Resenha do documentário “Chuvas de Março”
Ana Carolina Rodrigues dos Santos Souza1
O documentário “Chuvas de Março” foi feito como forma de avaliação para o curso de
pós-graduação promovido pela UFBA, sendo realizado em 2002 pelos documentaristas
Johny Guimarães e Volney Menezes, no que pode ser considerado uma homenagem
aqueles que lutaram contra a ditadura na cidade de Feira de Santana. Possui uma hora e
vinte minutos de duração, foi exibido pela primeira vez em 2005, no Clube de
Dirigentes Lojistas, participando em 2009 da 36ª Jornada Internacional de Cinema da
Bahia, em Salvador. O documentário pode ser encontrado no Youtube e no portal
“Memorial da Feira”, na seção “Relíquias da Feira”.
Nessa produção é abordada a repressão e a resistência em Feira de Santana, a partir de
depoimentos de feirenses que viveram o período de ditadura militar no Brasil. Os
depoentes destacam a força da repressão e relembram momentos que fizeram parte da
luta, como por exemplo suas prisões e torturas sofridas. Torquato de Brito, ex-músico e
sapateiro, destaca a perversidade dos militares e a prisão dos patriotas que lutavam
contra o regime, chamando atenção para o fato de que a invasão do Exército na cidade
fora determinada por Castelo Branco. Francisco Pinto, prefeito de Feira de Santana
deposto pelo golpe, é uma voz importante que eu documentário traz. Ele foi substituído
após sua deposição por Joselito Amorim, que toma posse em 1964, cuja visão
corresponde a visão daqueles que apoiaram o golpe, o justificando pela necessidade de
proteger o país do anarquismo e, principalmente, do comunismo, ressaltando o papel
“revolucionário” das Forças Armadas.
Importante destacar a Marcha Pela Família Com Deus Pela Liberdade que ocorreu na
cidade, assim como no resto da Bahia, após o golpe como forma de homenagem e
agradecimento aos militares, numa enorme demonstração de apoio, enquanto em
estados como São Paulo e Rio de Janeiro fizeram parte do processo de desestabilização
do governo de João Goulart. O papel da imprensa nessas marchas foi de convidar, ou
melhor, convocar a população a denunciar as propostas comunistas de Jango e a
agradecer as Forças Armadas por sua urgentemente necessária intervenção.
1
Graduanda do curso de História – Licenciatura, na Universidade do Estado da Bahia, Campus I.
Falando em imprensa, o documentário traz o jornal “Correio da Manhã”, o único no
território nacional da grande imprensa a apoiar o presidente deposto em 64 e em seguida
denunciar das atrocidades cometidas pelo regime no nordeste. Isso levou Geisel, sob o
comando de Castelo Branco, a viajar pela região a fim de investigar a tortura denunciada
pelo meio de comunicação. Na Bahia, por exemplo, esteve no 19º Batalhão de
Caçadores (19 BC), onde presos torturados lhe mostraram as marcas em seus corpos da
violência. Ainda assim, Geisel atesta ausência de tortura na região. Mais tarde, em 1976,
Geisel visita Feira de Santana já como presidente.
Ao longo do documentário são trazidos trechos do filme manhã cinzenta
Luís Raimundo Adorno, alfaiate e membro do PCB, deixa claro que apesar das
tentativas dos militares de amedrontá-los, eles seguiam resistindo, sem medo da
violência promovida pelo anticomunismo difundido pelos jornais. Também membro do
PCB, Hosannah Leite, ex-vereador de Feira, destaca participação feminina no
movimento político local, trazendo nomes como Antônia Veloso, Margarida Ribeiro e
Dalvinha, companheiras militantes cuja coragem e gana motivaram muitos homens.
A mãe de Luiz Antônio, estudante do colégio estadual de feira, perseguido, torturado e
morto, conta os momentos sofridos que passou junto a sua família sem ter notícias de
Luiz, até saberem de sua morte por meio da imprensa. Juvenal Carvalho, militante do
PCB, fugiu da cidade devido a perseguição, se refugiando em São Caetano, na casa de
sua irmã, deixando para trás esposa grávida e traumatizada. Preso entre 1972 e 1973,
sofreu tortura psicológica. Outro militante do partido que o documentário aborda é
Humberto Mascarenhas que fugiu para Brasília, mas acabou sendo preso em 1970. Em
seu depoimento, ele conta a história de um militante chamado José Pereira que também
fugiu da cidade, o que provocou a prisão vários homens com o mesmo nome.
Através do depoimento de Davina, temos outra face da história do seu esposo
Raimundo, o alfaiate. Ela conta sobre seus quatro filhos e sobre a agressão que sofreu
para denunciar o marido aos militares, além de inúmeras dificuldades econômicas que
fizeram com que ela e seus filhos passassem por situações de miserabilidade.
Outro meio de comunicação que aparece no documentário é o jornal “Folha do Norte”,
que abordava a vida social, política e econômica da cidade de Feira de Santana, sempre
demonstrando repudio à esquerda e à sua resistência ao regime ditatorial. Os irmãos
proprietários do jornal que o herdaram, Hugo e José Luiz Navarro deixam claro o
favorecimento do jornal a “revolução”.
Luciano Ribeiro, militante do PCB, em sua fala destaca a resistência em Feira de
Santana, a qual não foi de grande intensidade quando se fala da resistência ao golpe no
país como um todo. Outro membro que aparece é Rosalino de Jesus que teve sua casa
invadida e fugiu para Salvador.
Os depoimentos trazem também as atrocidades cometidas pelo regime, dentre elas a
tortura se destaca. Em depoimento é contado como uma prensa de imprensar fumo, o
qual era importante para a economia da local, serviu como instrumento de tortura,
imprensando pessoas, esmagando seus corpos, enquanto respondiam as perguntas dos
torturadores.
Um personagem importante que o documentário traz e que aparece frequentemente ao
longo do tempo é o Capelão, policial militar que quis controlar as Forças Armadas em
Feira de Santana, onde não havia exército. Para os depoentes que resistiram àquele
período, as ações do militar se resumiam a uma palhaçada e chamam o Capelão de
nazista. Enquanto isso os "revolucionários" acreditavam no papel importante desse
personagem para “revolução” e afirmam que a tortura não passou de uma lenda.
"Penduravam a gente como se fossemos porcos", conta Celso Pereira, que era estudante
e foi preso e torturado na prensa. Conta as experiências com a tortura, o uso recorrente
do pau de arara e os seus dentes quebrados pela ação violenta da repressão.
É possível perceber que a região de Feira de Santana serviu como região de recuo para
Salvador, mas o objetivo era transformá-la em um polo de resistência até mesmo da luta
armada. Para isso, se destaca o papel da “Rádio Cultura”, que deu voz aos resistentes
contra o golpe, o que ocasionou o seu fechamento, enquanto jornais feirenses
abordavam a suposta “tranquilidade que voltaria a reinar na família feirense, livre do
espectro do comunismo".
A esposa de José, apesar de estar ligada a um militante resistente do período ainda faz
referência ao golpe usando o termo “revolução” e conta que a militância do seu marido
adoeceu de uma forma muito intensa.
Iara Cunha conta que foi julgada e condenada, presa numa prisão civil, uma vez que não
fazia parte da clandestinidade e dos partidos que a compunham, sendo presa apenas por
pensar diferente e pregar em suas aulas um discurso que foi tido como subversivo. Com
o AI-5, personagens como Maria Santa Bárbara tiveram suas casas invadidas e o seu
filho, ex-guerrilheiro Santa Bárbara foi "suicidado". Alguns ainda acreditam na força da
revolução justificada para combater o comunismo. Mas os jovens acreditavam na
mudança que viria pela mobilização contra o regime autoritário, baseados na ideologia.
"A gente não temia, a gente não recuava" segundo Iara Cunha. Importante concluir a
discussão a respeito do documentário com a fala do prefeito deposto Francisco Pinto e o
seu sonho de que o governo de Lula realizasse aquilo que eles não conseguiram realizar,
convidando aqueles que o assistem a por fim no silenciamento que tem feito as questões
referentes a ditadura militar cair no esquecimento.
Referências:
DOCUMENTÁRIO Chuvas de Março. Direção e produção de Johny Guimarães e
Volney Menezes. Coordenação de Professor Doutor Jorge Nóvoa. Roteiro: Johny
Guimarães. Salvador: Oficina Cinema e História da Faculdade de Filosofia e Ciências
Humanas da Universidade Federal da Bahia, 2002. (120 min.), son., color.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=iAI7_u9q7bk (acessado em 14 de
maio de 2021).