Ricardo Reis
1. Segundo o sujeito poético, os deuses agradecerão a forma suave como ambos vivem
aquele dia (“É tão suave a fuga deste dia,/ Lídia, que não parece que vivemos.”), além de que
os premiarão caso sejam "convivas lúcidos da sua calma" e saibam viver o momento. Deste
modo, ambos receberão as "Olímpicas delícias" e sentir-se-ão "deuses/Imortais", conseguindo
viver afastados "Das terrenas angústias".
2. No texto estão presentes vários recursos expressivos, entre os quais a anástrofe ("É
tão suave a fuga deste dia,/ Lídia, que não parece, que vivemos"), destacando a suavidade do
momento; a metáfora em "Olímpicas delícias", para salientar a magnitude das recompensas
que serão recebidas ao viverem afastados das "terrenas angústias", e ainda a adjetivação,
anteposta e posposta ("suave a fuga", "exilada verdade", "Convivas lúcidos", "coisas
passageiras"), configurando-se a possibilidade de caracterizar os elementos a que se reportam
e, simultaneamente, a valorização que lhe é atribuída, uma vez que a anteposição que confere
um pendor subjetivo..
3. Os princípios epicuristas perpassam por todo o texto poético, uma vez que o "eu"
proclama a vivência calma e serena do momento (carpe díem) e a ataraxia (“Convivas lúcidos
da sua calma,/Herdeiros um momento do seu jeito/ De viver toda a vida /Dentro dum só
momento,”), dado estar consciente da fugacidade da vida; defende a procura da tranquilidade;
revela desconfiança no futuro e a certeza de que uma hora olímpica será alcançada se ambos
se souberem vestir da calma e ser indiferentes às coisas passageiras. (“Imortais pela calma que
vestimos /E a altiva indiferença /Às coisas passageiras”)
Alberto Caeiro
4- Segundo os primeiros quatro versos do poema, a perceção que o “eu” tem da “Natureza”
caracteriza-se “Às vezes” por uma intensidade inesperada: a realidade atinge o “eu” de forma
física e direta (“bate-me a Natureza de chapa / Na cara dos meus sentidos”). A imagem que
abre o poema, funcionando como um símile da perceção da “Natureza” pelo “eu”, torna
particularmente impressivo o caráter físico e avassalador de tal perceção, associada às
sensações de calor e de forte luz solar recebidas “num dia de Verão”, ao abrir a “porta de
casa”. (Essa imagem é particularmente impressiva pelo facto de começar por ser referido o
gesto de espreitar (v. 1-2) que sublinha, por contraste, a violência e a surpresa da sensação
que lhe corresponde.). O “eu” sente-se “confuso”, “perturbado” perante a intensidade da sua
perceção da “Natureza”, que tenta em vão compreender racionalmente. De facto, procura
defender-se do choque que a força da sensação lhe causou, transformando-a numa questão
racionalizável. Como não o consegue, permanece num estado de confusão e dúvida, que as
reticências em final de estrofe sinalizam.
5- A personificação presente nos versos 9-10 tem, entre outros, os seguintes valores
expressivos:
• intensificar a sensação percepcionada;
• atribuir à “Natureza” um papel de fonte de sensações;
• expressar uma relação física e directa entre o”eu”e a “Natureza”;