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O Desenho Anatómico

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e a Figura Humana
Anatomical Drawing and Human Figure
Ramos, Jose Artur Vitoria De Sousa (2017) “O Desenho Anatómico e a Figura Humana”
Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756 e-ISSN 2182-9829. Vol. 5 (2): 62-72.

JOSE ARTUR VITORIA DE SOUSA RAMOS*

Artigo submetido a 24 de abril 2017 e aprovado a 29 de maio 2017.

*Universidade de Lisboa, Faculdade de Belas-Artes, Centro de Investigação e Estudos em Belas Artes (CIEBA).
Largo da Academia Nacional de Belas-Artes, 1249-058 Lisboa, Portugal. E-mail: [Link]@[Link]

Resumo: Apresenta-se uma proposta metodo- Abstract: We present a specific methodological


lógica específica no âmbito do desenho tendo o proposal specific drawing with the live figure as
estudo da figura humana como tema de fundo e a a background theme and anatomy as its main
anatomia como o principal conteúdo. É um tema content. It’s a broad and extensive theme to sev-
abrangente a vários níveis de ensino e tem o seu eral levels of teaching and has its own historical
enquadramento histórico. São apresentados e framework. Concrete results are presented and
analisados resultados concretos com a descrição analysed with detailed descriptions of the several
detalhada das diversas fases de construção. Por phases of construction. Lastly, we determine the
fim constata-se a viabilidade que a proposta cons- viability that the proposal constitutes towards the
titui para a introdução da anatomia no desenho de introduction of anatomy in live figure drawing. 
figura humana. Keywords: drawing / human figure / anatomy
Palavras-chave: desenho / figura humana / / methodological proposal.
anatomia / sugestão metodológica.
Introdução
O corpo humano é um tema incontornável da arte. O Desenho usa-o intensa-

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mente não só como matéria final mas também como aprendizagem. As vanta-
gens da utilização do corpo humano e em particular a cabeça como modelo no
processo de aprendizagem do Desenho são largamente defendidas por muitos
autores como nos explica Betty Edwards a propósito do desenho de retrato (Ed-
wards, 1999:162).
Presente em todas as épocas da História de Arte, referido em todos os tra-
tados, o corpo humano foi e continua a ser um elemento presente na formação
dos alunos e dos artistas desde as antigas oficinas até às atuais faculdades de

Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756 e-ISSN 2182-9829. Vol. 5 (2): 62-72.


Belas-Artes. Recentemente os programas de Desenho do Secundário passaram
também a integrar o corpo humano e o retrato como tema de estudo. De facto,
desde o secundário até às faculdades passando pelos institutos politécnicos e
escolas privadas, o desenho de modelo vivo ocupa uma privilegiada importân-
cia no desenvolvimento das capacidades gráficas quer ao nível da observação
e análise quer ao nível do desenvolvimento da expressão gráfica. Ou seja, per-
ceber como se vê o modelo, adotar estratégias de construção e aplicar uma efi-
ciente resolução gráfica para a qual o estudo dos meios atuantes e dos suportes
não pode ser descurado, são alguns dos grandes objetivos do Desenho.
Considerando assim o corpo humano como tema existem inúmeros exer-
cícios possíveis de implementar na sala de aula desde o simples desenho cego
até ao sight size. A sua escolha depende de diversos fatores, como o nível de en-
sino, a escola, o professor o tipo de aluno, os programas e também os recursos
didáticos. Assim, do alargado leque de exercícios possíveis, destacamos aqui os
exercícios que envolvem os aspetos anatómicos. São exercícios específicos, que
têm como objetivo compreender a estrutura do corpo humano de modo a evitar
erros flagrantes. Perceber a natureza formal do modelo que se está a desenhar
aumenta a capacidade de uma correta representação.

O estudo da anatomia através do Desenho


Todos conhecemos as histórias das investidas ‘secretas’ de Leonardo da Vinci
em torno dos cadáveres para compreender o seu funcionamento a diversos ní-
veis. Foi o primeiro artista a pôr o desenho ao serviço do estudo anatómico. De
facto, a importância do estudo anatómico associado à arte é reconhecido por
diversos artistas que dedicam grande parte do seu trabalho à sua pesquisa. A
anatomia artística torna-se algo de incontornável e presente em quase todos
os tratados de arte. Porém estes cingem-se às obras de referência que depen-
deram da evolução do conhecimento anatómico assim como das técnicas de
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Ramos, Jose Artur Vitoria De Sousa (2017) “O Desenho Anatómico e a Figura Humana”

Figura 1 ∙ Desenho, do aluno A, com visualização


da coluna vertebral (vista lateral). Estudo dos músculos
do tronco segundo a mesma vista e tendo o mesmo
modelo como ponto de partida. Grafite, 59,4x42cm.
Fonte: própria.
representação e de publicação. Sobre este tema é valiosa a consulta de todo o
capítulo três da dissertação de Henrique Costa Projecto Original de Modelo Tri-

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dimensional para Anatomia Artística: Cosntituição Osteológica e Miológica do
Corpo Humano, de 2014, que nos permite perceber quais foram os autores e os
momentos capitais envolvidos na sua história.
As grandes obras de referência começam com a Commentaria super anatomi-
ca mundini de Jacopo Berengario da Carpi publicada em 1521 logo seguida pela De
Humani Corporis Fabrica Libri Septem de Andreas Vesalius, publicados em 1543
que se tornou a principal obra de referência para fins artísticos. A qualidade das
ilustrações aliada ao rigor científico sugere que Vesalius acompanhou de perto

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todo o trabalho de desenho o que garantiu a sua eficiência (Costa, 2014:20).
A gravura a cobre vai permitir que as ilustrações ganhem maior rigor e co-
meçem a aparecer publicações com ilustrações excecionais como é o caso a
Tabulae sceleti et musculorum corporis humani, de Bernard Siegfrried Weiss, co-
nhecido por Albinus de 1747 e que foi amplamente copiada e o Traité complet
de l’anatomie de l’homme de Jean Baptiste Marc Bourgery (1797-1849) e Nicolas
Henri Jacob (1782-1871), publicada em Paris, de 1831 a 1854. É uma obra monu-
mental composta por oito volumes com um recurso diferente ao desenho do
natural onde este não é totalmente servil ou directo (Costa, 2014:23).
Por outro lado, a literatura artística através da tratadística, reforça a impor-
tância do estudo anatómico como é exemplo o tratado de Juan de Arphe Y Vi-
llafañe De Varia Commensuracion editado no ano de 1585 em Sevilha e nos três
séculos seguintes (1675, 1763,1773, 1795 e 1806). Encontramos no Libro Segun-
do uma detalhada abordagem da proporção e da anatomia do corpo humano
acompanhada de referências a outros autores (Ramos, 2010:140). Neste tratado
como em muitos outros mantêm-se a lógica da abordagem em primeiro tratar-
-se da proporção e depois da anatomia. Os três séculos de publicação desta obra
demonstram a pertinência do assunto. Estas obras tentam dar uma alternativa
aos numerosos estudos anatómicos que segundo Roger de Piles apresentavam
uma vertente demasiado voltada para a medicina e cheia de coisas inúteis para
os artistas (Comar, 2008:20).
Um dos elementos mais importantes para o desenho de modelo vivo, para
além da consulta bibliográfica, é o uso do esfolado. Segundo Costa é um dos
melhores meios de aprendizagem da localização e volume dos músculos aplica-
dos ao desenho (Costa, 2014:25). O esfolado mais usado em escolas de arte será
provavelmente o de Jean-Antoine Houdon realizado em 1767. Mas o esfolado
de Houdon teve no entanto um precursor, com quem rivalizou, o esfolado de
Edmé Bouchardon realizado em 1741. De facto, os esfolados, transformaram-se
através de réplicas em gesso em modelos para estudo que poderiam ser com-
plementados com a análise de cadáveres. No entanto, no século XIX Paul Ri-
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cher afirma a propósito da dissecação que: «O espetáculo da morte é amorfo e


repugnante e não oferece nada àqueles que procuram comunicar a vida.» Para
Richer a anatomia deve ser estudada a partir do vivo e na presença do mode-
lo (Richer, 1902:84). Lembramos a coleção de membros de corpos que Girodet
guardava no seu atelier, até ao mau cheiro chegar aos limites do insuportável
(Kallmyer, 2010:145). Alternando o movimento e o repouso as formas exterio-
res acabam por revelar a estrutura óssea e miológica escondida debaixo da pele.
Paul Richer, médico e artista, escreve diversos livros sobre a representação do
Ramos, Jose Artur Vitoria De Sousa (2017) “O Desenho Anatómico e a Figura Humana”

corpo humano e faz mesmo um esfolado que tem a útil particularidade de apre-
sentar uma parte do corpo com pele e a outra esfolada.
Apesar de ainda ser possível, embora difícil, acompanhar as aulas de disse-
cação, a utilização de modelos de gessos ou de esfolados tornou-se quase im-
possível devido à inacessibilidade a este tipo de peça. Em alternativa existem
disponíveis modelos de plástico inteiros ou fragmentados da estrutura óssea ou
da musculatura, a consulta cada vez mais acessível de obras literárias e o recur-
so a programas informáticos como o Anatronica, o Zygote Body, o Biosphera 3D
Human Anatomy Software. Estes recursos tornaram-se hoje em dia o principal
material didático e de estudo das aulas de desenho que têm o corpo humano
como tema.

Um Exercício de Desenho Anatómico:


A presente proposta de exercício decorreu numa instituição de ensino superior.
Mas como poderemos mais à frente constatar ela pode ser facilmente seguida
noutros níveis de ensino como por exemplo no secundário, quer ao apoio do de-
senho de figura humana do 11º ano, como ao de retrato no 12º ano. O título pode
ser Desenho da figura humana com visualização da estrutura anatómica. Para além
do modelo vivo é necessário um modelo em plástico de um esqueleto humano.
O primeiro passo é decidir a pose ou o acto como explica Francisco de As-
sis Rodrigues no seu Diccionário Technico e Historico. Cabe ao professor, como
director do acto (Rodrigues, 1875:20) esta função e deve dedicar um cuidado
redobrado em relação ao desenho de modelo. Uma vez que, quer o modelo vivo
como o modelo de esqueleto têm que estar na mesma posição. Como o modelo
de esqueleto é de plástico, tem as articulações ligadas por parafusos que não
permitem certos movimentos. A coluna por seu lado está fixa o que constitui
também uma grande limitação em termos de flexibilidade. É impossível o con-
traposto ou qualquer inclinação ou rotação do tronco. Mas é importante nesta
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Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756 e-ISSN 2182-9829. Vol. 5 (2): 62-72.

Figura 2 ∙ Desenho, do aluno A, com dois pontos de vista do modelo. Estudo


dos ossos do braço, caixa toráxica e crânio. Na mesma página estudo do
ilíaco e dos ossos da perna direita. Grafite, 59,4x42cm. Fonte: própria.
Figura 3 ∙ Desenho, do aluno B, com visualização dos músculos do tronco. É
de notar o estudo do crâneo. Grafite, 59,4x42cm. Fonte: própria.
Figura 4 ∙ Desenho, do aluno A, com visualização da coluna vertebral (vista
lateral). Estudo dos músculos do tronco segundo a mesma vista e tendo o
mesmo modelo como ponto de partida. Grafite, 59,4x42cm. Fonte: própria.
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Ramos, Jose Artur Vitoria De Sousa (2017) “O Desenho Anatómico e a Figura Humana”

Figura 5 ∙ Desenho com duas vistas. Visualização dos


músculos do tronco e dos braços, assim como dos ossos da
cintura pélvica e dos membros inferiores. Grafite e lápis de
cor, 59,4x42cm. Fonte: própria.
Figura 6 ∙ Os modelos. Fonte: própria.
fase da escolha da pose quebrar, na medida do possível, uma certa estaticida-
de que pode gerar demasiada simetria. Assim, um braço levantado, uma perna

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avançada e a cabeça ligeiramente rodada pode ser o suficiente para a figura ga-
nhar algum dinamismo. O modelo vivo é preferível que seja masculino, magro
e eventualmente com alguma musculatura desenvolvida para o caso de se que-
rer trabalhar os músculos. A visualização da estrutura óssea pode ser facilitada
se o corpo for magro e com alguns movimentos incluindo os respiratórios. O
modelo pode ter as partes púbicas tapadas com uma peça de roupa interior efi-
ciente e adequada. O exercício pode incidir apenas sobre algum dos membros,
do tronco, da cabeça da mãos ou pés em alternativa à figura inteira.

Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756 e-ISSN 2182-9829. Vol. 5 (2): 62-72.


A duração do exercício deve ser prolongada e com diversas pausas para
descanso do modelo. No desenho de modelo vivo é normal, por razões de ca-
ráter prático ou teórico, condicionar o tempo do acto a poses curtas. Mas nem
sempre foi e é assim. Por exemplo, Francisco de Assis Rodrigues apontava para
seis sessões de duas horas (Rodrigues, 1875:21). Existem assim desenhos que se
podem prolongar por várias sessões de várias horas de acordo com os objetivos
propostos. No caso desta proposta de trabalho o modelo deve no início posar o
tempo necessário, com as devidas pausas de descanso, para a figura ficar cons-
truída com uma correção suficientemente aceitável que permita a inserção dos
aspetos anatómicos bem localizada. Depois independentemente do tempo da
pose existem sempre pausas onde o aluno pode trabalhar apenas as partes do
esqueleto que elegeu com as devidas precauções para não alterar nada no dese-
nho da figura.
Num primeiro momento o aluno começa por desenhar o corpo tendo em
conta a sua proporção. A escala usada deve ser considerável pois o esqueleto
possui em si muitos pormenores que se perdem se a figura for pequena, por
isso desenhar apenas uma parte do corpo pode ser justificável. Depois deve-se
aplicar uma metodologia de construção através da deteção de eixos principais,
recorrendo à stick figure e configurando através do recurso ao block in (Speed,
1972:89). Porém, não é necessário desenvolver muito o desenho pois é impor-
tante que possa incluir os elementos anatómicos ao nível do contorno e do din-
torno. O aluno deve reservar também dentro da figura espaços para inserir as
partes anatómicas.
Num segundo momento procura-se detetar as partes ósseas mais visíveis
à superfície e importantes para o desenho, uma vez que essas partes são o elo
de ligação com o modelo de esqueleto. Assim começa por um registo subtil e
esquematizado ou diagramático (Chapman, 1847:27) dos elementos visíveis
segundo o seu ponto de vista. Os principais elementos ósseos visíveis são as
clavículas, o acrómio, o esterno, as inserções costais, o apêndice xifóide, o arco
costal, as oitava, nona e décimas costelas, os epicôndilos lateral e medial do
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úmero, o olecrânio, as apófises estilóides do rádio e do cúbito, a espinha ântero-


-superior do ilíaco, a crista ilíaca, o ângulo inferior da omoplata, a espinha da
omoplata, o bordo vertebral da omoplata, a sétima cervical e a primeira toráci-
ca, as apófises espinhosas das vértebras torácicas, a rótula, os côndilos lateral e
medial do fémur, a tuberosidade da tíbia a tíbia a cabeça do perónio, os maléolo
interno da tíbia e o maléolo externo do perónio. Na cabeça, as bossas frontais,
as arcadas supraciliares, os ossos próprios do nariz, os malares ou zigomático, o
maxilar inferior, o gonion e o mento. Nas mãos as articulações dos ossos do me-
Ramos, Jose Artur Vitoria De Sousa (2017) “O Desenho Anatómico e a Figura Humana”

tacarpo com as falanges ou seja as metacarpo-falangianas. Nos pés o calcâneo,


os cuneiformes, a protuberância da apófise do quinto metatarso e as articula-
ções dos ossos do metatarso com as falanges quando visíveis.
Num terceiro momento, depois dos elementos ósseos estarem indicados
de acordo com o corpo do modelo, este pode descansar mais vezes pois o es-
queleto passa a ser o alvo da observação. Assim, o aluno desenvolve o desenho
representando os elementos ósseos com os pormenores que achar pertinentes,
ensaia novas técnicas, experimenta materiais e desenvolve a sua expressão grá-
fica. Neste momento entramos no segundo passo do exercício, onde o professor
orientará o trabalho de cada aluno redefinindo os limites do desenho de acordo
com o grau de correção atingido. Isto é, se deve parar ou continuar o desenho
e se existem zonas dúbias ou complicadas de resolver em termos anatómicos
que exijam outras soluções. E essas podem ser: a introdução de legendas com a
respetiva sinalização no desenho; a representação da superfície ou da pele com
a introdução da sua cor, tonalidade e textura; a representação de músculos e
tendões com o recurso eventual à cor. Situações de incerteza relacionadas com
a representação de alguns pormenores da figura podem ser ultrapassadas com
a integração da estrutura anatómica nesses sítios e vice versa.
Os elementos musculares que se poderão introduzir no desenho serão as
camadas mais superficiais ou visíveis à superfície. E entre estes não é necessá-
rio representar todos. Por exemplo no tronco os mais visíveis e integráveis são
o deltóide, o grande peitoral e o recto abdominal. Depois seguem-se o oblíquo
externo e o serratus anterior ou grande denteado. No pescoço é incontornável
o esternocleidomastóideo e o trapézio. Para completar a cintura escapular é
importante representar o deltóide que cobre completamente a articulação do
ombro. Os mamilos, a linha alba, o umbigo e os ligamentos inguinais que são
o bordo inferior livre da aponeurose do oblíquo externo são outros elementos
anatómicos importantes para a representação do tronco na sua vista anterior.
Todos estes elementos podem ser confrontados com a ajuda de modelos artifi-
ciais, de esfolados ou de simples livros de anatomia artística.

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Análise dos trabalhos
O desenho da Figura 1 divide-se em dois estudos distintos. Um torso com a sua
estrutura miológica e uma figura inteira com a visualização da coluna vertebral.
O mesmo modelo serviu para dois estudos embora em figuras separadas. É de
notar a secundarização da figura humana em todo o desenho. Por um lado a
esquematização de algumas partes e por outro a falta de acerto ao nível da pro-
porção. Enquanto a coluna foi desenhada sem grande orientação pelas partes

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visíveis à superfície já a musculatura se orientou a partir do corpo do modelo.
No Desenho da Figura 2 encontramos uma grande orientação anatómica a
partir da superfície do corpo. Repare-se na simplificação ao nível da figura que
está apenas sugerida pelo seu contorno. É de assinalar a conformação do rosto
do modelo e do seu perfil ao crâneo. As partes ósseas estão desenvolvidas re-
correndo a valores tonais e ao domínio textural. A introdução da legenda e a si-
nalização dos elementos no desenho aumenta a carga informativa do desenho.
O Desenho da Figura 3 revela um maior investimento no detalhe anatómico
quer dos músculos como dos ossos do crânio. Repare-se nos apontamentos que
rodeiam a figura.
No Desenho da Figura 4 há mais desenvolvimento ao nível da modelação
do corpo assim como na definição dos músculos, ossos e tendões. É de notar a
sobreposição de membros, a transparência usada e os pontos ósseos visíveis à
superfície como a espinha ântero-superior, a rótula, a cabeça da fíbula e o ma-
léolo externo da fíbula que serviram de ponto de partida para a inserção ana-
tómica. O desenho da Figura 5 é mais elaborado na definição do modelo, dos
músculos e dos ossos.
Este exercício apresenta diversas vantagens que podem ser capitalizadas
para o ensino do desenho logo a partir do secundário, ou seja, do 11º e 12º ano
tal como os programas atuais permitem. Mas podem ter aplicação em qualquer
nível de estudo consentânea com o grau de profundidade e rigor pretendido.
O modelo não precisa de estar completamente nu e pode, se existir, ser
substituído por uma estátua de gesso. O modelo anatómico do esqueleto é de
fácil aquisição devido ao seu preço acessível (Figura 6). Os elementos miológi-
cos podem ser consultados em livros ou programas informáticos pois um esfo-
lado é mais difícil adquirir.
As vantagens residem sobretudo nos ganhos ao nível da representação con-
comitante com a descoberta daquilo que sustenta a superfície do corpo. Existe
um contacto com a anatomia promovido por um pretexto prático que, de certo
modo, aligeira o seu estudo.
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Sendo o desenho construído pelo natural e pelo que se reinventa a partir de


fontes bidimensionais, a margem de erro fica limitada. Por um lado pela natureza
dos recursos e por outro lado pela flexibilidade que envolve a representação dos
elementos anatómicos, algo que não é permitido no modelo vivo. Assim o de-
senho é construído e o contacto com a anatomia irrevogavelmente conseguido.
Ramos, Jose Artur Vitoria De Sousa (2017) “O Desenho Anatómico e a Figura Humana”
Revista Matéria-Prima. ISSN 2182-9756 e-ISSN 2182-9829. Vol. 5 (2): 62-72.

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