USO DE PLANTAS ORNAMENTAIS NATIVAS DO RIO GRANDE DO
SUL NA COMPOSIÇÃO DE JARDINS
Rosângela Gonçalves Rolim1, Gerhard Ernst Overbeck2, Elaine Biondo3
1 Acadêmica do Mestrado Profissional em Ambiente e Sustentabilidade, Universidade Estadual do Rio Grande
do Sul, Unidade em São Francisco de Paula. Rua Assis Brasil, 842, Centro, CEP 95.440-000 – São Francisco de
Paula/RS – Brasil.
2 Co-orientador, Professor Adjunto no Departamento de Botânica da Universidade Federal do Rio Grande do
Sul. Av. Bento Gonçalves, 9500, Agronomia, 91501-970 - Porto Alegre, RS – Brasil.
3 Orientadora, Professora do Corpo Permanente do Mestrado em Ambiente e Sustentabilidade, Universidade
Estadual do Rio Grande do Sul, Unidade em Encantado. Rua Alegrete, 821, São José, 95960-000 - Encantado,
RS – Brasil.
E-mails: rosangelagrolim@[Link]; [Link]@[Link]; elaine-biondo@[Link]
ROLIM, R.; OVERBECK, G.; BIONDO, E.. É POSSÍVEL COMPOR UM JARDIM UTILIZANDO APENAS PLANTAS
ORNAMENTAIS NATIVAS DO RIO GRANDE DO SUL?. VII SIEPEX-Salão Integrado de Ensino, Pesquisa e Extensão da UERGS,
Brasil, set. 2017. Disponível em: <[Link] Data de acesso: 14 Set.
2017.
RESUMO
Apesar da existência de inúmeras espécies autóctones ornamentais no Rio Grande do Sul, é fato
o baixo uso destas no paisagismo urbano, com exceção de algumas arbóreas. Isso se deve,
sobretudo, a falta de conhecimento acerca da biodiversidade nativa que leva a ausência destas
plantas na base da cadeia produtiva. Este trabalho apresenta 30 espécies nativas ornamentais e
ampla distribuição no estado, suas principais características e possíveis formas de uso, com a
finalidade de divulgar as possibilidades de utilização das mesmas na decoração de espaços
urbanos.
INTRODUÇÃO
Embora nas últimas décadas o uso de espécies arbóreas nativas tenha se consolidado, quando
se trata de plantas ornamentais autóctones herbáceas a arbustivas, produtores e floriculturas
dispõem de inexpressivo número de espécies para comercialização. O Rio Grande do Sul (RS)
tem registros de pelo menos 527 espécies de árvores, arvoretas e palmeiras (Sobral et al., 2006;
Grings & Ribas, 2013; Soares et al., 2014; Grings, 2017), 2600 plantas campestres (Boldrini et
al., 2011), e um ignorado número de arbustos, pteridófitas, trepadeiras, dentre outras plantas
nativas, muitas das quais poderiam ser utilizadas no paisagismo. Outros países reconhecem o
potencial ornamental desta e de outras espécies da flora brasileira, e investem em estudos para
melhoramento e propagação, enquanto a carência de pesquisas no Brasil colabora na
subutilização do potencial que a flora nacional oferece (Fischer et al., 2007). Como resultado,
há a perpetuação do predomínio de exóticas (Stumpf et al., 2009), que não raras vezes tornam-
se invasoras (Portaria SEMA/RS no 79/2013), causando impactos ecológicos, econômicos e
sociais.
Heiden et al. (2006) mencionaram que há uma tendência no paisagismo atual de redução do uso
de espécies exóticas, mas a indisponibilidade de exemplares das espécies nativas não arbóreas
na base da cadeia produtiva é, provavelmente, o maior impedimento para alavancar a
participação destas no setor de plantas ornamentais (Fischer et al., 2007). Observa-se que o
Uruguai, país cuja vegetação predominante é característica do bioma Pampa (que abrange mais
de 60% do RS), já comercializa espécies que compõe a flora gaúcha. O RS é o terceiro estado
com maior consumo per capta, em reais, de flores e plantas ornamentais, mas cerca de 70% do
que consome tem como origem outros estados produtores (Neves et al. 2015). A ampla
utilização das espécies nativas auxiliaria na manutenção da biodiversidade regional, tanto da
flora como da fauna associada, além de apresentar inúmeras vantagens, como a baixa
necessidade de melhoramento do solo e irrigação, maior resistência a pragas e doenças, melhor
adaptação às variações climáticas locais, além do grande número de espécies perenes (Robredo,
2016). Quanto menor a manutenção de espaços urbanos, maior economia de recursos
financeiros e de tempo dispendido na conservação destes, o que deveria ser de especial interesse
dos órgãos públicos. O objetivo deste trabalho é, portanto, divulgar as possibilidades de uso de
plantas ornamentais não arbóreas nativas do RS, no paisagismo urbano.
MATERIAIS E MÉTODOS
A partir de bibliografia que aborda o tema das plantas ornamentais nativas no RS (Marchesi,
1969; Stumpf et al., 2009; Coradin et al. (Org.), 2011; Carrion & Brack, 2012; Prestes, 2015;
Marchi & Barbieri (Org.), 2015) foram selecionadas espécies de diferentes formas de vida
(arvoretas, arbustos, subarbustos, lianas/trepadeiras e ervas), com exceção das arbóreas, para
demonstrar a ampla possibilidade de composição de jardins e outros espaços.
Para a escolha das espécies foram observados os seguintes critérios: 1) espécies com algum
atributo ornamental; 2) perenes; 3) ampla distribuição da espécie, com ocorrência natural em
pelo menos 60% da área do RS; 4) distintas formas de vida. Os três primeiros critérios elencados
sugerem espécies já aptas para uso no paisagismo, uma vez que diversas outras demandariam
estudos para viabilizar a propagação em maior escala, como é o caso das ameaçadas de extinção
(além da maior restrição de uso que a legislação impõe a estas). Os critérios selecionados
facilitam o trabalho inicial de introdução de espécies nativas no paisagismo. Por exemplo, as
plantas perenes reduzem a necessidade de substituição de espécimes e/ou espécies dentro de
curtos períodos, como ocorreria com as anuais, cujo uso aumenta muito as ações de manejo. Já
a ampla ocorrência da espécie no RS, critério 3, a priori demonstra facilidade de propagação e
adaptação da mesma a diversos ambientes.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
É comum o uso de espécies com diferentes formas, tamanhos e cores para compor um jardim.
Para tanto, foram selecionadas 30 espécies nativas (Tabela 1) com base nos critérios
anteriormente informados. Destas, quatro são arvoretas, quatro arbustos, quatro subarbustos,
cinco são lianas ou trepadeiras, seis são herbáceas rasteiras e sete ervas eretas. Muitas são
utilizadas como ornamental fora do Brasil, onde é mais difundido, por exemplo, o uso de lianas
e trepadeiras no paisagismo.
Na maior parte, as arvoretas e os arbustos indicados podem ser utilizados como cercas vivas.
Espécies como Escallonia bifida, Senna corymbosa, Calliandra tweediei e Pyrostegia venusta
apresentam floradas chamativas nas cores branca, amarela, vermelha e laranja,
respectivamente. Outras plantas, como Clematicissus striata, Waltheria douradinha, Lucilia
acutifolia e Salvia procurrens tem a folhagem como característica mais marcante. A primeira,
por ser trepadeira, possui ramos pendentes que se apresentam delicados pelo formato digitado
das folhas. É utilizada no exterior inclusive em arranjos. A espécie W. douradinha é um
pequeno subarbusto cujas folhas verde-acinzentadas chamam a atenção em meio ao verde mais
escuro da vegetação campestre natural, assim como L. acutifolia. Heteropterys glabra é a única
dentre as espécies selecionadas que apresenta os frutos como parte mais chamativa, uma vez
que permanecem com a cor rosa até o amadurecimento.
Dentre as inúmeras gramíneas ornamentais, a Tabela 1 apresenta quatro espécies. Andropogon
bicornis proporciona um toque de “paisagem de campo” (Marchi et al., 2015) ao ambiente.
Aristida jubata e Cortaderia selloana apresentam touceiras em formato mais arredondado, mas
diferem bastante na altura, enquanto Bothriochloa laguroides é adequada para a formação de
gramados de onde surgem “plumas brancas” na época de floração. As ervas rasteiras Aspilia
montevidensis, Glandularia peruviana e Petunia integrifolia apresentam flores de colorido
intenso (respectivamente amarela, vermelha e rosa), florescendo principalmente durante os
meses com temperaturas mais elevadas.
Tabela 1 – Espécies vegetais nativas selecionadas para demonstração dos possíveis usos no paisagismo urbano.
Espécie Forma Atribu- Alt. Floresc./ Uso(s)
de vida to(s) máx. Frut. indica-
ornam (m) do(s)
ental(is
)
1 Calliandra tweediei Benth. Arb Infl/P 3,0 Ano todo I/EC
2 Chromolaena laevigata (Lam.) Arb Infl 2,0 Jan-Mai I/
[Link] & [Link]. EC/PS
3 Lantana fucata Lindl. ArbAp Infl - Primavera Ce/PS
o
4 Combretum fruticosum (Loefl.) ArbEsc Infl - Verão Ce/PS
Stuntz
5 Aloysia lycioides Cham. Arvt Infl/P 5 Ano todo I/EC/P
S
6 Escallonia bifida Link & Otto Arvt Infl/P 3,5 Dez- I/EC/
Jun/Ano
todo
7 Miconia hyemalis [Link].-Hil. & Arvt P/Fol 5 Mar-Abr + I/EC
Naudin ex Naudin Ago-Nov/
Jul-Dez
8 Senna corymbosa (Lam.) [Link] Arvt Flo/P 3 Mar-Abr I/EC
& Barneby
9 Acmella bellidioides (Smith in Rees) ErvE Infl 0,30 Set-Dez + C/PS
R.K. Jansen Mar-Jul
10 Andropogon bicornis L. ErvE Infl/Fru 0,80 e Ano todo C/PS
1,60
11 Aristida jubata (Arechav.) Herter ErvE P 0,40 a Nov-Jan B/C/PS
0,80
12 Bothriochloa laguroides (DC.) ErvE Infl/Fol 0,80 Out-Fev/ C/G/P
Herter (infl) Nov-Mar S
13 Cortaderia selloana (Schult. & ErvE Infl/P 3 Dez-Mar/ C/PS
Schult. F.) Asch. & Graebn.
14 Eryngium pristis Cham. & Schltdl. ErvE Fol/P 0,40 Verão B/V/P
S
15 Tibouchina gracilis (Bonpl.) Cogn. ErvE Flo 1 Set-Mar/ PS
16 Aspilia montevidensis (Spreng.) ErvR Infl 0,10 Ano todo C/V/P
Kuntze S
17 Glandularia peruviana (L.) Small ErvR Infl 0,10 Ano todo C/V/P
S
18 Lucilia acutifolia (Poir.) Cass. ErvR Fol 0,20 Verão C/V/P
S
19 Petunia integrifolia (Hook.) Schinz ErvR Infl 0,50 Ano todo/ C/V/P
& Thell. Ago-Jun S
20 Richardia grandiflora (Cham. & ErvR Infl 0,15 Out-Mai/ C/V/P
Schltdl.) Steud. S
21 Salvia procurrens Benth. ErvR Infl/Fol 0,10 Set-Nov/ C/V
22 Pyrostegia venusta (Ker Gawl.) Lia Infl - Jul-Set/ Ce/PS
Miers
23 Heteropterys glabra Hook. & Arn. Sub Fru/Flo - Ano todo Ce/C
24 Hypericum brasiliense Choisy Sub Flo/P 0,15 a Ano todo C/PS
1,2
25 Hypericum caprifoliatum Cham. & Sub Infl 0,20 a Ano todo C /V
Schltdl. 1,50
26 Waltheria douradinha A. St.-Hil. Sub Fol/Infl 0,40 Nov-Mar/ B/C/PS
27 Clematicissus striata (Ruiz & Pav.) Trep Fol - Ce
Lombardi
28 Dolichandra unguis-cati (L.) Trep Flo - Ce
[Link]
29 Ipomoea cairica (L.) Sweet Trep Flo - Ano todo Ce/PS
(+Out-
Abr)
30 Ipomoea indica (Burm. f.) Merr. Trep Flo - Ano todo Ce/PS
(+Nov-
Abr)
Legenda: Alt.= Altura; Máx.: Máxima; m= metros; Floresc.= Florescimento; Frut.= Frutificação; Arb= Arbusto;
ArbApo=Arbusto Apoiante; ArbEsc= Arbusto Escandente; Arvt= Arvoreta; ErvE= Erva ereta; ErvR= Erva
rasteira; Lia= Liana; Sub= Subarbusto; Trep= Trepadeira; Flo= Flores; Fol= Folhagem; Fru= Frutos; Infl=
Inflorescências; P= Porte;. B= Bordas de canteiros e caminhos; C= Canteiros; Ce= Cercas; G= Gramados; V=
Vasos; I= Isoladamente; EC= Em conjunto; PS= Pleno sol.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As espécies nativas ornamentais podem e devem ser utilizadas no paisagismo. Além do auxílio
na conservação da biodiversidade regional, evitando a expansão de espécies invasoras,
apresentam vantagens frente ao uso de espécies exóticas, que são na maioria anuais, exigindo
manutenção frequente. É urgente a necessidade de valorização da flora nativa frente às inúmeras
perdas que o ambiente natural vem sofrendo.
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