Karina Okajima Fukumitsu
Suicídio e
Gestalt-terapia
2ª edição revisada
São Paulo
Digital Publish & Print
2013
Caro leitor, este livro é uma tiragem revisada do li-
vro Suicídio e psicoterapia: uma visão gestáltica, ISBN 85-
8762281-1, da Editora Livro Pleno, publicado em 2005,
cujo distrato foi realizado em 1º de setembro de 2011.
Desde o primeiro contrato pactuado por escrito do
meu primeiro livro, Uma visão fenomenológica do luto:
um estudo sobre as perdas no desenvolvimento humano,
no ano de 2004, contrato esse realizado verbalmente e
consumado por meio da tradição, a Editora Livro Pleno,
em momento algum, deu efetividade a suas obrigações
acessórias decorrentes, como apresentação de relatório
das tiragens e vendas de cada obra, muito menos do va-
lor cabível a mim. Dessa maneira, enquanto tento nego-
ciar a publicação por outras editoras, assumi a impressão
do mesmo livro, lançado com novos título e capa. Cabe
salientar que o revisei e que carrego a crença de que todo
autor deveria ter direito a revisões constantes de suas
obras, pois concluí que uma obra é algo que escrevemos
para o momento.
Tenho estudado o fenômeno suicídio desde 2000 e
com mais afinco após uma vivência em 2004. A situação
que motivou a me tornar uma suicidologista foi quando
minha mãe falava ao telefone, felizmente pela última vez,
que queria morrer. Desde que me conheço por gente,
cresci vivenciando várias tentativas de suicídio de minha
mãe, socorrendo-a já semimorta, por ter tomado vários
medicamentos, ou tirando-a das janelas do meu aparta-
mento, entre outras maneiras.
Estava grávida de dois meses e, enquanto ela dizia
que desejava morrer, falei a seguinte frase: “Por inúmeras
vezes você tentou se matar e não morreu. Até quando vai
querer escolher o momento que morrerá? Não escolhe-
mos o momento da nossa morte. Calma. Você terá seu
tempo de morrer”. Logo em seguida, senti uma pontada
e descobri posteriormente que estava abortando. A partir
desse dia, iniciei a escrita do presente livro e coloquei na
parte dos agradecimentos:
Ao meu filho, que não conheci fisicamente e que, dentro
de meu ventre, presenteou-me com a possibilidade de sentir
a vida. Sua descontinuidade dentro de mim confirma a ideia
de que, como seres humanos não, temos o livre-arbítrio do
momento em que partimos. Sua ausência me fez pensar
nas pessoas que pensam na morte como possibilidade,
particularmente em minha mãe, que podem ter a vida e
escolhem por inúmeras vezes partir desse mundo...
Desde então, assumi o compromisso diário de lidar
com pessoas que compartilham suas ideações e tenta-
tivas suicidas. Considero-me afortunada, pois, durante
esses anos, nunca vivenciei a morte de um cliente por
suicídio. Não se trata de jactância, mas acredito que
o manejo terapêutico apresentado no presente estudo
tem sido facilitador para uma lida tão difícil. Agradeço
imensamente aos interessados por meu estudo e pela
permissão que me oferecem em compartilhar minhas
reflexões sobre o tema.
Um abraço
Karina Okajima Fukumitsu
karinafukumitsu@[Link]
30 de setembro de 2011.
SOBRE O LIVRO E A AUTORA
Embora o primeiro registro de suicídio – segundo a
Enciclopédia Delta de História Geral (in Silva, 1992) – tenha
ocorrido em 2500 a.C., na cidade de Ur, onde doze pessoas
ingeriram uma bebida envenenada, ainda sabemos pouco para
compreender e lidar com este complexo fenômeno humano.
Tão tabu quanto real, o tema ou não é suficientemente
abordado na maioria dos cursos de Psicologia no Brasil ou
nem faz parte das disciplinas oferecidas na grade curricular.
Talvez isto se deva ao fato de que as situações envolvendo ten-
tativas ou efetivação de suicídio frequentemente são atendidas
por médicos e/ou psiquiatras. Muitas vezes a ideação e inten-
ção suicidas se manifestam sob diferentes formas e por meio
de diferentes sinais, muito antes de se efetivar uma tentativa
de suicídio. É razoavelmente comum estas diferentes formas e
sinais aparecerem ao longo de um processo psicoterápico ou de
outras situações que envolvam o trabalho do psicólogo (tanto
dentro quanto fora do contexto clínico).
Embora não seja possível prever o suicídio, é importante
que os profissionais de psicologia e da área de saúde de maneira
geral, tenham alguns parâmetros para identificar seus indícios,
avaliar os níveis de risco e intervir nas situações. Tendo por
referência a psicologia humanista e a visão existencial, parti-
cularmente a Gestalt-terapia, Karina Okajima Fukumitsu se
propõe, neste livro, a discutir o assunto e fornecer instrumental
para que isto se torne possível.
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O interesse da autora por este tema vai muito além da
teoria ou mesmo de sua experiência clínica com pacientes sui-
cidas no Brasil e nos Estados Unidos. Ele se origina na expe-
riência vivida (e vívida) de Karina que, na condição de filha
de uma mãe com tentativas suicidas, compartilha conosco um
fundo que tem como referência sua própria experiência.
Muitas são as compreensões que se pode ter da inten-
ção ou ato suicidas: desde um gesto de coragem a um gesto de
covardia, desde um ato de sucesso a um ato de fracasso, desde
um direito legítimo do ser humano a um ato criminoso contra
si próprio. Em palestra proferida há muitos anos atrás, referi o
gesto do suicida como sendo um “grito silencioso de socorro”.
Tal como se afina um instrumento musical, neste livro a
autora busca “afinar” nossos olhos e ouvidos para identificar,
entender e discriminar este grito silencioso, bem como ofe-
recer algumas sugestões e cuidados em relação ao tratamento
desta complexa questão que envolve não apenas o paciente,
mas igualmente seus familiares e amigos, assim como os pro-
fissionais que dele estejam cuidando.
Tendo por pressuposto que o suicida não busca a morte,
mas sim uma outra maneira de viver, Karina procura compre-
ender o que a pessoa busca, qual a comunicação que não pode
ser comunicada, qual a palavra que não pode ser dita, qual o
gesto que não pode ser efetivado.
Desta forma, a autora busca compreender o que está por
trás da intenção (ou consumação) do ato suicida, saber qual é
a mensagem existencial deste gesto extremo de desespero e de
desesperança humanos, salientando que o fenômeno sobre o
qual devemos nos debruçar não é o suicídio, e sim a falta de
sentido de vida.
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Psicoterapeuta e professora universitária, Karina Okajima
Fukumitsu ao apresentar, de forma didática e numa linguagem
simples, informal e facilmente compreensível, reflexões sobre
o suicídio além de informações para a avaliação de níveis de
risco, bem como sugestões sobre procedimentos para tal, torna
este livro de interesse tanto para profissionais de psicologia e
das áreas de saúde, de um modo geral quanto para leigos.
No meu entender, o suicídio, mais do que um gesto que
cala, é um gesto que fala...
Lilian Meyer Frazão
São Paulo, março de 2005.
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APRESENTAÇÃO
Na perspectiva da Gestalt-terapia, o ser humano é a pes-
soa responsável por suas próprias escolhas. Do ponto de vista
de alguns clientes, o suicídio se revela como a última escolha
de suas vidas, pois pelo seu ato suicida, a pessoa desnuda o
tamanho de seu desespero humano e não se dá mais a oportu-
nidade de buscar seu próprio sentido de vida.
O objetivo deste trabalho é o de trazer à luz possibili-
dades de instrumentalização ao profissional, fornecendo-lhe
reflexões sobre o suicídio e sua intencionalidade, implicadas
na psicoterapia, fatores de risco e procedimentos utilizados.
Enfatizando minha experiência pessoal com minha mãe e com
meus clientes em processo de psicoterapia, a realização deste
trabalho contou também com um levantamento bibliográ-
fico de estudos realizados no Brasil e nos Estados Unidos da
América sobre o tema suicídio e suas relações com a Gestalt-
terapia, uma abordagem psicológica que considera o método
fenomenológico e a visão de homem humanista e existencial.
O estudo desse tema adota uma direção focalizando
a seguinte questão: como um psicoterapeuta pode realizar
uma análise compreensiva compreensiva da pessoa que
pensa na morte como possibilidade e instrumentalizar-se?
Apresento no capítulo 1, a discussão que circunda minha
experiência e uma compreensão do fenômeno do suicídio. No
capítulo 2, apresento a visão de homem, segundo a Gestalt-
terapia. No capítulo 3, estabeleço a correlação do suicídio na
visão gestáltica e as considerações finais do trabalho.
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No presente momento, ressignifico parte de minha
infância regada pelas lembranças de ter uma mãe que ten-
tou o suicídio por várias vezes. Tal vivência tem sido útil à
minha compreensão clínica, um excelente pano de fundo
para entender o sofrimento existencial de meus clientes. Os
psicoterapeutas são facilitadores, isto é, ajudam o cliente a
desvelar seu interesse de vida, a fim de que ele se torne cons-
ciente não somente de suas necessidades, mas também pela
responsabilidade de estar vivo.
A autora
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