Memorial do Convento - José Saramago
Ação, tempo, espaço, personagens, narrador
Temáticas
Classificações tipológicas
Simbologias
Ação
Construção do convento de Mafra (Personagem principal: povo)
Construção da Passarola (Personagens principais: Baltasar, Blimunda e padre
Bartolomeu Lourenço)
História de Baltasar e Blimunda (Personagens principais: Blimunda e Baltasar)
Tempo
17 Nov.
(1624) 1711 1730 1739
1717
21 Out
Quiseram a Data da – desaparecimento Blimunda
Início Baltasar
construção do inauguração encontra
da
convento do convento 22 Out Baltasar a ser
ação
de Mafra – Inauguração do queimado
convento
Duração da ação – 28 anos
Baltasar - 26 Baltasar - 54
anos anos
Blimunda - 19 Blimunda -
anos 47 anos
Espaço
Mafra/Lisboa (Rossio e S. Sebastião da Pedreira)
Memorial do Convento é uma história cíclica porque Baltasar e Blimunda conhecem-se num
auto-de-fé e encontram-se pela última vez noutro auto-de-fé.
Temáticas
Amor (D. João V e D. Maria Ana/Baltasar e Blimunda)
O sonho
O religioso (Inquisição, Autos-de-Fé, Procissões) vs. o profano (Entrudo, touradas)
Crítica social, política e religiosos
Os verdadeiros construtores do convento
Classificação tipológica da obra
Memorial do Convento não pode ser considerado um romance histórico no verdadeiro
sentido da palavra na medida em que nela se entrelaçam a verdade e a verosimilhança, o
objetivo e o subjetivo, o real histórico e o real “ficcionado”. Deste modo, é-nos apresentada
uma reconstituição histórica através da recriação de ambientes próprios da época, em jeito
de crónica de costumes, com recurso, tanto quanto possível, à linguagem da época, à
reconstituição pormenorizada de vestuários, usos e costume. Convém também lembrar a
interação entre personagens históricas e personagens ficcionadas. Assim, Memorial do
Convento é um romance que se aproxima da classificação de Romance Histórico, embora,
tendo em conta o atrás exposto, também se possa falar de Romance de Espaço Social, uma
vez que somos confrontados com a sátira sobre o Portugal da primeira metade do séc. XVIII
(1711/1739). Verifica-se uma preocupação co a realidade social exercida sobre os operários
e a apresentação dos modos de viver, ser e estar de uma época através dos quadros como
as procissões, os autos-de-fé, as touradas, a vida nos conventos, entre outros.
Cap. X – Comparação entre os dois amores
D. João V e D. Maria Ana (Cap. I)
Casamento aristocrático, material para servir interesses políticos
Objetivo – conceber herdeiros para assegurar a descendência real
Sem amor
Mulher vista apenas como função de procriar
D. João V, infiel, adúltero
Relação superficial
D. Maria Ana desfrutava da relação, era submissa e sonhava com o cunhado D.
Francisco, irmão do Rei.
Baltasar e Blimunda (Cap. V)
Conheceram-se num auto-de-fé
Um amor ao acaso
Não havia infidelidades
Apenas conviviam
Casamento espiritual, não religioso apesar de ter sido abençoado pelo padre
Amor verdadeiro e sincero
Personagens
D. João V
À partida poderia parecer que era ele o herói do Memorial mas tal não acontece porque à
medida que o narrador vai falando do Rei, vai tecendo juízos de valor e comentários críticos
que não enaltam a sua figura como Rei. Este surge com uma faceta múltipla e contraditória.
Assim se por um lado é o beato fanático que assiste aos autos-de-fé e outros
acontecimentos religiosos e desvia os dinheiros públicos para alimentar as suas fantasias e
desejos de grandeza bem como por outro lado é p Rei curioso pelas descobertas científicas,
protetor das artes, tentando por o país a par das transformações que ocorriam na Europa
contrariamente é um Rei absolutista e autoritário que não olha a meios para atingir os seus
fins, abusando do seu poder. É infantil e inconsequente, casa por obrigação e compromisso
real. Mantem relações fora do casamento, sobretudo com freiras, desrespeitando assim as
leis da sagrada igreja.
D. Mariana Ana
Encara o papel da esposa submissa, fútil e superficial, que tenta a todo o custo dar herdeiros
à coroa, cumprindo assim o objetivo político do seu casamento. Apesar de não lhe ser dada
grande importância dentro da obra, Saramago tenta humaniza-la e torna-la mais agradável
ao olhar do leitor quando revela que, como qualquer mulher normal que não é feliz no
casamento, tenta sê-lo através dos sonhos.
Baltasar
É a figura central do romance e aparece, no início deste, com 26 anos, vindo da guerra de
Espanha, escorraçado por já não ter a mão esquerda, não servindo para nada.
Simbolicamente representa a metáfora da mudança e da evolução do ser humano em
direção da sua plena realização. O sete é simbólico no seu nome, bem assim como o Sol, é o
sete da plenitude, é o sete da formação do mundo, são os sete dias da semana, sete
representa cada período lunar, sendo 28 a completude da lua (7x4=28) e 28 é o numero de
anos que dura a ação do romance, desde a sua chegada a Lisboa, em 1711, até à sua morte,
em 1739, altura em que Blimunda o encontra a ser queimado num auto-de-fé, ao fim de 9
anos de procura é a sua sétima passagem por Lisboa.
Com Blimunda viveu um amor pleno, puro, verdadeiro e cúmplice, à margem das regras e
convenções sociais e religiosas, mas ausente de qualquer mancha de pecado.
Com o Padre Bartolomeu atinge a sua plena realização enquanto ser humano, atingindo
também a dimensão espiritual e divino ao voar na passarola.
Com o padre e com Blimunda forma a trindade terrestre, uma trindade perfeita, à qual mais
tarde se junta um quarto elemento. Domenico Scarlatti, conseguindo-se a plenitude
absoluta.
Blimunda
Quando inicia o romance tem 19 anos É um elemento mágico, de grande espiritualidade que
consegue ver por dentro das coisas e das pessoas, permitindo-lhe compreender a essência e
as verdades mais profundas do mundo. As suas capacidades como vidente conferem-lhe
uma sabedoria muito própria, cheia de sensualidade e amor verdadeiro que partilha com
Baltasar.
Está presente no auto-de-fé, participa no projeto da passarola, partilhando o sonho de
Bartolomeu com Baltasar, recolhe as vontades e procura incessantemente o seu homem.
A sua relação com Baltasar é predestinada, ultrapassando as regaras e os códigos
estabelecidos; a atribuição do nome de sete-luas associa a simbologia do número sete à da
lua, complementar do sol, com quem forma a plenitude.
Ela apresenta-se sob múltiplas facetas: ela é a mágica, a vidente, a sábia, a mulher do povo, a
inseparável companheiro do seu homem, a única sobrevivente da trindade,…
O projeto da passarola, através a recolhas das vontades, só possível pelas suas
características de vidente, permite-lhes dar um sentido positivo ao seu dom, visto
negativamente e condenado pela igreja.
Comentário ao excerto do capítulo XI – Páginas 130/131
Neste excerto o padre Bartolomeu Lourenço regressa da Holanda, com a resposta ao que é
o éter. Nos seus estudos fia a saber que não é o que realmente pensava e que não é algo
que se possa ensinar. O éter é na verdade algo que vive dentro dos homens, não a alma
como pensou Baltasar, mas sim as vontades dos vivos, que pode ser separada do homem
estando ele vivo, ou a separa dele a morte.
É da vontade do homem que o padre necessita para que a passarola possa voar, para tal
pede a Blimunda que as recolha, ao que esta afirma não saber como é. O padre diz-lhe que
veja Baltasar por dentro, mas Blimunda recusa-se, vê então o padre a pedido do mesmo, ao
que afirma “Graças a Deus, agora voarei”.
Retratamos aqui a temática do sonho, o sonho da criação da passarola, sonho esse que
apenas será possível concretizar com as vontades do homem, vontades essas que na obra
são recolhidas por Blimunda no auto-de-fé. Vemos neste excerto que podemos ter tudo
para realizarmos o nosso sonho, mas o mais importante é a vontade e fé para lutar por ele.
“Onde couber uma, cabem milhões, o um é igual ao infinito”.
Um sonho é sempre um objetivo pessoal que temos na vida, um objetivo para o futuro, pelo
qual não devemos desistir.
TÓPICOS EM FALTA NO COMENTÁRIO AO EXCERTO
Todos os seres humanos têm sonhos, mas nem todos os sonhos são realizados, pois
nem todos têm vontade.
O valor da amizade / O valor da família (Diferença)
Diferença entre alma e vontade. A alma nasce e morre connosco, enquanto que a
vontade pode desprender-se de nos caso não tenhamos força para prosseguir com
os nosso sonhos. A vontade não nasce connosco, nos é que a temos de procurar. A
vontade nunca é demais.
A temática do sonho – a construção da passarola
(Personagens: Padre Bartolomeu, Baltasar, Blimunda, Domenico Scarlatti)
Encontro do Padre Bartolomeu com Baltasar, no auto-de-fé, em Lisboa (Rossio) em
26 Julho de 1711 (Cap. V)
João Elvas informa Baltasar do apelido do padre – O Voador. Baltasar inquira o
Padre sobre a razão do seu apelido de voador. (Cap. VI)
O Padre confidencia a Baltasar o segredo da máquina e vão a S. Sebastião da
Pedreira.
Proposta/convite de trabalho de Bartolomeu e Baltasar (Construção da passarola).
(Cap. VI)
Baltasar e Blimunda mudam-se para S. Sebastião da Pedreira para estarem perto da
máquina (Cap. IX) – o padre viaja para Holanda para trazer o éter.
Em virtude de ainda não haver a certeza do voo da máquina, param-se os trabalhos e
Baltasar e Blimunda vão para Mafra. (Cap. IX)
O padre regressa da Holanda com o “éter – afinal, o que faz voar a passarola são as
“vontades”. (Cap. XI)
O padre vai para Coimbra mas antes distribui tarefas – quando ele mandar “irão os
dois para Lisboa, tu (Baltasar) construirás a máquina, tu (Blimunda) recolheras as
vontades”. (Cap. XI)
Baltasar e Blimunda partem para Lisboa a pedido do padre. (Cap. XII)
Continuação da construção da passarola. (Cap. XII)
Recolha de vontades na procissão do corpo de Deus. (Cap. XIII)
O padre revela a Scarlatti o segredo da máquina. - Ida a S. Sebastião da Pedreira
onde o padre apresenta a máquina e a tríade. (Cap. XIV)
Blimunda finaliza a recolha das vontades durante a epidemia – doença de Blimunda
e cura com a música de Scarlatti. (Cap. XV)
O padre é perseguido pelo santo oficia o que leva à fuga da tríade na passarola.
Aterragem forçada na serra do Barregudo, no Monte Junto. (Cap. XVI)
↓
Importância da vontade do ser humano na concretização dos sonhos e a questão do valor da
amizade (os esboços do padre + o trabalho físico de Baltasar + dimensão espiritual de
Blimunda na recolha das vontades) – esforços conjugados na concretização do sonho de
todos.
Implicações simbólicas – engrandecimento do ser humano que atinge outra dimensão para
além da terrestre.
Personagens
Padre Bartolomeu de Gusmão
Para além de padre, foi também um cientista e um visionário, atormentado sempre por
grandes dúvidas de carácter religioso, foi perseguido pela inquisição por suspeita de
bruxaria. Foram estes aspetos que levaram à criação de uma personagem lendária que
representava o sonho de liberdade do ser humano, o sonho de se transcender e de
ultrapassar os limites do homem. Para tal, junta o seu saber ao trabalho manual de Baltasar e
à magia e espiritualidade de Blimunda, apoiados pela música de Scarlatti – a vontade de
todos levou ao voo da passarola. Simbolicamente este padre representa um ser dividido
entre a religião e a curiosidade/paixão pela ciência levando-o a descrer dos dogmas da
igreja, a ser perseguido e morto. Mitologicamente podemos compara-lo com Prometeu*.
Podemos concluir que o voo da passarola surge aqui como uma espécie de trampolim que,
aliado às virtudes, projeta o ser humano para uma outra dimensão fora da terrestre. A
vontade divina foi substituída pela vontade humana, ascendendo o homem à categoria de
um Deus.
Prometeu* - É a figura mitológica que roubou o fogo aos Deuses para o dar aos homens. O
homem simboliza o conhecimento e a vida que deveria ser apenas obra de deus. Por tal
atrevimento, Deus/Júpiter castigou-o e acorrentou-o a um rochedo sendo o seu fígado
diariamente devorado por uma águia. Este ato de Prometeu simboliza a revolta e a
constante insatisfação do homem que procura sempre igualar-se ao divino apoiado numa
vontade interior muito grande. Moral da história: Todo aquele que tenta ultrapassar os seus
limites e conquistar outros elementos (ar, água, fogo) que não o seu (terra) sofrerá sempre
um castigo.
Domenico Scarlatti
A música é a mais aérea de todas as artes conhecidas e vem, através de Scarlatti integrar a
realização plena da passarola acrescentando-lhe a componente estética que lhe faltava. A
convite do padre Bartolomeu é aceite pela tríade, passando a acompanhar com regularidade
o processo de construção acompanhando com música. A música é muito importante
também porque ajuda na recuperação de Blimunda e é um dos elementos que ajuda a elevar
a passarola nos ares juntamente com as vontades. Na obra, Scarlatti simboliza a
transcendência que vem da música que, aliada ao dom de Blimunda, constitui a maravilha da
obra. É a música que permite entender o sonho. Partilha o segredo com a tríade e morre
metaforicamente depois de ajudar a máquina a voar quando destrói o cravo atirando-o para
dentro de um poço.
Temática do sonho – a construção do convento
Desejo dos franciscanos desde 1624 de ter um convento em Mafra. (Cap. II)
Promessa do Rei (Cap. I)
Confirmação da promessa do Rei apesar de decepção. (Cap. VII e IX)
Decisão do dia da inauguração. (Cap. VIII)
Escolha do local para a edificação do convento – Auto da vela em Mafra. (Cap. XIII)
Expropriação de terrenos e início da preparação dos terrenos. (Cap. X e XI)
Lançamento da primeira pedra. (Cap. XII)
Discurso das obras de construção/azáfama e lentidão dos trabalhadores.
Transporte da pedra-mãe - o povo (personagem principal). (Cap. XIX)
Recrutamento de homens por todo o reino para trabalhar em Mafra. (Cap. XXI)
Inauguração do convento (22-10-1730) – dia do 41º aniversário do Rei (Cap. XXIV)
A construção do convento surge associado à figura do Rei como o principal responsável da
obra, no entanto a sua figura é ridicularizada porque a única obra que ele consegue de facto
construir é uma miniatura da basílica de S. Pedro de Roma com pedacinhos de madeira.
O trabalho de construção da passarola é diferente do trabalho de construção do convento
porque o objetivo principal da obra é contar a história das relações do homem com o seu
objeto de trabalho, com o sei produto e com o sonho. Assim,
↓
Construção da passarola
Ação – Aliada ao sonho – o resultado da obra não é indiferente aos trabalhadores da mesma
que crescem à medida que vão realizando a obra.
Construção do convento
Ação – Alienado do sonho – o resultado da obra é indiferente aos trabalhadores, não é o
sonho deles (os trabalhadores aniquilam-se e sofrem).
POVO – Herói pícaro coletivo (Cap. XVIII, XIX, XXI)
9 Aquele que tem que andar de um lado para o outro para sobreviver
Oposto à classe dominante, surge este povo anónimo coletivo, trabalhador que construiu o
Convento de Mafra à custa de muito esforço, sofrimento, sacrifício e mortes. O narrador
define-o pelo seu trabalho, pela sua miséria física e moral, pela sua devoção e humildade, e é
este povo o verdadeiro construtor do convento que alimentou a megalomania do Rei e
concretizou o sonho deste. Não há diferença entre tijolos e homens, estes são apenas a
massa bruta que trabalha. Vemos os homens a escavar os alicerces, a arrotear terras, a
transportar pedras, a erguer paredes, a abrir caboucos, apinhados, sujos, miseráveis,
agrilhoados. Alguns, por desejo do autor, ganham rostos e nomes, tais são os casos de
Francisco Marques, José Pequeno, Manuel Milho, Joaquim da Rocha, João Anes, Baltasar
Mateus … Todos estes ganham individualidade e é-lhes concedida, aqui na obra, a
importância que a História lhes retirou. No entanto este facto que confere ao povo algum
valor, não impede o narrador de criticar esta personagem coletiva e de mostrar todos os
podres físicos e morais e a sua ignorância. Nesta parte é o povo estúpido e fanático que
assiste deliciado aos autos-de-fé gozando e atirando imundices aos que vão ser queimados.
“Aquela gente que esta cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundices” (Cap.
V)
Quando o narrador deixa de ser omnisciente, passa a contar a história como se fosse uma
das personagens, portanto só pode ser interno.
Na obra, temos um narrador plurivocal que descreve paisagens, situações, acontecimentos,
factos, ambientes, estados de alma, que apresenta a sua opinião exprimindo juízos de valor,
refletindo, comentando e ironizando, que usa e reinventa provérbios e ditados populares,
que faz referencias a obras e a autores, que domina a história em todos os seus aspectos,
que recorre no discurso escrito a marcas constantes da oralidade, que fala de factos
comprováveis e fidedignos ou que por e simplesmente os inventa. É um narrador
conhecedor da época, intimo da corte, personagem, testemunha, observador, critico do
presente, contemporâneo do leitor, a voz do próprio Saramago,…
Temáticas:
O amor – casamento, a construção do convento
O sonho de voar
A religiosidade da época (procissões, autos-de-fé, casamentos, funerais – Infante D.
Pedro e sobrinho de Baltasar
Atos profanos, ou não religiosos (ex.: festas do entrudo e touradas)
A riqueza da coroa e do clero vs. miséria do povo
Acontecimentos esporádicos (casuais – a peste, epidemia)
Vertentes: Religiosa, histórica, económica, sócia
Tempo da história ou tempo histórico – época de D. João V entes 1711 e 1739;
Tempo do discurso – tempo do narrador onde podemos encontrar elipses (omissão do
tempo que se passou) – 9 anos que nada se sabe;
Resumos, analepses (momentos passados no tempo) e prolepses (avanços no tempo) Ex.:
Terramoto de 1730, revolução de Abril 1724, e os cinemas e aviões que ainda não surgiram.
Estilo e Linguagem – Excerto Cap. XXV
“Milhares de léguas andou Blimunda … num farol de nevoeiros” (última página)
Ex.: Comparação – “tornou-se espessa, ferida como uma cortiça.”
“Portugal inteiro esteve debaixo destes passos” – Metáfora/Sinédoque
“Algumas vezes atravessou a raia de Espanha porque não via no chão qualquer risco a
separar a terra de lá da terra de cá.” – Ironia/Antítese/Repetição
“Não se lembra de mim, chamavam-me Voador” – Inexistência de pontos de interrogação
“Ai pobrezinha” – diminutivo/registo de língua popular
“Sobre a sua mão outra mão se pousava” – Aliteração
“Cardumes de cristal e prata” – metáfora
“Sob as águas escuras do rio” – Adjetivação
“Como um farol de nevoeiros” – comparação
“Foi das praias e das arribas do oceano à fronteira, depois recomeçou a procurar por outros
lugares, por outros caminhos” – progressão
“Em dois anos foi das praias e das arribas... Onde nasceu” – Gradação
“Praias, arribas, oceanos”; “Archotes, fumo negro, fogueiras” – Enumeração
“Dorsos escamosos e lisos” – Dupla adjetivação
Simbologia
Três
De acordo com a numerologia simbólica, podemos constatar, que ambos os nomes (Baltasar
Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas) representam perfeição, totalidade e até magia, sugeridas
pela extensão trissílaba (e aqui reside a simbologia do número três, revelador de uma ordem
intelectual e espiritual traduzida na união do céu e da terra).
Quatro
O número quatro está associado à transgressão religiosa já que a junção de um quarto
elemento, Domenico Scarlatti, faz com que se deixe o número divino (três) para se passar ao
símbolo da totalidade e à imagem da Terra.
Quatro são as fases da Lua, cujo ciclo influencia a vida de Blimunda Sete-Luas, que quando é
Lua Nova pode estar em jejum sem que veja o interior das coisas.
Numero Sete
Data e hora da sagração do convento; sete anos vividos em Portugal pelo músico Scarlatti;
sete vezes que Blimunda passa por Lisboa à procura de Baltasar; sete igrejas visitadas na
Páscoa; sete bispos que batizaram Maria Francisca; sete sóis de ouro e de prata colocados
no altar-mor.
A sua presença, no nome de Blimunda e Baltasar, tem um significado dual, uma vez que se
liga à mudança de um ciclo e renovação positiva.
Nove
Representa a gestação, a renovação e o nascimento.
O número nove surge a simbolizar insistência e determinação quando Blimunda procura
Baltasar durante 9 anos. Este número encerra também simbolicamente a ideia de procura
pois, o que realmente acontece a Blimunda após os 9 anos de busca é que reencontra
finalmente Baltasar, não como um encontro físico, mas místico e completo.
Sol
Associado a Baltasar e ao povo, sugere a ideia de vida, de renovação de energias (o povo
trabalha até à exaustão no convento, Baltasar constrói uma máquina, mesmo depois de
amputado).
Como o Sol, que todos os dias tem de vencer os guardiães da noite (mitologia antiga),
também Baltasar vence as forças obscuras da ignorância e da intolerância ao voar.
Lua
Símbolo do ritmo biológico da Terra, traduz a força vital que é representada pelas vontades
recolhidas por Blimunda para fazer voar a passarola.
Tradicionalmente a Lua simboliza, por não ter luz própria, o princípio passivo do sol. No
entanto, a obra revoluciona o conceito da Lua ao dar a Blimunda capacidades sobrenaturais
que dependem das fases da lua, tornando-a tão relevante como o sol. Sol e Lua: simboliza a
união como um todo, porque são o verso e o reverso da mesma realidade, o dia.
Passarola
Traduz a harmonia entre o sonho e a sua realização. Graças ao sonho, foi possível juntar a
ciência, o trabalho artesanal, a magia e a arte, para fazer a passarola voar.
Simboliza o elo de ligação entre o céu e a terra. É tanto o símbolo da concretização do
sonho, representando assim também a libertação do espírito e a passagem a outro estado de
consciência, uma vez que que esta é igualmente um símbolo da ligação do céu e da terra,
pois ousa sair do domínio dos homens e entrar no domínio de Deus. Por outro lado é um
símbolo dual, pois é por sua causa que nasce a Trindade terrestre, mas também é o motivo
de separação desta.