Em Busca Do Passado - Natalie Spark
Em Busca Do Passado - Natalie Spark
Bianca nº384
Copyright: Natalie Spark
Título original: "One Life at a Time"
Publicado originalmente em 1986
Digitalização/ Revisão: m_nolasco73
Ariel hesitou um instante antes de entrar na sala onde Chris Donahue a entrevistaria.
Nervosa, ajeitou os cabelos, indagando-se se ele a reconheceria. Fazia três anos que esperava
pela oportunidade de reaproximar-se dele e agora morria de medo do que poderia acontecer...
CAPÍTULO I
Chris Donahue não era um homem paciente, e dessa vez tinha motivos de sobra para estar
aborrecido. Durante quase dois dias inteiros permanecera em sua casa de Londres,
entrevistando candidatos para um cargo que ele considerava desnecessário. Todos os
candidatos traziam boas referências e currículo excelente. Irritava-lhe, porém, a idéia de
conviver com um deles durante semanas.
- Que perda de tempo - resmungou, virando-se para o homem mais velho, que trabalhava
como seu agente e o ajudara nas entrevistas. - Quantos ainda terei que ver?
- Você é quem decide, Chris - respondeu Paul Andrews. Ele também havia perdido dois
dias naquela tarefa, algo que não faria por outro escritor. Estava ansioso pela hora de resolver
o assunto. - Todos que entrevistamos são muito bons. Afinal de contas, Chris, o que você está
procurando? Um computador humano?
- Quanto menos humano, melhor - retrucou o escritor. - Por que não esquecemos isso,
Paul?
- Não comece, Chris. Já discutimos várias vezes. Você pode ser um gênio em computação
e um escritor incrível, mas não pode fazer sozinho a adaptação do livro para o cinema. Não
tem a experiência necessária e precisará de alguém para ajudá-lo. A menos que... - Paul fez
uma breve pausa e depois continuou em tom cauteloso: - Bem, só se entregarmos a adaptação
a um profissional e não pensarmos mais no assunto. Aliás, é o que faz a maior parte dos
escritores... - O olhar gélido de Chris Donahue o deteve.
- Não sou um escritor. Só Deus sabe o que me fez escrever esse livro. Apesar disso, me
recuso a vê-lo recortado e modificado por alguém que já fez isso centenas de vezes. Quero
que entenda de uma vez por todas, Paul. Ou eu mesmo faço a adaptação, ou pode desistir do
filme!
- Está bem. - O agente cedeu, convencendo-se de que não adiantaria insistir. - Faça como
quiser, Chris. Na verdade, nem sei porque me importo tanto.
Mas ambos sabiam o motivo. The Island of the Lost era o maior sucesso literário da
agência de Paul nos últimos anos. Fora publicado em diversos países e havia produtores de
cinema interessados em realizar o filme. Cada um oferecia mais vantagens que o outro: o
melhor diretor, atores famosos e uma renda altíssima. Em tantos anos de trabalho, como
agente literário, Paul Andrews jamais vira um êxito tão grande. Mas sabia tanto quanto o
próprio Chris que o fato se devia muito mais ao nome do autor.
Chris Donahue surgira como uma lenda no mundo dos computadores, desde os dezessete
anos, quando se revelara um gênio precoce. Antes dos trinta, chegara a dirigir um império
econômico internacional na área de computação. Um homem enigmático e imprevisível,
sempre surpreendera admiradores e rivais com seu talento e com suas aventuras arriscadas.
Apesar disso, o grande público não o conhecia, até seu jatinho particular cair no Oceano Índico
e Chris ser dado como morto.
A aura de romance e mistério envolvendo a morte do jovem milionário atraiu a imprensa, e
o público logo se interessou pela história. Chris Donahue, supostamente morto, tornou-se uma
celebridade internacional, assunto para inúmeros artigos e temas para vários biógrafos.
E então, cerca de seis meses depois do acidente, Chris reapareceu, sem dar qualquer
explicação. Recusou-se a reassumir a direção do grupo Donahue e abandonou o antigo modo
de vida, para refugiar-se em sua mansão ou desaparecer em alto-mar, sozinho em seu iate.
A transformação do antigo playboy num recluso aguçou a imaginação do público. Não era
de surpreender que o primeiro livro de Chris Donahue, uma novela de ficção científica, tivesse
vendido tanto.
O autor, no entanto, quase se arrependeu da decisão de publicar o livro, pois a fama e o
interesse de todos interferiam em sua vida particular. Afinal, Chris não precisava de dinheiro e
a invasão de sua privacidade o aborrecia profundamente.
Naquele momento, Paul Andrews observava a expressão obstinada no rosto do escritor,
sabendo que não poderia convencê-lo.
- Vou entrevistar apenas mais um candidato, Paul - disse Chris, acomodando o corpo forte
e musculoso numa poltrona. - E depois, basta.
- E se esse também não preencher seus requisitos para um colaborador? O que vamos
fazer?
- Você pode dizer àquele sujeito...
- Peter Garland - completou Paul, mencionando o nome do maior produtor de cinema do
país. - Sabe que a maioria dos escritores seria capaz de dar o braço direito para ter um livro
filmado por ele?
- Bem, pode dizer a ele que ou aceita minha própria adaptação ou nada feito.
Paul Andrews deu de ombros. Ele estava muito elegante vestindo um paletó de lã
azul-escuro e calças cinza.
- Eu desisto. Não adianta discutir com você. Além disso, preciso sair e você terá que fazer
sozinho a próxima entrevista.
- Ora, que droga, Paul! Não espera que eu faça todas essas perguntas ridículas ao
candidato, não é?
- Sinto muito, mas preciso sair. Perdi dois dias para ajudá-lo e tenho assuntos pendentes
no escritório. Você não é o único escritor de minha agência. Pode me telefonar mais tarde e
contar como ela se saiu.
- Ah, então desta vez é "ela"?
- E qual é o problema? É uma profissional competente e não vejo porque não deva
entrevistar uma mulher para o cargo. Na verdade, ela não é uma roteirista, mas trabalha como
secretária da produção e já ajudou muitos autores, pois conhece toda a parte técnica da
realização de um filme. E não vai interferir na essência da história. Não é isso que você quer?
O rosto bonito de Chris permanecia impassível.
- Jovem? - indagou ele.
- Sim. Por volta dos vinte, vinte e um anos.
- Casada?
- Não. Mas parece que há um sujeito na vida dela e... - Paul decidiu mudar de assunto. -
Ela é uma profissional excelente e eu mesmo posso lhe dar referências, Chris. Não causará
nenhum problema...
- Esqueça, Paul. Cancele a entrevista. Pensei que estivesse bem claro que não vou admitir
mais nenhuma beldade histérica, usando o trabalho como pretexto para se intrometer em
minha vida particular. Ou já esqueceu daquela datilógrafa que me mandou?
- Mas agora é diferente! Ela não é desse tipo! - O agente estava irritado e sua voz revelava
desagrado. - A jovem tem trabalhado com vários escritores que agenciamos e só tenho ouvido
elogios. Aliás, há alguns que se queixam de que ela não admite qualquer aproximação e se
dedica apenas ao trabalho. Não é justo que pense assim, sem ao menos conhecê-la.
Chris Donahue estudou o rosto zangado do agente e sorriu, um tanto cínico.
- Ora, Paul, será que ela conseguiu afetar esse seu velho coração de pedra?
Paul Andrews não correspondeu ao sorriso. Gostava de Chris e o admirava, não podia,
porém, aceitar a atitude do escritor, sempre hostil com as mulheres. Mesmo sem a fama e o
dinheiro, Chris Donahue era um homem muito atraente e qualquer mulher gostaria de
conquistá-lo.
Antes do acidente, tivera dezenas de namoradas. Aproveitava ao máximo o que lhe
proporcionavam, sem se envolver com nenhuma delas. Mas, ao retomar, passara a rejeitar as
mulheres com total indiferença.
- Sabe, Chris, essa sua atitude me preocupa. Não pode pensar que toda mulher que
conhece está preparando uma armadilha para envolvê-lo. - Antes que o outro pudesse
argumentar, Paul continuou: - De qualquer modo, é tarde demais para cancelar a entrevista.
Ela já deve estar chegando e terá que atendê-la.
- Está bem, Paul, eu vou vê-la. Mas será o último candidato com quem falarei. E é bom que
saiba que pretendo partir para as ilhas Seychelles na próxima semana e passarei alguns
meses em meu iate, sozinho e incomunicável.
O agente suspirou, resignado.
- Suponho que é perda de tempo pedir que dê uma chance para a garota. - Chris confirmou
com um gesto de cabeça. - Está bem, ela não vai se importar. Ariel Stewart é uma garota muito
inteligente.
- Ariel Stewart? - A voz de Chris soava ameaçadora. - Não é essa a garota que você vem
tentando me empurrar, desde que o procurei com o livro?
- É verdade que fiz isso? - Paul Andrews parou junto à porta, com uma expressão de
inocência no rosto. - Não me lembro de ter agido assim. Ela costuma trabalhar com vários de
meus escritores, você sabe.
Sem esperar resposta, apressou-se em deixar a sala, fechando a porta atrás de si.
Ariel Stewart estava atrasada, como sempre. Mesmo sabendo que aquela seria a
entrevista mais importante de sua vida, não conseguiu aprontar-se a tempo. Em verdade,
achava que deveria ser aprovada, pela experiência e capacidade, mais do que pela
pontualidade, e por isso não se apressou.
Paul Andrews, inquieto, muito agitado, a esperava encostado no reluzente Jaguar preto.
- Meu Deus, Ariel - exclamou ao vê-la sair do pequeno Renault, que acabara de estacionar.
- Você é tão irritante quanto Chris Donahue. Sabe que estou esperando aqui há mais de meia
hora?
- Sinto muito, Paul. - Ela endereçou-lhe um sorriso encantador. - Tentei não me atrasar,
mas foi impossível.
O agente disfarçou um sorriso. A naturalidade de Ariel, a graça e o bom humor que sempre
a acompanhavam, era o que a tomava irresistível, mesmo para um velho de coração de pedra
e cínico diante da vida, como ele.
- Não importa. Deixe-me olhar para você.
Os olhos experientes percorreram-lhe o corpo bem feito, aprovando as linhas severas do
conjunto que usava. Notava-se que ela tomara cuidado em demonstrar uma aparência
profissional, e até os cabelos longos, castanho-avermelhados, tinham sido cortados bem
curtos. O corte realçava-lhe as feições delicadas e os olhos grandes e amendoados. Quem a
tivesse conhecido três anos antes, dificilmente reconheceria nessa jovem elegante a mesma
garota inexperiente, queimada de sol, que viera das ilhas Seychelles.
- Muito bem - aprovou Paul. - Parece uma funcionária muito eficiente. Lembre-se de agir
como uma verdadeira secretária. Chris espera uma profissional inteligente, prestativa e com
conhecimentos técnicos. Não o deixe suspeitar de que é uma escritora. Ele não quer nem ouvir
falar de adaptadores.
- Sim, eu sei. Já me disse dezenas de vezes, Paul. Pode confiar em mim.
O agente assentiu. Se havia alguém capaz de se mostrar convincente era Ariel Stewart. A
imaginação fértil da garota estava sempre pronta para inventar detalhes engenhosos, que
tornavam plausível a história mais absurda.
- Ele concordou em entrevistá-la, mas isso não quer dizer que vai contratá-la. Sei que pode
conquistar facilmente qualquer homem, mas não subestime Chris. Precisará de todo seu
talento para conseguir o emprego.
- E vou conseguir, Paul - ela assegurou, demonstrando uma segurança que estava longe
de sentir.
- Gostaria de ter tanta certeza, minha querida. Mas Chris é um homem difícil de se lidar.
Ele estudou o rosto delicado, dividido entre um sentimento de afeição e uma certa
curiosidade. Ariel insistira durante meses a fio para que lhe conseguisse um trabalho, qualquer
trabalho, com Chris Donahue, apesar de ela própria prometer muito como roteirista. Pelo que
Paul sabia, o milionário era um completo estranho para Ariel, mas, ainda assim, ela estava
obcecada pela idéia de passar algum tempo ao lado de Chris. Por outro lado, sabendo da
atitude indiferente de Ariel em relação aos homens, podia afirmar que não se tratava de uma
simples paixão.
- Não consigo adivinhar o que pretende, Ariel. É um atraso em sua carreira. Terá que
cancelar seu contrato com a TV Universal e com certeza perderá vários outros trabalhos.
Gostaria que me contasse por que quer tanto trabalhar com Chris Donahue.
Ariel virou o rosto, evitando aquele olhar indagador.
- Um dia lhe contarei, Paul. Eu prometo.
Virou-se depressa, andou até o portão e tocou a campainha do interfone, antes que ele
insistisse no assunto.
O som metálico de uma voz feminina pedia a Ariel que se identificasse e logo em seguida o
portão se abriu para que ela entrasse.
- Telefono mais tarde, Paul. E desde já, obrigada por me conseguir o contrato.
Paul Andrews observou-a desaparecer pelo portão e por fim entrou no carro, suspirando.
Começara a trabalhar como agente de Ariel logo após a chegada dela à Inglaterra, quando lera
alguns dos contos que ela havia escrito. Seu escritório, um dos mais antigos e respeitados no
ramo, não costumava agenciar escritores jovens e inexperientes, mas era impossível ignorar o
talento de Ariel e muito menos resistir a seu encanto. Assim, ele a ajudara a entrar no mundo
fechado do cinema e da televisão, e agora acompanhava, orgulhoso, seu sucesso crescente.
Com o tempo, passou a gostar dela como se fosse uma filha querida.
No entanto, apesar da franqueza e da afeição genuína que Ariel demonstrava, havia algo
de secreto em sua vida. Falava com entusiasmo de seus planos, do trabalho e das ambições,
mas jamais se referia ao passado, ao que acontecera antes de sua chegada à Inglaterra. A
única coisa que Paul conseguira saber era que Ariel tinha vindo de uma ilha pequena e
desconhecida nas Seychelles, e que sua família vivia lá, há muitos anos. Ela falava com afeto
da educação tradicional que recebera, mas se recusava a contar porque deixara "sua ilha",
como costumava dizer.
- Eu queria escrever roteiros -fora sua única explicação. - Além disso, Michael precisava de
alguém para cuidar da casa.
Michael era o irmão mais velho de Ariel, um psiquiatra bem-sucedido, que, assim como ela,
decidira fazer carreira na Inglaterra, e com quem dividia uma enorme casa em estilo vitoriano
em Dulwich. Com exceção do irmão, ela parecia não ter parentes na Inglaterra e Paul não
podia deixar de se preocupar com alguém tão inexperiente, vivendo num mundo tão diverso
daquele em que nascera. De certo modo, longe das praias cheias de sol e do mar azul de sua
ilha natal, Ariel parecia um pássaro engaiolado. Para Paul, ela vivia como se esperasse por
alguma coisa, ou por alguém, para desfrutar de fato o que a vida podia oferecer.
Ansiosa pelo encontro com Chris, Ariel caminhava apressada em direção à casa. O
coração batia forte e o rosto se mostrava ligeiramente corado.
A construção era ousada e ultra moderna. Tinha uma arquitetura de linhas retas, com
fachada pintada de branco. O estilo apropriava-se mais a algum recanto ensolarado junto ao
mar, e nunca ao cenário dos campos da Inglaterra, em Hampstead Heath. Mesmo assim,
tratava-se de uma casa magnífica, e não parecia desloca da no meio das árvores.
A grande porta de entrada, de madeira entalhada, abriu-se para um saguão pouco
mobiliado, e uma garota de cabelos vermelhos e rosto sardento apareceu para receber Ariel.
Vestida com simplicidade, a funcionária não tinha nada a ver com a figura de voz metálica que
atendera antes o interfone.
- Srta. Stewart? - A garota sorria e, sem esperar resposta, começou a tagarelar. - Estou
servindo de recepcionista para Chris. Ele não tem nenhuma empregada, além da velha
Marjorie, que saiu para fazer compras. Ela é a governanta e trabalha para a família há muitos
anos - observava Ariel com uma curiosidade franca. - Adorei seu conjunto. É de uma etiqueta
famosa, não é? Como conseguiu comprá-lo com seu salário de secretária? - Antes que Ariel
pudesse pensar numa resposta cortante, a garota continuou: - Desculpe, estou sendo
intrometida.
Ariel riu, desarmada pela franqueza da menina.
- Está sim - confirmou.
- Eu sei, mas sou incorrigível. Não consigo ficar quieta. Aliás, meu nome é Daria e sou
sobrinha de Chris. Bem, não sou sobrinha de verdade. Minha mãe casou-se com o primo de
Chris, Neville. Eu o chamo de tio só para provocá-lo. Chris fica furioso. Venha, vamos entrar
que ele já está esperando. Você é a quarta pessoa que ele entrevista hoje.
Havia algo de familiar naquela garota tagarela. De repente, Ariel notou que Daria se
assemelhava a ela própria, três anos antes. Muito tempo se passara, desde que saíra da ilha
de St. Patrick, refletiu, com alguma tristeza.
- Gosta de trabalhar como secretária? - A garota estava curiosa.
- Acho que sim - respondeu Ariel com voz fria. - Senão, por que continuaria fazendo isso?
Ela seguiu Daria até uma sala enorme, decorada com bom gosto e um certo luxo. Quadros
de pintores famosos enfeitavam as paredes e num dos lados havia uma enorme porta-janela de
vidro, de onde se podia ver a paisagem magnífica do campo de Heath. Para seu alívio, a sala
parecia vazia e a conversa incessante da adolescente a impedia de pensar.
- Eu jamais seria secretária. Acabaria odiando ter que ficar sentada, tranca da num
escritório o dia todo, obedecendo ordens... Não posso nem pensar nisso. Não é verdade,
Chris? - ela prosseguiu, sem sequer uma pausa para respirar.
Ariel virou-se em pânico, mas não viu ninguém na sala enorme.
- Tio Chris, venha conhecer Ariel. Apesar da aparência sofisticada, é muito meiga. Sei que
vai gostar dela.
- Já chega, Daria. Agora saia daqui e vá fazer um café.
Ariel prendeu a respiração ao ouvir a voz agressiva e, após um instante de confusão,
percebeu que o som vinha do terraço, além da porta-janela envidraçada, por onde Chris
entrava naquele momento.
Ele usava um jeans desbotado e um largo blusão vermelho. A roupa descontraída
ressaltava as linhas fortes do rosto, os cabelos loiros queimados de sol e o corpo esguio,
porém musculoso. Chris Donahue apoiava-se no batente, com uma graça descuidada, que não
escondia a aura de sensualidade. A expressão indiferente em seu rosto não revelava
hostilidade, nem o menor sinal de reconhecimento ao fitar Ariel.
- Aceita uma xícara, não é? - ouviu-o dizer.
As palavras casuais que ela havia ensaiado morreram na garganta e Ariel apenas pôde
sorrir.
- Devo interpretar esse silêncio como uma indicação de que não gosta de café? - Havia
uma nota de zombaria na voz dele. - Ou talvez prefira chá? Ou, quem sabe, queira beber algo
mais forte? - Nesse momento, ele fez um gesto, levantando o copo de uísque puro que
segurava.
- Ora, Chris. Pare de intimidar a garota - Daria virou-se para Ariel, sorrindo. - Não deixe que
ele a amedronte. Na verdade, Chris não quer ninguém para ajudá-lo na adaptação do livro.
Aceita um café, srta. Stewart?
A atitude protetora da garota surpreendeu Ariel, que por um momento não soube o que
responder. Mas logo recuperou-se e agradeceu em tom controlado, forçando um sorriso.
- Obrigada, aceito sim.
Assim que Daria saiu, Ariel virou-se para o homem que a fitava, esperando que ele fizesse
o primeiro movimento.
Chris Donahue agia de modo arrogante, como se estivesse aborrecido com a situação, e
ela não iria lhe dar a satisfação de demonstrar seus temores. Com expressão indiferente,
encarou-o e perguntou:
- Posso sentar?
- É claro. Já tive tempo de admirar seu conjunto. É impecável. Será que pensou que não a
reconheceria nessas roupas?
Se já não estivesse sentada, Ariel poderia ter perdido o equilíbrio diante daquele
comentário. Mesmo gaguejando, procurou manter o controle.
- Re-reconhecer?
- Caso tenha esquecido, já fomos apresentados antes. No Mayfair, algumas semanas
atrás. Só que naquela ocasião você não estava tão elegante. Aliás, parecia mais uma hippie.
Por que recusou o convite de Paul Andrews para almoçar conosco?
Num misto de alívio e desapontamento, Ariel suspirou. Na verdade, tinha visto Chris
diversas vezes, durante os últimos meses. Procurava aparecer de propósito onde ele estava,
mas sempre encontrava apenas o olhar de um estranho. Para Chris, ela não passava de mais
um rostinho bonito.
- Sinto muito, sr. Donahue. Não pensei que se lembrasse de mim. E quero que saiba que
não pretendo enganá-lo, aparecendo com estas roupas. Só queria causar boa impressão.
Ele ouvia, sem nada dizer, com o rosto impassível e os olhos sem expressão. Perturbada,
Ariel tentou explicar-se.
- Sabe, achei que deveria vir bem vestida, já que estou me candidatando ao emprego como
secretária e...
- E você é mesmo uma secretária? - A pergunta foi brusca.
- É claro. Paul Andrews não lhe contou?
- Sim. Segundo ele você é secretária da produção e conhece todos os segredos de um
bom roteiro, além de ser inteligente e experiente. É verdade?
- Sim - ela replicou, erguendo o queixo numa atitude de desafio.
- Muito bem. Pelo jeito não lhe falta auto-confiança.
- Sei do que sou capaz, sr. Donahue.
Por alguns momentos ele a fitou, mas Ariel não baixou os olhos, enfrentando-o com
firmeza.
- Seu nome é Ariel?
- Ariel Stewart.
- É um nome pouco comum. Mas vou me acostumar com ele. - Depois de uma pausa,
Chris prosseguiu sorrindo: - Bem, bom dia, Ariel.
O rosto másculo iluminou-se com o sorriso e sem se conter Ariel também sorriu, os olhos
brilhando de alegria. Só que essa sensação durou pouco, pois no mesmo instante ele tornou a
falar em tom frio e um tanto brusco.
- Não costumo ter horários normais. Espero que possa trabalhar nas horas mais estranhas
e no lugar que eu quiser. Talvez, até fora de Londres. Terá que se afastar de tudo por uns três
meses, pelo menos. Pode fazer isso?
- Posso - respondeu ela, mal acreditando no que ouvia. Pelo jeito, o emprego já era seu. -
Apenas me diga onde e quando.
- Não quer saber por quê?
- Ah, eu sei porquê. Por alguma razão, quer adaptar a novela sozinho.
- E isso é tão incomum?
- Bem, é sim. A maior parte dos escritores prefere dedicar-se ao próximo livro, em vez de
perder tempo com o que já está pronto. A menos que precisem de dinheiro, o que não é o seu
caso. Você é uma exceção. Fico imaginando por que quer fazer isso...
- Então está curiosa, apesar de tudo? - A voz era suave, mas havia um tom ameaçador que
fez Ariel enrijecer.
- Isso é natural. Mas sei que, ao menos por enquanto, não confia em mim o suficiente para
contar o motivo.
- É bastante perspicaz - observou Chris. - Então não se importa de ficar trancada comigo
por alguns meses? Pense bem, seremos só nós dois. Trabalho e vivo em total reclusão.
- Não me importo. Onde costuma se isolar?
- Aqui, entre outros lugares... quando não sou perturbado pela minha família. Aliás, é parte
do seu trabalho mantê-los afastados.
- Mas... - ela ia retrucando sem pensar, e logo se corrigiu. - Quero dizer, está bem.
- O que ia dizer Ariel?
Não adiantava fingir ou disfarçar diante daquele olhar penetrante. Por fim, ela explicou:
- Eu pensei... Isto é, Paul Andrews disse que você gostaria de trabalhar no iate.
- E você gostaria disso? - Chris perguntou com a voz cheia de ironia, ao pensar que ela se
deixava impressionar pelos bens que o dinheiro lhe proporcionava.
- Adoraria. - Ela manteve a voz doce e inocente. - Adoro o mar e aprendi a velejar ainda
bem pequena. Costumava navegar no nosso barco quase todos os dias, mas já faz três anos
que estou longe de casa.
- Entendo. - Ele sorriu com malícia, ao ver a maneira hábil que ela usava para lhe dizer que
também estava acostumada ao luxo e ao conforto. - Pelo que vejo, você não precisa de
dinheiro, Ariel. Por que não deixa o emprego para alguém que realmente precise dele?
- Não - respondeu ela secamente, recusando-se a aceitar o velho argumento de que as
jovens ricas não deviam trabalhar. - Só desistiria se houvesse alguém mais qualificado do que
eu. Quando quer que comece?
- Bem... De quanto tempo precisa para resolver os outros compromissos?
- Já resolvi tudo. Posso começar quando quiser.
Por um instante, ele ficou silencioso, fitando-a com frieza.
- Tinha tanta certeza de que conseguiria o emprego?
- Eu... tinha um pressentimento. - Ela riu, procurando não demonstrar embaraço.
- Acredita que conseguiu? - Algo na voz profunda de Chris apagou o sorriso de Ariel, e a
fez lembrar da advertência de Paul Andrews. Chris Donahue era imprevisível e não seria fácil
convencê-lo.
Ariel ficou furiosa consigo mesma. Será que tinha estragado tudo? Lutando para aparentar
serenidade, perguntou num tom falsamente contido:
- Quer dizer que não me quer? - Não percebeu o duplo sentido das palavras e aguardou a
resposta, ansiosa.
- É exatamente isso.
- Mas nem sequer perguntou sobre minhas qualificações, minha experiência... - Ariel
tentava não demonstrar desapontamento.
- Nem por um segundo duvidei que fosse muito bem qualificada. Só que não confio em
você.
- Posso... posso saber por quê?
- É claro - respondeu ele, depressa. - Você é esperta, mas não sabe fingir muito bem. Sei
que teria se candidatado a qualquer emprego que eu oferecesse, até mesmo cozinheira ou
arrumadeira, porque pouco importa o que irá fazer. - Chris fez uma pausa e a encarou com os
olhos cheios de malícia. - Não está atrás de um emprego. Ainda não descobri o motivo, mas
está atrás de mim, Ariel.
Ela enrijeceu, num misto de fúria e humilhação, sem conseguir falar. Aquele sorriso cheio
de arrogância e desprezo era mais do que poderia suportar.
- Mesmo se estivesse certo, sr. Donahue, essa entrevista mudou minha opinião. Sinto
muito ter tomado seu precioso tempo. Adeus.
Como se estivesse esperando a deixa para entrar em cena, Daria abriu a porta da sala,
trazendo uma bandeja com café.
- Espero que esteja bom. - Ela anunciou o café alegremente, como se não percebesse a
atmosfera tensa. - Usei a nova cafeteira, mas acho que coloquei muito pá. Se ficou forte
demais, podem pôr água quente. Eu trouxe um bule.
Daria quase empurrou Ariel de volta ao sofá, colocando uma xícara fumegante nas mãos
dela.
- Experimente. - Provando de sua própria xícara, Daria sentou-se ao lado de Ariel,
demonstrando claramente que pretendia participar da conversa. - Ela já está contratada? -
perguntou ao tio. - Já combinaram o salário? Não precisa ser modesta - continuou, virando-se
para Ariel. - Chris é um patrão generoso e merece ser explorado. E não se preocupe. Ele vai
fazer com que trabalhe para merecer cada centavo. Pode ter certeza.
A garota devia ser insensível, ou então incrivelmente esperta, pois de certo modo
conseguira acalmar a raiva de Ariel, que via nela a sua própria imagem adolescente.
- Você me deixa experimentar esse conjunto que está usando? Acho que somos do mesmo
tamanho - Daria continuava a tagarelar. - Minha mãe insiste em me comprar roupas ridículas,
muito infantis, mas acho que vou ficar maravilhosa na sua roupa.
- Chega. Daria! - cortou Chris Donahue.
- Ainda não terminou a entrevista? - perguntou a garota. - Será que quinze minutos não
foram suficientes para atormentar Ariel?
- Isso não é da sua conta, Daria. Não tente ser engraçadinha.
- Ora, tio Chris...
- Saia daqui - explodiu ele.
Surpresa. Ariel viu os olhos da garota se encherem de lágrimas, enquanto o rosto revelava
mágoa. Daria tinha muito talento para representar e Ariel não conteve uma gargalhada, ao
notar que Chris acreditava na representação.
A menina parou a caminho da porta e encarou Ariel, intrigada. Aquela mulher
elegantemente vestida ria sem parar, e isso a transformava numa pessoa tão jovem quanto ela
própria. De repente, Daria também começou a rir.
Por fim se fitaram, cúmplices, um pouco surpresas com a inesperada afinidade. Chris
Donahue estava esquecido. Nenhuma delas notou-lhe a expressão sombria e os olhos sérios,
até que ele se levantou bruscamente e saiu para o terraço.
Daria acompanhou-o com o olhar, demonstrando preocupação. Sem dizer nada, fez um
gesto de cabeça na direção de Ariel e saiu da sala.
Ao ver Chris parado solitário no terraço, o coração de Ariel se apertou. Ele parecia estar
sofrendo, queria consolá-lo, mas era óbvio que nenhuma demonstração de simpatia seria
aceita. Durante algum tempo, não soube como agir, mas, num impulso, pegou uma xícara de
café e saiu para o terraço atrás dele.
- Aqui está o café. - Ela pousou a xícara numa mesinha ao lado dele. - Já estava esfriando.
Chris não esboçou qualquer reação. Foi como se nem tivesse ouvido. O vento frio agitava
os cabelos curtos de Ariel, que esperava, contemplando a bela paisagem de primavera.
Quando ele falou, o tom era de novo controlado.
- Você vive em Londres?
- Agora vivo - ela respondeu, sem ousar fitá-lo. - Vim para Londres há três anos.
- De onde?
- Da ilha St. Patrick, nas Seychelles.
- Conheço as Seychelles muito bem, mas não me lembro dessa ilha - comentou Chris.
- É muito pequena, quase desabitada. - Ariel ia começando a explicar, mas os olhos azuis
e penetrantes, fixados em seu rosto, a fizeram parar.
Parados frente a frente, seus olhares se encontraram francamente, pela primeira vez.
- Ariel... - murmurou ele consigo mesmo. - Ariel Stewart, não é?
Ela assentiu, retendo o fôlego. Por um momento interminável, Chris pareceu estar lutando
com a memória, para lembrar de alguma coisa, mas finalmente sacudiu a cabeça, num gesto
que expressava frustração.
- Eu... acho melhor ir embora - disse ela suavemente.
- Espere! - O tom de Chris era baixo e um tanto ameaçador. - Ainda quero fazer uma
pergunta.
Ariel parou a caminho da porta.
- Vire-se - ordenou ele, suavizando a ordem em seguida.
- Por favor.
- Ela obedeceu, mantendo os olhos baixos, e ele não disse nada por alguns segundos,
observando-a com atenção.
- Nós nos conhecemos antes. - Não era uma pergunta e sim uma afirmação. - E não falo
desses encontros rápidos dos últimos tempos, em que tentou se aproximar de mim, em
Londres. Sei que já ouvi seu riso antes.
Ariel escolheu as palavras de tal forma que a resposta não a comprometesse.
- É claro que ouviu. E igual ao de Daria. Nós duas ficamos surpresas com a semelhança.
- Sim, é verdade. Mas não foi isso que quis dizer. Tive a mesma sensação quando ouvi
Daria rir. - Ele sacudiu a cabeça, impaciente consigo mesmo, por não saber definir o que
acontecia. - Responda. Não nos encontramos antes?
- Eu... acho que não. - Ela tremia, mas a voz soou impessoal. - Deve estar me confundindo
com outra pessoa.
Ariel sustentou o olhar inquisidor de Chris Donahue, procurando aparentar uma firmeza
que estava longe de sentir.
- É, estou enganado - suspirou ele. - E o emprego é seu, se ainda quiser.
Em vez de sentir alívio ou uma sensação de triunfo, ela estremeceu, dando-se conta de
que seus problemas estavam apenas começando.
- Quero sim. Obrigada.
- Não precisa agradecer - resmungou Chris. - E não pense que mudei de idéia. Ainda não
confio em você.
- Entendo. - Ariel mal conseguia falar, magoada pelas palavras cruéis. - Quando quer que
eu comece?
- Amanhã de manhã - respondeu ele, por sobre o ombro, virando-se e caminhando de volta
para a sala, o que a forçou a andar atrás dele. - Vamos fazer uma experiência durante alguns
dias, antes que eu tome uma decisão final. Enquanto isso, sugiro que se mude para cá. Como
disse, não costumo trabalhar em horários normais e preferia que não dirigisse por aí durante a
noite, para voltar para casa. - De repente, Chris parou e encarou-a friamente. - Marjorie,
minha .governanta, mora aqui, caso esteja pensando. que tenho segundas intenções. Está bem
assim?
Mais uma vez ela assentiu, tentando não revelar suas emoções.
- Se importaria se eu trouxesse minha máquina de escrever? E portátil e estou acostumada
com ela...
- Não se preocupe com Isso. Ele sorriu mecânicamente. - Pode usar a minha; está no
estúdio. Peça a Daria ou Marjorie para que lhe mostrem tudo por aqui. Há algo mais que queira
saber?
Ela negou com um gesto de cabeça, consciente de que Chris Donahue estava impaciente
para terminar a entrevista. Apoiado na porta de carvalho, ele tinha a mão na maçaneta de
bronze, pronto para abri-la.
- Nós... nos vemos amanhã - balbuciou ela.
Inclinando-se para pegar a bolsa a tiracolo, Ariel percebeu que ele a fitava de um modo
estranho, muito intenso.
- Ariel...
Ela parou ao notar a suavidade na voz máscula.
- Sim? - atendeu, virando-se devagar.
- Há algo que precisa saber, antes de começar a trabalhar comigo. É um segredo e prefiro
que saiba por mim, em vez de ouvi-lo de Daria, ou de qualquer pessoa da minha família. E não
preciso dizer que conto com sua discrição.
O coração de Ariel batia acelerado e ela mal ousava respirar, com medo de trair suas
emoções.
- Ouviu falar do meu desaparecimento há cerca de três anos? - continuou Chris.
- Sim... eu li algo a respeito.
- É, imagino que tenha lido. E não gostaria de saber o que aconteceu nos seis meses em
que estive desaparecido?
- Sim. - A voz de Ariel era pouco mais que um sussurro.
- É bastante simples, minha cara - ele prosseguiu, em tom seco. - A verdade é que não me
lembro de nada. Perdi a memória.
Apesar da voz soar casual e sem expressão, Ariel percebeu o esforço que Chris fazia para
controlar-se.
- Você não parece surpresa, nem chocada - disse ele sorrindo. - Acho que não entendeu.
Há um vazio no meu passado. Seis meses nos quais vivi como outra pessoa, e não sei onde ou
como isso aconteceu. Posso ter matado, assaltado... Posso ter feito qualquer coisa...
- Ou pode simplesmente ter estado em algum lugar, perdido e confuso, mas agindo tão
normalmente quanto agora - interrompeu Ariel.
Chris levantou a cabeça, surpreso com a observação, e ela apressou-se em explicar.
- Meu irmão é psiquiatra e já ouvi falar de vários casos semelhantes. Lembro-me de tê-lo
visto comentar que, em geral, uma pessoa que sofre de amnésia temporária continua agindo
de acordo com sua natureza, sem alterar o comportamento.
- E os outros casos? - zombou ele. - Devem existir exceções.
- Acho que existem, mas de certo modo sei que não é uma delas. E o senhor também sabe
disso - concluiu Ariel, firme.
O rosto forte e másculo iluminou-se com um largo sorriso.
- Está bem. Acho que tem razão. E meu nome é Chris - disse ele, estendendo a mão, como
se estivesse se apresentando. Ela hesitou, mas, por fim, correspondeu ao aperto da mão firme.
- Vamos admitir que eu não seja um maníaco homicida nem um seqüestrador. Mas sou
temperamental, imprevisível e, às vezes, pouco racional. Terá que se acostumar com isso.
Posso reagir com brutalidade, quando algo me perturba.
- Como aqui, ao me ouvir rindo - concluiu Ariel, sem pensar.
O silêncio que se seguiu a amedrontou, e ela baixou os olhos, temendo que ele dissesse
algo para censurá-la pela intervenção. Mas, em vez disso, Chris sorriu de novo, como se
lembrasse de algo ou de alguém, e a recordação fosse agradável.
- É verdade - concordou ele, como se falasse consigo mesmo. - Sei que ouvi esse riso
antes, mas num outro lugar. Um lugar quente, onde o mar é manso e azul... - O olhar distante
fixou-se nas mãos fortes. - E até minhas mãos sentem a textura macia de cabelos longos,
quentes do sol, despenteados pelo vento...
Chris virou-se para observar os cabelos muito curtos de Ariel, e notou-lhe os olhos escuros
cheios de lágrimas.
- Pelo amor de Deus! Não me olhe com essa expressão infeliz! - A explosão foi brusca,
mas logo ele se arrependeu. - Peço que me desculpe. E que sempre que tento lembrar, acabo
perdendo o controle. Por favor, não deixe que isso a perturbe.
Ela concordou, sem dizer nada.
- Vamos, Ariel. Deixe-me ouvir seu riso outra vez.
Ela engoliu em seco, sem ao menos conseguir sorrir.
- Não posso. Sinto muito.
Por um breve instante, ele sorriu, mas logo virou as costas e deixou a sala, dando a
entrevista por encerrada.
CAPÍTULO II
Era muito bom para Ariel ouvir Chris lhe pedindo que sorrisse outra vez. Lembrou-se
saudosa das circunstâncias estranhas em que o conhecera e desejou o amante perdido havia
três anos.
- Kane... - murmurou baixinho, deixando-se cair na poltrona onde ele estivera sentado.
Kane era como resolvera chamá-lo, já que ele não se recordava do verdadeiro nome. Ela
ainda não sabia bem porque havia escolhido esse nome em especial.
Na primeira vez que Ariel viu Chris, ele havia sofrido uma crise de perda de memória. Um
pescador nativo o encontrou inconsciente na praia e o levou até sua cabana. Não havia sinal
de um iate ou de um veleiro pela vizinhança. Por isso, todos pensaram que o desconhecido
devia ter nadado de uma das ilhas maiores. Com certeza, tinha sido apanhado por uma das
correntes marítimas muito fortes na região, que o arrastara para o alto-mar, atirando-o depois
na praia de St. Patrick.
Durante dois dias, Chris esteve em estado de coma. Até que a mulher do pescador,
ex-empregada dos Stewart, percebendo o ferimento profundo na cabeça, decidiu procurar os
antigos patrões. Ele precisava de cuidados médicos. Felizmente, o dr. Michael, irmão de Ariel,
estava na ilha para passar os feriados de Natal.
Michael não ficou muito entusiasmado com a idéia de se envolver num caso como aquele,
mas seu dever de médico o obrigava a socorrer um necessitado. O casal de nativos não havia
encontrado passaporte, nem cartões de crédito ou qualquer documento de identificação. Isto
levou Michael a temer que Chris pudesse ser um foragido da polícia ou, quem sabe, um
criminoso político. Às vezes, a ilha de St. Patrick servia de refúgio ideal para os perseguidos
pelas autoridades. Era pouco habitada e, além dos nativos, ali só vivia uma família de
europeus: os Stewart. Tratava-se de um lugar quase desconhecido pelos turistas e, por esta
razão, não possuía policiamento nem representantes do governo.
Ariel, sem resistir à curiosidade, insistiu em acompanhar o irmão à visita ao doente. E
assim Chris entrou na vida dela, trazendo-lhe uma repentina reviravolta.
Nessa época, estava com dezenove anos e já havia estudado seis longos anos na
Inglaterra. Seus pais achavam que deveria voltar logo para aquele país, a fim de cursar uma
universidade. Ela, porém, resistia à idéia. Amava a ilha e não se cansava da paz e da beleza
que a rodeavam. O mundo fora dali lhe parecia cheio de competições e inveja, e ela não tinha a
menor pressa de enfrentá-lo. Nem por isso deixava de levar uma vida social; possuía muitos
amigos nas outras ilhas. Quanto à profissão, não se preocupava; escrevia contos que às vezes
enviava a jornais e revistas na Inglaterra e já tivera a satisfação de ver alguns aceitos. Uma
certeza íntima lhe dizia que a literatura era seu caminho.
Só não tinha encontrado ainda o amor. Escrevia sobre ele, fantasiava situações românticas
para suas heroínas, mas jamais se apaixonara. Até conhecer Chris.
Ele estava deitado na cama de junco, na pequena cabana nativa, o rosto pálido sob a
barba de vários dias. Os cabelos loiros estavam emaranhados e ásperos pela água do mar e
os olhos continuavam fechados. Sob o cobertor rústico, o corpo nu permanecia imóvel, sem
revelar o menor sinal de vida.
- Ele está morto, não é Michael? - Ariel desviou os olhos, horrorizada.
- Ele não está morto - afirmou o irmão. - Mas tem um ferimento muito sério, apesar de não
haver fraturas aparentes. Não sei como resistiu a essa pancada na cabeça e a tantas horas no
mar. Agora saia, Ariel. Não quero que me atrapalhe.
O som da voz falando em inglês e o movimento no quarto o despertaram. Ele abriu os
olhos, fixando-os diretamente em Ariel. Mesmo à luz escassa da cabana, aqueles olhos azuis
eram brilhantes e a encaravam como se já se conhecessem, revelando total confiança. Ela
sorriu e sentiu o coração acelerar ao ver que ele se esforçava para corresponder. Mais tarde,
confessou a ele que havia se apaixonado naquele instante.
- Fala inglês? - perguntou Michael, sem perceber a troca de olhares entre a irmã e o
doente.
Fraco demais para falar, Chris apenas assentiu com um gesto de cabeça e o médico
confortou-o, com a mão protetora apertando-lhe de leve o ombro.
- Descanse e não tente falar. Esteve inconsciente durante vários dias, e aqui não tenho
condições de avaliar o seu estado. Talvez precise removê-lo para o hospital em Mahe.
Houve um outro gesto fraco de concordância. Seu rosto demonstrou uma aceitação
tranqüila, sem revelar medo ou ansiedade. Enquanto Michael cuidava dele, Ariel se pôs a falar,
receando que o doente adormecesse novamente e ela não pudesse mais ver aqueles olhos
azuis que a fascinavam.
- Michael é médico. Ele é meu irmão, e meu nome é Ariel. Quando puder sair da cama,
você vai adorar esta ilha. É linda, tem as praias mais encantadoras do mundo.
- Fique quieta, Ariel - repreendeu-a o irmão, evitando cansar o doente. - Por enquanto, não
há mais nada que eu possa fazer. Vamos esperar até amanhã para verificar como estará
reagindo. Durma bastante, rapaz, prometo que estarei de volta logo cedo.
- Hei, Mike, espere um pouco. Não está pensando em deixá-lo aqui, não é? - interrompeu
Ariel com a costumeira impulsividade. - Vamos levá-lo para nossa casa.
- Oh, não, nós não vamos! - cortou o irmão, brusco. - Além de não podermos movê-lo
nessas condições, não acredito que papai fique muito feliz com a perspectiva de hospedar um
foragido.
- Mas ele não é um foragido, Mike. - Ariel nem baixou a voz. - Não demonstrou receio
quando você falou em transferi-lo para a ilha principal. Se fosse um fugitivo, teria reagido de
modo bem diferente.
Um lampejo de bom humor passou pelos olhos de Chris ao notar como a garota o
defendia. A partir desse dia, Ariel passou a tomar conta dele. Na verdade, ele precisava de
poucos cuidados e dormia a maior parte do tempo. Foi ficando mais forte a cada dia, de tal
modo que Michael desistiu de removê-lo para o hospital.
Mais três dias se passaram, antes que Chris despertasse totalmente e pudesse conversar.
As primeiras palavras saíam sem sentido, quase gaguejadas. Ariel, sentada de pernas
cruzadas no chão, ao lado da cama, devorava uma fatia de manga e tinha o rosto lambuzado
pela fruta.
- Quer dizer que, apesar de tudo, elas comem - sussurrou Chris, a voz máscula fazendo-a
estremecer. - E eu que sempre pensei que as fadas não precisassem comer.
- E não precisam mesmo - retrucou Ariel. - Eu não sou uma fada.
- Então essa ilha não é encantada? - perguntou ele sorrindo.
Aceitando a brincadeira, Ariel respondeu:
- Bem, na verdade não é, mas minha mãe sempre achou que se parecia com uma ilha
mágica, que aparece nos contos de Shakespeare, na qual vive uma personagem chamada
Ariel. Foi daí que surgiu meu nome.
- Tem certeza de que é mesmo de carne e osso? - ele insistiu.
Ariel começou a rir e viu que os olhos dele se enchiam de prazer, ouvindo o som quente e
cheio de alegria espontânea da voz dela.
- É claro que sim. Não tenho nada de fada ou de um espírito encantado. Muito pelo
contrário: de acordo com meu pai e Michael sou humana até demais.
Nos dias que se seguiram, ela contou-lhe tudo sobre a ilha, sobre sua vida e seus planos.
Até que, de repente, lembrou-se de que ainda não sabia o nome dele. Ao ser interrogado, pela
primeira vez uma expressão dolorosa, quase desesperada, dominou aquele rosto forte.
- Não sei - disse ele, após um longo silêncio. - Simplesmente não posso me lembrar de
nada.
Ariel não esquecia as horas terríveis em que o horror daquela situação o abatia. Ele não
conseguia se lembrar nem da casa, nem dos pais ou da família, nem um só detalhe da vida
passada. A única coisa que todos sabiam era que ele era inglês, devia ter trinta e poucos anos
e provavelmente havia cursado a universidade, pois se mostrava bem educado e falava
corretamente.
Michael, ao saber do problema, resolveu interferir, tranqüilizando-o com seus
conhecimentos profissionais.
- Olhe, meu amigo, essa perda de memória deve ser temporária. Acontece muito em casos
de ferimentos graves como os que você teve. Não vai ajudar muito se ficar tenso e ansioso em
relação a isso. O tempo resolverá tudo.
- Kane - interrompeu-o Ariel, como se não tivesse ouvido a explicação do irmão. - Vou
chamá-lo de Kane.
- Por quê? - indagou Michael, surpreso.
- Não sei. Acho que combina com ele. Você se importa? - Ela virou-se para o
desconhecido, esperando sua aprovação.
Algo na voz meiga de Ariel atenuou o sofrimento de Chris, que esboçou um sorriso
caloroso. Ela mostrava-se sincera e natural, sem se preocupar em esconder o que pensava ou
sentia, e, de certo modo, isso o confortava.
- Por que não? - disse, afinal. - Além do mais, o que é um nome? Acho que devo até ser
grato por não ter escolhido algo como Neville, Nigel ou Christopher.
- Christopher... - Ela repetiu o nome várias vezes. - Na verdade, acho que prefiro
Christopher...
- Não - ele a interrompeu, brusco. - Christopher não. Não gosto desse nome - repetiu,
sério.
Michael o observava pensativo, e comentou, um tanto cauteloso:
- Sabe, esse nome pode estar ligado ao seu passado, já que lhe provocou uma reação
instintiva. Às vezes, uma associação de idéia como essa pode ajudá-lo a recuperar a memória.
Por sugestão do próprio Michael, Chris permaneceu na ilha, em vez de retomar à
Inglaterra. O médico achava que a tranqüilidade do lugar poderia ajudar na recuperação.
- Acho que deve ficar aqui, Kane. Ninguém vai perturbá-lo com perguntas, com exceção da
minha irmã. Fique longe de Ariel, ou acabará maluco com a tagarelice e a curiosidade dela.
Após um acordo mútuo, os dois irmãos decidiram apresentá-lo aos pais como amigo de um
amigo de Michael, que viera para as ilhas Seychelles com intenção de se recuperar de uma
longa doença. Ariel, usando sua imaginação fértil, acrescentava inúmeros detalhes na história.
Para ela, Chris era um roteirista de cinema, e um dos motivos que o levara a St. Patrick era um
roteiro no qual estava trabalhando e cuja trama se passava numa ilha isolada do oceano Indico.
- Mas por que um roteirista? - perguntou Chris, quando ficou a sós com ela. - Por que não
um romancista ou um contista?
- Porque meu pai é um leitor incansável e iria pedir para ler um de seus livros. Por outro
lado, ele detesta cinema e televisão. Não há nenhum aparelho na ilha, e você está a salvo de
especulações.
Chris aceitou o raciocínio, mas ainda queria saber o porquê daquela escolha.
- Está bem. Mas por que pensou em mim como um escritor?
- Não sei. Acho que combina com você.
- Então aceito a idéia. Acho até que vou pensar no assunto...
Os pais de Ariel o aceitaram com entusiasmo, satisfeitos com a boa educação e
encantados com as maneiras refinadas do visitante inglês. Assim que recuperou um pouco as
forças, ele demonstrou disposição para nadar, além de dirigir o iate dos Stewart como um
verdadeiro profissional. Em duas semanas Chris parecia um membro da família e se tornara
um grande amigo de Michael, com quem passava boa parte do tempo.
Ariel, no entanto, não gostava da nova situação, pois quanto mais Chris melhorava, menos
tempo passava a seu lado, preferindo isolar-se na mata ou nas colinas, de onde se tinha uma
vista maravilhosa do mar azul.
- Deixe-o em paz, Ariel! - Michael a advertira antes de voltar à Inglaterra. - Não vê que
Kane prefere ficar sozinho?
Para justificar a permanência de Chris na ilha, após a partida do irmão, Ariel decidiu que
ele deveria realmente escrever e, numa manhã ensolarada, invadiu-lhe o quarto logo cedo.
- Chega de férias! Levante, Kane!
- Vá embora, Ariel - resmungou ele meio adormecido; cobrindo a cabeça com o travesseiro.
Chris detestava acordar cedo e nunca estava com boa disposição nas primeiras horas da
manhã.
- Não vou. E trate de levantar e vir comigo! Sua máquina de escrever acaba de chegar.
Ele gemeu baixinho, sentando na cama e mostrando o tórax forte e bronzeado, ao afastar o
lençol.
- Que história é essa?
- Escrever... É disso que estou falando. Ou já se esqueceu de que é um escritor? Acho
melhor que faça alguma coisa, ou meus pais vão desconfiar.
- E você, Ariel, trate de ficar longe do meu quarto quando estiver usando esse biquíni
minúsculo. Posso ter perdido a memória, mas meu corpo ainda sabe muito bem como reagir a
uma mulher seminua.
Ariel corou, mas ergueu o queixo desafiante.
- Sempre tomo um banho de mar quando levanto e não vou mudar meus hábitos por sua
causa.
- Eu só estou avisando, Ariel.
- Ora, Kane. Não seja tão puritano!
Com um sorriso malicioso, ele levantou-se e começou a andar na direção dela, sem revelar
embaraço por estar completamente nu.
Em pânico, Ariel se apressou a sair do quarto, ainda ouvindo a voz zombeteira às suas
costas.
- Quem é puritano, Ariel Stewart?
A casa dos Stewart ficava no meio de um jardim exuberante e cheio de flores e árvores
centenárias. Um caminho de pedras descia até a praia, até um local que Ariel batizara de
"estúdio".
Na verdade, era uma cabana aberta, sustentada por bambus e coberta por folhas de
palmeira, de frente para a pequena baía, onde permanecia ancorado o iate dos Stewart, o
único meio de comunicação com as outras ilhas. Graças ao pai de Ariel, fora feita uma ligação
com o gerador de energia da casa, e ela podia datilografar na cabana com uma máquina
elétrica. Quanto ao resto, era tudo muito simples: algumas cadeiras de balanço, duas mesas
dobráveis e esteiras de palha.
Naquela manhã, depois do encontro com Chris em seu quarto, ela se refugiara na cabana
para recuperar a calma, e quando ele veio procurá-la, algum tempo depois, já estava
novamente controlada. Ariel o obrigou a sentar-se numa das cadeiras, em frente à máquina de
escrever, onde já havia uma folha em branco, e ordenou-lhe que começasse a trabalhar.
Apesar do sorriso zombeteiro no rosto dele, continuou a insistir e, em seguida, afastou-se para
os rochedos à beira-mar, onde prosseguiria na revisão de seus contos.
Algum tempo depois, Ariel sorriu, ao ouvir o barulho da máquina. Chris afinal começara a
trabalhar.
Depois de deixá-lo escrever por mais de um hora, ela se aproximou e deu uma espiada por
sobre o ombro dele para ver o que havia escrito.
- Mas não é o roteiro de um filme! - exclamou, surpresa. - Parece mais o começo de um
romance.
- Acho que é isso mesmo - concordou ele sem parar de datilografar. - Por mais que
tentasse cumprir suas ordens, madame, não consegui escrever um roteiro.
- Posso ler as primeiras páginas?
- Pode sim - respondeu ele, sem afastar os olhos da folha de papel a sua frente.
Ariel ficou surpresa. Tratava-se de uma novela de ficção científica, que demonstrava um
grande conhecimento de computação por parte do autor. Ele parecia familiarizado com todas
as formas de inteligência artificial que a ciência explorava. Depois de algum tempo, comentou:
- Você deve ser um especialista em informática!
- É mesmo? - retrucou ele, sem lhe dar muita atenção.
- Não acha estranho que lembre tão detalhadamente como é a ciência da computação e,
ao mesmo tempo, não seja capaz de recordar sua vida particular? É claro que devia trabalhar
nesse ramo.
Ele não respondeu, mas era óbvio que isso também lhe ocorrera. A opção pelo gênero da
ficção científica revelava um interesse e um conhecimento específicos, e a fluência com que
escrevia demonstrava que o assunto lhe era habitual.
O romance se passava no presente, mas envolvia o encontro de três mundos: passado,
presente e futuro, que se defrontavam numa pequena ilha, quase desabitada, do oceano
Indico. O estilo era ágil e despertava de imediato o interesse do leitor.
Inconsciente de quanto seu gesto era provocante, Ariel jogou os cabelos para trás, rindo.
- Bem, o dr. Michael Stewart estava errado. A única coisa que precisa para recuperar a
memória é ter-me por perto. Afinal, acertei em cheio quando disse que era escritor.
Sem corresponder ao tom alegre, Chris encarou-a com o rosto grave e pensativo.
- Não concordo com isso, Ariel. No momento em que comecei a escrever, foi como se
tivesse me libertado de uma prisão. Penso que sempre quis escrever, mas nunca pude.
Desse momento em diante, ela não saiu mais dali, lendo avidamente cada página que ele
escrevia e, num certo momento, começou a rir, feliz com os resultados de sua idéia.
- Adoro seu riso, Ariel. - Ele inclinou-se e acariciou-lhe os cabelos. - É a única coisa que faz
o inferno em que vivo parecer menos doloroso.
Ao ouvir-lhe as palavras cheias de sofrimento, ela ficou séria.
- Não, não pare de rir - pediu-lhe.
- Não posso, Kane. Eu... não... percebi que você era tão infeliz.
Chris ajoelhou-se na areia, ao lado dela, e segurou entre as mãos o rosto delicado.
- Não sou, Ariel. Não neste momento. Você quase consegue preencher o vazio da minha
vida. Não fique tão triste. Sorria para mim. - Ele tocou os cantos da boca macia, como se
quisesse obrigá-la a sorrir.
- Oh, Kane... Eu gostaria de ajudar...
Ele sorriu, mas seus olhos não conseguiam esconder a dor e o desespero.
- Apenas fique aqui, Ariel. Isso basta. Oh, não... – A voz dele se suavizou ao ver as
lágrimas nos olhos dela. - Por favor, não chore. Não vai adiantar nada.
- Eu sei, mas não consigo parar.
Com um suspiro, Chris puxou-a para si, apoiando a cabeça de Ariel em seu peito
bronzeado, acariciando-lhe os cabelos. Nunca ela se sentira tão segura e, em pouco tempo, riu
baixinho:
- Não estou mais chorando - disse, erguendo a cabeça.
O rosto dele estava tão próximo, que Ariel ficou imóvel, retendo o fôlego, aguardando o que
iria acontecer. Os lábios exigentes de Chris tomaram-lhe a boca macia, enquanto seus braços
fortes a puxavam com mais força para si. O beijo foi cheio de paixão e ela correspondeu com
intensidade, sem entender totalmente as sensações que a dominavam.
O braço forte rodeou-lhe a cintura, fazendo-a deitar na areia quente, e numa reação
instintiva Ariel o abraçou, acariciando as costas musculosas. Ela já havia sido beijada outras
vezes, mas nunca sentira uma emoção tão forte, uma necessidade tão intensa de entregar-se
completamente, sem barreiras.
Chris puxou a camiseta de Ariel, soltando o fecho do biquíni, tocando levemente o seio
firme e macio. Então, bem devagar, deixou os lábios descerem pelo pescoço, pelo colo suave
até alcançarem o mamilo ereto, fazendo-a estremecer. Ela estava quase embriagada por
aqueles toques provocantes. Gemia baixinho, enquanto, as pernas de ambos entrelaçavam-se.
Podia sentir o desejo intenso de Chris que aumentava mais e mais sua própria paixão.
Apenas o barulho do mar os envolvia e, de repente, ele sentou-se, um tanto brusco:
- Dezenove anos e nunca tinha sido beijada - zombou, mas seus olhos, brilhantes de
desejo, tinham uma expressão terna. - Essa ilha é mesmo encantada.
Indignada, Ariel esqueceu da emoção que a subjugara há pouco.
- Não seja ridículo, Kane. É claro que já tinha sido beijada.
- Será? - provocou-lhe, rindo.
- Bem... - Ela riu também, ainda trêmula. - Não desta maneira.
Chris olhou-a intensamente, ainda sorrindo, embora seus olhos estivessem sérios e cheios
de ternura.
- Não estou certo de como devemos agir, meu bem.
- O que... o que quer dizer?
- Quero dizer que não sei se continuamos em frente, ou se devo deixá-la esperar pelo seu
futuro marido.
O tom afetuoso com que essas palavras foram ditas comoveu Ariel. Ela ergueu a cabeça,
fitando-o diretamente. Não precisava, nem queria esconder o amor que sentia, nem o desejo
que a dominava e a impelia para aqueles braços.
- Se fosse você, não perderia tempo pensando. - A voz dela era suave. - Meu futuro marido
pode ir para o inferno, a menos que você seja um futuro candidato.
Sem dizer nada, Chris puxou-a para si. Ariel jamais pensou que pudesse ser tão feliz
quanto naquele momento, nos braços do homem que amava.
Mas estava enganada. Havia subestimado sua capacidade de ser feliz. A cada dia, a
ligação física e emocional com Chris se tornava mais forte, transformando cada ocasião num
momento especial, cheio de amor. As semanas foram se passando e ele parecia fazer parte da
família Stewart. Os pais de Ariel o adoravam e os empregados não sabiam o que fazer para
agradá-lo. Todos esperavam um pedido de casamento em breve, mas Ariel nem pensava
nisso.
Apesar de tudo, Chris não permitira que o relacionamento físico de ambos se
aprofundasse, e ela ansiava pelo momento em que pudessem se amar totalmente.
Ele, por sua vez, estava obcecado pela novela, que continuava a escrever com
regularidade, enquanto Ariel, ainda insistindo na idéia inicial do roteiro do filme, abandonara
seu próprio trabalho para fazer a adaptação do livro dele.
Como trabalhavam o dia todo, praticamente viviam na cabana da praia, e só paravam para
dar um mergulho no mar azul ou para uma corrida pela areia ao pôr-do-sol. A noite, voltavam
para a casa dos Stewart para o jantar, uma refeição que a família de Ariel fazia questão de
compartilhar.
O casal Stewart confiava em Chris e tinha razão, pois apesar da insistência de Ariel, ele se
mantinha firme na decisão que tomara.
- Mas Kane, eu te amo, quero você. Nunca senti isso por outro homem e... - Ela parou,
diante do olhar intenso. - Ora, você jamais entenderia!
- Você está enganada, Ariel. Eu entendo muito bem, e só Deus sabe o quanto a desejo.
Mas posso ver as coisas com mais objetividade. Como uma garota romântica como você não
iria se apaixonar pelo misterioso estranho que o mar trouxe para a sua ilha? Além disso, posso
enxergar o que vejo no espelho. Sei que sou bastante atraente, não é mesmo?
Ariel gaguejou, desarmada pela franqueza e pelo tom brincalhão dele.
- Bem... acho que... esse seu corpo bronzeado é capaz de fazer qualquer donzela
estremecer de desejo. - revidou, num misto de seriedade e malícia.
- Então, minha querida, deve admitir que tenho razão.
Apenas uma vez Ariel o fizera perder a paciência e a reação violenta a assustara. Uma
noite, já bem tarde, tivera uma boa idéia para o enredo da novela e, sem avisar, entrara no
quarto de Chris. Ao vê-lo deitado na cama, completamente nu, ela tomou uma decisão súbita.
Com gestos cautelosos, trancou a porta atrás de si e aproximou-se da cama, abraçando-o com
força.
No mesmo instante, Chris levantou-se, velando uma fúria mal contida. Sem dizer nada,
empurrou-a até a porta, destrancando-a e abrindo-a de um golpe, sem se importar que alguém
pudesse vê-lo nu.
- Espere por mim na cabana - disse, sem esconder a irritação. - Irei assim que me vestir.
Vá logo!
Ariel nunca o vira tão zangado. Os olhos azuis pareciam de gelo, na semi-escuridão da
cabana.
- Só vou dizer uma vez, Ariel. Nunca mais me provoque assim. Quero deixar tudo claro de
uma vez por todas. Não sei quem sou, não lembro do meu passado. Posso ser um criminoso,
um assassino... sei lá...
- Não! Você não é nada disso! Tenho certeza e você também.
- Está bem. Vamos supor que esteja certa. Mas, e se eu for casado?
Ela o fitou, chocada, pois o pensamento jamais lhe ocorrera.
- Ainda não entendeu, Ariel? E se eu for casado? - O tom de Chris se suavizou, ao ver a
dor refletida no rosto de Ariel. - Entenda, querida. A única solução é esperarmos que eu me
lembre. Mas enquanto isso, pare de tentar me enlouquecer. O meu cavalheirismo também tem
limite e posso acabar esquecendo todas as boas intenções. E se isso acontecer, partirei no
mesmo dia, Ariel.
- Oh, não! Não pode fazer isso! Não tem para onde ir...
- Será um problema, Ariel, mas se isso acontecer, nem você, nem a ilha me verão
novamente.
- Nunca mais?
Chris foi incapaz de resistir à ansiedade que via no rosto meigo:
- Bem... pelo menos até eu recobrar a memória e saber quem realmente sou.
- Mas você me ama, eu sei - insistia ela. - Não é verdade, Kane?
Ele suspirou, desviando o olhar, como se estivesse distante dali.
- Se pode confiar nos sentimentos de um homem que não sabe quem é, que não tem
passado nem futuro, então é verdade. Eu te amo, Ariel. E agora volte para a cama - pediu,
beijando-a na testa.
Durante alguns dias, a intimidade entre eles pareceu diminuir, mas logo voltaram a rir e
brincar, compartilhando as emoções de estarem juntos. A paixão acabou explodindo
incontrolável, arrebatando-os, fazendo-os esquecer todos os cuidados e vacilações... Eles
finalmente cederam ao desejo e se entregaram... Por isso mesmo Ariel não estava preparada
para o que viria a acontecer.
Aquele a quem Ariel chamara de Kane, desapareceu e, em seu lugar, ressurgiu Chris
Donahue, o milionário que havia sido considerado morto e que retornava após seis meses, sem
se lembrar de um só dia do tempo em que estivera desaparecido.
As únicas coisas que trazia consigo eram um livro inacabado de ficção científica e o som
de uma risada cristalina, que ainda parecia soar em sua mente.
CAPÍTULO III
Voltando ao presente, Ariel agora observava a sofisticada sala de Chris Donahue. Tudo ali
revelava um homem bem diferente do Kane que acabava de recordar. Não sabia mesmo como
enfrentar a situação.
Sentada no sofá confortável, ela percebia que nada era como imaginara. Queria trabalhar
com Chris, mas não estava segura a respeito de como agiria com ele.
Em nenhum momento desistira dele e se recusara a esquecê-lo. Meses após sua súbita
partida, ainda acreditava que ele a amava e que voltaria um dia. Sem se importar com a
insistência dos pais, isolou-se em St. Patrick, recusando-se a ver os amigos. Apenas
dedicava-se à adaptação do livro de Chris para um filme, trabalhando na cópia que ele lhe
deixara. Era a única maneira que encontrava de senti-lo próximo, de lutar contra idéia de que
não o veria mais.
Mas, ao voltar para casa nos feriados do Natal, Michael decidiu contar à irmã o que
descobrira, mesmo temendo que a notícia pudesse chocá-la. O médico se encontrava em
Londres quando a imprensa noticiara, com grandes manchetes e muitas fotos, a volta do
milionário do mundo da computação, Chris Donahue, milagrosamente são e salvo, mas sem
recordar o que ocorrera durante os seis meses em que estivera desaparecido.
- Kane está morto, Ariel - ele falou com certa brutalidade, na intenção de afastar a irmã
daquele sonho impossível. - Ele encontrou seu passado e não lembra mais de você. A
imprensa diz que ele esqueceu de tudo, ou se recusa a dar qualquer informação. Na minha
opinião, teve outro ataque de amnésia e não consegue lembrar de seus dias em St. Patrick.
- Mas quem é ele? O que faz? - perguntou Ariel sem entender direito o que estava
acontecendo.
Michael contou-lhe tudo e, por fim, concluiu:
- Acho que precisa entender, querida. Ele é rico, famoso. É uma celebridade e não precisa
mais de você. Além disso, suspeitaria de qualquer pessoa que se aproximasse dizendo que o
conhecera durante o desaparecimento. Tenho certeza de que iria pensar que seu dinheiro está
atraindo especuladores. É melhor esquecer, Ariel. Volte à sua vida de sempre e faça de conta
que Kane nunca existiu.
Mas isso era impossível e quando o irmão voltou para a Inglaterra, ela o acompanhou,
decidida a ter Chris de volta, a qualquer preço. Não foi difícil obter informações sobre ele, pois
os jornais e revistas estavam cheios de artigos sobre o famoso milionário.
Chris Donahue pertencia a uma família aristocrática, mas empobrecida, e perdera os pais
quando criança, tendo sido criado pelos tios. Muito cedo ele se revelara um gênio em
computação e com sua inteligência e habilidade para negócios, em poucos anos, conseguira
fama e fortuna. Antes dos trinta anos tornara-se dono de um sólido império financeiro e
praticamente sustentava toda a família. Apesar de ser rico e bonito, Chris, não se casara.
Sobre sua vida sentimental sabia-se apenas de um antigo noivado com uma prima distante,
desfeito há vários anos.
Depois de pensar bastante, Ariel decidiu que candidatar-se a um emprego nas Empresas
Donahue seria a melhor maneira de se aproximar dele. Mas, após algumas semanas de
trabalho como datilógrafa no escritório de Chris, descobriu que ele jamais ia até ali. Desde que
voltara, não se interessava pelos negócios e deixava tudo nas mãos do primo, Neville.
Ela, então, resolveu que deveria conhecê-lo socialmente, já que os jornais diziam que o
milionário costumava freqüentar festas e lugares da moda. Para isso, Ariel engoliu o orgulho e
procurou conhecidos da família, além do agente, Paul Andrews, a fim de conseguir uma
apresentação. Só que Chris Donahue desistira da vida social e vivia como um recluso,
passando a maior parte do tempo em seu iate, fora da Inglaterra. Em resumo, Chris tornara-se
uma pessoa inacessível. Ariel teria que pensar num outro plano para chegar até ele.
Enquanto isso, a carreira dela como escritora se afirmava, sob a orientação do agente,
Paul Andrews, que a via como a uma filha querida. Seu talento e a inteligência logo lhe
trouxeram fama e, em pouco tempo, circulava por Londres como se tivesse sempre vivido ali.
Ariel não deixava, de notar o interesse que despertava nos homens, mas presa a lembrança de
Kane, não sentia a menor atração por ninguém.
Só dois anos depois de sua chegada a Londres surgira uma nova oportunidade de ser
apresentada a Chris Donahue. Paul Andrews e ele estariam almoçando num restaurante
conhecido, e o agente sugerira que ela aparecesse de repente, simulando um encontro casual.
Paul jamais fizera qualquer pergunta sobre os motivos que Ariel teria para querer tanto se
aproximar do milionário e limitava-se a ajudá-la, como um amigo fiel e paternal.
Naquele dia, Ariel resolvera, ingenuamente, que deveria aparecer o mais semelhante
possível com a garota que Chris conhecera na praia, e para isso, vestiu um velho jeans e uma
camiseta folgada, deixando soltos os longos cabelos. Sentindo-se deslocada no restaurante
sofisticado, ela aproximou-se da mesa de ambos, com o coração batendo forte. Paul logo a
cumprimentou, apresentando-a a Chris Donahue e convidando-a para almoçar.
Mas, diante dos olhos azuis que a fitavam com indiferença, sem revelar qualquer sinal de
reconhecimento, ela desistiu da tentativa. Balbuciou uma desculpa e saiu às pressas do
restaurante, mal conseguindo conter as lágrimas.
Chris pensou que vira apenas mais uma garota interessada em se aproximar do milionário
rico e solteiro. Mas, apesar da humilhação, Ariel voltou a insistir e quando soube da adaptação
do livro para um filme, resolveu que era sua última oportunidade.
CAPÍTULO IV
Na manhã seguinte, foi Marjorie, a pequena irlandesa de meia-idade, quem recebeu Ariel à
porta. A governanta adorava o patrão, por isso, embora procurasse ser gentil, tratou de
prevenir Ariel de que não toleraria qualquer intimidade com Chris Donahue.
- Estou certa de que aqui tem tudo o que precisa - disse, mostrando o quarto grande e bem
decorado que fora reservado à nova secretária.
Havia ali uma televisão, livros, um aparelho de som, além de uma mesa e cadeiras. O
necessário para que Ariel não precisasse usar qualquer outra parte da casa.
- O sr. Donahue prefere comer sozinho, nas dependências particulares que separou para si
próprio - continuou a mulher. - Por isso, espero que não se importe de fazer as refeições a sós.
Se quiser, pode comer na cozinha comigo. Faremos companhia uma à outra. Será bom
conversar com alguém que não se interesse apenas por fofocas, como Daria.
- Ela fala bastante, mas é uma garota adorável - comentou Ariel. - Mas o quarto é lindo.
Tenho certeza de que não precisarei de nada; além disso, será apenas por uns dias, não é
mesmo?
Diante da naturalidade de Ariel, Marjorie pareceu relaxar e conduziu-a até o estúdio, onde
iriam trabalhar no livro:
- O sr. Donahue disse que a senhorita pode usar o estúdio sempre que quiser.
O local era agradável e arejado, bem menor e mais aconchegante do que a sala onde
Chris a recebera no dia anterior. Num dos cantos, sobre uma das mesinhas, estava o
computador Donahue, um dos mais modernos e sofisticados do mercado.
- O sr. Donahue logo estará aqui, mas se quiser ir se familiarizando com o computador,
fique à vontade. E avise-me, se lhe faltar alguma coisa.
- Obrigada, mas está tudo bem. - Ariel agradeceu, sentando-se à frente do computador
para iniciar sua tarefa.
O gesto tinha sido proposital, para assegurar a Marjorie de que estava ali para trabalhar de
verdade. Observando-a pelo canto dos olhos, Ariel concluiu que a estratégia tinha dado certo.
A governanta aparentava uma expressão de aprovação.
Passava das onze horas quando Chris entrou no estúdio, respondendo ao cumprimento
polido de Ariel com um resmungo mal-humorado. Ela reparou que, do mesmo modo que Kane,
ele também não acordava de bom humor, nem gostava de levantar cedo. Apesar de barbeado
e com os cabelos molhados do banho, as olheiras profundas indicavam uma noite de insônia.
Ao ver o rosto animado de Ariel ansiosa para começar o trabalho, ele franziu a testa:
- Esqueça! Não pretendo começar hoje e, se quiser, pode aproveitar o dia para ler o
romance. Não creio que tenha tido tempo.
- Ah, eu já li, sr. Donahue e...
Ele a interrompeu, brusco.
- Esqueça o "sr. Donahue", por favor. Meu nome é Chris. Pensei que tivesse entendido. - A
voz gélida a advertia de que devia obedecer às regras.
- É claro, me desculpe. Eu terminei de ler ontem à noite, Chris. Não fiz uma análise
profunda, mas já tenho uma idéia geral do texto.
Sem esconder a surpresa, ele comentou:
- Fez um grande esforço, porque o livro tem mais de quinhentas páginas.
Ariel aceitou o elogio sem demonstrar qualquer emoção. Na verdade. havia lido a fundo
menos de duzentas páginas, exatamente as que ele escrevera depois de deixar a ilha, pois o
restante conhecia quase de cor.
- Podemos começar, então - conformou-se Chris, sem entusiasmo.
Ela sorriu, de modo reservado e formal, mas não disse nada, aguardando que o novo
patrão desse o primeiro passo. Depois de algum tempo, ele quebrou o silêncio e sorriu:
- Acho que você pode sugerir o que fazer, Ariel. É a primeira vez que trabalho num roteiro.
Retribuindo-lhe o sorriso, ela aceitou a trégua e falou:
- Pode dar uma olhada no esboço que fiz para o começo do filme. - Ariel estendeu-lhe as
folhas. - Trabalhei nisso toda a manhã - explicou, simulando indiferença. - Na verdade, ela
apenas passara para o computador o texto que elaborara ainda em St. Patrick. ao lado dele.
Sua pasta, contendo a cópia do original, estava seguramente trancada na escrivaninha que
Marjorie lhe destinara.
- Vejo que não teve problemas em operar o computador.
Ainda de pé, Chris começou a ler as páginas, enquanto Ariel retinha o fôlego, aguardando
qual seria a reação dele diante daquela primeira cena do filme que os dois haviam criado juntos
na ilha. Ariel esperava que algo o fizesse lembrar, mas os olhos dela continuavam firmes, sem
demonstrar emoção.
- Gostei - disse, ao terminar de ler. - É uma abertura interessante, que prende a atenção,
sem revelar demais a trama.
Dividida entre um sentimento de alívio e um certo desapontamento, ela apenas sorriu,
enquanto Chris apoiava as folhas na mesinha de café e sentava-se na poltrona de couro,
estendendo as pernas sobre um banquinho. Percebendo a posição em que trabalhariam. Ariel
sentou-se à frente do computador, no outro canto do aposento.
- Vamos continuar - disse Chris. - Acho que sei como deve ser a próxima cena.
- É interna ou externa? - ela perguntou, automaticamente.
- O quê?
- Devemos detalhar cada cena, explicando se é dia ou noite, interior ou exterior.
O olhar frio de Chris sugeria uma desconfiança de que ela quisesse impressioná-lo com
sua experiência. Ariel corou ante essa hipótese.
- Você é a encarregada da parte técnica. Afinal, ainda sou bastante ignorante nesse
assunto - ele continuou, irônico.
Confusa, ela lamentou o que tinha dito, temendo que o temperamento de Chris Donahue o
levasse a despedi-Ia.
- Mas você é o ponto de partida e por isso aceitarei sua orientação - concluiu ele,
malicioso. - Pode começar?
Ariel concordou com um gesto de cabeça, sentindo-se tola e insegura. Conforme o trabalho
prosseguia, ela se levantava e entregava as folhas a Chris, que as lia e separava. Depois de
algum tempo, tendo cruzado a sala uma dúzia de vezes, ela sentia os músculos doloridos, pela
tensão e pela posição desconfortável da cadeira. Chris, por sua vez, continuava instalado na
poltrona, numa postura confortável. Nem percebia o cansaço de Ariel.
Por fim, a situação forçada entre ambos acabou por se tornar ridícula e, sem querer, Ariel
começou a rir. Para sua surpresa, Chris também riu. O som do riso dela de fato o perturbava
muito.
- Tem razão, Ariel. Esse vai e vem pela sala está ficando engraçado. Acho que não vamos
conseguir trabalhar muito desse jeito. Já que você é a mais experiente, pode sugerir o que
devemos fazer?
O clima tenso estava rompido e ela traçou um plano de trabalho simples e prático, que foi
imediatamente aprovado. Para começar, saiu da sala e foi até seu quarto, para tirar o conjunto
elegante que vestira, trocando-o por uma calça jeans surrada e uma camiseta confortável.
Depois disso, mergulharam num trabalho intenso e cordial, entremeado de comentários e
risadas, muito parecido com o que faziam em St. Patrick.
Mais tarde, quando Marjorie entrou com uma bandeja de sanduíches e café fresco,
encontrou o estúdio completamente desarrumado. Toda a mobília tinha sido afastada, deixando
livre o centro da sala. A governanta ficou perplexa ao ver o patrão deitado sobre o tapete, lendo
umas anotações, enquanto a nova secretária andava de um lado para o outro, organizando os
papéis que se espalhavam por todo o chão. Por um momento, Marjorie parou atônita, pois não
via o sr. Donahue tão a vontade, desde que voltara do misterioso desaparecimento.
- Entre, Marjorie. - Chris saudou-a com um sorriso. - Eu já ia pedir mais café.
- Já são quase duas horas, sr. Donahue. Tem que parar agora e comer alguma coisa -
declarou a governanta, firme procurando um lugar para depositar a bandeja.
- Deixe-nos a sós, Marge... e leve a bandeja com os sanduíches. Não estou com fome.
Ariel olhou-o de lado. Tinha tomado café às oito e estava morrendo de fome.
- O senhor pode não estar com fome, mas a garota não comeu nada, desde que chegou -
respondeu Marjorie, sem se perturbar. - Vou deixar a bandeja no sofá. Terão que abrir caminho
no meio dessa bagunça para alcançá-la.
E saiu, lançando um último olhar crítico para a desarrumação da sala.
Sem hesitar, Ariel aproximou-se do sofá e atacou os sanduíches, não se deixando intimidar
pelo patrão.
O som da risada de Chris, que conhecia tão bem, encheu a sala, fazendo-a estremecer.
Agora, ele estava em pé, apoiado na escrivaninha, observando-a com ar divertido. Parecia-se
ainda mais com o Kane que conhecera na ilha.
- E eu que pensei que as fadas nunca comessem - disse ele casualmente, fazendo-a
engasgar com o sanduíche. - Mas você não é uma fada, não é mesmo? É até humana
demais...
Não podia ser verdade. Ariel não esperava por essa surpresa. Ele estava repetindo as
mesmas palavras que dissera há anos. Ela permaneceu imóvel, muda, aguardando o que ele
faria em seguida.
Mas o momento passou, e Chris não disse mais nada que pudesse lembrar Kane.
- Coma, Ariel. - A voz era impessoal e gentil. - E por favor, me sirva uma xícara de café,
pois quero continuar logo o trabalho.
A sensação de desapontamento foi tão forte, que ela quase gritou.
- Ariel, você está bem? - Ele parecia preocupado com o rosto pálido e abatido dela. - Sinto
muito. Pode parar e descansar um pouco. Continuamos mais tarde.
Era impossível continuar comendo. Ela largou o sanduíche na bandeja, controlando-se
para falar com serenidade.
- Não, vamos continuar. Eu estou bem.
- Você é quem sabe. - Traga os sanduíches para cá, assim poderá comer, enquanto
trabalha.
Com um esforço sobre-humano, Ariel conseguiu aparentar calma e sentou-se ao lado dele
para continuar a escrever.
Desse momento em diante, trabalharam sem parar até o anoitecer, apesar das freqüentes
interrupções de Marjorie, que insistia para que comessem alguma coisa quente. Já passava de
nove horas quando Chris afinal sentou-se, esticou os braços e arqueou as costas para relaxar
os músculos, num gesto tão familiar que Ariel quase o abraçou.
- Acho que vou dar uma volta - disse ele.
- Graças a Deus. Pensei que você nunca ficasse cansado.
Estavam sentados muito próximos, pois haviam trabalhado no mesmo trecho do roteiro nas
últimas horas e as folhas ainda continuavam no chão, a sua frente.
- Como fui insensível, meu bem - comentou Chris, segurando-lhe o braço num gesto
amigável, que fez Ariel tremer. - Da próxima vez, reclame, antes que eu a faça cair de cansaço.
Não esqueça do que eu disse ontem. Costumo me desligar de tudo, quando estou trabalhando.
Até das pessoas que me cercam. Aliás, costumo dar pouca importância aos outros, mesmo em
outras ocasiões.
- Não acredito. - A voz dela era suave. - Não acho que é tão frio e insensível quanto quer
aparentar.
- É bondade sua, mas sou mesmo insensível. É melhor que acredite nisso. E agora, que tal
darmos uma corrida para relaxar?
Chris nem se preocupou em perguntar se ela costumava correr. Mais uma vez, Ariel
percebeu que algumas coisas ainda estavam gravadas na mente dele, apesar de não se
manifestarem conscientemente. Durante os meses em St. Patrick, os dois corriam juntos
diariamente, percorrendo as praias por horas seguidas, até o limite de sua resistência.
De pé, Chris estendeu-lhe a mão, ajudando-a a levantar, e, dessa vez, Ariel conseguiu
disfarçar a emoção ao sentir o toque firme e quente, que tão bem conhecia.
Sem dizer mais nada, saíram para a noite fria e começaram a correr, passando pelo lago
em Kenwood Park e fazendo a volta para retomar à casa de Chris. Era uma distância curta, se
comparada aos quilômetros que costumavam percorrer na ilha, mas Ariel já estava exausta e
ofegante.
- Estou fora de forma. - Desculpou-se, mal conseguindo falar. - Não fiz mais exercícios,
desde que cheguei a Londres.
- Quanto tempo faz?
- Oh, mais ou menos três anos.
- E veio das Seychelles, não é? Qual era o nome da ilha?
- St. Patrick - respondeu ela suavemente.
- Ah, sim...
De repente, a garoa fina que começara havia pouco, transformou-se numa chuva pesada e
Chris passou-lhe o braço pela cintura, apressando-a para que chegassem logo ao terraço.
Mas, assim que entraram, ele deixou cair o braço, abruptamente, como se o contato fosse
desagradável. Ariel ficou tão perturbada pela rejeição que não conseguiu encará-lo. Por isso
não notou a expressão angustiada que se revelava no rosto dele.
Ela já estava caminhando na direção da cozinha, onde Marjorie os esperava, quando se
deu conta de que ele ia para o oposto, e parou confusa.
- Diga a Marjorie que me leve alguma coisa no quarto, por favor - disse Chris, sem fitá-la.
Ariel parou, chocada com a atitude rude e inesperada. Sem se conter, disse com frieza:
- Marjorie fez o jantar com todo o capricho e está mantendo a comida quente há horas.
Será que não merece um pouco de consideração da sua parte?
- É problema meu, não vejo por que deva se preocupar com isso. A menos que seja
incapaz de comer sozinha.
- Não, não é esse o caso. - A resposta foi seca. – Passei a maior parte da minha vida numa
ilha, apenas com meus pais e meu irmão. Estou mais do que acostumada a ficar só. Boa noite!
Ariel levou alguns minutos para refrear a indignação. Chris Donahue não se importava
mesmo com as pessoas, fechando-se em sua concha solitária, talvez tentando relembrar o
tempo perdido em sua vida.
Marjorie, no entanto, já estava acostumada e tentou consolá-la.
- Não se aborreça, querida. Ele precisa ficar só quando está deprimido. E não se preocupe
comigo. Conheço o sr. Chris muito bem, e desde que ele voltou costuma ter momentos assim.
A tempestade lá fora aumentava, quando Ariel acabou de comer e foi para o quarto. Estava
tão cansada que mal conseguiu tirar a roupa. Sentada na cama fria, ouvindo o barulho da
chuva na janela, pensava em Chris, ou melhor, em Kane, e numa outra noite de tempestade,
em que a paixão acabara por dominá-los completamente.
CAPÍTULO V
Sem querer, Ariel começou a relembrar o passado. Naquela noite há mais de três anos, ela
despertara na ilha, sufocada pelo ar abafado e pelo silêncio pesado. Acostumada a viver em
contato com a natureza, desenvolvera um instinto muito apurado e pressentia com
antecedência a tempestade que viria.
Mas, ao virar de lado para voltar a dormir, ouviu os gemidos angustiados da mãe, através
da parede fina que separava os quartos e levantou depressa, correndo até o aposento dos
pais. Julian Stewart, o pai de Ariel, já estava no telefone, pedindo um helicóptero para levá-la
até o hospital em Mahe.
A mãe, Laura Stewart, estava com dores terríveis e nem foi preciso um médico para
diagnosticar que a forte agulhada no lado direito era uma apendicite aguda. Em menos de dez
minutos o helicóptero pousava no jardim e Chris, calmo e seguro, carregava Laura e a colocava
na maca, no interior do aparelho.
- Telefono assim que tivermos o diagnóstico dos médicos - prometeu Julian Stewart à filha.
- Enquanto isso é melhor vocês colocarem os protetores nas janelas. Acho que vamos ter uma
tempestade muito forte.
O piloto calculava que demoraria pelo menos uma hora para que a tempestade começasse
e por isso teriam tempo de sobra para chegar ao hospital.
Ariel e Chris mal esperaram o aparelho subir e logo começaram os preparativos para
enfrentar a tempestade. Os habitantes das ilhas já conheciam a violência com que costumavam
aparecer e tentavam proteger as casas da melhor maneira possível. Sem a ajuda dos
empregados, que tinham seus próprios lares para cuidar, eles agiram rapidamente. Uma hora
mais tarde, Julian telefonou, avisando que haviam chegado ao hospital e Laura estava sendo
operada.
Já passava de duas horas da manhã quando eles foram para seus quartos. Ariel,
preocupada com a mãe e exausta pelo esforço das últimas horas, nem atinou com o fato de
que era a primeira vez que os dois ficavam a sós na casa imensa.
Duas horas mais tarde, ela despertou com o barulho furioso da chuva e do vento. Num
instante lembrou-se do original de Kane que havia esquecido na cabana da praia. Mesmo
sabendo que era loucura sair de casa durante o temporal, o pensamento de que poderiam
perder todo o trabalho a impeliu a esquecer acautela.
Vestindo-se depressa, Ariel saiu correndo do quarto e parou diante do quarto de Kane, sem
saber se devia acordá-lo. Mas, suspeitando que ele pudesse tentar impedi-la, decidiu ir
sozinha.
A porta da cozinha mal se movia, tal a força do vento. Ariel precisou fazer um esforço
enorme para abri-la. Na mesma hora, a fúria da chuva a envolveu, fazendo com que cada
passo lhe custasse muito esforço e determinação. Na pressa, nem se lembrara de apanhar
uma das capas que ficavam penduradas no saguão e agora estava encharcada até os ossos,
tremendo de frio.
No meio do caminho, Ariel parou, tomando consciência do que havia à sua volta. Não era
uma tempestade comum; talvez fosse o início de um ciclone, e, de repente, o terror a dominou.
Nesse momento, uma silhueta apareceu no meio da tormenta e Ariel escorregou nas pedras do
caminho, tentando fugir, mas braços poderosos a seguraram com firmeza.
- O que está fazendo aqui fora? - A voz irritada de Kane rompia o barulho do vento.
- O livro! - Ela precisava gritar para fazer-se ouvir. - Ficou na cabana da praia.
- Eu já peguei tudo - gritou ele de volta, empurrando um pacote envolvido numa capa de
chuva para os braços de Ariel e agarrando-a pela cintura, no esforço de carregá-la no colo.
Em poucos minutos estavam na casa e ele a colocou no chão, insistindo para que se
agarrasse nas grades da varanda, enquanto ele lutava para abrir a porta da cozinha contra o
vento furioso.
- Entre depressa! - Kane gritou, impelindo-a para o interior e seguindo-a de imediato.
A casa parecia tremer, como se não tivesse nenhuma proteção contra a força da natureza
lá fora. O ar estava abafado, mas pelo menos o manuscrito fora salvo e agora encontrava-se
sobre a mesa da cozinha.
- Da próxima vez que resolver transformar alguém em escritor, é melhor faze-lo datilografar
tudo com cópia - resmungou Kane, tirando a capa ensopada. - Você está molhada até os ossos
e eu também. - Ao notar a escuridão da casa, perguntou: - Onde está o interruptor? Por que
está tudo escuro?
Ariel tateou no escuro, à procura do botão, mas não conseguiu acender a luz.
- É melhor desistir. O gerador dificilmente funciona em tempestades como essa. Você vai
encontrar o lampião aí atrás, na prateleira. Deve estar cheio de querosene e os fósforos ficam
ao lado.
Todas as casas nas ilhas costumavam estar preparadas para esse tipo de problema, de
modo que, em poucos instantes, a luz fraca do lampião iluminava a cozinha.
- E a lareira? - indagou ele, de repente. - Não lembro de ter visto uma lareira na casa.
- Não estamos na Inglaterra, Kane. Em St. Patrick sempre faz calor - explicou Ariel,
ocupada em acender o velho fogão.
O calor agradável que encheu a cozinha logo compensou o desconforto das roupas
molhadas.
- Há alguns cobertores no armário do corredor. É melhor você tirar essas roupas
encharcadas, enquanto vou buscá-los - sugeriu ela.
Em poucos segundos Ariel estava de volta, carregando uma pilha de cobertores e uma
garrafa de uísque.
- Achei que gostaria disso. - Ela sorriu, sentindo-se novamente à vontade, pois afinal
estava acostumada às tempestades.
Kane tinha tirado apenas a camisa e estava ao lado do fogão, esfregando vigorosamente o
corpo com uma toalha. A luz do lampião iluminava-lhe as costas fortes e Ariel não conseguia
tirar os olhos daquele corpo musculoso.
- Pare de me olhar e tire logo essas roupas molhadas - ordenou ele, sem se virar,
demonstrando impaciência.
Tremendo de frio, ela atirou-lhe um cobertor e começou a tirar a camiseta molhada e os
jeans que se grudavam desagradavelmente às pernas, sendo difícil livrar-se deles. Atento,
Kane ajoelhou-se em frente a ela e ajudou-a. Em seguida, pegou um cobertor e ia envolvê-la
no tecido felpudo, mas parou subitamente desconcertado. Tremendo de vergonha, Ariel
acabava de perceber que, na pressa, tinha esquecido de vestir a roupa de baixo e estava
completamente nua.
A mão de Kane, segurando o cobertor, estava a poucos centímetros da pele macia de Ariel
e o tempo pareceu parar, enquanto os dois se fitavam sem dizer nada. Passados alguns
segundos, ela puxou o cobertor e cobriu-se, esperando pela recriminação de Kane. Mas em
vez disso, ele segurou novamente o cobertor e jogou-o no chão, prendendo as mãos de Ariel
nas suas, impedindo-a de se cobrir novamente.
- Kane, eu... - ela sussurrava, sentindo-se culpada e cheia de vergonha. - Me desculpe,
eu... eu não pretendia provocá-lo.
- Quietinha - disse ele, fitando-a nos olhos. - Acho que isso tinha que acontecer. Não
podemos lutar contra o destino...
Ariel mal podia acreditar no que acabava de ouvir e balbuciou, confusa:
- Então, você não está zangado?
Continuando a fitá-la, Kane ignorou a pergunta. Apenas lhe ordenou:
- Vamos, Ariel, enrole-se no cobertor e vamos lá para cima.
Perturbada pelo tom frio e despido de emoção, ela não conseguiu se mover.
- Vamos, Ariel. Acho que sua ilha encantada conseguiu nos envolver com sua magia. Ou
não concorda comigo?
- Não, é claro que... - gaguejou ela. - É que eu pensei...
- Eu também, querida. Mas não posso mais lutar contra meus sentimentos.
O brilho de desejo nos olhos de Kane era tão intenso que Ariel soltou um riso nervoso.
Esperava que ele a tomasse nos braços, mas apenas segurou-lhe a mão.
- Venha - chamou ele, apanhando o lampião de querosene. - Acho que é melhor você
mostrar o caminho com esta escuridão, Ariel.
- Sem hesitar, ela o conduziu ao quarto e a visão da cama desarrumada, onde ele dormira
há pouco, a fez tremer, antecipando o que viria a seguir. Lá fora, os raios e trovões haviam se
transformado numa chuva pesada; que batia forte no telhado da casa. Em silêncio, Kane
fechou a porta e aproximou-se, puxando o cobertor que envolvia Ariel. Ela deu um passo na
direção de Kane, mas ele não a deixou prosseguir.
- Não. Fique aí. Quero olhar para você. Agora temos todo o tempo do mundo e eu pretendo
aproveitar cada minuto. Dê-me suas mãos, querida. Não tente se cobrir.
Kane colocou o lampião no assoalho e tomou-lhe as mãos, percorrendo-lhe o corpo com o
olhar cheio de desejo.
- Você é linda. Sei que devo ter visto muitas mulheres na minha vida, mas você é especial..
Mesmo sem lembrar do passado, sei que nenhuma se compara a você, Ariel. Quero você...
quero tanto que chega a doer.
Puxando-a para si, ele a abraçou, as mãos acariciando o longo cabelo macio. Com gestos
lentos, pegou-a no colo e levou-a para a cama.
- Quero ver seu rosto, enquanto nos amamos, Ariel - explicou ele, numa voz estranha,
trazendo o lampião para mais perto.
Sem ceder ao desejo, Kane a observava intensamente, apreciando cada detalhe do corpo
jovem e bem feito. Ela baixou a cabeça, sentindo-se incapaz de enfrentá-lo. Ainda sem tocá-la,
ele deitou-se lentamente, acariciando-a e beijando-a com suavidade. Os lábios exigentes
beijaram-lhe a boca, a testa, as pálpebras fechadas, o nariz delicado, e ela finalmente o
abraçou com força.
- Não se apresse, querida. Quero amá-la bem devagar.
As palavras saíram abafadas pelos beijos que ele lhe dava no pescoço, nos ombros,
descendo até o pequeno seio firme. Aí tomou nos lábios o mamilo ereto, fazendo-a gemer.
A mão dele descia pelo corpo, explorando cada centímetro, inclusive os pontos mais
vulneráveis. Num misto de surpresa e alegria, Ariel entregava-se àquele contato tão íntimo que
lhe provocava sensações novas e perturbadoras. Ainda contendo a força da atração que o
dominava, Kane provocou tanto prazer em Ariel que a fez gritar de êxtase. Ele afastou-se
então, e ela abriu os olhos, agarrando-o pelos ombros, como se temesse perdê-lo. Kane riu. Os
olhos azuis brilhavam divertidos.
- Nunca imaginei que fosse assim - murmurou Ariel, muito séria. - É sempre tão
maravilhoso?
- Acho que eu não poderia responder. - Ele riu, malicioso, diante da expressão surpresa
dela. - De certo modo, também é a minha primeira vez. E nesta nova vida, você é minha
primeira mulher. Ou melhor, será, muito em breve.
Kane riu de novo, acomodando-se junto ao colo de Ariel, enquanto sua boca exigente
tomava-lhe os lábios, desta vez sem refrear o desejo. Ela fechou os olhos, quando a coxa dele
afastou-lhe as pernas; Kane, porém, pediu com voz rouca:
- Não, Ariel. Fique de olhos abertos, por favor.
Envolvida pela sensualidade do momento, ela obedeceu, e Kane a possuiu. Os
movimentos rítmicos e sensuais aumentavam a paixão e, num tom quase desesperado, ele
suplicou:
- Agora, meu amor. Olhe, para mim.
No clímax da paixão, os olhos de Kane pareciam prender os dela.
- Ariel! Eu te amo, eu te amo - gemeu ele.
Sorrindo de prazer, ela respondeu baixinho, com lágrimas escorrendo pelo rosto.
- E eu também te amo, Kane.
Soltando um suspiro, ele voltou a beijá-la, sem afastar-se, mantendo os corpos ainda
unidos.
- Não se mexa, querida.
Os dois ficaram imóveis, saboreando aquele contato. Logo depois, Kane começou a
mover-se de novo. Dessa vez, o corpo de Ariel acompanhava o ritmo do dele e as mãos
delicadas o puxavam para si, até que juntos, alcançaram o clímax amoroso.
- Não vá embora - murmurou ela, quando Kane finalmente afastou-se.
- Ir embora? - ele ria, ainda ofegante. - Você deve estar brincando. - Deitando de costas,
puxou-a em sua direção fazendo com que ela deitasse a cabeça no peito forte.
Ao ouvir as batidas aceleradas do coração de Kane, Ariel tentou acalmá-lo com beijos
suaves. A mão dele acariciava os cabelos macios e numa voz cheia de ternura, ele sussurrou:
- Vamos dormir agora, Ariel. E caso não tenha me ouvido antes: eu te amo.
Um tanto surpresa ao perceber que a tempestade ainda persistia lá fora, ela adormeceu
sorrindo.
No dia seguinte eles acordaram juntos. O quarto, geralmente banhado pelo sol da manhã,
ainda permanecia escuro e silencioso, fazendo-os recordar a tempestade da noite anterior.
- Acabou - disseram ao mesmo tempo e caíram na risada, enquanto Kane a abraçava e
beijava na testa.
- Como se sente? - perguntou ele.
- Bem, muito bem. - Ariel sorriu. - E você?
- Acho que nunca me senti tão bem. - Ele riu, puxando-a para mais perto. - Você quer
primeiro ver os estragos lá fora?
- Primeiro? Você quer dizer antes do café?
- Não exatamente. Não precisa mais responder, pois eu já decidi por nós dois.
Mais uma vez eles se amaram sem pressa, aproveitando cada momento, desfrutando toda
a paixão que os atraía. Só bem mais tarde se levantaram, tomaram banho juntos e saíram do
quarto. Ariel foi direto ao telefone, para ligar ao hospital, querendo notícias da mãe.
- O telefone está mudo - anunciou ela, entrando na cozinha onde Kane preparava o café da
manhã.
- E o gerador não funciona - retrucou ele. - Estamos sem eletricidade. Ainda bem que
temos o velho fogão a gás.
As roupas de ambos ainda estavam no chão, onde tinham sido jogadas na noite anterior.
Fazia recordá-los de tudo que acontecera. Ariel apanhou-as, atirando-as no cesto de roupa
suja, num gesto descuidado.
- Está acostumada a ter empregados, não é?
- Sei me arranjar sem eles e, se pensa que a falta de dinheiro me assusta, está enganado.
Aliás, quem vai ficar rico é você. Aposto que vai ganhar milhões com o livro.
Mal acabara de falar, ela se arrependeu das palavras, ao perceber o rosto de Kane
tomar-se sombrio.
- Coma seu melão, Ariel. E não diga mais nada.
A magia já tinha desaparecido e o clima íntimo se rompera totalmente. Lá fora o sol ia alto
iluminando os estragos deixados pela tempestade. A cabana da praia tinha desabado, mas as
máquinas de escrever, protegidas pela capa de couro, não tinham sofrido nenhum dano. Ariel
respirou aliviada ao ver que Laura, o iate dos Stewart, continuava ancorado na baía
aparentemente intacto.
- Duas vezes, em ocasiões de tempestades como esta, o iate se soltou - explicou ela,
enquanto entravam na embarcação. - Venha, podemos usar o rádio para falar com o hospital.
Em poucos instantes, a voz de Julian Stewart, cheia de preocupação, chegou-lhes através
da estática.
- Ainda bem que vocês fizeram contato. Eu estava tentando telefonar desde as seis da
manhã, mas não consegui. O que houve?
- O telefone está mudo, papai, e acho que dormimos demais. Como vai mamãe?
Laura Stewart estava bem, mas dificilmente voltariam para casa antes do fim da semana,
explicou o pai. Mahe tinha sido atingida com violência pela tempestade e não havia transporte
disponível.
- E aí Ariel, quais foram os estragos?
Ariel sabia muito bem qual era a preocupação do pai.
- Estou bem, papai. E Kane também. A casa não sofreu nenhum dano. O gerador está
quebrado, mas podemos nos arranjar sem ele. Não se preocupe e dê um beijo na mamãe.
- Eu darei. E diga a Kane que agradeço a ajuda. Me sinto mais tranqüilo sabendo que ele
está aí, tomando conta de você. E agora até logo.
O silêncio na cabine do iate só era quebrado pelo barulho suave do oceano. Kane estava
parado atrás de Ariel e seu olhar dizia muito mais do que as palavras. Zangada, ela virou-se
para encará-lo.
- Não me olhe assim, Kane. É tolice. Você está mesmo cuidando de mim. Na noite
passada, eu poderia ter sido arrastada pela tempestade, se você não me segurasse.
- Fique quieta, Ariel - disse ele, brusco e saiu para o convés. Ela o seguiu, ansiosa para
esclarecer tudo.
- Você não está pensando em... Não vai cumprir sua promessa de partir imediatamente, se
algo acontecesse entre nós. não é? - insistiu, apavorada com o silêncio de Kane.
Ele estava apoiado na amurada, olhando as ilhas contra o horizonte azul.
- Não pode fazer isso, Kane! Não agora!
Os músculos rígidos dos ombros largos relaxaram e ele virou-se para fitá-la. O rosto
delicado de Ariel revelava todos os seus sentimentos.
- Não pense nisso. Ariel. - Ele tentou sorrir. - E agora, o que precisamos fazer para
consertar os estragos da tempestade?
Sem opção, ela decidiu não pensar mais no futuro e logo voltaram para casa, encontrando
Marie e Jacques, que já trabalhavam, arrumando tudo. Nem Kane, nem Ariel, conseguiriam
trabalhar no manuscrito, presos às recordações da noite anterior. Passaram o dia consertando
a cabana até o entardecer.
Aguardando ansiosos a hora em que Marie e Jacques fossem para casa, nadaram.
correram e passearam pela ilha, evitando tocar-se para não aumentar o desejo que os
dominava.
Nos dias que se seguiram, tornaram-se cada vez mais descuidados. Depois de outra longa
noite de amor, passaram a aproveitar cada recanto da ilha, amando-se ao sol, na praia, no
meio da floresta, nas pequenas cavernas que davam para o mar, em vez de ficarem restritos
ao quarto de Kane. Era impossível esconder o quanto estavam apaixonados.
Aqueles foram os dias mais felizes da vida de Ariel e ela jamais poderia esquecê-los. Como
Kane dissera, a primeira noite era apenas uma introdução para os prazeres que poderiam
desfrutar. A sensualidade dele, sua natureza cálida e cheia de ternura fizeram com que Ariel
descobrisse os mistérios do prazer e a força da paixão, que aumentava a cada dia.
Ela nunca pensara antes que pudesse entregar-se tão completamente. Numa noite sem
lua, enquanto nadavam nus nas águas quentes da baía, Kane comentou:
- Nós somos um casal diferente, Ariel, já que, de certo modo, ambos somos iniciantes. Mas
acho que as outras pessoas podem levar anos para atingir a harmonia e a plenitude que
alcançamos em poucos dias.
Kane amava com generosidade, deixando que seu corpo, seus lábios e mãos
demonstrassem seus sentimentos. Ariel correspondia espontaneamente, recusando-se a
pensar no futuro. Eram apenas uma homem e uma mulher que se amavam e se desejavam, e
isso bastava.
- Acho que os deuses da sua ilha encantada estavam certos em me mandar para cá. Não
podíamos ser um par mais perfeito, não acha? - brincava Kane.
Na noite anterior à volta de Laura e Julian Stewart. Ariel não conseguiu esconder sua
ansiedade. Viviam mais um amanhecer, depois de uma noite intensa de amor. Kane passou o
braço pela cintura fina de Ariel, enquanto sua mão acariciava um seio macio. Mas ela estava
incontrolavelmente inquieta.
- Kane - sussurrou ela. - O que vai acontecer amanhã?
- Você quer dizer hoje, não é?
- Sabe o que quero dizer, Kane. O que vai acontecer quando eles voltarem?
- Que tal voltarmos a trabalhar? - sugeriu ele.
- Por favor, Kane. Responda...
Durante um longo tempo ele não falou, mas afinal a voz séria e contida soou no quarto.
- Eu não sei, meu bem. Vamos deixar que as coisas corram normalmente.
Para surpresa de Ariel, ambos se ajustaram de imediato à mudança em suas vidas, após o
retorno do casal Stewart. Voltaram a trabalhar no original da novela e a praticar esportes,
mantendo a paixão sob controle, pois Ariel jamais poderia fazer amor às escondidas, traindo a
confiança dos pais.
Mesmo assim, a sensação de que algo aconteceria não a abandonava e, a cada dia,
suspirava aliviada ao ver Kane sentado à mesa do café da manhã. Cerca de dez dias após a
volta dos pais dela, estavam na cabana da praia, trabalhando no livro, quando ele parou de
escrever, de repente.
- Como está se sentindo? - perguntou ele.
- Bem, obrigada - respondeu Ariel.
- Há algum sinal de que haverá um bebê? - Como sempre, ele ia direto ao assunto.
Ariel quase engasgou ao ouvir as palavras e, por um instante, viu-se tentada a responder
que sim, pois isso o impediria de partir.
- Não - respondeu, por fim. - Não vai haver um bebê.
- Está bem - ele virou-se para fitá-la, sorrindo.
- Vai me contar, se decidir ir embora ? - A voz de Ariel parecia estranha, como se lhe fosse
difícil falar.
- Não - respondeu ele, ternamente. - Sinto muito, querida. Mas não poderia enfrentar isso.
- Então, vou dizer adeus agora - disse ela.
- Adeus, Ariel.
De repente, ele segurou-a pelos ombros, puxando o rosto molhado de lágrimas para junto
do peito forte. Sem dizer nada, sem sequer beijá-la, ficou assim por um longo tempo. Então,
tomando a cabeça de Ariel entre as mãos, fitou-a intensamente, como se quisesse reter na
memória aquele rosto tão amado. A dor nos olhos dele era tão intensa que Ariel tentou
confortá-lo, beijando-o com ternura. Por fim, ele beijou-a na testa e soltou-a.
No dia seguinte, ela estava nadando logo cedo, quando viu o pequeno bimotor pousar no
gramado, atrás da casa. Notando o que ia acontecer, nadou furiosamente, tentando chegar
logo à praia. Queria vê-lo ao menos mais uma vez. Mas, ao alcançar a areia, o avião já
levantara vôo e, através da janela, ela pôde ver o perfil de Kane, que nem sequer virou-se para
fitá-la. E assim, ele foi embora...
Mais tarde, Ariel soube que Kane tinha falado com seus pais no mesmo dia em que havia
chegado do hospital e lhes contara tudo. Ambos haviam entendido o que acontecera, sem
revelar surpresa ao saber que o casal se amava. Mas ficaram chocados quando Kane lhes
dissera que não poderia haver casamento, pois não sabia sequer seu verdadeiro nome.
- Ele não nos escondeu nada, Ariel. - A voz de Laura revelava afeto, ao conversar com a
filha. - Kane contou-nos tudo sobre o acidente e a perda de memória. Ele é um homem sem
passado, sem identidade. Não tem o direito de prendê-la a uma situação indefinida.
- Então, você e papai lhe disseram para partir?
- Não - interrompeu o pai. - Sei que ele é um homem honesto e sincero. Não importa que
não lembre do passado.
- Seu pai sugeriu que ele ficasse na ilha e recomeçasse uma nova vida, mas Kane
recusou. Disse que precisava descobrir quem era, para que nada atrapalhasse o futuro de
vocês. E estava certo - continuou Laura, firme. - Você terá que esperar até que ele volte, ou...
- Ou aprender a viver sem ele - completou Ariel. - Eu sei. Ele me disse isso várias vezes,
mas jamais o esquecerei. E nunca mais terei outro homem.
O tempo foi passando e apesar da promessa de Kane de que manteria os Stewart
informados, nunca mais mandou notícias. Ariel mergulhava na tristeza daquela perda. Durante
os seis meses seguintes, agiu como um autômato. Não conseguia ao menos trabalhar na
adaptação do livro de Kane. Mas, antes de partir para Londres, ela decidiu ir até a cabana da
praia e, ao abrir o pequeno arquivo que havia colocado ali após a tempestade, descobriu que
ele levara consigo o original do livro, deixando apenas a cópia na qual ela vinha trabalhando e
um bilhete curto:
“Lembre-se disso a cada vez que pensar em mim: não interessa quão traiçoeira tenha sido
minha memória, de agora em diante, serei eternamente fiel a você. Meu coração diz que jamais
amei alguém como te amo. Adeus, minha fada, até que nos encontremos de novo. Seu Kane."
CAPÍTULO VI
Ariel voltou bruscamente ao presente, percebendo que há mais de uma hora estava
sentada ali na cama, perdida em devaneios. Aquela era a casa de Chris Donahue, um
milionário arrogante e antipático, que só se parecia com Kane, com o Kane que ela amava, no
físico atraente e no olhar às vezes cheio de sombras.
Valeria a pena insistir naquele plano? Deveria permanecer ao lado daquele homem,
acalentando a esperança de um dia ser reconhecida? Angustiada, Ariel pôs-se a andar pelo
quarto, buscando uma resposta.
Se quisesse, poderia despertar o interesse de Chris. Tinha consciência de que se tomara
uma mulher atraente e segura, bem diferente da adolescente que vivera em St. Patrick. Não
seria difícil seduzi-lo, arrastá-lo para uma louca noite de amor... Mas, e depois? E se nem
assim ele se lembrasse? O relacionamento se transformaria numa aventura inconseqüente, e
então Chris estaria coberto de razão se a expulsasse para sempre daquela casa.
Ela parou diante da janela, esforçando-se para enxergar alguma coisa na escuridão. Por
que não chegava a ele e lhe contava tudo de uma vez? Por que não o fazia recordar cada
momento que haviam partilhado? Não, isso também era impossível. Ele não confiava nela.
Julgaria tratar-se de mais uma história, como tantas outras que tinha ouvido desde que a
imprensa divulgara sua situação.
Às duas da madrugada, ainda estava acordada, a mente girando em torno dos mesmos
pensamentos, o corpo exausto após tantas horas de tensão. Era inútil tentar dormir e Ariel
decidiu que seria melhor aproveitar a noite insone para trabalhar mais um pouco no livro,
usando o texto que escrevera na ilha. Chris não parecia se importar com as iniciativas dela e
provavelmente aprovaria a adaptação, já que ele mesmo participara dessa tarefa na ilha,
embora não se lembrasse mais.
Tornou a se vestir e dirigiu-se para o estúdio. As luzes estavam acesas e ela pensou que
alguém devia ter esquecido de apagá-las.
Porém, ao chegar a sua escrivaninha, abafou um grito de surpresa: as gavetas se
encontravam abertas e remexidas. Seu coração bateu descompassado ao procurar a pasta
onde guardara a cópia do livro na qual trabalhava desde os tempos de St. Patrick. A pasta tinha
sumido.
De repente, uma voz vinda da poltrona diante da janela a assustou:
- O que você procura está aqui comigo. Achei impressionante. Muito mesmo! - Ele fez uma
pausa, mas como não houve resposta, continuou: - Parece que você também não gosta de
dormir. Então, já que estamos acordados, vamos trabalhar. Não quer vir até aqui?
Como Ariel permanecesse imóvel, Chris ergueu-se, com os olhos azuis fuzilando de raiva.
- Eu disse para você vir aqui!
Ariel atravessou devagar o aposento.
- Sente-se perto de mim.
Ante a hesitação de Ariel, Chris puxou-a pela mão, num gesto brusco. A voz dele era fria
como gelo.
- Agora quero entender direitinho o que está acontecendo. Faz apenas um dia que você
está trabalhando comigo, e já tem metade do roteiro pronto e corrigido. Onde conseguiu essa
cópia datilografada? Quem disse que eu ia fazer uma adaptação para o cinema? Ariel, eu exijo
uma resposta!
A mente de Ariel pôs-se a funcionar furiosamente, tentando arrumar uma desculpa
razoável.
- Eu... eu mesma datilografei. Quando li seu livro fiquei tão fascinada que comecei a fazer
um roteiro por minha conta...
- Deixe disso, garota. Essa cópia tem trechos inteiros que eu cortei na versão final. O livro
foi publicado sem eles, então como é que você os conhecia? Invente outra história!
- Bem, na verdade... um dos assistentes da editora é meu amigo e consegui um xerox do
original. - Ariel pensou que nome daria ao suposto traidor, mas Chris não parecia interessado
nisso.
- Então você, friamente, convenceu um pobre coitado a praticar um roubo que, no mínimo,
vai fazê-lo perder o emprego. Por que tudo isso? O que, afinal, você quer com a minha novela?
A imaginação de Ariel acabara, e ela não conseguia pensar em mais nada. Em silêncio,
fitava Chris com expressão confusa.
- É na novela que você está interessada, ou é em mim? Será que eu estava certo quando
desconfiei de suas intenções, logo que a vi?
Sem saber o que dizer, Ariel assentiu com um gesto de cabeça.
- Entendi... Então, agora chegamos ao ponto. Quero saber tudo. O que a fez ir tão longe?
Meu dinheiro, minha fama? Ou uma paixão alucinada por meu charme irresistível?
As últimas palavras, ditas em tom irônico, quebraram a imobilidade de Ariel.
- Seu idiota! Seu arrogante e presunçoso idiota! - exclamou, irada.
- Posso ser tudo isso, mas pelo menos tenho amor-próprio, enquanto você...
Naquele instante, todo o tormento de Ariel explodiu num acesso de raiva e ela se atirou
sobre Chris, esmurrando-lhe o peito. Durante alguns momentos, ele permitiu que ela desse
vazão a suas emoções, depois, com grande facilidade, agarrou-lhe as mãos, puxando-a para
si.
Ao ver-se tão próxima dele, Ariel gritou, horrorizada. O que mais temia era o contato com o
corpo forte de Chris, o peito largo, as coxas musculosas e, sobretudo, seu aroma másculo e
inesquecível. Aquele rosto tão perto do seu despertava-lhe tantas lembranças que Ariel
começou a chorar, implorando:
- Por favor, solte-me! solte-me!
Chris largou-a, mas em seguida tomou-lhe a face entre as mãos, e seus lábios começaram
a percorrer-lhe o rosto, numa carícia lenta, descendo até encontrar a boca macia. Abriu-a com
um beijo tão violento que a fez recuperar o controle.
Chris não era Kane, nem se parecia com ele. Era como os outros homens que haviam
tentado conquistá-la, sem jamais emocioná-la. Por um momento, ela permaneceu quieta,
impassível, sentindo uma satisfação amarga quando Chris finalmente a libertou, com um
resmungo de desgosto.
Ele não tez mais nenhuma tentativa de retê-la e Ariel voltou a sentar-se.
- Que tal, valeu a pena o esforço? - perguntou Chris, em tom seco, vendo-a esfregar a
boca com força, num gesto inconsciente de repulsa. Agora ambos estavam mais calmos.
- Deixe-me responder as suas várias perguntas - começou Ariel, em tom frio. - Quanto ao
seu dinheiro, meu pai é rico o suficiente para que meu irmão e eu possamos viver com
conforto, mesmo se pararmos de trabalhar. Com relação ao seu famoso nome, prefiro ser
conhecida por mim mesma, e não porque fui para a cama com alguém. E quanto a seu
irresistível charme... você consegue esconder muito bem seus atrativos para não excitar as
mocinhas desprevenidas como eu. Acha mesmo que eu ia me dar o trabalho de conseguir seu
original e quebrar a cabeça para fazer a adaptação só porque achei você interessante?
- Sem fôlego, Ariel parou para respirar, e então, percebeu que Chris estava rindo.
- Por Deus, como fala bem! Poderia se candidatar a deputada se quisesse!
Séria, Ariel esperou até que ele parasse de brincar, então continuou:
- Vou dizer porque vim procurá-lo. Eu queria trabalhar na adaptação, pois minha carreira
poderia ser beneficiada.
- Sua carreira de secretária?
- Não sou secretária. Escrevo roteiros para cinema e televisão. - Ela resolveu contar
apenas uma parte da verdade e, nesse instante, viu que o interesse de Chris desaparecia. Sem
dúvida, ele a achava uma criatura ambiciosa e oportunista.
- E achou que após trabalhar comigo iria ser melhor aceita por outros escritores?
- Não. Já sou uma escritora profissional e tenho nove roteiros levados ao ar, como novelas
e mini-séries para a TV que fizeram bastante sucesso. Na verdade, só queria ter experiência na
adaptação de um livro conhecido. Além de pagar mais, dá mais prestígio que seriados. Eu não
sabia que você mesmo ia querer fazer a adaptação, então tentei me adiantar no trabalho. - De
novo Ariel começou a se confundir nas mentiras que contava. - Então pedi a Paul que me
arrumasse o emprego, mesmo que fosse apenas para sua assistente...
De repente, percebendo a expressão distante no rosto de Chris, ela parou de falar. Estava
acontecendo outra vez, como na hora em que ele a ouvira rir pela primeira vez. Era terrível: os
olhos vidrados, como se ele estivesse em transe.
- O que há? - perguntou preocupada.
Com o olhar cheio de angústia, Chris a fitava fixamente.
- Ariel... Sei que seu nome é Ariel, de verdade. Você não o inventou como parte desse
plano maluco, não é?
- Não, meu nome é mesmo Ariel.
Mas ele não estava mais escutando, só repetia seguidamente:
- Ariel, Ariel? - E de súbito, escondeu o rosto entre as mãos, desesperado. - As lembranças
parecem tão próximas... Que inferno! Não consigo recordar nada!
Os olhos dela se encheram de lágrimas. Ariel tinha visto Kane passar por esta situação
várias vezes, sem que pudesse ajudá-lo.
- Kane, por favor, pare de se atormentar... - O nome havia lhe escapado dos lábios e ela só
percebeu tarde demais. Lentamente, os olhos de Chris clarearam e ele fitou-a diretamente:
- Como você me chamou?
Era impossível mentir e a voz de Ariel mal passava de um sussurro.
- Chamei-o de Kane.
Por um longo momento, Chris encarou-o sem qualquer expressão e, então, perguntou:
- Quem é Kane?
Aliviada, Ariel sentiu o sangue voltar a correr pelas veias, como se ambos tivessem
escapado por pouco de um grande perigo.
- É... é um amigo - gaguejou.
- É o assistente da editora que a ajudou?
- Assistente? - Ariel quase esquecera da mentira. - Não, não é. Kane... era alguém muito
especial.
- Era? Por quê, ele morreu?
Hesitante, Ariel pensou em concordar, mas por superstição decidiu não mentir.
- Não, ele apenas... se foi...
Embora a voz de Chris fosse deliberadamente fria, Ariel pôde sentir uma ponta de simpatia:
- E você o amava...
Com os olhos baixos, ela assentiu com um gesto de cabeça.
- E ainda o ama, posso sentir. Quer falar sobre ele?
Ariel fitou-o de relance, com uma expressão tão neutra quanto a dele:
- Não, acho que não. Pelo menos, por enquanto.
- Ah, bem. Então você também está me testando?
- Como assim?
- Também devo provar que sou digno de sua confiança - afirmou Chris. - Era isso que esta
tentando me dizer, não é?
- Não, você está enganado. - Ariel levantou-se e virou de costas, para fugir daquele olhar
intenso. - Você não precisa me provar nada. Confio em você e pode contar comigo toda vez
que for necessário.
Estando de costas para Chris, ela não viu a expressão dele se abrandar.
- É melhor ir dormir, Ariel, ou amanhã você vai estar cansada demais para trabalhar. Não
esqueça das tarefas urgentes que tem logo cedo.
Aos poucos, as palavras fizeram sentido para Ariel, que virou-se lentamente.
- Quer dizer que ainda estou no emprego? Não fui despedida?
- Claro que não! Vai me poupar muito tempo o fato de você ter alguns capítulos
esquematizados. Além disso, não posso mais me dar ao luxo de perdê-la, pois você é uma
ótima profissional.
Ariel estava perto da porta quando ouviu de novo a voz de Chris.
- Ah, só para você saber. Resolvi seguir sua intuição e destacar no romance a relação
amorosa entre os personagens. Acho que o filme fará mais sucesso como uma história de
amor convincente.
- Eu só tentei fazer um roteiro mais... - ela começou a explicar, mas, Chris a interrompeu.
- Nós dois sabemos que está certa, Ariel. É a sua chance de provar que merece a
confiança de Paul. Vamos transformar Alexis, a personagem principal, numa mulher
apaixonada e sensual, e deixar que ela encontre seu grande amor.
Exausta, Ariel não queria mais conversar. Ia se retirando quando ele tornou a chamá-la.
- Só um minuto, Ariel.
- Sim? - Ela virou-se para Chris.
- Sei que já toquei nesse assunto antes, mas prometo que esta será a última vez. - Ele a
fitava como se quisesse assegurar-lhe que, qualquer que fosse a resposta, ele a aceitaria,
desde que honesta. - Você me conheceu antes?
- Em que época? Você quer dizer quando...
- Sim, quando eu estava desmemoriado. Quando, como você mesma disse, eu andei
vagueando como uma alma perdida no inferno. Você me conheceu nessa ocasião?
Numa fração de segundo Ariel decidiu manter a mentira:
- Não, não conheci.
Chris examinou-lhe o rosto, como se quisesse descobrir seus pensamentos mais íntimos.
- Você parece lamentar não ter me conhecido. Fico imaginando qual seria o motivo...
- É porque gostaria de poder ajudá-lo a desvendar esse mistério. E também porque...
- Vamos, prossiga!
- Porque acho que, com o auxílio de um bom amigo, você poderia superar seus problemas.
- Sem mais uma palavra, Ariel saiu da sala.
CAPÍTULO VII
Uma tarde de sol fraco anunciou o fim do tempo chuvoso que havia durado quase uma
semana. A brisa suave entrava pelas grandes janelas, trazendo uma sensação de calma
naquele ambiente de trabalho tão conturbado.
Era sábado, mas para Chris não fazia a menor diferença, o que deixava Ariel contrariada.
Ele queria trabalhar o fim de semana inteiro, como na semana anterior. Sempre fora um
maníaco por seu trabalho. Às vezes, chegava a perder a noção do tempo. Para Ariel, ele
estava apenas ansioso para poder ver-se livre daquela adaptação.
O certo, porém, era que estavam juntos havia duas semanas e Chris não parecia
arrependido de tê-la contratado. Depois de toda a tensão inicial, ambos haviam encontrado um
jeito de conviver em harmonia e até de forma amigável, apesar da relação estritamente
profissional. Embora as decisões fossem de Chris, ele aceitava todas as sugestões de Ariel. A
adaptação que ela iniciara na ilha estava servindo de base para o roteiro. Na verdade,
formavam uma boa dupla e o resultado se mostrava excelente.
Mesmo assim Ariel achava que a qualquer momento Chris poderia superar seus
problemas. - Sem mais uma palavra, de não continuar a questioná-la, mas era evidente que
ainda não confiava inteiramente nela.
O curioso era que Ariel não se importava mais com as suspeitas dele ou com o fato de
poderem se separar inesperadamente. Toda a agonia dos primeiros dias desaparecera;
aquelas duas semanas vividas ao lado do homem que procurara durante três anos
trouxeram-lhe uma paz de espírito que há muito não experimentava. Na verdade, ocorria-lhe
muitas vezes que a convivência com Chris a curava da louca obsessão por Kane. Era como se
ele fosse mesmo outra pessoa, um desconhecido que em nada lhe tocava o coração.
Admirava-o profissionalmente, achava-o um homem atraente, mas não sonhava mais em
reconquistar-lhe o amor.
Ele havia decidido terminar o roteiro nas ilhas Seychelles, mas nem isso entusiasmou Ariel.
Sabia que ele preferiria partir sozinho. Um belo dia, Marjorie viria acordá-la com a notícia de
que Chris viajara e que ela, Ariel, estava despedida.
Nesse estado de espírito, Ariel começou a refletir sobre seu próprio futuro. O melhor a
fazer; dizia-se, era encontrar um caminho longe daquele homem. Kane-Chris só a haviam feito
sofrer. Passara três anos em Londres convivendo com um fantasma, pouco se dedicando à
carreira, pouco se importando com amigos ou com uma vida social. Michael a repreendia por
isso, mas jamais parara para pensar no que fazia consigo mesma.
Dali em diante seria diferente. Assim que terminasse o roteiro, iria se dedicar aos livros que
queria escrever, aos contratos que Paul lhe arranjara com a televisão. Ganharia o suficiente
para não depender mais do pai, teria uma vida independente, conseguiria um cantinho só seu,
onde pudesse trabalhar em paz... Quanto ao amor... Passara tantos anos sem amor, que
diferença fariam mais alguns? Quem sabe um dia se apaixonasse de novo, por algum homem
que a pudesse fazer feliz?
- Ariel. volte à Terra. - A voz seca de Chris despertou-a do mundo dos sonhos, e ela corou,
como se ele pudesse ler seus pensamentos. - Você estava a quilômetros daqui.
Mergulhada em devaneios, Ariel não percebera que Chris tinha se aproximado e agora se
inclinava sobre a mesa de trabalho.
- Eu... estava sonhando acordada - gaguejou. - Desculpe.
- Aposto que pensava na sua ilha encantada.- Chris sorriu. - Depois de três anos, ainda
sente falta de casa?
- Não é isso. - Ariel sorriu de volta, recuperando a segurança. - Estava apenas revendo
mentalmente nossos progressos no trabalho. - Ela aprendera a responder de maneira simples,
pois, como Kane, Chris parecia captar os vôos de sua fértil imaginação.
- É, eu também. E percebi que estou me sentindo um prisioneiro numa casa cheia de
fantasmas.
- Obrigada pelo elogio - ironizou Ariel.
- De nada, mas você não é um dos fantasmas. Você se parece mais com uma fada ou um
duende, não acha?
- Não sei se gosto da comparação. - Ela logo mudou de assunto. - Como é, acabou aquela
cena?
- Sim, ficou ótima. Podemos começar a próxima, a não ser que você queira parar.
- Parar agora? indagou ela surpresa. - Não são nem cinco horas da tarde.
- Eu sei, mas algo me diz que você não está com vontade de trabalhar hoje.
- Bem, na verdade, estava pensando que seria gostoso sair para passear, pois está um dia
tão bonito...
Mas Ariel foi interrompida pelo ruído de carros que paravam em frente a casa. O barulho de
portas se abrindo e fechando confirmou que o isolamento precioso de Chris estava prestes a
ser quebrado.
- Droga. Você está esperando visitas? - resmungou ele.
- É claro que não! - indignou-se Ariel. - Eu não ousaria convidar ninguém; esta é a sua
casa. E por falar nisso, será que você não convidou alguém?
- Está brincando! - Mas Chris parou um segundo. - Espere um pouco. Que dia é hoje?
Nenhum deles tinha tido tempo de ver a folhinha nos últimos dias e Ariel pensou antes de
responder.
- É sábado, 14.
- É o dia da festa de aniversário de Daria! - Chris exclamou desgostoso. - Sei lá porque
deixei que usassem minha casa para a festa, mas já tinha esquecido. Acho que ontem Marjorie
falou alguma coisa, mas não prestei atenção. - Virou-se, brusco. - Como secretária, você tinha
obrigação de me lembrar!
- Eu não sou sua secretária! - revidou Ariel. - Acho que resolvemos isso naquela primeira
noite. Na verdade, eu nem poderia ser secretária, pois nunca me lembro de meus
compromissos.
- Então, azar seu, queridinha - ironizou Chris. - Hoje não vamos conseguir trabalhar mais
nessa casa cheia de gente. E tem mais, eu vou sair. Você fica, cuida da casa, dos meus
parentes, e boa sorte!
- Mas o que eu digo a eles?
- O que quiser... diga que estou com sarampo. Não, isso é pouco para mantê-los
afastados. Diga que tive um novo ataque de amnésia e saí pelo mundo. - Ao falar isso, Chris já
estava escapando para a garagem.
- A habitual fuga perfeita. - Uma voz macia, vinda de trás de Ariel, a fez voltar-se
rapidamente.
Um homem alto e bonito estava na porta do estúdio, e certamente escutara as últimas
palavras trocadas entre ela e Chris.
- No seu lugar, eu nem tentaria me desculpar pelos modos bruscos de Chris. Todos nós já
estamos acostumados com isso - continuou o rapaz, em tom casual. - Minha mulher e Cynthia
ficarão furiosas, é claro, mas nos acostumamos com isso também. Não se preocupe e deixe
tudo por minha conta.
Ariel percebeu a semelhança entre Chris e aquele homem. Só que Chris era forte e
maduro, enquanto este possuía um certo ar juvenil e despreocupado.
- Você é a srta. Stewart, não é? - O aperto de mão foi um tanto longo demais, enquanto ele
a examinava de alto a baixo, parecendo gostar do que via. - Posso chamá-la de Ariel? Meu
nome é Neville Donahue, primo de Chris. Sou mais velho do que ele, porém muito mais jovem
de espírito...
Toda essa apresentação era desnecessária, pois Paul Andrews falara a Ariel sobre Neville.
Ele se apressara a ocupar a direção das Empresas Donahue quando o primo desaparecera e
ficara muito feliz quando Chris se recusara a assumir o antigo posto.
Neville continuava prendendo a mão de Ariel, ignorando suas tentativas de libertar-se.
- Já conversamos por telefone várias vezes, mas nunca estiquei a conversa por temer a
reação de meu primo. Venha, tome um drinque conosco.
- Sinto, mas não posso, sr. Donahue. Ainda tenho muito trabalho a fazer e...
- Bobagem. Se Chris foi egoísta o suficiente para deixá-la sozinha à mercê de seus
horríveis parentes, não vejo motivo para que fique trabalhando no fim de semana como uma
escrava. - Ariel não entendia bem o tom irônico de Neville. Ficou pensando se ele gostava ou
não de Chris. - E, a propósito, você se importa de me chamar apenas de Neville? Uma vez que
tanto meu primo como eu somos o "sr. Donahue", prefiro abrir mão desse título.
Sem querer, Ariel começou a rir .
- Bem se vê que Daria é mesmo sua filha!
- Você está dizendo isso porque nós dois falamos demais? É, acho que falamos mesmo.
Mas alguém nessa família tem que falar! Chris mal abre a boca para dizer duas palavras! Bem,
agora venha conhecer a família.
Como parecia ser costume entre os Donahue, Neville ignorou os protestos de Ariel e
arrastou-a até o aposento contíguo.
Na verdade, só havia três pessoas: Daria, que a cumprimentou com um abraço. Cynthia,
com sua expressão de aborrecimento habitual, e uma terceira mulher, pequena e magra, que
devia ser Grace, a mãe de Daria, com quem Ariel havia falado pelo telefone várias vezes nas
últimas duas semanas.
Era uma bela mulher, vestida em trajes caros e com uma maquiagem cuidadosa, mas
parecia insegura e muito mais velha que o marido, Neville, tão cheio de vigor. Ela continuou
olhando pela janela, distraída, recusando-se a tomar conhecimento da existência de Ariel. Pelo
ar de reprovação, Grace deveria ter visto Chris sair de carro, e ficara ofendida por essa falta de
consideração.
Neville foi direto pegar um drinque.
- Chris saiu - anunciou, sem se dirigir a ninguém em especial. - Teve uma importante
reunião de última hora em... sei lá onde. É um lugar muito longe. Mas achei alguém mais
interessante no estúdio. Apresento-lhe Ariel, e sejam gentis com ela.
Grace pareceu irritar-se ainda mais, continuando a olhar pela janela, mas Cynthia virou-se
para o primo:
- Quero outro coquetel, Neville.
- Você já conhece a indispensável assistente de Chris, não é, Cynthia? - Ele continuou
preparando a bebida.
Só então Cynthia fitou Ariel, detendo-se no cabelo sedoso e no rosto sem pintura, antes de
sorrir lentamente e confirmar com um gesto de cabeça.
- Todos nós crescemos juntos, Ariel - explicou ela. - Isto é, menos Grace, que se juntou à
turma depois. - Olhou com hostilidade para a mulher. - Não é, querida? Foi muito muito tarde,
só há uns três, não; quatro anos.
Foi Daria, que parecia zangada, quem colocou Neville no seu devido lugar.
- Não vai oferecer uma bebida a Ariel?
Ele mudou de atitude no mesmo instante, fazendo uma careta:
- Desculpe, meu bem. Quando me vejo na casa onde cresci, sinto-me novamente um
adolescente e esqueço as boas maneiras.
A risada profunda de Cynthia encheu o aposento:
- Você nunca deixou de ser um adolescente, querido. Jamais se tornou um adulto, e isso
faz parte do seu charme. Não mude, adoro você como é, Neville.
Ariel não estava entendendo nada daquela conversa estranha, e isso também parecia
diverti-los.
- Então, como vai o trabalho? - Agora Cynthia fitava Ariel diretamente, com os olhos verdes
muito frios. E, para deixar claro que não estava interessada no livro, acrescentou:
- Até quando Chris e você vão ter que ficar juntos?
- Não sei ainda. - Ariel começou a explicar, mas parou e afastou-se um pouco ao perceber
Neville mais próximo do que ela gostaria.
- E então? - Cynthia insistia no assunto. - Qual é a sua previsão? Mais uma semana?
Duas?
Pousando o copo, ainda pela metade, na comprida e moderna mesinha de café, Ariel
respondeu controlando a irritação.
- Quem sabe? A adaptação pode levar meses. - Frisou a palavra "adaptação", para revidar
as insinuações maliciosas.
Grace, que ficara distante até aquele momento, resolveu entrar no assunto, como se só
então percebesse a presença de Ariel.
- Você já parou de trabalhar hoje?
- Não, sra. Donahue - respondeu Ariel. - Tenho muito o que fazer, inclusive amanhã.
- Tolice. Você não tem que trabalhar no fim de semana. Na verdade, pensei que fosse sair.
Vou precisar do seu quarto para hospedar umas pessoas que vêm de fora. Por que não vai
para casa e descansa até segunda-feira?
Aborrecido, Neville contrariou a esposa.
- Acho que ela não quer descansar, Grace.
Ariel achou que já tinha ouvido muitas opiniões não solicitadas, e interrompeu:
- Sinto muito, mas Chris insistiu que eu ficasse, sra. Donahue. Embora eu preferisse seguir
seu conselho, não posso ir para casa. E agora, se me dão licença, vou voltar ao trabalho.
- Tentou afastar-se, mas Neville a impediu.
Grace, obviamente furiosa, lançou aos dois um olhar ameaçador.
- Mas... receio não tê-la incluído na lista de convidados para o jantar de amanhã - disse,
sem a menor polidez.
- Entenda... - intrometeu-se Cynthia, num tom de voz doce - é só para a família e alguns
amigos íntimos...
Impaciente, Ariel livrou-se do braço de Neville.
- Para mim está ótimo. - Ela falava sem desviar o olhar de Cynthia. - Na verdade, Chris e
eu planejávamos jantar fora amanhã e já fiz uma reserva no restaurante Mayfair.
A mentira saiu-lhe dos lábios sem que ela refletisse. Era sempre assim quando se irritava;
acabava provocando as pessoas, mesmo se precisasse mentir.
- Quer dizer que... Chris não jantará conosco! - Grace exclamou.
- Como ele ousa me insultar desse jeito! - Cynthia acrescentou, furiosa.
Daria, abafando o riso, pediu licença e se retirou.
Mais uma vez, Ariel recriminou-se pelo impulso que a levara a mentir, mas não esperava
tal reação da família. Só faltava mesmo Chris achar que ela o estava forçando a um jantarzinho
a dois; e se ele cismasse com isso, nada o faria mudar de idéia.
O silêncio constrangedor foi cortado quando Cynthia levantou-se e saiu intempestivamente
da sala, batendo a pesada porta de carvalho.
Neville encarou Ariel.
- Desculpe, mas Cynthia não admite que as coisas saiam diferentes do que planejou.
- Se me der licença, sr. Donahue, tenho muito o que fazer. - A voz era fria, enquanto Ariel
tentava sair da sala. - Não ficarei no estúdio, se achar melhor. Posso trabalhar em meu quarto.
Fervendo de raiva, Ariel retirou-se, mas não se dirigiu para o quarto. Querendo manter a
maior distância possível daqueles chorosos parentes de Chris, foi até seu carro, que não usara
ainda nos últimos dez dias. Bem que merecia um passeio, pensou decidida. Talvez fizesse
umas compras ou tomasse um café na vila de Hampstead.
Ao chegar à garagem, Ariel sentia-se melhor e ali encontrou Daria, que a esperava com
expressão infeliz.
- Eu sabia que você ia fugir - disse a garota.
- Não seja tola. Por que eu fugiria? - respondeu Ariel.
- É esse o problema. Não se pode fugir de minha mãe ou de Cynthia. Pelo menos agora,
você entende porque Chris nos detesta. Não sei como me desculpar pelo comportamento
deles. Neville é daquele jeito mesmo, uma pessoa simpática, mas de caráter fraco. E Cynthia...
- O que há com Cynthia? - Ariel estava ressentida com a arrogância da jovem que fora
noiva de Chris.
- Bem, ela está com ciúmes de você. - Daria demonstrou surpresa por Ariel não ter
percebido isso. - Cynthia acha que Chris passa tempo demais com você. Desde que vocês
estão trabalhando, eles não saíram mais juntos. - Ela hesitou um instante. – Sabe, ela
considera Chris como sua propriedade.
- Sua propriedade? Eles estão comprometidos? - Ariel estava chocada com a idéia.
- Ah, não são mais noivos - tranqüilizou-a Daria. - Chris rompeu com ela quando voltou
de... de sua viagem. Ela havia se casado e divorciado, mas pensou em reatar com Chris.
Cynthia nunca desiste, isso nós temos que reconhecer.
Daria continuou falando sobre o noivado, mas Ariel não prestou atenção. Sua mente
voltou-se para Kane, que se recusara a casar-se com ela, porque sentia que não era um
homem livre... De alguma forma, ele recebera essas mensagens de alerta do fundo de sua
memória adormecida; em algum lugar. Permanecera a imagem daquela mulher linda e
sofisticada que ele conhecia desde criança, e com a qual se comprometera.
- ...e também não fique aborrecida porque minha mãe foi tão ríspida com você. Receio que
ela esteja meio transtornada... - Daria continuava a falar, sem perceber que Ariel não estava
ouvindo. - Sabe, ela sempre pensou que um dia Chris casaria comigo, mas agora, com você na
vida dele...
- O quê? - De repente, Ariel deu-se conta do que a garota dizia. - O que você quis dizer?
Daria, você pensa que Chris e eu...
Daria sorriu ao ver a expressão chocada da amiga.
- Eu não penso nada. Mas, de qualquer forma, saiba que não sou sua rival, como Cynthia
também não é. Talvez eu pudesse ter tido uma chance, mas a perdi quando Chris ouviu você
rir. - A expressão compreensiva de Daria mostrou a Ariel que era inútil protestar ou negar.
As duas ficaram se olhando por um bom tempo, e depois Daria riu, voltando a ser alegre
como sempre.
- Que sorte a sua; sair com Chris amanhã à noite! Pelo menos vai ser poupada de outra
discussão idiota, do amplo repertório da família Donahue. Só sinto por não estar na minha
festa, porque gosto de você, de verdade.
Sorrindo de volta. Ariel ponderou:
- Eu também gosto de você, Daria.
- Ah, eu sei que sou irresistível. - Com essa frase brincalhona, Daria deu-se por satisfeita e
foi embora.
Ainda atônita pelas revelações de Daria, Ariel manobrou o carro, pegando a estradinha que
levava para fora da propriedade. Continuava distraída quando seu coração disparou de susto.
Um carro, em alta velocidade, vindo em direção contrária, quase chocou-se com o dela,
obrigando-a a sair da pista. Uma vez no acostamento, Ariel saiu do Renault, tentando recuperar
o fôlego.
- Posso saber aonde madame ia? - Uma voz conhecida despertou-a para o mundo.
- Você é louco, Chris! Deve haver maneiras mais fáceis de se livrar de uma funcionária
indesejada, sem ter que matá-la do coração! - Só então Ariel percebia o Porsche prateado,
parado a poucos metros de seu próprio carro.
- Desculpe, buzinei várias vezes, mas você estava sonhando acordada. Aonde estava
indo?
- Para Hampstead. Queria me afastar do trabalho e...
- E de mim?
- Se você pensa assim não posso fazer nada - retrucou Ariel. - Mas não sei por que logo eu
teria que agüentar seus parentes idiotas, enquanto você se divertia por aí.
- Sabe que essa mesma idéia me ocorreu? Na verdade, eu estava voltando para buscá-la.
- Ele sorriu ao fitá-la. - Sonhava outra vez de olhos abertos?
- Não. Estava pensando na sua família, sobretudo em Daria.
- E em quem mais?
- Em Cynthia - ela confessou, sabendo que mais uma vez ele lera seus pensamentos.
- Ah, aquela mulher adorável... O grande amor perdido da minha juventude. O que você
achou dela? - Chris, porém, nem esperou a resposta. - Não, não responda. Já sei porque você
fugiu apavorada. Acha que uma corrida a acalmaria?
Esse era um hábito que haviam desenvolvido e que ajudava a relaxar os músculos
cansados do trabalho. Mas desta vez era diferente. Parecia que ele a convidava para sair e, de
repente, Ariel lembrou-se da mentira que pregara aos primos de Chris, sobre o jantar do dia
seguinte.
- E então? - insistiu Chris.
- Eu estava querendo ir até a cidade fazer algumas compras...
- Para isso pode tirar a segunda-feira de folga. Vamos, Ariel, só uma corridinha até aquelas
árvores lá em cima. Prometo que vamos correr menos do que costumamos.
Rindo, Ariel deixou-se convencer. Ela se esforçou para tomar a frente, mas ele logo a
alcançou e ultrapassou com grande facilidade. Quando ela chegou ao bosque, Chris já a
esperava, não parecendo nem um pouco cansado. Ofegante, ela jogou-se na grama fresca,
deitando de costas, de olhos fechados.
- Está melhor? - A voz de Chris despertou-a depois de alguns segundos. Ariel assentiu com
um gesto de cabeça, recusando-se a abrir os olhos. - Você devia voltar para a ilha, mocinha.
Essa vida sedentária vai acabar com a sua musculatura.
- O que o faz pensar que eu estaria melhor em St. Patrick?
- Foi o que você disse. Ou não? - De novo uma suspeita brilhou nos olhos de Chris.
- Acho que sim. Eu falo tanto que nem me lembro do que disse. - Sentindo-se observada,
Ariel sentou-se, embaraçada.
A região estava deserta, sob as sombras do anoitecer, e o cinturão verde das árvores
parecia isolá-los do mundo, tapando até a visão das poucas mansões dos arredores.
Acalentados por tanta tranqüilidade, ambos ficaram em silêncio, numa agradável camaradagem
sem palavras, ouvindo o murmúrio distante do tráfego da cidade. De certa forma, aquele ruído
fazia Ariel lembrar o barulho do mar. Como sempre, Chris e ela pensavam a mesma coisa.
- Faz muito tempo que não navego em meu iate; tem demais - comentou ele, em tom
suave.
- Prefiro sentir meus pés firmes na terra - ela brincou - Gosto de barcos, mas o bom é voltar
à minha casa em terra firme no fim do dia.
- Você não suportaria passar várias semanas no mar?
- Acho que sim, mas não sozinha.
- E comigo, você iria?
Forçando um sorriso, ainda meio sem fôlego, Ariel pensou como Chris a magoava com
essas pequenas lembranças.
- Ah! Com você seria inteiramente diferente!
- Podíamos ir até sua ilha - continuou ele, em tom calmo. - Meu iate, por coincidência, está
ancorado nas ilhas Seychelles.
Lá vinha ele de novo, suspeitando dela, provocando-a com suas ironias. Ariel estava
cansada daquilo, e resolveu desafiá-lo.
- Fico pensando o que fez você ir parar no oceano Índico. Lembro de ter lido certa vez que
você preferia ir para o Caribe.
- Preferia, mas o oceano Índico é melhor.
- Melhor para quê?
- Para encontrar minha memória, benzinho. Foi lá que a perdi.
Ariel ficou surpresa, pois era a primeira vez que ele falava no assunto, sem rodeios.
- Nas ilhas Seychelles? - perguntou cautelosa.
Quando Chris voltou-se para Ariel, seus olhos brilhavam de forma estranha.
- Ou lá, ou em alguma ilha próxima, no oceano Índico. Não sei direito. Só sei dizer que fui
encontrado em Mahe, no hospital da ilha. Disseram que eu desmaiei no aeroporto de Victoria.
Simplesmente apaguei, nem mais nem menos. Ninguém sabia dizer quem eu era, ou como
cheguei lá. Eu mesmo não podia ajudar a esclarecer nada. A última coisa de que me lembrava
era de estar voando em meu jatinho sobre o oceano Índico, com uma asa pegando fogo,
recordando um trecho do livro "Vôo Noturno", de Saint-Exupéry.
- Então você sabia quem era?
Franzindo a testa, Chris pensou um pouco.
- É claro que sim. Mas, juro por Deus, não tinha a mínima idéia do que fazia em Mahe, seis
meses depois do desastre, sem documentos ou qualquer outra forma de identificação. - A única
lembrança desse passado misterioso era uma barba bem cuidada, que cortei a contragosto
quando voltei para casa.
- Acho que você ficaria bem de barba - disse Ariel, sem pensar.
- Bem, se você pedir com jeitinho, posso deixá-la crescer de novo.
- É uma boa idéia. Se parasse de se barbear começaríamos a trabalhar meia hora mais
cedo e você me deixaria parar antes da meia-noite. E, por falar em tempo... - Ela cortou a
conversa que se tomava muito íntima. - Não é hora de voltarmos? - Dizendo isso, começou a
levantar.
- Espere, Ariel. - Ele estendeu a mão para detê-la. - Quando falei de irmos para o iate, falei
sério. Se continuarmos trabalhando tão bem, juntos, podemos fazer a maior parte da
adaptação a bordo do iate. Seria melhor para nós, sem telefones tocando ou a ameaça
iminente de uma avalanche de parentes.
- Isso quer dizer que fui aprovada e você não suspeita mais de mim? - Ariel esforçou-se por
manter uma voz indiferente.
Impassível, Chris fitou-a.
- Você devia saber disso desde sua primeira noite na minha casa. Então não faça
piadinhas, Ariel.
- Desculpe, mas eu não tinha certeza.
- Está certo - concordou Chris e ergueu-se, estendendo a mão para ajudá-la a levantar-se.
- E agora que estamos entendidos, o que acha de trabalharmos no iate?
Respirando fundo, Ariel pensou que estava brincando com fogo, mas era tarde para recuar.
- Por mim, está bem. Quando partimos?
Após instantes de hesitação, Chris respondeu:
- Só daqui a alguns dias, pois quero que antes de se decidir, você pense melhor no
assunto.
- Quer dizer, antes de você se decidir, porque eu já concordei. Mas percebo que você
precisa de mais tempo para não restar qualquer dúvida de que eu não pretendo invadir sua
privacidade. Então, vamos esperar mais um pouco.
Chris não riu, só sacudiu a cabeça.
- Não é bem assim, Ariel - disse em tom suave. - Preciso estar certo de que eu não vou
quebrar sua privacidade.
- Tudo bem, Chris. Não sou assim tão zelosa de minha intimidade.
- Talvez não, mas entenda, vamos estar repartindo não só as horas de trabalho, mas todo
o nosso tempo.
- Mas não me importo, de verdade. Vou gostar de estar com você - afirmou Ariel, sem
pesar as palavras, não entendendo a insistência de Chris.
- E vai gostar disso também? - perguntou ele em tom tão casual que, desprevenida, ela
virou-se para perguntar:
- Gostar de quê?
Chris inclinou-se sobre ela e, antes que pudesse reagir, ele a segurou pelos ombros e a
beijou. Esperando o mesmo tipo de beijo sensual, mas sem sentimentos, que haviam trocado
na primeira noite, ela não se alarmou. Só que, após um momento, percebeu que desta vez o
beijo não continha o mesmo desdém e a mesma raiva. Não havia volúpia ou paixão, mas um
grande carinho.
Só que aquele não era Kane, e ela nada significava para Chris. Mas, mesmo lutando para
se libertar daqueles lábios insistentes, Ariel foi se deixando invadir pela inteira excitação que
lhe tomava o corpo inteiro, e acabou entregando-se ao prazer.
Ariel apoiou-se contra aquele peito másculo e correspondeu ao beijo com um suspiro de
rendição. Ao senti-Ia ceder, ele riu, feliz por tê-la vencido.
Em seguida, aparentemente satisfeito com o resultado da experiência, ele segurou o rosto
delicado entre as mãos e beijou-a mais uma vez. Trêmula de desejo, Ariel entreabriu os lábios
e encostou o corpo contra o dele, rodeando-lhe a cintura com os braços. A língua de Chris era
exigente e sensual, e por um longo momento ela esqueceu de tudo.
- Ariel? - chamou-a por fim.
Ela abriu os olhos e encontrou o olhar de Chris, fitando-lhe o rosto com o velho ar de
encantamento e dor que ela tão bem lembrava. Um sentimento misto de amor e mágoa atingiu
o coração de Ariel, que tentou apagar aquela expressão agoniada beijando-o de novo.
Sentindo-se estremecer de prazer, enquanto a estreitava mais em seus braços, ela foi tomada
por um arroubo de triunfo.
E, quando ele a deitou na grama fofa, correspondeu com a ânsia de quem, mesmo sem
saber, sentira falta daquele corpo por um tempo longo demais.
O peito dele forçava-a contra o chão, enquanto suas mãos percorriam todas as curvas do
corpo de Ariel, os quadris, as coxas, os seios, levadas por um desejo incontrolável.
Durante todo o tempo, a razão avisava-a do perigo, mas ela recusou-se a parar. Já fora
longe demais, seu corpo vibrando com a excitação renovada de tocar e ser tocada por Chris e
nada mais era importante. Num gesto espontâneo, deslizou as mãos por dentro das roupas
dele, saboreando o contato direto com a pele nua. Envolvida em tanta sensualidade, quase não
notou que Chris percorria seu cabelo com os dedos, à procura das longas tranças que não
estavam mais lá.
- Por Deus, Ariel! Não sabia que a desejava tanto! - ele disse, afastando-se, bruscamente.
A magia se desfez. Ele era de novo o controlado Chris Donahue, que baixou a cabeça e
recomeçou a beijá-la; mas num gesto brusco, Ariel libertou-se, rolando para longe,
permanecendo quieta e ofegante sobre a grama.
Percebendo que Chris se erguera, ela começou a arrumar as roupas sobre o corpo
semidespido. Já estava escuro e Chris era apenas uma sombra a alguns metros dela.
- Você tem razão, Ariel. - A respiração dele ainda não voltara ao normal e sua voz soava
rouca de desejo. - É melhor pararmos por aqui e voltarmos para casa. Será mais confortável
em minha cama.
- O que você quer dizer?
- Quero dizer que não vamos esperar mais - ele respondeu após um longo momento. - Não
agüento ficar ao seu lado sem tocá-la, e minha cama parece ó melhor lugar para resolvermos
isso, a menos que você tenha uma idéia melhor.
Ao ouvir essa declaração fria e presunçosa, Ariel empalideceu, envergonhada por ter-se
abandonado de modo tão completo.
- Eu... prefiro que você esqueça o que houve - murmurou, sem jeito. - Não quero
prosseguir com isso. Sinto muito.
Ele não esperava essa resposta e ficou chocado com a rejeição.
- Entendo. Você está se guardando para o misterioso Kane, até que ele se digne a voltar,
não é mesmo?
- Kane? - Ariel pensou não ter ouvido direito.
- É o sempre presente Kane - ironizou Chris. - O homem que a abandonou.
Ariel abraçou os joelhos e olhou para a copa das árvores que escondiam o céu. No
entanto, seus pensamentos não estavam ali. Ela refletia sobre os estranhos desígnios da vida,
que a levavam sempre por um caminho inesperado. Como contar a Chris o que se passava em
seu coração? Nos braços dele, sentira o renascer da paixão, sentira que o amor florescia ainda
uma vez. Não pensara em Kane, não se lembrara dos mágicos momentos vividos em St.
Patrick. Estivera consciente apenas do presente, daquele homem que agora se chamava Chris
Donahue. Por mais que a idéia fosse perturbadora, precisava ser honesta consigo mesma e
reconhecer o que lhe acontecia no íntimo. Toda a racionalização feita sobre viver longe dele
não passara de uma tímida tentativa de seu inconsciente de defender-se da frustração.
Enquanto o relacionamento entre eles se limitara ao trabalho, enquanto Chris a tratava com
frieza e se esforçava por mantê-la a distância, fora fácil traçar planos para o futuro e imaginar
que um dia estaria livre dos sobressaltos do amor. Mas agora, tendo experimentado de novo a
doçura daqueles lábios, tendo sentido o fogo das carícias enlouquecedoras que só ele parecia
conhecer, via-se de novo envolvida num turbilhão de emoções.
No entanto, não cederia aos desejos de Chris. Não podia entregar-se a ele enquanto não
tivesse certeza de que havia mais do que uma passageira atração física. Queria-o pela vida
inteira, não por apenas algumas noites...
- Não entendo você, Ariel - Chris disse de repente, interrompendo-lhe as reflexões. - Eu
podia jurar que você estava tão ansiosa quanto eu para ir até o fim.
- Sinto muito - repetiu ela, baixinho. Tinha vontade de contar tudo que a atormentava, mas
ainda não era o momento.
- Bem, não se sinta mal por isso, garota. Só espero que esse tal de Kane aprecie tanta
lealdade. Sabe... nem por um instante duvidei de que você seria minha, se eu insistisse. Só
não me pareceu certo tirar vantagem da sua carência para satisfazer o que eu julgava uma
simples atração sexual. - Ele deu uma risada curta e amarga. - Maldita seja, Ariel, eu poderia
possuí-la agora mesmo, não fosse... não fosse esse seu misterioso Kane!
Ariel começou a tremer, de puro nervosismo. Desesperada, escondeu o rosto entre as
mãos, mas Chris ajoelhou-se ao lado dela e num gesto carinhoso, obrigou-a a encará-lo.
- Seja sensata, Ariel. Não acha que é tempo de desistir desse arrasador de corações?
- Minha recusa não tem nada a ver com Kane... - Ariel hesitou. - É que você na verdade
não me deseja, e sim a um fantasma do seu passado.
- Está certo - Chris nem tentou negar. - Vou fazer um trato com você. Uma vez que ambos
somos perseguidos por sombras do passado, vamos nos auxiliar mutuamente a escapar dessa
angústia. Adoraria que você ficasse no lugar do meu fantasma e acho que eu conseguiria
apagar as recordações de Kane do seu corpo e da sua mente. O que acha disso?
Um gemido escapou dos lábios de Ariel, que só balançou a cabeça, arrasada pela
crueldade do destino.
- E então, meu bem? Decida-se. - Ele insistiu, acariciando-lhe os cabelos. - Para onde
vamos agora? - Certo de seu poder de sedução, tentou beijá-la novamente, mas Ariel
libertou-se, magoada.
- A lugar nenhum - afirmou, em tom seco. - Isto é, se quer que continuemos a trabalhar
juntos.
Os olhos brilhantes de Chris sorriam, meio brincalhões, quando ele respondeu :
- Ah, vamos continuar o trabalho, é claro. Mas não se iluda; na próxima vez você não vai
parar, como há poucos minutos. Vou seduzi-la e, se fosse você, desistiria e se daria por
vencida desde já.
- Ora, seu... seu maldito arrogante!
- Talvez eu seja mesmo - interrompeu ele. - Só que até hoje nunca deixei de conseguir a
mulher que queria, e é por isso que vou insistir.
- Por Deus, é tão difícil entender? Eu não quero...
Outra vez Chris não lhe deu ouvidos, ajudando-a a levantar-se com um gesto seguro.
- Ah, quer sim. É tarde demais para recuarmos, Ariel. Não fui eu que a procurei, lembra?
Você veio até mim. Pois agora conseguiu o que queria, ou melhor, o que nós queríamos.
- Você está completamente enganado. - Ariel tentou afastar-se. - O que eu desejo e o que
você deseja, são duas coisas bem diferentes.
Ele continuava lhe segurando o braço, impedindo-a de fugir.
- Não, não é assim. Nós dois queremos nos livrar de recordações dolorosas ou, pelo
menos, achar um substituto satisfatório, para que você possa dizer adeus a Kane, e eu, desistir
do sonho de achar uma sombra sem nome nem rosto.
Quando Chris a puxou para si, Ariel decidiu aceitar o que viesse, pois seu corpo em brasa
assim o exigia. Fechou os olhos, numa silenciosa submissão. Estava cansada de lutar. Porém,
para sua surpresa, ele se afastou:
- Não aqui, Ariel. Continuaremos essa conversa em meu quarto. Venha. - Virando-se, Chris
começou a correr colina abaixo, sem esperar para ver se ela o seguia ou não.
Ariel desceu devagar, sem tentar acompanhar o passo de Chris. Precisava ficar só para
clarear as idéias, para entender o que se passava. Não tinha a menor idéia de qual seria sua
reação ao próximo avanço de Chris, mas pressentia que estava num beco sem saída; e a culpa
era toda sua.
Viu-o entrar no Porsche e dar a partida, manobrando de volta à mansão. Ela hesitou um
pouco, mas finalmente pegou seu carro e o seguiu. Só quando atravessou o portão da casa é
que se lembrou dos parentes indesejáveis.
Chris a esperava junto à porta da frente, banhado pela luz que vinha de dentro da casa.
Grace continuava olhando pela janela e sua expressão endureceu ao ver Ariel aproximar-se,
relutante, de Chris. Presa entre a determinação de Chris em levá-la para a cama e a hostilidade
do resto da família, Ariel sentia-se acuada.
- Tínhamos esquecido outra vez dessa gente aí, não é amor? - disse ele, sorrindo. - Deixe
seu carro na garagem e apanhe algumas roupas; apenas o suficiente para uns dias. Quando
chegarmos, compraremos o que você precisar.
- Chegarmos onde? Comprar o quê? Do que está falando? - murmurou Ariel, perplexa.
- Vamos para um hotelzinho no campo até partirmos para as ilhas Seychelles - explicou
ele, paciente. - Vou providenciar reservas para nós. No próximo vôo.
- Por favor, escute, Chris! Não vou a lugar nenhum com você.
- Ah, vai sim, srta. Stewart! Nós temos um assunto que ficou pela metade e precisa de
calma para ser bem resolvido. E eu não estou falando da adaptação do livro...
Quando Ariel tentou fugir, ele segurou-a pelo ombro e puxou-a para si, num forte abraço,
bem na frente de Grace, que assistia a tudo da janela sem cortinas.
- Deixe-me ir - sussurrou Ariel. - Estão todos olhando!
- Azar deles - declarou Chris, impassível. - E chega de argumentar, Ariel. Não sei por que
você está resistindo tanto. É óbvio que nos desejamos... Isso deveria bastar. - E para provar
que tinha razão, ignorou a raiva de Ariel, inclinou-se e beijou-a até que ela ficasse trêmula e
sem fôlego. - Entende o que eu digo? - perguntou depois, com um brilho divertido no olhar. - Vá
pegar suas coisas, enquanto eu apanho o material de trabalho. Daqui a dez minutos te espero
aqui. - Com um beijo final, empurrou-a na direção da porta, enquanto ele próprio dava a volta
para entrar pelo estúdio.
Por alguns momentos, ela ficou parada, indecisa, e ao erguer os olhos, viu Neville, sorrindo
através do vidro da janela. Grace não estava mais lá, mas Ariel sabia que toda a família devia
ter visto o que se passava entre ela e Chris. Nesse instante, descobriu qual era a única atitude
sensata a tomar. Rápida, retomou ao automóvel e ligou o motor.
Quando Chris saiu da casa, pronto para viajar, Ariel já estava longe, seu carro perdido no
meio do tráfego que se dirigia para o centro de Londres.
CAPÍTULO VIII
A casa em estilo vitoriano onde Ariel e Michael moravam parecia ainda mais melancólica
após aqueles dias que ela passara trabalhando com Chris Donahue. O irmão tinha saído sem
deixar nem um bilhete, pois não esperava que ela retornasse. Ariel concluiu que ele devia ter
saído com Lindsay, a namorada, que também era médica. Os dois se conheciam havia mais de
um ano.
Depois de hesitar um pouco, ela encheu-se de coragem e ligou para Paul Andrews.
- Não sirvo para o emprego, Paul - explicou assim que ele atendeu. Acho que Chris precisa
de alguém mais experiente. Por favor, avise-o.
- Diga você a ele - reclamou o agente, desgostoso. - De qualquer forma, isso é bobagem.
Chris não reclamou, não é? Acho até que está bem contente com você. Por Deus, Ariel. - A voz
dele elevou-se, revelando irritação. - Depois de tanto esforço para que ele a aceitasse, tem
coragem de me dizer que vai desistir!
- Sinto muito, mas não vou continuar.
- Você não pode desistir sem mais nem menos. O que houve? Há apenas duas semanas
estava disposta a dar o braço direito pela chance de trabalhar com Chris. - Paul esperou uma
resposta, mas como ela permaneceu em silêncio, tornou a insistir. - Escute, Ariel. Não vou
fazer nada a menos que me dê uma ótima razão. Está agindo como uma criança! Por que não
pode continuar a trabalhar com Chris, agora que ele concordou?
- Paul, simplesmente não posso continuar. Por favor, você tem que me ajudar. Não
agüento mais!
Ao notar a angústia de Ariel, Paul cedeu:
- Sabe Deus onde vou encontrar um substituto - reclamou. - Chris já vetou os melhores
profissionais que conheço.
- Acho que ele será mais maleável agora, Paul. Está mais familiarizado com o lado técnico
da adaptação, e, além disso, pode mesmo trabalhar sozinho.
- Ah, é? E quem vai datilografar? Ele mesmo?
Ariel sorriu com amargura. O agente parecia esquecer que Chris Donahue tinha a sua
disposição todas as maravilhas da informática.
- Não se preocupe com isso, Paul, não haverá o menor problema. Ligue para Chris
amanhã e diga que não voltarei. Mandarei alguém até lá para buscar minhas coisas.
Ariel desligou o telefone depois de se despedir e ficou vagando pela casa, tentando
ocupar-se com tarefas domésticas desnecessárias e recriminando Michael por ser tão ordeiro.
"Pare de pensar nele", ordenou a si mesma, esfregando com força uma cadeira já limpa.
Em seu quarto, não se sentiu menos infeliz, mas pelo menos arranjou algo para fazer.
Apesar de não ser uma pessoa desorganizada, era incapaz de jogar qualquer coisa fora. As
prateleiras e as gavetas da escrivaninha estavam cheias de rascunhos textos, antigos roteiros,
cartas e anotações. Tudo aquilo representava o resultado de três anos de uma carreira
bem-sucedida, mas havia muita coisa para ser jogada fora e Ariel atirou-se à tarefa com
energia.
No entanto, o destino parecia se voltar contra o esforço de esquecer Kane: no meio da
papelada, encontrou o bilhete que ele escrevera no dia em que deixara St. Patrick.
"Lembre-se disso a cada vez que pensar em mim: não interessa quão traiçoeira tenha sido
minha memória, de agora em diante, serei eternamente fiel a você." Ela lia e relia as palavras
que já havia decorado: "Meu coração diz que jamais amei alguém como te amo. Adeus, minha
fada, até que nos encontremos de novo. Seu, Kane".
Essas palavras sempre haviam consolado Ariel, dando-lhe forças para continuar
procurando Kane. Agora, no entanto, a faziam chorar, dando vazão a todo o desespero que
tentara sufocar. A verdade é que amava Chris Donahue. E de qualquer forma, ele se mantivera
fiel, ponderou, resignada. A memória perdida de Chris permanecia fiel a um fantasma, a uma
ilha encantada, e o fato de o fantasma ser ela própria não fazia diferença.
Para ele, Ariel Stewart era apenas mais uma garota interessada, com quem poderia ter
alguns momentos de prazer. E, como Kane escrevera três anos atrás, nunca mais amaria outra
mulher, além da garota da ilha. Esses pensamentos confusos eram desesperadores e ela não
sabia o que fazer.
O silêncio dominava a casa. Não eram nem nove horas. À frente de Ariel se estendia toda
uma noite solitária, cheia de pensamentos sombrios. A imagem de Chris a perturbava, seu
corpo ansiava pelas carícias daquelas mãos hábeis, daquela boca exigente, enquanto a figura
de Kane ficava cada vez mais distante.
Não havia outra saída a não ser desistir de ambos. Chris não voltaria a procurá-la, havia
outras mulheres que poderia conquistar e não iria perder tempo com mais uma garota bonita.
Quanto a ela própria, não procuraria um substituto, pois estava mais apaixonada do que nunca
e esse sentimento era tão forte que mal podia evitar o ímpeto de sair correndo de volta para
ele. Só que não podia trocar o amor verdadeiro que compartilhara com Kane, por algumas
semanas de aventura ao lado de Chris.
Esperando por Michael, ansiosa para conversar sobre Chris, Ariel ficou acordada até bem
tarde, mas, por fim, adormeceu de cansaço.
Seu último pensamento foi que talvez devesse voltar a St. Patrick, pois lá ao menos teria
lembranças felizes, em vez de enfrentar a realidade da rejeição de Chris...
Pela manhã foi despertada por ruídos na cozinha, e desceu meio sonolenta, para encontrar
Michael e Lindsay tomando café.
- Espero que não tenha sido por minha causa que você não vinha dormir aqui antes - Ariel
disse, sorrindo para Lindsay.
- É que Michael acha...
- Que sou uma garotinha inocente, que não conhece os fatos da vida? - Ariel riu, olhando
para o irmão. - Ou você tem medo de que eu fique com ciúmes por não ter um namorado?
Pela expressão de Michael, Ariel percebeu que acertara em cheio. Pelo jeito ela
atrapalhava uma porção de gente. Chris não se envolvia com outra mulher devido a um
compromisso que assumira com ela na ilha. Agora seu próprio irmão hesitava em trazer a
namorada para casa, só para não magoá-la.
Ao menos o caso de Michael era fácil de resolver, refletiu Ariel, triste. O problema com
Chris, no entanto, parecia insolúvel. Não podia contar-lhe sobre Kane, pois ele provavelmente
não acreditaria e as velhas suspeitas retomariam. Por outro lado, se o abandonasse sem
explicações, Chris ficaria preso a um fantasma pelo resto da vida.
Michael interrompeu-lhe os pensamentos, pedindo-lhe que o ajudasse a preparar o almoço.
Ele era um excelente cozinheiro e, como fazia todos os domingos, convidara um punhado de
amigos para apreciar suas habilidades culinárias.
Almoçaram os três e mais cinco pessoas, o que deu muito trabalho na arrumação da
cozinha. Só bem tarde, depois das sete da noite, Ariel conseguiu guardar a última peça de
louça, enquanto Michael escutava música, feliz com o dia agradável e os muitos drinques que
tomara. Lindsay, que tinha plantão no hospital, acabava de sair, levando os últimos convidados.
Cansada, Ariel resolveu tomar um banho demorado, mas, apesar do ruído da água e do
som da vitrola no último volume, escutou o toque insistente da campainha.
Michael devia ter adormecido, depois do almoço farto e dos vários drinques, Ariel pensou,
apanhando uma toalha. Enxugou-se depressa e enrolou-se numa canga de algodão colorido. O
traje era um tipo de sarongue, característico das ilhas, que costumava usar em St. Patrick. Ali
em Londres, usava-o em casa para substituir um roupão.
Nesse exato momento, uma alta silhueta masculina dirigia-se para um carro que, no
escuro, parecia ser um Porsche. Ouvindo a porta se abrir, o homem virou-se e a viu no traje
reduzido, com apele nua brilhando à luz do saguão.
Em pânico, Ariel tentou fechar a porta, porém Chris foi mais rápido, percorrendo em
segundos o espaço que os separava. Os olhos azuis a desafiaram, implacáveis.
- Desculpe. - Ariel riu, embaraça pela reação infantil. - Não sei o que houve comigo. Você
me pegou de surpresa e me assustei.
- Não, você está certa. Qualquer homem avançaria para cima de você, vestida com esse
sarongue. - Chris sorria. - Posso entrar agora?
- Ah, é claro que sim.
Depois de entrarem, ela fechou a porta, estremecendo de frio, e ficou ali parada, sem saber
o que fazer. Por fim, tentou explicar:
- Sabe, acho que meu irmão Michael pegou no sono na sala...
- Dormindo, com o disco tocando assim tão alto? Não foi à-toa que você demorou para
ouvir a campainha.
- É que ele tomou uns drinques a mais. Eu... não sei aonde posso levar você...
- Com certeza, não para o seu quarto, sobretudo com tão pouca roupa - brincou ele. - É um
belo exemplo de artesanato das Seychelles, não? Agora sim, consigo imaginar você no meio
daquela vegetação luxuriante, da areia branca e da água azul-escura. - Ele fez uma pausa,
fitando-a intensamente, e por fim mudou de assunto. - Que tal irmos para a cozinha?
Chocada com aquela lembrança da ilha, Ariel não entendeu direito o que ele sugerira:
- O quê?
- Já que o quarto não é um local apropriado, e a sala está ocupada, convide-me para um
café na cozinha, se não der muito trabalho.
- É claro... Venha por aqui - balbuciou Ariel, conduzindo-o para a cozinha, onde ele foi
direto para o fogão.
- Vou fazendo o café enquanto você troca de roupa. - Ao ver a expressão de surpresa no
rosto dela, Chris prosseguiu:
- É uma linda roupa e, se você saísse na rua com ela, muitos homens torceriam o pescoço.
Mas não é adequada para uma fria noite londrina.
- Só que eu não vou sair hoje - falou Ariel, sem entender o que ele dizia.
- Ora, nós não temos um jantar especial marcado para esta noite?
- Temos? - Ela estava confusa.
- Você não disse à Cynthia que tínhamos um compromisso no domingo?
Ariel já esquecera daquela mentira impulsiva que pregara nos Donahue.
- Deixe para lá, Chris. Foi apenas uma desculpa para que você não precisasse ficar no
jantar de aniversário. Nunca pretendi sair com você, portanto pare de brincar comigo.
- Sinto muito, amor, mas agora não tem saída. Você me privou de um delicioso jantar com
minha adorável família, e terá que me compensar por isso. Estou faminto e tive um trabalhão
para conseguir mesa num ótimo restaurante esta noite. Quase precisei subornar o gerente,
portanto, apresse-se. Eu cuido do café.
Com um tapinha carinhoso nas costas, ele empurrou-a para fora da cozinha.
Ainda perplexa, Ariel se arrumou para sair, a cabeça cheia de dúvidas. Aparentemente,
Paul Andrews não contara a Chris que ela ia deixar o emprego. Mas quem podia saber o que
ele estava pensando? Fosse Kane ou Chris, era capaz de esconder qualquer sentimento
debaixo de um charme indiferente e casual. Sem dúvida, Chris viera para provocá-la, ou
porque não ia mais trabalhar com ele ou por causa da mentira que contara a Cynthia.
Resmungando, foi se olhar no espelho. Afinal, era a primeira vez que saía com Chris e
queria parecer bem bonita. Por fim, acabou escolhendo um vestido de lã, de corte moderno, e
colocou um cinto largo de couro para ressaltar a cintura fina. O estilo do traje a tornava ainda
mais feminina e bonita.
No meio da escada, viu Michael, meio sonolento, e aí reparou que a música tinha cessado.
Apavorada, lembrou que não chegara a falar com o irmão sobre Chris Donahue, e tentou
chamá-lo para evitar que se encontrassem. Só que nesse momento, Chris vinha saindo da
cozinha com uma xícara de café na mão.
O rosto de Michael expressou surpresa ao se deparar com o outro homem.
- Meu Deus, é Kane! Não posso acreditar no que estou vendo! - Sua voz estava meio
pastosa de sono, mas as palavras foram claras. Gelada de pavor, Ariel ficou parada no meio da
escada, olhando para Chris e esperando sua reação.
- Não, não sou Kane. Meu nome é Chris - explicou ele, com expressão tranqüila.
A presença de espírito de Michael salvou a situação. Numa fração de segundo, ele
percebeu tudo e mudou de tom:
- Desculpe, Chris. É que na penumbra você parece muito com um velho amigo. - A voz era
cordial. - Sou Michael Stewart, irmão de Ariel. Você deve ser amigo dela.
Chris estendeu a mão e sorriu:
- Sou Chris Donahue. Como vai você, Michael?
- O mestre dos computadores? É uma honra conhecê-lo. Eu não sabia que Ariel era sua
amiga. Por que não me contou, irmãzinha?
Ariel continuou muda e sem lhe dar importância, o irmão prosseguiu:
- Nós dois adoramos computadores e estamos sempre competindo para ver quem é
melhor. Você deve estar ensinando a ela todos os truques e isso não é justo.
Com uma risada forçada, Ariel entrou na conversa:
- Ora, você também esconde os seus amigos, peritos no assunto! - Enquanto ela falava,
Chris a fitava, curioso. - De qualquer modo, Michael, conheço Chris porque estou trabalhando
para ele há duas semanas, na adaptação de seu livro para o roteiro de um filme. Lembra? Eu
falei sobre isso.
- Claro que lembro. - O irmão apressou-se a concordar. - Desculpe, maninha. Você fala
tanto, que às vezes eu perco alguma coisa...
Um sorriso se desenhou nos lábios de Chris, que estava gostando da brincadeira entre os
irmãos.
- É, ela fala demais. Mas é uma ótima profissional. Diga, Michael, está ocupado esta noite?
Sem entender a razão da pergunta, Michael respondeu:
- Não, graças a Deus. É a minha primeira noite livre em uma semana, pois está havendo
uma epidemia de gripe que lotou o hospital.
- Então venha jantar conosco na cidade - convidou Chris.
- Não contem comigo. - Michael tentou voltar atrás, olhando de soslaio para a irmã. - Estou
louco para dormir cedo.
Ariel não tinha gostado do convite. Mal Chris conhecera Michael, já o convidava para ir
junto, abandonando a idéia de um jantar íntimo com ela. Mesmo assim, desceu o resto da
escada e insistiu com o irmão:
- Por favor, Michael, venha conosco. - Pensando melhor, seria bom tê-lo ao lado, para
evitar o interrogatório de Chris a respeito de Kane. - Você poderá amolar Chris à vontade com
toda essa conversa sobre computadores.
Chris também insistiu, garantindo que seria divertido tê-lo como companhia, pois isso
evitaria que ele e Ariel falassem de trabalho. Diante de tanta insistência, Michael não podia
recusar e, lançando um olhar confuso para a irmã, foi até o quarto trocar de roupa. Sozinha
com Chris, Ariel esperou que ele tocasse no assunto do famoso Kane.
- Gostei do seu irmão. É psiquiatra, não é mesmo? E, além disso, fanático por
computadores. - Chris franziu a testa, com uma expressão tão inocente, que era claramente
uma provocação. - Fico pensando por que não falou a ele sobre mim.
Ariel evitou aquele olhar indagador e inventou uma desculpa.
- Não disse nada, pois não sabia se você ia me aceitar.
- Quanto bom senso! - congratulou-a Chris. - E agora que você está segura no emprego...
- Não tive tempo de falar, a casa ficou cheia de gente o dia todo.
- De qualquer forma, é bom que ele vá jantar conosco, assim poderemos contar-lhe que
vamos quarta-feira para as Seychelles.
Como não sabia se Paul já avisara Chris sobre sua saída do emprego, e se ele apenas
fingia inocência, Ariel achou melhor não dizer nada a esse respeito.
- Entenda, Chris. Acho que não poderei ir com você...
Sem lhe dar atenção, Chris dirigiu-se a Michael, que retornava à sala.
- Ora, você foi rápido mesmo. Vamos com um ou dois carros?
- Lindsay levou meu carro - explicou Michael, pouco à vontade.
- Podemos ir no meu - ofereceu Anel, depressa. - Assim Chris não terá que nos trazer de
volta.
- Bobagem. - Ele recusou, empurrando-a para a porta. - Estaremos mais aquecidos e
confortáveis no meu Porsche. E não esqueça o casaco, Ariel.
CAPÍTULO IX
Depois de um momento de surpresa, Ariel correu atrás de Chris, que já ultrapassava a
porta de entrada.
- Você é maluco, Chris Donahue! - gritou, quase histérica. - Você me enganou!
- Fale baixo, Ariel. Ou quer que todos acordem?
- Pouco me importa se... - de repente, ela lembrou que os parentes de Chris ainda estavam
na casa e baixou a voz. - Você sabia o tempo todo. Sabia que eu não viria amanhã e me
tapeou! Foi por isso que me procurou. E agora nem mesmo tenho meu carro para ir embora! -
ela estava furiosa. - Tenho vontade de esganá-lo.
- Calma, querida, estamos muito cansados. Amanhã pode fazer o que quiser comigo. Boa
noite - ao dizer isso, Chris se encaminhava para o quarto.
- Chris! - chamou ela, em voz alta. - Tenho algo a dizer e tem que ser agora!
- Não dá para esperar até amanhã cedo?
- Não... tem que ser já.
Com um fingido ar de resignação, ele se voltou e encarou-a.
- Está certo. Vamos falar agora, mas não aqui, ou vai acordar todo mundo.
Com uma mesura zombeteira, Chris a conduziu para a sala de visitas. Irritada, Ariel não
pretendia sentar, mas ele a puxou para o sofá e acomodou-se a seu lado.
- Assim está melhor, Ariel. Agora fale.
Respirando fundo, ela tomou coragem e começou:
- Eu não vou com você. Sinto muito, mas não daria certo.
Chris não pareceu se importar.
- Isso foi o que Paul me disse hoje cedo. Ele falou que seria... inadequado, acho que foi
essa a palavra. - Apesar do ar de pouco caso, a voz era séria. - Seu irmão, por outro lado, não
tem nada contra a viagem. Acha até que lhe faria bem navegar outra vez, rever seus pais, sua
ilha...
Enquanto falava, ele acariciava o cabelo curto de Ariel. Ainda irritada, ela libertou a cabeça,
afastando-se um pouco:
- Minha decisão não tem nada a ver com Michael ou Paul. - Ela fingia tranqüilidade, como
se o carinho dele não a tivesse comovido. - Resolvi por mim mesma. Não quero me afastar de
Londres por tanto tempo, e Paul pode arrumar outra pessoa para o meu lugar, se você não
quiser trabalhar sozinho.
Para sua surpresa, Ariel foi envolvida por dois braços fortes, que não a libertaram, por mais
que ela resistisse.
- Não quero outra pessoa - insistiu Chris, em tom firme. - Além disso, você vai me levar
para conhecer toda a sua ilha encantada. Estou curioso para ver o local real onde se passa
The Island of the Lost.
- Onde se passa o quê? - Ela mal podia acreditar no que ouvira.
- St. Patrick não é a ilha que serve de modelo para a minha, ou melhor, a nossa história? -
Enquanto falava, Chris acariciava de leve o rosto afogueado de Ariel.
"Será que ele lembrava de tudo?", pensou ela, esperançosa. Ariel tentou erguer-se, mas a
mão forte de Chris a manteve recostada no sofá, impedindo-a de mover-se.
- Há quanto tempo você... - começou ela, depois de passar longos instantes em silêncio,
atordoada, a voz quase inaudível.
- Há quanto tempo eu sabia de tudo? Acho que desde que você chegou aqui, conhecendo
tanto sobre meu livro. Você sabia mais da primeira versão da história do que da versão que foi
publicada. Por exemplo, a ligação entre o livro e a peça A Tempestade, de Shakespeare, a
idéia original de Alexis, a heroína, e assim por diante.
A tensão foi abandonando o corpo de Ariel, substituída por uma terrível agonia. Na
verdade, Chris não lembrava de nada, estava apenas tentando forçá-la a contar os motivos
reais que a tinham feito procurá-lo. E, mais do que antes, ela sentia-se indefesa perante a
doçura e a força daquelas carícias.
- Então, Ariel, agora vai me contar como ficou a par da versão original? - A mão dele era
gentil, mas firme, e a impedia de fugir. - E para evitar que você crie outra mentira, saiba que só
há uma cópia do texto, e está guardada em meu iate.
Ariel nem tentou responder, pois Chris não acreditaria em nada que ela dissesse.
- Bem, pelo menos consegui conter sua fantástica imaginação, o que já é alguma coisa.
Então eu mesmo vou tentar contar o que houve. Como disse antes, acordei em Mahe, sem
lembrar de meses da minha vida, carregando apenas uma pasta com o original de um livro,
ainda não terminado. Algum impulso fez com que eu o concluísse e aí surgiu The Island of the
Lost. - Chris riu, meio sem graça. - No fundo, eu sabia que não escrevera aquilo sozinho, e
pensei que, publicando a obra em meu nome, faria com que o misterioso co-autor aparecesse
para reclamar.
Os olhos de Ariel arregalaram-se, enquanto tentava falar.
- E você acusa a mim de ter imaginação demais? - gaguejou ela. - Essa história não faz o
menor sentido!
- Não é verdade - justificou-se Chris, com voz cortante. - Se existe alguém que pode me
dar uma pista sobre esse período perdido de minha vida é esse escritor, Ariel, ou seja, você. -
Parou e fitou-a intensamente. - Por que não admite que foi você?
- Eu? O que eu fiz? - Ela mesmo não reconhecia a própria voz, de tão fraca e trêmula.
Sem se impressionar com o choque de Ariel, Chris continuou:
- Claro, tinha que ser você. Eram coincidências demais: seu nome, sua vinda das Ilhas
Seychelles, sua familiaridade com o livro... Eu teria que ser muito ingênuo para não suspeitar.
- Por Deus, Chris, você... - De repente, ela começou a rir daquela situação absurda. - Sinto
muito. É que tudo isso é tão engraçado...
Mas ele não estava achando graça, e acabou segurando Ariel pelos ombros com força:
- Essa maldita risada outra vez! - exclamou ele, mas seus olhos estavam cheios de ternura.
- Só confirma o que eu suspeitava!
- Por favor, Chris, nem sei o que dizer. - O riso morreu nos lábios de Ariel. - É que esta
situação é absurda!
- Mas é a pura verdade. O que pretendia com essa farsa? Por que não foi sincera e exigiu
os originais do livro? Sei que não precisa de dinheiro e sei que não está atrás de mim, já que
continua perdidamente apaixonada pelo tal Kane. Então o que quer afinal? - Com raiva, as
mãos de Chris rodeavam-lhe o pescoço, num gesto onde se mesclavam carinho e ameaça - O
que espera de mim, Ariel?
- Chris, você entendeu tudo errado - sussurrou ela. - Como continuou trabalhando comigo,
se pensava que eu tinha más intenções?
- Eu poderia perguntar o mesmo. Agora, conte a verdade ou torço esse lindo pescoço!
- Quem... quem escreveu a história foi Kane. - Ela nem mesmo entendeu porque deixou
escapar tais palavras.
Ao ouvir essa revelação, Chris soltou-a imediatamente e afastou-se um pouco,
permanecendo imóvel e silencioso. Quieta, Ariel tentava não despertá-lo daquela espécie de
transe.
- Kane de novo - murmurou ele, por fim. - Não importa para que lado me vire, estou sempre
esbarrando na sombra desse sujeito. - Empurrando-a, Chris levantou-se para fitá-la de longe.
- Então quando terei a honra de conhecer essa importante figura? Afinal eu tomei dele o
livro, o filme e... a namorada. Quando ele virá reaver seus bens?
- Não se preocupe, Chris - respondeu Ariel. – Kane nunca mais voltará! Nunca.
- Então ele morreu?
Ariel era incapaz de contar essa mentira e por isso negou com um gesto de cabeça.
- Ótimo - afirmou Chris. - Assim terei chance de matá-lo com minhas próprias mãos.
Em passos largos, ele foi até a porta, mas voltou, falando em voz ameaçadora.
- É melhor encarar os fatos, Ariel. Você virá comigo para as Seychelles, e não será para
trabalhar. Kane pode ficar com o livro, o roteiro e o dinheiro. Eu me contento com a garota dele.
- Eu não vou! Não quero um substituto, nem vou ser uma substituta. Você não pode me
obrigar, Chris.
- Posso, e vou, Ariel. Pelo seu bem e pelo meu. Precisamos nos livrar de nossos
fantasmas, e essa é uma ótima oportunidade. Vamos tentar viver juntos, aproveitar cada
momento, fazer amor e, quem sabe, um dia talvez nos apaixonemos de verdade.
Ariel ia reclamar, porém, Chris voltou-se e calou-a com um beijo. E, de repente, a sala se
iluminou e ambos viram-se frente a frente com os frios olhos verdes de Cynthia.
- Que cena comovente! - A voz da moça tremia de raiva. - Por quanto tempo pretende ficar
com ela, Chris? Até que a adaptação do roteiro termine, ou esse já é um beijo de despedida?
Chris deu-lhe as costas e foi saindo, deixando para trás as duas mulheres, mas Cynthia
gritou:
- Chris, exijo saber qual é a situação entre nós.
- Ah, é? A resposta é simples. - Ele caminhou até Cynthia e encarou-a, com uma
expressão que, como Ariel sabia, prenunciava uma resposta violenta. - Parece que tínhamos
definido isso antes de você se casar com Gordon.
- Eu o abandonei por sua causa - revidou Cynthia.
- Nunca te pedi nada e repito o que disse na ocasião: eu não te quero, Cynthia. E, caso
não tenha entendido ainda, vou dizer de outra forma. Ariel e eu vamos nos casar,
possivelmente na semana que vem, nas ilhas Seychelles. Boa noite, Cynthia.
Ariel mal pôde acreditar no que ouvira e tentou acalmar Cynthia, que estava visivelmente
abalada.
- Por favor, não o leve a sério - explicou, nervosa. - Ele não quis dizer isso, Cynthia. Estava
apenas nos provocando, a você e a mim. Acredite, é verdade.
Cynthia avançou para Ariel, como se fosse atacá-la, mas parou, os lindos olhos verdes se
enchendo de lágrimas. Em seguida, saiu correndo da sala. Logo depois se ouviu o barulho de
uma porta batendo com força e a casa voltou ao silêncio.
Confusa com tantas emoções, Ariel dirigiu-se trêmula para o seu quarto. Só agora via que
seria difícil livrar-se de Chris Donahue. Nada era obstáculo, quando ele decidia fazer alguma
coisa. Uma vez que cismara encontrar nela a chave para seu passado obscuro, estava
determinado a ir até o fim. E ela precisava reconhecer que também desejava ir com ele, pois o
amava profundamente, correspondida ou não.
Entrando no quarto, ela ia acender a luz quando ouviu a respiração pesada de alguém que
dormia em sua cama. Grace aproveitara-se de sua ausência para alojar um hóspede no seu
aposento. Saindo sem ruído, percebeu que só lhe restava dormir no estúdio, que era mais
aconchegante, e onde não seria perturbada pelos hóspedes logo pela manhã.
Estava frio, mas para não amassar o vestido de lã Ariel despiu-se, ficando com a roupa de
baixo. Enrolou-se no casaco e acomodou-se no sofá.
Semi-adormecida, imaginou-se aconchegada a um peito forte. O sonho era muito
agradável e pareceu-lhe que alguém a colocava numa cama e a beijava na testa. Sentindo-se
segura, Ariel abriu um pouco os olhos:
- Por que ainda está vestido, Kane? - sussurrou, tentando abrir-lhe a camisa.
- Não faça isso, Ariel - disse a voz macia de Kane. - Estou com muito sono, mas não abuse
de sua sorte.
A cama rangeu sob o peso do corpo do homem, que se afastou dela. Ariel, porém,
instintivamente adotou a postura familiar de dormir com a cabeça no ombro de Kane. Só que,
em vez de abraçá-la, ele a afastou, brusco, enquanto a voz áspera de Chris a jogava de volta à
realidade.
- Pare com isso, Ariel, e fique do seu lado da cama. Vamos dormir juntos. Apenas isso.
Horrorizada, Ariel despertou totalmente e sentou-se.
- O que você está fazendo aqui?
- Estou tentando dormir, se você deixar - respondeu ele, mal-humorado. - E caso não tenha
notado, esta é a minha cama.
- Como vim parar aqui?
Resmungando, Chris apoiou-se num cotovelo e fitou-a:
- Encontrei você dormindo no estúdio, gemendo, parecendo mal-acomodada e com frio.
Achei melhor trazê-la para cá. É bem mais confortável, não acha? Aliás, por que você estava
lá?
- Tem alguém na minha cama - explicou ela amuada.
- Coitadinha... - Chris brincou, e Ariel acabou rindo também. - E quem fez isso?
- Nem tentei ver quem era. - Num gesto decidido, Ariel afastou as cobertas e levantou-se.
- Devia ser Daria. Você podia tê-la acordado - comentou Chris, fitando-a intensamente.
- Obrigada por sua gentileza - foi dizendo Ariel, enquanto se dirigia para a porta. - Eu
estava bem lá no estúdio e... - De repente, ela percebeu que estava só com as roupas de
baixo, e correu de volta para a cama, escondendo-se sob as cobertas.
- Onde estão minhas roupas? - reclamou, ouvindo Chris rir.
- Não sei, você deve ter tirado lá no estúdio. Seu casaco está por aqui, no chão.
Ariel puxou o lençol, para poder enrolar-se nele, enquanto pegava o casaco, só que o
lençol não se desprendeu da cama, porque Chris, totalmente vestido, havia se deitado de
propósito por cima dele.
- Deixe para lá. - Agora a voz de Chris estava suave como a de Kane, enviando
mensagens sensuais que percorriam o corpo de Ariel. - Você estava certa, é bobagem cada um
de nós ficar em um lado da cama. Venha cá, meu bem.
- Não faça isso! - exclamou ela, indignada, pois Chris a puxava para si. - Solte-me!
- Por quê? Há pouco você estava aninhada em meu ombro, como se tivesse feito isso a
vida toda.
Lutando contra ele, Ariel não respondeu. Seus braços estavam presos pelos dele e a perna
musculosa de Chris mantinha as suas imóveis. Só restava a Ariel virar a cabeça, para evitar-lhe
a boca macia.
- Pare com isso, Ariel. - Ele não ria e sua voz estava tensa de desejo. - Seu corpo parece
gostar do meu, então por que nos negarmos esse prazer?
- Não!
- Sem se importar, ele começou a beijá-la e Ariel esforçou-se para não reagir ao toque da
boca e das mãos que lhe percorriam as costas, os quadris, as pernas, com um desejo
insaciável, arrancando-lhe o sutiã e a calcinha.
Mas era inútil. Todo seu corpo ansiava por Chris e ele logo percebeu isso, tornando as
carícias mais quentes e sensuais. Aos poucos, o prazer foi envolvendo Ariel numa deliciosa
languidez.
- Está tudo bem, amor. Relaxe - sussurrou Chris. - É hora de voltar à vida, e comigo. Kane
partiu para sempre.
Essas palavras quebraram o encanto, e ela começou a chorar suavemente.
- Chris, deixe-me ir, não vai dar certo.
As mãos firmes seguraram-lhe os ombros, e Ariel viu-se aninhada no peito largo, as
lágrimas molhando a camisa dele.
- Vai sim, querida. Não há mais sentido em se manter fiel a Kane, pois ele foi embora. Mas
eu estou aqui.
Uma chamazinha de esperança brilhou no coração de Ariel. Será que, na voz de Chris,
havia uma nota de amor, e não apenas desejo? Ansiosa, ela tentou ler essa emoção no rosto
dele, mas ele a mantinha presa contra o peito, o coração batendo acelerado.
- Fique quieta, meu amor - murmurou ele. - Deixe-me apenas amá-la.
Feliz, Ariel relaxou o corpo contra o dele e, ao sentir o beijo suave de Chris, esqueceu as
dúvidas e entregou-se àquela sensação há tanto tempo perdida. Tudo estava bem, Chris a
amava.
Ariel sentia-se em St. Patrick outra vez, enquanto as mãos suaves de Chris redescobriam
cada centímetro de seu corpo.
A camisa dele a impedia de sentir os músculos fortes e Ariel desabotoou-a, deslizando as
mãos pelo peito másculo, pelo ventre liso, até chegar ao cinto, que tentou abrir.
Mas, nesse momento, o corpo de Chris enrijeceu e ele afastou-se, acendendo a luz da
cabeceira. Aterrorizada, Ariel fechou os olhos e suplicou:
- Não! Por favor, não se vá!
- É claro que não. - A voz dele era quase uma carícia. - Só quero olhar para você,
enquanto fazemos amor.
Abrindo os olhos. Ariel se acalmou. Kane e Chris haviam se fundido numa só pessoa, e
quem quer que fosse, ela o amava. Devagar, Chris despiu a camisa, fitando com olhos
ardentes a nudez de Ariel, que puxou-o para si.
- Espere, querida - pediu ele. - Ainda não aprendeu a não me apressar?
- Não me importo! - Ela riu, feliz. - Só sei que te amo tanto, que tenho medo de explodir de
felicidade.
Em resposta a esse grito de amor, Chris reclinou-se sobre ela, e os anos de separação
desapareceram num instante, enquanto Ariel o provocava e excitava, até que ele não agüentou
mais e gemeu de prazer.
Finalmente. Ariel sentiu a coxa de Chris insinuando-se entre as suas, enquanto ela
sussurrava seu nome. Mas ele ficou imóvel e por fim pediu.
- Abra os olhos, Ariel, olhe para mim.
Confiante, ela encarou-o como sempre fizera, sem inibições na hora máxima do amor,
sabendo que não havia barreiras entre eles. Mais uma vez pronunciou-lhe o nome, mas algo na
expressão de Chris disse-lhe que o havia perdido de novo.
- Meu Deus, outra vez, não! - As palavras soaram como um gemido. - Por favor, Chris,
entenda... - Num gesto de desespero, ela tentou beijá-lo, mas com um gesto firme, apesar de
gentil, Chris afastou-se e deitou de costas respirando aceleradamente.
Com mãos suaves, enxugou as lágrimas que desciam descontroladas pelas faces de Ariel,
e por fim ergueu-se um pouco para pousar um beijo leve nos lábios macios.
- Você estava certa, Ariel. Ainda não estamos prontos para um novo amor. - Ele a fitava
com carinho. - Enganei-me ao esperar que você esquecesse Kane, mas assim mesmo não
posso evitar de amá-la tanto.
- Mas é a você que eu amo, Chris. Só você! - ela soluçou, tentando explicar.
Por um longo tempo, ele apenas a fitou.
- Você chamou por Kane, não por mim. - disse afinal.
Ela tentou protestar, mas Chris a impediu:
- Silêncio, querida. Não quero ouvir mais nada sobre Kane. Vá dormir, e amanhã
conversaremos com calma.
Abraçando-a, Chris tentou acalmar o choro desesperado, até que, exausta, Ariel
adormeceu. Durante toda a noite, ele a observou dormir e assim que a aurora clareou o quarto,
pousou-a delicadamente sobre o travesseiro, levantou-se em silêncio e saiu do quarto.
CAPÍTULO X
Com os olhos inchados, Ariel acordou no quarto estranho, piscando contra a luz forte que
entrava pelas janelas sem cortinas. O simples gesto de erguer a cabeça provocou-lhe dores
pelo pescoço e pelo corpo todo. Ela ardia em febre. Apanhara uma gripe forte e, sem forças.
caiu gemendo de volta nos travesseiros.
De repente, Marjorie entrou, trazendo o vestido que ela deixara no estúdio e, com ar
desaprovador, avisou:
- É melhor levantar antes que alguém a veja aqui, srta. Ariel - a voz soava gélida. - Vista-se
- disse, estendendo-lhe a roupa e virando-se de costas, para que Ariel se arrumasse.
Ao levantar, as pernas de Ariel mal a sustentaram, de tão fraca que estava com a febre
altíssima.
- É que... alguém estava dormindo em meu quarto - tentou explicar, mas a voz falhou. - Aí
Chris resolveu... - ela desistiu, exausta. - Desculpe, Marjorie, nem sei o que dizer.
- Ah, não se importe, querida. Eu sou meio antiquada. - A fala de Marjorie dessa vez soou
mais simpática, e ela aproximou-se com uma xícara de chá. - Aqui está. Beba, e depois pode
voltar para a casa pelo pátio. Ninguém vai vê-la, pois estão todos tomando café na sala de
jantar.
- Viu Chris hoje? - perguntou Ariel, sem jeito.
- Ele saiu cedo; deve ter ido correr até a colina.
Aos poucos, o chá fez Ariel sentir-se melhor. Pelo menos, tinha sido Marjorie, e não outra
pessoa, a encontrá-la na cama de Chris.
Marjorie estava falando de novo, em tom cálido e amistoso:
- Antes de sair, queria dizer que estou feliz por você e pelo sr. Chris. Eu soube, desde o dia
em que a senhorita chegou aqui, que era a mulher certa para ele.
- Não é nada disso, Marjorie. Quer dizer, só porque me encontrou aqui... - Ariel ficou
subitamente corada.
- Não precisa ficar com vergonha, srta. Ariel. Afinal vocês vão se casar no fim da semana -
interrompeu Marjorie rindo.
- Casar? - Ariel surpreendeu-se. - Espere um pouco... - Ela não sabia como esclarecer a
confusão.
- Já sei há algum tempo. O sr. Chris me contou no sábado, logo depois que a senhorita foi
embora. E agora o resto da família também já sabe. Não é preciso guardar segredo - Marjorie
começou a rir, mas um riso mais alto a interrompeu:
Era Daria, que estava encostada na porta do quarto.
- Precisava ver a cara com que Cynthia contou a novidade, hoje cedo. E minha mãe,
coitada...
Enfim Ariel entendia. Cynthia levara a sério a brincadeira de Chris e contara para o resto da
família. Agora todos pensavam que ia haver um casamento no final da semana.
As horas seguintes foram um pesadelo. Daria arrastou-a para a sala, onde Ariel foi
cumprimentada por uma dúzia de parentes de Chris. Alguns ela nem conhecia. Cynthia não
estava mais ali, partira logo após dar a notícia à família.
Tonta de febre, a cabeça latejando de dor, Ariel não via a hora de ficar sozinha e por fim
Daria a salvou:
- Ariel, Chris está ao telefone e quer falar com você.
- Mas ele não está aqui? - perguntou Ariel, surpresa.
- Não, ele saiu logo cedo com o Porsche, fazendo tanto barulho, que me acordou - disse
Neville. - Vá, não o deixe esperando.
- Chris? - atendeu ela.
- Sim. Você está bem, Ariel?
- Chris, seus parentes enlouqueceram. Eles pensam que nós... Onde você está?
- Estou no aeroporto de Londres. Vou embora.
- Para as Seychelles?
- Não, Ariel, para um lugar onde você não vai me achar. Esqueça-se de mim.
- Chris, por favor, não vá embora. Outra vez eu não suportarei! - A voz soava fraca e
trêmula.
- É preciso, meu amor. Não posso competir com um fantasma. Espere por Kane. Sinto que
ele voltará para você.
- Chris, mas a adaptação do livro...
- Pertence a Kane, também. Adeus, Ariel.
Muda, ela continuou a segurar o telefone, muito tempo depois de Chris ter desligado. Daria,
preocupada, abraçou-a com afeto.
- O que aconteceu, Ariel? Você está bem?
Libertando-se da garota, Ariel gemeu, dirigindo-se para a porta.
- Meu Deus, não consigo mais agüentar.
Assustada com a palidez da amiga, Daria correu atrás dela:
- Diga o que houve, por favor!
- Preciso sair daqui. Todos vocês enlouqueceram - dizendo isso, Ariel correu até a
garagem, com Daria a segui-la. Era claro que o Renault não estava lá, pois Chris a trouxera no
Porsche e aí... As lembranças da noite anterior foram dolorosas demais. Ela virou-se para
Daria, ansiosa:
- Pode me emprestar seu carro? Por favor, preciso sair daqui!
- Eu posso te levar - Daria sugeriu, preocupada. - Deixe-me avisar o pessoal e...
- Não, eu tomo um táxi. Deixe-me ir sozinha.
- Não! Chris me mataria se eu a deixasse partir desse jeito. Venha comigo - insistiu Daria e
arrastou-a para o carro esporte. - Entre, Ariel!
Por algum tempo ficaram em silêncio, até Ariel se acalmar. Por fim Daria constatou:
- Você não sabia de nada, não é mesmo? Chris nunca te pediu para casar com ele; só fez
isso para aborrecer Cynthia e ela acreditou. Sinto muito por você, Ariel.
- É verdade... ele queria irritar Cynthia.
- Acho que ele queria convencê-la de uma vez por todas - comentou Daria, tentando
desculpá-lo. - Há anos Chris tenta afastar-se dela, mas essa é a primeira vez que Cynthia
acredita. Ela ficou tão chocada que até senti pena.
- E você acreditou nela?
- Sim, porque não chegou a ser uma surpresa, Neville e eu esperávamos por isso.
- Mas Marjorie devia ter percebido que era um engano - disse Ariel, confusa. - Como ela
acreditou?
- Bem, quando fui à cozinha para contar-lhe, Marjorie me disse que já sabia desde sábado.
- Sábado? - Ariel engoliu em seco.
- É. Então ele devia estar falando sério - Daria riu, aliviada. - Acho que ele pensou que
você aceitaria e deu a notícia a Marjorie. - Virando-se, encarou Ariel, que permanecia calada. -
Olhe, eu sei que ele não devia ter feito isso, mas o importante é que quer casar-se. Fico feliz
por vocês!
Fechando os olhos, Ariel afundou-se no banco do carro. Não tinha sido brincadeira. Chris
queria mesmo casar com ela. Era verdadeiro o amor que Ariel lera naqueles olhos azuis. De
qualquer modo, agora não fazia mais diferença, pois Chris tinha partido. Em sua mente
cansada misturavam-se demasiadas perguntas e recordações. Ela fechou os olhos.
CAPÍTULO XI
Julian e Laura Stewart receberam a filha no aeroporto de Mahe, fingindo não notar-lhe a
intensa palidez. Era estranho, pois pareciam relutantes em levá-la a St. Patrick, insistindo em
almoçar num dos luxuosos hotéis da cidade. Mas Ariel insistia em ir para casa. Os pais a
levaram ao ancoradouro, onde os esperava um gigantesco iate novo em folha.
- Onde está o nosso iate, papai? Você não mandou desmontar o Laura, mandou?
- Não querida, só o aposentei. Quando você se acostumar com o novo, gostará dele.
- Papai! O barco tem meu nome! - sorriu ela. – Agora podemos ir para casa?
O sol já baixava quando partiram e Ariel sentou-se quieta num lugar de onde se avistavam
as colinas de St. Patrick. Aos poucos, podia se ver a vegetação exuberante e os contornos da
casa. Ariel sorriu para a mãe, feliz por estar de volta.
Ao chegarem ao cais, ela levantou depressa:
- Vou descendo na frente - avisou aos pais. - Estou louca para sentir a areia sob os pés.
- Espere, Ariel! - chamou a mãe. - Precisamos contar-lhe uma coisa. Bem... é que temos
um hóspede em casa - continuou, segurando o braço da filha.
- Que pena - resmungou Ariel. - Pretendia ter vocês e a ilha só para mim.
- Não é bem um hóspede - acrescentou o pai. - É... - A voz dele falhou, enquanto seu olhar
se fixava no final da praia. Lá se divisava uma figura alta, de torso nu, que os observava
imóvel.
- Quando ele chegou? - perguntou Ariel, depois de um longo silêncio, num tom de voz
indiferente.
- Há cerca de duas semanas. - Laura estranhava a apatia da filha.
- Devia ter me avisado, mamãe.
- Ele pediu que não o fizéssemos, Ariel - justificou-se o pai. - Não queria que você voltasse
só por causa dele.
- Ele sabia que eu ia voltar?
- Sim, mas em férias, e não para vê-lo.
- Não quero vê-lo, papai. Diga-lhe para ir embora, por favor.
- Ariel, você tem que falar com ele, dar-lhe uma chance para se explicar - insistiu Julian. -
Sei que pensa que ele a traiu, mas o pobre homem não lembra de nada, desde que partiu
daqui.
- É verdade, querida. Ele perdeu a memória de novo - esclareceu Laura.
"Não pode ser verdade", pensou Ariel, começando a rir histericamente, enquanto lágrimas
escorriam-lhe pelo rosto.
- Pare, Ariel. Você está fora de si! - pegando-a pelos ombros, Julian sacudiu a filha, até que
ela se acalmasse.
- Papai, isso não pode estar acontecendo! - Ariel, de repente, percebeu a aproximação de
Kane. - Mamãe, não quero falar com ele, por favor!
Kane ouviu-a, mas continuou andando e Ariel tentou fugir para o iate. Com firmeza, o pai
tornou a segurá-la pelo braço.
- Fique aqui. O mínimo que pode fazer é ser educada com ele, agindo como uma pessoa
adulta.
- Olá. Ariel - cumprimentou Kane, parando ao lado de ambos e fitando-a intensamente.
- Olá - murmurou Ariel, sem fitá-lo.
- Bem, esperamos vocês às sete para o jantar - disse Julian, enlaçando Laura pelo ombro e
afastando-se para deixar os dois a sós.
- Onde prefere conversar? - Como sempre, ele ia direto ao ponto, sem rodeios. - Por mim,
pode ser aqui, mas suas pernas estão tremendo tanto que acho melhor irmos até a nossa
cabana. Ou já se esqueceu dela?
- Não esqueci e não quero conversar lá. Tenho muito pouco a dizer.
- Então fale - ele pediu, tranqüilo.
- Vá embora, Kane.
- Sinto, mas é impossível. Aliás, nem tenho para onde ir. Só me lembro dessa ilha. - Ele
nem se abalou.
- Volte para o lugar de onde veio, disso você deve lembrar - insistiu ela.
- Vim da ilha de Mahe, exatamente onde eu estava três anos atrás, e não me pergunte o
que aconteceu durante esse tempo. Não sei responder.
Ariel mal conseguia manter o controle, mas forçou-se a falar:
- Sinto muito, Kane. Lamento por você ter perdido a memória de novo, mas está tudo
acabado.
- Não concordo - continuou ele. - Vamos conversar no iate?
- Está bem, só que não vou mudar de idéia. - Ariel cedeu e ambos subiram no iate.
Com um gesto carinhoso, ele a fez sentar num dos bancos do convés.
- Sente-se, Ariel. Está fraca demais para ficar em pé. E agora, diga-me exatamente,
quando desistiu de esperar por mim?
- Logo que você sumiu. Eu não podia esperar a vida toda - mentiu Ariel.
- Curioso - sorriu ele. - Seus pais e Michael disseram que você me procurou sem parar
durante estes três anos.
- Michael também sabia que você estava aqui? Parece que fui a última a ser informada...
- É verdade. Mas agora quero saber por que mudou de idéia nessas últimas semanas. O
que aconteceu?
- Eu estive doente... e mudei. Só isso.
- Não acredito, Ariel. Por acaso decidiu que não pode confiar num homem que perde a
memória? Foi isso? Diga!
- Não, não foi! - Ela quase gritou. - Isso não tem a menor importância. Você devia saber!
- Então, qual é a verdade? Ou vou ter que forçá-la a contar?
- É mesmo? E como vai me forçar? - desafiou Ariel.
- Assim - Kane abraçou-a e beijou-a com carinho.
Ariel tentou não reagir, mas sua força de vontade sumia toda vez que Kane, ou Chris, a
tomava nos braços. Mesmo assim, ela tentou afastar-se.
- Para onde vamos, meu amor? - Ele fingia ignorar a resistência de Ariel..
Para lugar nenhum, Kane. Eu te amo, mas amo também a outro homem.
- Então por que não está com ele? Por que veio para cá?
- Porque não consigo escolher entre vocês dois; então, prefiro ficar sozinha.
O rosto de Kane assumiu uma expressão estranha, que parecia de... alívio.
- Sim, foi isso que Michael me contou.
- Então, por favor, vá embora... como o outro fez. Deixe-me em paz! - concluiu Ariel, triste.
Depois de um longo silêncio, em que apenas a fitou com os olhos cheios de amor, ele
falou:
- É isso que teria dito naquele sábado, se eu a tivesse pedido em casamento no
restaurante?
Ariel levou vários segundos para entender o que ele havia dito. Quando isso aconteceu,
começou a tremer incontrolavelmente e ele a abraçou com força.
- Desculpe, amor, por ter fingido tanto, mas eu precisava saber.
- Chris? - murmurou Ariel. - Ou é Kane? Estou tão confusa...
- Pode me chamar como quiser, Chris ou Kane, e se quer saber minha opinião, ambos são
tolos e insensíveis; e você ficaria melhor longe deles.
As mãos de Ariel percorriam aquele rosto tão querido, como se quisessem se assegurar de
que estavam tocando ao mesmo tempo Chris e Kane.
- Você lembrou? Você estava aqui o tempo todo?
- Sim, vim direto de Londres para cá. Quando soube da sua doença, queria voltar; mas
Michael achou que devíamos nos encontrar na ilha.
- Então você e meu irmão conspiraram contra mim? - Os gestos dela desmentiam as
palavras de indignação, acariciando-o no rosto, no peito largo e musculoso.
- Eu tinha que fazer isso. Nós dois precisávamos saber se você amava Chris ou Kane. -
Segurando entre as mãos o rosto delicado, ele pediu: - Agora diga, querida, por favor!
Sem hesitar, Ariel obedeceu:
- Eu te amo, Chris, eu te amo, Kane...
Os beijos tornaram-se mais ardentes, até que Chris parou, afastando-se um pouco:
- Ariel, temos que voltar. Seus pais estão esperando.
- Não - murmurou ela, encostando no peito forte. - Esta noite quero ficar só com você.
- O que acha de uns dias longe de tudo? Vou falar com seu pai pelo rádio. - Chris
apressou-se em chamar a casa dos Stewart. – Julian, escute. Vamos viajar uns dias e... Está
bem, espere um pouco. - Voltando-se para Ariel, ele falou sorrindo. - Aceita casar comigo,
Ariel?
Ela mal teve tempo de responder e Chris já falava no rádio.
- Pode preparar o casamento, Julian. Voltaremos a tempo.
Algumas horas depois, o iate estava em alto-mar.
- Acha que teria se lembrado, se eu falasse sobre a ilha, logo no início? - Ariel perguntou:
- Não, não acho. Nós dois sofremos, mas você esteve sempre certa. Eu tinha que
recuperar a memória sozinho.
- E você lembrou de tudo naquela noite quando... bem, na hora em que falei o nome de
Kane. - Ela corou.
- Foi o elo final. Mas eu já tinha motivos para pensar... Seu modo de rir, sua conversa, seu
nome...
- É por isso que seu iate se chama Ariel?
- Essa foi a maior coincidência. Assim que voltei a Londres, depois de recuperar a
memória, batizei o novo iate de Ariel, sem saber bem por que e... Pare com isso. Ariel! Prometi
a seu pai que esperaríamos o casamento.
- Desculpe. - Ela deixou de acariciá-lo, afastando-se com expressão provocante. - Essa
distância está boa?
- Não exagere - Chris puxou-a de volta.
- E por que achou que eu tinha escrito o livro? - continuou ela, voltando a acariciá-lo.
- Não era o livro que me preocupava, mas sua obsessão com o misterioso Kane. Por outro
lado, eu também me mantinha fiel a um fantasma, recusando as mulheres mais atraentes.
- Chris. - Ela o beijava sensualmente, provocando-o. - E era verdade que queria casar
comigo, como disse a Marjorie?
- Sim, só que você ainda queria Kane...
- É que eu estava tão confusa e achava que era apenas uma substituta para o seu
fantasma...
- Só que você é bem real, Ariel. - Para dar-lhe uma prova, ele começou a beijá-la e
acariciá-la com sofreguidão.
- Por favor, Chris... Você prometeu.
Levantando de um salto, ele pegou-a no colo.
- Venha, Ariel. Seus pais vão ter que nos desculpar, mas não sou de ferro.
- Nem eu... murmurou ela. - E meus pais sabem que faço tudo o que quero... Chris, só
mais uma coisa. Por que me abandonou, se já sabia que era Kane?
- Porque precisava saber se você amava a mim, ou a um fantasma do passado. Seus pais
e Michael disseram que eu não conseguiria enganá-la, mas consegui.
- E o roteiro, Chris?
- Vamos terminá-lo nos próximos dias - respondeu ele, calmo.
- O quê? Por que tanta pressa? - resmungou Ariel.
- Porque depois do casamento vou estar muito ocupado nas empresas Donahue. E minha
principal tarefa na vida será fazer minha mulher feliz.
- Chris – interrompeu ela, puxando-o para si. – Acho que já conversamos demais.
- É, eu também acho... - Em um segundo, ambos estavam enlaçados na cama estreita da
cabine, o tempo e o mundo esquecidos lá fora.
E dessa vez, não havia fantasmas, nem sofrimento. Aquele amor era para toda a vida.
FIM