As Naus de Verde Pinho
Viagem de Bartolomeu Dias contada à minha filha Joana
Manuel Alegre
De um lado o chão e a raiz
do outro o mar e seu cântico.
Era uma vez um país
entre a Espanha e o Atlântico.
Tinha por rei D. Dinis
que gostava de cantar.
Mas o reino era tão pouco
que se pôs a perguntar:
- E se o mar fosse um caminho
deste lado para o outro?
E da flor de verde pinho
das trovas do seu trovar
mandou plantar um pinhal.
Depois a flor foi navio.
E lá se foi Portugal
caravela a navegar.
Já não era o doce rio
com seu canto de encantar.
Era o mar desconhecido
com seus medos e gigantes
onde ninguém tinha ido
nunca dantes nunca dantes.
Era o longe e a aventura
Até onde o olhar se perde
era um país à procura
de caminhos por achar
era um barco verde
era um barco sobre o mar.
Entre a lua e as estrelas
entre a noite e o céu azul
caravelas caravelas
que partam para o sul.
Viu-se então um grande monte
que entrava pelo mar dentro.
Já não havia horizonte
nem céu nem terra nem nada.
Só se ouvia uivar o vento
que vinha com a sua espada
espadeirar as brancas velas.
Só o vento e o nevoeiro
e uma grande nuvem preta
sobre as naus e as caravelas.
[…]
E de repente um trovão.
Já não era o vento a uivar
era a voz do Capitão
que se pôs a comandar:
- Seja a bem ou seja a mal
eu juro que hei de passar
porque as naus de Portugal
não são naus de recuar.
Eu sou Bartolomeu Dias
nada me pode parar.
Calaram-se as ventanias
e até as fúrias do mar.
Só se ouvia resmungar
o velho Perna de Pau.
- Vais perder-te a naufragar
ninguém dobra o Cabo Mau
[…]
- Ouve lá Perna de Pau
(disse o grande Capitão)
já se foi o Cabo Mau
já se foi a nuvem preta
e não vi nenhum papão
nem me deitei a afogar.
A tua Nau Catrineta
é uma história de inventar.
[…]
Perna de Pau deu um salto
e transformou-se em gigante.
[…]
- Eu sou marinheiro e abro
caminhos de par em par.
Já dobrei o Cabo Mau
vou passar este papão.
Ouve lá Perna de Pau
eu trago no coração
um país a navegar
e não há nenhum gigante
que me faça recuar.
[…]
Então o monstro sumiu
inchou e fez PUM
como se fosse um balão.
E nunca mais ninguém viu
aquele Perna de Pau.
[…]
E as naus seguiram em frente
sempre sempre a navegar
para além da linha azul
que há no muito imaginar.
[…]
De ilha em ilha e onda em onda
viram que a terra é redonda
e que o mar não é medonho.
Caravelas caravelas
feitas de trova e de sonho
cascas de noz pequeninas
levavam nas brancas velas
o pendão das cinco quinas.
Umas foram para o Oriente
outras foram para o Sul
umas ao Brasil chegaram
outras à Índia e ao Japão.
Todas ao mundo mostraram
que o mar não é papão.
Mas o primeiro a passar
foi o grande capitão.
[…]
Para além do nunca dantes
onde nascem sol e vento
porque monstros e gigantes
só os há no pensamento.
Ó Cabo da Boa Esperança
entre o nunca visto e o v
de quem vê o que se alcança
depois do como e o porquê.
Sempre que em teu pensamento
o verde pinho florir
abre os teus sonhos ao vento
porque é tempo de partir.
E sempre que mais adiante
não houver porto de abrigo
tens o astrolábio e o quadrante
passarás além do Cabo.
Lá onde a noite apresenta
forma e corpo de diabo
vencerás mar e tormenta
passarás além do Cabo.
Verás então o caminho
do outro lado de aqui
e uma nau de verde pinho
que te leva além de ti.