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O Vampiro Antes de Drácula

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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O vampiro antes

de Drácula

Organização, tradução e notas


Martha Argel e
Humberto Moura Neto

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Textos de apresentação, introdução, posfácio e apêndices
Copyright © Martha Argel e Humberto Moura Neto, 2008
Copyright © Editora Aleph, 2008
(edição em língua portuguesa para o Brasil)

CAPA: Delfin
ILUSTRAÇÃO DE CAPA: Thiago Ventura
Luiza Franco
PREPARAÇÃO DE TEXTO: Ana Cristina Teixeira
REVISÃO: Tânia Rejane A. Gonçalves
PROJETO GRÁFICO E EDITORAÇÃO: GXavier.com
COORDENAÇÃO EDITORIAL: Débora Dutra
Delfin
EDITOR RESPONSÁVEL: Adriano Fromer Piazzi

Todos os direitos reservados.


Proibida a reprodução, no todo ou em parte, através de quaisquer meios.

EDITORA ALEPH
Rua Dr. Luiz Migliano, 1110 – Cj. 301
05711-900 – São Paulo – SP – Brasil
Tel.: [55 11] 3743-3202
Fax: [55 11] 3743-3263
www.editoraaleph.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

O Vampiro antes de Drácula / organização,


comentários e tradução Martha Argel e Humberto
Moura Neto . – São Paulo : Aleph, 2008.
Bibliografia.

ISBN 978-85-7657-059-2

1. Drácula, Conde (Personagem fictício) 2. Mito


3. Tepes, Vlad 4. Vampiros da Literatura I. Argel,
Martha. II. Moura Neto, Humberto.
08-07290 CDD-398.01

Índices para catálogo sistemático:

1. Vampiros : Lendas : Literatura folclórica


398.01

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Sumário

9 • Agradecimentos
11 • Apresentação
13 • Introdução
14 • O vampiro pré-literário
A origem do vampiro contemporâneo
18 • Os ancestrais do vampiro
19 • Por que surgiu o vampiro?
21 • O vampiro literário: antes de Drácula
Os precursores poéticos
25 • Lord Byron e a origem do vampiro em prosa
29 • O vampiro conquista a Europa
36 • O vampiro para as massas
40 • Mulheres fatais, decadência e fin-de-siècle
46 • Vampiros com vários sotaques
50 • Contos de vampiro, de Polidori a Stoker

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Contos
53 • O vampiro (1819), de John Polidori
81 • Fragmento de um relato (1816), de Lord Byron
93 • O retrato oval (1842), de Edgar Allan Poe
101 • A família do Vurdalak (1847), de Alexei Tolstoi
133 • A dama pálida (1849), de Alexandre Dumas, pai
179 • O Horla (1886), de Guy de Maupassant
193 • Um mistério da Campagna (1887), de Anne Crawford
135 • O velho Éson (1891), de Arthur Quiller-Couch
243 • O último dos vampiros (1893), de Phil Robinson
255 • A verdadeira história de um vampiro (1894), do Conde de
Stenbock
267 • A floração da estranha orquídea (1895), de H. G. Wells
279 • O convidado de Drácula (entre 1890 e 1897), de Bram
Stoker
2 99 • Posfácio – Drácula: a cristalização do mito
309 • Bibliografia
321 • Apêndice 1 – O vampiro na prosa e na poesia até 1897
331 • Apêndice 2 – O vampiro nos palcos até Drácula

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Fragmento de um relato

Lord Byron

No ano de 17__, tendo algum tempo antes deliberado sobre uma


jornada através de países não muito conhecidos, parti na compa-
nhia de um amigo, a quem chamarei Augustus Darvell. Alguns anos
mais velho que eu, era um homem de considerável fortuna e de fa-
mília tradicional, privilégios que uma tremenda capacidade o im-
pedia tanto de menosprezar quanto de superestimar. Certas cir-
cunstâncias peculiares de sua história particular tornaram-no
objeto de minha atenção, de interesse, e até de apreço, que nem
mesmo suas maneiras reservadas, ou as indicações ocasionais de
uma inquietude, que, por vezes, beirava a alienação mental, podiam
extinguir.
Eu ainda era jovem, embora tivesse começado cedo a viver a
vida. Minha convivência com ele era recente. Tínhamos sido educa-
dos nas mesmas escolas e na mesma universidade, mas seu progres-
so escolar precedera o meu, e ele já era um profundo iniciado no que
se chama mundo, enquanto eu ainda era apenas um aprendiz. Es-
tando assim ocupado, ouvia muita coisa sobre sua vida passada e
presente. Embora tais relatos trouxessem contradições, muitas e
irreconciliáveis, ainda assim o todo me permitia depreender que ele
não era um ser comum, mas alguém que, mesmo esforçando-se para

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não ser notado, de qualquer forma seria notável. Posteriormente,
cultivei um relacionamento, e me empenhei em ganhar sua amizade,
mas esta parecia inatingível. Quaisquer afeições que pudesse ter
sentido, pareciam agora que umas haviam-se extinguido, outras se
concentrado. Que seus sentimentos eram agudos, tive suficientes
oportunidades de constatar, pois, embora ele os pudesse controlar,
não conseguia dissimular. No entanto, tinha o poder de dar a uma
paixão a aparência de outra, de tal forma que era difícil definir a
natureza do que lhe acontecia por dentro; a expressão de suas fei-
ções podia variar tão depressa, embora sutilmente, que era inútil
traçá-la até sua origem. Era evidente que alguma inquietação sem
cura o dominava, mas, se advinha de ambição, amor, remorsos, pe-
sar, de um destes ou de todos, ou meramente de um temperamento
mórbido beirando a enfermidade, não fui capaz de descobrir. Pode-
riam ser aventadas circunstâncias que justificariam a ação de qual-
quer dessas causas, mas, como já afirmei, tudo era tão contraditório
que nenhuma delas poderia ser apontada com precisão. Onde existe
mistério em geral, considera-se que deva também existir o mal. Não
sei como é possível, mas nele, com certeza, havia o primeiro, embora
eu não pudesse avaliar a extensão do segundo – e relutava, tanto
quanto o conhecia, a crer em sua existência. Meus avanços eram
recebidos com frieza, mas eu era jovem e não podia ser desencoraja-
do com facilidade, e por fim tive êxito em alcançar, até certo ponto,
aquela interação constituída por lugares-comuns, e a confiança mo-
derada das tribulações corriqueiras e cotidianas, criadas e cimenta-
das pela similitude de objetivos e pela constância da convivência,
que é chamada intimidade, ou amizade, de acordo com as idéias de
quem usa estes termos para expressá-las.
Darvell era muito viajado, e foi a ele que recorri em busca de
informação sobre minha planejada viagem. Era meu desejo secreto
que pudesse ser persuadido a acompanhar-me. Era também uma
esperança plausível, fundada na nebulosa inquietude que observa-

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va nele, e que ganhava novas forças com a evidente empolgação que
ele parecia sentir a respeito de tais assuntos, e de sua aparente in-
diferença por tudo o que o cercava mais de perto. Este desejo pri-
meiramente insinuei, e depois expressei. Sua resposta, embora em
parte fosse esperada, proporcionou-me todo o prazer da surpresa
– ele consentiu. E, depois de todos os preparativos necessários, de-
mos início à nossa viagem. Após viajarmos por vários países do sul
da Europa, nossas atenções se voltaram para o Leste, de acordo
com nosso destino original. E foi durante o percurso através dessas
regiões que ocorreu um incidente, origem deste relato.
A constituição de Darvell, que, a julgar por sua aparência, na in-
fância deveria ter sido mais robusta que o normal, havia algum tem-
po vinha deteriorando-se aos poucos, sem a existência de qualquer
doença aparente. Ele não tinha tosse ou febre, e, no entanto, estava
mais enfraquecido a cada dia. Seus hábitos eram moderados, e ele
não esmorecia ou queixava-se de fadiga, mas, ainda assim, era evi-
dente que estava se consumindo. Tornou-se mais e mais silencioso e
insone, e, por fim, mostrava-se tão alterado que minha apreensão au-
mentou na proporção do que eu julgava ser o perigo que ele corria.
Decidimos que, chegando a Esmirna, faríamos uma excursão às
ruínas de Éfeso e Sardes. Tratei de dissuadi-lo da idéia, dado o seu
presente estado de indisposição. Em vão. Parecia haver uma opres-
são em sua mente, e uma solenidade em seus modos, que não se
coadunavam com sua ânsia em dar prosseguimento ao que eu jul-
gava ser um mero capricho, pouco adequado a um enfermo. Não
mais criei oposição, e, daí a poucos dias, partimos juntos, acompa-
nhados apenas de um serrugee* e um único janízaro**.
Estávamos já na metade do caminho em direção aos restos de
Éfeso, deixando para trás a região mais fértil de Esmirna, e percor-

* Palavra aparentemente inventada por Byron. [N. dos T.]


** Soldado da guarda de elite do exército turco, criada no século xiv e desfeita em
1826. [N. dos T.]

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ríamos aquele trecho selvagem e desabitado que cruzava pântanos
e desfiladeiros e que levava até as poucas cabanas que ainda resta-
vam ao redor das colunas partidas de Diana – as paredes destelha-
das da cristandade expulsa, e a mais recente e ainda assim total
desolação das mesquitas abandonadas – quando um súbito e rápi-
do mal-estar de meu companheiro obrigou-nos a fazer uma parada
em um cemitério turco, cujas lápides encimadas por turbantes
eram a única indicação de que a vida humana em algum momento
tivesse visitado aquele local solitário. O único caravançará* que ví-
ramos ficara horas para trás, nenhum vestígio de vila ou, mesmo, de
cabana estava visível, e esta “cidade dos mortos” parecia ser o úni-
co abrigo para meu desafortunado amigo, que estava a ponto de
tornar –se o último de seus habitantes.
Naquela situação, olhei em volta procurando um local mais
apropriado para o nosso descanso. Ao contrário do aspecto usual
dos campos-santos maometanos, os ciprestes ali eram poucos e es-
parsos por sua extensão. A maioria das lápides estava caída, gasta
pela idade. Sobre uma das mais imponentes, e sob uma das árvores
mais esparramadas, Darvell apoiou-se, numa posição semi-reclina-
da, com grande dificuldade. Pediu água. Eu tinha algumas dúvidas
quanto a conseguir encontrar alguma, e preparei-me para sair à sua
procura, numa hesitação desanimada. Mas ele desejava que eu fi-
casse, e voltando-se para Suleiman, o janízaro, que junto de nós
fumava com grande tranqüilidade, disse:
– Suleiman, verbana su (isto é, “traga-nos água”) – e prosseguiu,
descrevendo com grande minúcia o local onde ela poderia ser en-
contrada, em um pequeno poço para camelos, poucas centenas de
jardas para a direita. O janízaro lhe obedeceu.
Perguntei a Darvell:
– Como você sabe isso?

* Abrigo para hospedagem das caravanas. [N. dos T.]

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Ele respondeu:
– Por nossa localização. Você deve notar que este lugar foi um
dia habitado, e não o teria sido se não houvesse fontes. E também
por já ter estado aqui antes.
– Você esteve aqui antes! E como nunca mencionou isto? O que
teria você vindo fazer neste lugar onde ninguém ficaria um mo-
mento sequer além do necessário?
Para esta questão, não obtive resposta. Nesse ínterim, Sulei-
man retornou com a água, deixando o serrugee e os cavalos na fonte.
Saciar a sede pareceu revivê-lo por um momento, e acalentei espe-
ranças de que ficasse bem para prosseguir ou, ao menos, retornar, e
implorei que tentasse. Ele ficou em silêncio, e pareceu reunir forças
num esforço para falar. Começou:
– Este é o final de minha jornada, e de minha vida. Vim aqui para
morrer, mas tenho um pedido para lhe fazer, ou antes, uma ordem, e
estas devem ser minhas últimas palavras. Você a cumprirá?
– Certamente, mas ainda tenho esperanças.
– Não tenho esperanças ou qualquer desejo senão este: oculte
minha morte a todo olhar humano.
– Espero não ser necessário. Vai se recuperar, e...
– Paz! Assim deve ser, prometa-me.
– Prometo.
– Jure, por tudo que... – aqui ele proferiu um juramento de
grande solenidade.
– Não há necessidade disso. Vou atender a seu pedido, e duvi-
dar de mim é...
– Não há outro modo, é preciso que jure.
Fiz o juramento, e isso pareceu aliviá-lo. Ele removeu do dedo
um anel de sinete gravado com alguns caracteres arábicos, e o es-
tendeu para mim. Continuou:
– No nono dia do mês, ao meio-dia precisamente (o mês que
quiser, mas esse deve ser o dia), jogue este anel nas fontes salgadas

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que fluem para a baía de Elêusis. No dia seguinte, à mesma hora, vá
às ruínas do templo de Ceres, e espere por uma hora.
– Por quê?
– Você verá.
– O nono dia do mês, você diz?
– O nono.
Quando observei que estávamos no nono dia do mês, sua ex-
pressão se alterou, e ele fez uma pausa. Enquanto ele jazia ali, mais
e mais debilitado, uma cegonha, com uma serpente no bico, pousou
numa lápide perto de nós e, sem devorar sua presa, pareceu enca-
rar-nos fixamente. Não sei o que me levou a enxotá-la, mas a tenta-
tiva foi inútil. Ela voou em círculos e voltou exatamente ao mesmo
ponto. Darvell apontou para ela e sorriu. Disse, não sei se para si
mesmo ou para mim, apenas isto:
– Está bem assim.
– O que está bem? O que quer dizer?
– Não importa. Deve me enterrar esta tarde, exatamente onde
aquela ave está agora. Já sabe o resto de minhas instruções.
Então, passou a dar-me diversas orientações sobre o melhor
modo de esconder sua morte. Terminando, perguntou:
– Vê aquela ave?
– Certamente.
– E a serpente que se contorce em seu bico?
– Sem dúvida. Não há nada incomum nisso, é sua presa natural.
É entranho, contudo, que não a devore.
Ele sorriu de modo horrível, e disse com debilidade:
– Ainda não é a hora!
Quando terminou de dizer isso, a cegonha voou e se foi.
Meus olhos a seguiram por um momento – não mais do que tar-
daria contar até dez. Senti o peso de Darvell aumentar sobre
meu ombro, e, voltando-me para olhar seu rosto, percebi que
estava morto!

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Fiquei chocado com a certeza repentina de que não podia ser
um equívoco. Seu rosto, em poucos minutos, tornou-se quase ne-
gro. Poderia ter atribuído a algum veneno aquela mudança tão sú-
bita, acaso não soubesse que ele não tivera qualquer chance de in-
geri-lo inadvertidamente. O dia terminava, o corpo se alterava
depressa, e não restava nada a não ser atender a seu pedido. Com a
ajuda do iatagã do janízaro e de meu próprio sabre, cavamos uma
cova rasa no local indicado por Darvell. A terra cedeu com facilida-
de, tendo já recebido antes algum inquilino maometano. Escava-
mos tão fundo quanto o tempo nos permitiu, e jogando a terra seca
sobre o que restara daquela pessoa singular recentemente falecida,
removemos alguns tufos de grama mais verde do solo menos resse-
quido ao nosso redor e os colocamos sobre o sepulcro.
Entre o espanto e a dor, não derramei uma lágrima.

George Gordon Byron (1788-1824), poeta e grande expoente


do Romantismo inglês, nasceu em Londres, filho da escocesa Ca-
therine Gordon e do Capitão John Byron. O garoto foi levado pela
mãe para Aberdeen, na Escócia, onde viveram na penúria. O pai,
ausente, só aparecia para pedir dinheiro, e morreu na França, em
1791, num provável suicídio. Nascido com uma deformidade no pé
direito, George mancava e era extremamente sensível quanto à sua
condição, e isso afetou-lhe o caráter.
Com dez anos, herdou do tio-avô o título de Lord Byron e as
propriedades da família, no condado de Nottingham, na Inglater-
ra, para onde se mudou com a mãe. Teve, ainda cedo, suas primei-
ras paixões e desilusões amorosas. Em 1805, entrou para o Trinity
College, em Cambridge, onde ficou popular e entregou-se a uma
vida desregrada, que o deixou muito endividado. Em 1806, publi-
cou por conta própria seu primeiro volume de poemas, que teve
fortes críticas e acabou sendo modificado e publicado com outro

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título. Ainda assim, não foi bem recebido. Em resposta, publicou
uma sátira anônima e mordaz sobre os críticos literários.
Nos anos seguintes, Byron continuou desfrutando os prazeres
mundanos de Londres, a ponto de pôr em risco sua saúde. Após for-
mar-se, em 1809, deixou a Inglaterra pela primeira vez, para o Grand
Tour europeu, que era então costumeiro para os jovens da nobreza. Via-
jou por Portugal, Espanha, Malta e Albânia, e, em seguida, pela Grécia,
onde teve um caso de amor com um jovem que lhe ensinou italiano, e
pela Turquia, onde atravessou a nado o estreito de Dardanelos.
Retornou ao solo inglês em 1811, e, nos dois anos seguintes, teve
uma série de casos amorosos. Um deles, escandaloso, foi com Lady Ca-
roline Lamb, que anos depois iria vingar-se em seu romance Glenarvon
(1816), por meio de um personagem que era uma caricatura mal disfar-
çada e francamente ofensiva de Byron, batizado como Lord Ruthven.
Byron casou-se, em 1815, com Annabela Milbanke, que lhe deu
uma filha, Ada. O casamento foi infeliz e durou pouco. Em 1816,
após separarem-se, ele deixou a Inglaterra, acompanhado de seu
médico John William Polidori. Exilando-se na Europa continen-
tal, Byron buscava liberdade para prosseguir seu modo de vida,
que afrontava os padrões morais da sociedade britânica. Foi para a
Suíça, onde encontrou-se com o poeta Percy Bysshe Shelley, sua
futura esposa Mary Wollstonecraft Godwin, e a meia-irmã desta,
Claire Clairmont, com quem teve um caso e uma filha, Allegra. Daí
foi para a Itália, onde teve uma série de amantes, enquanto conti-
nuava escrevendo e publicando suas poesias. Em 1818, a venda da
propriedade ancestral resolveu seus problemas financeiros, mas
não sua insatisfação. Estava envelhecido, o cabelo longo e grisalho,
e mergulhado em promiscuidade. Entretanto, logo em seguida, ini-
ciou um caso com uma condessa casada, envolveu-se na revolução
da Itália contra o domínio austríaco e conheceu a fundo a vida do
povo italiano. Foi um dos períodos mais produtivos e felizes de sua
vida. Em 1822, quando morava em Pisa, onde também estavam os

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Shelley, morreram primeiro Allegra e depois Percy, que se afogou
num naufrágio.
Foi para a Grécia em 1823, para tomar parte na luta pela inde-
pendência do país. Em abril de 1824, adoeceu após tomar uma chu-
va, morrendo dez dias depois, em Mesolongi, na costa do mar Jô-
nico. Seu coração foi enterrado lá, e o corpo foi embalsamado e
enviado para a Inglaterra.
Lord Byron ainda hoje é tido como um dos maiores poetas euro-
peus. Considera-se Don Juan (1819-1824) sua obra-prima, apesar de
ter ficado inacabado. Outro trabalho muito conhecido é Childe
Harold’s pilgrimage, cujos dois primeiros cantos foram publicados em
1812, após seu retorno do Grand Tour, e valeram-lhe o sucesso no
mundo literário. Logo depois disso, publicou Oriental tales, “The Gia-
our”, The corsair e Lara, obras também aclamadas. Com elas, estabe-
leceu-se o assim chamado “herói byroniano”, cuja origem remonta
ao poeta inglês Milton, do século xvii, e permeia a obra de Byron. O
herói byroniano tem uma personalidade bem característica, ideali-
zada, cheia de falhas que só fazem aumentar seu fascínio. Tem um
talento imenso e comportamento apaixonado, e, ao mesmo tempo, é
um rebelde que despreza as instituições sociais, a posição social e os
títulos. Arrogante ou excessivamente confiante, marcado por amo-
res frustrados, esconde um passado obscuro e sombrio. Todos esses
traços levam a um comportamento autodestrutivo. Não por acaso
essa descrição cai como uma luva no próprio poeta.
A fama de Byron deriva não só da obra que deixou, mas tam-
bém de sua vida incomum, repleta de escândalos sexuais e atos
excêntricos. Ele era o equivalente do pop star atual, e sua personali-
dade cativou a Europa.
Era o queridinho da época, convidado para os melhores sa-
lões, agraciado com audiências com a realeza e alvo dos suspiros
das mocinhas. Lady Caroline Lamb referiu-se a ele como “louco,

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e perverso, e perigoso de conhecer”.* Atraente, charmoso e com
fama de mau, foi a estrela da temporada social de 1812 em Lon-
dres, mesma época em que a valsa entrava na moda. Por causa do
pé defeituoso, ele não dançava e mantinha-se à parte, aparente-
mente cultivando um desprezo soturno pela frivolidade que o
cercava, e isso aumentou ainda mais o fascínio e a atração sexual
que exercia. **
Na verdade, o personagem público de Byron era confessamen-
te uma imagem fabricada, a personificação calculada do próprio
herói byroniano de sua poesia, e cristalizava a noção de que a vida
podia ser tratada como teatro. Seu “olhar satânico” (satanic scowl)
fora retirado dos vilões de Anne Radcliffe.*** Segundo sua ex-esposa,
Annabella Millbanke, “a expressão byroniana era imitada por todo
canto, por gente que praticava ao espelho, na esperança de conse-
guir a mesma curvatura do lábio superior, o mesmo franzir das
sobrancelhas”.****
Byron acabou por cansar-se da imagem que criara, mas já per-
dera o controle sobre a sua própria influência na sociedade. A má-
quina havia sido posta em movimento, e a sua persona seguiu crian-
do monstros, num processo que dura até os dias de hoje.
Embora Lord Byron não tenha sido o primeiro nem na poe-
sia nem na prosa vampírica, e seu “The Giaour” (1813) não te-
nha tido a mesma repercussão que “O vampiro”, de Polidori, nin-
guém foi mais importante que  ele na criação do mito do
vampiro moderno – menos por sua produção literária que pela
dramatização de sua vida. Até hoje reconhece-se nos vampiros
(como Angel, herói da série de televisão homônima, de 1999-
2004) as características do poeta: romântico, atraente, miste-

* “Mad, and bad, and dangerous to know”, citado por Lezlie Kinyon, 2003.
** Lezlie Kinyon 2003.
*** Christopher Frayling, 1991, p. 6.
**** Lezlie Kinyon, 2003.

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rioso e trágico. Heróis com o poder vampírico da persuasão e
um magnetismo sensual, por vezes homens de ação, mas nem
por isso deixando de manter-se nas sombras, ocultando um se-
gredo terrível, solitários e à margem da humanidade.*
O fascínio por ele continua atual, com sociedades byronianas
ao redor do mundo e constantes lançamentos de livros e artigos a
seu respeito. Byron aparece como personagem ficcional na litera-
tura e no cinema. O romance The vampyre (1995), de Tom Holland,
faz um amálgama de criador e criatura: nele, Byron é transformado
em vampiro durante sua primeira visita à Grécia.
O passo decisivo para consolidar a imagem de Byron como o pro-
tótipo do vampiro atual foi dado por John William Polidori. Valendo-
se do fragmento de uma história criada por Byron na Villa Diodati e,
logo em seguida, abandonanda, o ex-companheiro de viagem, agora
desafeto, escreveu o conto “O vampiro” (“The vampyre”), em que mol-
dava o perverso vilão à imagem e semelhança do poeta, de forma ex-
plícita. Publicado em 1819, com autoria falsamente atribuída a Byron,
por engano ou má-fé, o conto foi um sucesso total. Byron apressou-se
em enviar uma carta a seu editor, negando ser o autor e acrescentan-
do: “Além do mais, cultivo uma aversão pessoal aos vampiros, e a pou-
ca familiaridade que tenho com eles de forma alguma me induziria a
divulgar seus segredos.”** Para demonstrar que o conto era alheio, pu-
blicou o próprio texto como um apêndice de Mazeppa (1820). A seme-
lhança é incontestável. O declínio inexplicável de Darvell parece estar
associado aos ataques de um vampiro, e ele mesmo aparenta estar-se
transformando em um. Não há, porém, menção alguma aos vampiros,
e não seria demais supor que Byron tenha editado o texto antes da
publicação, suprimindo qualquer menção a eles para distanciar-se do
trabalho de seu antigo médico.

* Lezlie Kinyon, 2003.


** Jeffrey D. Hoeper, 2000.

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Seus esforços, no entanto, foram inúteis, e “O vampiro” per-
maneceu sendo um sucesso, e continuou sendo atribuído a ele. Por
ironia, foi com esse conto (Le Vampire, nouvelle traduite de l’anglais de
Lord Byron) que a obra de Byron finalmente se estabeleceu na Fran-
ça. O sucesso nesse país foi tão grande que, mesmo depois de es-
clarecida a questão da autoria, os leitores protestaram pela supres-
são do conto na segunda edição das obras de Byron, e ele voltou a
ser incluído na terceira edição, com a explicação: “decidimos ceder
à pressão de numerosos leitores, ressuscitando ‘O vampiro’”.*
Apesar da indignação de Byron, o fato é que, direta ou indire-
tamente, graças a ele o personagem do vampiro literário nasceu e
se consolidou.

* Richard Switzer, 1955, p. 108-109.

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