Frei Luís de Sousa - Síntese
PERSONAGENS
Manuel de Sousa Coutinho
nobre, cavaleiro de Malta
personagem viril;
patriota exemplar (aversão clara aos castelhanos);
homem de coragem e bravura;
não acredita em agouros, homem racional (características clássicas);
no ato III perde o equilíbrio, a calma e as atitudes calculadas dos dois primeiros atos e
cede à violência dos sentimentos que o desorientam. A sua caracterização romântica passa também pelo
incêndio ao seu palácio e pela entrada no convento.
D. Madalena:
protótipo da fragilidade feminina, da mulher apaixonada e feliz e, no entanto, dilacerada,
aterrorizada pela recordação do seu primeiro marido e pelo medo do seu regresso de Alcácer-Quibir;
- o remorso alimenta a chama trágica, avivada pelas insinuações de Telmo;
- sentia-se uma ‘’adúltera’’ em pensamento;
luta contra todas as referências ao sebastianismo que surgem das conversas de Maria
com Telmo;
recetiva aos agouros e premonições;
atormentada e frágil, é ela que desencadeia as forças do destino;
dotada de grande humanidade enquanto mulher e mãe.
Caracterização
Caracterização
Caracterização
Caracterização
romântica
romântica
Marcadapor
Marcada porconflitos
conflitosinteriores
interiores
AAtortura
torturados
dossentimentos
sentimentosviolentos
violentos Crençadoentia
Crença doentiaem
emsuperstições
superstições
sobrepõe-se à razão
sobrepõe-se à razão Temor do futuro
Temor do futuro
OOremorso
remorsode
deum
umpassado
passado
obsidiante
obsidiante
Umamor-paixão
Um amor-paixão
ensombrado pelomedo
ensombrado pelo medo
Maria de Noronha:
personagem simultaneamente jovem (é uma adolescente de treze anos) e adulta (pelas
reações e características psicológicas típicas de uma mulher madura);
é a menina-prodígio pelo seu entendimento profético;
transporta em si a marca da morte (alusões quer à sua doença, quer à sua crença em
agouros e profecias);
adere ao mito sebastianista.
Romântica no(a)
exaltação dos amor filial
irreverência e crença
valores nacionais e sentido
espírito de em agouros
idealismo patriótico
liberdade
D. João de Portugal, o Romeiro:
nobre, companheiro de D. Sebastião;
anjo-vingador (D. Madalena deveria ser castigada pelo ‘’pecado’’ que cometera, pois
apaixonara-se por Manuel de Sousa Coutinho quando o viu pela primeira vez, estando, ainda, casada);
nele não há nem humildade, nem caridade, nem perdão, no entanto também ele cede,
tentando remediar o mal que tinha provocado (mais por defesa do seu nome do que por simpatia com o
sofrimento dos outros);
nunca revela a sua identidade;
figura imanente, um invisível centro de circunferência que faz convergir em si a violência
psicológica das principais personagens;
o rastilho que leva à dissolução da família e ao desenlace trágico;
apesar da sua altivez, personifica o sofrimento e as privações associadas a vinte anos de
cativeiro;
com Manuel de Sousa Coutinho partilha um elevado sentido de honra, o patriotismo e a
consciência serena do dever.
Frei Jorge Coutinho
Frade domínico;
figura mediadora;
o confidente (da cunhada e do irmão);
portador de um discurso ponderado e coerente;
voz do bom senso e da razoabilidade;
homem de fé, inflexível quando os imperativos morais apontam a Madalena e a Manuel
Coutinho o caminho do convento;
Telmo
adere incondicionalmente ao mito sebastianista
consciência moral da família;
fiel ao seu amo, D. João, mas incapaz de pôr em causa a felicidade de Maria;
no presente dramático, Telmo domina o presente, conhece o passado, prevê o futuro. Ele
é o substituto da tripla função do Coro da tragédia clássica:
Como o Coro, Telmo
Obriga, através do diálogo, a Fornece, com apartes,
Tece comentários sobre a ação informações sobre o que o
que a consciência das outras
dramática, predizendo o público não vê ou não conhece
personagens se manifeste,
desfecho trágico da peça. (fala do passado e antecipa o
chegando mesmo a acusá-las.
futuro)
Manuel de Sousa Coutinho não é o português que se afirma no final do Ato I, pois ele serviu a
causa de Castela, porém era necessário que incendiasse a sua casa, para que o cenário se alterasse,
adensando e propiciando o desenlace trágico.
A verdade histórica quebra-se mais uma vez, quando D. Madalena e o Romeiro afirmam nunca
terem tido filhos. Sabe-se que houve três filhos frutos do primeiro casamento de D. Madalena. Mas a ideia
difundida na obra é mais interessante, pois salienta a solidão do Romeiro e realça a devoção por Maria.
Frei Luís de Sousa: drama ou tragédia?
Tragédia:
acção simples, sintética: convergência progressiva de um número pouco significativo de
ações para o desenlace trágico;
poucas personagens, quase todas de origem nobre;
condensação do tempo em que decorre a ação;
espaços em número reduzido;
solenidade do estilo;
reminiscência do Coro da tragédia clássica pela voz de Telmo, de Frei Jorge e dos
Frades. O Coro tenta travar a impetuosidade humana, aconselhando a moderação;
elementos da tragédia clássica:
Hybris: o desafio do Homem perante os imperativos externos,
divinos ou não;
Agón:conflito;
Pathos: sofrimento;
Peripéteia: mutação repentina da situação;
Anagnórisis: reconhecimento de laços de parentesco até então
desconhecidos;
Clímax: auge do sofrimento;
Katastrophé: o desenlace trágico;
Ananké: a força do destino.
Drama romântico:
texto escrito em prosa;
Lei das três unidades;
à ação da peça está subjacente uma situação real;
exaltação dos valores patrióticos e religiosos;
realismo psicológico que caracteriza os sentimentos de Telmo, dividido entre o amor por
D. João e por D. Maria.
ROMANTISMO em Frei Luís de Sousa:
valorização da questão da identidade nacional:
tradição cultural portuguesa (referências a Bernardim Ribeiro e a
Camões);
ideal de independência (Manuel de Sousa Coutinho);
patriotismo e nacionalismo, manifestação de individualismo (Manuel
e Maria);
referência à figura do povo, como portadora de mitos (crença no
sebastianismo, como possibilidade de libertação de Portugal (repercussões
em Telmo e em Maria);
crenças em agouros, superstições, visões e sonhos (Madalena, Maria e
Telmo);
referências ao cristianismo, à religião e ao culto (Manuel, Frei Jorge…);
Eu /sociedade:
confronto entre o indivíduo e a sociedade ( a Batalha de Alcácer-
Quibir acaba por ser determinante no segundo casamento de D. Madalena; as decisões dos
governadores castelhanos estão na base do comportamento de Manuel de Sousa Coutinho);
defesa da liberdade e exaltação pessoal (Manuel e Madalena);
confronto entre o código moral e o desejo individual (supremacia
dos valores éticos leva ao incêndio do palácio, à tomada de hábito e à morte de Maria);
confronto entre a fidelidade a um passado e o presente que abre um
sentido para a vida (Telmo);
Valorização da moral, da honra, da coragem, da fidelidade…
inclusão de cenas dramáticas, violentas, de grandes medos e terrores
(morte de Maria em cena, incêndio do palácio…);
amor encarado como a causa da desgraça e do sofrimento, amor
desmedido e marcado pelo destino adverso (Manuel e Madalena) ;
tema da morte, física ou espiritual, como solução para os conflitos
(Madalena, Manuel, Maria, D. João);
o mito do escritor romântico marcado pela solidão, pela infelicidade, pelo
destino (Manuel Frei Luís de Sousa)
LEI DAS TRÊS UNIDADES:
ACÇÃO
os acontecimentos encadeiam-se extrínseca e intrinsecamente;
nada está deslocado nem pode ser suprimido;
o conflito aumenta progressivamente provocando um sofrimento cada vez mais atroz;
a catástrofe é o desenlace esperado;
a unidade de ação é conseguida.
TEMPO
não respeita a duração de 24 horas;
a condensação do tempo é evidente e torna-se um fator trágico;
o afunilamento do tempo é evidente (21 anos, 14 anos, 7 anos, tarde, noite, amanhecer);
simbolismo do tempo (sexta-feira e os números (3,7 e 21).
TEMPO DA AÇÃO TEMPO SIMBÓLICO
1º ato
28/07/1599
sexta-feira SEXTA – FEIRA
fim da tarde
noite Madalena vê pela primeira vez Manuel
de Sousa Coutinho,
2º ato Batalha de Álcacer Quibir (04/08/1578);
casamento com Manuel de Sousa
04/08/1599 Coutinho (7 anos depois da batalha);
sexta-feira regresso de D. João de Portugal no 21º
tarde aniversário da batalha.
3º ato (cf. caderno diário: simbologia dos números)
04/08/1599
sexta-feira
alta noite
ESPAÇO
1- ESPAÇO FÍSICO
ATO I: palácio de Manuel de Sousa Coutinho (o incêndio faz surgir o omen (pressentimento) com a
destruição do retrato de Manuel);
ATOS II e III: palácio de D. João de Portugal (o retrato iluminado deste último adensa os pressentimentos);
ATO III: Parte baixa do Palácio, Capela de Nossa Senhora da Piedade.
O espaço vai sofrendo um afunilamento, uma redução:
- Almada;
- Palácio de D. Manuel;
- Palácio de D. João de Portugal (sala dos retratos, parte baixa do palácio com
comunicação para a capela da Senhora da Piedade).
2- ESPAÇO SOCIAL: domina um estrato social superior: a nobreza.
3- ESPAÇO PSICOLÓGICO: reporta-se à consciência e aos conflitos das personagens.
A LINGUAGEM E AS PERSONAGENS
D. Madalena
frases inacabadas de tipo exclamativo e interrogativo;
utilização de interjeições e de locuções interjetivas;
formas verbais no presente e no pretérito imperfeito do indicativo e no modo imperativo.
Estes traços anunciam o seu temperamento apaixonado, o seu receio, a sua vulnerabilidade, o seu
pavor perante as circunstâncias.
Manuel de Sousa Coutinho
frases de tipo declarativo e imperativo;
registo de língua cuidado;
formas verbais no presente do indicativo;
A partir do terceiro ato:
frases de tipo exclamativo;
interjeições e locuções interjetivas.
A sua linguagem revela cultura e objetividade, assim como uma faceta didática, exteriorizando a sua
força e segurança. No terceiro ato, porém, dada a situação de sua filha, é a emoção que marca o seu
discurso.
D. Maria de Noronha
frases de tipo declarativo e exclamativo;
linguagem conotativa;
adjetivação;
formas verbais no presente e no futuro do indicativo.
Estas marcas linguísticas apontam para o caráter fantasista de Maria e para a sua perceção
subjetiva dos acontecimentos, assim como para a sua faceta profética e sebastianista.
Telmo Pais
frases de tipo declarativo, exclamativo e interrogativo (interrogativa retórica);
frases inacabadas;
adjetivos;
formas verbais no presente do indicativo e no pretérito imperfeito do indicativo.
Estas características evidenciam o seu temperamento romântico e traduzem a sua divisão entre o
passado e o presente.
Frei Jorge
frases de tipo declarativo;
vocábulos da esfera lexical da moral e da religião católica;
registo de língua cuidado;
formas verbais no presente do indicativo;
Estes aspetos remetem para a erudição e para a objetividade que caracterizam a personagem.
Ligam-se igualmente à sua função de conselheiro e à sua tentativa de proporcionar o equilíbrio e a paz de
espírito às outras personagens.
Romeiro
frases de tipo declarativo e exclamativo;
linguagem metafórica;
registo de língua cuidado.
As falas desta personagem apresentam, sobretudo, uma função informativa, ainda que revelem o seu
sofrimento e angústia perante um destino implacável que o condena ao anonimato.
MITO SEBASTIANISTA:
Consequências da morte do rei D. Sebastião em Alcácer-Quibir:
anexação de Portugal a Espanha em 1580;
domínio filipino;
endividamento do país;
SEBASTIANISMO
CRENÇA DE QUE TODA ESTA OPRESSÃO E SOFRIMENTO SERIA VENCIDO COM O
APARECIMENTO DE D. SEBASTIÃO, QUE LIBERTARIA PORTUGAL DO JUGO
FILIPINO.
O MITO EM FREI LUÍS DE SOUSA:
A morte de D. João, tal como a de D. Sebastião, nunca foi provada;
Telmo e Maria aderem ao mito sebastianista e ao promover a crença de que o rei
poderia voltar, Telmo postula a hipótese do regresso de D. João, o que desencadeia um
clima de pressentimento, de fatalismo e de angústia (sobretudo em D. Madalena);
O regresso do Romeiro é considerado um anti-regresso porque não conduz à
redenção, mas à catástrofe.
Frei Luís de Sousa é tocado de espírito sebastianista, não só pela vinculação
histórica do fidalgo-romeiro à batalha de Alcácer, onde também foi dado como
desaparecido, mas pela angústia que o tema do revenant empresta à contextura da
obra.
António Machado Pires, in D. Sebastião e o Encoberto
ROMANTISMO
literatura confessional;
subjetivismo;
ansiedade de descoberta metafísica;
tentativa de emancipação espiritual;
ânsia de evasão individualismo;
O poeta é um criador, um semeador de ideias e não um imitador (a sua imaginação é posta a
trabalhar, permitindo-lhe transmitir o seu sentir e pensar);
defesa da liberdade do sentimento na Arte;
nacionalismo;
medievalismo.
TEMAS GRANDIOSOS
Ânsia do infinito ≠ limitações humanas
desânimo
Ânsia de liberdade artística busca ansiosa de um mundo melhor
Insegurança, inquietação, desajustamento
melancolia revolta
CONCLUSÃO:
mundo literário:
repleto de paixões, de ambientes terríficos;
mundo de sonho, vivido na solidão, em contacto com uma
natureza sombria, povoada de receios e fantasmas.
«locus ≠ «locus
horrendus» amenus»
(condiciona estados de
alma)
Texto Dramático
Características:
1- A ação é conhecida através do:
a)- texto principal- composto pelas falas das personagens. Nele predomina o diálogo,
podendo aparecer o monólogo e os apartes. Não existe narração, nem descrição.
Diálogo- a personagem fala com outra (s);
Monólogo- a personagem fala sozinha;
Apartes- a personagem fala com o público.
b)- texto secundário- composto pelas indicações cénicas ou didascálias.
Didascálias- surgem habitualmente entre parênteses e/ou em itálico
para se distinguirem da fala das personagens. Nas didascálias encontramos informações sobre
os lugares onde se passa a história, o tempo em que ela decorre, o cenário, a música, o som, a
luminosidade, o guarda-roupa, a linguagem gestual, os movimentos e o modo como devem falar as
personagens.
2- Estrutura interna :
- apresentação ou exposição;
- conflito;
- desfecho ou desenlace.
3- Estrutura externa: o texto dramático aparece dividido em atos e cenas.
Ato- cada uma das grandes divisões da peça de teatro. Há mudança de
ato sempre que se verifica uma mudança de cenário.
Cena- cada uma das subdivisões do ato. Há mudança de cena sempre
que entra ou sai uma personagem.
O texto dramático é escrito para ser representado por atores,
transformando-se, assim, em peça de teatro.