Urbanismo I
Caroline Krobath Luz Pera
© 2019 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida
ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico,
incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento
e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e
Distribuidora Educacional S.A.
Presidente
Rodrigo Galindo
Vice-Presidente Acadêmico de Graduação e de Educação Básica
Mário Ghio Júnior
Conselho Acadêmico
Ana Lucia Jankovic Barduchi
Danielly Nunes Andrade Noé
Grasiele Aparecida Lourenço
Isabel Cristina Chagas Barbin
Thatiane Cristina dos Santos de Carvalho Ribeiro
Revisão Técnica
Adriana Cezar
Estela Regina de Almeida
Editorial
Elmir Carvalho da Silva (Coordenador)
Renata Jéssica Galdino (Coordenadora)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Pera, Caroline Krobath Luz
P426u Urbanismo I / Caroline Krobath Luz Pera. – Londrina :
Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2019.
280 p.
ISBN 978-85-522-1456-4
1. Projeto urbano. 2. Escala bairro. 3. Escala cidade.
I. Perar, Caroline Krobath Luz. II. Título.
CDD 710
Thamiris Mantovani CRB-8/9491
2019
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: [Link]@[Link]
Homepage: [Link]
Sumário
Unidade 1
Elementos conceituais e morfológicos do
espaço urbano ............................................................................................ 6
Seção 1.1
URB I: Introdução à definição de urbanismo
e de cidade ...................................................................................... 8
Seção 1.2
URB I: estruturação da cidade e introdução às
definições de escalonamento urbano ........................................ 27
Seção 1.3
URB I: Introdução aos elementos de morfologia
urbana e desenho da forma da cidade ...................................... 48
Unidade 2
Levantamento de dados, mapeamentos e análise espacial ................ 71
Seção 2.1
URB I: levantamento de dados e mapeamento
urbanístico .................................................................................... 73
Seção 2.2
URB I: análise espacial e mapeamento de
dados urbanísticos I .................................................................... 94
Seção 2.3
URB I: análise espacial e mapeamento de
dados urbanísticos II ................................................................116
Unidade 3
Pressupostos projetuais, diagnóstico e programa
de necessidades de um projeto urbanístico ......................................141
Seção 3.1
URB I: Cidade desenhada para a dimensão da escala
humana e como lugar de encontro e permanência ..............143
Seção 3.2
URB I: Diagnóstico e elaboração de programa
de necessidades urbanístico .....................................................169
Seção 3.3
URB I: referências de projetos e elementos de
desenho urbano .........................................................................189
Unidade 4
Projeto urbanístico de desenho urbano ............................................215
Seção 4.1
URB I: Estudo Preliminar de projeto urbanístico
de desenho urbano ....................................................................217
Seção 4.2
URB I: Estudo Preliminar de projeto urbanístico de
desenho urbano: peças gráficas ............................................................................................236
Seção 4.3
URB I: Memorial Justificativo de projeto urbanístico .......................................................258
Palavras do autor
Olá, aluno!
A
partir deste material seu entendimento a respeito das competências
de um arquiteto urbanista vai se ampliar.
Le Corbusier, um dos principais arquitetos modernos, dizia que o
arquiteto urbanista deve saber projetar de uma colher até uma cidade, ou
seja, que seu trabalho compreende conhecimentos que abrangem desde o
planejamento e o desenho de um objeto, como uma colher ou uma cadeira,
passando pelo desenho de edificações, tais como casas e hospitais, pelo
projeto de espaços livres de edificações, como ruas e praças, chegando até a
escala de planejamento e projeto das cidades.
Seu olhar a partir de agora vai se voltar também à cidade e você enten-
derá o que é urbanismo e quais suas aplicações. Você perceberá que arqui-
tetura e urbanismo são indissociáveis e que o desenho da forma das cidades
faz mais sentido quando arquitetura e urbanismo atuam de forma integrada
e complementar. Por exemplo, você consegue imaginar como as dimen-
sões de uma quadra ou de um lote impactam no partido arquitetônico de
uma edificação e na forma de utilização dos espaços por sua população?
Tente imaginar como a forma dos quarteirões de Brasília, as superquadras,
permitiram a implantação de edificações sobre pilotis com térreos livres
e unidades de vizinhança. O desenho das quadras integrado à proposta
modernista de desenhar uma cidade que pudesse compartilhar seus espaços
públicos e coletivos possibilitaram o desenho de quadras abertas, com
percursos para pedestres entre os miolos de quadra e implantação de praças
e equipamentos coletivos.
Contudo, é preciso pontuar que o projeto de uma cidade não envolve só o
desenho de sua forma. Ao longo da sua trajetória como estudante você perce-
berá que para projetar e planejar cidades, além de saber desenhar, você terá
que desenvolver a capacidade de ler as várias camadas existentes no processo
de produção do espaço: sociais, econômicas, ideológicas, políticas e físicas.
Você aos poucos será capaz de identificar os agentes envolvidos na produção
do espaço e os interesses que regem o projeto de uma cidade. Pense: por que
será que há bairros com boas redes de infraestrutura e outros praticamente
“esquecidos” pelo poder público?
O trabalho do arquiteto urbanista compreende o conhecimento de todas
as questões que abrangem a cidade. Para iniciar seu aprendizado, este material
está dividido em quatro unidades. Na primeira você irá conhecer conceitos
introdutórios sobre o que é urbanismo e cidade. Entenderá a estruturação
interna de uma cidade e os elementos de morfologia e desenho da forma da
cidade. Na segunda unidade você vai conhecer e aplicar métodos para levan-
tamento urbanístico. Na terceira você realizará o diagnóstico e programa de
necessidades de um projeto urbanístico. Por último, você vai elaborar um
estudo preliminar de projeto de desenho urbanístico, peças gráficas de repre-
sentação do projeto e memorial de justificativa.
Após percorrer todos estes temas, aposto que seu entendimento e olhar
sobre o espaço e a paisagem urbana nunca mais serão os mesmos!
Bem-vindo ao campo do urbanismo, caro aluno!
Unidade 1
Elementos conceituais e morfológicos do
espaço urbano
Convite ao estudo
Olá, aluno, você está iniciando agora a primeira unidade do material de
Urbanismo I, na qual você trabalhará com elementos introdutórios deste
campo de conhecimento. Isto quer dizer que você vai compreender:
• O que é urbanismo.
• O que é uma cidade.
• Quais as escalas de trabalho utilizadas em projetos urbanísticos.
• Quais elementos estruturais organizam internamente uma cidade: os
centros urbanos, os bairros periféricos, o espaço rural, etc.
Além disso, saberá identificar os diversos tipos de usos existentes em uma
cidade, por exemplo: o uso residencial, comercial, de serviços, entre outros.
E aprenderá o que são e quais são os elementos de morfologia urbana que
definem a forma do desenho da cidade e a paisagem urbana, tais como: a
rua, a quadra, o lote, o edifício, etc. E aí, aluno, está pronto para começar a
compreender o que é urbanismo?
Para que você possa perceber a importância e abrangência dos aspectos
que envolvem esta disciplina, imagine que você faz parte da equipe de arqui-
tetos urbanistas da Secretaria Municipal de Urbanismo de seu município.
A Secretaria para a qual trabalha recebeu recursos financeiros do
Governo Federal para a elaboração de um projeto urbanístico de redesenho
de um centro urbano existente. Porém, diante do desconhecimento da
totalidade do território municipal, o secretário solicita que você elabore
caracterizações sobre o contexto urbanístico municipal com a finalidade
de, conjuntamente com a sociedade, definirem qual o local mais estratégico
para a aplicação do futuro projeto urbanístico no município. O secretário
menciona que a escolha do local deve se pautar em diversos diagnósticos,
considerando principalmente a melhoria da qualidade da mobilidade dos
pedestres em uma região de alta densidade e fluxo constante de transeuntes.
Para ajuda-lo na escolha da área de projeto urbanístico, uma série de
conceitos serão a você apresentados no decorrer da unidade.
Em linhas gerais, os assuntos tratados nesta unidade podem ser estru-
turados da seguinte forma: na primeira seção serão apresentados conceitos
introdutórios sobre o que é cidade, urbanismo, planejamento e gestão urbana.
Na segunda seção serão estudados os elementos estruturais de organização
interna das cidades (centros urbanos, sub-centros, bairros periféricos, área
rural, espaço periurbano, etc.) e os processos sociais e dinâmica espacial
das cidades. Serão abordados também os tipos de usos existentes no espaço
urbano (comercial, serviços, industrial, residencial, institucional, etc.) e os
tipos de escalas usadas em urbanismo: regional, metropolitana, municipal e
local. Na terceira e última seção desta unidade, você estudará os elementos
de morfologia urbana: a quadra, a rua, o lote, o edifício, a praça, a esquina, o
monumento, etc. Compreendendo os elementos morfológicos como aspectos
que compõem e definem a forma da paisagem urbana.
Será que após ter apreendido tantos conhecimentos você conseguirá
definir com maior facilidade qual área do município deverá receber o projeto
urbanístico? Será que você conseguirá caracterizar os elementos de morfo-
logia urbana existentes no local a ser estudado? Tenho certeza de que já está
animado para começar o trabalho.
Seção 1.2
URB I: estruturação da cidade e introdução às
definições de escalonamento urbano
Diálogo aberto
Olá, aluno!
Lembre-se de que você faz parte da equipe de arquitetos urbanistas da
Secretaria de Urbanismo de seu município, a qual recebeu recursos para a elabo-
ração de um projeto urbanístico de redesenho de uma centralidade, visando
propiciar a melhoria da mobilidade dos pedestres e a vivacidade urbana.
Agora os arquitetos urbanistas desta Secretaria, partindo das reflexões a
respeito das características comuns a todas as cidades, resolveram sistema-
tizar por meio de um croqui a estrutura organizacional do município a fim
de apresentá-lo à população. Neste contexto, a finalidade do estudo sobre
a totalidade municipal é a de que, conjuntamente, definam qual localidade
deverá receber o projeto urbanístico. Você conseguiria auxiliar na execução
do croqui descritivo dos elementos que fazem parte da organização espacial
de um município? Ou seja, você seria capaz de estruturar o espaço, além da
divisão entre: cidade, campo e espaço periurbano?
Indique também, no croqui, os principais elementos estruturadores do
território que achar necessários, tais como: corpos hídricos, vias principais,
ferrovias, rodovias, marcos, etc. Identifique igualmente as principais regiões
ou bairros do seu município. Pense tanto nas regiões periféricas quanto
nas centrais. Lembre-se de incluir áreas que representem todas as classes
sociais. Onde mora a população de mais alta renda? Em quais regiões mora a
população carente? Por que será que várias cidades se estruturam a partir da
segregação espacial entre as diferentes classes sociais? Você conseguiria citar
um exemplo de uma área de sua cidade onde moram e convivem pessoas de
diversas classes sociais? São poucos os exemplos, não é? Reflita a respeito do
motivo pelo qual esta situação de segregação ocorre nas cidades brasileiras.
Após expandir a compreensão que possui sobre o município em análise,
observe se existe um centro urbano em sua cidade.
Ao mencionar o conceito “centro urbano” você consegue compreender
quais aspectos caracterizam-no? Analise se o centro urbano do seu município
está localizado na área mais antiga ou histórica. Se não estiver, onde está
localizado? Lembre-se de que as centralidades são lugares que conseguem
induzir e polarizar um grande fluxo de pessoas e uma grande diversidade
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 27
de tipos de uso. Reflita a respeito da existência de centralidades locais ou
subcentros. Quer dizer, há centralidades locais, como na escala de bairro?
Após ter pesquisado as centralidades existentes, reflita a respeito de qual
localidade tem vocação e necessidade de receber um projeto de redesenho
urbano voltado à sua requalificação. Você saberia justificar o porquê da
escolha desta área diante da diversidade de espaços analisados? Qual o papel
e relevância da área escolhida para a cidade como um todo? Você acha que
esta área atenderia uma grande parcela da população, principalmente a mais
carente? Reflita sobre estas questões e vamos ao trabalho!
Não pode faltar
Partindo das características comuns a todas as cidades, vimos que elas
têm capacidade de atrair diversas pessoas e de ter vários usos. É o local onde
moramos, trabalhamos, produzimos, consumimos, vivenciamos experiências
novas ou cotidianas. É o lugar que produz e reflete injustiças sociais. É o cenário
da disputa das diversas camadas sociais pelo o solo. Cidade é conflito e história.
Após entendermos o que é uma cidade, chegou o momento de compreen-
dermos como se dá sua organização, ou seja, como se estrutura internamente
um município. A figura 1.7, a seguir, exemplifica uma forma de sintetizar por
meio de um croqui a estrutura de um município.
Reflita
Você seria capaz de estruturar o espaço do seu município além da divisão
campo versus cidade? Liste os elementos espaciais, materiais ou imate-
riais, existentes nos municípios brasileiros que você incluiria no croqui
síntese do seu município.
Figura 1.7 | Modelo de croqui exemplificando a estrutura interna de um município
Fonte: elaborada pela autora.
28 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
A estruturação de um município pautada apenas em duas subdivisões,
campo/rural versus cidade/urbano, encontra-se superada. Segundo Souza
(2005), além da divisão dicotômica entre campo e cidade há uma “faixa de
transição” entre o uso da terra tipicamente rural e urbano, espaço também
chamado de periurbano ou franjas da cidade.
“ Essa faixa de transição é chamada, entre os geógrafos anglo-sa-
xões, de franja rural-urbana, e, entre os franceses, comumente,
de espaço periurbano. No Brasil ambas as expressões são empre-
gadas pelos estudiosos. Quanto maior a cidade, em geral, mais
complexo tende a ser o espaço periurbano. Nele se encontram
misturadas duas “lógicas”, por assim dizer, de uso da terra: a
rural e a urbana. (SOUZA, 2005. p. 27)
[...] aqueles espaços preteritamente rurais, mas que, mais e mais,
são tomadas por uma lógica urbana de uso da terra (especulação
fundiária, residências de fim- de-semana ou mesmo principais
de famílias de classe média, algumas favelas, atividades de lazer,
restaurantes etc.), sendo a agricultura algo puramente residual,
ou um verniz, uma aparência que esconde a essência mais
profunda. (SOUZA, 2005. p. 76).
Além da subdivisão em campo, cidade e espaço periurbano, podemos
identificar outros elementos que organizam internamente um município:
as regiões ou zonas, os distritos e os bairros. Cada município possui maior
identificação com um dos elementos.
Exemplificando
Nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro o conceito de regiões é bem
presente. A população orienta-se no território a partir dos termos zona
sul, zona oeste, zona leste, etc. Há municípios onde a delimitação dos
distritos é muito utilizada, como em Campinas, interior do estado de São
Paulo, que possui vários distritos, como Barão Geraldo, Sousas, Joaquim
Egídio, Ouro Verde, etc. Em outros municípios nem mesmo há distritos.
Já os bairros são os elementos organizadores da estrutura interna mais
utilizados para localizar e caracterizar áreas do município.
O conceito de bairro, apesar de não possuir um léxico comum, é um
termo comumente utilizado pela população da grande maioria dos municí-
pios brasileiros. Contudo, mesmo havendo várias controvérsias quanto à
sua real definição, podemos elencar alguns conceitos que ajudam em sua
caracterização no campo da arquitetura e urbanismo.
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 29
Um bairro pode ser caracterizado como cada uma das partes em que
se divide um município. Sua utilização ocorre para facilitar a orientação
pela cidade, sendo uma unidade espacial que engloba uma comunidade ou
região, muitas vezes sem função administrativa específica.
Poucos municípios brasileiros possuem lei de abairramento, instru-
mento que delimita o perímetro de cada um dos bairros, sendo, a partir
de então, utilizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
para delimitação dos setores censitários, tornando os dados estatísticos
mais acessíveis ao planejamento municipal na escala do bairro (PERA;
BUENO, 2016).
Mesmo quando há lei de abairramento, o limite onde começa um bairro
e termina outro, no imaginário de sua população, é algo flexível, altamente
subjetivo e normalmente tende a não seguir o limite grafado pelo órgão
gestor. A identificação das pessoas com os bairros paira sobre a esfera cogni-
tiva; na identidade afetiva, é pouco importante para a população em geral
até onde precisamente limita-se determinado bairro.
“ [...] além de determinado território, o bairro se caracteriza por
um segundo elemento, o “sentimento de localidade” existente
nos seus moradores, e cuja formação depende não apenas da
posição geográfica, mas também do intercâmbio entre as famílias
e as pessoas, vestindo por assim dizer o esqueleto topográfico.
[...] O que é bairro? - perguntei certa vez a um velho caipira, cuja
resposta pronta exprime numa frase o que se vem expondo aqui:
- Bairro é uma naçãozinha. - Entenda-se: a porção de terra a que
os moradores têm consciência de pertencer, formando uma
certa unidade diferente das outras. (SOUZA, 1987, p. 57-65,
grifos nossos)
Nota-se que os bairros, no decorrer da história de uma cidade, têm,
muitas vezes, limites “flutuantes”, ou seja, muitas vezes expandem-se ou
contraem-se de acordo com os interesses de valorização de grupos ligados
ao mercado imobiliário. Isto é, um bairro tido como valorizado em determi-
nado momento histórico pode ter seu limite expandido sobre outros bairros
com menos apelo do mercado, tornando-se um elemento especulativo.
Entendido o sentido dos bairros, vamos ater-nos às suas formas
de caracterização.
30 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
Caminhando pelas ruas de qualquer cidade nota-se que suas ruas e
quadras são compostas por lotes que, na maioria das vezes, são formados
por edificações. A configuração entre o desenho das ruas, quadras, lotes e
edificações dão unidade e singularidade a cada bairro, tornando-o único.
Isto é, morfologicamente, o que caracteriza espacialmente um bairro é
o desenho e configuração de seus elementos morfológicos: ruas e calçadas,
quadras, lotes, edificações, praças, monumentos, marcos, arborização,
mobiliário urbano, pontos nodais, etc. Individualmente e entre si, eles
estabelecem, por meio da composição entre cheios e vazios, a transformação
de um mero espaço em um lugar, com o qual o indivíduo é capaz de desen-
volver uma relação de identidade e afetividade.
Outros elementos, que morfologicamente caracterizam uma região
ou um bairro, são os usos ali desenvolvidos. A associação entre a forma
dos lotes e das edificações compõe diversas tipologias arquitetônicas, que
normalmente dialogam com os tipos de atividades desempenhadas em um
edifício.
Nota-se nas cidades que existem ruas com a predominância de comér-
cios e serviços, outras com predominância residencial, outras compostas
por áreas de uso misto, etc. Esta predominância de um tipo de uso, frequen-
temente, tem a ver com a Lei de Uso e Ocupação do Solo Urbano de cada
município, instrumento do planejamento urbano que procura regular,
por meio de parâmetros urbanísticos, o uso e ocupação do solo urbano.
Normalmente, as leis de zoneamento definem os tipos de uso permitidos
em cada parte da cidade, estabelecendo zonas, que podem ser residen-
ciais, comerciais, industriais, etc. No decorrer do curso de arquitetura e
urbanismo você será apresentado a mais aspectos desta lei, por enquanto,
vamos nos ater a questão dos tipos de uso existentes no solo urbano.
Estudar o uso do solo de determinada área da cidade pressupõe obser-
varmos e levantarmos os tipos de atividades desempenhadas em um lote
(ou gleba) ou edificação. As Figuras 1.8 (a) e 1.8 (b) ilustram os diferentes
tipos de uso: residencial, comercial, industrial, de serviços, uso misto, insti-
tucional, terrenos vazios, parques e praças.
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 31
Figura 1.8 | Exemplo de (a) um trecho de cidade que apresenta diversos tipos de uso e (b) tipos
de uso do solo verificados nas cidades
A B
Fonte: iStock.
Apesar das categorias analíticas relacionadas aos tipos de uso do solo
urbano se pautarem, na maior parte das vezes, nos tipos de atividade
exercida em determinado lote, esta não é a única forma de se analisar os
usos existentes em determinada região. Ou seja, as categorias analíticas
definidas vão depender do tipo de estudo urbanístico pretendido e qual a
sua finalidade.
Exemplificando
Pode-se incrementar a análise referente ao uso do solo por meio do
cruzamento das informações de uso com outros dados, como o padrão
arquitetônico das edificações (ex.: uso residencial unifamiliar ou uso
residencial multifamiliar; indústria de grande, médio e pequeno porte,
etc.). Outra possibilidade de cruzamento de informações é a incorpo-
ração de dados socioeconômicas aos de uso, tais como o padrão de
custo dos imóveis por m2 (ex.: uso residencial de baixo padrão, de médio
padrão e de alto padrão).
Há também a possibilidade de incluir estudos quanto à forma de
apropriação dos espaços: via mercado formal ou informal e incor-
porando as favelas e os loteamentos irregulares como categorias
analíticas próprias.
Há casos ainda nos quais o vínculo de propriedade (público ou privado)
é relevante ao estudo. Nestas situações pode-se, por exemplo, distinguir
os equipamentos institucionais de ensino público, dos privados. Ou os
hospitais públicos, dos privados.
32 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
Em síntese, pode-se dizer que o levantamento do uso do solo é impor-
tante para a compreensão dos padrões de organização interna das cidades,
sendo fundamental para verificar fragilidades e particularidades do tecido
urbano, já que este tipo de levantamento possibilita a interpretação e a
formulação de diversas respostas e perguntas sobre o território em análise.
A caracterização do uso do solo pode ser utilizada, por exemplo, para
identificar os locais onde se concentra a maior parte dos comércios e
serviços, configurando locais nos quais a atração e o fluxo de pessoas tende
a ser maior. Quando utilizado desta forma, o mapa de uso do solo contribui
com a análise e identificação de possíveis centralidades.
A delimitação das áreas com maior quantidade de comércios e serviços
subsidia também a análise a respeito das regiões da cidade que concentram
maior ou menor quantidade de empregos. Este estudo visa entender o terri-
tório para proposição de diretrizes de ação, com o objetivo de romper com
o padrão espacial desigual, que concentra a maior parte dos empregos nas
áreas centrais e a moradia da população carente nas regiões mais afastadas.
O mapeamento de uso do solo pode igualmente ser utilizado para verifi-
cação da existência de áreas multifuncionais ou com “mix de usos”, onde
coexistem comércios, serviços, usos residenciais, institucionais e, portanto,
geradores de vivacidade urbana. Serve, da mesma forma, para identificação
de áreas monofuncionais, representadas por extensas quadras de uso exclu-
sivamente residencial ou comercial, onde os espaços públicos de suas ruas
são utilizados pelos pedestres apenas durante o dia, no caso das áreas estri-
tamente comerciais, tornando-os inóspitos à noite devido à fata de pessoas
circulando e vivenciando os espaços públicos.
O estudo dos tipos de uso do solo serve, também, para mapeamento da
distribuição e oferta dos equipamentos públicos pelo território municipal,
refletindo desigualdades ao evidenciar as regiões com maior ou menor
quantidade de equipamentos institucionais, como hospitais, escolas e
equipamentos culturais, por exemplo, sendo este, portanto, um importante
instrumento de planejamento urbano.
Assimile
Diante dos aspectos expostos, o que precisa ficar claro a você, aluno,
é que não existe uma única chave de classificação para se realizar
mapeamentos do uso do solo. Tudo depende do tipo de leitura espacial
que pretende elaborar!
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 33
A produção capitalista do solo urbano, valor do solo e segregação
socioespacial
Além dos tipos de uso, outra questão que diferencia as regiões e bairros
de uma cidade diz respeito ao valor do solo de determinada área, responsável
pela diferenciação social presente em nossos municípios. Nas cidades dos
países de economia periférica, como o Brasil, as diferentes áreas da cidade
normalmente possuem uma vertiginosa diferenciação quanto ao valor dos
imóveis, o que acaba gerando a concentração em determinada região de
pessoas de uma mesma classe social devido a suas mesmas possibilidades de
poder de compra ou aluguel de um imóvel.
Reflita
Pense nas várias regiões ou bairros que compõem o município em análise.
Onde mora a população de mais alta renda e em quais regiões mora a
população mais carente? Por que será que nossas cidades se estruturam
a partir da segregação espacial entre as diferentes classes sociais? Você
consegue citar um exemplo de uma área de sua cidade onde moram e
convivam pessoas de diversas classes sociais? São poucos os exemplos,
não é? Pense a respeito dos motivos pelos quais esta situação de segre-
gação ocorre nas cidades brasileiras.
Segundo o arquiteto urbanista Flávio Villaça (2011), provavelmente o
maior avanço ocorrido no campo da geografia urbana foi a consciência e a
difusão da ideia do espaço social, no nosso caso, do espaço urbano enquanto
produto socialmente produzido. Isto é, o espaço urbano não é dado pela
natureza, mas é produto produzido pelo trabalho humano. Somente a partir
da concepção do espaço enquanto produto social que se tornou possível
inserir o estudo do espaço urbano na lógica do chamado materialismo
histórico, que relaciona a produção do espaço pelo homem por meio da
dominação e do conflito de classes.
Saiba mais
Leia o artigo de Flávio Villaça, São Paulo: segregação urbana e desigual-
dade, que apresenta a ideia de que o espaço urbano não é um dado da
natureza, mas um produto do trabalho humano e no qual propõe uma
nova maneira de abordar a segregação urbana.
VILLAÇA, Flávio. São Paulo: segregação urbana e desigualdade. Estudos
Avançados, São Paulo, v. 25, n. 71, p. 37-58, 2011.
34 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
Como vimos, cidade é também luta de classes e, portanto, produz, no
espaço, as desigualdades sociais ao reproduzir as formas de segregação
existentes em nossa sociedade capitalista de economia periférica.
A segregação socioespacial está associada ao processo de produção
capitalista do espaço e resulta do preço da terra, isto é, do quanto cada pessoa
pode pagar por uma moradia. Diante desse processo, parte da população é
induzida a morar nas áreas mais baratas ou a ocupar as áreas de risco socio-
ambiental. Já a parcela mais abastada da população se autossegrega, justifi-
cando seu ato por meio do discurso da extrema violência existente em nossa
sociedade desigual. Há ainda a segregação planejada sob ação do Estado, que
ocorre quando este implanta conjuntos habitacionais apenas nas áreas mais
afastadas e carentes de redes de infraestrutura e urbanidade de seu município,
chamadas comumente de periferias.
“ O significado preciso do conceito social de periferia em São Paulo
desvenda, de fato, um processo histórico de produção do espaço
urbano que se desenrolou concomitantemente à extensão
interna do trabalho assalariado.
Em São Paulo, periferia tem um significado específico. Reflete a
visão dual que o senso comum atribui ao espaço urbano. Geogra-
ficamente significa franjas da cidade. Para a sociologia urbana, o
local onde moram os pobres, em contraposição à parte central
da cidade, estruturada e acabada. Existem exceções, é claro,
empreendimentos imobiliários de luxo que também podem ser
encontrados nos limites da cidade, assim como cortiços nas áreas
centrais- porém jamais seriam identificados como “periferia”.
Para evitar uma aproximação fragmentada e antes de definir ex
ante um conceito, consideramos a periferia como base de um
processo de produção do espaço urbano. A periferia é de fato um
local onde vivem os pobres, é socialmente segregada, e o preço
da terra é baixo, porém, ao mesmo tempo, é um local mutante,
sempre reproduzindo em novas extensões de terra, enquanto
velhas periferias são gradualmente incorporadas à cidade,
ocupadas por novos moradores e reorganizadas pelo capital.
(MAUTNER, 1999, p. 253 e 254)
Saiba mais
Para aprofundar seus conhecimentos a respeito da segregação urbana,
leia o artigo de MARICATO, Ermínia. Metrópole, legislação e desigualdade.
Estud. av., São Paulo, v. 17, n. 48, p. 151-164, 2003.
Este texto tem como objetivo fazer uma leitura da metrópole brasileira
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 35
do final do século XX, destacando a relação entre desigualdade social,
segregação territorial e meio ambiente, mostrando como o universo
urbano não superou algumas características dos períodos colonial e
imperial, marcados pela concentração de terra, renda e poder ou política
do favor e pela aplicação arbitrária da lei.
Apesar de a forma mais tradicional de estudo da segregação urbana
pautar-se na estruturação do território, na subdivisão centro versus periferia,
faz-se necessário pontuar que esta descrição de segregação é uma forma de
síntese e abstração espacial, pois, ao analisar com cuidado os pormenores do
tecido urbano de nossas cidades, percebe-se, como aponta Mautner (1999) no
texto anteriormente transcrito e Villaça (2011), que a segregação em nossas
cidades não se configura exatamente segundo círculos concêntricos, com os
mais ricos exclusivamente no centro e os mais pobres somente na periferia
geográfica. Nosso tecido urbano e realidade social são muito mais complexos.
“ Essa falsa visão decorre da teoria dos círculos concêntricos da
Escola de Chicago, do início do século XX. O Rio de Janeiro, por
exemplo, sempre desmentiu essa visão, pois a Zona Sul nunca
teve periferia pobre. Seja no início do século XX, tempo em que
Ipanema e Leblon eram periferia, seja no tempo em que Barra
da Tijuca o era, seja hoje, quando o Recreio dos Bandeirantes o
é. Favela incrustada na mancha urbana (como a Rocinha) não é
periferia segundo nenhum conceito do termo. Além disso, em
São Paulo, Granja Viana, Alphaville ou Aldeia da Serra mostram
que há décadas existem áreas mais ricas não só fora do centro,
mas na periferia afastada. (VILLAÇA, 2011, p. 38 e 39)
Sem medo de errar
Na situação-problema desta seção você foi questionado sobre como se dá
a organização interna de uma cidade, como ocorre o processo de segregação
socioespacial e quais os diversos tipos de uso do solo existentes em nossas
cidades. Foi questionado, ainda, a respeito da existência de um centro
urbano em sua cidade.
Como os três primeiros pontos foram tratados na seção Não pode faltar,
vamos nos voltar, agora, à questão das centralidades locais, subcentos e
centro urbano principal.
Ao mencionar “centro urbano” você consegue compreender quais
aspectos o caracterizam? Vamos às respostas, aluno!
36 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
O centro urbano de um município está normalmente localizado na área
mais antiga ou histórica da cidade, sendo lugares que conseguem induzir
e polarizar um grande número e fluxo de pessoas, além de possuir uma
grande diversidade de tipos de uso.
Segundo Souza (2005), os espaços onde as atividades de comércio e
serviços se concentram são de vários tipos. A grande maioria das cidades
brasileiras possui o seu centro urbano principal, correspondendo, na
maioria das vezes, ao centro histórico, local onde a urbe foi fundada e que
abriga prédios de um certo ou mesmo de um grande valor histórico-arqui-
tetônico. Mas, a partir do momento que o processo de crescimento de uma
cidade vai ocorrendo, as distâncias entre as mais variadas regiões e bairros
vão aumentando. Assim, as longas distâncias em relação ao centro principal
e à diferenciação de renda existente na sociedade faz com que apareçam
outras importantes centralidades ou subcentros, que nem sempre são tão
fortes como o centro principal em uma cidade.
Com relação ao subcentro, Villaça (2001) destaca que este é uma repro-
dução em dimensão menor do centro tradicional, concentrando grande
parte das atividades que servem à população de um determinado setor da
cidade. Assim, o centro principal serve a toda a população e o subcentro, a
determinado setor ou região da cidade. Quanto à centralidade local, esta
abastece a população na escala do bairro, não havendo concorrência direta
entre as escalas de centralidade: principal, subcentro e centralidades locais.
Nota-se, portanto, a existência de um sistema de hierarquia de centra-
lidades nas cidades, que funcionam de acordo com sua capacidade de
concentração dos mais variados tipos de comércios e serviços e de pessoas
em comparação com as demais áreas.
Como aponta Campos Filho (2003), os municípios possuem, além do
centro principal, outros níveis de centralidade: o primeiro nível é composto
pelos comércios e serviços de apoio direto ao uso residencial, que tende a ter
uma frequência de utilização diária ou semanal, caracterizado como local
(ex.: o açougue, a padaria, o boteco, o mercadinho, etc.). O segundo nível
são aquelas atividades utilizadas com menos frequência e por isso, tendem a
se localizar um pouco mais distante, apesar de servirem ainda como apoio
das habitações. Estão normalmente nos centros de bairro ou regiões mais
consolidadas. Incluindo a loja de roupas, o supermercado de grande porte,
entre outros . O terceiro nível de apoio é composto por aquelas atividades
mais especializadas, com toda a diversidade possível e cuja frequência de
utilização é menor (semestral, anual ou ainda maior). Inclui relojoarias,
artigos de cama e banho, de automóveis, de equipamentos industriais, para
a realização das atividades de comércio e serviço, etc.
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 37
Apesar de todos os níveis de centralidade dependerem da facilidade de
acesso, os centros principais são o nível de centralidade que mais necessitam
de ampla rede de acessibilidade, com grande oferta de linhas de ônibus e
terminais dos mais variados tipos de modal.
Contudo, a hierarquia de centralidades espalhada pelas diversas regiões
ou bairros da cidade faz com que as pessoas nem sempre precisem se
deslocar até o centro principal em busca de um serviço ou produto. É claro
que o centro principal tende a ser mais variado e com serviços voltados às
diversas classes, enquanto os subcentros e centralidades locais tendem a ter
as características socioeconômicas da população que reside em seu entorno.
O esquema a seguir ilustra a rede de hierarquia de centralidades presente
em nossos municípios. Cada quadrado em preto representa um bairro
da cidade. Os círculos em verde representam as centralidades locais na
escala do bairro, onde se encontra a padaria e o cabelereiro. Os círculos em
amarelo também são centralidades locais, porém mais estruturas, polari-
zando uma quantidade maior de bairros. Já os círculos em vermelho são
centralidades de nível de subcentros, utilizados pela população de toda uma
região ou zona do município. Por último, o círculo em azul representa o
centro principal da cidade.
Figura 1.9 | Modelo exemplificando a hierarquia de centralidades espalhadas pelas diversas
regiões ou bairros de um município
Fonte: elaborada pela autora.
38 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
Avançando na prática
Escalas de abrangência ou recortes espaciais
aplicados a projetos urbanos
Descrição da situação-problema
Caro aluno, imagine que você trabalha em um escritório de planeja-
mento urbano e que, durante a elaboração de um projeto, você menciona
ao seu estagiário que vão trabalhar neste projeto urbanístico na escala de
abrangência local, “de bairro”. O estagiário de urbanismo pega, então, o
escalímetro e começa a pensar com qual escala vão trabalhar. Você então
o questiona, perguntando-lhe se consegue compreender a diferença entre
escala de mensuração e escala enquanto sinônimo de recorte espacial.
Como você explicaria esta questão ao seu estagiário? Vamos avançar um
pouco mais na prática do urbanista, explanando o que este termo significa
neste contexto?
Resolução da situação-problema
Aqui, a abordagem do termo escala não está relacionada à proporção
existente entre uma medida real e a medida de sua representação em um
desenho. Da mesma forma, também não está fazendo alusão à escolha, por
parte do arquiteto urbanista, da escala que deseja trabalhar a partir da neces-
sidade de informação que um desenho precisa mostrar.
A utilização do termo escala, neste contexto, ocorre enquanto sinônimo
de recorte (ou contorno) espacial aplicável a planos e projetos urbanísticos.
Sua conotação relaciona-se, portanto, a aspectos dimensionais, de desta-
camento de uma porção do território para observá-la com mais atenção. Ou
seja, diz respeito ao ato de delimitar um pedaço do espaço para sua leitura,
compreensão e concepção de um plano ou projeto urbanístico. Em outras
palavras, nada mais é do que a delimitação da abrangência espacial da área
de projeto, essa que pode ser uma escala: local ou setorial, municipal, metro-
politana, estadual, regional ou até mesmo nacional.
No caso das escalas municipal, metropolitana, estadual e nacional, estas
partem de um recorte espacial pré-definido. Isto é, são unidades de gestão e
planejamento estabelecidas através de divisões legais ou político-administra-
tivas existentes. Já no caso das escalas regionais e locais, também chamadas de
setoriais, no campo da arquitetura e urbanismo, sua delimitação e subdivizão
partem de critérios mais subjetivos, obedecendo a forma como o urbanista
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 39
ou o planejador urbano processou a leitura do território e compreendeu a
realidade ali instaurada.
Diante do exposto, nota-se que as escalas locais/setoriais e regionais
possuem delimitações mais particulares, de acordo com o entendimento do
profissional a respeito da questão a ser equacionada. Estes recortes espaciais
representam, portanto, a porção do território que necessita de intervenção. É
a chamada área de projeto urbanístico.
Cabe destacar que a escala local ou setorial pode englobar uma ampla
gama de tipos de recortes. Pode abranger tanto uma ou mais ruas, quanto
algumas quadras ou uma porção de lotes. Pode englobar também todo um
bairro, ou até mesmo um conjunto deles, chegando até a uma fração do
município.
Neste material, em nosso projeto de desenho urbano, trabalharemos com
a escala local, cabendo a você, aluno, definir o recorte de abrangência neces-
sário para a elaboração do projeto.
As imagens a seguir ilustram as diversas escalas discutidas nesta seção,
mostrando recortes espaciais e escalas de abrangência.
Figura 1.10 | Escala nacional: (a) Brasil e (b) escala estadual: estado do Rio de Janeiro
A B
Fonte: iStock.
40 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
Figura 1.11 | (a) Escala metropolitana: região metropolitana do Rio de Janeiro; (b) escala muni-
cipal: município do Rio de Janeiro
A B
Fonte: (a) iStock; (b) adaptada de iStock.
Figura 1.12 | Escala local: exemplo 1 - trecho do município do Rio de Janeiro
Fonte: iStock.
Figura 1.14 | Escala local: (a) exemplo 2 - zona sul do Rio de Janeiro; (b) exemplo 3 - conjunto de
quadras do bairro de Ipanema; (c) exemplo 4 - entorno da praça Nossa Senhora da Paz
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 41
B C
Fonte: (a) iStock; (b) e (c) adaptadas de iStock.
Faça valer a pena
1.
“ A experiência de caminhar por um bairro pode ser muito mais
agradável se o espaço público apresentar algumas caracterís-
ticas. Algumas têm relação com os principais pontos de interesse,
outras com as dimensões das calçadas e ruas, ou ainda, com os
serviços e comércios disponíveis. Com o objetivo de identificá-
-las e, assim, promover sua aplicação em diferentes cidades (sem
esquecer do contexto específico de cada caso), a arquiteta e
planejadora Liz Treutel, identificou fatores presentes nos bairros
caminháveis. Veja-os a seguir. [...]
Uso do solo misto: Se em um bairro há casas, escolas e comér-
cios, isso estabelece uma maior variedade de destinos aos quais
se pode chegar caminhando. Para a arquiteta, “as melhores
misturas de uso do solo não têm apenas uma grande quantidade
de opções, mas opções alternadas.” Liz usa como exemplo uma
situação muito comum. Quando você vai a pé a uma reunião e
quer tomar um café no caminho, isso é possível em um bairro
cujo uso do solo é alternado entre habitações, comércio e
serviços. [...] (GAETE, 2016, [s.p.])
42 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
Analise a figura a seguir que apresenta o mapa de uso do solo de um trecho hipotético
da cidade.
Figura | Mapa de uso do solo de Ann Arbor, Michigan, EUA
Fonte: elaborada pela autora.
Levando em consideração o texto acima, o mapa de uso do solo e seus conhecimentos,
identifique as afirmativas verdadeiras.
I. A Área A possui uma diversidade de usos maior do que a Área B por possuir lotes
com usos institucionais, de comércio, de serviços, etc. Além disso, por possuir lotes de
uso misto e lotes residenciais, a Área A não se torna inóspita em parte do dia, pois há
constante circulação de pessoas na região, o que garante a sua vivacidade.
II. A Área B possui uma maior quantidade de uso exclusivamente residencial, além
disso, por não possuir mais lotes vazios é considerada uma região altamente consoli-
dada e de altíssima densidade populacional.
III. Há presença de usos industriais ao sudeste da Área A, principalmente em lotes de
grandes dimensões.
IV. Pode-se dizer que o município em análise conta com oferta de parques ao norte.
Porém, ressalta-se que a oferta de pequenas praças entre as quadras das áreas A e B
é escassa.
V. Por meio da análise do mapa de uso do solo pode-se dizer que o município em
análise possui uma grande quantidade de áreas exclusivamente residenciais. Além
disso, a maior parte dos empregos do município concentra-se na Área A.
Agora assinale a alternativa com as afirmativas corretas:
a) Somente as afirmativas I e III estão corretas.
b) As afirmativas I, II, III, IV e V estão corretas.
c) Somente as afirmativas I, III, IV e V estão corretas.
d) Somente as afirmativas I, III e IV estão corretas.
e) Somente as afirmativas III, IV e V estão corretas.
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 43
2.
“ A segregação é manifesta também no caso dos condomínios
fechados — muros de verdade, além de controles eletrônicos,
zelam pela segurança dos moradores, o que significa o controle
minucioso das trocas daquele lugar com o exterior. Além de um
recorte de classe, raça ou faixa etária, a segregação também se
expressa através da separação dos locais de trabalho em relação
aos locais de moradia. A cena clássica cotidiana das grandes
massas se deslocando nos transportes coletivos superlotados
ou no trânsito engarrafado são a expressão mais acabada desta
separação — diariamente temos que percorrer grandes distân-
cias para ir trabalhar ou estudar. Com isto, bairros inteiros das
cidades ficam completamente desertos de dia, os bairros-dor-
mitórios, assim como algumas regiões comerciais e bancárias
parecem cenários ou cidades-fantasmas para quem as percorre
à noite. Finalmente, além dos territórios específicos e separados
para cada grupo social, além da separação das funções morar e
trabalhar, a segregação é patente na visibilidade da desigualdade
de tratamento por parte das administrações locais. Existem, por
exemplo, setores da cidade onde o lixo é recolhido duas ou mais
vezes por dia; outros, uma vez por semana; outros, ainda, onde o
lixo, em vez de recolhido, é despejado. As imensas periferias sem
água, luz ou esgoto são evidências claras desta política discri-
minatória por parte do poder público, um dos fortes elementos
produtores da segregação.
Em qualquer dos exemplos que mencionamos, fica evidente
que estes muros visíveis e invisíveis que dividem a cidade são
essenciais na organização do espaço urbano contemporâneo.
(ROLNIK, 1988, p. 46 e 47)
44 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
A figura a seguir apresenta um recorte de um bairro da cidade de São Paulo mostrando
a segregação social no território.
Figura | Bairro do Morumbi, em São Paulo e seus contrastes urbanos
Fonte: iStock.
A partir da leitura do texto, da observação da foto do bairro do Morumbi (São Paulo)
e de seus conhecimentos a respeito da segregação urbana, identifique as afirmativas
verdadeiras.
I. A segregação socioespacial está associada ao processo de produção capitalista do
espaço e resulta do preço da terra, isto é, do quanto cada pessoa pode pagar por uma
moradia. Diante desse processo, parte da população é induzida a morar nas áreas
mais baratas ou a ocupar as áreas de risco socioambiental. Já a parcela mais abastada
da população se autossegrega. Há ainda a segregação planejada sob ação do Estado,
que ocorre quando este implanta conjuntos habitacionais apenas nas áreas mais
afastadas e carentes de redes de infraestrutura e urbanidade.
II. A segregação socioespacial se reflete no espaço da seguinte forma: temos os mais
ricos morando no centro e os mais pobres exclusivamente na periferia. Essa formação
espacial decorre da teoria dos círculos concêntricos da Escola de Chicago, do início
do século XX.
III. A segregação urbana diz respeito à separação das classes sociais existentes em
nossa sociedade, esta que por sua vez se reflete também na apropriação espacial das
cidades. Contudo, na realidade brasileira não faz sentido analisar a segregação urbana
por meio da separação dos locais mais dotados de emprego em relação aos chamados
“bairros dormitórios” das periferias sociais, afinal esta é uma questão secundária em
nossas cidades frente à grandiosa demanda habitacional.
IV. O conceito geográfico de periferia significa “franjas da cidade”, que são as áreas
mais afastadas do centro. Para a sociologia urbana, considera-se a periferia como base
de um processo de produção do espaço urbano. Ou seja, a periferia é o local onde
vivem os pobres, parte socialmente segregada e onde o preço da terra é baixo.
A fotografia presente na coletânea representa a síntese de uma cidade socioespacial-
mente segregada. Temos em um mesmo bairro, de um lado a favela de Paraisópolis
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 45
e, do outro, prédios luxuosos do Morumbi. A imagem capta a reprodução da luta de
classes no espaço das cidades.
Agora, assinale a alternativa que contém as afirmativas corretas:
a) As afirmativas I, II, III, IV e V estão corretas.
b) Somente as afirmativas I, II e V estão corretas.
c) Somente as afirmativas III, IV e V estão corretas.
d) Somente as afirmativas I, IV e V estão corretas.
e) Somente as afirmativas I, II, IV e V estão corretas.
3.
“ O movimento das ruas marca o ritmo cotidiano da vida urbana;
nos horários de “pico” se enchem de gente, em outros se esvaziam
ficando quase desertas. Nas ruas as pessoas, cada qual seguindo o
seu caminho, mesclam-se no movimento geral da cidade, tornan-
do-se, momentaneamente, parte dele. Formam-se as centra-
lidades, os pontos de interesse e atração, onde se concentram
as principais atividades de uma determinada área e para onde
converge o movimento geral. As centralidades são tributárias,
também, da forma do traçado da rede viária. A concentração
espacial das atividades ocorre preferencialmente em áreas onde
o acesso seja franqueado pelas vias públicas, de modo a poder
atrair o maior número possível de pessoas. A acessibilidade repre-
sentada pela interligação das ruas comparece, então, como uma
condição necessária (embora não suficiente) para a formação das
centralidades. (Duarte, 2006, p.34).
A Figura a seguir traz um exemplo possível de rede de hierarquia de centralidades
existente em uma cidade brasileira.
Figura | Rede de hierarquia de centralidades
Fonte: elaborada pela autora.
46 - U1 / Elementos conceituais e morfológicos do espaço urbano
A partir da leitura do texto, da observação do diagrama e de seus conhecimentos
a respeito da hierarquia de centralidades existente em uma cidade, identifique as
afirmativas verdadeiras.
I. A formação e consolidação de subcentros e centralidades locais, configurando uma
cidade policentralizada, é capaz de proporcionar aos cidadãos uma possibilidade de
acesso aos serviços essenciais dispensando-se os deslocamentos motorizados, pois as
centralidades locais podem ser acessadas por meio de pequenas viagens a pé ou de
bicicleta.
II. Uma centralidade local possui muitas das atividades presentes no centro principal,
porém, em maior escala, uma vez que visa atender a demanda da população de todo o
bairro. Desta forma, pode haver certa concorrência entre os tipos de níveis de centra-
lidades, pois a população do bairro deixa de frequentar o centro principal.
III. O centro principal tende a ser mais variado, com serviços voltados às diversas
classes sociais, enquanto os subcentros e as centralidades locais tendem a ter as carac-
terísticas socioeconômicas da população que reside em seu entorno.
IV. O centro principal não se constitui necessariamente no centro geográfico da
cidade. Além disso, é constituído apenas por lugares que concentram valores histó-
ricos e significados de memória afetiva, deixando de ter comércios e serviços atraentes
para a população, que prefere utilizar as centralidades de bairro por estarem mais
próximas de suas residências.
V. A formação de uma centralidade, independentemente da sua hierarquia, tende a
proporcionar a concentração de atividades comerciais e de linhas ou terminais de
transporte. Logo, a acessibilidade é um fator essencial para a frequência de utilização
de uma centralidade por parte de sua população.
VI. A imagem mostra uma rede de hierarquia de centralidades na qual o maior
círculo caracteriza o centro urbano principal da cidade. Já os círculos intermediá-
rios indicam as subcentralidades, com comércios e serviços que vendem produtos
para determinada região da cidade. Os círculos menores indicam as centralidades
locais, onde emergem estabelecimentos que podem ser acessados por sua população
por meio de redes de transporte não motorizados devido a sua proximidade com a
residência de seus usuários.
Agora, assinale a alternativa que contém as afirmativas corretas:
a) As afirmativas I, II, III, IV, V e VI estão corretas.
b) Somente as afirmativas I, II, V e VI estão corretas.
c) Somente as afirmativas III, IV, V e VI estão corretas.
d) Somente as afirmativas I, IV, V e VI estão corretas.
e) Somente as afirmativas I, III, V e VI estão corretas.
Seção 1.2 / URB I: estruturação da cidade e introdução às definições de escalonamento urbano - 47