da peçonha se
torna difícil. Raros são os acidentes causados pela picada dessas cobras.
Semipeçonhentas (maçurana, corais não peçonhentas etc).
Proteroglifodonte (Proteróglifas) — Com um par de dentes maxi­
lares diferenciados, localizados na parte anterior e providos de sulco longi­
tudinal dorsal. Peçonhentas (corais verdadeiras).
Solinoglifodonte (Solinóglifas) — Com um par de dentes maxilares
diferenciados canaliculados, localizados na parte anterior, solidariamente
móveis com o maxilar — verdadeiras presas — recobertos, no estado
de repouso, por uma prega da mucosa à guisa de bainha. Peçonhentas
(jararaca, surucucu, cascavel etc).

— Famílias de importância médica:


Família Elapidae
Os elapídeos são cobras pequenas com o corpo apresentando faixas
transversais ou anéis, vermelhos e negros. São as chamadas “cobras corais” .
O povo confunde as “verdadeiras corais” com opistóglifas que podem
apresentar também manchas no corpo formando anéis. Os elapídeos são
serpentes extremamente venenosas, embora pouco agressivas e rápidas
na fuga. Os elapídeos brasileiros pertencem todos ao gênero Micrurur
(as que têm cauda curta).

80
Família Crotalidae
São os mais perigosos ofídios; 90% dos casos de ofidismo são devidos
a picadas dc cobras desta família.
A subfamília Crotalinae c representada no Brasil pela terrível cascavel
(Crotalus terrificus). Crotalismo.
A subfamília Lachesinae tem como principais representantes; a Suru­
cucu. (Lachesis muta); a jararaca (Bothrops jararaca) c várias outras espécies
do gênero Bothrops. Botropismo.

★★★

“Não há remédio algum até hoje preparado, a não ser o soro, capaz
de curar um só caso de picada por serpente, peçonhenta” . (Flávio da
Fonseca).

Nota: Devemos proteger os animais ofióíagos (comedores de cobras), “cobra


preta (muçurama), “Siriema”, “Maratataca”, “Cangambá” etc.

81
3 Mensagens
Valdelice Alves Leite

Maravilhosa Dádiva
CHAMA-SE VIDA!
Num ambiente social agressivo e dispersivo às vezes, onde se deprecia
o valor da vida, percebemos quão maravilhosas é essa dádiva de Deus.
E ter a consciência da realidae de estar vivo, dá às pessoas uma força
imperiosa que as faz vencer os obstáculos e as leva a uma existência praze­
rosa. A chave deste prazer é ser intrinsecamente sincero pois quem é
sincero sabe escutar as vozes da razão e da emoção.
Sabemos que a vida oferece o direito de acumular experiências que
propiciam melhor vivência a quem se ama a si mesmo, e, conseqüentemente
ao próximo. Tentando a prática do primeiro e grandioso mandamento
“ Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo” consegue-se ver claro
nos momentos mais difíceis. Ser consciente deste dever requer um processo
de aperfeiçoamento contínuo e progressivo.
Claro que a ânsia de viver existe: os enfermos, os deficientes físicos,
salvo algumas exceções, têm uma poderosa fonte de bom astral que os
fazem conservar a esperança do bem-viver. Por que não darmos a nós
mesmos chances de progredir sem queixas e insatisfações, assumindo res­
ponsabilidades perante a própria vida?
Acordemos para o real e agradeçamos a Deus pelo milagre da vida...
maravilhosa dádiva!
Conservar uma boa aparência somada com a vivacidade, esta é a
receita para uma imensa alegria de viver. Nunca se deixar abater pelas
transas do destino, pelos traumas da velhice — patrimônio dos muitos
anos bem vividos.
Diz o Dr. Zerbini, que quando uma pessoa opta por uma carreira,
ela tem que ser a melhor naquilo que escolheu. Procuremos, portanto,
ser os melhores na arte do bem-viver e reconheçamos sempre os benéficos
efeitos da graça divina.
Todos os dias há um novo sol para fazer renascer o ritmo da existência
para todos nós, embora ninguém escape ao passar do tempo. Mas, nem
por isso o espetáculo da vida fica menos atraente. Diz Hélio Carneiro
em um dos seus artigos publicados na revista “Mulher de Hoje”, que,
“a medida que os anos vão correndo, mais atenções temos de dar a nós
mesmos para preservar o imenso capital de beleza que temos e que se
resume mesmo numa única coisa: VIDA” .
“Procurar viver bem, é uma obrigação e um direito de cada ser huma­
no.”

82
Dia de graças
Emocionadas ouvimos a leitura da ata redigida há 50 anos, por ocasião
do término do nosso curso normal, a 23 de novembro de 1937.
Aqui estamos de volta, alegremente e em grande número, para render­
mos graças ao Altíssimo pelos anos bem vividos que se foram.
Nos momentos mais duros, encontramos em nossa fé, o ensinamento,
a edificação e o consolo. Imbuídas dessa fé que nos foi incutida ardorosa­
mente na juventude, pelos nossos pais e pelas filhas de Paula Frassinetti,
perlustramos os caminhos da vida, afrontando quiçá, obstáculos ou venda­
vais, escalando a íngreme subida, às vezes quase inacessível, em busca
da realização dos nossos ideais.
Ao longo dos acessos, como apóstolas, mães e educadoras, discípulas
que fomos da “Flor da Ligúria”, cultivamos flores, procurando aliviá-las
dos espinhos e, felizmente, o temos conseguido. Estas, trazemo-las simbo­
licamente ao altar, como preito de gratidão.
Nossos filhos receberam a herança do nosso sangue e as verdades
de nossa crença e de nossas virtudes. E é com grande satisfação que
temos como partícipe dos nossos descendentes, o celebrante padre Pedro
Vicente, filho de nossa colega Maria Inês Albano. Ele, representante de
Cristo, oficia esta missa solene, onde o filho de Deus, como no Calvário,
é oferta sagrada, para a salvação da humanidade. Jesus nos afasta os espi­
nhos e os assume no flagelo de sua coroação. Corpo c sangue na Eucaristia.
Ele nos dá a vida eterna. Nesté momento de emoção em que nos comuni­
camos diretamente com Deus, nossos olhos se fecham e ao redor tudo
parece escuridão. Mas, bem no íntimo se acende a claridade do nosso
eu. Então vemos o horizonte pontilhado de esperanças, e de nossa boca
plena de ternura, sai a canção do amor eterno: a ORAÇÀO.
Também neste momento solene, recordamos, com saudade, as colegas
Cleidc Alcântara e Antonieta Siqueira. Não choremos a sua ausência,
elas apenas partiram antes para guardar os nossos lugares na mansão do
além; estão em paz, e em espírito aqui presentes.
Quanto à inesquecível Zezita Petribu, o nosso amado colibri... repou­
sa um pouco, cansado de tanto adejar de flor, distribuindo o pólen vivifi-
cador de sua sabedoria. Um dia voltará ao nosso convívio.
Nós, componentes da turma de 1937, escalamos um longo aclive,
e do alto onde nos encontramos, podemos descortinar a beleza das paisa­
gens terrenas por onde andamos, sobraçar flores e perscrutar o infinitismo
do firmamento, onde o azul é pura essência e onde tudo é PAZ. Já
estamos aureoladas pela névoa das alturas, porém as rosas que conduzimos
não se despetalarão jamais ao anoitecer das nossas vidas. Ao clarear das
madrugadas sempre chegando, o orvalho benfazejo de graça divina nos
renovará até podermos depositar aos pés de Deus, rosas redivivas para
todo o sempre.

83
Que nos sejam dados muitos anos de vida profícua, mas, quem sabe...
já estamos às vésperas de tudo o que nào finda?! Por isso mesmo queridas
colegas, marquemos o nosso encontro daqui a 50 anos nos páramos celes­
tes. JESUS, sem cruz e sem espinhos, nos acolherá num amplexo de
amor eterno. Assim seja!
COMBINADO?

Agradecimento
Estamos aqui, Gisela, Jufacha e eu própria, sendo homenageadas
pelo decorrer da nossa permanente união matrimonial por 50 anos: “Jubi­
leu de Ouro”. Cada qual com seu parceiro, é claro.
O que significa esse período de tempo, parecendo longo, mas que
é tão curto pela passagem célere dos dias, das semanas, dos anos?...
Diz o nosso poeta maior, Artur Eduardo Benevides, que: “a árvore
da vida em verde se transfaz mesmo ferida” ; daí, penso eu, o milagre
da renovação do amor ou mesmo só da amizade, no convívio dos casais
assim unidos permanentemente.
Em nossos dias, quando o matrimônio não é mais o único caminho
para a mulher se realizar na vida, a verdade é que precisamente a amizade,
compreensão e carinho, o respeito mútuo, fazem parte da “química miste­
riosa” que une um homem e uma mulher num casamento.
Lembremos certo diplomata israelense (antigo padeiro), que no Brasil
foi convidado a dar uma aula sobre a sua especialidade culinária a algumas
senhoras da sociedade. Ele usou a didática das comparações, dando a
receita de uma massa de pão básica e depois ensinou a confecionar uma
trança de pão; disse ele: “basta usar a regra da justiça social absoluta:
quem está por cima vai para baixo e quem está embaixo vai para cima” .
E uma técnica perfeitamente adaptável ao casamento, pois, justamente
da troca de atividades, do emaranhado de afinidades físicas, sociais, intelec­
tuais e espirituais sobretudo, resulta a massa básica da vivência ou sobrevi­
vência, acessível ao manuseio da trança que une firme e permanentemente
os casais no decorrer de suas vidas. O pão alimenta o corpo; o casamento
dá vida às sociedades subseqüentes.
Diz o poeta: “Nem sempre a vida é má e o tempo rubro/Há momentos
azuis, há cousas belas/há pássaros em nós, há paralelas/que conduzem
o finito ao infinito” .
E é agradável, depois de tantos anos... 50 anos... ouvir o parceiro
dizer: “Como é bom estar casado com você” .

Fomos homenageadas pelas compa­


nheiras da Ala Feminina da Casa de Juvenal
Galeno.

84
Enterrando
os meus mortos
José de Alencar Bezerra

Isidro Bezerra
Faleceu em 23 de janeiro deste ano, o meu irmão Isidro de Alencar
Bezerra. Nasceu em 1905, em pleno advento da borracha.
Seu pai, o Major Vitalino Pereira de Maria Bezerra, era alto comer­
ciante, exportador e importador em Pio IX, Piauí. Assistiu, mais tarde,
às secas de 15 e 19, quando o viu perder quase tudo o que possuía.
Com 15 anos de idade perdeu o pai, tendo que assumir as responsa­
bilidades de chefe de família.
Estudou com o professor Antônio Pereira Bezerra (Pico) que tinha
o curso completo de Seminário e foi um dos pioneiros da introdução
da gramática cm Pio IX. Professor primário, Isidro, a princípio, ensinava
particular, depois ajudou a esposa, Argemira Bezerra, professora em escola
pública em Patrocínio, pois casara com ela em 1926.
Nos primeiros anos de casados, enfrentou a vida de ambulante. Com­
prava fazenda em Fortaleza e vendia, a prazo, nos municípios de Pio
IX, Picos e Oeiras.
Em 1930 entrou para o serviço público, tendo sido nomeado Tabelião
em Patrocínio. Nesse campo sempre se conduziu com honestidade e com­
petência. Era advogado do povo, mas nunca cobrou consulta de ningúem.
Gozava da confiança dos amigos e dos adversários.
As sentenças que fazia para os juizes leigos de Pio IX eram aprovadas
por unanimidade no Tribunal de Justiça.
Os alistamentos que fez eram elogiados pelo Tribunal Eleitoral.
Certa feita, seus adversários pediram uma correição no Cartório de
Isidro. Veio fazê-la o Secretário do Tribunal Eleitoral, Dr. Jorge Modesto,
com todo o rigor. Depois de concluídos os trabalhos, o Dr. Modesto
deixou em ata, mais ou menos, os seguintes conceitos: “Meus parabéns
ao Tabelião Isidro Bezerra, pela honestidade e competência demonstradas
no alistamento”.
Do primeiro casamento, teve os seguintes filhos:
Vitalino de Alencar Bezerra, formado em Direito. Destacou-se na
advocacia, principalmente na tribuna do júri. Aposentou-se como Procu­
rador Geral da Prefeitura de Teresina. Publicou a biografia do Pai, “Men­
sagem Humana do Tabelião Isidro”. Casou-se com a prima Ivone Alencar
Bezerra, professora.

85
Joaquim de Alencar Bezerra, formado em Direito. É professor da
Universidade Federal do Piauí, Diretor da Faculdade de Direito da mesma
Universidade. Tem vários trabalhos jurídicos publicados. Procura, com
a sua liderança política, ajudar as novas gerações. Foi Deputado Eistadual
do Piauí e Presidente da Assembléia Legislativa do seu Estado. Casou-se
com Elizabeth Melo de Alencar Bezerra, companheira e amiga que o
realizou no casamento.
Maria do Carmo Maciel Bezerra (Carminha). Substituiu o Pai com
grande competência no Primeiro Cartório de Pio IX. E inteligente e boa,
tem uma bonita obra de assistência social. E viúva do agrimensor Crisós­
tomo Maciel.
Almerinda Oliveira de Alencar Bezerra. Professora. Muito solidária
com a família. Funcionária da Universidade Federal do Piauí. E boa mãe
de família e está dando bom grau na educação de todos os seus filhos.
Casou-se com o colega de repartição, José Alexandrino de Oliveira. Gosto
muito dele. Foi meu companheiro cm Fortaleza, para resolvermos muitos
problemas sociais.
Quero evocar, agora, um pouco da vida de rapaz de Isidro. Pio
IX, naquele tempo, da década de 20 a 30, era uma cidade verde, cercada
de colinas, que ficavam muito bonitas nas épocas de inverno. As árvores
floridas circundavam a cidade. Os invernos bons. Boas safras de milho,
feijão e algodão, numa atmosfera de progresso religioso, social e econô­
mico, com o paroquiato do Pe. Cícero Santos, bandas de música, sere-

Isidro gostava de serenatas. Não cantava, mas declamava muito bem.


Os amigos mais próximos eram o primo Heli Bezerra, jovem alegre,
de bom papo nas rodinhas de calçada e Oriel Cortês. Oriel era seresteiro,
dono de bonita voz, acompanhava-se ao violão e cantava saudosas modi­
nhas, vai, aqui, o fragmento de uma:
“Acorda, virgem, não durmas; Não vês o belo luar
Que o meu peito se inflama Que a tua ausência reclama?
A noite é tão preciosa A noite é tão preciosa
Não deve dormir quem ama Não deve dormir quem ama.

Casou-se Isidro em segundas núpcias com a professora Antônia Mou­


ra Santos de Alencar Bezerra. O casal lutou para educar a família, tanto
ele quanto ela orientavam os filhos e seus deveres escolares no 1“ e 2'.’
graus e mesmo na Universidade.
Isidro chegou a mandar para os filhos na Universidade trabalhos
de português, de gramática narrativa e de literatura, que muito auxiliaram
os filhos, sempre estudiosos, e graças a Deus, vitoriosos.

86
F o r a m f il h o s d o s e g u n d o m a t r i m ô n i o :

Maria Isis Santos de Alencar Bezerra, engenheira civil e química,


dirige a AGESPISA da região de Picos, 6 conciliadora, muito estimada
por funcionários e clientes, tem se conduzido à frente desse repartição
com competência e probidade. E filha extremosa e parenta dedicada.
Eugênio José Santos de Alencar Bezerra, acadêmico de letras, tem
boa redação e tendência para a música. É prestimoso, amigo e solidário
com a família.
Isidro Filho, acadêmico de Medicina, está fazendo o curso com distin­
ção.
Francisco Santos de Alencar Bezerra, cirurgião dentista, homem
de ação, já tem resolvido problemas sociais intrincados, de familiares.
Berilo Santos de Alencar Bezerra, engenheiro-químico, empregou-se
no ano de sua formatura, pela competência demonstrada nos cursos e
concursos públicos.
O mano Isidro deixou profundas saudades em todos os seus, que
lhe veneram a memória. Todos estão sendo dignos do pai e avô que
tiveram.

Alzira Maria Bezerra


Faleceu a 30 de dezembro de 1988, minha prima Alzira, em Teresina.
Era filha do Major Joaquim Pereira Bezerra e Maria Carolina Bezerra.
Passou a sua adolescência e mocidade numa década privilegiada de Pio
IX, de 1920 a 1930. Em 1925, na festa da Padroeira, em agosto, veio
o primeiro automóvel a Pio IX. Era do senhor Joaquim Arraes.
Logo em setembro do mesmo ano, o Pai de Alzira, comprava um
caminhão Federal Naity e meu tio um automóvel Ford.
Era uma época de progresso.
Alzira era encarregada de botar para todo o povo os discos na vitrola
do irmão Heli. Tendo nascido na riqueza e com boa situação econômica,
isso não influiu na sua formação moral, espiritual e comportamento.
Vestia-se bem. Seus vestidos eram feitos em Fortaleza e Teresina,
mas conservou sempre a simplicidade, que permaneceu com ela enquanto
viveu.
Casou-se com José Gomes de Alencar, Zezinho, de Várzea Alegre,
CE.
Ele foi Juiz de Direito, leigo, da Comarca de Pio IX, vereador na
mesma cidade em várias legislaturas, homem de coragem, sempre soube
resolver situações difíceis com inteligência e valor; é uma figura humana
de ricas qualidades, leal e bom, constituindo um privilégio tê-lo como
amigo.

87
O s f il h o s d o c a s a l:
Maria Núbia Simões Bezerra de Alencar, no episcopado de Dom
Augusto Alves, primeiro bispo de Picos, Diocese a que pertence a Paróquia
de Nossa Senhora do Patrocínio de Pio IX, houve grandes transformações
em sua pastoral.
Núbia foi uma das líderes dessa renovação. Explica o evangelho,
faz homílias, dirige celebrações pelos defuntos, com o seu cristianismo
autêntico e progressista. Tem feito muito bem aos paroquianos de Pio
IX.
Casou-se com Júlio Simões Filho, pecuarista, com largo espírito de
justiça social.
Anadir Bezerra de Alencar, coordenadora do Complexo Escolar
de Pio IX. Grande educadora. Casou-se com o primo Antônio Alencar,
jovem que foi colaborador do irmão Francisco Alencar. Os caminhões
de sua usina não cobravam passagem de ninguém. Foi um bom comuni­
cador. Era uma fonte de informação entre a cidade e o sertão.
Neusa Bezerra de Alencar, professora. Sempre cuidou da parte social
da unidade escolar onde servia. Casou-se com o primo, Dr. J osé de Alencar
Neto, médico benemérito, a quem Pio IX muito deve. Foi ele prefeito
e fez boa administração. Neusa foi uma perfeita primeira dama, cuidando
dos pobres e da assistência social.
Joaquim Bezerra de Alencar, comerciante no Estado do Acre.
Inácio Bezerra de Alencar, funcionário federal.
Geraldo Bezerra de Alencar, secretário do Colégio Francisco Suas­
suna de Melo, de Pio IX.
Dr. Benedito Bezerra de Alencar, engenhciro-químico em Maceió-
Alagoas.
Disse Augusto Comte que os mortos governam os vivos. E verdade.
Eu sinto grande presença, cm minha vida, dos meus queridos mortos.

Antônio de Alencar Araripe


Conheci Dr. Araripe nos idos de 1933 em Pio IX, de passagem
para a sua fazenda CONDADO. Senti logo que tinha ganho nele um
grande amigo.
Cego de nascença, desejava sair de Pio IX para frequentar uma escola
especializada. Dr. Araripe me incentivou a executar este meu ideal dizendo:
“ se a família não concordar com sua ida, fuja para a minha casa em
Crato, que eu o encaminharei para um instituito” . Escreveu para o Dr.
Belizário Távora, no Rio de Janeiro, pedindo um lugar para mim no
Instituto Benjamim Constant, estabelecimento do Ministério de Educação
e Cultura, para a educação de cegos. O Dr. Belizário respondeu que

88
o Benjamim Constant estava fechado para obras, oferecia-me um lugar
na Sociedade Aliança dos Cegos.
A família se opôs que eu fosse, com medo que eu viesse a sofrer.
Quando fundou-se o Instituto de Cegos do Ceará, escreveu para o meu
irmão Isidro me enviar para lá. Recomendou-me ao Rotary Clube de
Fortaleza e colaborei na consolidação naquela grande obra de ensino espe­
cializado.
“Um transformador de regiões”
Casou-se com Donita, a grande companheira e colaboradora de sua
obra social! Quando começou a visitar Pio IX, a cidade não tinha telégrafo;
ele o conseguiu logo por intermédio de Juarez Távora. Incentivou os
parentes da mulher a estudarem. Promoveu a família, tanto a própria
como a de Donita, dando-lhes ambiente nas grandes cidades.
O humanista
Tratava bem todas as classes sociais. Nas rodas de calçadas do sertão,
orientava vigários, prefeitos e juizes do que deviam fazer para o progresso
daquelas comunidades. Dava gosto à noite se ver, em sua fazenda Condado,
como conversava com os trabalhadores, aconselhando-lhes a maneira de
viver melhor.
Hoje, quando há uma seca na fronteira do Piauí com o Ceará, os
açudes que abastecem d’água foram todos arranjados por ele. Do lado
do Piauí, o açude Cajazeiras, em Pio IX, e Barreiras, em Fronteiras;
e no Ceará, Poço de Pedras, em Campos Sales, e Várzea do Boi, em
Tauá. Era um grande homem.

89
Aniversário
Simeão Luna Machado

Ao mano Sebastião, que comigo aniversaria


Eu quis fazer um poema, Nossa mâe, a fazer queijos,
Pra nossa festa alegrar; Nós, a rondar a cozinha,
As palavras me faltaram Atrás da rapa queimada,
E eu tive de repensar. Bem cedo, de manhãzinha.

Eu insisti na procura, Caçadas de borboletas,


Pra alguma coisa escrever, Criação de passarinhos;
Mas só encontrei saudades E a enorme alegria,
De tudo que vou dizer: Quando encontrados seus ninhos.

Saudades de nossa infância, Nos passeios pelos campos,


Que nunca mais voltará; De manhã ou à tardinha,
Das águas do Batateiras, Com alegria alvoraçada
Dos poços do Jatobá! Colhíamos a bananinha.
Das partidas de pião Saudades da Araripe,
F. das gostosas peladas; Da Garganta, propriamente;
Dos nossos banhos de chuva, Das eternas farinhadas,
Correndo pelas calçadas. Brincando com aquela gente!
Das caçadas lá no Lobo, Saudades daqueles tempos,
Da Cascata, da Nascente, Do velho Manoel Palmeira,
Das festas da padroeira, De Isabel, sua filha,
Que tanto alegravam a gente! Das moças, a mais faceira.
Nossa casa, no Farias, Do “seu” Raimundo Curáu
Dentro dos canaviais; Com sua foice amolada,
Nossos alegres folguedos A derrubar jequeri
A sombra dos mangueirais! Pra queimar na farinhada.
Da garapa nos engenhos, Até do trabalho árduo
Dos pulos nas bagaceiras Que tínhamos de executar,
E dos gostosos balanços Com o fole aceso nas mãos
Nos galhos das ingazeiras. Para a saúva matar.
E da Carnaúba eu falo, Das caçadas de rolinhas
Com vontade de chorar; Com as nossas baladeiras,
Era o lugar mais bonito, Das esperas no barreiro,
Mais gostoso de morar. Passando tardes inteiras!
Tinha banhos no açude; Das nambus nas arapucas,
No riacho, pescarias! Das esperas pra jacu;
E o ajuntar dos bezerros, Dos fojos para preás,
Correndo nas pradarias. Das caçadas de tatu.

90
Como rae lembro de Tila, Hoje, completando anos,
Birro, Boim ejoaquina, Sessenta e tantos janeiros,
De Antônia e Madalena, Relembrei a nossa infância,
De Nenen e de Regina! Os nossos anos primeiros.
Saudades de todos eles, F. passando u’a vista em tudo
Que nossa infância alegraram; Que para trás foi ficando,
Quantos deles já se foram? Nâo controlei a emoção:
Quantos sâo os que restaram? Senti que estava chorando.

Fevereiro de 1988.
Meu sabiá
Simeão Luna Machado

Meu sabiá, na gaiola, É como algumas pessoas


Com seu cantar estridente, Que se acomodam na vida
Para a prisão não dá bola; E, achando as coisas boas,
Parece viver contente! Vão vivendo sem ter lida.
De manhã, quando lhe mudo Preferem cativas ser
A água e a velha comida, De um pedaço de pão;
Canta um pouquinho de tudo; Por isso, para viver,
Parece alegre com a vida! Já não sabem dizer não.
Com sua voz modulada Assim a vida se passa
Estala e alto assobia. Na gaiola da ilusão;
Na sua linda toada, Convivendo com a desgraça,
Gorjeia com alegria. A parte nenhuma vão.
Acostumado à prisão, Têm sua porta aberta,
Não quer mais a liberdade: Mas é triste verdade:
Tendo garantido o “pão”, Com medo da vida incerta,
Prefere a soledade! Desprezam a liberdade!
Se lhe deixo a porta aberta,
A sair, já nesta altura,
Com medo da vida incerta,
Olha mas não se aventura.

92
Documentos
para a história de Missão Velha
João Bosco André

A Paróquia de Missão Velha foi criada a 28 de janeiro de 1748,


tendo como primeiro orago Nossa Senhora da Luz, tendo sido mudado
o seu Padroeiro no ano de 1760, que ficou sendo São José, e foram
seus Vigários:
1?) Padre Gonçalo Coêlho de Lemos;
2'.’) Padre Manoel dos Prazeres Souza e Magalhães (em cujo Paro-
quiato foi construída a atual Matriz de São José);
3?) Padre José da Costa Calado;
4?) Padre José Ferreira da Costa;
5?) Padre José Gomes Barrêto ou de Sá Barrêto;
6") Padre Antônio Lopes de Macêdo;
7?) Padre Manoel Ferreira da Cruz;
8'.') Padre André da Silva Brandão (fundador da Irmandade do Santís­
simo Sacramento da Paróquia de São José em 21.04.1791);
9?) Padre Hypólito Pereira da Cruz;
10v) Padre Francisco Xavier de Vasconcelos Maltêz;
11?) Padre Gonçalo Bezerra de Brito;
12?) Padre Antônio Leite de Oliveira;
13?) Padre João Nepomuceno de Brito, que faleceu antes mesmo
de assumir as rédeas da Paróquia;
14?) Padre Ignácio Luiz de Melo;
15'.’) Padre Antônio Pinheiro Lobo de Menezes, serviu como coadjutor
do antecedente (era filho do Brigadeiro Leandro Bezerra Monteiro);
16?) Padre João Fernandes Vieira (eleitor na Confederação do Equa­
dor);
17?) Padre José Alexandre Correia Arnaud;
18?) Padre Joaquim José da Costa Caldas;
19?) Padre Francisco Benício de Carvalho;
20?) Padre José Modesto Pereira de Brito;
21?) Padre Antônio Pinheiro Lobo de Menezes, citado, que inven­
tariou os bens da Paróquia para a mesma ser entregue ao seu sucessor;
22?) Padre Félix Aurélio Arnaud Formiga (foi vigário de Missão Velha
durante 47 anos, de 1855 a 1902, quando faleceu a 28 de fevereiro. Homem
de um desprcendimento sem par, faleceu pobre, tendo como casa paroquial
a sacristia da igreja. Caridoso a toda prova, foi o enfermeiro dos coléricos
(pessoas acometidas pela cólera-mórbo no século passado), chegando o

93
seu espírito caritativo a tal ponto que, em 1877, por ocasião da grande
seca que assolou o nosso Estado, não tendo mais o virtuoso Vigário
Padre Félix sequer um vintém para socorrer aos famintos, desarmou a
sua própria rede de dormir e deu a uma mãe acompanhada de seus filhos
morrendo de fome, para que a vendesse e comprasse algo para matar
a sua fome e de seus filhos);
23?) Padre Pedro Esmeraldo da Silva;
24?) Padre Horácio Teixeira;
25?) Padre Francisco das Chagas Barros;
26?) Padre Monsenhor Antônio Feitosa (grande benfeitor de Missão
Velha, fundador e primeiro Diretor do Ginásio Paroquial e Escola Normal
de Missão Velha, onde os estudantes pobres estudavam às expcnsas do
mesmo);
27?) Padre Luiz Gonzaga Xavier;
28?) Padre Francisco Luna Tavares;
29?) Padre Luiz Martins Parente; e
30?) Padre Manuel Pereira Bezerra, atual.
Vale ressaltar a passagem de nomes importantes do clero cearense
e outras paragens, como coadjutores e cooperadores na labuta dos trabalhos
paroquiais, podendo-se citar os padres: Martinho de Luna c Melo; Frei
José Thomáz de São Bento (antigos missionários da Missão dos Cariris
Novos — 1816); Quintino Rodrigues de Oliveira e Silva, mais tarde 1?
Bispo do Crato; Carloto Fernandes da Silva Távora, mais tarde sagrado
Bispo de Caratinga-MG; José Castro Bezerra; João Francisco da Costa
Nogueira; Manoel Antônio Martins de Jesus; João Carlos Augusto; Joa­
quim Franklin Gondim; Manoel Furtado de Figueiredo; José Silvino Fer­
reira Lima; Vicente Pinto Teixeira; Manoel Raimundo Nonato Pita; Ma­
noel Cândido dos Santos; Nazário David de Souza Rolim; Paulino No­
gueira Oliveira Gondim; José Coelho da Rocha; Joaquim Alves de Olivei­
ra; Aluísio Rocha Barreto; Raimundo Nonato Dias; Ágio Augusto Morei­
ra; Davi Augusto Moreira; Silvino Moreira Dias; Neri Feitosa; José Leite
Sampaio; Nicolau Leite de Souza; José Jésu Flor; João Begon; Rubens
Gondim Lóssio; Osvaldo Rocha; Francisco Lopes Abath; Henrique José
Cavalcante; Manoel Rodrigues de Lima; Francisco Limeira; Emídio Leite
Cabral; Januário Campos; Hilário Leite de Macedo; João Damasceno
Penha; Francisco Tavares Arco-Verde; Semeão Macedo; Argemiro Rolim;
Isaac Antero Soares; Henrique Kleffner; Antônio Elfrink; Francisco Blie-
sale; Manoel Lemos de Amorim; José Ferreira Lobo (Padre Ferreirinha);
Manoel Duarte de Queiroz; Alzir Sampaio; Pe. Dr. Misael Gomes; Rai­
mundo Evangelista; João Antônio de Araújo; Raimundo Monteiro; Joa­
quim Severiano Vasconcelos de Maria.

Em 12. dez. 88.

94
A nova constituição
e a “Vacatio legis”
em matéria tributária
Dr. Luís Otávio Brígido Memória*

A ampliação do âmbito dc regulamentação da LEI COMPLEMEN­


TAR, na nova Constituição Federal, ensejará graves e imediatas repercus­
sões no nosso sistema tributário.
Anteriormente, previa a Constituição do Brasil, no seu art. 18, §
1?, que a legislação complementar teria incidência, apenas, quanto aos
conflitos de competência tributária entre a União, os Estados, o Distrito
Federal e os Municípios c regularia as limitações constitucionais ao poder
de tributar.
Na nova Carta Magna, o legislador constituinte tratou exaustivamente
da matéria tributária a ser complementada (art. 146, I, II e III, letras
a, b e c).
Ora, todos sabemos que a Constituição é a fonte primária, suprema,
magna, maior e superior do direito, que estabelece quais são as outras
fontes do direito, validando ou invalidando as normas jurídicas do sistema.
Aí o princípio da legalidade e o princípio da estrita legalidade, em matéria
tributária, assumem feição constitucional. Em matéria tributária, mais
que em outras, não somos obrigados a obedecer senão à lei e estritamente
ao que na lei se contém.
O inidôneo DECRETO-LEI e seus congêneres, como veículos de
criação ou majoração de tributos no regime da CF de 1967 e Emenda
n. 1/1969, hoje já não mais afligem o contribuinte. E se eles não mais
existem, porque extirpados pela cristalina fonte do novo texto constitu­
cional, seus reflexos atinentes aos tributos e respectivos fatos geradores
ou bases de cálculo não poderão se constituir direito anteriormente adqui­
rido, do Fisco. E que, inexistindo tais preceitos na nova Constituição
e sendo eles contrários à mesma, com a sua promulgação operou-se a
natural “ DE.SCONSTITUCIONALIZAÇÀO” dessas “elaborações le­
gislativas”.
Ademais, sendo as LEIS COMPLEMENTARES, na escala hierár­
quica estabelecida pelo próprio texto constitucional, uma das mais emi­
nentes e que está nos primeiros lugares, somente após a sua vigência
é que poderemos conhecer como serão estabelecidas as “normas gerais

:'Juiz de Direito cm Crato-CE.

95
em matéria de legislação tributária, especialmente sobre: a) definição de
tributos e de suas espécies, bem como, em relação aos impostos discrimi­
nados nesta Constituição, a dos respectivos fatos geradores, bases de cálcu­
lo e contribuintes; b) obrigação, lançamento, crédito, prescrição e deca­
dência tributários” .
Portanto, até que seja elaborada LEI COMPLEMENTAR que expli­
cite o que expressamente foi requerido pelo texto constitucional, nenhuma
coercibilidade poderá ser praticada pelo Fisco contra o contribuinte, mes­
mo àqueles inadimplentes e que encontram-se “sub judice”, posto que
operou-se a “VACATIO LEGIS” (vacância da lei).
Na atualidade, como poderíam os magistrados decidir sobre matérias
atinentes a obrigação, lançamento, crédito, prescrição e decadência tributá­
rios, se o Estado se governa pelos três órgãos do poder e, constitucio­
nalmente, pelo Executivo e pelo Legislativo, nesta matéria? Se não houve
legítima participação do Executivo e do Legislativo, atinente à elaboração
e sanção da LEI COMPLP3MENTAR, o Estado não manifestou a sua
lídima vontade.

96
Inaugurado o Centro de Pesquisas
Paleontológicas
da Chapada do Araripe

A cidade do Crato viveu uma grande festa, na manhã do dia 29


de outubro de 1988, quando foi oficialmente inaugurado o seu Museu
de Fósseis, integrante do Centro de Pesquisas Paleontológicas da Chapada
do Araripe — C.P.C.A., também oficialmente aberto naquele dia.
Trata-se de um local para conservação e classificação de todos os
tipos de fósseis existentes na região, estando as suas metas assim previstas:
• Proteger é preservar os depósitos fossilíferos da Bacia do Araripe
e regiões adjacentes, em observância ao disposto no Decreto-Lei n°.
4.416, de 04 de março de 1942.
• Organizar e manter um acervo fossilífero e exposições permanentes
ou temporárias.
• Executar e incrementar os estudos e pesquisas paleontológicas estrati-
gráficas da Bacia do Araripe e adjacências.
• Organizar e manter uma Biblioteca científica especializada.
•Promover e estimular cursos, palestras e excursões sobre a paleon­
tologia e geologia da Chapada do Araripe.
• Orientar e instruir a população local sobre a importância cultural
e o valor científico dos fósseis, imbuindo nelas o fundamento da
preservação.
• Criar uma infra-estrutura capaz de receber pesquisadores e estudantes
em paleontologia e outras ciências afins.
• Impedir a exploração ilegal e predatória de quaisquer tipos de fósseis.
Programação
As solenidades foram presididas pelo vice-governador do Estado,
Castelo de Castro. Houve, às 9h o lançamento da pedra fundamental
do prédio próprio do Museu, no bairro Mirandão. Depois, a inauguração
das atuais instalações, na Praça da Sé, no prédio histórico que foi a Câmara
do Crato no tempo do império, hasteamento das bandeiras, inauguração
de placas, discursos do Dr. Belfont Bastos, Diretor-Geral do DNPM;
do Prof. Cunha, representante do Prefeito; do Dr. Ferreira de Sousa
e do Vice-Governador. A seguir, lançamento do livro Perfil do Urânio,
com a palavra do Deputado Raimundo Bezerra; visita às instalações e
coquetel. As autoridades, cientistas, diretores da Nuclebrás e DNPM
de vários estados, técnicos etc. foram homenageados depois com um almo­
ço pela Chaves e Cia., no Clube Recreativo Grangeiro.

97
Presença de autoridades
Prestigiaram a inauguração do Museu de Fósseis do Crato, dentre
outros: o Vice-Governador Castelo de Castro; o Dr. José Belfont dos
Santos Bastos; Diretor Geral do DNPM; o Deputado Federal Raimundo
Bezerra; o Deputado Estadual Eudoro Santana; Secretário da Agricultura
do Ceará; e Prof. Francisco Cunha; representante do Prefeito Walter
Peixoto; o Sr. Laércio Vasconcelos, Presidente da Câmara Municipal do
Crato; o Dr. José Ferreira de Sousa, Diretor do Distrito n? 10; o Dr.
Leonardo Leopoldo Hangeon, Diretor do Primeiro Distrito; o Dr. Au­
gusto César, Diretor do 4°. Distrito.
Também presentes: Vandete Sampaio, Diretor do DEOF/DNPM;
Lincoln Malaquias Mendes, Chefe do Gabinete do DNPM; José Betimar
Melo Filgueiras, Chefe do Museu de Fósseis; Vicente de Paula Medeiros
Freitas, Presidente do CDMR (Paraíba); Hélio Senac, representante da
NUCLEBRÁS; Ângelo Vieira Treva, Chefe da Residência da CPRM;
Diógenes Almeida Campos, Assessor da Academia Brasileira de Ciências
e Chefe da Secção de Paleontologia do DNPM; Sara Cabral, representante
do Reitor da Urca etc.
O Museu de Fósseis do Crato pretende ser, no futuro, um dos mais
importantes centros de estudos geológicos do país e seus estudos poderão
revelar as verdadeiras riquezas que existem no subsolo do Cariri, abrindo
perspectivas de sua exploração para o futuro.
A sede própria terá seus trabalhos iniciados brevemente, dispondo
de instalações e equipamentos dos mais modernos.

98
Cearense de Missão Velha
lança livro em São Paulo
J. Lindemberg de Aquino

O cearense, onde chega, é um vitorioso, em qualquer ramo da ativi­


dade humana. Tal frase se adapta muito bem a Raymundo Farias de Olivei­
ra, filho de Missão Velha, no Cariri cearense, há mais de quatro décadas
residindo em São Paulo, onde hoje é Procurador do Estado e autor de
muitos livros.
Dominando, com extraordinária segurança e maestria a nossa língua,
Farias de Oliveira já lançou a lume: O COMÍCIO, crônicas, 1979; POE­
MAS DA MADRUGADA, poesia, 1982; PRECE AO VENTO, poesia,
1984; PARLAMENTARISMO, PLENITUDE DEMOCRÁTICA, estu­
dos, 1986; e agora vem de lançar HORÁRIO NOBRE, crônicas, 1988.
O último livro é uma deliciosa coletânea de crônicas, com sabor
e linguagem regionais, enfocando pessoas, tipos populares, assuntos, paisa­
gens e o cotidiano da capital paulista (Região de Santana) ou da Alta
Sorocabana (Presidente Venceslau) onde o autor morou muitos anos.
Obra preciosa, pelo conteúdo, linguagem sóbria e distinta, estilo
agradabilíssimo, que coloca Raymundo Oliveira em pé de igualdade com
os melhores cronistas do Ceará (Caio Cid, Moreira Campos, Milton Dias)
e até mesmo do sul do país, como Fernando Sabino e outros.
“Ele tem um estilo excelente, usa linguagem clara e fluente, dosando,
convenientemente, a erudição histórica, para não cansar o leitor, recor­
dando a melhor doutrina política, mas, sobretudo, apoiado na experiência
histórica concreta... ” (palavras de Gilberto de Melo, no suplemento Cultu­
ral, do jornal O Estado de São Paulo).
Raymundo Farias de Oliveira destaca-se, assim, no sul do país, hon­
rando as melhores tradições de inteligência e bravura do cearense, que
abre caminho com tenacidade, teimosia e lucidez.

99
FAZ UMA GRANDE DIFEREM
0 mesmo banco que vem honrando
seu compromisso como
desenvolvimento do Nordeste está
sempre com você e sua empresa
como banco de negócios.
Moderno e dinâmico no atendimento
a seus clientes, o Banco do Nordeste
promove e financia a Regiáo.
através do crédito rural, industrial,
comercial e para infra-estrutura,
bem como custeando pesquisas e
difusão de tecnologias inovadoras.
Ao mesmo tempo em que cumpre
sua missão como banco de
desenvolvimento, o BNB oferece
também agilidade no crédito e
cobrança, cheque especial com
aceitação garantida e conta
remunerada com máxima
rentabilidade, operando com igual
eficiência os demais produtos
e serviços de ponta do mercado
bancário.
Portudoisso.fazumagrande
diferença trabalhar como BNB.
É por ele que passa todo o
desenvolvimento do Nordeste.

f r n # 7 B A N C O D O N O R D ESTE
L J éJ L / d o b r a s il s .a .
Governo Federal Tudo pelo social.
Mordomias
Raymundo Farias de Oliveira

No estudo das palavras, no curso dos tempos, às vezes nos defron­


tamos com verdadeiras preciosidades pelo que de cômico e trágico se
desenha nas mutações por elas sofridas nas suas significações. Cada época
tem sua linguagem, seus termos, sua gíria. Antigamente “cara” era parte
do corpo; agora, é o corpo inteiro, às vezes com alma e tudo, como
quando se diz, por exemplo: o “cara” é bom de violão... Assim, é perfeita
hoje a concordância quando alguém diz: vou quebrar o “cara”, isto é,
vai quebrar o fulano por inteiro, coitado, e não apenas o rosto...
Mordomo — do latim “ major” (maior) e “domus” (casa) era o chefe
dos criados de um soberano ou de uma casa de grande Estado; era o
encarregado de preparar e dirigir uma festa de igreja, ou ainda, o antigo
oficial de justiça encarregado de citações e execuções; também era mordo­
mo aquele que administrava bens de confrarias ou irmandades.
Mordomia era então a atividade exercida pelo mordomo. Tal era
sua importância que foi institucionalizada. Havia uma repartição de casa
real encarregada das despesas da mesma casa e a organização das recepções.
Chamava-se Mordomia-Mor a tal repartição que, obviamente, não podia
ser chefiada por qualquer um. Era dirigida por um fidalgo. Quem susten­
tava os custos? Isso é outra história. Que digam as almas dos súditos
e escravos da época.
Os reis e imperadores caíram, em sua grande maioria. As mordomias
não, que ninguém é de ferro. Continuam resistindo às reformas sociais
e políticas no mundo inteiro, resistindo até a revoluções!
Entre nós, o furor das mordomias tem variado no tempo e no espaço.
A situação econômico-financeira dos homens públicos que ocupam cargos
públicos também costuma seguir o diapasão das mordomias. Mera coinci­
dência. Há, evidentemente, exceções — os “franciscanos” de todos os
tempos, graças a Deus.
Assim, cansado dos noticiários atuais sobre mordomias, verbas de
representação e eufemismos do gênero, resolvi dar uma olhadinha na
história da vida pública dos homens da primeira república. Mera curiosi­
dade. Sorteei um: Manoel Ferraz de CAMPOS SALLES, daí o nome
de tantas ruas deste País, depois de ter sido vereador em Campinas, depu­
tado na Província e na Corte, Presidente do Estado e Presidente da Repú­
blica, possuindo três fazendas, lá pelas bandas de Campinas e São João
do Rio Claro (Rio Claro, hoje), após deixar o mais alto cargo da República,
escreveu ao mano Quinzinho, em 19 de janeiro de 1904, pedindo seu
apoio numa operação de crédito que pretendia realizar junto ao Banco
Comércio e Indústria. Naqueles tempos, a febre amarela andou matando

102
muita gente. Em 1888, foi a vez do jovem José Maria, filho de Campos
Salles, sepultado lá mesmo no Rio.
Ao final de seu mandato presidencial, palácio deserto como costuma
ser em todos os tempos, Campos Salles escreve a D. Anninha, sua esposa:

Gabinete do Presidente da República.


Rio de Janeiro, 12 bro. de 1902.
Anninha.
“Fui hoje pela manhã despedir-me do nosso querido morto. Às 6
da manhã fui a palácio e colhi algumas rosas das roseiras que v. plantou
e coloquei-as sobre seu túmulo. Fiz assim v. comparticipar de minha
despedida. Abraça-o o seu Campos Salles”.

Era o tempo em que as primeiras damas plantavam roseiras para


que os maridos colhessem rosas e as destinassem a quem quisessem. Como
era romântico. Ah, as mordomias daqueles tempos!...

N. R. Raymundo Farias de Oliveira é


escritor e jornalista cearense, de Missão
Velha, Procurador no Estado de São Pau­
lo, onde reside.

103
Wellington Alves
lança livro em Crato

Realizou-se na seda da Sociedade Lírica do Belmonte, no Lameiro,


em Crato, a solenidade de lançamento do livro NOSSOS MOMENTOS/3,
de autoria do médico e poeta Wellington Alves de Sousa.
O Pe. Ágio Moreira, diretor da Sociedade, presidiu o cerimonial
e anunciou a palavra do médico Miguel Newton Arraes, para fazer a
apresentação. O mesmo tece palavras elogiosas ao Autor e à sua obra,
que foram analisados com grande felicidade e erudição, pelo Dr. Miguel
Newton.
A seguir a Orquesta Pe. David Moreira executou três números em
homenagem a Dr. Wellington e aos presentes. O poeta,por fim, falou
emocionado do seu reencontro com o Crato e sua gente, agradeceu a
presença e a participação de todos e passou a autografar o livro.
Duas centenas de pessoas estiveram presentes, adquirindo o livro,
cujo resultado da venda ficou para a Sociedade Lírica do Belmonte. Houve
um distinto coquetel para encerrar essa festa literária de rara beleza e
distinção.

Dr. Miguel Newton Arraes de Alencar


Apresentando “Nossos Momentos” de Wellington Alves
Honrado com o convite para fazer a apresentação, em nossa terra,
de “ NOSSOS MOMENTOS”, do Dr. Wellington Alves, senti-me, a
um só tempo, lisonjeado e temeroso. Lisonjeado, porque nada mais gratifi-
cante do que testemunhar o talento, a inteligência, a criatividade de quem,
como Tonton, esteve e está sempre presente em nosso quotidiano. Teme­
roso porque, de imediato, assalta-me a dúvida! A quem homenagear?
O psiquiatra brilhante, que soube se sobrepor à amargura do exílio
e conquistar o título de Assistente Estrangeiro da Faculdade de Medicina
da Universidade de Paris?
O político destemeroso, cujo ânimo não se arrefeceu diante das puni­
ções que lhe foram impostas?
O poeta consagrado, que nos brinda com mais uma obra em cujas
páginas fulgura o dom da criatividade?
O esposo fidelíssimo e apaixonado que, a cada verso, deixa transpa­
recer o grande amor pela companheira invulgar?
O pai carinhoso? O filho amantíssimo?

104
O amigo certo de todas as horas, que nunca nos faltou com sua
atenção, sua bondade excelsa, mesmo naqueles momentos em que as pres­
sões, enormes e injustas, violentaram, muitas vezes, a natureza humana?
Fácil seria louvar tantas pessoas assim, de por si. Difícil para mim,
no entanto, é fazê-lo quando todas essas pessoas são, a um só tempo,
em um só momento, a mesma, que consegue amalgamar com a grandeza
do seu amor e seu caráter sem jaça, tantas virtudes.
Virtudes que contaminam toda sua obra, quando o poeta exalta o
amor maior à esposa, aos filhos, pais, irmãos, amigos, como tão bem
registrou Moreira Campos ao prefaciar “Nossos Momentos”.
Mas, a sensibilidade do poeta não se exaura aí. Tudo diante dele
se anima, ganha cor, luz, som, movimento, numa construção caleidos­
cópica do mundo. Assim, é que o poeta dialoga com as cidades:
Fica Paris, eu vou partindo...
Não deixe que as saudades acumuladas
rne atormentem a alma num instante só.
Que elas cheguem vagarinho,
Uma de cada vez,
de mansinho como a mulher-amante
Conversa com seres inanimados, como no “Diálogo com minha má­
quina de escrever” :
Você chegou com sua cor vermelha
e começou a fazer parte de meu sangue
das idéias que se conjugam no coração e no cérebro
e se materializam pra alguém numa mensagem.
Ou, ainda, com a emoção desatada, nas ruas de Santiago de Cuba,
impregnadas do sangue dos bravos irmãos cubanos, liderados pelo legen­
dário Ché, evoca o herói das Américas:
Senti sua presença, querido guerrilheiro,
quando andei nas trilhas libertárias nas
sendas solitárias
De nossa Cuba sempre amada...
A preocupação com o tempo, a angústia cósmica, que atormentou
tantos poetas, não poupou o bardo cratense. O poeta mobiliza todo o
seu engenho e arte para apriosionar em versos límpidos — e o faz de
modo inimitável — o instante fugaz, tão bem definido nesses versos de
Fernando Pessoa:
“Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como
ontem se sentiu: sentir hoje o meso que ontem não é sentir — é lembrar
hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi
a vida perdida”.

105
A aproximação da poesia de Wellington Alves à de Fernando Pessoa
é inevitável, pois as vidas dos poetas verdadeiros — que possuem o dom
da universalidade, têm muito em comum. Exemplo curioso — o ponto
de contacto entre os dois — é esta auto-análise de Fernando Pessoa:
Estou num dia em que me pesa, como uma entrada no cárcere,
a monotonia de tudo. A monotonia de tudo não é, senão, a mono-
tomia de mim. Cada rosto, ainda que seja o de quem vimos ontem,
é outro hoje, pois que hoje, não ó ontem. Cada dia é o dia que
é, e nunca houve outro igual no mundo.
Do mesmo modo o tédio, a monotonia incomodam o poeta cratense
como, em “Tardes de Domingo”, quando extravasa seus sentimentos:
Tédio...
Inutilidade...
Momento inútil do meu tempo...
Nas tardes de domingo
O vazio enche a tarde
e a minha vida
atormenta a espera
projeta a tristeza
dimensiona a lágrima
eterniza o luto
trazendo a melancolia
e a nostalgia
pra fazerem companhia
à minha solidão...
Wellington Alves — poeta universal!
Tudo o que aqui foi dito não teria o menor sentido se não falasse
na razão de ser da obra do poeta — não a musa, palavra desgastada,
pobre para tanto traduzir, mas a fada que também cruzou o meu caminho,
e deixou a marca indelével de seu carinho — FÁTIMA.
Não me lembro quando a conheci porque, quando encontramos a
bondade, de tão rara, apegamo-nos a ela, sepultamos a lembrança dos
infortúnios, e ficamos com a impressão de que ela sempre esteve ao nosso
lado.
Nunca ouvi de Fátima um lamento, uma palavra de exasperação.
Vezes muitas parei à porta do meu consultório — que confrontava com
o seu, afogado em problemas, sem ânimo para reiniciar a atividade profis­
sional. Abria a porta do seu consultório e encontrava o mesmo sorriso,
a alegria, o otimismo, a paz, que me davam forças para continuar o
difícil exercício da psiquiatria.

106
Os bons se atraem. Tonton, é, assim, um privilegiado. Como privile­
giados foram aqueles que, felizes, exortaram as vantagens da união, desde
os tempos bíblicos:
Melhor é, pois, estarem dois juntos, do que estar um só, porque
têm a vantagem da siia sociedade. Se um vai cair, o outro o sustentará;
ai do que está só, porque quando cair, não tem quem o levante.
E se dormirem dois juntos, aquecer-se-ão mutuamente, mas um
só como se há de aquecer? E, se alguém for mais do que um só,
dois resistem-lhe; o cordel triplicado dificultosamente se quebra.
Aí está o casal exemplar, semeando amor e bondade, que hão de
sc perpetuar em Wellington Filho e Bruno, para se cumprir o ciclo do
mistério da vida, que faz o homem curvar-se diante da onipotência do
desconhecido e acreditar na existência de DEUS.

Palavras pronunciadas na Sociedade Líri­


ca do Belmonte, em Crato, em 08.10.88,
quando do lançamento do livro NOSSOS
MOMENTOS.

107
Escritor denuncia:
Estão destruindo a autenticidade
do Caldeirão

O escritor pernambucano Cláudio Aguiar, autor de inumeráveis


obras, inclusive para cinema, teatro e TV, em visita ao Crato, trouxe
consigo o professor André, também de Pernambuco.
Veio a dupla em visita a Juazeiro e Crato e foi até à localidade
de Caldeirão, sítio entre os distritos de Santa Fé e Dom Quintino, em
Crato, local célebre onde atuou o famoso Beato José Lourenço, protago­
nista de uma das maiores tragédias rurais do Nordeste, cuja comunidade
foi destruída, e até bombardeada (1926) numa ação conjugada das autori­
dades, polícia e proprietários rurais.
Estão destruindo a autenticidade do Caldeirão, disse Cláudio Aguiar,
ele que é autor de um famoso livro sobre essa saga sertaneja, de sucesso
internacional até no Teatro.
Cláudio Aguiar revela que um incêndio (broca) destruiu muita cousa
nos arredores, até o engenho totalmente de madeira, engenho velho aban­
donado, do tempo do beato, que ficou em cinzas. E agora há o projeto
de um açude que poderá cobrir o restante da Vila, acabando com esse
trecho do patrimônio histórico do Nordeste, localizado em Crato.
Apelo
O conhecido escritor faz apelo à Universidade Regional do Cariri,
à Prefeitura do Crato, às nossas instituições culturais, à Secretaria de
Cultura Violeta Arraes e a todos os que, de um modo ou de outro,
estão ligados à preservação da memória histórico-cultural da região, para
impedirem a ação predatória sobre o Caldeirão, que, a seu ver, deveria
ser restaurado tal qual na época, por se constituir num pedaço bem vivo
da recente história rural do Nordeste.

108
Recebendo
meu filho na Academia
A luísio N apoleão

NOTA INTRODUTÓRIA:
O discurso que abaixo publicamos foi pronunciado
pelo Acadêmico Aluísio Napoleão de Freitas Rego,
embaixador, ocupante da Cadeira n? 11, na Acade­
mia Piauiense de Letras, saudando o seu filho, Hugo
Napoleão do Rego Neto, Ministro da Educação, que
se empossava na mesma Academia, Cadeira n? 9.
Sessão solene, tendo como local a Associação Co­
mercial Piauiense, em 09 de março de 87.
Orações publicadas na Revista
da Academia Piauiense de Letras. 1987.

Aqui, neste cenáculo augusto das letras piauienses, surge, neste mo­
mento, uma situação singular: a de um Pai, acadêmico, recebendo seu
filho nesta Academia. Irei falar sobre este ser, na presença de sua mãe,
evocando seu nascimento no dia 31 de outubro de 1943, em Portland,
Oregon, Estados Unidos da América, quando uma das mais belas enfer­
meiras do Wilcox Memorial Hospital, mais bela ainda por me trazer a
noticia do nascimento de meu filho, às 2 e meia da madrugada, me disse,
como um anjo bom: “ O senhor teve um filho, senhor Napoleão. Um
grande menino” . Outra enfermeira o trouxe nos braços, inundando-me
de emoção. Fui ver, em seguida, minha esposa, pensando nos entes queri­
dos que deixáramos na pátria distante. Telegrafei logo aos meus pais,
dando a notícia alvissareira. Mais tarde, telefonei para o Rio de Janeiro,
falando, muito comovido, com meus pais, de uma cidade próxima ao
Oceano Pacífico para outra diante do Oceano Atlântico, de Portland,
onde eu era vice-Cônsul do Brasil, para o Rio de Janeiro. E tive a maior
surpresa: foi a ligação mais nítida, límpida que podia imaginar, como
se falássemos na mesma cidade. Somente aqueles que viveram fora de
seu país, como os diplomatas, podem aquilatar o significado intenso desse
momento, a perfeita comunhão na distância, que a saudade aumentava.
Como vêem, meu caro Presidente e prezados colegas, não poderia este
discurso, por todas essas razões, ser mais diferente daqueles que são pro­
nunciados de acordo com as praxes acadêmicas.
Quando passamos a residir em Washington, de 1944 a 1949, o nosso
filho, ao qual demos o nome de Hugo em homenagem ao avô paterno,
foi, muito cedo, matriculado na Maret School, entrando em contato com
seus colegas e revelando imediatamente sua capacidade de fazer amigos,

109
que convidávamos sempre para as festas de Natal em nossa casa da Rua
Q, em Georgetown. Quando completou um ano, meus pais (Hugo Napo-
leão do Rego e Matilde de Freitas Rego) foram a Washington para conhecer
o neto, ocasião em que andou, pela primeira vez, na direção do avô,
que o acolheu de braços abertos. Meu filho tem, em sua casa, o tapete
sobre o qual fez essa primeira caminhada, que lhe demos de presente,
como recordação da cena. Foi, tal a impressão que o avô causou que,
aos 2 anos, ao levá-lo ao Rio de Janeiro, onde residiam os avós, quando
o avião pousou em Belém e ao dizer-lhe que estávamos pisando no solo
do Brasil, perguntou-nos, fazendo-nos rir: “ Se isso é Brasil, onde está
o V ovô?...”
Quando Hugo completou 5 anos, deixamos Washington, indo morar
no Rio de Janeiro, onde, como diplomata, assumi minhas funções no
Ministério das Relações Exteriores. Teve ele, assim, o primeiro contato
com as nossas famílias, convivendo com os avós, os tios e os primos,
encantado com esse mundo de parentes que desconhecia até então. Com ­
pletando esse contato com a família, nós o trouxemos, mais tarde, ao
Piauí, para assistir conosco, em 1950, a posse de meu tio Pedro de Almendra
Freitas no governo do Estado. Ficou de tal modo feliz com esses encontros
com os familiares que, ao irmos para Paris, em 1951, sentiu grande falta
do aconchego brasileiro. A essa altura, já falava quatro línguas estrangeiras:
o espanhol, o francês, o italiano, o inglês e, claro, o português, tal a
versatilidade que demonstrou desde a mais tenra idade. Em 1953, ainda
em Paris, chegou para nós, seus pais, o momento mais difícil de nossa
vida, o momento de uma decisão que muito nos custou e que atinge
e marca aqueles que servem seu país no exterior, o da separação, pois
Hugo já estava na idade de começar seus estudos no Brasil. E que eu
havia sido transferido para Ancara, capital da Turquia, país de língua
exótica, em pleno Oriente Médio convulsionado pelos conflitos seculares.
Que fazer? Minha mãe, nessa ocasião, foi visitar-nos em Paris e deveria,
depois estar em Roma com minha irmã, casada com um diplomata. Decidi­
mos, a duras penas, que Hugo acompanhasse a avó paterna, ficando aos
cuidados de meus pais no Rio de Janeiro, onde deveria continuar seus
estudos. Essa decisão, difícil e dolorosa, como disse, teve, também, a
intenção de evitar que se tomasse, como muitos filhos de diplomatas,
desambientados em sua própria pátria. Como a separação estivesse afetan­
do profundamente o sentimento materno, em que as lágrimas eram perma­
nentes, propus, em certo momento de grande emoção, fazê-lo voltar,
mas minha esposa foi sublime, ao dizer-me que a vinda do nosso filho
para o Brasil era para o seu bem, assim estava pensando no seu futuro.
E assim ficamos, na solidão do Planalto da Anatólia, até 1955, quando
regressamos à pátria e pudemos retomar o convívio e a educação do Hugo
até 1961, época em que servi na Presidência da República, o que nos
permitia ficar no Brasil. Pudemos, então, acompanhar a evolução de sua
educação e dar-lhe a assistência de que carecia, até os 18 anos, quando

110
passou, novamente, a ficar sob a guarda de meus pais, encantados com
a sua presença cm sua casa. Antes de minha partida novamente para o
exterior, meus pais troxeram toda a família ao Piauí, a fim de visitar
sua terra e rever seus parentes e amigos, pois, apesar de viverem na capital
da República há alguns anos, jamais deixaram de trazer os filhos e os
netos ao Piauí e de evocar para nós, constantemente, sua terra natal,
União e Livramento (hoje José de Freitas). Foi nessa ocasião que pude
realizar pesquisas c escrever na casa do meu tio Antônio de Almendra
Freitas o livro “Meu Avô José de Freitas”, que agora em segunda edição,
graças à iniciativa do então Secretário de Cultura, Desportos e Turismo,
Jesualdo Cavalcanti, terei a honra de autografar hoje em Teresina.
Foi, pois, a partir dessa época, que Hugo, ficando novamente com
meus pais, começou a realizar viagens mais demoradas e periódicas e
freqüentes ao Piauí e, da convivência com seus avós, nasceu esse seu
acendrado amor pelo Piauí, despertado pelo convívio com a terra e os
piauienses, integrando-se ardorosamente em sua vida, num verdadeiro
mergulho nas suas origens, que envolveu e impregnou seu espírito, passan­
do a ter como seu grande objetivo, a defesa, o bem-estar e o desenvol­
vimento deste Estado, como atestou o Novo Tempo inaugurado cm seu
governo, aprovado pelo povo piauiense, ao elegê-lo com a maior votação
nas recentes eleições senatoriais, e fazendo-o, assim, seu representante
na Assembléia Nacional Constituinte. Seguiu, dessa forma, os passos do
primeiro Hugo Napoleão do Rego, constituinte de 1933-1934, que foi
eleito 5 vezes para representar o povo piauiense na Câmara dos Deputados,
num longo período, que vai de 1927 a 1959, interrompido apenas pelos
hiatos que entrecortaram a vida republicana. Meu Pai foi sempre um
defensor dos ideais e interesses piauienses, vigoroso, firme, sem hesitação,
não deixando nunca que sua cor política interferisse nos seus atos, quando
as medidas propostas beneficiavam a comunidade piauiense, exemplo esse
seguido pelo neto, que sempre colocou o Piauí acima de tudo nas suas
lutas políticas, numa verdadeira vocação que o avô soube perceber com
argúcia, num convívio cultural em que a Política e o Direito eram motivos
diários de conversa e troca de idéias. Esse convívio só cessou em 1965,
quando meu inesquecível Pai faleceu e o neto o substituiu na direção
dos negócios da família, cuidando da avó, até 1980. Meu Pai ainda chegou
a tomar conhecimento de um fato que lhe deu grande alegria, ao ser
informado que a Congregação da Faculdade de Direito da Universidade
do Brasil havia votado um ato de louvor ao jovem estudante da Pontifícia
Universidade Católica e Presidente do Diretório Acadêmico, Hugo Napo­
leão do Rego Neto, ao declarar que ele deveria constituir um exemplo
a ser seguido pelas futuras gerações de colegas. Também, antes de falecer,
meu Pai teve outra alegria, ao ler esta notícia, publicada no Jornal do
Brasil do dia 8 de maio de 1965, em que o Piauí era citado com destaque.
Dizia o Jornal do Brasil, por ocasião da visita do Xá do Irã, Mahomed
Reza Pahlevi, ao Brasil, ao ser recebido na Universidade do Brasil pelo

111
Magnífico Reitor Pedro Calmon: “Após esta rápida cerimônia (da inaugu­
ração do busto do filósofo persa Avicena), o Xainxá Reza Pahlevi cumpri­
mentou o estudante Hugo Napoleão do Rego Neto, filho do Embaixador
brasileiro no Irã e Presidente do Diretório Acadêmico de Direito da Ponti­
fícia Universidade Católica, perguntando-lhe se ele já havia terminado
a série de reportagens sobre o Irã, que estava publicando num jornal
do Piauí. O senhor Hugo Neto respondeu-lhe afirmativamente. Em segui­
da, o Imperador foi conduzido ao Salão Nobre” .
Nessa época, Hugo já se interessava intensamente pela história
piauiense, através de estudos, pesquisas e artigos que escrevia para o “O
Dia” c o "Jornal do Piauí”, enviando-nos sempre os recortes desses órgãos
da imprensa de Teresina. Nas 3 vezes em que estive servindo meu país
no exterior, a última como Embaixador no Irã, na Suécia e na China,
mantivemos uma correspondência ativa, semanal, com meu filho, ininter­
rupta, que era a maneira de estarmos juntos em espírito, embora separados
pela distância. Essa correspondência, sem falha, composta de vários volu­
mes, está guardada nos nossos arquivos, que contêm documentos que
serão indispensáveis para os futuros estudos da História do Piauí. Hugo
demonstrando, assim, sem rebuços sua vocação para a vida pública foi
orador de sua turma no Colégio Padre Antônio Vieira, tanto no Curso
Ginasial como no Científico e Clássico, sob a direção do grande educador
Décio Werneck. Ao ingressar na Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro, Hugo foi eleito Vice-Presidente, no lí ano, e Presidente,
no 2í ano, do Centro Acadêmico Eduardo Lustosa, tendo sido eleito
orador de sua turma em 1967, quando falou no Teatro Municipal do
Rio de Janeiro, por ocasião da formatura com as dependências completa­
mente lotadas de estudantes e suas famílias, sob os aplausos frenéticos
da assistência, pois defendia a democracia e o Estado de Direito.
Logo depois de formado, teve Hugo um convite excepcional, o do
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, já fora do poder, para ser
Consultor Jurídico do Banco Denasa. O jovem advogado acompanhou-o
durante todo o período de ostracismo, nos mais difíceis momentos de
sua vida pública, tendo tomado parte em reuniões com os grandes juristas
da época, como Sobral Pinto, Cândido de Oliveira Neto, Evaristo de
Morais Filho e Victor Nunes Leal, de cujo escritório de advocacia passou,
depois, a fazer parte. Em Estocolmo, recebi uma carta do Presidente
Kubitschek, datada, do Rio de Janeiro, aos 12 de junho de 1972, na
qual dizia, entre outras palavras lisonjeiras: “Estou conseguindo realizar
o milagre de ser amigo de três gerações na mesma família — avô, o
pai e o filho”. Acrescentava: “Nos temporais que me assaltaram, de oito
anos para cá, pude sentir, vibrando na mesma intensidade de sentimentos,
amigos que nunca me faltaram e que me auxiliaram nas boas horas de
vitória assim como nos momentos difíceis e amargos”. Cito, ainda, este
trecho sobre o Acadêmico que estamos recebendo hoje nesta egrégia Casa:

112
“Tendo você viajado, presenteou-me com a permanência ao meu lado
o seu filho Hugo que tem sido uma verdadeira revelação de cultura,
inteligência e caráter. Está ele seguindo a vocação histórica da família,
voltando-se para o Piauí, em cuja representação nós esperamos vê-lo breve,
no Congresso de Brasília”.
Daí para cá, todos conhecem a trajetória do jovem político, que
teve o apoio de Petrônio Portella, com quem conviveu estreitamente,
e do seu partido: duas vezes eleito Deputado Federal, depois Governador
do Piauí, chega, agora, ao Senado com sua pujante juventude aos 43
anos, para dar o melhor de sua já longa experiência, apesar da idade,
ao seu Estado e ao seu país, na Assembléia Nacional Constituinte, da
qual tanto esperam os brasileiros. E ningúem se ésqueceu, estou certo,
da atitude do Governador Hugo Napoleão, pois seu gesto já faz parte
da história recente do Brasil, ao decidir comunicar ao então Presidente
João Figueiredo, gesto que teve grande repercussão na imprensa de todo
o país, que, levando em consideração as aspirações do povo que governava
e os anseios do povo brasileiro, votaria em Tancredo Neves e José Sarney
para Presidente e Vice-Presidente da República. Foi um momento alto
da democratização do país, tudo empolgado pela pregação fervorosa do
fundador da Nova República.
A sua atividade jornalística e de historiador, já postas em relevo
com a publicação de “Fatos da História do Piauí”, seguiu-se sua ação
parlamentar, tão fecunda que apenas extratos de seus numerosos discursos
deram 11 publicações, revelando-se um exímio orador, cultor da boa
linguagem, das idéias claras e dos ideais democráticos, das conquistas
atuais da sociedade, sempre com expressões tersas, em que o pensamento
era exposto com concisão, com alguns floretos da mocidade que lhe davam
uma forma literária graciosa, encantando os ouvintes, quer nas reuniões
fechadas, quer na praça pública, em que mostrou recursos de orador
de massas, ao expor seus pontos de vista, jamais atacando os opositores,
defendendo-se com elegância das acusações feitas por alguns adversários
sem espírito, pois ningúem é mais tolerante em relação ao próximo, quando
revela sua superioridade moral, sua conduta profundamente cristã, seu
senso de educador político, do qual não se afastou durante todo o período
à frente do governo piauiense.
Professor, também muito jovem, Hugo demonstrou um interesse
precoce pela cultura, tendo tido sempre grande respeito por esta Academia
e pelos autênticos valores da literatura piauiense, de que sois os esclarecidos
guardiães, sob a Presidência desta eminente figura, que é o Professor
José de Arimathéa Tito Filho.
Como Governador do Piauí, colocou sua força jovem a serviço da
comunidade, como acentuei no meu discurso de posse nesta Academia,
tendo tido a fortuna de ser compreendido e auxiliado com competência
pela sua equipe governamental, não desejando eu deixar de mencionar

113
sua fiel companheira Tânia Luiza Mascarenhas Napoleão do Rego que,
em sua ação esclarecida na Comissão de Assistência Comunitária, mostrou
vocação para o serviço social, recebendo, pelo que realizou, o título de
Cidadã Piauiense. Não é demais pôr em relevo que o governo de Hugo
Napoleão Neto caracterizou-se por atividades profícuas, tendo ultrapas­
sado graves momentos de dificuldades, em virtude das secas e enchentes,
procurando minorar os sofrimentos do povo com sua ação pessoal e direta
assistência às vítimas, em momentos de aflição coletiva.
Por fim, desejo fazer uma revelação — e aqui fala o historiador,
ainda desconhecido dos piauienses, no momento em que, pela primeira
vez, traço estas linhas da biografia de Hugo Napoleão do Reto Neto,
nesta oportunidae feliz e após o que tanto já realizou sua mocidade radiosa:
não sou o seu único ascendente na diplomacia. Pelo lado de minha esposa,
aqui presente, Hugo descende de Raymundo Nonato Pecegueiro do Ama­
ral, seu bisavô, diplomata que se consagrou inteiramente à obra do Barão
do Rio Branco na pasta das Relações Exteriores, como seu íntimo colabo­
rador, de 1902 a 1910, no ingente labor do Chanceler no Itamaraty,
com seu avô materno, Edmundo Quinto Alves, e seu tio-avô Henrique
Pecegueiro do Amaral. Grandes trabalhadores, o Chanceler e seu colabo­
rador, varavam noites em atividades patrióticas, tendo o Barão demons­
trado seu apreço por Pecegueiro do Amaral, ao fazer-lhe a caricatura,
descoberta por Afonso de Carvalho e publicada em seu livro “Rio Branco”,
no qual foi também reproduzida uma fotografia do então Ministro das
Relações Exteriores, na qual figura Pecegueiro do Amaral ao lado dos
maiores intelectuais da época: Euclides da Cunha, Graça Aranha, Barão
Homem de Melo, Domício da Gama, Afonso Arinos (o primeiro), Gastão
da Cunha e Araújo Jorge.
Não menciono a ascendência do novo Acadêmico com o espírito
de nepotismo, que não tenho, pois sigo o exemplo de meu Pai, que
se fez pelo esforço próprio. Ele sempre considerou, como considero,
que somente honram seus antepassados aqueles que realizam, pela sua
atividade, pela sua inteligência e pela sua capacidade pessoal, as obras
que lhe dão merecimento. Não desejo concluir sem demonstrar a honra
de estar, neste momento único para mim, nesta Academia, com meus
colegas acadêmicos, nesta hora que considero solar para minha família,
assistindo à consagração de Hugo Napoleão do Rego Neto pelo mais
elevado cenáculo das letras piauienses.

114
Leão Sampaio
Paes de A nd rade *

Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Vitimado por complicações cardíacas, morreu, no último final de
semana, no Hospital Santo Inácio, na cidade de Juazeiro do Norte, situada
no chamado Vale do Cariri, em meu Estado, o Ceará, o médico oftalmo­
logista Leão Sampaio, deputado federal durante quarenta anos, com o
privilégio de haver assinado três constituições da República — as de 34,
46 e 67.
Nascido a 6 de fereveiro de 1897, filho de José de Sá Barreto Sampaio
e Maria Costa Sampaio, o doutor Leão Sampaio era casado com a senhora
Odorina Castelo Branco Sampaio, de cujo matrimônio teve treze filhos,
dentre os quais o nosso valoroso companheiro do PMDB-deputado federal
Mauro Sampaio, que o sucedeu, no comando político regional, com a
mesma força de liderança, que ao passar dos anos se há revelado irresistível
e dominadora — confirmada, ainda agora, de forma consagradora, no
pleito de 15 de novembro — com a eleição de seus candidatos, em vários
municípios do Sul do Ceará, dentre os quais de Juazeiro do Norte, Barba-
lha e Barro.
Médico pela Faculdade de Medicina da Bahia c Faculdade de Medicina
da Universidade Nacional do Brasil, o doutor Leão Sampaio fez da ativi­
dade profissional autêntico sacerdócio, — conquistando a confiança e
o respeito das comunidades de vasta região do Ceará, o que lhe valeu
verdadeira idolatria, sobretudo de parte dos mais pobres e sofridos, —
aos quais assistia com raro desprendimento, sem nada receber pelos servi­
ços prestados. Era médico por vocação e de exemplar destinação huma­
nista. Fidalgo no trato, para com todos os que o procuravam, era, sobre­
tudo, um homem simples e desprendido, sempre atencioso e cortês, que
não fazia discriminação de qualquer ordem, jamais faltando aos seus conci­
dadãos, fossem ricos ou pobres, poderosos ou humildes trabalhadores.
A todos procurava ouvir com paciência e interesse muito especial, para
ter condições de melhor servir.
Flsta dedicação fascinante, fez de Leão Sampaio um ídolo, na sua
região. Dotado, igualmente, de extraordinário espírito público, — foi
convocado à militância partidária, com a vitória da Revolução de 30,
sendo eleito para o primeiro mandato na Câmara dos Deputados na legisla­
tura de 1933-34. Em 46 foi novamente sagrado nas urnas, participando

‘'Discurso pronunciado na Câmara Federal. O Dr. Leão Sampaio faleceu em


24.11.I9SS.

115
da Assembléia Nacional Constituinte de 1946. Permaneceu como membro
da Câmara dos D eputados nas legislaturas seguintes: 1951-1955,
1955-1959, 1959-1963-1967, 1967-1971 e 1971 a 1975, quando encerrou
sua atuação parlamentar.
Foi, em sua passagem pelo Legislativo Federal, membro efetivo da
Comissão de Saúde e suplente da Comissão de Relações Exteriores (1978).
Cumpriu, com muito brilho, importantes missões no Exterior, tendo
participado como membro titular da Delegação do Parlamento brasileiro
à 49; Conferência da União Interparlamentar, em Tóquio, no ano de
1960. Integrou, também, como observador parlamentar, da delegação bra­
sileira à Conferência Internacional sobre Comércio e Desenvolvimento,
em Nova Delhi (1968). Mas a atuação política de Leão Sampaio não
se circunscreveu, apenas, no âmbito dos trabalhos parlamentares, próprios
da instituição que soube honrar. Foi, também, um incansável advogado
das mais sentidas reivindicações do seu povo e do Nordeste. Na formulação
dessas postulações era obstinado e intrépido. Esteve, igualmente, identi­
ficado com os postulados democráticos, exercendo a atividade política
com honradez, austeridade e espírito público. Colocava, acima de quais­
quer conveniências eventuais da militância partidária, os imperiosos inte­
resses do povo e do Estado.
A sua vida, foi, desta forma, um exemplo edificante de solidariedade
às comunidades sertanejas. Dele, disse o padre Antônio Vieira, uma das
mais fulgurantes inteligências do Ceará, ter sido “mais sacerdote do que
médico, mais santo que humano, um mártir do dever, um semeador de
felicidade, de esperança, de alegria, de consolações”.
Padre Vieira compara o doutor Leão Sampaio ao padre Cícero Romáo
Batista, o idolatrado patriarca do Juazeiro do Norte. Segundo ele, os
dois se igualavam em prestígio e simpatia junto aos pobres, aos humildes,
aos sofredores. Ao padre, faziam promessas. Ao médico, confiavam o
seu destino.
Vale ressaltar, afinal, que mesmo afastado da política, e do exercício
da medicina, por entender ter chegado o momento da retirada, Leão
Sampaio se manteve até o final de sua vida como um observador atento
dos acontecimentos nacionais, acompanhando-os com interesse e constante
preocupação quer através do noticiário diário dos jornais ou através do
relato do seu filho e sucessor o deputado Mauro Sampaio.
Por todas estas razões, a notícia de sua morte consternou, profunda­
mente, não somente sua família, seus incontáveis amigos, mas, igualmente,
as populações do Sul do Estado, e, também, de todo o Ceará, onde
era estimado e respeitado. Seu sepultamento, na cidade de Barbalha, sua
terra natal, foi uma consagração póstuma, como raras vezes se viu, no
Nordeste.
Milhares de pessoas o homenagearam na despedida final, valendo
ressaltar, sobretudo, a consternação retratada, nos semblantes dos mais

116
humildes, dos mais sofridos, aos quais nunca faltou a solidariedade do
líder e do amigo desaparecido.
Associando-nos a esse legítimo sentimento de dor e pesar, estou
certo de que, os deputados da atual legislatura prestam a Leão Sampaio
o tributo do reconhecimento da instituição parlamentar a que ele serviu
com tanta devoção, dignificando-a com seu trabalho fecundo, seu exemplo
de austeridade e sua fidelidade à sua terra e ao seu povo.

117
Elogios feitos a ITAYTERA

O Presidente da Academia Petropolitana de Letras, de Petrópolis,


Estado do Rio, enviou o seguinte ofício ao jornalista J. Lindemberg de
Aquino, Diretor de ITAYTERA:
Petrópolis, 15 de agosto de 1988.
Caro Lindemberg:
"Recebi a revista ITA YT E R A n“ 32, que o amigo teve a gentileza
de me enviar. O volume foi devidamente catalogado para a nossa Biblio­
teca, á disposição dos consulcntes e acadêmicos.
Li, com especial atenção, seus trabalhos na Revista. Sua despedida
da Presidência do Instituto Cultural do Cariri é um documento daqueles
que tanto fazem bem: relata o dever cumprido, bem cumprido. Parabéns
pelo trabalho!
O elogio ao Padre Vieira no mesmo Instituto é, na síntese, indispen­
sável aos dias de hoje, um retrato vivo do escritor que tem o mesmo
nome ilustre de grande autor do passado luso-brasileiro. Merecida a inser­
ção no rol dos cidadãos juazeirenses do ilustre Amigo e Confrade. Em
suas palavras, as entrelinhas da emoção mais justa. Parabéns!
A homenagem, em 1987, ao grande Tristão Gonçalves, honra da
Pátria, da lavra do confrade, é, igualmente, ponto altíssimo na bela edição
de ITA YTER A .
No momento, leio e releio os demais trabalhos, com grande agrado.
Muito obrigado em nome da Academia, pela oferta de tão precioso relicário
cultural. Aceite as minhas fraternas Saudações Culturais.
(Assinado) Joaquim Eloy Duarte dos Santos, Presidente da “Aca­
demia Petropolitana de Letras. ”

ITAYTERA elogiada na Argentina


O escritor argentino Rafael Sánchez escreveu o seguinte sobre a revista
ITAYTERA, que lhe chegou às mãos:

Pinta tu pueblo y estarás pintando el mundo.


ITAYTERA
Itaytera es algo más que un libro con alma de quijote; es un cofre
dando vida a una historia que se escribe en cada aurora, y es espejo
donde suelen reflejarse en sus cristales sus actores, en totales-cotidianos
movimientos.

118
Itaytera es campanario, es campana y es voz de un pueblo hecho
letras.
Itaytera es, simplementc: CARIRI-CRATO-CEARÁ.
Si bien es cierto que, no siempre los habitantes de un pueblo o
ciudad son actores directos de su historia, no lo es menos cierto, que,
si lo son a través de todos sus ilustres ciudadanos, por los que trascienden
a la vida más allá de sus costumbres, más allá de sus modismos, más
allá de sus fronteras.
Aunque no sea menos cierto, y es lo doloroso-lamentable; queno
todos los pueblos o ciudades tengan en sus almas el fanal de una “ITAY-
TERA”.
Es decir: Un diccionario donde se pueden leer apellidos; paisajes
y significados.
Yo, Rafael Sánchez, de la ciudad La Plata tengo “ ITAYTERA” en
mis manos gracias a la gentileza y sutileza de esta maravillosa amiga llamada
Zénith Feitosa, una flor-mujer poeta natural de Fortaleza.
Un abrazo, amém de mis mejores deseos para estas fiestas finaneras,
para todos los amigos Brasilenos.

La Plata, noviembre de 1988


Raíael Sánchez

119
Poemas
Jéfferson de Albuquerque

Fantasia
Tenho por vezo Assim tangidas,
olhar o céu. mansamente,
Fitá-lo nos dias claros, vão formando imagens muitas.
de muito sol...
Imagens de bailarinas dançando,
Tenho por costume, perfis de gente,
observar as nuvens que no firmamento debuchos de animais.
sc diluem:
cinzentas ou brancas, Mas,
e que, sonhador,
suavemente, cm momentos de saudades,
pelo vento empurradas são. no céu também busco,
naqueles dias,
figurado,
o rosto de alguém.
Crato, fevereiro, 89

Moderna Iracema
Quando jovem, Cavalo que me fazia notado,
montava admirado,
cavalo chucro, também,
bravo, criticado.
inda indomado.
E,
Cavalo que corria, em Itapipoca,
corveteava, onde intendente eu era,
obstáculos pulava. me exibia para as moças da cidade,
especialmente para uma,
morena,
edição moderna de Iracema.
Maio/89

120
Patativa
Homem simples. Sensível,
Tranquilo. se impressiona com o Belo,
Sincero. com os Puros,
com o Bem.
Dc estatura, meâo. E a respeito,
Chapéu malarrumado. sua voz se alevanta,
P’randar, o seu canto, encanta
sc arrima num bastão. e há prazer em ouvi-lo
em seguir seu postar.
Fala mansa,
quando conversa. Patativa:
Mas sua voz se altera é de v. que falo,
quando, é a v. que pretendí debuxar,
contra injustiças, e o seu perfil traçar,
blatera. nesta homenagem simples,
sincera,
Defende o explorado pelo patrão que o Instituto lhe presta,
e pelo político parasitado. nesta festa
O sem-terra. por seus oitentanos de vida.
O sem-pão.
Crato, 05.03.89

Ao Crato
Um canto. Um canto de louvor,
F.stou devendo um canto, de amor,
Um canto, de exaltação,
Uma ode, estou devendo.

Um canto, Que seja,


uma canção então,
à cidade que me abriga, a Crato,
que mc tornou seu cidadão. este poema,
Estou devendo tal canto,
estou, tal ode,
um canto tal canção.
à cidade que adotei como mi
berço dos que me são caros: 02.jun.89
mulher e descendentes.
Poema dedicado a Maracanaú
Silveira Santos

Das Maracanãs A cafua nos faz recordar


Maracanaú originou-se, os tempos de escravidão.
uma nova Canaã Mas hoje podemos cantar!
Maracanaú tornou-se. viva a libertação.
Por ordem do progresso, Terra dos milagres
Maracanaú é um manancial. da gruta de Santo Antônio do Pitaguari
Que assustadoramente cresce onde crescem grandes árvores
tornando-se celestial. inclusive o buriti.
Maracanaú celeste! Maracanaú celeste!
terreiro dos bravos pioneiros. terra dos bravos pioneiros.
Salve! Salve! Salve! Salve!
Es a pequena-grande cidade E entre serras,
a dama do Nordeste és o símbolo da grandeza
e na tua claridade e no mapa encerra
no mapa resplandece. presente da natureza.
Tu cresces a cada dia O trem foi o pioneiro
e em teu seio, habita a liberdade, cortando o município
Símbolo de democracia de meio a meio.
futuro e prosperidade.
Cidade querida,
Cidade querida, entre todas a mais bela
entre todas a mais bela deste imenso Brasil.
deste imenso Brasil.
Dos maracanaucnses,
Dos maracanaucnses, és a mãe querida
és a mãe querida a rainha do Brasil.
a rainha do Brasil.

122
OBoi
Giosue Carducci
Tradução de Olegário Mariano

Amo-te, ó pio boi! Um sentimento


De vigor e de paz tu me ofereces
Quando, impassível como um monumento,
O olhar nos campos verdes adormeces.
Preso à canga, momento por momento,
Mais útil e paciente me pareces.
O homem te ordena e tu, no macilento
Volver dos olhos tristes, lhe obedeces.
Pela tua narina escura e fria
Teu espírito passa, e é um hino ardente
Teu mugido cortado de agonia.
E em teu olhar, que pelo azul se perde,
Se esconde longe e dolorosamente
Toda a planura do silêncio verde.

123
Da pena de Mariza Abath
Mariza Abath

A criança hoje
Vem comigo, criança, hoje quero fazer um passeio contigo, pois
o dia é inteirinho teu. Vamos andar por aí, no meu passado, vou mostrar-te
os caminhos que percorrí quando também fui criança: andei a cavalo
correndo pelos campos, tomei banho de rios sem poluição, subi em árvores
frondosas sem o agrotóxico, brinquei de bonecas que não a Xuxa, brinquei
de ciranda cantando nas rodas, pulei tanta corda que até me cansei, porém
tive sonhos assim como os teus. Meu caminho a poeira do tempo apagou,
só restando na mente o que ela guardou, mas um dia fui criança, e criança
feliz!
Tu criança de hoje, de “ tempos modernos” , teu caminho é bem
diferente, já não conheces o que é “brinquedo simples”, o que é natural,
pois como criança hoje, tens tudo nas mãos, desde o brinquedo mais
sofisticado à televisão, teus brinquedos são tão passageiros que não chegas
quase a sonhar, isto a criança que pode brincar! Existe porém outra criança,
aquela que nem brinquedos tem, e quando os tem, já lhes vêm estragados,
pois são sobras dos mais afortunados... Criança pobre nascida e criada
com todo carinho, com todo amor em parte és feliz!...
Porém quero aqui homenagear mais neste dia, àquela criança que
nem mesmo carinho da mãe que a colocou no mundo ela tem, pois às
vezes nem a conhece. Criança de rua, abandonada, maltratada, que este
dia seja todo teu, não da tua responsabilidade, porém para chamar a
atenção das autoridaes competentes, que não basta para ti um dia, porém
que sejam para ti as preocupações de todos os dias. Tu que não tens
escola, saúde, nem abrigo, pois as escolas que freqüentas são as calçadas,
e o mundo a ti ensinar a conviver com o vício, destruindo-te assim a
saúde, a vida. O teu abrigo é qualquer viaduto ou banco de jardim,
e assim vais crescendo desiludida de tudo. Na caminhada da vida entras
na escola do mundo onde a tua formatura é o teu primeiro assalto, o
teu baile é realizado no presídio a dançares a valsa da violência em todos
os seus matizes. Estás formado, e assim prosseguirás uma caminhada
sofrida e infeliz até quando?
Para ti dedico este dia e rogo a Deus que as autoridades vejam com
mais sensibilidade o problema do menor carente, para que no futuro
talvez bem próximo, não sejam culpadas por ter um país povoado de
analfabetos e marginais. Olhe, cada um, nos olhos de cada criança e
veja em cada olhar os olhos dos seus próprios filhos, solicitando amparo
e compreensão.
Vamos fazer da criança carente de hoje o homem realizado do amanhã.

124
Arquitetura cósmica
A noite já envelhece E o homem que Deus criou
A lua já passeou Com tamanha perfeição
As estrelas já cansadas Deixa de louvar a Deus
Alguma, seu brilho guardou Pra brigar contra o irmão

O vento mais solitário Guerras feitas de ódio


No deserto se deitou De rancor e ambição
Beijando a areia ainda morna Quando tudo que foi feito
Do calor que o sol deixou Deus deixou em nossas mãos
Nas matas misteriosas Vamos louvar a Deus
O silêncio ali reinou Vamos bendizer o chão
E os pássaros no seus ninhos Vamos deixar a violência
Se encontraram para o amor E ser novamente irmãos!
O mar que não dorme nunca Acabando a violência
No seu mistério profundo A miséria e o sofrer
Vigia sempre constante Vamos nos integrar à terra
Os tesouros que ali guardou Pois somos também criação
De uma arquitetura perfeita
Que só Deus soube fazer!

O negro
Em alto mar zimbrava o navio Só o seu corpo servia
Nas galés, a soluçar negros gemiam Para o trabalho pesado
Dor de saudade, dor de agonia A pele que cobre teu corpo
Dor de uma África que longe ficou Escureceu a tua alma
Dor de um pai, dor de uma filha Porque para brancos; eras escuridão
E naquelas galés escuras De uma raça enjeitada que não tinha
Nada se via, só se ouviam perdão
Gemidos, soluços, tristezas
F. açoites em carnes vivas
E o banzo de noite chegava Negro!
Pela incerteza de um outro dia Porque tu foste condenado assim
Porque só tu tiveste que sofrer assim
Porque só tu conheceste o pelourinho,
Navio aportou
E os negros desciam Máscaras de zinco e a cafua?
E pela primeira vez Porém, negro
Só tu tiveste um zumbi
Chegaram à Bahia Um quilombo dos palmares
Que sol, que luz Só tu tiveste a coragem
Que praias, e o vento gemia! De lutar pela alforria
Pois eles coitados, chegavam escravos Que um dia chegou num 13 de maio
F. escravos de brancos ali se tornavam. Libertando o teu corpo
Vendidos em mercados, como
Da longa agonia
mercadorias
Sem humanidade, sem cultura,
sem alma

125
Negro Salve o negro brasileiro
Continuas escravo, quando não devias Inzoneiro-africano
Pois preconceitos ainda te ferem o Que depois da abolição
coração Lutou, venceu e gritou
Mas não precisas hoje de abolição “Libertei meu coração”
Pois já te faz querer Pois hoje és tão livre quanto eu
Pelo teu valor de ser tão cidadão quanto eu
Es muito mais que um irmão Filha dessa grande nação
Pois teu sangue corre nas veias
Tua bravura Cem anos de abolição
Tua brasilidade 1888-1988
Tua raça tão pura
Que povoou a nação
E fez do Brasil o que é
Pois se não fosses tu, negro
De nada seria
A nação que cresceu, que surgiu
Erguida pelas tuas mãos

126
“HABEAS-PINHO”
Petição para liberar um violão
Ronaldo Cunha Lima*

Exmo. Sr. Juiz de Direito da 2; Vara desta cidade

I VI
O instrumento do crime que se arrola Seu viver como o nosso é transitório.
neste processo de contravenção, Mas, seu destino, não se perpetua.
não c faca, revólver nem pistola F.lc nasceu para cantar na rua
É simplesmente um violão. e não p’ra ser arquivo de cartório.
II VII
Um violão, doutor, que na verdade Mande soltá-lo pelo amor da noite
não matou nem feriu um cidadão. que se sente vazia em suas horas,
Feriu, sim, a sensibilidade p’ra que volte a sentir o terno açoite
de quem o ouviu vibrar na solidão. de suas cordas leves e sonoras.
III VIII
O violão é sempre uma ternura, Libere o violão, Dr. Juiz,
Instrumento de amor e de saudade. em nome da Justiça e do Direito.
O crime a ele nunca se mistura, É crime, porventura, o infeliz
Inexiste entre ambos afinidade. cantar as mágoas que lhe enchem o peito?
IV IX
O violão é próprio dos cantores, Será crime e, afinal, será pecado,
dos menestrcis de alma enternecida será delito de tão vis horrores,
que cantam as mágoas que povoam a vida perambular na rua um desgraçado,
e sufocam as suas próprias dores. derramando na praça as suas dores?
V X
O violão é música e é canção, É o apelo que aqui lhe dirigimos,
é sentimento, vida e alegria, na certeza do seu acolhimento.
é pureza, é néctar que extasia, Juntada desta aos autos nós pedimos,
é adorno espiritual do coração. e pedimos também DEFERIMENTO.
ass. Ronaldo Cunha Lima
Advogado
Despacho do Juiz, Dr. Artur Moura:
Para que eu não carregue
remorso no coração,
determino que se entregue
ao seu dono o violão.

* R o n a ld o C u n lia L im a c p o e ta , a d vo g a d o c f o i P re fe ito de C a m p in a G ra n d e

127
Pequena
história do hino
A. Tito Filho

Com a independência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, surgiram


vários cânticos de louvor à liberdade. Um deles foi o de Francisco Manuel
da Silva, que depois se tornou o Hino Nacional Brasileiro. O autor nâo
conseguiu divulgar nem executar oficialmente a música que compusera
para saudar a independência da Pátria.

★★★

A consagração da música de Francisco Manuel da Silva veio em 1831,


quando abdicou Dom Pedro I. Era grande o descontentamento do povo
relativamente ao Imperador, que havia dissolvido a orquestra da Capela
Imperial, suspeitando que os músicos lhes eram infiéis. E estes passaram
a reunir-se num armarinho da rua Senhor dos Passos, onde se fez a letra
do hino.

★ ★ ★

O hino de Francisco Manuel da Silva tomou o nome de SETE DE


ABRIL, data da abdicação do Imperador. Escreveu a primeira letra o
poeta Ovídio Saraiva de Carvalho c Silva, nascido em Parnaíba, Piauí.
Música e letra tocada e cantada no dia 13 de abril de 1831, quando o
ex-monarca deixava o Brasil. Eis os versos do autor piauiense:
Os bronzes da tirania Amanheceu finalmente
Já no Brasil não rouquejam, A liberdade no Brasil...
Os monstros que nos escravizam Ah! não desça á sepultura
Já entre nós não vicejam. O dia Sete de Abril.
Da Pátria o grito Da Pátria o grito etc.
F.is se desata
Desde o Amazonas Este dia portentoso
Até o Prata. Dos dias seja o primeiro:
Chamemos Rio de Abril
Ferros e grilhões e forcas O que é Rio de Janeiro.
De antemão se preparavam:
Mil planos de proscriçâo Da Pátria o grito etc.
As mãos dos monstros gisavam.
Arranquem-se aos nossos filhos
Da Pátria o grito etc. Nomes e idéias dos lusos
Monstros que sempre em traições
Nos envolveram, confusos.

128
Da Pátria o grito etc. Da Pátria o grito etc.
Ingratos à bizarria, Uma prudente regência
Invejosos de talento, Um monarca brasileiro
Nossas virtudes, nosso ouro, Nos prometiam venturosos
Foi seu diário alimento. O porvir mais lisonjeiro.

Da Pátria o grito etc. Da Pátria o grito etc.


Homens bárbaros, gerados E vós donzelas brasileiras
De sangue judaico e mouro, Chegando de mães ao estado
Desenganai-vos, a pátria Dai ao Brasil tão bons filhos
Já não é vosso tesouro. Como vossas mães têm dado.
Da Pátria o grito etc. Da Pátira o grito etc.
Neste solo não viceja Novas gerações sustentam
O tronco da escravidão Do povo a soberania
A quarta parte do mundo Seja isto a divisa delas
As três dá melhor lição. Como foi de abril um dia.
Da Pátria o grito etc. Da Pátria o grito etc.
Avante honrados patrícios
Não há momento a perder
Se já tendes muito feito
Nada mais resta a fazer.

★ ★ ★

O hino de Francisco Manuel da Silva voltaria a ser executado por


ocasião dos festejos da coroação de Dom Pedro II, em 1841, com novos
versos, desta vez de autor anônimo. Ei-los:
Quando vens faustoso dia Exultai, Brasil, e o povo
Entre nós raiar feliz, Cheio de santa alegria,
Vemos cm Pedro II Vendo de Pedro o retrato
A ventura do Brasil. Festejado neste dia.
Negar de Pedro as virtudes Estribilho
Seu talento escurecer
É negar como é sublime Da pátria o grito
Da bela aurora o romper. Eis se desata
Do Amazonas
Ate o Prata.

★★★

Com a proclamação da República adotou-se o hino nacional francês


— A MARSELHF.SA — durante dois meses como HINO PROVISÓ­
RIO, para comemorar o acontecimento. E surgiu a música de Ernesto
Fernandes de Sousa, com letra de Medeiros c Albuquerque, enaltecendo
o novo regime.

129
Muito se passou sem novo hino nacional. Para compô-lo foi convidado
Carlos Gomes, que não aceitou o convite, alegando que a música de
Francisco Manuel da Silva era de exemplar beleza. No dia 22 de novembro
de 1889, o governo instituiu concurso para a música destinada ao HIN O
DA REPÚBLICA DOS ESTADOS UNIDOS DO BRASIL, que deveria
ser adaptada aos versos de Medeiros e Albuquerque. Apresentaram-se
vinte c nove compositores. Mas a imprensa fazia campanha em favor
da música de Francisco Manuel da Silva.

★ ★ ★

Em 15 de janeiro de 1890, contingentes da Marinha desembarcaram


no Rio para saudar o chefe da esquadra Wandenkolk, também ministro
da Marinha. Houve grandes passeatas e discursos vibrantes. O orador
Serzedelo Correia pediu que o Hino de Francisco Manuel da Silva fosse
adotado como Hino Nacional. Houve grandes manifestações do povo
favoráveis à idéia. Deodoro da Fonseca, no momento, em nome do gover­
no, declarou que o Hino Nacional de Francisco Manuel da Silva seria
conservado como da Nação Brasileira. Manteve-se o concurso, já agora
para escolher a música do HIN O DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚ­
BLICA. Foi vitoriosa a composição de Leopoldo Miguez, com letra de
Medeiros e Albuquerque.

★ ★ ★

Decreto nv 171, de 20 de janeiro de 1890, assinado por Deodoro


da Fonseca, Aristides Lobo, Campos Sales, Benjamim Constant e Démé-
trio Ribeiro:
“Art. 1? É conservado como Hino Nacional a composição musical
do maestro Francisco Manuel da Silva.”
“Art. 2? E adotado sob o título de Hino da Proclamação da República
a composição musical do maestro Leopoldo Miguez, baseado na poesia
do cidadão José Joaquim de Campos da Costa de Medeiros e Albu­
querque.”
O decreto, como se vê, não tratou da letra do Hino Nacional.

Contra a falta de letra oficial, houve vários protestos, inclusive do


deputado federal Coelho Neto. Nomeou-se comissão para rever a música
de Francisco Manuel da Silva. Membros: Alberto Nepomuceno, Frederico
Nascimento e Francisco Braga, que sugeriram a abertura de concurso
público para escolha da letra e os seguintes versos que serviríam de modelo
ao Hino:

130
Brasil é teu destino oh! Pátria amada, Brasil no mundo inteiro terra eleita!
Pugnar em prol da paz e do direito. Brasil da natureza filho amado!
Fazer perante os mesmos respeitados Brasil teu céu é puro entre os mais puros,
Princípios de justiça e de equidade. Teus mares verdes-azuis são os mais belos,
Risonhos são teus vales luminosos,
Que a razão seja o teu lema Altivas tuas serras verdejantes,
E a tua arma seja o gládio da justiça! Teus grandes rios os mais caudalosos,
Seja o teu culto a verdade. Teus vastos campos floridos e férteis,
E oficinas, campos sejam tua liça. Oh! Brasil Oh! Pátria amada!
Oh! Pátria amada! Estremecida! São bem-estar, fortuna são, Brasil
Salve! Salve! Pátria amada! Brasil!

★ ★ ★

Coelho Neto, na Câmara dos Deputados, apresentou projeto, autori­


zando o governo a criar prêmio de dois contos de réis para a melhor
composição poética que se adaptar com todo o rigor do ritmo à música
do Hino Nacional Brasileiro. Isto em 1909.
Surgiram várias letras, entre as quais a de Osório Duque Estrada
que caiu depressa no domínio do público.

★ ★ ★

Para que o poema fosse perfeitamente encaixado à melodia, Osório


Duque Estrada praticou várias alterações nos versos originais:
Da independência o brado retumbante Entre as ondas do mar e o céu profundo
passou a passou a
De um povo heróico o brado retumbante. Ao som do mar e à luz do céu profundo.
Pelo amor da liberdade Fulguras, ó Brasil, jóia da América
passou a passou a
Em teu seio, ó liberdade Fulguras, ó Brasil, florâo da Amércia.
Quando em teu céu azul, risonho e límpido, Brasil seja de amor eterno símbolo
passou a passou a
Se em teu formoso céu, risonho e límpido. Brasil de amor eterno seja símbolo.
Es grande, és belo, impávido colosso O pavilhão que ostentas estrelado
passou a passou a
És belo, és forte, impávido colosso. O lábaro que ostentas estrelado.
Dos filhos do teu flanco, és mãe gentil Mas da injustiça erguendo a clava forte
passou a passou a
Dos filhos deste solo é mãe gentil. Mas se ergues da justiça a clava forte.

O concurso proposto por Coelho Neto nunca se realizou. A letra


de Osório Duque Estrada permaneceu difundida até 1922, sem oficiali­
zação. Mas a 21 de agosto do mesmo ano, Epitácio Pessoa assinou o
decreto n? 4.559, permitindo o Poder Executivo adquirir, pela importância
de cinco contos de réis, a letra do Hino Nacional Brasileiro, escrita por

131
Joaquim Osório Duque Estrada. Feita a aquisição, Epitácio Pessoa, em
6 de setembro de 1922, baixou o decreto n? 15.671, declarando oficial
a letra do Hino Nacional Brasileiro escrita por Joaquim Osório Duque
Estrada.

★ ★ ★

FRANCISCO MANUEL DA SILVA nasceu na antiga capital do


país, em 21 de fevereiro de 1795. Era violonista. Compôs principalmente
hinos e músicas sacras. Morreu a 18 de dezembro de 1865, na cidade
em que nasceu. JOAQUIM OSÓRIO DUQUE ESTRADA veio ao mun­
do na cidade de Vassouras, Estado do Rio de Janeiro, a 29 de abril de
1870. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Poeta, jornalista e crítico
literário. Publicou várias obras.

A. Tito Filho — é o atuaI Presidente da


Academia Piauiense de Letras.

132
Sumário da vida trepidante
do escultor José Rangel
Otacílio Anselmo

A idéia desta reportagem surgiu no decorrer do primeiro contato


que tivemos com o artista, exatamente quando lamentávamos o esqueci­
mento do nome de Vicente Leite nos festejos do Centenário do Crato,
logo depois de sua realização. Os vestígios das ruidosas comemorações
ainda pairavam sobre a nobre Cidade e sua ufana gente. O próprio escultor,
cujo semblante era u’a máscara de enfado, debelava a ressaca com alguns
goles de cerveja, enquanto, a nosso pedido, rememora fatos dos quais
partilhara com o inspirado paisagista filho do Crato. Sem que José Rangel
percebesse o nosso intuito, começamos a inquiri-lo a respeito de sua
própria vida. A narrativa porém foi interrompida. No nosso segundo
encontro no “ Bar Glória”, ao verificar que anotamos certos dados, o
artista, que é avesso à publicidade, quis recusar-se à prossecução do assun­
to. Todavia, diante de nossa insistência, concluiu sua narração, que enfeixa-
mos no resumo que se segue.
José Rangel nasceu em Jardim a 8 de maio de 1898. Distingue-se
na escola primária pelos borrões que produz em papéis e paredes. A
confecção de um judas foi a sua primeira manifestação artística, o qual,
por ter sido feito à semelhança de seu avô, provocou as iras do pai,
que o castigou com uma surra. O incidente determina-lhe a ida para
Fortaleza, onde passa um ano cm companhia de um tio. Volta à terra
natal. Retornando a Fortaleza em 1912, passa a exercer várias profissões
modestas e retoma o curso primário iniciado em Jardim. Trabalha de
dia e estuda à noite. Coloca-se nas oficinas da Estrada de Ferro Baturité
como aprendiz de torneiro. Pela segunda vez revela o seu pendor artístico,
ao construir sua própria ferramenta. Passa a ter salário, enquanto seus
companheiros continuam ganhando experiência. Consegue estudar de gra­
ça no Colégio Nogueira. Depois de algum tempo ingressa na Guarda
Civil de Fortaleza. E colhido pelos acontecimentos políticos da época,
embarcando com as forças do Governo Franco Rabelo para o Cariri.
Toma parte no ataque a Juazeiro. Com a derrota das forças legais, dirige-se
ao Crato em cuja defesa luta até o fim, em companhia de Eloy Fernandes
e outros. Segue para Barbalha e toma o rumo de Iguatu. Ludibria a vigi­
lância da gente de Da. Fideralina, em Lavras da Mangabeira, e atinge
seu objetivo. Apresenta-se ao Cap. José da Penha, no Iguatu. Une-se
às suas forças que se organizam defensivamente em Miguel Calmon. Ocupa
lugar nas trincheiras c luta. Na noite chuvosa do combate em que tomba
J. da Penha, Rangel é ferido. A bala que o atingiu ainda está entranhada

133
nos músculos da perna esquerda. Com a vitória dos jagunços, José Rangel
foge para o Amazonas, abandonando as moletas em Belém. Vai até o
Território do Acre. Embrenha-se na selva amazônica como seringueiro.
Luta pela vida de vários modos, inclusive como embarcadiço. Regressa
ao Ceará em 1917, a bordo do vapor “João Alfredo”. Volta a ser guarda
civil e pleiteia uma ajuda do Estado para os seus estudos no Rio de Janeiro.
Patrocinando-lhe a causa na Assembléia Legislativa, um deputado mostra
cm plenário um nu artístico de sua autoria. Um parlamentar das caatingas
rejeita a proposta alegando o cunho imoral (!) da produção do artista.
Demite-se da Guarda e é colocado na Recebedoria do Estado pelo professor
Leiria de Andrade, ao tempo Secretário da Fazenda. Foi nessa época
que José Rangel iniciou sua aprendizagem prática de escultura, erigindo
estátuas de areia sob a luz da Lua, apavorando os pescadores c habitantes
da antiga Praia do Peixe. Com a entrada do Brasil na I Grande Guerra,
Rangel senta praça no 49? Batalhão de Caçadores. No mesmo dia que
é graduado a cabo se vê rebaixado definitivamente, em conseqüência de
uma rusga com um soldado da Polícia Militar. Deixa o Exército. Durante
o ano de 1920 recebe aulas de Carlos Câmara. No ano seguinte, por
interferência do professor Leiria de Andrade, obtém do Estado um auxílio
de 100S000 mensais para estudar no Rio. E seu companheiro Vicente
Leite, também contemplado pelo auxílio governamental. Entretanto, três
meses depois, falecendo o presidente J ustiniano de Serpa, desaparece o
auxílio. Para manter-se e estudar, Rangel trabalha como tecelão e lavador
de pratos. Durante esse tempo aprimora os seus estudos em areia, tendo
recebido uma medalha de ouro das mãos do Rei Alberto (1922), pela
ereção de sua estátua em companhia da Rainha, na Praia de Copacabana.
Prepara-se para a admissão à Escola de Belas Artes estudando com o
professor Modesto Brocos, de quem recebeu 7 horas de aulas de desenho.
De 96 candidatos apenas 12 são aprovados. Rangel é o 6? colocado, seguido
de Vicente Leite. No dia 5 de dezembro de 1925, centenário do nascimento
de D. Pedro II, o ex-Impcrador é homenageado por José Rangel, com
a sua estátua em areia, na praça Sans Pena, modelada às caladas da noite,
em cujo trabalho foi auxiliado por um filho do Gal. Fontoura, Chefe
de Polícia. Somente à tarde daquele dia foi identificado o autor do trabalho,
cujo nome ocupou as páginas dos jornais cariocas.
José Rangel estudou 16 anos na Escola de Belas Artes, onde teve
os seguintes mestres: Raul Pederneiras (Anatomia), Pedro Vernier (Mode­
lagem), Rodolfo Chambelland (Modelo Vivo) e Flexas Ribeiro (História
das Artes). Sua especialidade artística repousa em Escultura Monumental
e Salão, matérias que cursou particularmente com Rodolfo Bernardelli
e Otávio Corrêa Lima, respectivamente.
Ainda em 1925, firmou popularidade no Rio através duma competição
artística com um famoso escultor italiano, no Instituto Nacional de Música,
por ocasião de um festival em benefício dos artistas pobres, sob o patrocínio

134
da filha do então presidente Artur Bernardes. Rangel modelou em barro,
de olhos vendados, o busto de Carlos Gomes, no curto espaço de 8
minutos, enquanto o seu competidor (seu nome foi omitido pelo entrevis­
tado) executou o trabalho em 15, de olhos abertos.
José Rangel, escultor pela Escola Nacional de Belas Artes, “Hors
— Concours”, tem os seguintes trabalhos premiados:
F.NTRE O Ó D IO F. O M ED O — Mensão H onrosa, h Grau.
EPO PÉ IA D O SA C R IFÍC IO — Medalha de Bronze.
AD GLORIUM — Medalha de Prata.
ÍNDIO MORUBIXABA — Prêmio de Viagem ao País.
EPOPÉIA DO SACRIFÍCIO é o título do monumento dos “ 18
do Forte”, localizado na Praia de Copacabana. AD GLORIUM foi erigido
no Aeroporto Santos Dumont, em homenagem ao Pai da Aviação, na
Capital Federal.
O maior triunfo de Rangel foi, sem dúvida, o monumento de Olegário
Maciel, em Belo Horizonte, conquistando 1° lugar num concurso em
que figuravam artistas famosos como Humberto Cozzo (autor da estátua
de José de Alencar, em Fortaleza), Leão Veloso e outros.
O monumento do Almirante Alexandrino de Alencar é outra prova
do seu talento. Entre outras obras do seu cinzel, destacamos as seguintes:
BENEDITO VALADARES (herma) em Montes Claros, Minas; CEL.
CORREIA LIMA, no C.P.O.R. do Rio de Janeiro; AO VOLTAR DE
UMA TRINCHEIRA, no Regimento Sampaio, no Rio; A CAMINHO
DA TABA; O LAVRADOR; NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS.
Este último trabalho foi uma dádiva do escultor ao patrimônio de
sua terra natal.
A convite do Deputado Federal Antônio de Alencar Araripe, vai
esculpir o monumento ao Centenário do Crato, cujos estudos já iniciou
“in loco”. Será um coletivo, reunindo os revolucionários de 1817.
Considerando Humberto Cozzo, Correia Lima, Zeca Paraná, Fleury
Gama, Leão Veloso e Carlos dei Negro os maiores artistas nacionais,
José Rangel permanece fiel à Arte Clássica e confessa desconhecer as
inovações da Arte, cuja maior expressão, no País, é Cândido Portinari.

Revista ALVORADA, n" 15, órgão ofi­


cial do Clube dos Oficiais da Polícia Mili­
tar do Ceará, Fortaleza, Dezembro de
1957 e Janeiro de 1958.

José Rangel
Nascido a 28 de maio de 1895 e falecido a 11 de novembro de 1969.
Filho de Cirilo Rangel e Maria Bringel. Aos doze anos de idade passou
a residir em Fortaleza, onde, nas praias, construiu com areia, esculturas,

135
revelando, já, o seu talento de grande artista. Graças à ajuda do Presidente
do Estado, Justiniano de Serpa, partiu para o Rio de Janeiro, onde cursou
a Escola de Belas Artes, da qual foi, posteriormente, professor.
Dentre suas obras, citam-se, como principais: Os 18 do Forte, em
Copacabana; Da Aviação; A Imagem de Nossa Senhora de Fátima, em
plena Serra do Araripe; a Estátua de Nossa Senhora das Graças em J ardim,
cuja bênção se deu a 1" de janeiro de 1949.
A inauguração da estátua foi um acontecimento inesquecível, desses
que raramente ocorrem nas cidades do interior. Pessoas vindas de todas
as cidades do Cariri e dos Estados vizinhos, encheram as ruas de Jardim
para assistirem à grande festa religiosa, a maior festa do século para os
jardinenses. A majestosa estátua da Mãe de Deus ergue-se na Praça do
mesmo nome, em frente à matriz e constitui ponto de atração turística.
O povo de Jardim ainda não retribuiu a José Rangel o sacro presente
com que ele brindou a terra natal.
Espera-se que as gerações porvindouras sejam menos ingratas que
a atual.

Verbete de Maria Alacoque de Lima Pe­


reira, em seu Livro JARDIM, SUA HIS­
TÓRIA E SUA GENTE, ed. de 1986.

Nota de Itaytera:
José Rangel é nome em rua do Crato desde 1980, no bairro Novo Horixonte.

136
Apresentando “MEMÓRIAS
(Fragmentos de minha Vida)”
J. Lindem berg de A quino

Profundamente honrado, cabe-me, nesta hora de tantas alegrias espiri­


tuais, neste ambiente de luz e de festas, dizer algumas palavras sobre
o livro de memórias do Dr. Raimundo de Oliveira Borges.
Estamos em dia festivo, quando a heráldica cidade de Caririaçu festeja
112 anos de sua emancipação política.
Quis a sua eminente Prefeita, em meio às inaugurações que se proces­
saram durante o dia, dar um toque especial de carinho e refinamento
à data maior, patrocinando o lançamento do livro do Dr. Borges, que,
na realidade, é um dos maiores, mais ilustres e mais renomados filhos
desta gleba, em toda a sua história.
Dados biográficos do Autor não precisam ser ditos. Quase todos
aqui o conhecem profundamente. Alguns com ele conviveram. Outros
o conhecem de nome e de fama — o pecuarista evoluído, o professor
culto, o advogado brilhante, o cidadão inatacável, o homem público cir­
cunspecto, sobretudo o exemplar pai de uma família que já tem o seu
lugar na sociedade caririense, mercê do estudo, do comportamento, da
inteligência e da grandeza cívica.
Dr. Raimundo de Oliveira Borges — com este livro que hoje é lançado
em sua terra natal — MEMÓRIAS (Fragmentos de minha vida) — dá
seqüência à série de publicações que intentou realizar e que, querendo
Deus, ainda haverá de torijar realidade, para gáudio dos apreciadores
da legítima literatura histórica, ramo a que se tem dedicado com inegável
entusiasmo.
Para tanto não lhe faltam garra, espírito de pesquisador, tempo e
dedicação, qualidades que se aliam a um profundo conhecimento da língua,
a um senso interpretativo e analítico de sua gente e do seu meio, um
estilo leve, solto e escorreito, um poder de síntese e uma inexcedível
vocação para as letras.
A memorialística é uma das temáticas mais difíceis da literatura. Por
exigir espírito crítico, boa memória, especial cuidado para não enveredar
pela ficção, poder de análise e especial maneira de colocar e delinear
os fatos, concatenando os acontecimentos, ela é um desafio aos que se
lançam no setor. Poucos têm sido os vencedores, dentre os quais um
Gilberto Freyre, um Gilberto Amado, um Afonso Arinos, um Gustavo
Barroso, um Rubem Braga, que também soube aliar amenidades e cotidia­
nos nos seus escritos, um Viana Moog, um Monteiro Lobato e, por último,
no alto do escalão, como sumo pontífice dessa plêiade privilegiada de

137
escritores, um Pedro Nava, que encantou o país com 6 livros focalizando
sua vida, revelando-se mestre dos mestres dos que fazem livros de memó­
rias pessoais.
Pois bem. Corajosamente, diligentemente, heroicamente, se encarar­
mos a pobreza do meio e a falta de incentivos, o Dr. Borges chegou
ao patamar desses memorialistas, sentando-se lado a lado, e aspirando
a fama e a glória que só o futuro dirá com mais precisão.
O seu livro de memórias tem o sabor da terra. Das gentes, das cousas,
dos cenários, dos frutos, dos engenhos tocados à força do boi, das lavouras
de algodão, dos criatórios sacrificados — muitas vezes dizimados — pelas
secas, de permeio com incursões de cangaceiros e tumultos de ordem
fanática, como o que sacudiu o Cariri e se refletiu nesta boa terra de
S. Pedro.
Tem a majestosa beleza dos invernos, as agruras dos períodos de
escassez, o poema das noites de luar, das cantigas de roda, das lendas
de assombração, do folclore e da música, das lembranças de festas e dos
serões familiares.
A esses ingredientes se ajuntam, harmoniosamente, os percalços da
vida de uma família pobre, a de Clemente Ferreira Borges e Maria José,
pais do autor, nas suas andanças, suas lutas, suas aspirações, seus sonhos,
seus sacrifícios, seus heroísmos diários dentro do lar e no trabalho afanoso
da agricultura e da incipiente pecuária, para criar, educar, projetar uma
plêiade de filhos que mais tarde se destacariam em todos os ramos.
Esse Clemente Ferreira Borges foi um herói. Um herói que compor­
taria, só ele, um estudo, perfilando as suas qualidades de líder inconteste,
de surpreendente liderança em um meio pobre, acanhado, vencido pela
natureza e pelas agruras das secas temporárias.
Um lutador, que procurava trazer, para a terra, benefícios sem conta,
arrostando dificuldades mil, vencendo empecilhos inimagináveis, tendo
sido ele de tudo um pouco nesta terra abençoada do patrono do Céu,
São Pedro, iniciador histórico do seu processo de desenvolvimento, cujos
trabalhos, cujo esforço, cujas atividades, cujas iniciativas, se mensuradas
nos dias atuais, lhe dariam uma proporção de verdadeiro gigante.
E esse o herói que Caririaçu ainda não homenageou. Nada existe
com seu nome, uma rua, uma praça, uma escola, uma obra pública —
e isso, naturalmcnte, é uma lacuna imperdoável que cumpre corrigir, num
resgate à sua memória e num reconhecimento dos pósteros a quem tanto
lutou pela terra.
Dr. Borges traça-lhe o perfil, o tronco de onde se originou, educado
no cadinho do lar, com a severidade e o exemplo de austeridade do pai,
a doçura e o carinho da mãe, o amor fraternal dos manos, ramificando-se
essa árvore em esplêndidos galhos espirituais, que corporificaram esta
comunidade e a projetaram pelo Brasil afora.

138
O Autor demora-se exatamente em 240 páginas de deliciosos fragmen­
tos de sua vida, moldada à têmpera da persistência e da obstinação de
vencer, até chegar ao topo majestoso de hoje, onde pode, graças a Deus,
descortinar o cenário de sua vitória pessoal.
São fielmente narradas, neste singelo volume, sua infância, suas aspira­
ções, seus sonhos, sua juventude, seus estudos — medicina, inicialmente,
depois uma guinada feliz para o Direito —, suas idéias, sua análise dos
homens e das cousas.
Dr. Borges é de uma fidelidade espantosa aos fatos, prendendo-se
à narrativa em detalhes que dão gostosura ao banal e evidenciam seu
espírito crítico e seu senso de análise.
MEMÓRIAS — Fragmentos de minha vida é, portanto, um livro
que retrata Caririaçu do passado, seus vigários, seus juizes, seus delegados,
suas lideranças, seus proprietários rurais, valendo como um retrato em
corpo inteiro dos primeiros anos desta terra nas duas primeiras décadas
do século.
E um desses livros destinados a ficar. Obra permanente de consulta,
tira-dúvida, tira-teima, que essas são as vantagens dos grandes livros,
sempre lembrados, sempre relidos, sempre consultados, sempre citados.
Daí a sua grandeza, imperceptível, à primeira vista, mas grandeza
que o fará eterno, porque denso de informações, recheado de ternuras,
repleto de casos, rico de ilustrações morais de uma gente, brava, altiva,
soberana e viril, que sempre ocupou e povoou esses rincões abençoados
por Deus, e aqui ramificou-se em famílias tradicionais.
Creio que já me alonguei bastante. Se mais o dissesse, iria, certamente,
tirar os prazeres indeléveis e revelar as amenidades incríveis que este livro
retrata, num admirável caleidoscópio ditado pela alma e pelo sentimento.
O mais é comprar e guardar, depois de ler. Porque é dessas leituras
que enriquecem o espírito e enobrecem a alma, em meio a tantas desilusões,
mágoas, angústias e apreensões dos dias atuais.
O livro do Dr. Borges terá a perenidade dos tempos, imortalizando
o seu Autor e sua obra — e nesta hora invocamos o santo Padroeiro
desta terra, S. Pedro, para que esconda a chave do Céu, não abra tão
cedo as suas portas para receber Dr. Borges. Porque o queremos, ainda,
muito lépido e vivo, muito tempo, escrevendo, exemplando, construindo,
criando, deixando nas letras a marca vigorosa de sua inteligência criadora,
reflexo de um coração que só sabe pulsar para o amor, para o bem e
para as grandezas espirituais!

Discurso dc J. Lindemberg de Aquino


em Caririaçu, na noite de 18.08.88, no
lançamento do livro de memórias do Dr.
Raimundo de Oliveira Borges.

13 9
Inaugurada
a Casa de Cultura Portuguesa

Discurso do Reitor da Urca, José Teodoro Soa­


res, na inauguração da Casa de Cultura Portu­
guesa, em Juazeiro do Norte, 10.06.88.

A História é a memória coletiva dos povos, memória que reflete


não só o que eles têm, mas sobretudo o que eles são. Patrimônio comum
que cada geração preserva, aumenta, modifica ou inflete.
De fato na vida dos povos existe uma consciência histórica que mais
não é do que um meio de olharmos o que fomos para sabermos o que
somos. Consiciência que pode conferir unidade a um corpo social. Ser
força aglutinadora de vontade que nos transcende sem deixar de nos unir
a um todo indiviso.
Na oportunidade em que se instala a Casa de Cultura Portuguesa,
torna-se difícil deixar de enfocar a contribuição de Portugal ao resto da
humanidade, a revelação do mundo a si mesmo, como noção de serviço
ao bem comum. São quinhentos anos de marcos importantes no universo
dos descobrimentos marítimos. No dizer de Serra Brandão, presidente
da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portu­
gueses, não se pode negar que entre os fatores mais significativos e mais
importantes que unem e identificam os portugueses, mesmo quando espa­
lhados pelas cinco partidas do globo, sobressaem a projeção da cultura
e a grandeza da história, onde os descobrimentos constituirão sempre
justo motivo de orgulho nacional.
Na realidade em nenhum outro momento da história um povo, partin­
do de uma pequena nação européia, foi tão longe e foi tão forte no tablado
do mundo. D. Dinis, D. Henrique, D. João II, Diogo Cão, Bartolomeu
Dias, Cristóvão Colombo, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Fernão
de Magalhães, todos eles se tornaram figuras a quem o tempo histórico
prolongou a vida e o exemplo. Agora quinhentos anos passados sobre
os descobrimentos, recolhidas de vez as velas históricas, os portugueses
do presente só têm razão para se reverem e se afirmarem à luz de um
passado que foi dos mais empolgantes da história da humanidade.
Instalar a Casa de Cultura Portuguesa foi uma exigência da comu­
nidade desde o nascimento da URCA. Eis porque se inaugura, aqui,
nesse instante, a Casa de Cultura Portuguesa. Criam-se laços entre Portugal
e o Cariri. E o Cariri — URCA cria objetivos que intercambiarão a
Universidade Federal do Ceará, Universidade Estadual do Ceará, e a

140
Universidade Vale do Acaraú, para onde converge o verdadeiro ministério
da educação e da cultura dos cearenses.
Por feliz coincidência a esse evento que ora levamos a efeito, viaja
o Senhor Governador Tasso Jereissati a Portugal para estabelecer relações,
criar vínculos culturais e revigorar as nossas origens junto ao país irmão.
Inaugura-se a Casa de Cultura Portuguesa em Juazeiro do Padre Cícero
para confirmar mais ainda as profecias de autêntico progresso conforme
previa o santo Padre, referindo-se ao conglomerado das romarias. Para
aqui afluíram filhos de Portugal e hoje formam uma comunidade portu­
guesa. “Contribuíram todos eles, para o engrandecimento dessa terra tão
hospitaleira. São dezenas deles entre pais, irmãos, filhos, netos e bisnetos,
que recentemente assinaram documentos às instituições portuguesas reivin­
dicando apoio à Universidade Regional do Cariri. Diziam eles, textual-
mente, “Nós que fazemos a comunidade portuguesa de Juazeiro do Norte
e da região do Cariri, ao ensejo da instalação da Universidade Regional
do Cariri — URCA, servimo-nos da presente para solicitar às instituições
portuguesas, Fundação Calouste Gulbenkian, Instituto de Cultura e Lín­
gua Portuguesa (...) que se dignem apoiar e colaborar com a Casa de
Cultura Portuguesa cuja instalação está sendo processada pela referida
Universidade. Assim procedendo, tenderemos a aumentar os laços de
fraternidade, crescer e divulgar a cultura portuguesa nesta região tão rica
de valores culturais, e que acolheu a nós e aos nossos antepassados com
tamanho carinho e hospitalidade que aprendemos a vivenciar o universo
cultural desse povo, sem perder o elo que nos transcende a Portugal”.
Nesta oportunidade agradecemos às instituições portuguesas que nos
apoiaram na concretização deste ideal, bem como à comunidade regional.
Estamos cientes da necessidade de repensar a História a fim de vivermos
o presente e projetar o futuro. Assim sendo, temos de estreitar os laços
de amizade e fraternidade como forma de vivermos os verdadeiros valores
humanos.

141
5 Sonetos
Zênith Feitosa*

Ecos...
De corpo e de alma, banho-me em cascata
bela e singularíssima, pois feita
de argênteos fios que o luar desata
por sobre a noite imensa... tão perfeita!

E eis-me de corpo e de alma envolta em prata.


Tamanha é a claridade que me enfeita,
que o teu olhar com enlevo me retrata
e o teu abraço cálido me estreita.

Noite que luz, em jorros, irradia,


faz-se harmonia, ritmo, melodia:
— Chopin? “Noturno” ? Schubert? “Serenata” ?

Não sei. Talvez a música que eu ouço


seja o eco suave e lindo do alvoroço
desse amor que o nosso íntimo arrebata!

Noturno
Quero esta noite para mim apenas.
Egoísmo, sim! Mas, que me importa? É lindo!
— Dançam estrelas fúlgidas, serenas,
no palco azul do céu, em luz sorrindo...

Entoa a voz das coisas cantilenas,


murmurando... Embeveço-me, as ouvindo...
— É a voz da noite. Múltiplas antenas
pelo amplo espaço a estão reproduzindo...

Há murmúrio. Há sussurro. Há confidência...


Dos vaga-lumes a fosforescência
é voz de luz luciluzindo no ar...

Um instrumento, além, toca em surdina.


— Flauta ou violino? — Sei que me fascina.
— E tua voz, ansiosa, a me chamar!

* Poetisa de Jardim-Ceará, residente em Fortaleza.

142
Asfixia Linda
Triste e cansada, bato à sua porta...
Abra-a, por gentileza, e me recolha,
me aconchegue em seus braços... Não importa
o mundo... os outros... — Sou a sua escolha.

E deixe-me chorar. Quando a comporta


da Dor se rompe em lágrimas e molha
a árida terra da alma — é bom! conforta!
— E a Vida exsurge em broto, caule e folha...

E sonho seu reter-me entre os seus braços...


Prenda-me, pois! Com esses ardentes laços,
você asfixiará a minha dor...

Se um dia, nada mais restar, ainda


restará a Lembrança — porta linda
que, em busca de consolo, hei de transpor!...

Andarilha
O pensamento cale-se. E jardim, nada mais.
Carlos Drumond de Andrade.
Sem palavras. E mágico. E perfeito
este momento. Faço-me andarilha
do Verde. E só Sonho e Emoção aceito
junto ao meu ser, que o Verde já palmilha...

E canavial. E encosta. E fonte. E leito


de riachos, pés molhando... E tosca trilha...
É florzinha silvestre com que enfeito
minha alma... — Isso é JARDIM! E maravilha!

São espaços azuis frementes de asas


de borboleta e pássaro... — Sorriso
de DEUS no ar, que mais límpido se faz!

Sonho e Emoção — eis vossas belas casas!


JARDIM não é bem vale. E o Paraíso
em verde miniatura... E a própria PAZ!

143
Paralelas
Sou como sou. Ninguém me modifica.
Ninguém ou nada. Opção por mim foi feita.
Seja, talvez, para outros, imperfeita,
não importa, se a mim me gratifica.

Não me seduzem aparências... Rica,


vale-nos a alma, e límpida e escorreita.
Convencional hipocrisia enfeita
somente a superfície... o lodo fica...

Radical... farisáica... Não! Repleta


de asco, frente a “sociais virtudes” ... Tantas
e vãs, quão fúteis. — De “erros” ao invés...

Príncipes? Semideuses? — Como o POETA,


digo: “ARRE!” e, às etiquetas... Vezes quantas
nos tais tapetes enrolei meus pés!...

144
Autores caririenses
índice alfabético dos autores, dos quais
se fez registro bibliográfico no livro “ Autores Caririenses”
de Joaryvar Macêdo, até julho de 1979.

Abraão Batista Jéfferson de Albuquerque e Souza


Estêvão Rodrigues João Lindemberg de Aquino
Aldenor Jayme Alencar Benevides João Alves Rocha
Alencar Peixoto João Nuvens de Sousa
Alexandre Arraes de Alencar João Paiva Cavalcante
Alfredo Correia de Oliveira Joaquim Amaro
Amália Xavier de Oliveira Joarivar (Joaquim) Lobo de Macêdo
Antenor de Andrade Silva José Alves de Figueiredo
Antônio Correia Coelho José Alves de Lima
Antônio de Alcântara José Bernardino Carvalho Leite
Antônio de Alencar Araripc José Carlos Pimentel
Antônio Feitosa José dos Anjos Dias
Antônio Gomes de Araújo José do Vale Arraes Feitosa
Antônio Inaldo de Sá Barreto José Esmeraldo da Silva
Antônio Levi Epitácio Pereira José Furtunato Brandão
Antônio Manuel de Sousa José Helder França (Dedé de Zeba)
Antônio Vieira José Newton Alves de Sousa
Azarias Sobreira José Onofrc Marques
Bernardino Gomes de Araújo José Pereira da Silva
Bruno de Menezes José Pereira Gondim
Cícero Martins Jurandy Temóteo
Daniel Walker Almeida Marques Leopoldo Fernandes
Duarte Júnior Ludmila Mendonça
Edmilson Félix Luiz de Borba Maranhão
Elias Rodrigues Sobral Lusmar B. Amorim
Emídio Macedo Lemos Manoel Caboclo e Silva
Enéas Braga Fernandes Vieira Manuel Isaú
Everardo Arraes de Alencar Norões Manuel Macedo
Everardo Nobre Manuel Pereira Bezerra
F. Monteiro de Lima Marcus Vinícius Moreno
Francisco de Andrade Maria Alacoque Bezerra de Figueiredo
Francisco de Assis Brito Maria Eurenice Coelho
Francisco Lopes de Aquino Maria Lindalva Machado Ribeiro
Francisco Silvano de Sousa Mário Teixeira Gurgel
Francisco Xavier Nierhoff M. Diniz
F. S. Nascimento Menezes Barbosa
Gilberto Magalhães Sobreira Mirian Carleial Teixeira
Geraldo Macedo Lobo Mozart Cardoso de Alencar
Inácio Filho Múcio Duarte
Irineu Nogueira Pinheiro Neri Feitosa
Ivanilda Rodrigues de Carvalho Noemi de Alencar Arraes
J. Calíope Otacílio Anselmo
José de Figueiredo Filho Patativa do Assaré

145
Pedro Bandeira Reinaldo Carleal
Pedro Felício Cavalcanti Rosendo Miranda Tavares
Pedro Rocha (Mons.) Rubens Gondim Lóssio
Pedro Valter Leal Tomé Cabral
Pio Carvalho Walter Barbosa
Raimundo Augusto Zélia Pinheiro
Raimundo de Oliveira Borges

146
Instituto Cultural
preencherá, em agosto,
duas cadeiras vagas

No próximo mês de agosto, o Instituto Cultural do Cariri realizará


bonita solenidade, na URCA — oportunidade em que preencherá duas
de suas Cadeiras vagas.
A Cadeira 12, que tem como Patrono Leandro Bezerra Monteiro,
está vaga com a morte do General Raimundo Teles Pinheiro.
Será ocupada pelo Dr. Antônio de Araújo Ribeiro, magistrado craten-
se, autor de diversos trabalhos jurídicos, advogado de renome no fôro
do Estado do Rio e com cursos em Coimbra.
Falará ele sobre Leandro Bezerra e, principalmente, sobre o seu ante­
cessor na Cadeira, o General Raimundo Teles Pinheiro.
A Cadeira n? 18 tem como Patrono Raimundo Monte Arraes. Seu
último ocupante foi o Dr. José Arraes de Alencar. Será ocupada pela
beletrista conterrânea, D. Isabel Arraes Bandeira, autora de diversos livros
de poesia e figura de relevo da inteligência feminina do Ceará.
Falará ela sobre Monte Arraes e sobre o antecessor ocupante da Ca­
deira 18, Dr. José Arraes de Alencar.
O Instituto viverá, assim, uma noite de esplêndida emoção e ambiência
cultural.

147
Circulando novos livros no Cariri

BOM DEVERAS e seus irmãos


Trazido pelo próprio Autor, pernambucano da zona fronteira com
o Ceará, Dr. José Peixoto Júnior, alto funcionário do Ministério da Fazen­
da, em Brasília, foi vendido e está circulando em Crato o livro BOM
DEVERAS E SEUS IRMÃOS (Escopo Editora Comércio e Indústria,
Brasília, 1988).
Trata-se de um apanhado de casos e fatos ocorridos na Serra do
Araripe e seus Municípios pernambucanos próximos (Ouricuri, Trindade,
Exu, Ipubli, Sítio dos Moreira e outros), relatando façanhas do bandido
Bom Deveras e seus irmãos.
Usando um estilo coloquial e sóbrio, relembrando personagens autên­
ticos, sítios, pessoas, fazendas, lugares, o livro torna-se, até, folclórico,
pela descrição de usos e costumes, linguajar, manias, hábitos, crendices,
tudo descrito em linguagem fluente e fácil, que se constitui uma vigorosa
contribuição ao estudo sociológico da área, com ramificação, até, pelo
Cariri cearense.
Todo esse material estaria perdido, se muito sobrevivesse estaria,
futuramente, deturpado na lembrança popular, se não fora o espírito de
investigador arguto dos fatos sociais de sua zona, do Autor, que nos
dá um livro primoroso, encantador, entregando ao público nordestino
uma obra que se recomenda pela seriedade, pela profundidade e pelo
relato singelo e puro de sua gente nativa. Um grande livro, cuja leitura
é indispensável, com fatos relatados generosamente para, em futuro, serem
desdobrados por aqueles que quiserem se debruçar na saga admirável
e perene que constitui, ainda, o interior nordestino.

Versos & Visões — Novo livro de Zula Murinelly


Poetisa de fino lavor, de extremada sensibilidade e de grande acuidade,
dona Zula Murinelly chega-nos, agora, com mais um livro de sua autoria,
VERSOS & VISÕES. Um livro encantador pela sua singeleza, que prende
o leitor da primeira à última página, que traduz intimidade com a vida
e a beleza. Muitos sonetos poderíam figurar numa antologia poética pela
sua fulgurante beleza e densidade.
D. Zula faz parte de diversas instituições culturais de Fortaleza e
mesmo com os cabelos brancos, jamais deixou de sonhar — o que é
a primeira qualidade das poetisas.
O livro é de profunda beleza espiritual e intimista e a autora está
de parabéns por oferecer ao público cearense mais essa publicação de
real valia poética.

148
Alguns sonetos
Dandinha Vilar

O amanhecer no sertão
Quando o dia desponta no nascente
E abre as cortinas pra mostrar o sol;
A passarada entoa docemente
Os acordes sonoros do arrebol.

Mugem os bois pastando calmamente...


Contam galos no alto empoleirados;
E os cães, despertando alegremente,
Correm latindo, ufanos, agitados.

Assim é o sertão quando amanhece.


Flores várias despontam nas campinas,
Cobrindo o chão de virtual beleza.

E este espetáculo o homem entontece,


Contemplando as inspirações divinas
Nos encantos sem par da natureza.

Ao pôr-do-sol
Descamba o sol no ocaso além do monte...
O dia moribundo se despede!
Entre os rochedos rumoreja a fonte
E o silêncio ao redor saudades mede.

A escuridão já paira no horizonte...


A tarde pra dormir, tristonha pede...
E sobre as nuvens, reclinando a fronte,
De que o dia partiu não se apercebe.

No campanário, o bimbalhar de um sino


Jange dolente, ao perpassar do vento,
Doce acorde de paz, tranqüilidade...

Meu coração se sente pequenino


Para conter, num canto de lamento,
O infinito sem par de uma saudade!

149
O tempo
Indomável, invencível, arrogante
Como um rio, a correr vertiginoso,
Não te condóis nem mesmo por instante
Aos clamores de um coração choroso.

Passageiro do mundo, incessante,


Num desafio bruto, desdenhoso,
Vais rasgando num gesto delirante
As entranhas da vida, impetuoso.

Conduzindo aos abismos do passado


Tudo quanto te surge no caminho!
O tempo, não conheces a piedade!

Nada te faz parar. No triste fado


De não retroceder, seguir sozinho,
Só quem te faz deter é a saudade!

Porque não voltas


Volta o sol quando a noite já tem ido...
Voltam astros no céu quando anoitece.
Volta o pranto a embaçar o olhar sofrido,
Simbolizando a dor de quem padece.

Aos pombais voltam pombos voejantes!


E as andorinhas, com a primavera!
Voltam sonhos à mente, delirantes,
Volta a saudade com a doce espera.

Tudo volta. Só tu que não voltaste!...


E eu fico a te esperar com ansiedade
Mas chego à conclusão que em mim persiste:

Como voltar, se nunca te afastaste


Dos pensamentos meus, desta saudade...
Se do meu coração nunca partiste?

150
Devaneio
Paira no ar um doce encantamento
E uma saudade triste me domina...
Em meio à solidão deste momento
Escuto a voz de um galo-de-campina.

Ouvindo o seu cantar, meu pensamento


Esconde-se no enleio que me fascina
E eu tento disfarçar no esquecimento
O amargo recordar que me alucina.

O silêncio envolvente me apavora!


Vencendo a solidão minh’alma chora,
Revendo uma lembrança adormecida.

E o galo-de-campina com seu canto


Vem magoar meu peito e faz o pranto
Esmagar nesta dor a minha vida.

Meditando
Além da solidão, ninguém comigo...
Nem mesmo o pranto ou um sorriso triste...
Assim, no meu silêncio, então prossigo
Curtindo a dor que dentro em mim resiste.

Relembro as horas que passei contigo!


Cruel saudade a me magoar persiste.
Quisera te esquecer mas não consigo
Deter o amor que o meu viver consiste.

Diante a placidez serena e calma


Que me embriaga me envolvendo a alma,
Meus olhos secos fitam o passado.

E desfilam por mim tantas lembranças


Que vicejaram cheias de esperanças
Para deixar meu peito amargurado.

151
Para Juarez, meu irmão
A n a V alderez A yres N eves de A len car

Ah! o verde vale de teus dias: Nós que por enquanto aqui ficamos,
todos eles, queremos na tristeza cultivar
apesar dos anos e desenganos, as sempre-vivas
embalados na harmonia de tuas alegrias
das cantigas correntes e ciosamente resguardar
dos regatos entre as nossas lembranças
de tuas alegrias. mais queridas,
junto às linhas viris
Ah! a sombra generosa de teu semblante,
da árvore frondosa o traçado feliz,
de tua vida: gratificante
quanta flor, quanto fruto da imagem
e proteção de tua paisagem.
nos galhos dos teus braços
sempre abertos Agora, olhando o céu azul-profundo,
para o abraço na beleza das noites estreladas,
e abrigo ao cansaço do fundo da saudade que deixaste,
do viandante. queremos crer na realização,
poeta visionário,
Ah! a vivenda do teu coração: do teu sonho de peregrinação
como era grande na simplicidade, no plano atemporal,
tão limpa, tão singela imponderável:
e iluminada,
escancaradas todas as janelas Perambular
ao sol, à brisa, na vastidão dos mundos,
à vida, às esperanças. sem peias,
A porta, sem amarras,
a generosidade de mãos cheias sem barreiras,
anunciando que era posta investigando
a mesa e traduzindo em versos
e já servida os segregos da esfinge
a ceia! do universo!
Mas te mudaste para um outro vale, E quando, de repente,
um vale azul num momento,
de luzes cintilantes, vivemos a ilusão de vislumbrar,
e habitas (quem dera!) na transparente e iluminada
o próprio coração de uma galáxia esteira
onde recebes o retorno em luz da suave poeira
de todo o amor e todo o bem das estrelas,
que aos quatro ventos teu muito amado vulto
semeaste. em movimento.

Brasília, maio de 1988.


Homenagem da aurora ao Dr. Juarez An-
cilon Ayres de Alencar, poeta, orador,
escritor, jornalista, advogado, consuma­
do intelectual caririense radicado em São
Paulo e recentemente falecido.
Centenário
do Dr. Joaquim Fernandes Teles

Uma vasta programação teve lugar em Crato para comemorar o cente­


nário de nascimento (15 de abril de 1889) do Dr. Joaquim Fernandes
Teles. Houve palestra no Lions Club, proferida por J. Lindemberg de
Aquino, homenagens no Rotary Club (palavras do Dr. Ribamar Cortêz,
Vice-Presidente do ICC, homenagens no Hospital S. Francisco e Mater­
nidade do Crato, Missa em ação de graças, celebrada por Mons. Monte-
negro, na Sé Catedral, sessão na Câmara Municipal e homenagem na
Assembléia do Estado.
Reproduzimos aqui dois discursos: o do Vereador Emídio Lemos
na Sessão da Câmara Municipal do Crato e o discurso do Deputado
Humberto Macário na Assembléia Legislativa do Estado.

Centenário de Dr. Teles


Dr. Emídio Lemos

Nascido em Crato em 15 de abril de 1889, o Dr. Joaquim Fernandes


Teles era filho do Cel. Teodorico Teles de Quental e Ana Balbina da
Encarnação Teles (D. Yayá).
Teve seu centenário comemorado, de maneira brilhante, pela comuni­
dade, com homenagens no Lions Club do Crato, Rotary Club do Crato,
Câmara Municipal, Hospital S. Francisco, Maternidade do Crato, Grêmio
Dr. Teles do Colégio Agrícola, e a família mandou celebrar missa em
ação de graças, em 15.04.1989, na Sé Catedral, celebrada por Mons. Monte-
negro, Mons. Raimundo Augusto e Pe. Teodósio Nunes. Nas notas que
se seguem, ligeiros traços da biografia desse eminente filho do Crato.

A Multiforme personalidade do Dr. Teles


O médico
Foi dos mais brilhantes profissionais na área da Medicina. Estudante
com curso de notas altíssimas, revelando aptidão para a profissão, deixou
marca em sua Faculdade, na Bahia, onde se diplomou na turma de dezem­
bro de 1916. Sua primeira especialização foi em Oftalmologia, onde che­
gou, inclusive, a defender tese sobre o assunto. Depois, com pouco espaço
nessa área, em Crato de então, especializou-se em obstetrícia e cirurgia
médica, onde teve marcante atuação em mais de meio século de exercício
da medicina, que se fez um sacerdócio e um devotamento por todos

153
conhecido. Costumava não cobrar honorários médicos e fez aquela valo­
rosa caridade que engrandece e constrói a fama, sem ostentações e sem
propaganda, mas com o exercício e a prática diária do bem, no consultório
e no hospital.
O industrial
Mente aberta aos grandes empreendimentos, o Dr. Joaquim Fernan­
des Teles foi o pioneiro da industrialização do Cariri, associando-se ao
Dr. Virgílio Ribeiro Maracajá, na construção e exploração da Usina Mara-
cajá, primeira usina dc açúcar do interior cearense, implantada no Burity.
O insucesso empresarial, anos depois, não tirou o seu entusiasmo pela
indústria. No mesmo local e aproveitando o mesmo prédio, uniu-se aos
seus filhos na implantação da CIA. SUL CEARENSE DE PAPÉIS (SUL-
CEPA), ali instalada há mais de 25 anos e que foi a primeira fábrica
de papel no interior cearense. Na indústria rapadureira, Dr. Teles teve
destaque, fabricando e exportando as melhores rapaduras do Cariri, que
conquistaram, inclusive, os sertões da Paraíba e do Inhamuns e até regiões
vinculadas ao Vale do S. Francisco.
O constituinte
Dr. Teles teve a felicidade de participar de suas Assembléias Consti­
tuintes: a primeira, a Constituinte estadual, de 1934, quando deu sensível
colaboração ao verdadeiro artífice daquela carta magna estadual, o depu­
tado Martins Rodrigues. Dr. Teles firmou aquela Carta em que se inseriram
importantes iniciativas suas. Mais tarde, deputado federal em 1946, firmou
a Constituição de 18 de setembro daquele ano, onde inumeráveis foram
as suas emendas, demonstrando seu alto espírito público e o senso de
responsabilidade, como representante de nossa região, pobre e carente.
A Constituição de 46 foi firmada por outro representante do Crato, colega
do Dr. Teles na bancada cearense, o Dr. Antônio Alencar Araripe.
Pode-se dizer que a parte da medicina social, com marcantes inicia­
tivas, constantes naquela Carta, foi, quase toda, do constituinte Fernandes
Teles, como era seu nome parlamentar.
O deputado
Depois de duas passagens pela Prefeitura, numa das quais nos deu
um código de posturas para o Município, muito avançado, Dr. Teles
foi eleito deputado estadual em 1934. Esse mandato não chegou a se
completar, com o golpe de Estado de 10 de novembro de 1937, que
criou a ditadura do Estado Novo, dissolvendo todos os poderes legisla­
tivos. Em 1946, Dr. Teles foi eleito deputado federal. Das diversas comis­
sões de que participou, no então Palácio Tiradentes, Rio, onde funcionava
a câmara, teve marcante atuação — nas de Saúde, Municípios e Finanças.
Preferiu ficar na de finanças que lhe possibilitou carrear inumeráveis emen­

154
das, destinando recursos para o Hospital e Maternidade do Crato. Barga­
nhava, no bom sentido, com os demais parlamentares, votando emendas
de verbas, deles, contanto que eles votassem as emendas destinadas ao
Crato. Os trabalhos da comissão de finanças varavam a madrugada. Dr.
Teles nunca perdeu uma dessas reuniões, vigilante e ativo em defesa de
sua cidade.
O agropecuarista
Dono de vastas e bem estruturadas propriedades agrícolas, no Crato,
na Serra do Araripe e em Pernambuco, o Dr. Joaquim Fernandes Teles
imprimiu, em todas elas, uma sistemática de organização e administração
que fazia resultados admiráveis.
A Lagoa encantada e o Belmonte, com dois engenhos, produziam
as melhores rapaduras do Cariri. Na pecuária, introduziu raças de excelente
procedência, cultivando o aprimoramento dos rebanhos, dos quais muitos
exemplares obtiveram prêmios em exposições no Crato e fora dele. Proce­
deu a experiências louváveis no trato do solo e na obtenção de produtos
agrícolas de primeira qualidade. Era um entusiasta do campo, da fixação
do homem à terra, da valorização da agricultura, meta primária da nossa
economia. Um agricultor de mentalidade, dando nova dimensão e vigoroso
exemplo aos seus colegas de todo o Cariri.

O pai de família
Exemplar pai de família, o Dr. Joaquim Fernandes Teles foi modelo
de bom esposo e de bom pai. Casado com dona Ana Monteiro Teles,
filha do empresário José Rodrigues Monteiro, do casal nasceu família
brilhante e equilibrada. Dr. Teles cuidou com esforço e dedicação da
educação de todos eles, resultando: Dr. Hermano Teles — engenheiro
agrônomo, ex-diretor do colégio agrícola e do centro de tratorists do
Crato, ex-deputado federal e suplente de senador da República; Dr. Caio
Monteiro Teles, veterinário; Dr. Joaquim Teles Filho, químico industrial;
Dr. Maurício Monteiro Teles, médico, falecido; Luísa Helena, Teresa
Maria e Ana Guilhermina, professoras, e Maria Audísia, também profes­
sora. Todos com esmerada educação e formação profissional. Dr. Teles
faleceu em maio de 70 e D. Ana em 77. Foi um casal de excelente formação
cristã e cívica, e a prova são os descendentes que nos deixou.
O empresário
Dr. Teles também atuou no comércio do Crato, em sociedade com
seu irmão Antônio Fernandes Teles. Eles tiveram, por mais de 30 anos,
a famosa Farmácia Teles, na Rua Dr. João Pessoa, gerenciada pelo segundo.
Ficava onde hoje está mais ou menos a Livraria Mensagem, naquela artéria
do nosso comércio.
A Farmácia Teles tinha aviamento de receitas, nos moldes antigos
e era estabelecimento conceituado.

155
Relembrando Fernandes Teles
Humberto Macário de Brito
Senhor Presidente,
Senhores Deputados,
Representante do Município do Crato, fecundo por suas terras ubér-
rimas e pela tradição gloriosa do seu povo, honra-me a incumbência que
me impõe o dever de Deputado, de médico e amigo do ex-Deputado
Estadual, ex-Deputado Federal, ex-Prefeito do Crato e médico da maior
nomeada em nossa terra, o Dr. JOAQUIM FERNANDES TELES, de
homenageá-lo nas Comemorações que o Crato lhe faz, pelo transcurso
dos cem anos de nascimento de seu eminente filho, a 15 do mês em
curso.
Aqui nos representou com o raríssimo fulgor de sua inteligência,
a lhanesa do seu fino trato e o destemor do seu espírito combativo,
de 1935 a 1937, quando a Ditadura Vargas chegou, instalou-se e perma­
neceu, traindo o ideário revolucionário, democrático dos audazes comba­
tentes da Revolução de 30.
Em que pese ao caráter local da administração naquele período, quan­
do a Federação não funcionava e Estados e Municípios detinham quase
total independência política e administrativa, enquanto o Poder Central
era fraco, incapaz e impotente e apesar das limitações do parlamento,
a sua atuação foi das mais brilhantes, na Assembléia.
Após 45, elegeu-se Deputado Federal por duas legislaturas, tendo
como companheiro este outro eminente Deputado cratense — ANTÔNIO
DE ALENCAR ARARIPE.
Na Câmara Federal, fez um trabalho obsecado pela obtenção de
recursos, ano a ano, paciente, tenaz e obstinadamente, para construção
do Conjunto Hospitalar, ainda hoje MODERNO, que constitui o Hos­
pital São Francisco de Assis e Maternidade Dr. Teles, em Crato.
Na construção e, mais do que tudo, no funcionamento destes serviços,
de caráter macrorregional, que centralizaram por muito tempo, até cerca
de 1968, o atendimento de toda a Região vizinha dos estados de Pernam­
buco, Paraíba, Piauí e até, com freqüência, do Maranhão, contou o
Dr. TELES com apoio diuturno e incondicional do Dr. ANTÔNIO
MACÁRIO DE BRITO e do Provedor Mons. PEDRO ROCHA DE
OLIVEIRA, por cuja conjugação de esforços a Instituição foi consolidada
e sedimentada, perdurando grandiosa até nossos dias.
Além de médico e político, foi agricultor e pecuarista de grande
porte.
Era casado com dona Ana Monteiro Teles.
A família, exemplar na fidalguia, no trabalho e no amor à Terra,
lhe seguiu os passos.
Maurício, o substituiu na medicina, tornando-se uma das figuras
mais queridas em nosso meio.

156
Hermano, também Deputado, ocupou-se da agricultura e da política,
com discrição.
Telizito e Caio, com apoio do pai e dos irmãos criaram a SULCEPA
— Companhia sulcearense de Papéis, em Crato, com inacreditável esforço
e pouquíssimo empenho público, ora em franco progresso.
As filhas — Ana Guilhermina, Luiza Helena e Terezinha — são
exemplos de dignidade e honradez.
Falecendo a 05 de maio de 1970, Dr. JOAQUIM FERNANDES
TELES — irmão do ex-deputado FILEMON FERNANDES TELES
— deixou inegavelmente um espaço imenso — vazio, pela natural bondade,
pela simplicidade incomparável, pela competência como cidadão, médico
e político.
À figura veneranda desse eminente cratense, rendo, nas comemorações
do seu centenário de nascimento, a homenagem da minha família que
tem, no Dr. ANTÔNIO MACÁRIO DE BRITO, seu amigo e compa­
nheiro de inacreditáveis lutas no Hospital São Francisco, quando esta
CASA era o único Hospital a funcionar na grande Região Centro Nor­
destina.
Estarei sempre nesta tribuna para homenagear as grandes figuras da
minha Terra, que, no passado ou no presente, tanto a têm exaltado.
Tenho dito, senhores Deputados.
Muito obrigado.

19.abr.89

157
50 anos
da Associação Cratense pró-Cultura
Luís de Carvalho Maia

Meus senhores, minhas senhoras:


Mefnorável é a data que estamos celebrando, porque ela assume as
proporções de uma renovação.
Um olhar retrospectivo aos idos de 1938, traz-nos doces como saudosas
recordações, do idealismo que nos empolgava, em pleno vigor e desabro­
char da nossa juventude.
Éramos ainda imaturos, sem experiência vivencial para os duros emba­
tes da vida, mas éramos soberanos e altaneiros para os vôos condoreiros
de sonhos e ideiais sublimados.
Cantávamos como Castro Alves, que era o ídolo da nossa geração:
“ Eu sinto em mim o borbulhar do gênio;
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — Brada-me o talento n’alma,
E o eco ao longe me repete — Avante!”
O clima da juventude em Crato, àquele tempo, era de ufania, exulta-
ção, delírios oníricos de planos, projetos, arroubos de eloquência, fome
e sede de sabedoria, de conhecimentos.
Não havia entre nós espíritos amorfos, abúlicos, indiferentes. Éramos
um vulcão em ebulição.
Na cabeça de cada um de nós, havia sempre uma idéia genial. Havia
uma inquietação interior e convulsiva de executar tudo que fazia ferver
o nosso sangue e agitar as pulsações do coração.
Foi nesse clima de efervescência espiritual, de tensão emocional que
nasceu a Associação Cratense Pró-Cultura, ao embalo dos mais puros
e elevados propósitos e intenções, que nos levariam até aos maiores sacri­
fícios e ousadas aventuras se necessário fosse para concretizar a progra-
mática esboçada.
Não éramos muitos pelo número. Inicialmente apenas nove compa­
nheiros, identificados todos nos mesmos ideiais, sentimentos e audácias,
desafio às dificuldades.
Lembro-me tão bem como se fosse hoje. O nosso primeiro encontro
realizou-se na residência do meu irmão Pergentino Maia. Nossos planos
ultrapassavam os limites da nossa capacidade de realização. A associação
assumia as proporções e dimensões de uma Academia de Letras, similar

158
a quantas existiam e prosperavam em todos os quadrantes do território
nacional.
Havia os titulares das cadeiras que eram sempre escritores de renome
nas letras nacionais e cada membro da Associação escolhia o patrono
que mais afinava com o seu gosto literário.
Nossas atividades eram intensas, incansáveis e proveitosas, desper­
tando interesse de outros estudantes que se vieram filiar ao nosso movi­
mento, dando assim o “status” de um silogeu de sabedoria, uma escola
de aprimorados estudos, e uma arena de torneios e emulação cultural.
Tal foi a intensidade do nosso movimento lítero-cultural, que chega­
mos a fundar o jornal “Afirmação”, onde nos exercitamos nas lides jorna­
lísticas, com aquele garbo e ousadia que Rui Barbosa, na “Oração aos
Moços”, previnia aos jovens a temeridade dos incipientes que se empavo-
nam com entonos de mestres e doutores.
Era a fermentação do gênio que agitava as nossas entranhas, e que
a experiência vivida com tanta intensidade na Associação Cratense Pró-
Cultura foi o trampolim de onde muitos atingiram o galarim das mais
justas e merecidas conquistas, no mundo das letras, das ciências, da vida
profissional.
Hoje, revendo tudo isto, não apenas pelas evocações da memória
mas pela leitura das atas, do jornal, e de outros documentos, sinto aquele
deslumbramento como o agricultor, que a semente plantada nos idos
de 1938, nasceu, germinou e deu frutos opimos e sazonados.
Esta festa do cinqüentenário do Monsenhor Francisco Montenegro
é também nossa, não apenas por termos sido os seus alunos e recebido
a influência ponderável do seu espírito de humanista e educador, mas
também pelos incentivos, apoiamento e estímulos que sempre nos ofereceu
ao longo da periódica existência da Associação.
Hoje, de mãos unidas, elevemos aos céus o hino espiritual dos nossos
trabalhos coroados de êxito como também os sentimentos de ação de
graças por haver encontrado em nossos caminhos uma personalidade da
envegadura moral e de porte de sabedoria e compreensão humana como
o Monsenhor Francisco Montenegro, a quem conferirmos a outorga de
uma placa comemorativa.

Discurso pronunciado na festa de 50 anos


da Ass. Cratense Pró-Cultura, em
25.06.88, no Colégio Diocesano do Cra-
to.

159
3 sonetos de José Carvalho

A chuva no Ceará
Cai a chuva na terra e um tremor
De seiva estua em toda parte. E a gente
Estremece também vendo em redor,
O milagre do broto e da semente.

A chuva é um hino: há rufos de tambor,


Há pizicatos e há um tom dolente
No gotejar que cai pelo pendor
Da ramada alfombrosa e viridente.

A terra toda, quando chove, canta,


Cantam rios, ravinas, boqueirões
Espremidos das serras, na garganta.

Mas na cidade as notas prazenteiras


Dão as calhas cantando em gorgolhões
E o teclado tremente das goteiras.

Os açudes

i
Agora, sim! — as chuvas do Nordeste
Não correrão inúteis para o mar;
Ficarão nos açudes que nos deste
Para a Terra das Secas fecundar.

Por toda a parte, do levante a oeste,


De norte ao sul, a terra há de criar
Searas e rebanhos! Será este
O bem maior que nos podias dar.

E por isso, certo, no futuro,


Quando o bom lavrador tiver seguro
O seu roçado e não sofrer mais fome,

Há de ensinar à prole estremecida


— Já criada na Terra Prometida —
A bendizer e abençoar teu nome!

160
II

A chuva é o pão do cearense, é a vida


E o não deixar a terra em que nasceu,
O seu rebanho, a casa estremecida,
A Fazenda, a campina, a serra e o céu.

É toda a natureza ressurgida


Dessa morte aparente em que viveu.
O Jaguaribe... a várzea reflorida
Que o juazeiro de perfume encheu.

E ver chegar a noite e repousar


Ouvindo na viola o trovador
Improvisar a quadra peregrina

E dormindo tranquilo, despertar


Ao toque do clarim madrugador
Da grâúna e do galo-de-campina.

Ao Presidente Epitácio Pessoa.


Belém-PA, 1922.

161
Martim Soares Moreno
na “Insurreição Pernambucana”
Hélio Ideburque Carneiro Leal

Os compêndios didáticos de História, ao se reportarem à insurreição


pernambucana, mencionam, via de regra, como seus protagonistas —
Matias de Albuquerque, João Fernandes Vieira, Vidal de Negreiros, Felipe
Camarão, Francisco Barreto, Dias Cardoso, Francisco Rebelo e Luiz Bar-
balho.
Omitem o nome de Martim Soares Moreno, “um dos campeões da
restauração de Pernambuco”, segundo Varnhagem.
Vitória de Guararapes decorridos 340 anos
Ainda há pouco, a propósito das comemorações do transcurso de
mais um aniversário da vitória final daquele movimento que objetivava
a expulsão do invasor flamengo, um “jingle” divulgado amplamente pelas
emissoras de rádio e televisão incorria no mesmo equívoco ou, quem
sabe, cometia a mesma injustiça.
Inquestionavelmente, referidos personagens, articuladores da campa­
nha libertadora, iniciada em 1630 e consumada em 1654, com rendição
total dos holandeses, merecem os aplausos e a exaltação das novas gerações,
como aliás vem acontecendo.
O que, todavia, causa estranheza é o olvido a que votaram o. nome
de Martim Soares Moreno, cuja atuação heróica e patriótica em mencio­
nado episódio de nossa História, não poderá ser esquecida e muito menos
ignorada.
Rocha Pombo, “História do Brasil”, p. 181 (edição Melhoramentos),
ao registrar uma das primeiras vitórias de João Fernandes Vieira sobre
os invasores comandados pelo Cel. Haus, no monte das Tabocas, revela:
“Dali (do monte das Tabocas), abala Vieira rumo a Santo Antônio do
Cabo. Em caminho encontra as forças de Camarão e de Henrique Dias;
e, logo depois, opera junção com as de André Vidal e de Martim Soares
Moreno”.
A presença do fundador do Ceará na luta contra o inimigo comum
A “Grande Enciclopédia Delta Larousse”, p. 3.230, faz referências
enaltecedoras à participação de Soares Moreno naquela desesperada luta
desenvolvida contra as forças de ocupação flamengas.
Explícito, porém, é Afrânio Peixoto que bem define a notável contri­
buição de Martim Soares Moreno no combate aos intrusos desde os primei­
ros momentos de espoliação de que era vítima o Nordeste.

162
Assim, se expressa o eminente historiador: “Martim Soares Moreno
resistira, em 1624 e 1625, aos holandeses, na sua Capitania do Seará.
Viria contra eles quando da invasão em Pernambuco e Paraíba. Em carta
de 8 de janeiro de 1631, dá conta de preparativos para acudir a Pernambuco,
dizendo que recebido aviso do que aí se passava, mandara socorro dos
índios que pôde, sabendo que eles acudiam com muita vontade ao que
encarregados”.
“Agora, Martim Soares passava o Governo da Capitania a seu sobri­
nho Domingos da Veiga, e ia em pessoa. Chegara, de facto a Pernambuco
em princípios de junho, trazendo do Ceará muitos índios e alguns soldados.
Mais gente lhe foi dada e o posto de Nossa Senhora da Vitória, perto
do rio Capibaribe, pela parte que divide a ilha de Santo Antônio, frente
a dois redutos do inimigo” . “A um destes, em setembro, mandou-o Matias
de Albuquerque atacar, o que fez por assalto, com os seus duzentos
índios, que eram daquela parte mais alarves (ferozes) e elle delles o melhor
lingoa e amado singularmente”, diz Brito Freire (nova Lusitania, 203/4,
Lisboa, 1675, cit. por Garcia, Diálogos das Grandezas do Brasil, Rio,
p. 169); conseguiu vitória contra 40 infantes e um sargento, fortificados:
prendeu ao sargento, degolou 12 homens fugindo os mais assombrados,
à vista dos índios, que “reputavam como selvagens, vendo tão ligeiros
e atrevidos, com gesto feroz, despedirem, nus, imensas flechas, esses horrí­
veis bárbaros”, diz o mesmo cronista.
“Em 24 de março de 1633, numa quinta-feira santa, guiados por
Calabar, os Flamengos empreenderam o ataque ao Arraial do Bom Jesus,
às 11 da manhã, hora em que cantavam os nossos na igreja... mas a
agressão foi repelida, perdendo muitos mortos, entre eles o chefe Rembech,
muitos oficiais feridos, deixando 15 prisioneiros, os nossos tiveram 25
mortos, 40 feridos, entre estes os capitães Estevão de Távora e Martim
Soares Moreno” (Varnhagem, História Geral, t. II, p. 302).
“ Rumando à conquista da Paraíba, desguarneceram os Flamengos,
relativamente o Recife, o que convidava os nossos a uma tentativa. Ela
foi confiada, na noite de I de março de 1634, a Martim Soares e seus
homens. Enquanto uns davam rebate do lado do Forte das Cinco Pontas,
outros passavam a vau o Beberibe, entrando no Recife pelo lado fronteiro
da ilha, e outros pela porta do lado do Brum. Muitos conseguiram passar
o rio e entrar nas trincheiras, mas, dado o rebate pelo inimigo, advertido,
antes que o impedisse a maré, conduzindo os feridos, foram os nossos
obrigados a retirar” (Duarte de Albuquerque, Memórias Diárias, p. 78;
Laet, Annaes dos Feitos da Companhia, 2.444; Varnhagem, Op. cit. t.
II, p. 310).
“Na Paraíba os nossos sofriam revezes e capitulação: Martim Soares
é mandado para a guarnição do Cunhaú... Donos da Paraíba os Flamengos
trataram de fazer a junção das suas posses, unindo-as pelo território inter­
médio, ao Recife... Matias de Albuquerque tratou de dificultar essa junção,

163
para o que a Martim Soares e a Luiz Barbalho confiou a missão de apre­
sentar oposição, o primeiro em Mussurepe, o outro em S. Lourenço,
depois na Muribeca, até Serinhaém, próximo do Arraial, entrincheirados
para defenderem o porto que lhes restava.
Novamente em Pernambuco o grande mestre de campo
“A ordem era, quando não pudesse enfrentar o inimigo, incendiar
todos os canaviais e pau-brasil que fossem achando de passagem, arrasando
o que conseguissem para nada aproveitar ao adversário...” Tudo isso
foi por Martim Soares e seus companheiros executado quanto possível,
diz Duarte de Albuquerque (in Varnhagem, Op cit., tit. II, p. 318).
“Em agosto de 1645, o Governador Teles da Silva prepara dois terços
ou regimentos de linha, prontos para partirem em uma esquadrilha...
comandada por Jerônimo Serrão de Paiva. Os dois terços serão coman­
dados por Martim Soares Moreno e André Vidal de Negreiros... Martim
Soares foi incumbido de investir à fortaleza do Pontal, com o seu terço,
enquanto Vidal e Fernandes Vieira se dirigiam às forças de Haus, junto
do Recife. Depois da vitória de Casa Forte e prisioneiro Haus, Vidal
tornou a ajudar Martim Soares, que cercava o Pontal, caída a fortaleza
em nosso poder” (Varnhagem, Op. cit. tit. III, p. 22).

O patriota pede mercês para Flamengos


“Em carta de 6 de setembro de 1646 ao Governador Teles da Silva,
Martim Soares pede mercês para Flamengos que nos ajudaram, “casados
com portuguesas”, Teodósio Ostrata e Gaspar Vanderley. Nessa Carta,
Martim Soares receia pela sorte da armada de Serrão de Paiva e um ataque
inimigo, o que se verificou, apreendida até correspondência que provava
o Governador e o próprio Rei se achavam implicados na restauração
de Pernambuco, iludindo, entretanto, diplomaticamente os Holandeses,
na Europa”.
Desaparece de cena o grande herói
“Por esse tempo, vencido de idade e trabalhos, o Mestre de Campo
Martim Soares Moreno parte para a Bahia... Foi concedida licença ao
velho herói para ir ao reino. “E assim, diz Rodolfo Garcia: desaparece
de cena uma das figuras de guerreiro mais heróicas da História Brasileira”
(Varnhagem, Op. cit., loc. cit. t. III, p. 44).
“Nascido em 1586, teria, em 1648, 62 anos, dos quais mais de 44
ao serviço do Brasil, pelejando, sofrendo, sendo ferido, mutilado de uma
mão, grande língua, identificado aos índios cuja amizade punha ao serviço
da causa nacional”.

164
Títulos que merecidamente lhe pertencem
Ao finalizar sua documentada narração Afrânio Peixoto proclama:
“ Marrim Soares Moreno é o fundador do Seará. E o descobridor do
Maranhão. E do Pará. E o colaborador de Diogo de Campos Moreno,
de Alexandre de Moura, de Jerônimo de Albuquerque, de Jacaúna, índios
e Reinós que expelem os Franceses do Maranhão, acabando a França Equi-
noxial. É o colaborador de Antônio Teles da Silva, de Matias de Albu­
querque, de André Vidal de Negreiros, de Luiz Barbalho... e de Reinós,
índios, Negros, que nos ajudaram, todos pela causa Brasileira, a restaurar
Pernambuco, dos Holandeses. E símbolo de todos esses Portugueses,
que deram tudo, para que houvesse, hoje e sempre, o Brasil, latino, cató­
lico, c nosso...” (in Martim Soares Moreno, editado pela Divisão de Publi­
cações e Biblioteca da Agência Geral das Colônias, do Ministério das
Colônias da República Portuguesa, Lisboa, 1940, p. 33/39).

165
Quintino Cunha
A sátira de um poeta lírico
Rogaciano Leite Filho

José Quintino da Cunha colocou toda a inteligência a serviço do


Direito e da poesia. Orador brilhante, foi sempre festejado pelos intelec­
tuais da época. O historiador Raimundo Girão, cm “Antologia Cearense”
(Academia Cearense de Letras, 1957), afirma que ele era um “poeta de
lúcida inspiração”. Lembra que aos quinze anos já dava prova de seus
dons oratórios e de fina inteligência:
— “Na tribuna do júri, nos comícios públicos e festividades era
o seu verbo constantemente reclamado. Granjeou ainda maior fama pela
sua irrepreensível verve e a sua admirável prontidão de repentista, com
as quais muito enriqueceu o anedotário brasileiro. São ainda hoje obriga­
tórias as “anedotas do Quintino” nas conversações alegres. Em verdade,
foi um perdulário do talento e mais poderia ter legado à literatura pátria
se não fora a displicência com que encarava a vida, não dando maior
valia aos próprios méritos”.
Nas primeiras décadas do século, o poema “ Poder da miséria”, de
Quintino Cunha, fazia sucesso nas reuniões literárias. O escritor e crítico
Sânzio de Azevedo explica o motivo: “Vazado em decassílabos entre­
meados de hexassílabos, o poema não precisou ser musicado para obter
larga notoriedade. Trata-se de poema que poderiamos chamar de didático,
pois é uma espécie de apólogo (seguindo-se a classificação de Bilac e
Passos, no “Tratado de Versificação”), onde encontramos um fundo mo­
ral; pelo caráter narrativo e sobretudo pelo comovente lance final. E com­
posição típica de saraus, e como que feita para ser declamada, daí certa­
mente seu êxito nas reuniões lítero-musicias”.
Sânzio de Azevedo observa que Quintino Cunha não era um român­
tico ortodoxo: “Mas sem dúvida é do romantismo que mais se aproxima,
até por uma questão de índole: ele era um temperamento espontâneo,
cujo talento nunca de submeteu às regras, cm nenhum campo que militou;
e o Romantismo, além de ter sido a corrente em que mais naturalmente
se expandia o poeta, era a estética dominante ao tempo em que Quintino
Cunha nascia para as letras, no século passado”.
Poeta lírico
Otacílio colares, em “ Lembrados e esquecidos II” (Imprensa Univer­
sitária da UFC, 1976), recorda o tempo do Café Riche (esquina de Gui­
lherme Rocha com Major Facundo)”, com Quintino brilhando de mesa

166
em mesa através de suas tiradas jocosas e geniais. Diz que “a figura mais
esfusiante e característica do ambiente sempre buliçoso do Riche era,
sem qualquer dúvida, Quintino Cunha, famoso e respeitado ainda pelo
poder de uma verve que, ainda hoje, prejudica um tanto a sua imagem
de poeta lírico, em face da projeção popularesca da sua boêmia” . Baseado
nas memórias de Sílvio Júlio (Terra e povo do Ceará), conta episódio
real acontecido com o poeta:
— “Andava Quintino Cunha, que nunca fora rico, em maré de pouca
pecúnia, e disto foi sabedor, de modo próprio ou por interposta pessoa,
o presidente João Tomé. Admirador dos dotes do poeta, que era —
sabia-o o governante — bacharel em Direito, resolveu lavrar a sua nomea­
ção para promotor da comarca do Icó, então tornada mais longínquo
do que hoje pela quase inexistência de transportes para a capital. Corres­
pondente ao ato, foi propocionado ao futuro promotor a competente
ajuda de custo... Passado algum tempo, o Secretário de Justiça, por cuja
pasta obviamente fora feita a nomeação, encontra o poeta em pleno centro
da Fortaleza e pergunta-lhe:
— “ Como é isto, não partes?”
“Quintino, sereamente, participa à autoridade a nenhuma intenção
de assumir o cargo, o que é considerado, de viva voz, absurdo e mesmo
imoral. Como resposta ao espanto e ressentimento do titular, Quintino
sai-se com esta explicação:
— “ Vossa Excelência vai prestar-me o serviço de dizer ao Sr. João
Tomé que gastei o dinheiro e não embarquei, porque aquilo não era
ajuda de custo, mas uma pequena indenização que lhe cobrei pelo insulto
de me querer deportar para Icó” .
Otacílio Colares destaca ainda que “ em Quintino, como em Bocage,
o verso bricalhão ou ferino foi veículo de verdadeiras crônicas de sua
época, retratando, com o traço breve mais incisivo do caricatural, defeitos
de pessoas, de grupos sociais ou políticos, tudo bem mais ao sabor da
pura e simples demonstração de talento do que como resultante de ressenti­
mento ou severa observação e condenação de erros” . E observa:
— “ Com o poeta de “ Pelo Solimões” , acontece o mesmo que com
o autor do poema “ A puríssima Conceição de Nossa Senhora” , ou seja,
muito verso fescenino, muito repente de mau gosto, que por aí anda,
nem é de sua autoria; apenas são acobertados, uns e outros, com o passar
do tempo, pela glória fácil daqueles ditos que realmente a sua imaginação
fertilíssima produzia, menos por outra coisa e mais apenas para conseguir
aplauso instantâneo, desta ou daquela roda boêmia” .
— “Isto, aliás — prossegue Otacílio Colares —, foi um toque especial,
característico mesmo dos grupos intelectuais da chamada “ bclle époque” ,
aqui no Brasil como em toda a Europa. E Q uintino, nos cafés da
Fortaleza do seu tempo, repetia, porque tinha talento e porque era de
bom tom, o que faziam às portas de livrarias e nas mesas famosas de

167
certos cafés e restaurantes do Rio, em época idêntica, Bilac, Paula Ney,
Emílio de Menezes e tantos outros...”
Vida
José Quintino da Cunha nasceu em Itapajé, em 24 de julho de 1875,
filho de João Quintino da Cunha e Maria Maximiniana da Cunha. Tentou
inicialmente seguir carreira militar, matriculando-se na Escola Militar do
Ceará, que depois foi extinta. Aos onze anos, já escrevia para a imprensa.
Aos dezessete, estreou no tribunal do júri. Publicou os livros “Diferentes”
(contos, 1893), “A morte de cabeleira” (elegia, 1902), “Pelo Solimões”
(poesia, 1906), “ O estilo na jurisprudência” (tese, 1928) e o poemeto
“A pulga” (1917).
Quintino Cunha passou longa temporada no Amazonas, onde exerceu
a advocacia como provisionado. De volta ao Ceará, diplomou-se em Direi­
to, em 1909. No período de 1913-1914, foi deputado estadual. Fez ainda
parte do Centro Literário de Fortaleza e foi eleito para a Academia Cea­
rense de Letras. Faleceu em 1? de junho de 1943.
Casou-se três vezes e teve dezesseis filhos. A sua terceira mulher,
Thereza de Araújo Cunha, entrevistada no ano passado pelo jornalista
Flávio Paiva, do O POVO, relembrou uma das mais conhecidas histórias
de Quintino, ocorida na Serra de Baturité:
— “ Em um aniversário do Quintino, Alfredo Pontes, que era seu
amigo, resolveu fazer uma brincadeira com ele. Como era costume, naquele
tempo, quando um amigo aniversariava, se mandava um bolo coberto
com uma toalha, Alfredo mandou um par de chifres. Logo que Quintino
recebeu, retirou os chifres e colocou na bandeja umas flores que ornamen­
tavam um jarro na janela e devolveu. Quando Alfredo encontrou-se com
Quintino, disse: “Mas Quintino, você me deu uma bofetada com luva
de pelica”. No que Quintino respondeu: — “Não, Alfredo, cada um
dá o que tem”.

O poder da miséria
Numa deserta estrada, erma e sombria, Diante da voz imperativa e forte
transitava um senhor que a fidalguia Do audaz salteador, diante da morte,
Distintíssimo fez. Vacilando tremeu.
Era WiUiam, um nobre, um desses nobres, E foi tão grande a sua cobardia
Que via os ricos como via os pobres, Que a bolsa com o dinheiro que trazia
William, um inglês. Ao desgraçado deu!...
Das margens do caminho, de repente,
Como um leão feroz, surge-lhe à frente Houve uma pausa. O salteador apenas
um fero salteador, A bolsa recebeu, onde dezenas
Que, levando a arma ao rosto, lhe De cédulas contou
murmura: E, do meio de todo esse dinheiro,
— Minha necessidade é que o procura, Que em seguida devolve ao cavalheiro,
Uma esmola, senhor. Cinco mil réis tirou.

168
E disse-lhe: — Senhor, este é o bastante, — O nde mora? Pergunta-lhe sereno
Para m atar-m e a fome escruciante, — O generoso inglês. Faz-lhe um aceno:
E a dos meus filhinhos. — Ali, naquela aldeia.
E, se hoje houvesse um ’alma na cidade, — Tem família? — Seis filhas
Q ue me matasse esta necessidade, pequeninas,
Eu não vinha roubar pelos caminhos. M ortas à fome, seis filhas meninas,
Senhor, faça uma idéia.
Foi assim, entre o horror c o desespero, William seguiu; mas no outro dia
Q ue mau me fiz, Senhor. Agora, espero Foi visitá-lo; e após, quando saía,
O seu nobre perdão, D eixou ficar prim eiro,
Q u e eu sou um pobre pai necessitado, N ão de esquecido, mas de grande que
Senhor, eu sou um simples desgraçado, era,
Eu não sou um ladrão. D eixou ficar na porta da tapera
— A bolsa com o dinheiro!

169
À busca
de uma alternativa
José Emerson Monteiro Lacerda

A chegada dos currais marcou o nascimento da Cidade de Crato,


nos idos do século XVIII, quando a Casa da Torre de Garcia D’Ávila
tangeu seus rebanhos para o norte, crescendo o sertão da Bahia e trans­
pondo o Rio São Francisco.
Era o Ciclo do Couro. O gado, à frente da civilização européia,
repastou-se contente no belo sítio formado pela ferradura da Serra do
Araripe. E sob a égide da Igreja Católica, os capuchinhos instalaram
o primeiro aldeamento — a Missão do Miranda, onde hoje repousam
o estádio de futebol e o conjunto habitacional da COHAB-CE.
Com o passar dos séculos, outros fatores econômicos vieram contri­
buir para uma maior produção da área agrícola, rompendo aquele estágio
inicial, mesmo que ainda se localizem caracteres de continuidade na pecuá­
ria adotada nos brejos e nas exposições permanentes a se realizarem no
mês de julho. Hoje são menores os recursos oficiais destinados ao incentivo
do criatório, a que se adaptaram os produtores, sem maiores protestos.
Juntos dos currais, outros hábitos econômicos da colonização portu­
guesa também foram transplantados para o Cariri, a ter o Crato como
pólo de atração. A cultura da cana-de-açúcar vinha sendo adotada, nos
paços de São Luís, Recife, Salvador e São Paulo, como a vocação da
Nova Terra para a produção do açúcar, introduzido na Europa desde
o século X, pelos árabes. Graças ao apoio dos comerciantes holandeses,
Portugal adotava essa atividade como sua empresa econômica de exploração
das colônias.
Não produzíamos açúcar alvejado, pois a distância de transporte fazia-
se penosa até o litoral. O sertão, por sua vez, dispunha de mercado
para o tijolo doce — a rapadura, onde os engenhos ganharam foro e
dividiram as atenções dos proprietários das fazendas. O Cariri chegou
à cifra de 96 engenhos, em sua maior quantia situados neste município.
O transcorrer da evolução histórica espalhou pelos interiores a produ­
ção das usinas de Pernambuco e Alagoas. Os costumes dos caboclos varia­
ram e o açúcar branco ganhou na preferência, mesmo que em detrimento
da sáude, dada sua refinação, onde penetram elementos nocivos ao corpo
animal. O mercado da rapadura restringiu-se às feiras semanais e tendeu
a decrescer a cada ano, problema agravado pelos custos elevados de produ­
ção. Assim, o declínio do Ciclo da Cana-de-açúcar, em nossa terra.
Entretanto, a História funciona de forma harmônica, onde fases se
entrelaçam, quase de foram imperceptível.

170
Outro ciclo vicejava, enquanto sumiam as perspectivas do açúcar.
Era o Ciclo do Algodão, que motivou os agricultores ao aproveitamento
das terras altas. Muitas usinas de beneficiamento, tanto do caroço quanto
do capucho, surgiram no âmbito urbano. Crato chegou a possuir até
seis fábricas de beneficiamento para exportação da fibra e embalagem
de óleo do algodão.
Nas três últimas décadas nosso meio sócio-cultural refletiu a força
do ouro branco. O meio circulante recebeu amplos impulsos dessa ativida­
de, tanto através de empresas industriais, quanto de produtores, no campo
e na cidade.
Sabia-se de um inseto que prejudicava as lavouras do algodão, na
América do Norte. Depois as notícias falaram que o besouro malfazejo
alcançara as plantações do sul do Brasil. Quando o “ bicudo” atingiu
o Nordeste, dentro de dois anos o Cariri também se desalentava, pois
o ciclo algodoeiro desfazia-se num abrir e fechar de olhos, para marcar
o final de outro passo de uma longa seqüência.
Em análise comparativa, nossos vizinhos, em Juazeiro do Norte,
a 13 km de distância por via asfáltica, dependem menos da zona rural,
face área de bem menores proporções. Vivem do comércio e de outras
indústrias, menos vinculadas ao eito, além das transfusões financeiras que
merecem pelas visitas dos romeiros, em três épocas anuais.
Crato, após a derrocada dos ciclos antes vistos, couro, cana-de-açúcar
e algodão, viu-se defasado e sem alternativa econômica clara, tal o momento
que ora atravessa.
Estudos científicos modernos demonstram que povo algum pode so­
breviver sem um desempenho produtivo compatível à manutenção dos
seus componentes populacionais. Sabe-se que o homem é um ser econô­
mico, por excelência. O estômago simboliza a necessidade do custeio
das massas humanas. Pela produção — que significa a alquimia do trabalho
sobre a natureza — os grupos sociais prevalecem sobre as intempéries.
Há de se percorrer novos caminhos produtivos para que o Município
possa restabelecer sua tradição de labor e cultura, exemplo nacional de
liderança e coragem, no sul do Ceará. Isto posto, vale destaque para
o fato de ser sede da universidade regional (URCA), geradora de profis­
sionais superiores e formadora de mentes renovadas.
Compete, pois, às classes dirigentes, intelectuais, liberais, operários,
religiosos, cratenses de origem ou coração, reunidos sobre a idéia de
estudar e descobrir, criar outro ciclo para o núcleo, no condão que tem
a cultura de mover a História.
O caudal dos fatos produziu época onde todas as propostas se eviden­
ciam, prontas ao retrabalho das tecnologias modernas ao alcance da mão.
O mundo local sintetiza uma colagem de sistemas de produção e ganho,
onde se perpassam potencialidades e lideranças; o comércio gira a produção
de todos os ciclos que ainda persistem, desde a pecuária de consumo
à agricultura de sustento.

171
— Porém qual a vocação real deste município, nos dias de agora?
— indagam todos que se ressentem na indefinição de tendências. — Q uan­
do surgirá o sol da economia, em festa, com fogos e banda de couro,
alegria de homens, mulheres e meninos, desde as moradas de taipa aos
arvoredos festivos das palmeiras e dos canaviais?

C ra to -C E ., 19 de m aio de 1989.

172
Alguns Sonetos
Alm ira Saldanha Carvalho

Nunca é tarde Justiça


N u n ca é tarde dem ais para viver Q ual andarilho pelo m undo afora
N u n ca é tarde dem ais para sonhar P rocurando justiça e não achei
N u n ca é tarde demais para vencer V oltei tristonha — e me pergunto agora
N u n ca c tarde demais para chorar. O n d e irei encontrá-la? — isso não sei.

Para vencer — basta olhar a natureza Cham ei ao vento — fui ao infinito


Para so n h ar — olhar mais para o além Onde encontrá-la? — ningúem me respondeu
Para vencer — pise sem pre com firm eza G ritei bem alto — perdeu-se meu grito
Para am ar — apegue-se a alguém. Só o seu eco foi o que escutei.

São quatro operações bem diferentes A gora exclam o: qual a solução?


Daquelas que aprendem os a contar D ona Justiça, não se vá em bora
P or isso basta estarm os conscientes Jam ais esqueça de nos dar a mão.

A vida assim só tende a m elhorar Ela em silêncio nada respondeu


O s dias correrão bem mais tranquilos Em desespero fico lhe esperando
D eixando pouco tem po pra ch orar... — V olta, eu te peço, pelo am or de Deus!
C rato , 02.jul.87 C rato , 07.jun.87

Menor abandonado
Sem lar, com fom e e com sacola D izem ser um problem a social
Sai o m enor abandonado, à rua E nada fazem para a solução
P edindo de porta em porta uma esmola N ão há escola, trabalho, o que é norm al
Pra m itigar, assim, a fome sua Só violência, Febem , desprezo, prisão

Pede aqui, tira ali, rouba acolá Pensem senhores: sigam em outros trilhos
F. assim prossegue no seu dia a dia H ora já é de fazer o mais correto
E à noite sem ter para onde voltar Se ele agora traz problemas aos seus filhos
Vai à p rocura dos bares c orgias O que trará, em futuro, aos seus netos?
Crato, 08.jun.87

173
amor
Sou o riso da criança Sou um pobre que suplica
A lágrima em seu olhar A esmola de um olhar
Sou um raio de esperança Sou a bússola que indica
Q ue anda sempre a vagar Um roteiro a navegar

Sou o sol sem horizonte Sou vegetais, sou jazidas


Em céu, estrela a brilhar A ilusão, sou a dor
A brisa que vem dos montes Sou a fé que dá a vida
Pássaro alegre a cantar A um coração sofredor

Sou a luz que ilumina Sou rimas feitas em versos


E clareia a escuridão Q ue animam um trovador
Sou floresta, sou as minas Sou tudo em universo
Riquezas do nosso chão Sou forte — sou o AMOR!
Crato, 10.jul.87
Sou as flores, sou os galhos
O s rios em correnteza
Sou tênues gotas de orvalho
Q ue caem da natureza

Por que? Aquela estrela


Por que nascer? — se existe a morte Aquela estrela, lá no céu tão linda
Por que morrer? — se existe a vida Todas as noites eu costumo olhar
Por que sofrer? — se existe a sorte Ela me faz sentir saudades dela
Por que voltar? — se existe a ida. Da mulher, com quem vivo a sonhar.

Por que o ódio? — se existe o amor Quero esquecê-la — mas é tudo em vão
Por que a guerra? — se existe a paz Sinto-a comigo, sempre a toda hora
Por que o espinho? — se existe a flor O uço seus lábios me pedir perdão
Por que o menos? — se existe o mais. E de saudades meu coração chora

Por que chorar? — se existe o riso Daria tudo pra viver ao seu lado
Por que odiar? — se existe o perdão Mas o orgulho me fecha o coração
Por que a loucura? — se existe o sizo E me pergunto: será que é meu fado?

Por que as trevas? — se existe a luz Irei buscá-la, não quero ouvir razão
Por que a violência? — se existe a calma O coração fala mais alto — sim
Por que o diabo? — se existe a cruz! Mas algo dentro me responde: não!
Crato, 11. mar. 87 Crato, 18. mar. 87

174
Língua humana
Quantas armas existem neste mundo?
São tantas que nem sei enumerar
Armas tão fortes, que ferem tão profundo
Q ue causam horror e dor, s<5 em lembrar

Arma essa, arma aquela e armas mais


E cada dia suge, uma e outra
Nem desistência ou trégua, há jamais
Deixando a humanidade quase louca

E a cousa cada vez fica mais séria


F. aumenta o número de mortos e feridos
Levando a gente em ritmo de miséria

Mas a mais forte arma é humana


Eu falo e classifico com pesar
E sem dúvida nenhuma — a língua humana!
Crato, 07.jun.87

Pensamentos
“A vingança nos dá dois trabalhos: um de nos vingarmos e outro de não
termos tempo para nos tranqüilizarmos.”

“Assim como a lágrima, ao cair, não faz barulho, aquele que ama não mata
a pessoa amada.”

“Com a evolução do progresso o homem criou os “descartáveis”, só que


a mulher, não tendo sido obra sua, não podería ser incluída entre os tais.”

N. R. Alrnira Saldanha Carvalho é poetisa,


natural de Crato, filha do casalJorge Salda­
nha Maia, falecido.
D. Almira é esposa do empresário José de
Sousa Carvalho. Tem um livro pronto, com
a sua produção poética, para lançar breve.
Endereço da autora:
SQN 312 — Bloco E, apartamento 6C6 —
Asa Norte
CEP: 70.765 — Brasília-DF.

175
Nordeste vulnerável
José Humberto de Mendonça*

Uma das grandes razões da persistência das disparidades regionais,


com o Nordeste cada vez mais inferiorizado em relação ao Cento-Sul,
tem sido a generalização dos incentivos fiscais e financeiros. Instituídos,
quase sempre, para compensar desvantagens das regiões mais pobres, esses
subsídios costumeiramente acabam esticados para favorecer as regiões mais
ricas, anulando aquele efeito compensatório e agravando a repercussão
dos benefícios sobre as contas públicas, o que tem justificado sua extinção
ou redução, com a mesma equivocada linearidade.
E o caso do crédito agrícola. Até pouco tempo subsidiado para todo
o Brasil, deixou de sê-lo também do Oiapoque ao Chuí, das terras privile­
giadas do Sul maravilha às terras castigadas do Nordeste miserando.
Não é mais do que falácia,para pretextar os cortes generalizados,
a alegação de que aqui esses recursos subsidiados são desviados da atividade
de risco a que se destinam, para o abrigo rendoso e certo dos mercados
financeiro e imobiliário. Reconhecemos que isto ocorre entre reduzidos
grupos de favorecidos, mas em maior dose nas regiões desenvolvidas.
Mesmo assim, não se explica a eliminação de incentivos, punindo-se a
grande maioria que os emprega com acerto. É como matar a vaca para
acabar com o carrapato.
Os que se opõem, hoje, ao tratamento diferenciado que se impõe,
como temos defendido, para a correção dos desníveis que esmagam o
Nordeste, talvez sejam os mesmos que beneficiaram de subsídios não
para produzir, mas para especular.
Outros erros nessa política de fomento embaraçaram e embaraçam
o processo de desenvolvimento de nossa região.
Lembro-me, como se fosse hoje, da reunião da SUDENE no Crato,
em 1982, quando comemorávamos o cinquentenário da nossa Associação
Comercial. Sabendo de minha posição independente, o então governador
Virgílio Távora observou-me:
— Olha, Humberto, a SUDENE vai se reunir aí. Trate-a bem em
seu discurso.
Fui à tribuna e, num pronunciamento de mais de cinqüenta minutos,
denunciei os graves e persistentes problemas da região, cobrando uma
política diferenciada objetiva e responsável para, pelo menos, reduzir-se
o desequilíbrio sócio-econômico que se via e se vê a olho nu.
Tempos depois, quando era a SUDENE que comemorva 25 anos
de vida, recebi a visita de um repórter do “ Estadão” que levantava a

*José Humberto de Mendonça é presidente da Associação Comercial do Crato.

176
atuação do órgão naquele quarto de século. Sua primeira pergunta foi
sobre se considerava válidos criação e desempenho da Superintendência.
Fui taxativo: ruim com ela, pior sem ela.
A resposta pode ter parecido evasiva, mas, se víamos algumas distor­
ções na atuação da SUDENE, também lhe creditávamos muito de positivo,
principalmente no plano social, com a ampliação do mercado de trabalho.
Tive oportunidade, mais tarde, em documento-sugestão enviado ao
então Ministro Mário Andreazza, de apontar o que entendíamos ser distor­
ção de finalidade, como o elitismo do órgão, onde só os grandes grupos
e figuras de facções políticas dominantes tinham acesso aos seus recursos.
Como medida corretiva, sugerimos, então, a abertura da porta dos subsí­
dios aos pequenos e médios empresários e produtores rurais.
Com aquela proposição, se implementada, estaria criado um forte
instrumento de descentralização industrial, deslocando para o interior
projetos que os grandes centros, de preferência no litoral, polarizam.
Chegamos a mostra que em Fortaleza já se implantava um terceiro distrito
industrial e que a Capital cearense concentrava 95% dos projetos implan­
tados no Estado, fenômeno comum a todo o Nordeste.
Desconcentrando-se, pelo apoio ao desenvolvimento dos pequenos
negócios, de que são férteis as cidades interioranas, e pelo fomento às
atividades agrícolas, que se exaurem em dificuldades, a distribuição dos
meios de fomento, ter-se-iam condições para o surgimento das tão faladas
barragens contra a tendência migratória que se elastece com a escassez
de oportunidade de trabalho e a fome que ela gera.
E essa escassez aumenta. O bicudo do algodoeiro, por exemplo,
restringiu drasticamente no Nordeste uma cultura que lhe era fundamental,
tanto econômica como socialmente, pela larga capacidade de emprego
de mão-de-obra que apresentava. Em contrapartida, o setor industrial
no interior nordestino parece ter murchado. É o que se pode concluir
da situação do Cariri que, na década de 60, tinha participação de 26%
no parque industrial do Ceará e hoje não a tem, talvez ao nível de 5%.
Nossa Universidade, entretanto, continua formando jovens para a decep­
ção da ausência de mercado que os empregue.
Cremos ter chegado a hora de rever-se todo esse processo, a fim
de que não se continue a fornecer argumentos aos que, no Centro-Sul,
defendem e exigem o fim dos incentivos regionais.
E preciso que a SUDENE venha ao nosso encontro com um sistema
aperfeiçoado, capaz de fazê-la instrumento do desenvolvimento equili­
brado da região e não do desenvolvimento centralizado, perverso indutor
de concentração de renda.

177
Os dois extremos
Raimundo Araújo

Entre muitos locais da cidade, a “Praça da Liberdade” era o mais


frequentado, o mais agradável, máxime, aos domingos à noite, por ocasião
das retretas.
Era, ali, que habitualmente, encontravam-se o Bem, o Ódio, a Sauda­
de, a Hipocrisia, a Inveja e a Bondade.
Alacre e aberto ao diálogo, o Bem, sempre solícito, estava à disposição
de quem o procurasse, fosse qual fosse a circunstância. O Ódio, pelo
contrário, arredio, apático, fechado no casulo do seu rancor, não tinha
outra preocupação, senão vingar-se de quem o ferisse, voluntária ou invo­
luntariamente. A Saudade, carpindo como sempre, suas lamúrias e lem­
branças de um passado que o tempo levou, chama a atenção de quem
por ela passa, pois seu aspecto assemelha-se ao cipreste, à tristeza, ao
luto, à morte. A Hipocrisia — “mal da época” — à guisa dos tartufos,
dobra todo o seu corpo em exageradas salamaleques, para cumprimentar
os que por ali passam, fingindo, através do “véu diáfano da fantasia”,
ser, o que na verdade não é, até que provem em contrário. A Inveja,
filha espúria do DESPEITO, em não se conformando com seus recalques,
tenta, a todo custo, ofuscar o nome dos que atingem o fastígio do sucesso
e da glória.
Ao pé da estátua do Padre Cícero, encontrava-se a Bondade, revoltada
com a injustiça, com a discriminação, com a fome, com a miséria e com
a classe política, razão por que clamava por “liberdade, igualdade e frater­
nidade”.
Eis que, surge como por encanto, uma jovem, bem apessoada, de
olhos vendados e vestida de preto.
O jardineiro ao ver aquela figura estranha, aproxima-se e cumpri-
menta-a, a fim de saber de quem se tratava. A estas alturas, o chefe
da limpeza pública, Sr. João Monteiro, lhano como sempre, vai ao encon­
tro da “beldade” e interroga:
— A Senhora poderia se identificar?
— Por que não? Eu sou Thêmis, a deusa da Justiça!
— Que coisa “bacana”, completou, o nosso “amnésico”.
— A senhora conhece a Corrupção?
— Infelizmente, conheço.
— Não gostaria de privar com ela?
— Privar, não, eliminá-la do Dicionário da vida.
Ato contínuo, retirou-se da PRAÇA, que não se sabe por que, tinha
a forma de uma BANDEIRA, em cujo dístico, lia-se: “Juazeiro, cidade
combatida, porém, jamais vencida”.

178
Dr. Clêidson de Araújo Rangel:
Liderança Indiscutível
J. Lindemberg de Aquino

Q u a n d o v iv e m o s n u m a é p o c a em q u e m ais se re ssa lta a falta de


legítimos valores, em nossa região, é confortador registrar que ainda tem os,
em b o ra raras, figuras q u e se alteiam d o lu g a r-c o m u m , d a planície e da
m esm ice, e alçam v ô o pelas suas in iciativas e pela su a v ig o ro sa p e rs o ­
nalidade.
Liderança indiscutível no Cariri é, pelo menos, o Dr. Clêidson de
Araújo Rangel, cujos fatos marcantes em sua vida atestam, sobremaneira,
que nasceu vocacionado para vencer. Hoje é o maior criador de gado
zebu do Ceará e dos mais premiados do Nordeste, com repercussão,
até, no sul do País.
Em tudo o que mexe, o Dr. Clêidson obtém vitórias consideráveis
e há construído, ao longo de sua existência de 56 anos, um patrimônio
alicerçado no esforço — esforço que vem do dia-a-dia, da luta titânica,
da capacidade de trabalho, do espírito de luta, da tenacidade, enfim.
Dados biográficos
Clêidson de Araújo Rangel nasceu em 4 de setembro de 1932, em
Conceição, Paraíba. Pais: José de Figueiredo Rangel e Antônia de Araújo
Rangel. Avôs paternos: Major Otoni Leite de Sousa Rangel e Ana de
Alencar Figueiredo Rangel. Avôs maternos: Napoleão de Araújo Lima
(Seu Napo) e Maria Leite de Araújo (Cabocla).
Seus ascendentes, pelos dois lados, figuram entre os prim eiros desbra­
vadores d o extrem o sul do C eará e oeste Paraibano, regiões que se vincula­
ram , secularmente, pelo intenso intercâm bio da pecuária.
Curso primário: Grupo Escolar José Leite, em Conceição-PB.
Ginasial: Inicialmente, no Colégio Diocesano do Crato, sob a direção
do Mons. Francisco Montenegro, tendo, entre seus professores, o primo,
Pe. Antônio Gomes de Araújo e o parente, Mons. Raimundo Augusto
de Araújo Lima. Concluiu o Ginásio em Patos, Paraíba, no Colégio Dioce­
sano Pe. Vieira. O Curso Científico fê-lo no Colégio S. João, em Fortaleza.
Em 1954 fez vestibular e ingressou na Faculdade de Ciências Médicas
de Pernambuco. Já no 4“ ano conseguiu internamento, como Residente,
no Hospital Do Centenário, um dos melhores estabelecimentos hospita­
lares de sua época. Fez concurso para plantonista na Maternidade do
Derby e em Recife serviu, também, no Pronto Socorro Infantil do Recife
e Pronto Socorro do Estado.

179
Seu curso médico foi concluído com brilhantismo em 05.12.59, sendo
orador da turma, com conhecimentos gerais de cirurgia, obstetrícia, gine­
cologia, clínica médica e pediatria. Instala-se em Brejo Santo, terra de
sua família materna, em 22.01.60, já imbuído do “ espírito hospitalar”
de vez que fora interno-residente dois anos no Hospital Do Centenário,
em Recife.
Sentiu, então, que só podería fazer uma medicina nos moldes moder­
nos e evolutivos implantando uma Casa de Saúde, o que o fez, em prédio
alugado, com início modesto. Pequena clínica, que aos poucos foi crescen­
do, pela credibilidade médica. Em pouco tempo estava a Casa de Saúde
Nossa Senhora de Fátima instalada em prédio próprio, inaugurada em
01.05.61.
Era um estabelecimento inteiramente construído com recursos pró­
prios e com planta oficial aprovada pelo Ministério da Saúde. Foi ele
o 3? Hospital do Cariri, antecipando-se, portanto, a algumas cidades,
que possuíam mais médicos e maior prestígio político.
Brejo Santo, pois, em pouco tempo, graças à audácia do Dr. Clêidson
Rangel, transformou-se no terceiro centro médico da região, atendendo
doentes das cidades vizinhas e até dos Estados da Paraíba e Pernambuco.
Já a esta altura também o Dr. Clêidson contava com os serviços
categorizados do Dr. Francisco Miranda Tavares e Dr. Francisco Leite
de Lucena, dinamizando a sua Casa de Saúde, que passou a experimentar
constantes melhoramentos. E eles foram chegando.
Instalou na mesma uma Central de Oxigênio, Banco de Sangue, Labo­
ratório de Análises Clínicas, Raio X, Centro Cirúrgico, Centro Obstétrico
e Unidade de Terapia Intensiva (U.T.I.) entre outras cousas, tudo dentro
dos melhores padrões existentes no Estado, aum entando os meios de
diagnóstico e tratamento. E hoje um estabelecimento de renome. Ali traba­
lham dez conceituados especialistas, com uma das maiores clínicas do
sul do Estado.
Exercendo a medicina como um sacerdócio, durante 22 anos, Dr.
Clêidson sente, hoje, saudades daquela vida de lutas e de doação, onde
foi, desde o início da jornada, o clínico, o anestesista, o cirurgião, e,
não raras vezes, o enfermeiro dedicado aos seus pacientes.
Durante sua vida profissional realizou mais de cinco mil partos e
mais de seis mil cirurgias de médio e grande porte, muitas delas em condi­
ções dificílimas, cujo êxito ele atribui não só aos seus conhecimentos
e dedicação mas à interferência Divina.
Em 1982 deixou a cidade de Brejo Santo, indo residir em Fortaleza,
onde está ligado ao setor de construção civil. O seu Hospital tem atual­
mente, como A dm inistrador o seu cunhado Adheús Rodrigues Leite.
De Fortaleza o Dr. Clêidson administra, também, as suas empresas agrope­
cuárias.

180
Como médico, ainda fez parte da Sociedade de Cirurgia do Ceará,
da Sociedade de Otorrinolaringologia e da Sociedade Brasileira de Hemato­
logia, Obstetrícia e Pediatria.
Mesmo descendendo de famílias com raízes e tradições políticas, o
Dr. Clêidson jamais se interessou por essa arte ou atividade. Seu pai
foi Prefeito e chefe político em Conceição. Seu bisavô Manoel Inácio
foi chefe político em Brejo Santo c seu avô, genro deste, o Sr. Napoleão
de Araújo Lima (seu Napo) foi chefe político e prefeito em Brejo Santo.
Seu tio, Dr. José Napoleão de Araújo, foi deputado estadual 25 anos,
Presidente da Assembléia Legislativa do Ceará e do Conselho de Contas
dos Municípios, além de Secretário de Estado. Mesmo assim o Dr. Clêid­
son nunca se sentiu atraído a exercitar a atividade política. Nunca aceitou
disputar qualquer cargo eletivo, alegando que a política não faz seu gênero.
O sentimento atávico e telúrico dos seus ancestrais, o gosto pela
pecuária, o Dr. Clêidson herdou em toda a sua plenitude. Mesmo como
médico conceituado, ele enveredou pela pecuária e em 1962 começou
sua trajetória de agropecuarista, hoje conhecida em termos nacionais. Na­
quele ano iniciou seu famoso plantei de raça Nelore que através dos anos
tem contribuído de maneira relevante para o desenvolvimento do padrão
genético da raça, no Nordeste.
Campeão absoluto da Exposição Centro Nordestina, em Crato, du­
rante mais de dez anos, por várias vezes conquistou o “Boi de Ouro”,
seu maior troféu. Dr. Clêidson se tornou, igualmente, nos dias atuais,
o maior criador de gado zebu do Estado do Ceará, com mais de 2 mil
animais, puros de origem. Possui a Seleção Nelore mais premiada do
Estado (com 540 troféus) dados fornecidos pela BCZ, Associação Brasileira
de Criadores de Zebu.
Assim, foi contabilizando vitórias e títulos, dentre os quais: Diretor,
várias vezes, da Associação dos Criadores do Ceará, Vice-Presidente da
Associação Cearense de Criadores de Zebu, Conselheiro Estadual da Ass.
Brasileira de Criadores de Zebu, de 82 a 86.
Em 1981, recebeu a Medalha de Ouro, como Criador Modelo, ofere­
cida pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária — IN-
CRA.
Em 04.05.86, no Parque de Exposições da ABCZ em Uberaba, rece­
beu, em solenidade pública, a Medalha de Honra ao Mérito Agropecuário.
Em 1987 recebeu a Medalha de Honra ao Mérito Pecuário Governo
do Estado do Maranhão, em solenidade pública, no Parque de Exposições,
em São Luís, das mãos do então Governador Luís Rocha.
O Dr. Clêidson ostenta campeonatos, conquistados no Ceará, Piauí,
Pernambuco, Maranhão e Minas Gerais. Há 5 anos seu plantei é o campeão
absoluto da raça, nas Exposições de Fortaleza.
Na sua Fazenda Ribeirão, em Brejo Santo, com 4 mil hectares, além
do moderno manejo de pastagens, utiliza inseminação artificial, silagem,

181
fiscalização de cercas e pastagens por meio de avião ultraleve e sistema
de rádio, e agora implantou moderníssimo sistema de computação para
controle de todo o seu rebanho.
Ribeirão possui campo de pouso, piscina, cinco suítes para receber
visitantes, salão de jogos, chuva artificial no pomar, picadeiro para desfile
de animais e uma agrovila com toda a infra-estrutura.
Na Fazenda Massapê possui campo de pouso, chafariz para moradores
da mesma e das fazendas vizinhas, água em abundância, apesar de se
localizar a mil metros de altitude, e mil hectares de capim braquiária,
onde pastam mais de mil cabeças de gado holando-zebu.
Assim, em sua vida, podem ser contabilizados como fatores do seu
êxito pessoal, a construção da Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima,
numa época em que não existiam as facilidades de hoje, o exercício vitorioso
da medicina, a dinamização da pecuária cearense, através de modernas
técnicas em que sua inseminação artificial, controle de desenvolvimento
ponderai, enriquecimento de pastagens, utilização de ultraleve e compu­
tação, e, mais recentemente, incursões na área da construção civil.
Isso afora os vitoriosos investimentos na área da construção civil.
Foi ele, também, primeiro criador do Ceará a levar um touro puro
de origem para colheita de sêmem em São Paulo, na Central de Inseminação
em Ituverava, naquele Estado.
E, ainda, o primeiro criador de cavalo Mangalarga Marchador do
Ceará, participante de leilões do setor e está a fazer registro oficial de
coberturas e nascimentos.
Ao adquirir a Fazenda Massapê, em Porteiras, Ceará, com mais de
3 mil hectares de terras, que se distribuem entre os Municípios de Porteiras,
Brejo Santo, Jardim, Barbalha e Missão Velha, juntamente com seu sócio
Francisco Martins de Morais, o Dr. Clêidson fez, ali, uma obra inédita
e singular: fez a transposição da água de uma fonte do sopé da Serra
do Araripe, elevando-a a 250 metros de altura, 800 metros de aclive e
jogando-a, em cima da Serra, até a 3 mil metros de distância da fonte,
fato que mereceu, como não poderia deixar de ser, elogios gerais, inclusive
do Governador do Estado, Adauto Bezerra, à época e do Secretário de
Saúde, Humberto Macário de Brito.
Isso é um fato fantástico, pois a Serra, com água no seu alto, mudou
o panorama e abriram-se grandiosas perspectivas do seu aproveitamento
econômico e social.
"Com nossa experiência, pioneira, poderá se fixar o homem à terra, criando
núcleos populacionais, agrovilas e, futuramente, cidades, que poderão contri­
buir para o desenvolvimento da região. Chamamos a atenção do Governo,
dos órgãos de classe, dos Prefeitos regionais e dos proprietários de fontes
com terras na Chapada, que sigam nosso exemplo, para melhor aprovei­
tamento dos nossos recursos naturais”.
(De um comunicado distribuído em 04.09.1980, dia do seu natalício).

182
“A iniciativa, além de scr um empreendimento pioneiro, representa uma
tentativa para a solução dos problemas econômicos e sociais da área, porquan­
to contribuirá para fixação do homem à sua gleba e proporcionará uma
pecuária calcada nos modernos padrões, e, consequentemente, mais rentá­
vel".
(De um ofício do Secretário de Saúde do Estado, Humberto Macário de
Brito).
Criador, na mais vasta acepção do termo, tendo mais de 1.000 matrizes
puras de origem, campeão absoluto nas EXPOECE (Exposição Estadual
do Ceará) em 84, 85, 86, 87 e 88, o Dr. Clêidson Rangel alia a tudo
isso um espírito atilado, perenemente jovem, confiante e cheio de vitali­
dade. Ele é cheio de fé no futuro. Está permanentemente atento ao desen­
volvimento da medicina e das modernas técnicas cirúrgicas, vem se desta­
cando no setor imobiliário. Lê muito, tem conversa agradável e fluente.
Sua família
Cidadão de respeito e probidade, casou-se o Dr. Clêidson de Araújo
Rangel com uma moça da sociedade cratense, Lilian Macedo, filha do
casal Geraldo Macedo Lobo-Adamir, em 12.02.66, resultando desse enlace
de intensa e perene felicidade:
Cristina, economista, casada com Marcos Rola;
Cinthia, casada com o psicólogo Ricardo Viana;
Clêidson Júnior, estudante universitário de Economia, e
Carmem e Candice, menores, estudantes.
Vivendo e desfrutando bem a vida, numa magnífica cobertura em
frente ao mar, sente-se realizado, mas buscando sempre melhorar, ampliar,
desenvolver, porque espíritos como o seu jamais se entregam.
Poderia, muito bem, figurar naquela série de “Meu tipo inesquecível”
que durante muitos anos publicou a revista “Seleções”.
Tem todas as condições para isso!

183
Centenário:
Napoleão de Araújo Lima (Seu Napo)

A região do Cariri, especialmente a cidade de Brejo Santo, onde


nasceu, comemoram, neste ano, o centenário de nascimento de um dos
seus mais ilustres filhos, o Cel. Napoleão de Araújo Lima. Malgrado
quase 20 anos depois de sua morte, sua memória é venerada por todos
e sua imperecível lembrança permanece no coração de todos os que o
conheceram ou que com ele privaram, pelos duradouros exemplos de
bondade, nobreza de caráter, retidão de atitudes e amor ao próximo.
Napoleão de Araújo Lima nasceu em Brejo Santo aos 2 de abril
de 1889 e faleceu cm Fortaleza aos 6 de junho de 1970. Era filho de
José Florentino de Araújo Lima e Antônia Gomes de Araújo. Casou-se
em 18 de outubro de 1909 com Maria Leite de Araújo, filha do Cel.
Manoel Inácio Bezerra.
O seu sogro foi casado em primeiras núpcias com Maria Leite de
Figueiredo e em segundas núpcias com Conceição Leite Figueiredo, filhas
do Major Antônio Leite Rabêlo da Cunha, sendo irmãs de Joana Leite
de Gois, casada com João Alves de Moura. Esses troncos familiares deram
origem à família Leite de Brejo Santo.
Napoleão Araújo Lima dedicou-se à agricultura e à pecuária durante
toda a sua existência, figurando entre os mais abastados da região graças
à sua proclamada operosidade, espírito de luta e honradez. A pôlítica
o atraiu — mas ele a exerceu com dignidade e patriotismo.
Nela ingressou em 1918, quando de uma eleição para Governador
do Estado, apoiando, naquela época, o Dr. Belisário Távora, tio do Sena­
dor Manoel do Nascimento Távora, este, pai do senador Virgílio Távora.
Inicialmente, Napoleão de Araújo Lima vinha apoiando o seu sogro,
Manoel Inácio Bezerra, na política local. Com o falecimento deste, em
1924, assumiu as rédeas do partido e recebeu o apoio dos antigos correli­
gionários.
Iniciou-se na política cearense filiado à corrente tavorista, à qual
permaneceu fiel até seus últimos dias de vida. A sua fidelidade partidária
atravesou períodos de muitas viscissitudes, em um partido que durante
muitos anos militou na oposição, quando fazer oposição era submeter-se
e experimentar situações vexatórias, humilhações e perigos.
Foi nesses períodos que Napoleão de Araújo Lima se destacou pela
sua fibra, coragem pessoal, interpretando os anseios do seu povo, mostran­
do-se um lutador intemerato e viril. Mas ele sabia o que era a luta política,
e nunca tangiversou. Desfrutava, por isso, grande prestígio entre os seus

184
concidadãos. Sabia, como poucos, prestigiar os seus amigos, nas suas
dificuldades e o fazia com grande prestimosidade.
O somatório de suas qualidades de homem de bem, honrado e digno,
e de político honesto e coerente, deu-lhe invulgar aura de respeito e popula­
ridade.
Napoleão de Araújo Lima foi Prefeito do seu Município e presidiu,
também, a Câmara Municipal de Brejo Santo. Seu falecimento deixou
uma lacuna difícil de ser preenchida, pelo modelo de acrisoladas virtudes
que representou, fato raro, notadamente, entre os políticos. Ainda hoje
seu nome é lembrado com respeito e veneração.
Outros dados
Foi ele proprietário rural em 3 Estados — dono das fazendas Poço
do Pau, em Brejo Santo, Serra do Mato, em Missão Velha, Umbuzeiro,
em Conceição, Paraíba, Boa Vista, em S. José do Belmonte, Brejinho,
em Jati-PE.
Nas suas propriedades teve numerosos rebanhos de gado vacum,
equinos e ovinos. Produzia também rapaduras e aguardente na Serra do
Mato.
Seu nome figura hoje na Estação Rodoviária de Brejo Santo, também
em uma das principais ruas de sua cidade, num posto de Saúde no Poço
e na sala de reuniões da Câmara Municipal de Brejo Santo.
No período pós-ditadura Vargas, pertenceu aos quadros da antiga
UDN, depois, ARENA.
Família numersoa
Do seu casamento com Maria Leite de Araújo, que faleceu antes
dele, Napoleão, nasceram os seguintes filhos:
José Napoleão de Araújo
Médico, agropecuarista. Deputado Estadual por 25 anos. Secretário
de Saúde e de Justiça do Ceará. Presidente da Assembléia e do Conselho
de Contas dos Municípios. Casado com Maria Saraiva de Araújo (Noeme).
Filhas: Anete e Valéria, casadas.
Antônia Araújo Rangel
Viúva de José de Figueiredo Rangel, chefe político e ex-prefeito em
Conceição, Paraíba. Filhos: Dr. Clêidson de Araújo Rangel, médico e
pecuarista, casado com Lilian Macedo Rangel; e Lêda Rangel Leite, casada
com Adhéus Rodrigues Leite. D. Tônia, como é chamada, tem vários
netos, alguns formados.
Maria Marquêza Nicodemos de Araújo
Viúva de Joaquim Nicodemos de Araújo, sem filhos.

185
Waldemar Napoleão de Araújo
Dentista, ex-prefeito de Brejo Santo, falecido. Deixou viúva D. Maria
Gomes de Araújo, 3 filhos.
Olavo Napoleão de Araújo
Agropecuarista. Casado com Telina Barreto de Araújo, 4 filhos. 1
médico, um agrônomo, enfermeiras, duas.
Adalberto Napoleão de Araújo
Funcionário da Receita Federal. Casado com Maria Clausélia Nasci­
mento Araújo. Pais de Lindemberg, dentista, Everardo, dentista, Edil-
berto, veterinário e Solange.
Maria de Araújo Santana
Falecida. Foi casada com Edésio Olegário de Santana, 2 filhos, Gil­
berto e Lúcia de Fátima.
Antônio Napoleão de Araújo
Casado com Lêda Filgueiras de Araújo, funcionário, 4 filhos.
Ivone Napoleão de Araújo Pereira
Viúva do agropecuarista Raimundo Jonas Pereira, sem filhos.
Ainda hoje é perene na lembrança do povo brejo-santensc a memória
de Napoleão de Araújo Lima.
Seu exemplo de altaneria e dignidade pessoal, seu amor à família,
sua intrepidez pessoal e a extrema fidelidade à sua ala política, não encon­
tram, nos dias presentes, seguidores à altura.
Era desveladamente solidário aos seus seguidores políticos, a ponto
de chegar a indispor-se contra alguma autoridade, na defesa dos interesses
dos mesmos, quando os achava justos e plausíveis.
Homem de estofo moral alcançado pela pertinácia, pelo trabalho
e pela honradez, sente-se que faz falta, em nossa região, pois sabia se
impor e não se vergava ao capricho dos maiores.
Para os que o conhecera, constituiu-se rico privilégio.
Para os que o amaram, rica lição de perene otimismo.
Para os que o seguiram, imorredouro exemplo de liderança.
Para a região, enfim, onde nasceu, viveu e exercitou seu apostolado
e fadário político — um homem de saudosíssima memória!

186
SUMÁRIO

Editorial.................................................................................................... 3
Cariri perde Antônio de Alencar Araripe............................................... 5
Faleceu o Padre Antônio Gomes............................................................ 13
A Sedição de J uazeiro — Eneida F igueiredo A ra rip e ............................ 15
ICC e Rotary prestaram homenagens a Patativa do Assaré................... 30
Diocese do Crato — 75 anos................................................................... 31
Transladados restos mortais do Bispo Dom Francisco Pires................ 33
Várzea Alegre seus primeiros passos — O liva R ib e iro L u n a ................ 34
Poetas Cratenses........................................................................................ 44
Poeta Jardinense — J . L in d e m b e rg d e A q u in o ..................................... 46
Saudação — D r. N a p o leã o Tavares N e v e s ............................................ 47
Virgílio Arraes: Carta do Pe. Francisco Arraes......................................... 56
Faleceu o escritor Gustavo Augusto Lima............................................. 61
Teresina Ano Vinte e Cinco — Francisco d e V asconcellos ................... 62
Cobras — A vida no sertão — A n te n o r G o m e s d e Barros L e a l ............ 75
3 Mensagens — Valdelice A lv e s L e ite .................................................... 82
Enterrando os meus mortos —J o s é d e A le n c a r B ezerra ....................... 85
Aniversário — S im eã o Luna M a ch a d o ................................................... 90
Meu sabiá — Sim eão L u n a M a ch a d o ......................................................... 92
Documentos para a história de Missão Velha —J o ã o B o sco A n d r é — 93
A nova constituição e a “Vacatio legis” em matéria tributária
D r. L u ís O tá v io B ríg id o M e m ó ria ................................................ 95
Inaugurado o Centro de Pesquisas Paleontológicas da Chapada do
Araripe............................................... 97
Cearense de Missão Velha lança livro em São Paulo
J . L in d e m b e rg d e A q u in o ............................................................. 99
Mordomias — R a y m u n d o Farias de O liveira ........................................ 102
Wellington Alves lança livro em Crato................................................... 104
Escritor denuncia: Estão destruindo a autenticidade do Caldeirão..... 108
Recebendo meu filho na Academia — A lu ís io N a p o le ã o ..................... 109
Leão Sampaio — Paes d e A n d ra d e ............................................................ 115
Elogios feitos a Itaytera............................................................................. 118
Poemas — J é ffe r so n d e A lb u q u e r q u e ...................................................... 120
Poema dedicado a Maracanaú — Silveira S a n to s ................................... 122
O Boi — G io su e C a rd u c c i — Tradução d e O legário M a ria n o ............. 123
Da pena de Mariza Abath — M ariza A b a th ........................................... 124
“Habeas-Pinho” — Petição para liberar um violão
R on a ld o C u n h a L im a ...................................................................... 127

187
Pequena história do hino — A. Tito Filho............................................. 128
Sumário da vida trepidante do escultor José Rangel
Otacílio Anselmo.......................................................................... 133
Apresentando “ Memórias (Fragmentos de minha Vida)”
J. Lindemberg de Aquino............................................................. 137
Inaugurada a Casa de Cultura Portuguesa............................................. 140
5 Sonetos— Zênith Feitosa..................................................................... 142
Autores caririenses.........................................................1....................... 145
Instituto Cultural preencherá, em agosto, duas cadeiras vagas............ 147
Circulando novos livros no Cariri......................................................... 148
Alguns sonetos — Dandinha Vilar......................................................... 149
Para J uarez, meu irmão — Ana Valderez Ayres Neves de Alencar..... 152
Centenário do Dr. Joaquim Fernandes Teles........................................ 133
50 anos da Associação Cratense pró-Cultura
Luís de Carvalho Maia.................................................................. 158
3 sonetos de J osé Carvalho..................................................................... 160
Martim Soares Moreno na “Insurreição Pernambucana”
Hélio Ideburque Carneiro Leal......................... 162
Quintino Cunha — A sátira de um poeta lírico
Rogaciano Leite Filho.................................................................... 166
À busca de uma alternativa — José Emerson Monteiro Lacerda......... 170
Alguns Sonetos — Almira Saldanha Carvalho...................................... 173
Nordeste vulnerável —José Humberto de Mendonça......................... 176
Os dois extremos — Raimundo Araújo................................................. 178
Dr. Clêidson de Araújo Rangel: Liderança Indiscutível
J. Lindemberg de Aquino............................................................. 179
Centenário: Napoleão de Araújo Lima (Seu Napo).......................... 184

188
09'1.000
AGRADECI MENTO
Colaboraram para tornar possível a presente edição de ITAYTERA, com
ajuda financeira, e, penhorados, por isso, agradecemos:

Prefeitura Municipal do Crato — Administração José Aldegundes G. de Mattos


Heitor M uniz Gomes de Matos
Sociedade Médica Civil Empresarial Ltda. — Juazeiro
Francisco Zelo Filho
Francisco Marcílio Peixoto
CRAJUBAR
CONSTRUTORA RAIMUNDO COELHO LTDA.
Laboratório de Pesquisas Clínicas do Cariri
Laboratório de Pesquisas Cândido Santos
Dr. Carlos Barreto de Carvalho José de Paula Bantim
Francisco de Freitas Justo ACINBEL
SULCEPA SOBRIL
Assis Landim CODEMA
Jairo Sampaio Bem Homem & Cabral
Café Joaquim Patrício Câmara Municipal do Crato
F J Pierre & Irmãos Capitão A riovald o Carvalho
Dr. Henrique Costa Prefeitura de Juazeiro do Norte
A ntônio Primo de Brito Leonor Lima Costa
Dr. Hermano M onteiro Teles Dr. Egberto Esmeraldo
Dr. W ellington A lves/D ra. Fátima Lemos Alves
Dr. Jéfferson de A lbuquerque e Sousa
José do Vale Arraes Feitosa Evaldo Alves Rocha
Mônica Macedo Coelho A. L. CONSTRUÇÕES
Mercantil Compre Bem Humberto Mendonça
Cerâmica Norguaçu Gerson Moreira de Meneses
Dr. Emídio Macêdo Lemos Dr. A ntonio A raújo Ribeiro

REFRESCOS CEARENSES S /A José de Alencar Bezerra


José Erlânio de Alencar

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