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VERDADES PROFUNDAS
Robert Govett – A Parábola das Dez virgens
Autor do postPor escribadoreino
Data de publicaçãoabril 7, 2021
23 comentáriosem Robert Govett – A Parábola das Dez virgens
A PARÁBOLA
DAS DEZ VIRGENS
Considerações iniciais
Que a parábola das virgens prudentes e néscias tem sido mal entendida será
demonstrado nas páginas seguintes. E o entendimento errado pode ser
determinado por várias declarações feitas silenciosamente pelos comentaristas.
Essas suposições nós vamos examinar, antes de entrarmos na interpretação aqui
fornecida.
A principal suposição, quase universal entre os escritores sobre essa parábola, é
que “os cristãossinceros são as virgens prudentes, e os hipócritas as virgens
néscias”. As virgens prudentes são aqueles “que verdadeiramente desfrutam”, e
as néscias “aqueles que apenas professam a pureza e santidade da sua (de Cristo)
religião”.
1. Dessa suposição se segue imediatamente que os escritores buscam
fazer diferenças, onde Cristo fez concordância, a fim de distinguir
essencialmente as tolas das sábias. Agora, o Salvador afirmou que elas
eram semelhantes em oito pontos, e eram diferentes em apenas um ponto.
Elas se igualam nisso: (1) São virgens; (2) saindo; (3) para encontrar o
noivo; (4) Levam suas lâmpadas; (5) Adormeceram; (6) Dormiram até o
clamor; (7) Se levantaram com o grito; (8) Preparando suas lâmpadas. O
único ponto de desacordo é que algumas levaram óleo em outra vasilha
para um futuro suprimento, porque todas elas tinham óleo em suas
lâmpadas para o uso no momento.
Busca-se enfraquecer todos esses pontos de identidade, ou então contestá-los, a
fim de que possam usar favoravelmente para as virgens tolas. Mas recebidas de
forma simples, e como o Salvador anunciou a questão, o todo demonstra outra
aparência bem distinta. Tudo o que é alegado contra elas é apenas a tolice ou
falta de precaução do que era apropriado para garantir a entrada desejada na festa
das bodas. O Salvador deixou claro que todos os cuidados antecipados e os
passos tomados em direção à festa, tornaram-se vãos pela omissão de apenas um.
Porém, nenhuma indicação é sugerida sobre um procedimento ambíguo ou
impiedade nelas. Pelo contrário, elas são semelhantes no caráter interior, no
tocante à pessoa delas: nas características externas, quanto às suas obras e
no princípio de onde elas brotaram. Elas eram semelhantes quanto à posição
voluntária de separação; e o seu motivo era o mesmo em tudo.
Em segundo lugar, que elas não são hipócritas ou apenas professantes,
está claro pelo caráter dado a elas pelo Salvador. Elas são todas
“virgens”. Essa é uma característica apenas do cristão verdadeiro. “Eu vos
tenho desposado a um marido, para que possa vos apresentar como
uma virgem pura a Cristo”. Se elas são virgens, então elas não estão
“corrompidas da simplicidade que há em Cristo” (2Co 11:2-3). Elas são
puras, e pureza combina com as graças semelhantes de “longanimidade,
bondade, o Espírito Santo, amor não fingido, a palavra da verdade e a
armadura da justiça” (2Co 6:6-7). Está ligada com as coisas verdadeiras,
honestas, justas, amáveis e de boa fama (Fp 4:8). Está associada com a
esperança do aparecimento de Cristo, e “aquele que tem essa esperança
purifica-se a si mesmo assim como Cristo é puro” (1Jo 3:3).
Se elas fossem apenas professantes, ou hipócritas, elas seriam descritas
como adúlteras. “Vós adúlteros e adúlteras, não sabeis que a amizade do
mundo é inimizade com Deus?” (Tg 4:4). O caráter dado a elas, por
Aquele que não pode errar, teria sido então que elas eram aos seus olhos
virgens professas sim, mas, na verdade, prostitutas. Assim se dá com a
Igreja de Roma, que professa a si mesma como a casta esposa de Cristo,
mas é descrita por Aquele que verdadeiramente interpreta e testifica
acerca do caráter dela diante Dele como: “a Grande Meretriz”.
(a) Por último, você não pode forçar uma distinção onde Cristo não fez
nenhuma. Se a virgindade das néscias for apenas professado, assim
também o será a virgindade das prudentes. (b) Conclui-se da mesma
suposição que o caso das virgens tolas, ao despertar, seja desesperador. Se
elas careciam das verdadeiras graças na vida inteira delas, deve ser vão e
inútil toda a esperança de obtê-las. Mas isso não parece ser assim nem
para as virgens sábias, nem para as tolas. E as virgens sábias, não rejeitam
como algo absurdo e impossível o pedido delas por óleo.
(c) Mas há um ponto mais admitido que talvez poderíamos dizer que seja o erro
radical, do qual todos, ou quase todos os outros brotaram. É este: que
a rejeição do noivo é condenação, e que a separação das virgens prudentes das
néscias, é eterna. Por isso foi argumentado: visto que ninguém senão os falsos e
insinceros serão barrados da vida eterna, essas que são barradas devem ser
hipócritas. E então seguem as consequências mencionadas e outras a serem
observadas depois. Mas as provas de tal argumento não são dadas, embora tanto
dependa delas. Depois dessa suposição, os comentaristas complicam a si mesmos
para darem uma razão adequada para a condenação das néscias, e são assim
induzidos a exagerar as palavras do Senhor, e a fazer distinções onde Ele
fez concordâncias. Do mesmo engano se origina o erro deles
confundindo sabedoria e tolice com santidade e impiedade, e perda de
privilégio com uma confiança deliberadamente traída.
E também, se o despertar das virgens for a ressurreição, então a ressurreição dos
salvos e dos perdidos ocorre na mesma ocasião; mas isso contraria a declaração
expressa de Apocalipse 20:4-5. Ou então, o despertar deve significar morte, e as
virgens se levantando deve significar o pecador deitar para morrer!
(d) Mais ainda, a suposição de que as virgens tolas são hipócritas tem desviado
inteiramente a instrução da parábola daqueles que realmente estão interessados
nela. Porque, se as néscias forem hipócritas, então o não crente e o formalista são
os indivíduos aqui indicados; e aqueles que sabem que são sinceros ignoram essa
lição muito importante, por não ter ligação com eles.
Para mostrar, então, a falsidade dessa suposição, só é preciso observar que ela é
uma lição do Senhor Jesus apenas aos seus verdadeiros discípulos. Se as virgens
tolas forem não crentes, a lição é para aqueles que não são verdadeiros discípulos
de Cristo. Mas a profecia no Monte das Oliveiras foi dirigida aos discípulos
Pedro, Tiago, João e André (Mc 13:3). Assim eu concluo que essa parábola é
dirigida aos crentes, e, portanto, as virgens néscias são crentes, da mesma forma
que as prudentes.
1. Sobre a questão de elas “tomarem suas lâmpadas e saírem”, a falta de
entendimento dos comentaristas novamente fica evidente. “Elas fingem
estar preparadas”. “Toda a preocupação delas é serem bem-vistas pelos
vizinhos… e não serem aprovadas por Cristo. Fale com elas sobre as
coisas ainda não vistas, e você será como Ló aos olhos de seus genros,
como alguém que graceja!” Contra essa perversão grave nós só
precisamos fixar as palavras do Salvador, que descreve a saída das
prudentes e das néscias de modo semelhante e visando “encontrar o
noivo”.
1. A mesma corrente de distorção interpretativa, mostra-se de novo com
respeito à lâmpada (mais corretamente “tocha” segundo o texto literal). É
dito que: “A lâmpada é uma mera profissão de lábios da posse da luz
ardente e resplandecente do Evangelho de Cristo”. A fim de que a
lâmpada possa ser apenas a profissão, ela precisa ser uma lâmpada não
acesa. Mas essas são lâmpadas acesas. E elas não têm apenas lâmpadas;
elas saem com elas, e isso é a práticacorrespondendo com o professar dos
lábios. Apenas os cristãos “brilham como luzeiros no mundo”. “Porque
vós éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor” (Ef 5:8). E sustentar que as
néscias são deficientes na demonstração necessária de boas obras é tornar
a descrição do nosso Senhor ridícula, porque Ele especifica que a
característica marcante das néscias é o fato de elas não terem levado
a botija de óleo que ficava sem uso, sendo a lâmpada (se assim posso
chamá-la) o mecanismo de atividade, até o exato momento em que elas
acordam depois do sono. A questão é, que os comentaristas as culpam
como deficientes com respeito ao presente; Cristo, por outro lado, observa
a tolice delas apenas com relação ao futuro. O óleo não armazenado é a
diferença que as caracteriza.
1. Chegamos agora à questão decisiva: O que é o óleo?
1. É a graça? É a fé, ou o amor? Então ele é a graça interior exibida em seu
efeito legítimo, a luz dada. Por isso, as néscias não podem ser hipócritas
ou formalistas. E para todos os que creem na perseverança final dos
santos, a questão está resolvida, pois elas não poderão se apostatar de
modo a finalmente se perderem; e, portanto, a rejeição delas na conclusão
não é a condenação final.
Aqui, a inconsistência dos intérpretes aparece. Eles dizem: “A graça é o óleo”. O
óleo é “a graça e salvação de Deus, ou aquela fé que opera pelo amor” (Gl 5:6b).
Então é monstruoso afirmar que as virgens néscias não “têm nenhum princípio
interior”. Trata-se de um abandono de princípio teológico, um comentarista
Calvinista falar do caso delas como sendo apostasia. E, até mesmo para um
expositor Arminiano, é uma contradição afirmar que a lâmpada era apenas
uma profissão de fé, porque a lâmpada tem óleo, e o óleo é graça.
Mas alguns, vendo isso, adotaram uma evasiva que contradiz mais
diretamente o texto. Eles afirmam que as virgens tolas não tinham óleo
nenhum. Eis o que alguns dizem: “O pavio que queimou por um
momento, agora estava apagado. Que coisa sem utilidade é uma lâmpada
sem óleo”. “Todos os meramente professantes são semelhantes a essas
virgens néscias… esquecendo que a lâmpada sem óleo – a aparência
exterior, sem a graça interior, é inútil”. Contra esse desvio, basta a
afirmação de que as lâmpadas das virgens néscias estavam queimando
durante horas; sim, até a meia-noite, não somente enquanto elas estavam
acordadas, mas enquanto elas dormiam; e que as lâmpadas delas não
começaram a falhar antes das lâmpadas das prudentes. E se não houvesse
óleo nas lâmpadas das néscias, também não haveria nas lâmpadas das
prudentes. Pois tudo o que é declarado, com respeito a uma diferença entre
elas, é que as sábias tinham “óleo em suas vasilhas” e não apenas em
suas lâmpadas.
3. Por último, alguém ousaria afirmar que o óleo (embora sendo o princípio
interior que sustenta a luz)é algo “aquém da verdadeira graça”? Então não há
evidência de que as virgens prudentes eram discípulos verdadeiros. Porque elas
diferem das néscias apenas por terem mais óleo. A questão não é entre aquelas
que têm algum óleo e aquelas que não têm nenhum, mas entre aquelas que
têm pouco e as que têm mais. Se o óleo for então uma coisa formal,
uma quantidade bem maior dele não é melhor que apenas um pouco.
Mas se ele for a verdadeira graça interior, então mesmo que haja um
só pouco dele, já é uma grande garantia da vida eterna. Ou ele é graça verdadeira
em ambas, ou uma falsa demonstração nas duas. A parábola gira em torno não
da qualidade do óleo como bom ou ruim, e sim na quantidade como suficiente,
ou menos que suficiente. Tendo considerado esses pontos preliminares, passemos
agora à interpretação da parábola.
A Parábola em si
Então o reino dos céus será semelhante a dez virgens que, tomando as suas
lâmpadas, saíram ao encontro do noivo. (Mateus 25:1)
No tocante à questão de interpretação em todas as parábolas proféticas, este
princípio é aceito: que nenhuma parte delas é insignificante ou sem utilidade,
com a única finalidade de ornamentar. Afirmar o contrário disso me parece
[1]
incredulidade. É uma manifestação da incapacidade do expositor, ou da falácia
de sua exposição; nada além disso. É um erro do qual nem mesmo o criador de
enigmas entre os homens chega a ser culpado. Será que alguém ficaria satisfeito
com a explicação que respondesse de forma mais ou menos adaptada a algumas
questões de um enigma, mas deixasse outras sem explicação; e justificasse as
partes não explicadas como significando que estas, não eram nada além de
simples enfeites na história? Ela seria ainda considerada menos satisfatória se a
explicação contradissesse algumas das declarações. Mas nós não somos deixados
entregues, nem mesmo a uma analogia clara entre os enigmas de Deus e os dos
homens. A instrução do Salvador afirma diretamente que “a Escritura não pode
falhar” (Jo 10:35), e que “enquanto não passar o céu e a terra, de modo nenhum
passará da lei um só i ou um só til, sem que tudo se cumpra” (Mt 5:18). E se nem
um til da lei passará, quanto menos do Evangelho!? Mas ainda mais diretamente:
“Passará o céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras” (Mt 24:35) – uma
observação aplicada particularmente ao discurso de onde essa parábola é tirada.
É vão dizer, como alguns fazem, que devemos pegar o significado geral da
parábola somente, a fim de obtermos a lição dela. Porque o significado geral só
pode ser estimado quando obtemos o significado dos símbolos e ação da
parábola.
A primeira palavra dessa passagem é importante e exige observação. A palavra
“então” admite duas interpretações, as duas quase concordando uma com a outra.
(1) Podemos entendê-la de um modo geral como uma referência ao “tempo do
fim”, ou, conforme à pergunta dos discípulos, ao tempo da “presença de Cristo, e
o fim da era”, como o Salvador havia dito no capítulo anterior: “Então virá o
fim” (Mt 24:14). (2) Ou podemos entendê-la mais estritamente como paralela ao
tempo descrito anteriormente, a saber: Nos dias como os de Noé (Mt 24:37-51) –
na hora não imaginada pelo servo mau, no tempo quando os que vigiam e os que
não vigiam serão repentinamente separados – “então o reino dos céus será
semelhante a dez virgens”.
Uma parte da parábola é preparatória, ou se imagina que seja passada antes que a
cena ocorra, para a qual a nossa atenção é particularmente chamada. Os cinco
primeiros versículos são descritivos do estado de coisas em seus princípios, e
explicam os acontecimentos que se seguem. O momento do tempo ao qual a
palavra “então” se refere no início da parábola está, no meu entendimento,
conectado as palavras: “estavam dormindo”. Isso estabelece a condição na qual
elas foram encontradas, e que terá a sua cena correspondente na hora da vinda do
Salvador. Os resultados que seguem após o despertar são aqueles para os quais os
olhos do leitor são atraídos especialmente como característica daquele tempo.
Mas o que é indicado pela expressão “reino dos céus”? Eu considero que se
refere ao período por ele indicado nas parábolas de Mateus 13; o qual
corresponde em parte ao tempo do mistério, e a dispensação atual da Igreja. A
parábola inicia com o começo da expectativa da volta do noivo, e finda com a
presença do Senhor Jesus no céu, e as suas bodas no alto. Assim, o período
inteiro, do primeiro anúncio do retorno do Senhor Jesus como a esperança do
crente, à consumação dessa esperança em glória, é representado na parábola
como um todo. O mesmo período, eu suponho, é indicado nas parábolas do rei
ajustando contas com seus servos (Mt 18:23-35), e a parábola da veste nupcial
(Mt 22:1-14).
“Dez virgens”. O número dez é usado em continuação ao número “dois” do
capítulo anterior (Mt 24:40). “Dez” representa os mortos e “dois” os discípulos
vivos. Dez é o número de lâmpadas no templo de Salomão (2Cr 4:7). As
lâmpadas eram divididas, como as virgens da parábola, em dois grupos de cinco,
distinguidas pelo lugar de maior honra delas, ficando cinco à direita e cinco
à esquerda, assim como as virgens foram distinguidas em cinco sábias e cinco
tolas.
Perguntamos em seguida: Quem são as “virgens”? Muitos respondem: a igreja
em geral, o corpo visível de cristãos professos. Mas então a proporção das
prudentes é bem maior. A metade dos cristãos professos são prudentes? E mais,
todos esses serão encontrados acordados quando o Senhor vier. Mas não será
assim com a igreja em geral, pois: “Nem todos dormiremos” (1Co 15:51).
E isso vale, se o sono for considerado uma morte espiritual ou morte literal. Que
elas são crentes, o Salvador nos forneceu as provas mais evidentes:
1. Elas são “virgens”. Portanto, elas são castas e puras aos olhos do Senhor (2Co
11:2-3).
2. Elas “tomaram suas tochas”. E todas aquelas tochas estão acesas (v. 8). Então,
elas são parte daqueles de quem está escrito: “filhos de Deus inculpáveis no meio
de uma geração pervertida e corrupta, na qual resplandeceis como luzeiros no
mundo” (Fp 2:15 – ARA). E a luz delas, é a luz das boas obras. “Vós sois a luz
do mundo”. “De tal modo brilhe a vossa luz diante dos homens, que eles vejam
as vossas boas obras” (Mt 5:14-16). Os não crentes são trevas; apenas os crentes
são “luz no Senhor” (Ef 5:8).
3. Elas “saem”. Portanto, elas são filhas do fiel Abraão, deixando suas casas e
cidade por meio da esperança e da fé (Hb 11:8-10). Então elas são os filhos de
Deus, conforme está escrito: “Por isso, Saí do meio deles e separai-vos… E vós
ser-me-eis filhos e filhas, diz o Senhor Todo-poderoso” (2Co 6:17-18).
4. Elas saem “para encontrar o noivo”. Então elas creem e aguardam o
aparecimento dele (2Tm 4:8). E a elas pertence não apenas a salvação, mas
também a esperança da recompensa.
5. Nesses quatro pormenores nos foi dado o caráter pessoal interior, e a
manifestação exterior, o ato, a atitude mantida de forma constante e o motivo. E
todos eles são puros. Onde existe espaço para a hipocrisia ou o mero professar de
lábios?
Elas têm fé manifestada pela saída delas. Elas têm obras, comprovadas pelas suas
lâmpadas acesas. Elas creem com o coração, manifestado pela saída delas para
encontrar o noivo. Elas o confessam diante dos homens por meio de suas
lâmpadas. A salvação delas então é certa; porque a fé e a confissão tornam segura
a salvação (Rm 10:9-10). Esses pontos se aplicam a todas, prudentes e néscias
igualmente. Por isso, se as lâmpadas das virgens néscias não estivessem acesas,
as das prudentes também não estariam.
6. Se o “dormir” for a morte, então elas são crentes, porque de ninguém mais isso
é declarado no Novo Testamento. A prova de que o dormir é a morte será
verificada no seu devido tempo mais à frente.
7. Todas elas se levantam juntas, e a primeira ressurreição é só para os crentes
(Ap 20:5-6).
8. A parábola foi dirigida apenas aos crentes.
Elas representam, eu imagino, aqueles que de modo geral, dormiram em Cristo,
desde que a volta de Jesus como o Noivo começou a ser pregada, e os dons do
Espírito Santo foram dispensados. Por isso os santos do Antigo Testamento estão
excluídos do significado e da lição da parábola. Os motivos do título “virgens”
ser dado aos crentes na atual parábola, sugiro que sejam dois: (1) O nome do
discípulo é regido por aquilo que o mestre é. Visto que o próprio Salvador é
retratado como o Noivo, o discípulo assume o lugar da dama de honra, ou virgens
acompanhantes da noiva. (2) Porque a parábola tem como alvo representar para
nós a forma na qual um valioso privilégio foi perdido, por meio de uma falta de
prevenção; nenhuma relação era tão adequada para exibir essa perda como a
dama de honra voluntária. A posição de virgem acompanhante parecia assegurar
um lugar nas bodas, enquanto, não obstante, a honra e o prazer foram perdidos
pela imprudência.
Os sujeitos da parábola são virgens femininas, e como tais são indicadas
como companheiras da noiva, permanecendo com ela, assim como os 144 mil
virgens de Apocalipse 14 são os companheiros especiais do noivo, servindo-o em
sua viagem que se transcorre desde a Jerusalém celestial até a terrena.
Por último, elas se levantam na primeira aproximação do Salvador. Bem, esse é o
privilégio “daqueles que são de Cristo” (1Co 15:23).
Nos é dito que elas tomaram suas “tochas” (lit. grego). “Tochas” e não
“lâmpadas” é a tradução correta da palavra. É uma luz para uso externo da casa,
enquanto que a lâmpada é própria para serviço interno da casa (Lc
12.35). Tochas ou archotes são luzes maiores do que as usadas na casa, cujas
luzes estão mais sujeitas a serem apagadas por rajadas de vento e chuva. As
tochas eram e ainda são usadas no Oriente nas procissões nupciais. Elas eram
vasos de ferro ou de bronze, em forma de funil, com uma boca larga em cima na
extremidade; na parte afunilada, era inserido um cabo de madeira para que o óleo
não escorresse para a mão, ou para que o calor transmitido não fosse muito
intenso para o portador suportar, como certamente o haveria de ser, caso tudo
fosse apenas de metal. Nessa cavidade larga, em cima do funil, trapos eram
colocados como pavio e o óleo era derramado para manter a chama acesa. Nós
lemos de tais instrumentos como esses, sendo usados na batalha de Gideão contra
os Midianitas. Elas foram usadas também por aqueles que saíram para prender
Jesus no Getsêmani, e a tradução ali é a mesma dada acima: “Judas, tendo
recebido um grupo de homens e oficiais dos principais sacerdotes e fariseus que
vieram com tochas e armas” (Jo 18:3). A mesma palavra ocorre novamente no
registro do encontro dos discípulos em Trôade, no primeiro dia da semana. Visto
que eles saíram à noite, foram providenciados archotes para iluminar-lhes o
caminho na ida e na volta, os quais foram pendurados no cômodo para
fornecerem luz enquanto Paulo pregava, e os discípulos partiam o
pão no cenáculo (At 20:7-8). A forma como eles fizeram uso das tochas para a
viagem à noite, foi, eu creio, parecida com a da festa de casamento que estamos
aqui estudando.
Que as tochas foram acesas visando dar luz, não é preciso provar. É um fato
assumido totalmente, e é claramente afirmado isso acerca das néscias, que são as
únicas sobre as quais se costuma levantar dúvidas sobre as tochas estarem ou não
acesas (Mt 25:8). E a luz corresponde a qualquer das doutrinas de Cristo ou
prática mantidas pelo crente (Ef 5.13). Elas têm tanto o princípio interior quanto
a sua manifestação exterior de forma apropriada. A luz acesa e brilhante, por
fora, é a prova do óleo no lado de dentro da tocha. E assim, a fé é demonstrada
pelas obras (Tg 2:18).
“Saíram ao encontro do noivo”. Aqui não se trata de uma mera profissão cristã,
mas da prática cristã correspondente. Elas não apenas criam na vinda do noivo,
mas saíram ao encontro dele. Essa saída implica em deixar as suas próprias casas
e sua cidade. Desse modo, elas assumem a posição requerida dos membros de
Cristo: “Saiamos, portanto, a ele fora do acampamento, levando o seu
opróbrio; pois não temos aqui uma cidade que permanece, mas buscamos a que
há de vir” (Hb 13:13-14). As tochas e a saída delas as distinguiu do resto dos
cidadãos; elas são um corpo à parte, antes de dormirem e depois de haverem
acordado. E a tocha e o ato de sair eram um testemunho para os outros e para elas
próprias de que elas aguardavam o aparecimento do noivo e buscavam um lugar
na procissão e na festa.
Elas seguem na direção em que o noivo é esperado, e aguardam o aparecimento
dele; somente o verdadeiro crente em Jesus, demonstra tal atitude. Ninguém além
dele espera, deseja e “ama o Seu aparecimento” (2Tm 4:8).
“O Noivo”. Este é, com certeza, o Senhor Jesus. “Aquele que tem a noiva é o
noivo” (Jo 3:29), como João Batista testemunha, sendo ele mesmo apenas o
amigo do noivo, regozijando-se em ouvir a voz do noivo. “Mostrar-te-ei a
noiva, a esposa do Cordeiro” (Ap 21:9 – veja também Mt 9:15; Mc 2:19; Lc
5:34).
A saída das virgens para encontrar o Noivo é um sinal de respeito, amor e prazer.
Dessa mesma forma, os servos do centurião saíram para encontrá-lo e para dar as
boas-vindas ao senhor deles com as jubilosas notícias da cura de seu filho (Jo
4:51). Assim também os irmãos em Roma saíram para encontrar Paulo “até a
Praça de Ápio e às Três Vendas” (At 28:15). É digno de nota que esse sinal de
respeito e amor deve ser prestado ao Noivo, e somente a ele. A noiva não é
mencionada nem uma única vez, apesar das virgens serem suas companheiras
femininas, como poderíamos esperar. E, portanto, alguns manuscritos
acrescentam palavras à declaração do Salvador, como se ele houvesse dito:
“Tomando as suas lâmpadas, saíram ao encontro do noivo e da noiva”. Mas isso
traz sinais de ser acréscimos humanos desautorizados, tentando suprir um
suposto defeito da palavra de Deus.
Porém, é-nos permitido conhecer o que deve ser entendido acerca da noiva. A
noiva não representa a igreja em seu aspecto universal, porque o Salvador não
admite que ela já esteja toda reunida nessa ocasião; e o capítulo atual descreve a
maneira de reuni-la da terra e das “portas do Hades”, quando estas, não mais
“prevalecerão contra ela” (Mt 16:18). A noiva é a Nova Jerusalém, a cidade de
Deus, conforme ela foi mostrada a João: “Vem cá, e mostrar-te-ei a noiva, a
esposa do Cordeiro. Levou-me pelo Espírito a um grande e alto monte, e
mostrou-me a santa cidade de Jerusalém, descendo do céu da parte de Deus” (Ap
21:9-10). E assim como é testificado acerca do Senhor Jesus quando ele vier para
despertar os seus santos mortos: “O Senhor mesmo descerá do céu com grande
brado”; assim está escrito da noiva que João viu “descendo do céu da parte de
Deus” (Ap 21.10); “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, descendo do
céu da parte de Deus, preparada como uma noiva adornada para seu noivo” (Ap
21:2).
Isso, porque a parábola descreve a procissão do noivo e da noiva em comitiva,
quando o noivo traz a noiva da casa do pai dela. A interpretação popular concebe
o contrário disso, a saber, que as damas de honra saíram para encontrar o noivo,
quando ele está indo apanhá-la. Mas, primeiro, essa vinda das virgens para
encontrar o noivo sozinho não tem base no costume oriental; e segundo, não seria
considerado consistente com suas ou nossas noções de delicadeza e
propriedade. A procissão era para a casa do marido, como Jarchi,[2] o grande
comentarista judeu, testifica que era o costume. Eis as suas palavras:
“É o costume na terra de Ismael, trazer a noiva da casa do seu pai para a casa do
seu marido nas horas da noite, e havia umas dez varas; no topo de cada uma
havia um prato de bronze, contendo trapos, óleo e piche, que sendo acesos
formavam tochas inflamadas, que eram levadas diante da noiva”.
Essa é também a exposição bíblica da questão. “Salomão aparentou-se com
Faraó, rei do Egito, pois tomou por mulher a filha de Faraó, e a levou para a
cidade de Davi” (1Rs 3:1). Nessas ocasiões, a comitiva do noivo geralmente
precede a da noiva.
Por último, a estrutura da parábola mostra que a procissão é a do noivo e da
noiva para a casa ou salão do noivo. Porque a imagem que nos é dada pelo texto,
é a de que a sua vinda é uma passagem rápida e momentânea, não permitindo
demora, nem oferecendo qualquer oportunidade de recuperar a perda, uma vez
que o curto tempo houvesse passado. Mas, se a procissão fosse do noivo indo
buscar a noiva na casa do pai dela, então devemos supor que as virgens o
encontrariam e o acompanhariam de volta à casa do pai da noiva, dariam
assistência a ele durante as cerimônias de recebimento dela, e que elas então
entrariam no cortejo dele quando ele se retirasse com a noiva da casa do pai
desta, para a sua própria casa. Tudo isso, produziria uma demora considerável –
uma condição de coisas totalmente opostas à rapidez e objetividade dos
movimentos indicados na parábola.
Cinco dentre elas eram néscias, e cinco, prudentes. As néscias, tomando as suas
lâmpadas, não levaram azeite consigo; mas as prudentes levaram azeite em suas
vasilhas, juntamente com as lâmpadas. (Mateus 25:2-4)
Na percepção correta ou não do significado desses versículos, jaz a compreensão
ou entendimento errado do todo da parábola. Os comentaristas, quase sem
exceção, confundem tolice com impiedade, e falam da responsabilidade das
virgens. Isso conduz a uma linha de pensamento inteiramente extraviada do
escopo da parábola. As virgens não são descritas como sendo responsabilizadas
por qualquer coisa em favor de outrem, motivo pelo qual elas foram chamadas
para prestar contas. Se assim o fosse, elas estariam sob responsabilidade, sendo
fiéis ou infiéis, e desse modo, consequentemente, sendo boas ou más. Porém, elas
são descritas como sendo ou prudentes ou néscias. Ora, isso mostra que elas são
consideradas pelo Salvador numa luz bem diferente da parábola anterior.
A prudência consiste no cuidado dos nossos próprios interesses, assim como
a fidelidade consiste em cuidar dos interesses de outro. A sabedoria (ou melhor,
prudência – veja o grego) se preocupa com a provisão do nosso proveito no
futuro; enquanto que a tolice é manifestada em um contentamento com o
presente e a negligência para com os meios necessários para garantir o bem-estar
do homem no futuro.
Consequentemente a prudência e a nescidade são manifestadas por diferentes
condutas das pessoas sob as mesmas circunstâncias, na proporção em que elas
agem de uma forma adaptada para melhorar os seus próprios interesses. Isso,
portanto, é claramente diferente do caso do servo, que não é deixado à sua
própria vontade, mas está sob ordens, e agindo não para si mesmo, mas para o
proveito do seu senhor, sob um sentimento de conta a ser prestada. Assim, na
parábola dos talentos, o servo aprovado é tratado como “bom e fiel”; o rejeitado
como “mau e negligente”. Porém, na parábola do administrador infiel, este
mesmo, ao ser considerado como alguém que está visando atingir os seus
próprios interesses é louvado por sua prudência; porque ele cuidadosamente
considerou as calamidades que cairiam sobre ele no futuro, e programou-se para
repeli-las. Esse exemplo nos mostra que prudência não é de forma alguma
equivalente à santidade. Mais ainda, o Salvador prossegue dizendo que os filhos
da luz são mais deficientes em prudência para a glória eterna, do que os filhos
deste mundo pelo cenário atual. E os crentes às vezes são tachados de serem
néscios; ou são advertidos quanto a isso: “Portanto, não sejais néscios” (Ef 5:17);
“E tu, néscio! O que semeias não nasce se primeiro não morrer” (1Co 15:36).
“Ó Gálatas insensatos! Quem vos fascinou? Sois assim tão insensatos?” (Gl
3:1,3).
O mesmo então se dá com as virgens diante de nós. Elas são todas filhas da luz,
mas algumas são deficientes na questão da prevenção e da segurança previdente
do seu próprio ganho. E o ganho a ser garantido no exemplo da parábola, é a
posse de um lugar na festa de casamento do Senhor Jesus. Agora, na proporção
do valor do privilégio, deveria ser o zelo preventivo delas, para garantir-lhes um
lugar e protegê-las de qualquer possibilidade que pudesse lhes tirar a posse do
objetivo desejado. Porém, essa prudência só a metade delas possuía: cinco eram
prudentes e cinco néscias. Essas cinco eram néscias, porque muito esforço foi
gasto para alcançar o fim, porém, em vão, por falta de se prevenirem para o
futuro. Vã foi a saída, o preparo da tocha, o seu primeiro suprimento de óleo, e o
vigiar pelo noivo. Todos os outros passos foram inúteis, por faltar o segundo
suprimento de óleo.
Elas são prudentes ou néscias aos olhos do Salvador desde o princípio, e Ele sela
o caráter delas antes de começar a expô-lo. O não levar a vasilha de óleo é o
único ato de tolice que atrai o resultado desastroso; e este, Jesus declara ser o
único ponto que as caracteriza como prudentes ou néscias aos seus olhos. Mas as
tolas não enxergam o seu erro antes do fim da história. Nem as suas
consequências são manifestadas até que chegue essa hora; embora todas as partes
seguintes da parábola têm como alvo manifestar os resultados do erro. Todavia,
durante o tempo da demora, a imprudência não aparece, porque a demora do
noivo é o tempo do mistério no qual nós hoje vivemos. Porém, na vinda do
noivo, um novo estado de coisas se segue, e a sabedoria das prudentes é
manifesta e a prevenção delas, é coroada. Mas o noivo rejeita as néscias, para que
a tolice delas possa ser manifestada. Um pouco de prudência teria sido bastante
para alcançar o fim desejado. Elas poderiam ter se preparado contra todos os
infortúnios, com a simples provisão de um pouco de óleo extra. As virgens
néscias estariam preparadas, se o noivo viesse no tempo normal; mas somente as
prudentes estavam preparadas, caso sua vinda fosse mais cedo ou mais tarde. Sob
nenhuma circunstância de demora o prêmio poderia escapar da posse delas. As
suas tochas poderiam queimar até o amanhecer. Mas as virgens néscias deixaram
uma fenda, por onde a perda poderia entrar; e naquela entrada negligenciada e
desprotegida ela entrou. A falta de vigilância delas nisso foi ou ignorância, não
discernindo a necessidade e não se dando conta dela; ou então raciocínio tolo,
não recebendo a advertência quando esta foi dada.
Se nos perguntássemos pelo pensamento e pelo apelo delas – “por que elas não
providenciaram uma vasilha de óleo para o caso de haver necessidade?” A
resposta teria sido, sem dúvida, que tal vasilha não
era essencial, nem absolutamente necessária. Elas tinham o bastante para o
presente; por que elas imaginariam que algo mais seria requerido? O noivo
poderia vir bem cedo pelo que elas poderiam dizer; e então, onde estaria a
prudência de se preocuparem com um incômodo adicional?
Visto que toda a força da lição da parábola depende do significado que nós
atribuímos ao segundo suprimento de óleo, vou considerar a questão mais
longamente.
Primeiro, eu imagino que será admitido que o óleo significa a graça do Espírito
Santo. E essa [graça no Novo Testamento] é dupla; sendo: ou santificadora ou
miraculosa.
1. Se então eu mostrar que o segundo suprimento não é a graça santificadora,
se seguirá que é dom miraculoso ou “o dom pela graça”.
(A) Que não há nenhuma diferença no grau de santificação em questão, está claro
pelo seguinte: porque se fosse assim, a parábola não nos forneceria nenhuma
forma por meio da qual discernir entre prudentes e néscias. Porque se você me
disser que a diferença jaz no grau de santificação, se você não indicar qual é o
grau, eu posso ficar aterrorizado ou seguro. Aterrorizado, se eu pensar que não
tenho o grau exigido, embora ninguém possa me apontar qual é o grau exigido;
ou então posso me considerar seguro, visto que certamente eu tenho alguma
medida de graça, e por que isso já não seria suficiente para me colocar entre as
prudentes?
(B) Não pode ser qualquer nível de santificação, porque [o óleo da graça
santificadora] não é retratado como algo que ilumina o mundo. Ele não é usado
para significar boas obras; pois essas, são ilustradas pela luz da tocha.
(C) Sendo um suprimento distinto, conclui-se que o óleo da tocha poderia existir
sem aquele da vasilha, ou vice-versa. Mas não é verdadeiro que qualquer grau da
graça santificadora possa ser distinta de sua demonstração em boas obras. Não
pode haver dois suprimentos dele, um independente do outro. Mas os dons
miraculosos são diferentes e podem ser independentes da graça (Mt 7:21-23).
Três outras provas ainda são dadas: (1) No pedido das tolas; (2) Na resposta
das sábias; e (3) Nos meios para reparar o erro (os quais serão considerados em
uma outra parte).
As relações adicionais dos dois suprimentos provam isso. O óleo na tocha
é essencial agora; o óleo na vasilha agora não é essencial. Tal é também a
diferença relativa entre a necessidade atual da graça santificadora e do
dom miraculoso.
O segundo suprimento é adicional, algo fora daquele da tocha; e tal é o
lugar que os dons do Espírito Santo assumem, quando comparado com a
sua graça.
O segundo suprimento condiz com o dom miraculoso no momento de
ordem. Ele vem em seguida, depois daquele outro. Primeiro a tocha,
depois a vasilha de azeite. Da mesma forma está escrito sobre o dom: “No
Qual, depois que crestes, fostes selados com o Espírito Santo da
promessa” (Ef 1.13).
Se todas elas são crentes, a diferença deve consistir em algo que não seja
essencial para a salvação. E entre as coisas não essenciais para a salvação,
o que é tão grande como a diferença entre a posse ou a falta dos dons do
Espírito Santo?
Tal verdade é sustentada e comprovada pelo fato. Entre os crentes dos
tempos modernos e a igreja primitiva, existe, nessa questão particular,
apenas esta diferença pressuposta: os cristãos primitivos são vistos
possuindo os dons, e os cristãos modernos são vistos tendo carência dos
dons do Espírito Santo.
Uma verificação da ordem em que as prudentes e as néscias aparecem,
confirma isso de forma graciosa. Nós temos as
“prudentes” primeiro; depois as “néscias” (Mt 25:2). Depois temos as
“néscias”, e por último, as “prudentes” (Mt 25:3). Desse modo, as
prudentes aparecem em primeiro lugar e em último; as néscias ocupam o
espaço intermediário.
E não tem sido exatamente assim com os dons do Espírito? Eles foram possuídos
no início, e depois cessaram; e o intervalo longo e sombrio de 1600 anos foi
retomado pelos crentes deles destituídos. Nós poderíamos, então, concluir que
assim como os crentes com dons iniciaram a sucessão, e os sem os dons vieram
em seguida, assim nos últimos dias, os crentes com dons surgirão novamente e
concluirão a sucessão. Mas independentemente de qualquer inferência, podemos
mostrar pela Escritura, que assim será o caso (At 2:17-18; Mc 13:11; Lc 21:14-
15; Ap 16:6; 18:24; 2Tm 3.8; Tg 5:7).
Em toda a parábola, a maior ênfase está sobre a questão de levar ou não
o óleo extra. E o nosso propósito é colocá-la na luz mais forte possível;
pois as prudentes e as néscias eram iguais em todos os aspectos, menos
nesse. E a diferença é opcional, pois apenas nas coisas ao nosso alcance é
que a sabedoria ou a tolice podem ser manifestadas. Da mesma forma, os
dons do Espírito foram feitos para se embasarem em nosso pedir ou não
por eles (Lc 11.13; 1Co 14:1). Portanto, no pedir e no recebê-los, consiste
essa vigilância, a qual é a lição extraída da parábola de nosso Senhor.
Eles são “os poderes da era vindoura” (Hb 6.5). E correspondendo a isso,
esse óleo é visto entrando em cena, quando a nova era iniciar.
1. Aquelas que dormem com a vasilha de óleo, despertam com ela. Pois mais
uma vez, os “dons” de Deus são sem arrependimento (Rm 11:29).
1. Mais ainda, visto que ambos são descritos como óleo, da mesma forma os
mesmos termos são usados para cada espécie de graça. Em ambos os
casos é mencionado que esses poderes do Espírito Santo “enchem” o
indivíduo. “Ora o Deus de esperança vos encha de todo o gozo e paz na
vossa fé” (Rm 15.13). A mesma expressão é usada para os dons
miraculosos: “Isabel ficou cheia do Espírito Santo” (Lc 1.41); “Zacarias,
seu pai, ficou cheio do Espírito Santo, e profetizou” (Lc 1. 67).
É dito que ambos são “tomados” ou “recebidos”. “Os que recebem a abundância
da graça (santificadora), e do dom da justiça (os dons miraculosos junto com a
justificação pela fé – Gl 3:5), reinarão em vida por meio de um só, a saber, Jesus
Cristo” (Rm 5.17); “A graça de Deus, e o dom pela graça de um só homem, Jesus
Cristo, foram abundantes sobre muitos” (Rm 5.15).
Ambos são chamados de “graça”. Nenhuma prova é exigida desse uso da palavra
com respeito aos poderes santificadores do Espírito Santo; mas quanto ao seu uso
no tocante aos dons miraculosos, veja estes exemplos: “Do qual fui constituído
ministro conforme o dom da graça de Deus, a mim concedida segundo a força
operante do Seu poder” (Ef 3:7). “Mas a cada um de nós foi dada
a graça conforme medida do dom de Cristo. Por isso diz: Quando ele subiu ao
alto, levou cativo o cativeiro, e deu dons aos homens.” (Ef 4.7-8 – grego).
1. Porém, ainda de modo mais exato, pode-se mostrar que a prudência ou
porção do crente consiste em reavivar ou renunciar ao privilégio dos dons
do Espírito Santo. “Portanto, vede prudentemente como andais, não como
néscios, mas como sábios, remindo o tempo; porquanto os dias são maus.
Por isso não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor.
E não vos embriagueis com vinho, em que há contenda, mas enchei-vos
do Espírito; Falando entre vós em salmos, e hinos, e cânticos espirituais;
[3]
cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” (Ef 5:15-19).
E de um modo ainda mais marcante, o terceiro capítulo de Gálatas é nada menos
que uma repreensão aos gálatas pela tolice deles em retornar à Lei, e por
desvalorizarem os dons miraculosos e obras de poder, que (como argumenta o
apóstolo) estão essencialmente ligadas à justificação pela fé (Gl 3:5). Foi com
uma percepção dessa diferença, envolvendo prudência e tolice, que Paulo
perguntou aos discípulos em Éfeso: “Recebestes o Espírito Santo quando
crestes?” (At 19:2). Isso foi para indagar: “Vocês pertencem às virgens prudentes
ou às virgens néscias? Eu consigo ver as suas tochas; mas vocês têm além delas a
vasilha com óleo?”
Por isso, o menosprezo pelos dons do Espírito, ou pensar que o segundo
suprimento de óleo é desnecessário, é a tolice das virgens néscias. A falta da
sabedoria de Deus, ou a influência da sabedoria do mundo as conduz a esse
resultado infeliz. Porque a sabedoria de Deus e a sabedoria do homem são
opostas. “A sabedoria do mundo é loucura diante de Deus”. As virgens néscias
são então consideradas sábias pelo mundo. E a sabedoria do mundo considera os
dons do Espírito desnecessários, e o suprimento adicional, algo do qual não se
tem necessidade. Mas a “loucura” de Deus é “mais sábia do que o homem”, e o
restante da parábola é dirigido para provar que o óleo extra não é desnecessário.
O negligenciar ou rejeitar os dons do Espírito é uma falsa sabedoria, mundana e
míope, que não enxerga além da necessidade atual. É admitido que elas não são
essenciais para a vida diante de Deus, mas a lição atual do nosso Senhor prova
que elas são essenciais para se ter um lugar na festa de casamento.
1. O óleo adicional era a riqueza das virgens prudentes; a falta dele era a
pobreza das néscias, na vinda do noivo. Assim sendo, esse é exatamente o
lugar a ser ocupado pelos dons do Espírito, em ligação com a vinda do
Senhor Jesus. “Sempre dou graças a Deus por vós, por causa da graça de
Deus, que vos foi dada em Cristo Jesus; porque em tudo fostes
enriquecidos nele, em toda a palavra e em toda a ciência; assim como foi
confirmado em vós (ou: entre vós) o testemunho de Cristo, de maneira que
não vos faltou nenhum dom, aguardando vós a manifestação de nosso
Senhor Jesus Cristo; o qual também vos confirmará até o fim, para serdes
inculpáveis no Dia de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Co 1:4-8). Na posse dos
dons, jaz, então, a sabedoria, as riquezas e a inculpabilidade das virgens
prudentes na vinda de Cristo. Porém, aqueles que não os possuem, serão
achados em falta em Seu aparecimento.
Exortações para buscar e orar pelos dons do Espírito ocorrem não com pouca
frequência, assinalando que o óleo adicional não é vão. “Entretanto, procurai com
zelo os melhores dons” (1Co 12.31); “Procurai com zelo os dons espirituais, mas
principalmente que profetizeis” (1Co 14:1); “Visto que desejais dons espirituais,
procurai progredir, para a edificação da igreja” (1Co 14:12); “Procurai com zelo
o dom de profetizar” (1Co 14:39).
O recebimento dos dons do Espírito é algo adicional, não absolutamente
essencial, mas prometido àqueles que pedem. A capacidade de recebê-los é algo
que, reconhecidamente, está aberto para todos sem exceção. Por isso, ele
corresponde ao levar ou ao omitir voluntário do segundo suprimento de óleo na
vasilha. Os dons do Espírito não são essenciais para a vida, ou para o cristão
manter um testemunho para Deus no atual estado de coisas, enquanto o reino está
em mistério. Porém, o erro das tolas é imaginar que, por não ser essencial
no presente, ele será igualmente desnecessário no futuro, na manifestação do
Senhor Jesus. Entretanto, esse erro tem penetrado tão amplamente, que o
Salvador descreve a metade do seu povo que crê, como tendo se tornado néscio
por causa dele!
A falta de expectativa pelo retorno do noivo e a falta do óleo adicional seguiram-
se juntas, como toda a história cristã nos informará. Mas a parábola deixa claro
mais um fato: que até mesmo a expectativa pela vinda do Senhor Jesus pode ser
reavivada, e mesmo assim, não se ter consciência da necessidade do óleo extra, a
ponto de não haver nenhuma petição por ele.
A vigilância é um dever que, como Cristo declara, se aplica a todos. Como isso
poderia ser aplicado àqueles que adormecerem antes da vinda de Cristo, não está
claro. Mas essa lição supre a deficiência. Se alguém disser: “Deixe aqueles em
cuja vida, os sinais preditos estão realmente acontecendo, mas nós estaremos
mortos antes disso, e, portanto, a questão da preparação não nos toca” – essa
parábola nos capacita a responder que existe um preparo exigido daqueles que
serão, então, os mortos em Cristo, em nada menor do que daqueles que estarão
vivos em sua vinda.
O preparo para a morte não é necessariamente um preparo para a vinda do
Senhor. O sono venceu todas as virgens; e enquanto dormiam todas pareciam
iguais, e a vinda do Noivo encontrou todas elas na mesma condição de sono. Mas
no acordar manifestou-se a diferença, e então, o suprimento extra de óleo,
negligenciado como desnecessário antes, demonstrou-se como indispensável.
Vemos assim, que, até mesmo no tocante àqueles que estão dormindo em Cristo
Jesus, um estado de coisas entrará em cena na ressurreição, o qual fará distinção
entre aqueles que viveram em vigilante preparação para vinda do Senhor, e
aqueles que não viveram assim; e que é um simples engano de um coração
insensato nos dispormos a descansar porque Cristo não virá em nossos dias.
Entendo que a vasilha na qual o óleo adicional foi colocado é o corpo. Pois está
escrito: “Essa é a vontade de Deus: a vossa santificação… que cada um de vós
saiba como possuir o seu vaso em santificação e honra”(1Ts 4:3-4). Aqui o corpo
não é apenas um vaso, mas o vaso na posse do homem: “seu vaso”. Acerca da
expressão: “Óleo em suas vasilhas”, mais uma vez é dito: “Temos, porém, esse
tesouro em vasos de barro, a fim de que a excelência do poder seja de Deus e não
venha de nós” (2Co 4:7), onde em relação ao poder miraculoso do Espírito Santo
manifestado em seu ministério, eles, os apóstolos, são chamados de “vasos de
barro”. E de Paulo é dito que ele é um “vaso escolhido” que devia ser “cheio do
Espírito Santo” (At 9:15-17; Rm 9:21-23). A tocha é, creio eu, um testemunho
exterior para os outros; o óleo na vasilha é uma posse pessoal e testemunho para
eles mesmos.
E, tardando o noivo, todas ficaram sonolentas e adormeceram. Mateus 25:5 –
Tradução literal do grego.
O que é retratado pela demora do Noivo é fácil de entender. O Salvador mais de
uma vez deu indicações de que a sua ausência seria prolongada. Ele era um nobre
que foi para um “país distante por muito tempo” (Lc 20.9; 19.12). “Depois de
muito tempo, voltou o senhor daqueles servos” (Mt 25.19). A causa da demora
não é especificada, e consequentemente, as razões da demora do Salvador nós
não conhecemos. As estações e seus motivos só são conhecidos por Deus. E o
tempo dessa demora corresponde ao tempo do mistério, durante o qual os planos
de Deus são profundamente ocultos.
Essa demora é o ponto crítico do todo na parte referente ao Noivo; assim como o
suprimento adicional de óleo é o ponto crítico da parábola na parte referente às
virgens. Se ele tivesse vindo mais cedo, ele poderia encontrar todas elas
acordadas, e o suprimento extra das prudentes poderia parecer desnecessário;
também não haveria qualquer diferença de resultado para as prudentes e as
néscias, e a sabedoria das prudentes não seria manifestada, nem as consequências
desastrosas da falta de prudência seriam vistas. Mas a demora do Noivo dá
ocasião ao sono, o que dificulta o tratamento do erro; também dá ocasião ao
consumo contínuo do azeite, o que torna necessário o suprimento extra das
prudentes em seu despertar conjunto. É a demora do Noivo, dando ocasião para o
sono de todas elas, que faz a diferença entre este caso e aquele considerado antes
pelo Salvador na parábola do servo vigilante. Se as virgens estivessem acordadas
na vinda do Noivo, a situação seria aquela dos santos vivos, e assim teria sido
apenas o mesmo aspecto da vinda do Salvador que ele já havia considerado em
outro lugar anteriormente.
Mas agora nós precisamos investigar uma questão muito importante no tocante à
natureza do sono e dar provas do seu verdadeiro significado. Existem duas ideias
sobre ele: (1) A primeira é de que ele se trata de um descuido culpável com
relação à vinda do Senhor, e um retorno à preguiça espiritual e ao mundanismo.
(2) A segunda, diz que ele representa a morte das virgens. Bem, que o sono não é
um descuido culpável, fica evidente com base nestas considerações:
1. O sono é aparentemente desculpável porque a menção da demora do Noivo o
precede e aponta, em certo sentido, como sua causa. Porque o caso das virgens
deve ser sempre distinto daquele dos servos sob responsabilidade e incumbidos
de vigiar. Dormir enquanto se está de guarda é infidelidade digna de punição a
um servo; e, por isso, o Salvador avisa aos servos sobre o serem achados
dormindo. Mas onde o sono vence alguém desejoso de obter um prazer,
privilégio ou honra, o qual ele aguarda, nós logo atribuímos isso, não
como ausência de vontade para resistir, mas ausência de poder para tal; e, neste
caso, temos de considerar o dormir como algo involuntário. O resultado da
demora do Noivo aqui é simplesmente prático, não moral, como no caso do servo
mau, que imaginando que a volta do seu senhor demorava, começou a bater nos
seus conservos e a comer e beber com os ébrios.
2. Considerar o sono como uma decaída para o descuido, mundanismo e
negligência para com a vinda do Senhor, seria alegar total imperfeição da graça
concedida, porque o sono é continuado até a vinda do Salvador; e mesmo assim,
a despeito disso, nós temos o mais elevado privilégio e alegria sendo depois
concedidos àqueles que (supostamente) têm dormido tão descuidadamente! Isso
seria dar permissão ao pecado, se o dormir aqui fosse nocivo.
3. Se fosse uma atitude culpável, a parábola teria sido contada de forma a girar
em torno disso, e o Senhor encontrando algumas acordadas e outras adormecidas,
teria sido a base natural da diferença entre as prudentes e as néscias.
4. O sono afeta a todas igualmente. As néscias e as prudentes são vistas juntas
dormindo e juntas acordando. Mas se o sono aqui fosse pecaminoso, ou todas
as prudentes não teriam dormido junto com todas as néscias, ou todas
as néscias não despertariam ao mesmo tempo com todas as prudentes.
5. O sono não é o da intemperança, nem o do cuidado mundano, porque elas
adormecem na posição de espera e separação que mantinham no início; as suas
tochas ainda estão acesas, e elas mesmas ainda são imaculadas.
6. Se isso fosse um erro, então a parábola não daria (como ela faz) o resultado de
um único erro cometido no princípio e remontado às suas legítimas
consequências; antes, haveria um novo erro sendo introduzido, e a primeira lição
seria perdida ou obscurecida. Todavia, o sono é introduzido, não como um novo
erro, mas sim como uma circunstância que fixa um período para a oportunidade
de remediar o erro original.
7. As prudentes dormem tanto quanto as néscias, e mesmo assim conservam o
seu caráter de “prudentes” (Mt 25.8). Portanto, visto que o dormir não afeta o
caráter delas quanto à prudência, esse não foi um dormir imprudente.
8. O sono não é danoso, e as néscias, mesmo quando rejeitadas, não são
reprovadas por causa dele. Logo, ele não é ilegal. Ele corresponde, portanto, mais
exatamente, ao sono sem culpa da morte. Contra isso a prudência e a tolice são
igualmente impotentes; a despeito de quão pronto o espírito possa estar, a carne é
fraca; elas foram impedidas de continuar por causa da morte (Cf. Hb 7:23). Esse
é aquele “sono” que não pode ser resistido, mas que acontece (como Salomão nos
diz) igualmente ao sábio e ao tolo (Ec 2:14).
9. Mais ainda: se o óleo significa graça[4], então o sono não é pecaminoso,
principalmente nas prudentes. Porque o mundanismo e a indiferença descuidada
para com a vinda de Cristo são incompatíveis com a abundância de graça que as
prudentes possuem.
10. E se o dormir for morte, então todas as virgens são crentes; porque para mais
ninguém a morte é um sono.
A vinda do Noivo não é a morte, porque a morte afeta apenas um de cada vez,
mas aqui todas são afetadas de uma só vez. Além do mais, o resultado do sono
delas é que elas não notam o gastar do óleo, e consequentemente não procuram
reabastecer a tocha. Por essa razão, o único momento para reparar o erro é antes
do sono começar. Depois desse momento não há possibilidade de reparação.
Porque o sono continua até o momento da ressurreição; e entre a ressurreição e a
entrada na glória da festa, não há tempo. Não importa quão longo seja o intervalo
do sono, ele é incapaz de ser aplicado para remediar a imprudência, por causa da
inércia do sono. O tempo do mistério, como deveríamos esperar nessa suposição,
continua indefinidamente por mais tempo do que a vida delas. Mas no que diz
respeito às virgens, o tempo é ocupado por apenas uma condição – o estado de
inatividade ou sono. Esse fato continua até que o Noivo venha. Até lá, nenhum
dos que dormem ressuscita. A idade avançada finda para eles ao dormir. O novo
começa pelo despertar.
Das duas palavras usadas no texto grego, que descrevem o sono, uma indica o
cair das pálpebras e o pender da cabeça, que caracterizam a transição da
vigilância para o sono, e a outra descreve o estado daqueles adormecidos, após
deixarem o estado de vigilância. Desse modo, elas correspondem
respectivamente ao ato de morrer, e ao estado no qual a morte introduz a alma.
Acerca das diversas passagens das Escrituras nas quais a morte do crente é
chamada de sono, uns poucos exemplos serão suficientes; pois “Pela boca de
duas ou três testemunhas, toda palavra será confirmada” (Dt 17:6; 19:15; 2Co
13:2).
“Muitos corpos de santos, que dormiam, foram ressuscitados; e, saindo dos
túmulos depois da ressurreição de Jesus, entraram na Cidade Santa e apareceram
a muitos.” (Mt 27:52-53). “Nosso amigo Lázaro dorme”. “Disse-lhes, pois, Jesus
abertamente: Lázaro morreu” (Jo 11:11,14). “Depois, apareceu a mais de
quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte permanece até agora, mas
alguns já dormiram.” (1Co 15:6). Aqui o próprio caso em questão, o lapso
contínuo de tempo é citado como o motivo do porquê aqueles que tinham
contemplado Jesus haviam morrido. E no caso de Lázaro, nós vemos que a
demora de Jesus, foi em si, o motivo de seu adormecimento; enquanto que,
posteriormente, pela voz do Senhor havê-lo chamado, ele ressuscita e banqueteia
com Jesus.
E mais: essa interpretação apresenta a Igreja nas duas grandes e reais divisões nas
quais a Escritura a contempla na volta de Cristo. Pois a Igreja toda será então
composta ou daqueles “que estão vivos e ficaram”, ou daqueles que
estão “dormindo em Cristo”. E a passagem que mostra a Igreja nesses dois
aspectos, também nos ensina que o sono das virgens, que parece ser o maior
obstáculo no caminho para elas participarem da festa, não o será por fim. “Não
queremos, porém, irmãos, que sejais ignorantes a respeito dos que dormem, para
que não vos entristeçais, como fazem os demais que não têm esperança. Pois, se
cremos que Jesus morreu e ressurgiu, assim também Deus trará com Jesus os que
nele dormem. Isto vos dizemos pela palavra do Senhor: que nós, os
que vivermos, os que formos deixados até a vinda do Senhor, de modo algum,
precederemos os que já dormem; porque o Senhor mesmo descerá do céu com
grande brado, com voz de arcanjo e com trombeta de Deus, e os mortos em
Cristo ressuscitarão primeiro” (1Ts 4:13-16). E mais: “Pois Deus não nos
destinou para ira, mas para alcançarmos a salvação por nosso Senhor Jesus
Cristo, que morreu por nós, para que, quer velemos, quer durmamos, vivamos
juntamente com ele” (1Ts 5:9-10). A parábola diante de nós trata então com a
maioria da Igreja que será encontrada entre os mortos no aparecimento de Cristo;
enquanto, no capítulo anterior, o Salvador se dirigiu a si mesmo ao dar sinais que
só poderiam ser aplicados aos vivos. Aqui, porém, “todas elas adormeceram
e dormiram”.
Consequentemente, mesmo que o sono comece num tempo indefinido e em
momentos diferentes para cada uma das virgens, ele, todavia, não é interrompido
por ninguém até a vinda do Noivo. No intervalo de incerteza nada ocorre senão o
cair no sono de uma ou outra das virgens, correspondendo ao atual falecimento
sucessivo dos santos em Cristo, devido ao tempo da sua volta ser prolongado.
Podemos observar ainda que, pelo fato de o período abrangido por essa parábola
se estender por um espaço de pelo menos 1.800 anos[5], a partir do tempo quando
a volta do Salvador começou a ser esperada, até a hora presente – se o sono for
considerado como preguiça espiritual, então as virgens devem ser consideradas
como sistemas corporativos, ou igrejas, porque somente estas poderiam continuar
desde aquele período até a volta de Cristo. E por outro lado, se as virgens
forem indivíduos,então o sono é morte; porque apenas isso explica a condição na
qual elas são encontradas durante a demora do Noivo. Mas já foi provado que o
sono é a morte, portanto, as virgens são consideradas perfeitamente como
representativas de indivíduos.
Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro! (Mateus
25:6)
A meia-noite é o ponto da metade do caminho entre um dia e outro. As virgens
despertam num novo dia correspondendo à “era vindoura”. E embora seja meia-
noite para a terra, para os santos é a hora da festa nupcial. Devido ao fato de essa
hora festiva da era vindoura haver se iniciado no alto, os “poderes da era
vindoura” devem ser totalmente apropriados, para não dizer
necessários. Se a própria terra, quando a hora da vinda de Cristo alvorecer, será
enchida com os dons do Espírito, como pode ser permitido que os filhos do
céu sejam privados deles?
Tendo ficado provado que o sono é a morte, nós estamos preparados para
responder rapidamente à questão: O que é que se pretende dizer com o clamor e
as suas palavras seguidas de exortação e mandamento? É sem dúvida o “clamor”
com o qual o Senhor descerá quando os mortos em Cristo ressuscitarão. E as
palavras que se seguem parecem aquelas dos assistentes e precursores angélicos
do Noivo celestial. Eles tomam o lugar dos servos enviados na ocasião da ceia
para chamar os que são convidados: “Vinde, porque tudo já está preparado”.
A advertência assim dada antes do Salvador aparecer, e o intervalo que se segue,
provam que essa não é a vinda de Jesus para os vivos; porque essa será uma
vinda como a aproximação de um ladrão, sem nenhum aviso antecipado para
anunciar o Seu aparecimento. É um lampejo de luz repentino irrompendo do
meio das trevas sem aviso prévio.
A expressão: “Eis o Noivo” mostra que ele ainda está a caminho. Ele já partiu,
mas ainda não chegou ao salão da festa. Isso assinala o tempo em que os mortos
despertam. O intervalo entre o início dessa aproximação e o seu término numa
distância ainda acima da terra (o que então é chamado de a sua presença, ou
parousia) nos permite ter uma ideia do tempo que se passa entre a ressurreição
dos santos mortos e o arrebatamento deles (em conjunto com os santos vivos)
para encontrá-lo. Que esse tempo é muito rápido, a parábola nos mostra. A
partida do Noivo acontece enquanto todas estão dormindo. Mas a vinda dele é
depois de todas estarem acordadas.
“Saí ao seu encontro!” A primeira saída das virgens não foi suficiente. Aqui elas
são solicitadas para sair de novo. E a explicação do sono dada acima, esclarece o
ponto. A primeira saída delas foi uma separação voluntária do mundo. Mas essa
segunda saída é a saída de dentro dos túmulos. A mesma palavra é usada nas
Escrituras para expressar essas duas ideias: “Vieram-lhe ao encontro dois
endemoninhados, saindo dos sepulcros” (Mt 8:28). “Vem a hora em que todos os
que se acham nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que fizeram o bem, para
a ressurreição da vida; e os que praticaram o mal, para a ressurreição do juízo”
(Jo 5:28-29). “Tendo assim falado, clamou em alta voz: Lázaro, sai para
fora! Saiu aquele que estivera morto” (Jo 11:43-44). Assim, nós temos a mesma
ordem da parábola dirigida a Lázaro em sua ressurreição: “Lázaro, sai para fora”.
Elas saíram com o propósito de encontrá-lo. E o lugar do encontro é no ar (1Ts
4:17). O encontro pressupõe que o Noivo está se movendo em direção à terra, e
que elas devem se mover para fora dela. A primeira saída indica a santificação do
espírito; a segunda a redenção do corpo. A primeira atitude é voluntária; a
segunda requer um despertar vindo de fora.
Então se levantaram todas aquelas virgens e prepararam as suas
lâmpadas. (Mateus 25:7)
Tal qual é o sono, tal é o despertar, e como o despertar, assim o sono. Se o sono
for a morte, o despertar é a ressurreição. E se o despertar na vinda do Noivo for a
ressurreição, então o sono é a morte. O verbo aqui usado, é aquele aplicado
constantemente à ressurreição: “Moço, eu te mando: levanta-te!” (Lc 7:14);
“Menina, levanta-te” (Lc 8:54). “Mas, depois que eu ressuscitar, irei adiante de
vós para a Galileia” (Mt 26:32); “Que me aproveita isso? Se os mortos não são
ressuscitados”; “Os mortos serão ressuscitados incorruptíveis” (1Co 15:32,52).
Que o despertar não é, como alguns têm imaginado, qualquer despertamento
atual entre os santos para a importância da segunda vinda de Cristo, pode ser
visto por estas considerações:
1. O despertamento da parábola acontece por um clamor externo às próprias
virgens, enquanto esse despertamento dos crentes para a importância da vinda de
Cristo se dá por causa das advertências entre eles, enquanto estão vivos aqui na
terra (Hb 10:25).
2. Quando elas despertam não há tempo para as virgens despreparadas corrigirem
o seu erro; o que não corresponde à nossa situação hoje, quando qualquer um
pode ser despertado para a vinda de Cristo e ter tempo de reparar seus erros.
3. Não há universalidade no sono ou no despertar, como na parábola. Ali todas
elas dormem, e todas despertam juntas. Mas agora, no tempo em que estamos,
com respeito ao assunto da vinda do Senhor, alguns crentes estão acordados e
alguns dormindo.
As virgens ressuscitam todas ao mesmo tempo; isso prova que elas são crentes,
porque ninguém senão os santos ressuscitam na primeira ressurreição: “Os outros
mortos não viveram até que fossem cumpridos os mil anos” (Ap 20:5). E a
ressurreição delas não cria nenhuma agitação na cidade, nem tampouco a
comitiva do Noivo entra nela. Os que estão do lado de fora da cidade são
despertados pelo som; mas nenhum dos de dentro da cidade o ouvem. Elas
ressuscitam no mesmo lugar em que dormiram, porque a ressurreição não é
a ascensão dos santos.
Ao despertarem, a primeira preocupação delas é preparar as suas tochas. Uma
parte do pavio está reduzida às cinzas e isso faz com que a chama queime muito
pouco. Todas elas, então, removem esse impedimento para o brilho da tocha, e o
ato lhes revela a condição do suprimento de óleo. As prudentes, portanto,
completam o que é necessário para o desempenho da tocha, acrescentando o óleo
necessário.
O primeiro suprimento estava quase falhando, tendo durado durante o mesmo
tempo para todas elas. Agora, entretanto, a necessidade do segundo suprimento
começa a aparecer. As prudentes estão em condições de reparar a necessidade.
Elas derramam óleo novo e a tocha volta a brilhar tanto quanto antes.
Disseram as néscias às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas
lâmpadas estão-se apagando. (Mateus 25:8)
Com a ressurreição, um novo estado de coisas se inicia. Então a diferença entre
aquelas que pareciam igualmente preparadas começa a ser percebida. Não
podemos extrair nenhum argumento contra a necessidade dos dons espirituais
para o dia de glória vindouro, baseados no fato de que os santos de Deus
dormiram alegremente, sem perceber a sua necessidade deles. Não havia
diferença perceptível entre os dois grupos quanto ao sono deles, nem na
continuidade dele. Mas quando as néscias veem as sábias abastecendo com óleo
novo a chama decadente das suas tochas, elas se tornam conscientes de um
preparo que elas não tinham. Todas precisam do novo suprimento de óleo ao
despertar, mas apenas as prudentes podem satisfazer a necessidade. O antigo
suprimento de óleo queima até a meia-noite, o fim do dia anterior; mas um novo
suprimento é necessário para o novo dia que agora se inicia. Então, é sentido
dolorosamente pelas tolas que o óleo extra não é como elas
imaginavam, desnecessário. Elas o rejeitaram antes como não essencial; mas
agora a “loucura de Deus” ao prover o segundo suprimento é vista como mais
sábia do que a sabedoria do homem o rejeitando. Parecia uma vasilha
desnecessária, porque os dons do Espírito Santo devem, num mundo mau,
provocar particularmente a inimizade e talvez a crítica dos homens.
Mas agora elas descobrem a falta de precisão delas. Elas veem finalmente que
óleo suficiente para o presente não é bastante para o futuro. Aquilo que se
imaginava não ser essencial agora pode não ser assim, na vinda de Cristo. Elas
percebem que é tolice descansar contente com o presente, e não fazer provisão
para o novo estado de coisas que se iniciarão na vinda de Jesus e na ressurreição.
No dia das bodas, elas descobrem que não estão qualificadas para a glória
especial. Os poderes do Espírito foram testemunhas da era porvir antes mesmo
dela vir; mas na era que tem chegado com a vinda de Cristo, eles encontram a sua
esfera especial de beleza e esplendor. A falta da glória possuída pelos que se
consideram sábios em nosso tempo será profundamente sentida. O estar contente
apenas com aquilo que é absolutamente indispensável para o presente, embora
fosse considerado sabedoria para a ocasião, agora é descoberto como tolice. A
questão do todo manifesta que embora o suprimento extra não seja essencial para
o caráter de uma virgem, ele é essencial para a entrada da virgem na festa de
casamento. O único óleo usado na procissão do casamento é
o suprimento adicional. Os dons do Espírito Santo agora são “primícias” (Rm
8:23), mas naquele tempo eles serão derramados “sobre toda carne”.
As prudentes estavam preparadas antes de dormirem; e a prudência delas agora
brilha com resplendor. Se o Noivo viesse mais cedo ou mais tarde elas estariam
preparadas, e as suas tochas agora mostram isso. Mas as tochas das néscias agora
produzem uma luz fraca. Na verdade, elas não se apagaram, pois se assim o
fosse, apenas o óleo não seria o bastante para torná-las acesas novamente; e elas
não precisariam de um pavio e teriam pedido por luz, e não por óleo. Mas a
parábola indica que todas elas despertam em circunstâncias exatamente iguais,
como antes delas dormirem sob as mesmas circunstâncias, a fim de que a
diferença de caráter, como prudentes ou néscias, pudesse ser mais facilmente
demonstrada.
Porém as prudentes responderam: Talvez não haja bastante para nós e para vós;
ide, antes, aos que o vendem e comprai-o para vós. (Mateus 25:9)
Alguns têm imaginado que essa resposta das prudentes tinha a intenção de fazer
uma cortante repreensão de ironia.[6] Essa é uma suposição estranha! Até mesmo
de um crente para um não crente isso seria grosseiro; e de um crente para outro
crente, é algo impossível.
Se elas conseguissem insultar as néscias pela tolice destas, quando apenas a graça
miraculosa é que as tornavam diferentes, não seria permitido a elas entrar
imediatamente na festa de casamento do amor! Mas na verdade não há nem
mesmo o menor resquício de ironia na resposta delas. E se as palavras das sábias
fossem de escárnio, o conselho não teria sido aceito por aquelas a quem ele foi
dado; o que na verdade não seria um conselho, e sim uma zombaria amarga.
O seu sentido é muito perceptível, e coopera com a interpretação dada. Porque a
resposta ao pedido das néscias não é que o pedido delas fosse impossível de ser
satisfeito. Essa seria, ou, essa deveria ter sido a resposta se a questão fosse com
respeito à capacidade do crente de comunicar a graça salvadora aos
pecadores. Mas elas não negam a possibilidade de conceder a petição das outras;
ao invés disso, de maneira gentil, elas mostram que isso é inadequado; quer dizer,
elas indiretamente admitem a possibilidade de concedê-lo. E isso corresponde ao
fato de que um crente é capaz de transmitir os dons do Espírito Santo a outro. E
mais ainda: a imposição de mãos de um apóstolo era a forma comum de
comunicá-los (At 8:17; 917; 19:6). E essa diferença corresponde à diferença do
óleo na tocha e do óleo na vasilha. O óleo na tocha não podia ser comunicado,
porque já estava absorvido pelo pavio; mas o óleo na vasilha estava em
condições de ser transferido conforme a prudência do possuidor.
O pedido das néscias é a própria necessidade delas. O argumento contrário das
prudentes é que o óleo é necessário para elas mesmas. Se a transferência fosse
impossível, a resposta teria sido dada alegando como algo impossível de ser
feito; como nós vemos no diálogo entre Abraão e seu filho mau: “Mande a
Lázaro”, é o pedido. “Os que estão aqui não podem passar para vós”, é a
resposta.
Também nenhum dos grupos considera a omissão por parte das tolas
como irreparável. As prudentes não respondem como elas teriam respondido
ao não crente:[7] – “O caso de vocês é sem esperança. Agora, é o dia da
ressurreição. A hora da graça para vocês acabou para sempre. Vocês não veem
quão tolo é o vosso pedido? Não somente pelo fato de nós não termos
mais graça do que nós mesmos precisamos a fim de sermos salvas, mas se
estivéssemos dispostas a concedê-la a vocês, imaginando que tivéssemos mais do
que o necessário, seria impossível.” Ao invés disso, elas concordam que o óleo
ainda pode ser obtido. Esse era o remédio para a omissão das néscias, como foi
esclarecido no início; assim elas admitem que ainda é possível obter o óleo,
mesmo no final.
Elas tomam por certo que na cidade de onde elas saíram, havia lojas onde o óleo
era vendido. E isso concorda com o que foi mostrado acima, que os dons do
Espírito serão espalhados na terra nos dias do fim. Nesse ponto as interpretações
comuns falham. As palavras das prudentes são: “Ide antes aos que o vendem”.
Elas não dizem: “Àquele que o vende”, como deveria ser se a
graça salvadora fosse o assunto em questão; porque quem pode comunicar a
graça salvadora senão Deus? Mas o poder de comunicar os dons do Espírito
Santo foi confiado no princípio (e assim podemos concluir que será no final
também) a mais de uma pessoa. A venda aqui, sem dúvida, é aquele tipo de
venda sobre a qual o profeta fala: “Comprai vinho e leite sem dinheiro e sem
preço” (Is 55:1). E nós sabemos de alguém que foi reprovado com tremenda
solenidade por supor que o dom de Deus pudesse ser adquirido por dinheiro (At
8:17-23). Os vendedores são aqueles que conservam mais do que o suficiente
para o seu suprimento próprio, e cuja ocupação é repartir, sob certas condições,
aos outros. Tais eram os apóstolos, aos quais foi comunicado o poder de
conceder dons aos crentes na era inicial. As prudentes aqui recusam com
prudência, porque o suprimento, embora sendo suficiente para um, poderia não
ser bastante para dois.
Enquanto foram comprá-lo, veio o noivo; as que estavam apercebidas entraram
com ele para as bodas, e fechou-se a porta. (Mateus 25:10)
O erro das néscias não é irreparável em sua natureza, mas a parábola tem a
intenção de mostrar que ele não é corrigido no resultado. Era uma questão de
tempo, mas o tempo não foi concedido. A solução veio muito tarde.
As néscias percebem a justiça da recusa das prudentes, e compreendem também
que o conselho delas é a única alternativa que se apresenta sob as circunstâncias
em que estavam. A ida delas para obter o suprimento é necessária, e parece ser
assim; porém, os próprios meios adotados para corrigir o erro apenas o expõe
mais claramente. Elas são forçadas a se retirar da cena e a se separarem da
companhia das prudentes. Mas essa retirada, embora necessária, implica em
exclusão. Elas não estão no local quando o Noivo chega, e a procissão não pode
demorar. A separação voluntária, então, é o primeiro passo para uma separação
involuntária. A recusa do óleo feita pelas virgens é o anúncio da recusa do Noivo
para com um lugar na festa.
Visando manifestar a sabedoria das prudentes, e por contraste, a imprudência das
néscias, tão logo estas se retiram, o Noivo chega. Na continuação da história, a
rapidez dos fatos que se seguem é demonstrada: “O Noivo chegou – as que
estavam preparadas entraram e – fechou-se a porta”. A entrada para as bodas,
significa os santos sendo arrebatados, para que eles possam entrar pelas portas da
Nova Jerusalém – a cidade nupcial, a esposa do Cordeiro.
A festa é no alto, porque este é o lugar dos filhos de Deus ressuscitados dentre os
mortos. E a parábola da Grande Ceia nos informa que nenhum daqueles a quem
as bodas foram primeiro anunciadas provariam dela (Lc 14:24). E, portanto, o
seu cenário não é a terra, mas o céu; não entre os vivos na carne, mas entre os
santos de corpos incorruptíveis.
Esse arrebatamento dos santos acontecerá na vinda do Filho do Homem como
ladrão. Será um relance repentino e momentâneo, como o relâmpago abrindo o
céu por um momento com o seu clarão, e repentinamente fechando-o de novo.
Será “num momento, em um abrir e fechar de olhos”. A porta aberta corresponde
à glória brilhando repentinamente; a porta fechada, às trevas se estabelecendo
novamente sobre todas as coisas.
A porta que é aberta e fechada é aquela da casa de Deus no céu: “Na casa de meu
Pai há muitas moradas” (Jo 14:2); “Sabemos que, se a nossa casa terrestre deste
tabernáculo for desfeita, temos de Deus um edifício, casa não feita por mãos,
eterna, nos céus. Pois verdadeiramente neste tabernáculo gememos, desejando
muito ser revestidos da nossa habitação que é do céu” (2Co 5:1-2). Até aqui,
esses versículos não nos revelam muito acerca do lugar geral da assembleia dos
santos; ao invés disso, eles tratam mais especificamente com o nosso próprio
lugar especial na cidade. Mas o que se segue lança luz, no meu entendimento,
sobre a parábola: “Se é que, estando vestidos, não formos achados nus” (2Co
5.3). Isso porque as virgens néscias estão na condição daqueles que não vigiaram
e guardaram suas vestes. Por isso, a presença do Senhor como ladrão vem sobre
elas sem avisar; embora elas estejam vestidas com seus corpos imortais, porque
ressuscitaram de novo. Mesmo assim elas são como os que são “encontrados
nus”; porque na hora em que um for tomado e o outro for deixado para trás, elas
permanecerão na terra. Assim elas são como os que “andam nus, e os homens
contemplam a sua nudez”. As tochas eram a prova de que elas desejavam entrar
nas bodas, e pareciam ter quase a certeza disso; mas agora, são lembranças da
desgraça que se deu com elas. A casa foi arrombada porque não foi guardada, e o
proprietário tem que lamentar por sua perda com a reflexão melancólica que foi
por causa da sua falta de vigilância, e não por falta de aviso.
Dessa parte da parábola nós temos uma bela ilustração no Apocalipse. Tão logo o
Salvador conclui a entrega dos seus conselhos a João e suas advertências à igreja,
e ameaça a sua vinda como ladrão, e promete ao obediente cear com ele (Ap
3:18-22), nós lemos: “Depois disso eu vi, e eis uma porta aberta no céu” (Ap
4:1). Ele é chamado por uma voz como de trombeta, um símbolo daquela que vai
despertar os mortos, e a voz diz: “Sobe para cá”. E o resultado para ele mesmo
foi, que ele subiu para lá “em espírito”, assim como estes estarão lá no corpo
também.
“A porta se fechou”.
1. A utilidade de uma porta é excluir os que estão fora, de ver e ouvir. É o meio
indicado pelo Salvador, quando desejarmos nos ocultar dos homens para a
comunhão com Deus (Mt 6.6). Da mesma forma, a glória da festa nupcial será
excluída do homem. Será uma assembleia magnífica, da qual o mundo dormente
não tomará conhecimento. A porta fechada ocultará o esplendor dos seus olhos e
impedirá a melodia de chegar aos seus ouvidos.
2. Ela assinala a determinação do proprietário de separar os convidados do que
estão de fora. É o sinal da comunicação plena e livre entre os que estão dentro, e
a interrupção da comunicação e comunhão com os que estão do lado de fora. É
uma barreira eficaz colocada contra a entrada dos de fora, ao mesmo tempo em
que sugere também a plena aceitação daqueles que estão do lado de dentro (Lc
11:7); e é o sinal de que a festa começou. Esse fechamento é para impedir os que
estão do lado de fora de entrar em suas glórias.
Se perguntarmos por quem ela é fechada, nós descobriremos que é pelo Noivo.
“Uma porta me foi aberta pelo Senhor” (2Co 2:12); “Eis que tenho posto diante
de ti uma porta aberta, que ninguém pode fechar” (Ap 3:8). Como senhor da
casa, depende da vontade dele admitir ou excluir (Lc 13:25).
Depois, vieram as outras virgens e disseram: Senhor, senhor, abre-nos a porta!
Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço. (Mateus 25:11-
12)
Se elas tiveram sucesso em sua busca pelo óleo extra, não é declarado. Mas ainda
que elas tenham obtido o óleo necessário, ele chegou tarde demais. A
oportunidade escapou. A porta, uma vez aberta, foi fechada. Não está claro se
depois elas são arrebatadas ao céu, ou se elas devem retornar ao mesmo lugar
onde haviam deixado as prudentes, e ao descobrir que estas partiram, percebem a
perda que sofreram. As outras “entraram” (lit. grego); elas “vieram” (lit. grego).
Elas tentam, em sua última e perdida esperança, fazer um apelo pessoal ao
Noivo, pedindo entrada: “Senhor, Senhor, abre-nos”. Porém, a petição delas é
recusada. É recusada em termos tão fortes, a ponto de fazer muitos imaginarem
que ela envolve a perdição eterna daquelas a quem se dirige. Porém, um exame
mais detalhado dos vocábulos nos mostrará que essa não é a intenção das
palavras ditas a elas. Na verdade, em alguns pontos muito importantes, as
palavras ditas aqui contrastam com aquelas ditas pelo Senhor, de forma
aparentemente semelhante em outros casos.
Em primeiro lugar, essas palavras são declaradas pelo Noivo às damas de honra;
e isso implica: ‘Eu como noivo não vos reconheço como convidadas e
acompanhantes da noiva na festa’. Porém, os personagens do Noivo e das damas
de honra são temporários. Por isso, mesmo que elas tenham perdido aquele
privilégio peculiar e temporário representado pelo título de virgens, elas ainda
poderão ser recebidas depois que a festa terminar. E de acordo com isso, as
palavras: “Não vos conheço” ficam em contraste com aquelas que são dirigidas
ao ímpio: “Eu nunca vos conheci”.[8] A declaração às néscias implica somente
que: “Durante o atual período da festa, o meu semblante não será de alegria para
vocês.” Mas isso não acrescenta a terrível declaração: “Vocês não fazem parte
dos meus escolhidos; os seus nomes não estão de modo algum no livro da vida”.
A exclusão é punição suficiente – a perda do privilégio resultante da negligência
do chamado à preparação vigilante é a sua própria recompensa suficiente. Elas
fizeram muito com vistas ao fim desejado, mas por falta de prudência ficaram
aquém dele. Essa perda é suficiente em si mesma. Existe o ficar envergonhado na
vinda de Cristo; e vergonha é a devida recompensa da tolice. Um juiz não dá
punição para a tolice. O prejuízo que ela traz aos interesses de um homem é
considerado o bastante. Ninguém é prejudicado senão o próprio homem.
Um noivo não é o juiz das damas de honra. Por isso, aqui não há, como nos
outros casos, a sentença do juiz: “Apartai-vos de mim”. Para elas, a fala quer
dizer apenas isso: “Enquanto eu estiver banqueteando, vocês não poderão entrar;
antes, deverão esperar do lado de fora. Eu tenho as chaves de Davi: eu fecho e
ninguém abre. Eu abro e ninguém fecha”. Elas não são tratadas como
“obreiros de iniquidade”, porque se assim o fosse, elas seriam mais do que
néscias; elas seriam as insensatas entre os filhos da luz, colhendo o triste salário
da sua imprudência. Nem há qualquer palavra acerca das “trevas exteriores” e
“choro e ranger de dentes”, como no caso de uma exclusão total. Porque essa é a
sentença sobre a infidelidade, a impiedade e a ausência da veste nupcial (Mt
8:12; 13:42,50; 22:13; 24:51; Lc 13:28). Então, esse silêncio do Salvador, sobre
esses pontos, no exemplo atual, é um silêncio verdadeiro; ele nos leva a entender
que a perda do privilégio é a única coisa em vista.
A entrada na festa das bodas do Cordeiro é assinalada como uma bênção peculiar
(Ap 19:9). Não é uma coisa necessária, sem a qual restará a perdição para os que
não participarem. É uma glória de esplendor, mas passageira, antes de o Senhor
Jesus se manifestar abertamente dos céus (Ap 19:11). Ela não se destina a todos
os súditos do reino, mas apenas à família. A festa pode ser perdida e ainda assim
o perdedor ser um participante do reino que será revelado. E aquele que a perde,
faz isso por um erro correspondente à ausência de pontualidade; como acontece
com um passageiro que tendo pagado a sua passagem de navio, e enviado os seus
bens a bordo, chega depois do tempo marcado, e perde o seu dinheiro e a sua
passagem. O desgosto e o prejuízo sofridos são, em tais casos, repreensão
suficiente. Aqui está um “sofrer a perda”, uma diminuição da
“plena recompensa” (1Co 3:15; 2Jo 8).
Portanto, vigiai, porque não sabeis nem o dia nem a hora. (Mateus 25:13)
Essa é a grande lição da parábola aplicada aos discípulos e reforçada pelo
resultado da história precedente. As prudentes foram vigilantes para que não
viessem a perder o grande objetivo do seu desejo como damas de honra, e,
portanto, desconhecendo em que tempo o Noivo poderia vir, elas se prepararam
para a hora mais tardia, e o caso mais desfavorável, a fim de que o prazer
esperado não escapasse delas. Não apenas as suas tochas foram supridas com o
que era indispensável para o consumo presente, mas elas contemplavam a
necessidade futura e fizeram provisão com um segundo suprimento. As néscias
estavam prontas se o Noivo viesse cedo; mas se ele viesse tarde, o suprimento
atual de óleo delas poderia não ser suficiente. E essa possibilidade, contra a qual
elas negligenciaram se assegurar, como as prudentes fizeram, comprovou-se ser a
entrada para o desastroso resultado para elas mesmas. Mas foi totalmente
detectável que foi devido à própria imprudência delas, que elas foram excluídas
da festa.
A lição é a mesma para nós. Leitor, armazene como as virgens prudentes o
segundo suprimento de óleo. Busque, sem dinheiro, mas, mesmo assim,
com orações ardentes e importunantes, os dons do Espírito Santo. Compre antes
que você durma em Jesus, porque se você não os tiver antes disso, será tarde
demais. Esteja preparado, não apenas para o presente, mas faça provisão para o
futuro aparecimento de Cristo. E como você não conhece o dia nem a hora disso,
nem se ele vai te achar dormindo ou acordado, esteja preparado para ambos.
O dia da sua vinda fará uma separação entre os crentes prudentes e os néscios. Os
dons do Espírito não são realmente necessários para o presente, mas a parábola
mostra que para uma entrada na câmara das bodas, eles são. Seria essa realmente
a lição da parábola? Quão importante é, então, que nós desejemos
“ardentemente os melhores dons!” Que o crente me permita rogar para que ele
examine as Escrituras e veja se essas coisas são de fato assim.
TraduçãoDelcio MeirelesDâmaris LimaRevisãoEsdras CajaíbaIlustraçãoCaique A Queiroz
Vicentim
[1]Totalmente o contrário daquilo que geralmente é encontrado nos comentários
e exposições.
[2] N. do E: Jarchi, (ou Rashi) como ficou conhecido o rabino Solomon Izaaki,
nasceu em 1040 em Troyes, Champagne, e morreu no dia 13 de julho de 1105.
Ele é geralmente considerado como o criador da moderna escola de interpretação
judaica.
[3] Literalmente seria melhor traduzir: Cânticos sob a inspiração do Espírito
[4]N. do E: Vale lembrar que, como foi dito nas páginas acima, a graça do
Espírito não é só a graça da salvação e da santificação; também há a graça dos
dons miraculosos, os quais de acordo com Paulo em Gálatas 3:5, também são
dados de forma gratuita pela fé. É dessa graça em seu aspecto miraculoso que
Govett fala toda vez que se refere ao óleo extra na vasilha.
[5]N. do E: O leitor deve ficar ciente que este estudo foi escrito por Govett no
século 19.
[6]N. do E: Isso por seguirem muitas vezes a traduções que adicionam um
enfático “Não!” como primeira parte da resposta das prudentes às néscias. A
versão Almeida Revista e Atualizada (ARA), assim o faz em sua tradução do
versículo. A respeitada Tradução Brasileira (TB), que adotamos na tradução para
a língua portuguesa dessa exposição do sr. Govett, está mais de acordo com o
grego literal e com o pensamento do autor.
[7] Caso nos fosse permitido supor que o ímpio ressuscitaria ao mesmo tempo
que o justo.
[8]N. do E: Embora haja uma ênfase na expressão usada em Mateus 7:23 devido
à palavra “nunca”, isso não indica que aqueles a quem essas palavras serão
dirigidas, no dia de Cristo, tratam-se de pessoas ímpias ou perdidas eternamente.
Por isso, embora seja um fato que, exista uma diferença no tratamento que o
Senhor dá a essas virgens em comparação ao tratamento que ele dará aos
incrédulos, a passagem de Mateus 7:23 não está fazendo referência a incrédulos
diante do Senhor Jesus em seu julgamento, como sugerido aqui por Govett. Neste
ponto, minha discordância dele em citar esse versículo como uma referência a
pessoas não salvas se baseia em cinco pontos, os quais são: (1) As palavras
registradas em Mateus 7:23 são parte do Sermão do Monte, o qual foi dirigido
aos discípulos que tinham fé no Senhor (Mt 5:1-2); (2) Os obreiros ali são
chamados de aqueles que “obraram a ilegalidade” (lit. grego), e, portanto, podem
ser chamados de obreiros da ilegalidade. Mas isso é devido a não fazerem a
vontade do Pai celestial, a qual é a norma que rege estreitamente o Reino dos
céus; e, portanto, embora tenham feito obras boas e espirituais, por não terem
feito segundo a direção de Deus, em comunhão com ele, as obras de tais obreiros
não expressaram a vontade específica de Deus para eles. Portanto, ao ferirem a
norma do Reino, as suas obras são vistas como ilegais, apesar de verdadeiras. (3)
Eles se aproximam de Cristo o chamando de Senhor e tendo genuinamente
operado pela autoridade de seu nome sinais e prodígios – um fato que não se
realizou, quando aqueles que não eram crentes genuínos tentaram tal feito em
Éfeso (At 19:13-16). (4) Cristo não negou nenhum dos sinais que eles
fizeram, tampouco negou que eles fossem seus servos repreendendo-os por lhe
chamarem de “Senhor”. (5) O verbo “conhecer” no texto grego. Para aqueles que
pensam que fica evidente nas palavras “Eu nunca vos conheci” o suposto fato de
que eles não eram servos de Cristo, seria proveitoso atentar para a diferença
existente entre os dois verbos gregos, “ginõskõ” e “oida”, traduzidos como
“conhecer” em português. Sobre essa diferença, o Dicionário Vine de hebraico e
grego diz o seguinte: “Enquanto ginõskõ frequentemente implica uma relação
ativa entre aquele que sabe e a pessoa ou coisa conhecida, oida expressa o fato de
que o objeto simplesmente veio dentro do âmbito da percepção do conhecedor;
por conseguinte, em Mateus [Link] ‘Nunca vos conheci [ginõskõ]’, sugere:
‘Nunca tive relacionamento aprovador convosco’, ao passo que em Mateus
[Link] ‘Em verdade vos digo que não vos conheço [oida]’, sugere: ‘Vós não
tendes relacionamento comigo’.” Fica claro através dessa explicação, que o
conhecimento que o Senhor se negou a possuir dos obreiros da ilegalidade,
expressava um conceito de relacionamento íntimo da parte Dele para com as
obras deles, aprovando o que eles estavam fazendo. Ele não tinha com eles esse
relacionamento íntimo e aprovador. O verbo ginõskõ de fato expressa
relacionamento íntimo e aprovador para com alguém, como nos é mostrado em
outros versículos onde esse mesmo verbo é usado neste sentido (Gn 18:19 –
LXX; Jo 10:14; 1Co 8:3; Gl 4:9; 2Tm 2:19;). Então, de modo solene, se
pudermos parafrasear o significado das palavras do Senhor a eles, veremos que
ele quis dizer: “Nessas obras de vocês eu não tive intimidade; e por isso, não as
aprovo e as considero ilegais”. O julgamento do Senhor é para com as obras
deles, e para com a aprovação ou não dessas obras; não é a respeito da
vida eterna ou condenação eterna.