Resumo
Ética é uma área da filosofia que busca problematizar as questões
relativas aos costumes e à moral de uma sociedade, sem recorrer ao
senso comum. A ética tenta estabelecer, de maneira moderada e com
uma visão questionadora, o que é o certo e o errado e a linha, muitas
vezes tênue, entre o bem e o mal. A ética está intimamente ligada à
moral e consiste numa importante ferramenta para o bom convívio
entre as pessoas e para o bom funcionamento das relações e das
instituições sociais.
Ética é sempre coletiva
MARIO SERGIO CORTELLA
O filósofo grego Platão, no livro sétimo da obra A república traz o mito da caverna, em que
diz que nós, humanos, vivemos aprisionados no fundo de uma caverna, olhando para a
parede, com a entrada às nossas costas. Tudo o que é verdadeiro acontece lá, porém, a luz
do sol projeta a sombra. Como estamos amarrados de frente para a parede, achamos que a
sombra é a coisa verdadeira. No campo da ética, isso acontece também. As pessoas se
contentam com as aparências: a aparência da honestidade, a aparência da decência, a
aparência da sinceridade.
Aliás, nós somos capazes de ficar por trás falando, o que os gregos chamavam de hipócritas
– aqueles que ficavam ocultos, dizendo as falas sem aparecer, da onde vem a ideia de
hipocrisia, aquilo que não se mostra, que fica na sombra. A ideia de revelar, de retirar a
sombra é necessária no campo da ética. E nós somos o único animal capaz de perguntar se o
que fazemos é correto ou incorreto. E isso é ética. A ética é o conjunto de princípios e
valores que usamos para decidir a nossa conduta social.
Só se fala em ética porque homens, mulheres vivemos em coletividade. Se eu fosse sozinho,
não existiria a questão da ética. Afinal, ética é a regulação da conduta da vida coletiva. Se
só existisse um ser humano no planeta, o tema da ética não viria à tona, porque ele seria
soberano para fazer qualquer coisa sem se importar com nada. Como vivemos juntos e
juntas, precisamos ter princípios e valores de convivência, de maneira que tenhamos uma
vida que seja íntegra, dos pontos de vista físico, material e espiritual.
A moral é a prática, portanto, existe moral individual. A ética é o conjunto de princípios de
convivência, portanto, não existe ética individual. Existe ética de um grupo, de uma
sociedade, de uma nação.
O que é ética para a filosofia?
Mais do que um simples corretor de posturas e atitudes das pessoas, a
ética é um saber antigo ligado à filosofia. Quando o filósofo grego
antigo Sócrates iniciou a sua jornada filosófica, que deu origem ao
chamado período antropológico ou socrático da filosofia grega, as
atenções filosóficas saíram da natureza e da cosmologia e passaram a
centrar-se nas ações humanas e no que resulta delas. Após Sócrates, a
filosofia passou a interessar-se por temas relacionados à vida em
sociedade, à política e à moral.
Aristóteles foi o primeiro pensador a sistematizar a ética.
Com a problematização acerca da moral e do convívio das pessoas,
surgia a chamada filosofia moral, que mais tarde ficaria conhecida
como ética. A ética foi sistematizada pela primeira vez pelo filósofo
grego antigo Aristóteles, que formulou uma teoria ética baseada em
uma espécie de guia moral das ações que visava sempre, na visão do
filósofo, o alcance da felicidade.
Os filósofos helenistas, como epicuristas, cínicos e estoicos, também
apresentaram visões de vida que podem ser reconhecidas como
modelos éticos, porém são modelos de ética prática, pois tais teóricos
ultrapassaram a especulação intelectual da filosofia e partiram para
uma visão prática da ética, voltada para as ações cotidianas.
Durante a escolástica, a questão da ação humana para a filosofia
deveria subordinar-se à vontade de Deus, e, por muito tempo, não
houve grande modificação nos estudos sobre ética. Foi Nicolau
Maquiavel quem marcou o Renascimento em relação à ética e moral,
ao propor uma teoria do poder que, na prática, dissociava ética de
política.
Os estudos sobre ética somente ganharam novo fôlego no fim
da Modernidade, no período iluminista da Europa, em que questões
políticas voltaram ao centro do debate e a ética veio como uma
necessidade para controlar as ações das pessoas em meio a tantas
revoluções na sociedade.
É nesse período em que o filósofo iluminista alemão Immanuel
Kant escreveu o seu livro Fundamentação da metafísica dos costumes,
apresentando uma teoria ética milimetricamente pensada: um sistema
complexo baseado no dever, sendo que uma ação somente é ética se
ela estiver de acordo com o dever e for empenhada pelo dever.
O sistema ético kantiano não admitia qualquer desvio da norma como
ação moralmente válida, e o guia para encontrar a ação moralmente
correta era o que o filósofo chamou de imperativo categórico. Para
Kant, o ser humano deve fazer um exercício antes de agir. Esse
exercício simples consiste em pensar se aquela ação pode ser
considerada boa ou correta em qualquer situação em que ela for
empenhada. Se a resposta for sim, então é uma ação moralmente
correta. Se a resposta for não, é uma ação moralmente condenável.
Outras teorias éticas surgiram no século XIX para explicar a questão
da moral e da ética, entre elas o utilitarismo, criado pelo filósofo e
jurista inglês Jeremy Bentham e finalizado pelo filósofo inglês John
Stuart Mill. O utilitarismo afirma que a moralidade de uma ação não
está na ação em si, mas em sua finalidade e nos resultados dela.
Nesse sentido, ações que, a princípio, são moralmente condenáveis,
como a mentira e o furto, podem ser consideradas moralmente aceitas
se forem praticadas visando um bem maior.
O que é ser ético?
Mesmo com a distinção entre ética e moral, muitas vezes ser ético
significa agir de acordo com a moral. No entanto, nem sempre a moral
está correta, sendo a ética aquela que pode verificar a validade das
ações morais. As pessoas esperam fórmulas prontas que apresentem
de maneira mastigada o que é ser ético. No entanto, a ética é
constituída por vários elementos e várias regras que precisam ser
pesadas e avaliadas para que o indivíduo ético seja reconhecido.
Ser ético, no fim das contas, é agir bem, buscando fazer o certo, não
se desvirtuando e não causando prejuízo a outrem. Para podermos
começar a pensar no que é ser ético, basta que nos atentemos para as
nossas ações e o impacto delas no meio. A minha ação prejudica
outras pessoas? A minha ação prejudica o coletivo em detrimento do
meu lado individual e pessoal? A minha ação é correta em relação às
normas locais? A “balança” moral de uma pessoa é o seu senso ético,
que é capaz de dizer se as suas ações são condenáveis ou não.
Veja mais: Valores morais e sua importância para a sociedade
A ética profissional consiste na aplicação da conduta ética no mundo
corporativo e profissional.
Nesse caso, por tratar-se de uma especificação da ética em relação a
um recorte da sociedade, fica mais fácil definir o que estamos falando.
Se a ética é um conjunto de saberes que procuram definir o que é certo
e errado com base na análise da moral, a ética profissional é
a aplicação desses saberes no campo do exercício da atividade de
profissionais, ou seja, daqueles que exercem profissões.
Nesse sentido, a ética profissional pode (e deve) ser aplicada, por
exemplo, por médicos, professores, vendedores ou quaisquer
profissionais no exercício de seus ofícios. Aplicar a ética, nesses
casos, significa agir com lisura, respeitando as leis, os códigos
específicos da profissão, e manter uma conduta ilibada, não
prejudicando a outrem por meio de seu exercício profissional nem
agindo apenas visando unicamente o benefício próprio.
A ética na história da Filosofia
Os estudos de ética (tal como a conhecemos hoje, ou seja, um campo
do saber filosófico que estuda a moral para então determinar como a
sociedade deve agir) surgiram ainda na Antiguidade clássica,
precisamente com Aristóteles, em seu livro Ética a Nicômaco. Porém,
considera-se de extrema importância histórica para o surgimento da
ética outro pensador grego, Sócrates, o eterno questionador.
Sabe-se que Sócrates saía pelas ruas de Atenas interrogando as
pessoas sobre o que seriam valores da vida cotidiana, e muitas vezes
esses questionamentos diziam respeito a valores morais, tais como o
“bem” e a “virtude”. Suas conclusões eram sempre previsíveis: as
pessoas não sabiam a verdade a respeito de tais valores, pois sempre
acabavam respondendo insatisfatoriamente e contradizendo-se.
Tudo o que os cidadãos atenienses sabiam advinha da moral cultural
herdada socialmente, o que caracterizava um conhecimento de certo
modo dogmático, não questionado, preconceituoso e, muitas vezes,
irracional.
A ética sofreu diversas modificações ao longo da história, o que
culminou em perspectivas diferentes para se tratar a moral e resultou
também em diferentes correntes éticas. Dessas, as três fundamentais a
um curso de ética para o ensino médio são
o eudaimonismo (ou eudaimonia), a deontologia e o utilitarismo, e
neste texto há um pouco sobre cada um desses temas.
Aristóteles foi um dos primeiros filósofos a desenvolver um
pensamento sistemático sobre a ética.
→ Eudaimonismo
Em Aristóteles, percebemos peculiaridades muito interessantes que
esboçam o contorno geral de sua filosofia moral, a saber,
primeiramente a introdução da práxis (prática), que se distingue dos
estudos anteriores pelo fato de não estar ligada apenas a um plano
racional, mas deve recorrer à ação prática humana (isso está presente
na ética e na política).
Em segundo lugar, pelo fato de seu sistema ético ser teleológico|1|, o
que abre as portas para que utilizemos a noção de eudaimonia para
caracterizar sua obra moral. Antes de coçarmos nossas cabeças e nos
perguntamos o que é isso, explicarei tal
conceito. Eudaimonismo ou eudaimonia é uma palavra de origem
grega formada a partir do vocábulo Daemon (deus, ou gênio,
intermediário entre os homens e as divindades superiores e que
deveria guiar o caminho dos homens) e diz respeito a uma doutrina
que prega a felicidade como fim último da vida humana.
Segundo Aristóteles, a felicidade é um princípio e é visando à
felicidade que agimos. A busca pela felicidade, porém, não dá ao
homem a plena liberdade de ação, pois esta deve estar em
conformidade com a felicidade dos outros. Para sermos precisos,
devemos entender o que o filósofo entende por felicidade.
A felicidade deve estar em conformidade com a boa vida e esta nada
mais é que a vida contemplativa, ou a vida do filósofo. Não somente
para Aristóteles, mas para todos os gregos, o trabalho não era
considerado algo bom, por isso, na organização social grega, ele era
reservado aos não cidadãos (mulheres e escravos) e aos cidadãos de
menor importância (artesãos).
Nessa hierarquia, logo acima dos que trabalhavam, estavam os
soldados; depois, os políticos; e, finalmente, acima de todos, estava o
filósofo, que deveria concentrar toda a sua energia nas atividades de
contemplação do intelecto, do espírito humano, ou seja, deveria
concentrar-se no conhecimento. Por isso, podemos chamar o
eudaimonismo aristotélico de intelectualista, pois colocou como
finalidade da vida humana a busca pela contemplação do
conhecimento.
Acesse aqui: Bioética: a ética aplicada às pesquisas científicas e
médicas
→ Deontologia
Na modernidade, temos pensadores que seguiram a base teleológica
do pensamento aristotélico, mas a grande novidade veio no século
XVIII, com o filósofo alemão Immanuel Kant e sua ética do
dever, denominada mais tarde por deontologia|2|.
Kant, o idealizador do imperativo categórico.
Para iniciarmos nesse autor, temos que analisar o título de seu
principal livro sobre o assunto: Fundamentação da Metafísica dos
Costumes. Trata-se de um estudo da origem ou da fundamentação de
algo transcendente, que se encontra fora do plano físico, portanto em
um plano puramente racional e que independe das situações práticas
do cotidiano humano dos costumes morais.
A partir dessa análise, já deduzimos que a ética kantiana não abre
brecha para interpretações de ações morais práticas visando a
finalidades, impondo um sistema que existe no cotidiano, mas
independe dele, pois é um sistema universal do dever que se encontra
em um plano puramente racional e que define claramente o que é
certo e o que é errado.
Kant nomeou esse plano da ética de razão prática. Aqui os indivíduos
devem agir por dever, pois o dever possibilita que uma ação seja
moralmente correta. Esse dever deve estar aliado à liberdade, ou
seja, à vontade, deixando claro que toda ação moralmente correta deve
conter uma vontade de praticar o dever (vontade de fazer o que é
certo).
Isso implica também que as ações morais devem sempre pensar na
humanidade, tendo como fim um bem para a humanidade, caso
contrário (caso utilize a humanidade ou qualquer ser humano como
um meio para atingir outro fim), a ação não será moralmente correta.
Isso é denominado imperativo categórico, e todo esse aparato
oferecido por Kant determina, por exemplo, que a mentira não pode
ser moralmente correta em qualquer situação. O imperativo
categórico kantiano pode ser formulado da seguinte maneira: agir de
modo que a sua ação se torne universal, ou seja, valha para todos em
qualquer situação, sem exceções.
→ Utilitarismo
Agir sempre de forma a produzir a maior quantidade de bem-estar é a
principal máxima utilitarista. Como doutrina ética, o utilitarismo,
corrente ética criada pelo filósofo, jurista e economista inglês Jeremy
Bentham e pelo também filósofo inglês John Stuart Mill, propõe
um sentido inteiramente prático para a ética, no sentido de que,
antes de agir, o autor de uma ação moral deve analisar a situação e
desenvolver uma espécie de cálculo utilitário.
Bentham foi o primeiro formulador da teoria utilitarista da ética.
Tal cálculo visa a fornecer ao agente uma resposta para a pergunta:
qual ação provocará o maior benefício ao maior número de pessoas e
o menor prejuízo ao menor número de pessoas? A resposta a essa
pergunta deve então guiar a ação moral, tornando o utilitarismo uma
ética consequencialista, ou seja, que foca nas consequências das
ações, e não nas próprias ações. O utilitarismo, enquanto ética das
consequências, rejeita a noção kantiana de ética baseada no
imperativo categórico e visa apenas ao fim, à consequência de uma
ação moral.
Notas
|1|Teleológico refere-se a telos, palavra de origem grega que significa fim, finalidade. Nesse caso,
podemos dizer que a ética aristotélica propõe ações práticas que apontam para uma finalidade da
ação moral.
|2| Deontologia, do grego deon, dever e logos, organização racional, ciência.
Por Francisco Porfírio
Professor de Sociologia
Gostaria de fazer a referência deste texto em um trabalho escolar ou
acadêmico? Veja:
PORFíRIO, Francisco. "Ética"; Brasil Escola. Disponível em:
[Link] Acesso em
04 de fevereiro de 2021.
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DIFERENÇA ENTRE ÉTICA E MORAL
Clique aqui para saber quais são as diferenças e semelhanças entre ética e moral, conceitos muito
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