Matriz para História
1- A identidade civilizacional da Europa Ocidental
As invasões germânicas durante os A partir do século V, o processo
séculos IV e V precipitaram o processo germânico de migração atingiu um
de desagregação do Império Romano. caráter catastrófico e tomou proporções
maiores de violência.
-Povos Germânicos
Enfraquecido pela divisão e esgotado
Os povos germânicos eram chamados pela crise interna o Império Romano
pelos romanos de bárbaros por não torna-se presa fácil da cobiça dos povos
partilharem dos mesmos costumes e do germânicos que, pressionados pelos
mesmo idioma que os romanos. Hunos, acabam por invadi-lo no século
V, pondo fim ao império romano do
Desde o século II d.C., durante o Ocidente com a tomada de Roma pelos
reinado de Marco Aurélio, os romanos Hérulos em 476. Daí a necessidade de
constantemente lutavam contra os se manter a todo o custo o ideal de
germânicos nas fronteiras do Império. unidade do Império.
Com o processo de decadência do -Consequências das invasões
Império Romano, a contenção dos germânicas
povos germânicos tornou-se cada vez
mais difícil. O poder centralizado em Roma deixou
de existir, e as terras foram ocupadas
Assim, o Império passou a assimilar os pelos germânicos, que prevaleceram a
povos germânicos, admitindo-os dentro partir da força.
de suas terras.
Além disso, houve também a
Houve, com isso, a integração de ruralização da Europa, pois, com os
guerreiros germânicos aos exércitos centros de produção de alimentos
romanos e casos de germânicos que atacados e as rotas comerciais fechadas,
conseguiram ocupar cargos de o abastecimento das cidades foi
importância dentro do Senado romano.
interrompido, gerando fome nas (bárbara e latina) e dos povos (bárbaros
grandes cidades romanas. e romanizados). Tal acontece em
grande parte devido a um fenómeno
Houve também casos de: que permite ligar e fundir estes
– epidemia e doenças nas grandes elementos aparentemente dispares- a
cidades; difusão e aceitação do Cristianismo. A
– saques realizados pelos povos Igreja, instituição organizada e
germânicos;
organizadora, torna-se a entidade tutelar
da sociedade, visto que, no Ocidente, as
Isso gerou uma migração de população
para as zonas rurais com o objetivo de: instituições administrativas romanas
– fugir da violência; tinham desaparecido, ainda antes do
– estar próximo dos locais de produção último imperador deixar de reinar
de alimentos; Roma.
A Igreja Romano-Cristã assumindo o
Esse processo também resultou na
latim como língua oficial e adaptando-
diminuição populacional da Europa.
se ás antigas instituições imperiais,
-Invasões germânicas permanece como fator de unidade e de
preservação de parte importante do
A fusão da cultura latina e germânica legado da época clássica, numa época
deu origem à cultura da sociedade onde se vivem profundas mudanças
ocidental. culturais e linguísticas. Este mundo
doravante dividido, pode assim
Além disso, a estrutura dessas continuar a considerar-se Romano,
sociedades possibilitou o surgimento devido ao elemento unificador, a
das características que definiram a instituição designada de Igreja.
Europa durante o período feudal.
Num território politicamente
-Importância da Igreja na conversão fragmentado em novos reinos formados
dos reinos bárbaros em cristãos sobre as cinzas do império, vemos os
reis bárbaros, um a um, a converterem-
Os historiadores dividem a Idade Média se ao Cristianismo incorporando, em
em dois grandes períodos: Alta Idade larga medida, a matriz da civilização
Média (século V ao século XI) e Baixa que lhe está associada.
Idade Média (século XI ao século XV).
A primeira corresponde á desagregação Situar a Europa medieval no
do mundo antigo e das suas instituições, tempo e no espaço
à instalação dos reinos bárbaros e à
fusão das duas matrizes culturais
A Idade Média é um período da história instituições administrativas romanas
da Europa entre os séculos V e XV. tinham desaparecido, ainda antes do
último imperador deixar de reinar
Inicia-se com a queda do Império
Roma.
Romano do Ocidente (com a conquista
da cidade de Roma pelos Hérules em Apesar de se considerar herdeira do
476 d.C.). Império Romano, continuando a utilizar
o latim nos seus atos oficiais e solenes,
É frequentemente dividida em dois a Igreja de Roma deixa de ser aceite por
períodos: Alta Idade Média (século V Bizâncio, verificando-se uma cisão
ao século XI) e Baixa Idade Média entre as duas igrejas cristãs.
(século XI ao século XV).
O sistema tripartido da sociedade feudal
Espacialmente, o ocidente medieval (nobreza, clero e povo), forma-se nesta
encontrava-se limitado a sul pelo Islão, época de transição, sobre os escombros
a leste pela ortodoxia cristã, e a Norte da sociedade romanizada.
pelo paganismo, este último já
permeado pela evangelização cristã. É uma época de instabilidade,
caracterizada por uma pulverização
política, a recordar as raízes tribais dos
Alta Idade Média e Baixa Idade povos bárbaros. É uma época de
Média (resumo) constantes invasões e pilhagens. Como
consequência a sociedade ruraliza-se.
A Alta Idade Média, iniciada com o fim Onde antes existia um espaço uno,
do Império Romano, corresponde a um submetido a um poder feudal forte, uma
período de retração no desenvolvimento rede de estradas e de cidades coerente,
geral devido a diversos fatores, um comércio dinâmico, existe agora
nomeadamente à instabilidade política
uma miríade de entidades políticas que
então sentida (invasões e confrontos
se guerreiam entre si, demasiado fracas
constantes entre os senhores da guerra).
para se poderem designar como estados.
A instabilidade gera instabilidade social
e económica, sendo que, se quiséssemos As cidades tornam-se mal amadas e mal
fazer um retrato global da Europa compreendidas. Assistimos à sua
nestes quinhentos anos, diríamos que se diminuição em tamanho e número e à
verificou um retrocesso a todos os ocupação dos seus espaços rurais por
níveis, relativamente ao período camponeses, transformados na sua
imperial romano.
maioria em servos, a troco da proteção
A Igreja, instituição organizada e dos seus corpos e das suas terras, que
organizadora, torna-se a entidade tutelar entregam aos novos senhores.
da sociedade, visto que, no Ocidente, as
A Igreja fornece uma das únicas noções Poderes e crenças-
de ordem a este mundo repartido. O multiplicidade e unidade
mosteiro e a Igreja lembram aos
homens que existe um propósito -Sacramentos Católicos (da Igreja)
universal e que a ordem divina reina A Igreja Católica celebra os
sobre o caos aparente. A construção sete sacramentos, que são:
desses edifícios reflete a sociedade: o
batismo;
estilo românico, robusto, fechado,
fortificado, aparece nos campos como confirmação (ou crisma);
um marco que resume a vivência desta eucaristia;
época conturbada.
reconciliação (ou penitência);
Nada mais revelador do que aqui se unção dos enfermos;
afirma do que a constatação da
diminuição da população europeia e da ordem;
esperança média de vida. Esta é uma matrimônio;
Europa rural, de mosteiros e senhorios,
onde se impõem os ritmos naturais. - Impérios e reinos
Uma sociedade tão dependente da A Europa do século XIII herda dos
natureza com esta, é uma sociedade em séculos anteriores uma situação política
risco constante- sem risco de morte complexa. Existem dois impérios, o
devido a fomes, epidemias, guerras. Bizantino e o Sacro Império Romano
Uma sociedade onde os quatro Germânico, que se consideram os
cavaleiros do Apocalipse andam à solta. herdeiros do Império Romano e que,
apesar de serem ambos cristãos,
A partir do século XI uma nova raramente se entendem.
realidade geopolítica começa a moldar
o Ocidente europeu. É na Baixa Idade Existem também vários reinos e
Média que terminam as últimas vagas principados.
das grandes invasões (dos povos Todas estas entidades políticas têm em
magiares e normandos) e, na Península comum encontrarem-se subdivididas
Ibérica, se inicia o princípio do fim da em senhorios e comunas, com maior ou
ocupação islâmica. O território Europeu menor autonomia face aos respetivos
vive agora uma época menos poderes estatais.
conturbada. As realidades políticas
Os conflitos entre territórios são
estabilizam e surgem os embriões dos
frequentes, mas também se fazem
futuros Estados europeus.
alianças face a ameaças externas.
-Sociedade Medieval Império Bizantino quer para o Ocidente
Cristão. No século X, desenvolve-se um
A sociedade é hierarquizada em ordens:
estado islâmico poderoso e próspero na
Nobreza (guerra); Península Ibérica, cujo nível cultural e
Clero (reza); civilizacional iguala-se a outro grande
Povo (trabalha). centro da civilização islâmica. Devido à
Reconquista cristã vinda do Norte da
-A organização das crenças Península, no século XI inicia-se a
Da divisão política do império romano desagregação da Espanha muçulmana.
em ocidental e oriental decorre uma -O poder do Bispo de Roma na Igreja
bipolarização da cristandade, Ocidental: o reforço da coesão
bipolarização essa que corresponde, interna face a Bizâncio
também, a duas áreas geográficas e
culturais distintas (Império Bizantino e As igrejas de Roma e de Bizâncio
o Sacro Império Romano Germânico). contribuem para divulgar a palavra de
O processo, no seu limite, conduz a Cristo através de um esforço de
uma cisão religiosa, acabando por missionação no continente europeu.
surgir, no século XI, a Igreja Cristã Estas igrejas disputam entre si a
Ortodoxa. fidelidade na interpretação da
mensagem de Cristo, assim como o
O movimento evangelizador do poder sobre os homens e as terras, ou
Cristianismo colide, a partir do século seja, a supremacia sobre os novos
VII, com a expansão do Islão. Esta nova estados.
fé monoteísta, divulgada pelo profeta
Maomé, acentua a submissão No século VIII, o Papa da Igreja
incondicional do crente à vontade de ocidental tem de garantir a defesa de
Deus. Os muçulmanos têm um livro Roma e dos Estados da Igreja das
sagrado, o Alcorão. Contudo, o Alcorão invasões, o que é conseguido através de
não é só um livro sagrado também tem negociações com Carlos Magnos, rei
um conjunto de regras pela qual todos dos Francos. Este processo culmina
os que acreditavam em Alá se devem com a coroação de Carlos Magno como
reger. imperador, pelo Papa Leão III, no ano
de 800, criando assim o Sacro Império
A necessidade de divulgar a palavra de Romano Germânico.
Alá, após a morte do profeta, provoca
um movimento de conquista iniciado Esta aliança não é bem aceite por
em 632. Esta religião começa a Bizâncio, que não reconhece a
expandir-se chegando até à Península autoridade do Papa da Igreja Romana.
Ibérica. Esta expansão, decorrente do O Império Bizantino reclama-se como o
ideal de guerra santa (Jihad), constitui verdeiro herdeiro do Império Romano,
um perigo constante quer pata o com o argumento de que, a partir do
momento em que Constantino transferiu conhecida como Questão das
a capital de Roma para Constantinopla, Investiduras, separa definitivamente a
esta tornou-se a “nova Roma”, sendo, investidura temporal do imperador,
por isso, o imperador de Bizâncio o representada pelo cetro, da investidura
verdadeiro “Imperador dos Romanos”. espiritual do papa, cujos símbolos de
São inúmeras as querelas teológicas e poder são o báculo e o anel.
políticas que opõem as duas igrejas:
Bizâncio não aceita a autoridade do
Papa da Igreja Romana nem a coroação -O poder do Bispo de Roma na
de Carlos Magno como Imperador. O Igreja Ocidental: o reforço da coesão
Ocidente também não vê com bons interna face ao Islão
olhos Bizâncio, devido à falta de ajuda Respondendo ao apelo do Papa
no combate aos Muçulmano e às suas Inocêncio III para que o ocidente se
pretensões sobre o território italiano. organize para resistir à expansão
Em 1054, a rutura é definitiva, o Papa e muçulmana e para a libertação dos
o patriarca de Constantinopla lugares santos da Palestina sob domínio
excomungam-se mutuamente; A oriente muçulmano, organiza-se, em 1095, a 1.º
existe a igreja ortodoxa (proclama-se Cruzada. As Cruzadas- ao todo 8, entre
fiel aos antigos dogmas), apoiada por 1095 e 1272- revestem a forma de
Constantinopla. A ocidente existe a guerra santa para a remissão dos
igreja latina, sediada em Roma, apoiada pecados e salvação da alma. As
pelas monarquias ocidentais. As duas cruzadas têm como objetivo expandir a
cristandades passam a defrontar-se. fé cristã e combater os infiéis. A nível
militar o êxito das cruzadas foi
Numa Europa fragmentada e ameaçada
limitado, não conseguiram estabelecer
do exterior, a Igreja de Roma necessita
um domínio duradoiro na Palestina,
de coesão interna para se constituir
mas este movimento fortaleceu a ideia
como a entidade agregadora do mundo
de uma sociedade liderada por um ideal
ocidental. Posto isto, o Papa Gregório
religioso, a Cristandade unida contra os
VII (1075-1085) consolida o poder
inimigos da Fé. Este ímpeto guerreiro
papal (nega ao imperador do Sacro
vai levar à reconquista da Península
Império Romano Germânico o direito
Ibérica e à diminuição dos ataques de
de intervir na eleição pontifical),
piratas muçulmanos no Mediterrâneo.
através de um documento com as
Ordens do Papa. Com estas ordens, a No início do século XIII, o Papa
instituição papal ou dignidade Inocêncio III elabora a teoria do
pontifícia, denominada Papado poder universal do Papa (teocracia
(considerado santo vivo), alcança o pontifical), que contribui para o
poder absoluto sobre os assuntos da crescente reforço do poder da Igreja
Igreja e sobre os fiéis. A querela, no mundo ocidental e para a sua
coesão interna face ao Bizâncio e Adoção de novas formas de
Islão. Estabeleceu-se um domínio atrelagem;
equilibrado: O Cristianismo a ocidente
e a oriente, o islamismo. As inovações técnicas são elementos de
uma evolução que, embora lenta, foi
decisiva para o desenvolvimento do
Ocidente Europeu. Concluindo, a
O quadro económico e expansão agrária foi muito importante,
demográfico- expansão e limites pois fez renascer antigas povoações e
do crescimento criou novas. O aumento da produtividade
agrícola causada pelas inovações técnicas
-Expansão agrária faz aumentar a quantidade de alimentos
disponível.
Entre os séculos X e XIII a Europa é
marcada por um aumento demográfico -Dinamização das trocas comerciais
e por grandes progressos económicos.
Numa sociedade que vive Com o aumento demográfico e com os
essencialmente da terra, é na agricultura excedentes criados pela agricultura, as
que vamos encontrar os primeiros sinais cidades repovoam-se, constroem-se
de crescimento. A exigência dos novos burgos e surgem novos grupos
senhores para que as rendas lhes sejam sociais e, com eles, novas formas de
pagas em dinheiro leva a um aumento organização política, religiosa e
da produção por parte dos camponeses, socioprofissional. As cidades
que necessitam de criar excedentes para modificaram-se, até este momento eram
trocar por moeda. fundamentalmente centros políticos,
militares ou religiosos, ou seja, o local
A agricultura, favorecida por um onde habitava o bispo ou o nobre. A sua
período de paz pela estabilidade importância derivava do estatuto do
climática e pela abundância de mão de senhor, religioso ou laico, que nela
obra, beneficia de consideráveis habitava. A partir do século XII, as
inovações técnicas que permitem uma cidades, são centros de atividades
utilização do solo mais eficaz. económicas: artesanal, financeira ou
Inovações técnicas comercial. Nas cidades (burgos)
habitam os banqueiros, lojistas,
Arroteamentos; comerciantes e artesãos, ou seja, os
Afolhamentos trienais; burgueses. Nas cidades a dinamização
Rotação de culturas; das trocas comercias é feita através dos
Utilização da charrua; mercados locais e das feiras que tinham
Novas formas de irrigação; grande importância, pois eram lá que as
Melhor aproveitamento da força trocas comerciais eram realizadas.
motriz;
As feiras, centros distribuidores da · Às moedas árabes e bizantinas
maior importância, incluindo de colocadas em circulação pelos Italianos
produtos oriundos das terras com o oriente e norte de África.
longínquas, tinham prazos estipulados e
A revitalização da circulação monetária
determinadas regras (carta da feira),
instituídas sobretudo pelos monarcas. Tem como consequência, ao longo do
Realizavam-se quase sempre em dias de século XIII, a substituição da economia
festas religiosas, pelo que beneficiavam de subsistência pela economia monetária.
de uma paz especial, a paz de feira, que
proíbe todas as disputas e estabelece Economia de subsistência – predomina a
troca direta.
penas severas de transgressão. Os que
acorriam às feiras (nacionais ou Economia monetária – predomina a troca
estrangeiros) gozavam de imunidade por moeda.
contra qualquer responsabilidade, civil
ou criminal, que sobre eles pesasse. Economia monetária
Esta imunidade durava 16 dias (8 dias
Caraterísticas:
antes e 8 dias depois da feira). As feiras
francas isentavam os feirantes de Sistema económico baseado na
pagamento de direitos fiscais circulação da moeda;
(nomeadamente as portagens e as
costumagens). Resumindo, as feiras Aumento das transações;
foram muito importantes para a
Aumento de capitais – vai conduzir ao
dinamização das trocas comerciais, pois
aparecimento de instrumentos do grande
foi nelas que produtores, consumidores comércio;
e distribuidores se reuniam para
comprar e vender produtos, suprindo O mercador itinerante dá lugar ao grande
assim a falta de comunicações fáceis e mercador sedentário;
rápidas.
O mercador sedentário fixa-se na cidade;
-Afirmação das grandes rotas do
comércio externo Instrumentos do grande comércio
A revitalização da circulação monetária O mercador vai recorrer,
A que se deve? Ao crédito;
Ao empréstimo a juros;
· Às feiras e cidades Aos depósitos;
· Ao ouro pilhado (espojos de guerra) nas Aos cheques;
cruzadas À letra de câmbio (promessa de
pagamento de determinada
quantia/ soma em local e moeda Estas cidades ligam-se à Flandres,
diferentes dos da transação); no norte da Europa, por rotas
Aos seguros;
terrestres que atravessam a França;
Consequências da economia monetária Ao longo destas rotas surgem, na
Aparecimento de uma nova classe região de Champanhe, importantes
social – a burguesia financeira feiras;
Aparecimento dos banqueiros
No século XIII
Aparecimento dos cambistas
No Norte da Europa, nasce uma
Comércio externo grande associação de cerca de 90
Associado em companhias comerciais cidades alemãs: A Liga Hanseática
onde dividem lucros ou prejuízos, de ou Hansa
forma mais ou menos equitativa, os
homens de negócios dedicam-se ao
A Liga Hanseática ou Hansa
comércio à distância.
Passa a dominar e monopolizar o
Nesta época homens e mercadorias
comércio do mar Báltico e do mar do
circulam mais facilmente, porquê?
Norte, impedindo a entrada de
mercadores estrangeiros nas regiões que
Melhoria dos transportes
controla.
Abertura de novos caminhos
Alargamento do comércio regional A Hansa – cria uma via marítima direta,
– cada vez mais internacional passando por Lisboa, londres e Bruges,
Aparecimento de novas rotas que se substituiu às vias terrestres.
terrestres
Aparecimento de novas rotas Vias terrestres mais perigosas e mais
marítimas dispendiosas, que provoca a decadência
das feiras centro europeias.
Rotas do comércio internacionais
Conclusão
Até ao século XIII
É essencialmente por via marítima que,
As cidades italianas como Génova beneficiando de novas técnicas, se
e Veneza, detentoras do grande desenvolve um comércio mais seguro e
em maior escala que conduzirá à
comércio (europeu e expansão comercial da europa moderna.
extraeuropeu);
-A fragilidade do equilíbrio demográfico (pergunta de desenvolvimento)
A Europa nos finais do século XIII e inícios do século XIV assiste a uma inversão do
quadro demográfico. Esta inversão é devida à fome, peste e guerra. A crise começou a
sentir-se no mundo rural, onde as crises de subsistência se tornaram comuns. Tal facto
deveu-se a sucessivas alterações climáticas as quais diminuíram drasticamente a
produção de alimentos. Como não era possível recorrer a importações nem era grande
o número de excedentes, a fome foi uma consequência imediata, tendo sido
particularmente grave durante o período de 1315 a 1317. Neste período houve um
aumento significativo da mortalidade e uma profunda crise monetária. Além das
vítimas mortais, a fome trouxe também o enfraquecimento das defesas do organismo,
dificultando o combate do organismo às doenças e á epidemia designada de Peste
Negra. A Peste Negra que tempos antes atacava a Ásia chegava neste período á
Europa e atacava os comerciantes italianos. Em pouco tempo, devido às pulgas dos
ratos e à falta de higiene, a doença alastrou-se por toda a Europa. Esta doença,
diferentemente da fome atingiu todos sem qualquer distinção social. Em consequência
assistiu-se a uma desorganização das estruturas urbanas e à desorganização do poder
político e religioso. Paralelamente, a este período de fome e peste acrescentam-se
ainda as guerras, das quais podemos destacar a Guerra dos Cem Anos. Um dos
motivos de guerra era a posse dos grandes espaços políticos e económicos. Como
consequência desta trilogia (fome, peste e guerra) dão-se crises sociais, pois os
camponeses estavam famintos e descontentes. Em termos económicos, a crise
traduziu-se numa desertificação progressiva dos campos, pois a população saia dos
campos e ia para as cidades (êxodo rural) em busca de emprego e melhores condições
de vida. Os senhores, preocupados com a sangria de trabalhadores rurais, legislam
para impedirem que tal aconteça e aplicam castigos a quem é capturado. As comunas,
pelo contrário, recebem de braços abertos estes migrantes, já que representam aumento
de produção e riqueza. Os monarcas, apesar de não quererem hostilizar os senhores,
colocam-se, muitas vezes, do lado dos fugitivos e das comunas, pois veem neste
processo uma forma de controlar o poder senhorial e de reforçarem o poder da coroa e
do estado.
Podemos concluir que a morte é uma consequência da trilogia vivida na época.
Estima-se que, entre 1348 e 1352, tenham morrido 25 milhões de pessoas na Europa,
resultado da fome, peste e guerras. Porém, nem todas as consequências desta trilogia
foram negativas. Com a quebra da população, os preços baixam e os salários
aumentam, pelo que se pode concluir que a conjuntura depressiva contribuiu para uma
transformação da vida económica, pronunciando uma melhoria das condições sociais
no século XV.
2- O espaço português – a consolidação de um reino cristão ibérico
Situar a formação e a A falta de Cristãos em quantidade
consolidação de Portugal no suficiente para manutenção e defesa dos
territórios recém-conquistados aos
tempo
Mouros, bem como o revés sofrido por
Portugal possui as fronteiras mais Afonso VI com a contraofensiva
antigas da Europa. Independente desde almorávida, a partir de 1086,
1143/1179 (século XII), fixou o seu incentivam a emigração para a
território em 1297. Nasceu da guerra Península de gente de diversos estratos
contra Castelhanos e Muçulmanos. sociais, vinda nomeadamente do
Situar Portugal Medieval no território franco. Este movimento
populacional é, em grande parte,
espaço
promovido pela ordem de Cluny que,
temendo que a ameaça almorávida
possa pôr em causa a segurança dos 1179-ano em que o Papa Alexandre III
reinos cristãos para lá dos Pirenéus, reconhece a independência de Portugal,
confere à Reconquista um caráter de através da Bula Papal Manifestis
cruzada. Probatum;
Movidos por este espírito, mas também 1249-ano da Conquista do Algarve;
pela vontade de conquista de terras
1297-ano do Tratado de Alcanises;
onde se possam estabelecer, acorrem à
Península Ibérica jovens da nobreza A fixação do território- Do
franca, entre os quais o conde D. termo da Reconquista ao
Henrique, a quem é concedido, pelo rei estabelecimento das fronteiras
de Leão e Castela, em 1096, à maneira
A Reconquista cristã ibérica (designa as
feudal, o governo dos condados de
campanhas militares que os reinos
Portucale e de Coimbra, embriões do
cristãos da Península Ibérica dirigiram
futuro reino de Portugal. Será ao seu
contra os Muçulmanos que a tinham
filho D. Afonso Henriques, a partir de
invadido em 711 e conquistado na sua
1139 autoproclamado rei dos
quase totalidade) insere-se no contexto
portugueses (mas ainda não de
das cruzadas, mas, na Península, evita-
Portugal), a quem caberá negociar com
se matar o inimigo e/ou destruir as
a monarquia leonesa-castelhana a forma
estruturas de produção, seja nos assaltos
como se orientará a Reconquista
a aldeias e propriedades rurais seja na
portuguesa, estabelecendo-se assim os
conquista de castelos ou localidades
princípios que orientam um dos
fortificadas. Tal atitude justifica-se pela
elementos fundamentais da constituição
necessidade de garantir a viabilidade
da nacionalidade- o território.
económica das terras conquistadas,
-Datas importantes aproveitando-se a mão de obra, os
1128-ano da Batalha de São Mamede; sistemas de rega, os moinhos, os fornos.
Esta atitude é comum aos mouros,
quando ocupam terras anteriormente religiosas (Templários; Hospitalários)
cristãs. nas ações militares.
A Reconquista cristã foi um conjunto
de avanços e recuos, sendo que as
cidades e vilas conquistadas chegam a
ser perdidas para o inimigo duas e três -A afirmação de Portugal no
vezes. Não é raro ver, se tal servir os quadro político ibérico
seus interesses, reis cristãos aliarem-se
A campanha do Algarve de 1249,
a muçulmanos e vice-versa. Esta é uma
liderada por D. Afonso III, marca o
das razões pela qual o Papado só
termo da Reconquista definindo, a sul, a
reconhece a independência do reino de
nossa fronteira, isto apesar da posse do
Portugal em 1179, através da bula
Algarve pelo rei português ter sido
Manifestis probatum. O Papado temia
contestada por Afonso X de Leão e
que os mouros se aproveitassem das
Castela. Este justifica a sua contestação
dissensões entre reinos cristãos para
com uma suposta soberania sobre as
fortalecerem o seu domínio na
terras de Silves, que lhe teria sido
Península Ibérica.
concedida pelo rei mouro. A querela
D. Afonso Henriques prova, durante 40 será alvo de várias negociações
anos, que o facto de se ter separado do diplomáticas (uma delas envolvendo o
reino de Leão e Castela não enfraquece papa), ficando definitivamente
o domínio cristão, conseguindo estender resolvida em 1297, com a assinatura do
as fronteiras de Portugal até ao sul do tratado de Alcanises. Aí se procede ao
Alentejo, num processo que, apesar dos estabelecimento das fronteiras de
avanços e recuos, vai consolidando o Portugal, praticamente aos limites
território cristão cada vez mais para sul. atuais, o que torna o nosso país o
O papado, empenhado nesta guerra de Estado com as fronteiras mais antigas
reconquista, apoia a participação dos da Europa.
Cruzados e das ordens militares
A estabilidade das fronteiras e o O clero regular, que vive, segundo as
estabelecimento da paz com Castela regras das ordens religiosas, em
permitem, a nível interno, que os reis mosteiros e conventos, aufere, grosso
possam prosseguir o processo de modo, de vastos rendimentos. Muitos
centralização do poder régio e, a nível destes mosteiros e conventos
externo, a afirmação de Portugal no constituem verdadeiros centros culturais
quadro político ibérico. e económicos.
O país rural e senhorial O clero detém uma quase exclusividade
do domínio da escrita e do acesso à
Papel do Clero na sociedade medieval
cultura, o que lhe confere um particular
O Clero é uma ordem social poder sobre as mentes, sobretudo
privilegiada. através da pregação, e pelo exercício de
É regido por um corpo de leis próprias, atividades ligadas ao ensino.
o direito canónico, e possui um tribunal O domínio da escrita permite ainda ao
específico. clero registar todas as doações que
Para além deste privilégio de possuir recebe e os contratos que estabelece
um direito privado, pode ainda dar asilo com os camponeses que colonizam as
a foragidos e está isento do serviço suas terras. Por isso, os fundos
militar e do pagamento de impostos. documentais dos mosteiros e conventos
Coleta um imposto, a dízima, que constituem ótimas fontes para estudar o
equivale a 10% sobre todos os processo de senhorialização em
rendimentos, incluindo os régios. Tal Portugal, por serem registos de
como a nobreza, pode cobrar impostos intervenientes diretos ao povoamento e
nos seus senhorios. desenvolvimento agrícola do país.
O clero secular reside nas igrejas ou nas Tal como os senhores nobres, os
sés, junto da população das cidades ou senhores eclesiásticos mantêm o
dos campos, sendo tão rico ou tão pobre controlo sobre os meios de produção,
quanto as suas comunidades. cobrando banalidades e, tal como
aqueles, detêm o privilégio da existência de um grupo de homens que,
imunidade nos seus senhorios, os embora muito pequeno, nunca perde a
coutos, equivalentes às honras da liberdade e que mantém a propriedade
nobreza. A diferença reside apenas no herdada dos seus pais, o alódio,
facto de a imunidade provir da terra conseguindo transmiti-la às gerações
coutada, doada por carta régia, seguintes. Por essa circunstância, estes
enquanto a honra provém do cargo homens são chamados de herdadores e
desempenhado pelo nobre. Apesar de a não têm de pagar impostos sobre a
maior parte dos coutos pertencerem ao produção e a casa.
clero, é possível que alguns sejam
As leis de 1211, ao obrigarem “todo o
concedidos a nobres.
homem a ter senhor”, vão transformá-
Dada a ação das ordens religiosas- los em dependentes do rei, devendo-lhe
militares na Reconquista, extensos voz e coima, fossadeira, jantar, lutuosa,
territórios lhes foram doados pelos anúduva, entroviscada e ramada.
primeiros reis, sobretudo nas regiões
Começa-se a assistir a uma degradação
centro e sul do país.
do seu estatuto aparecendo estes, a
-O exercício do poder senhorial: a partir da segunda metade do século
situação social e económica das XIII, quase ao nível dos outros
comunidades rurais independentes dependentes rurais nas Inquirições. É a
partir desta altura que se generaliza a
A mais numerosa das ordens sociais, e
prática do amádigo, já referida
aquela que sustenta as outras duas, é o
anteriormente, e que tem como fim
povo. É na variedade dos grupos sociais
último a apropriação dos direitos reais
que a compõem que assenta a estrutura
sobre as terras dos herdadores por parte
produtiva do país.
dos senhores, lesando assim as finanças
Mão de obra rural
da Coroa.
Verifica-se, em Portugal, como nos
O outro grupo social de trabalhadores
outros reinos cristãos da Europa, a
rurais livres é o dos colonos ou foreiros.
Devido ao seu estatuto de homens controlo do poder de ban) e a cobrança
livres, podem estabelecer contratos com de serviços (jeiras). Estes contratos,
senhores, entre os quais se conta o rei quase sempre sobre terras a arrotear vão
(cujos senhorios são os reguengos). perder o seu caráter perpétuo e passam
Estes colonos exploram uma porção de a ser sujeitos a prazos: vitalícios, se
terra, o casal , e tentam regular o valor estabelecidos por “uma, duas ou três
das rendas a pagar: o foro, em géneros, vidas” (enfiteuse), ou temporários, se
pago sobre a produção agrícola (cereais, estabelecido por alguns anos.
vinho, linho, etc), que pode ser fixo ou
Há um grupo de dependentes rurais,
de parceria, oscilando neste último caso
livres, que não tem posses sequer para
entre metade e uma décima da produção
estabelecer este tipo de contratos, nem
total; as direituras, que pagam a
para ter casa própria. Habitam em
ocupação da casa ou do quintal com
cabanas, pelas quais pagam uma renda
géneros aí produzidos (linho
baixa e vivem das ofertas de trabalho
transformado em bragal, queijo,
rural, mais intenso no verão do que no
legumes, frutas, carne de porco e gado
inverno, da pastorícia, da recolha de
ovino ou caprino).
mel, da caça ou da pesca. São os
A partir do século XIII, coincidindo assalariados, que habitam sobretudo
com a desaceleração da Reconquista, há junto das vilas e cidades e cuja
uma maior tendência, por parte dos condição não difere muito da dos
senhores, para converter estas rendas servos.
em dinheiro, e para aumentar o número
Os servos, trabalhadores não livres, são
de contratos foreiros nos seus
um grupo social que tende a
senhorios. Agravam os impostos
desaparecer à medida que a
dominiais (os que recaem diretamente
Reconquista avança, pois muitos deles
sobre a exploração do domínio
abandonam o seu senhorio, com
senhorial, os foros e direituras), os
autorização ou sem ela, refugiando-se
impostos senhoriais (os que derivam do
nos concelhos, onde, o poder senhorial -Contexto socio- económico de
não os pode alcançar. Portugal durante o período da
Reconquista
Os que ficam são os que apresentam
uma maior dependência face à pequena A Reconquista Cristã foi uma
parcela de terra que trabalham, o casal. campanha sacro-militar com cristãos de
Têm obrigação de usar os meios de um lado e mouros (muçulmanos) do
produção do senhor-moinhos, fornos, outro em uma disputa pela Península
lagares- devendo pagar por cada Ibérica durante o período medieval. O
utilização feita. Prestam ainda vários controlo progressivo da península
serviços no domínio, as jeiras possibilitou a fundação de novos reinos
(semelhantes às corveias do resto da cristãos, como o Reino de Portugal e
Europa), que consistem em trabalhos de o Reino de Castela, precursores
pastorícia, corte de árvores, recolha de de Portugal e de Espanha.
lenha, pesca ou reparação de estruturas
O reino de Portugal nasceu do
defensivas, pontes e caminhos, sendo
Condado Portucalense, território doado
executadas uma, duas ou três vezes por
em 1096 ao Conde D. Henrique por
semana, consoante o costume e a
D. Afonso VI, rei de Leão e Castela.
exigência do senhor. As jeiras incluem,
Após a morte do seu pai em 1112,
ainda, o cultivo da parte de senhorio
D. Afonso Henriques tomou
reservado para exploração direta do
uma posição política oposta à de sua
senhor que, se pertencer a um nobre, se
mãe. Pretendendo assegurar o domínio
designa quintã, e se pertencer ao clero,
do condado armou-se em
granja.
cavaleiro e após vencer a mãe
Fazem ainda aparte do grupo de
na batalha de São Mamede, em 1128,
dependentes rurais não livres, os
assumiu o governo. A partir daí, D.
escravos, mouros na sua maioria,
Afonso Henriques focou-se em obter o
geralmente cativos de guerra.
reconhecimento de Portugal, alargar as
suas fronteiras e consolidar a afirmação
política do mesmo no contexto privilegiada que paga impostos). A
ibérico. A definição e alargamento das estrutura produtiva do país assenta na
fronteiras de Portugal passou pela variedade dos grupos sociais que
conquista de terras aos Mouros, através compõem o povo. Um grupo social de
do movimento designado de trabalhadores rurais livres é o dos
Reconquista. Durante este período de colonos ou foreiros. Devido ao seu
Reconquista que vai desde a formação estatuto de homens livres, podem
do Condado Portucalense até à estabelecer contratos com senhores,
conquista do Algarve, Portugal, vive entre os quais se conta o rei (cujos
uma fase de formação e povoamento do senhorios são os reguengos). Estes
reino em tempos de conflito e mudança, colonos exploram uma porção de terra,
fatores que afetam a organização social o casal, e tentam regular o valor das
e a economia do país, pois a rendas a pagar: o foro, em géneros,
Reconquista Cristã impõe aos nossos pago sobre a produção agrícola (cereais,
reis a necessidade de homens e armas vinho, linho, etc), que pode ser fixo ou
não só para alargar o território, como de parceria, oscilando neste último caso
também para o defender. Para tal, entre metade e uma décima da produção
contam com a ajuda das Ordens total; as direituras, que pagam a
Militares Religiosas e da Nobreza (uma ocupação da casa ou do quintal com
das três ordens que constituem a géneros aí produzidos (linho
sociedade Medieval). A recompensa transformado em bragal, queijo,
dada pelos monarcas pelo bom legumes, frutas, carne de porco e gado
desempenho no campo de batalha é a ovino ou caprino).
concessão de terras (senhorios) que
A partir do século XIII, coincidindo
deviam ser exploradas (pelos
com a desaceleração da Reconquista, há
camponeses) e defendidas. Outra ordem
uma maior tendência, por parte dos
social e a mais numerosa das ordens
senhores, para converter estas rendas
sociais, aquela que sustenta as outras
em dinheiro, e para aumentar o número
duas é o povo (ordem social não
de contratos foreiros nos seus Os servos, trabalhadores não livres, são
senhorios. Agravam os impostos um grupo social que tende a
dominiais (os que recaem diretamente desaparecer à medida que a
sobre a exploração do domínio Reconquista avança, pois muitos deles
senhorial, os foros e direituras), os abandonam o seu senhorio, com
impostos senhoriais (os que derivam do autorização ou sem ela, refugiando-se
controlo do poder de ban) e a cobrança nos concelhos, onde, o poder senhorial
de serviços (jeiras). Estes contratos, não os pode alcançar.
quase sempre sobre terras a arrotear vão
Os que ficam são os que apresentam
perder o seu caráter perpétuo e passam
uma maior dependência face à pequena
a ser sujeitos a prazos: vitalícios, se
parcela de terra que trabalham, o casal.
estabelecidos por “uma, duas ou três
Têm obrigação de usar os meios de
vidas” (enfiteuse), ou temporários, se
produção do senhor-moinhos, fornos,
estabelecido por alguns anos.
lagares- devendo pagar por cada
Há um grupo de dependentes rurais, utilização feita. Prestam ainda vários
livres, que não tem posses sequer para serviços no domínio, as jeiras
estabelecer este tipo de contratos, nem (semelhantes às corveias do resto da
para ter casa própria. Habitam em Europa), que consistem em trabalhos de
cabanas, pelas quais pagam uma renda pastorícia, corte de árvores, recolha de
baixa e vivem das ofertas de trabalho lenha, pesca ou reparação de estruturas
rural, mais intenso no verão do que no defensivas, pontes e caminhos, sendo
inverno, da pastorícia, da recolha de executadas uma, duas ou três vezes por
mel, da caça ou da pesca. São os semana, consoante o costume e a
assalariados, que habitam sobretudo exigência do senhor. As jeiras incluem,
junto das vilas e cidades e cuja ainda, o cultivo da parte de senhorio
condição não difere muito da dos reservado para exploração direta do
servos. senhor que, se pertencer a um nobre, se
designa quintã, e se pertencer ao clero, prática do amádigo, já referida
granja. anteriormente, e que tem como fim
último a apropriação dos direitos reais
Fazem ainda aparte do grupo de
sobre as terras dos herdadores por parte
dependentes rurais não livres, os
dos senhores, lesando assim as finanças
escravos, mouros na sua maioria,
da Coroa. Uma das ordens sociais
geralmente cativos de guerra. Verifica-
privilegiadas é o Clero. É regido por um
se, em Portugal, como nos outros reinos
corpo de leis próprias, o direito
cristãos da Europa, a existência de um
canónico, e possui um tribunal
grupo de homens que, embora muito
específico.
pequeno, nunca perde a liberdade e que
mantém a propriedade herdada dos seus Para além deste privilégio de possuir
pais, o alódio, conseguindo transmiti-la um direito privado, pode ainda dar asilo
às gerações seguintes. Por essa a foragidos e está isento do serviço
circunstância, estes homens são militar e do pagamento de impostos.
chamados de herdadores e não têm de Coleta um imposto, a dízima, que
pagar impostos sobre a produção e a equivale a 10% sobre todos os
casa. rendimentos, incluindo os régios. Tal
como a nobreza, pode cobrar impostos
As leis de 1211, ao obrigarem “todo o
nos seus senhorios.
homem a ter senhor”, vão transformá-
los em dependentes do rei, devendo-lhe O clero secular reside nas igrejas ou nas
voz e coima, fossadeira, jantar, lutuosa, sés, junto da população das cidades ou
anúduva, entroviscada e ramada. dos campos, sendo tão rico ou tão pobre
quanto as suas comunidades.
Começa-se a assistir a uma degradação
do seu estatuto aparecendo estes, a O clero regular, que vive, segundo as
partir da segunda metade do século regras das ordens religiosas, em
XIII, quase ao nível dos outros mosteiros e conventos, aufere, grosso
dependentes rurais nas Inquirições. É a modo, de vastos rendimentos. Muitos
partir desta altura que se generaliza a destes mosteiros e conventos
constituem verdadeiros centros culturais coutada, doada por carta régia,
e económicos. enquanto a honra provém do cargo
desempenhado pelo nobre. Apesar de a
O clero detém uma quase exclusividade
maior parte dos coutos pertencerem ao
do domínio da escrita e do acesso à
clero, é possível que alguns sejam
cultura, o que lhe confere um particular
concedidos a nobres.
poder sobre as mentes, sobretudo
através da pregação, e pelo exercício de Dada a ação das ordens religiosas-
atividades ligadas ao ensino. militares na Reconquista, extensos
territórios lhes foram doados pelos
O domínio da escrita permite ainda ao
primeiros reis, sobretudo nas regiões
clero registar todas as doações que
centro e sul do país.
recebe e os contratos que estabelece
com os camponeses que colonizam as -Importância do Papa Alexandre III
suas terras. Por isso, os fundos
Reconheceu a independência do reino
documentais dos mosteiros e conventos
de Portugal, em 1179, através da Bula
constituem ótimas fontes para estudar o
Papal Manifestis Probatum.
processo de senhorialização em
Portugal, por serem registos de
intervenientes diretos ao povoamento e
desenvolvimento agrícola do país.
Tal como os senhores nobres, os
senhores eclesiásticos mantêm o
controlo sobre os meios de produção,
cobrando banalidades e, tal como
aqueles, detêm o privilégio da
imunidade nos seus senhorios, os
coutos, equivalentes às honras da
nobreza. A diferença reside apenas no
facto de a imunidade provir da terra