Cidadania e meio ambiente: uma relação em construção
Cidadania e meio ambiente são conceitos que possuem inúmeras definições, sendo algumas
simples, outras mais abrangentes, estas buscando agregar todos os significados e sentidos que
os termos evocam. Cidadania, grosso modo, é a garantia do exercício de direitos e deveres de
cada indivíduo. No entanto, quando remonta-se a Grécia Clássica vemos que cidadania algo
exercido apenas por indivíduos homens e livres. Escravos e mulheres não eram considerados
cidadãos, portanto não podiam participar da vida pública. Isto é, cidadania estava ligada ao
processo de participação no governo, de ter direito à voz nas questões de ordem pública.
Atualmente, pelo menos teoricamente, cidadania é inerente a todo indivíduo. Todos, sem
exceção, possuem direito à liberdade de expressão das ideias, de ir e vir, em relação ao próprio
corpo, os quais podem são classificados como direitos civis. Há, ainda, como cidadão a garantia
de direitos políticos e sociais. Direitos políticos dizem respeito aqueles que conferem vez e voz
nas questões coletivas, e sociais, são aqueles ligados ao usufruto das necessidades básicas,
sendo elas: educação, saúde, segurança etc. Como parte do exercício da cidadania tem-se os
deveres, os quais correspondem a necessidade de cada cidadão e cidadã fazer cumprir e
reivindicar seus direitos, bem como não excedê-los aos dos demais cidadãos. Percebe-se,
então, que cidadania não é algo nato, mas que foi conquistado ao longo do tempo, que tem
relação também com os princípios da democracia.
Por outro lado, meio ambiente, de forma simples, pode ser considerado como o meio natural
ou físico. Entretanto, discute-se a necessidade de uma definição mais ampla do termo, que
engloba não somente os aspectos naturais, mas diz respeito ao meio físico natural e/ou criado
integrado ao mundo social, cuja relação é mediada e fruto dos aspectos culturais, políticos,
econômicos, históricos e tecnológicos, configurando em diferentes processos na relação
sociedade-natureza.
No Brasil, a relação entre os dois conceitos surge, de forma oficial, na Constituição de 1988, a
qual em de seus artigos estabelece que todo indivíduo tem direito ao meio ambiente
equilibrado. Essa declaração faz parte de um momento histórico de consciência e
despertamento do mundo e dos seus chefes de estado à questão da crise ambiental. Estudos e
publicações como Limites do Crescimento, Nosso Futuro comum chamam atenção para o
processo de esgotamento dos recursos naturais e riscos à sobrevivência humana na Terra.
Críticos destacam o modo de produção vigente como principal mentor da crise ambiental, haja
vista que pressupõe a exploração desordenada dos recursos naturais visando a todo custo a
acumulação de capital.
As catástrofes e problemas ambientais passam a ser vistos não mais como de ocorrência
apenas natural, mas sobretudo de origem antropogênica. Além disso, discute-se que as
principais vítimas da degradação ambiental são aqueles pertencentes às classes sociais menos
favorecidas. Nesse sentido, o problema ambiental é antes, de tudo, um problema social. O
exercício da cidadania previsto enquanto garantia de direitos não é privilégio de todos. Não
são todos que tem acesso à moradia, à educação, à saúde, à segurança, e são, os mesmos que
são os maiores prejudicados quando problemas ambientais vem à tona.
É certo que os problemas ambientais, mais globais, como a depleção da camada de ozônio,
redução e perda da biodiversidade, mudanças climáticas, entre outros, são problemas que
podem atingir e impactar uma gama de indivíduos, a despeito de sua classe social. No entanto,
deve-se considerar que os membros da elite e da classe média são bem mais propensos em
curto prazo aos problemas ambientais globais. A perda de biodiversidade pode afetar, por
exemplo, em curto prazo uma população ribeirinha de pescadores. A construção de barragens
e contaminação das águas pode ter impactos direitos em curto prazo na biodiversidade
aquática, portanto, na segurança alimentar e econômica dos moradores dessas áreas. Nesse
sentido, a questão do direito ao meio ambiente equilibrado, consequentemente, a cidadania
não é algo dado, sem luta e mobilização, a esses povos.
A luta ambiental é também uma luta social. Garantir os direitos ao meio ambiente é também
lutar pelas questões básicas da cidadania. Alguns autores denominam essa questão de justiça
ambiental. Há alguns povos, que reconheceram que as lutas sociais ganharam força quando
incorporou-se o discurso ambiental, chamado de ambientalização das lutas sociais.
O reconhecimento das injustiças ambientais é também uma questão da cidadania. O desvelar
da realidade, contrapondo-se ao processo de alienação, faz parte do exercício da cidadania.
Veja-se o direito à educação. Tem-se como sub-conjunto a educação ambiental, que visa, entre
seus objetivos a formação de sujeitos críticos e reflexivos frente às questões ambientais, como
uma educação política, de participação.