0% acharam este documento útil (0 voto)
721 visualizações398 páginas

019 - Intolerância

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
721 visualizações398 páginas

019 - Intolerância

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Intolerância

Intolerância

Uma análise sobre a realidade brasileira

Organizadores:
Francis Kanashiro Meneghetti
Dorival De Stefani
Diagramação: Marcelo A. S. Alves
Capa: Lucas Margoni

O padrão ortográfico e o sistema de citações e referências bibliográficas são prerrogativas de


cada autor. Da mesma forma, o conteúdo de cada capítulo é de inteira e exclusiva
responsabilidade de seu respectivo autor.

Todos os livros publicados pela Editora Fi


estão sob os direitos da Creative Commons 4.0
https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/deed.pt_BR

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


MENEGHETTI, Francis Kanashiro; DE STEFANI, Dorival (Orgs.)

Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira [recurso eletrônico] / Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De
Stefani (Orgs.) -- Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2020.

397 p.

ISBN - 978-65-5917-019-7
DOI - 10.22350/9786559170197

Disponível em: http://www.editorafi.org

1. Intolerância; 2. Cultura; 3. Sociedade; 4. Estado; 5. Brasil; I. Título.

CDD: 172
Índices para catálogo sistemático:
1. Ética 172
Dedicamos esta obra a todas(os) que lutam contra a intolerância.
“É mais difícil quebrar um preconceito do que um átomo”
Albert Einstein

“Preconceito é opinião sem conhecimento”


Voltaire
Agradecemos ao Instituto Brasileiro de Estudos e Pesquisas Sociais (IBEPES)
pelo apoio financeiro ao grupo de pesquisa NUEVO – Núcleo de Estudos da
Violência Organizacional –, da qual a maioria dos autores desta obra faz parte
como pesquisador voluntário.
Sumário

Prefácio ......................................................................................................................... 17
Francis Kanashiro Meneghetti

1 .....................................................................................................................................21
Preconceitos, discriminações e intolerâncias: definições e relações
Francis Kanashiro Meneghetti
Dorival De Stefani
Flavia Granzotto Fachini

2 .....................................................................................................................................41
Intolerância associada à condição econômica ou de classe
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Rafaela Mota Ardigó
Rodrigo Alves Silva

3 .................................................................................................................................... 70
Intolerância de gênero
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Cristiannne Teixeira Carneiro
Flavia Granzotto Fachini
Heloisa Sbrissia Selzler
Stephanie Daher
Rodrigo Alves Silva
4 .................................................................................................................................... 96
Intolerância geracional e de idade
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Herminda A. Bulhões S. Hashimoto
Rejane Cioli
Milena Cristina da Silva
Rodrigo Alves Silva

5 ................................................................................................................................... 115
Intolerância associada à condição física ou mental
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Kamille Ramos Torres
Rodrigo Alves Silva

6 ...................................................................................................................................132
Intolerância étnica
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Marjorie Mariana de Abreu
Rodrigo Alves Silva

7 ...................................................................................................................................165
Intolerância associada à cor de pele
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Giselle Quaesner
Rejane Cioli
Rodrigo Alves Silva

8.................................................................................................................................. 182
Intolerância geográfica-cultural
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Rodrigo Alves Silva
9 .................................................................................................................................. 207
Intolerância religiosa
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Marjorie Mariana de Abreu
Abilene Viana
Rodrigo Alves Silva

10 ................................................................................................................................ 238
Intolerância político-ideológica
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Kamille Ramos Torres
Renata Gabriele dos Santos
Rodrigo Alves Silva

11 ................................................................................................................................. 267
Intolerância associada à identidade de grupo
Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Kamille Ramos Torres

12 ................................................................................................................................. 311
Relações entre as diversas formas de manifestações de intolerâncias
Francis Kanashiro Meneghetti
Dorival De Stefani
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna

Referências ................................................................................................................ 322

Anexo.......................................................................................................................... 389
Estrutura da pesquisa sobre intolerância

Sobre os autores ........................................................................................................ 396


Prefácio

Francis Kanashiro Meneghetti

Em uma tarde em São Miguel dos Milagres, em Alagoas, depois de


uma manhã adorável na praia e de um almoço espetacular com os amigos,
senti uma angústia enorme, mesmo estando em um confortável quarto de
temperatura agradável por causa do ar-condicionado. Como somos capa-
zes de tolerar tamanhas diferenças econômicas e sociais? Como essas
diferenças são capazes de reproduzir violências das mais diversas, natura-
lizando que elas ocorram diante de nossos olhos? Enfim, por que somos
tolerantes com as diversas formas de intolerâncias que se manifestam no
nosso cotidiano? Assim, o que é a intolerância, afinal, e como ela se apre-
senta? Após refletir a partir do questionamento posto, algumas ideias me
vieram para tentar entender o fenômeno da intolerância.
Uma pergunta só pode ser formulada quando existem evidências cla-
ras de que existem caminhos a serem percorridos para respondê-la. Ou
seja, se é possível elaborar um questionamento, é provável que muitas das
condições objetivas para respondê-lo já estejam dadas. Resta a nós pen-
sarmos e refletirmos para achar caminhos seguros para isso. Nesse trajeto,
no entanto, é importante partir de pressupostos válidos, ou seja, de dados,
fatos e da realidade objetiva.
Este foi o caminho que escolhemos para desenvolver este trabalho.
Apesar de a inspiração inicial ter sido minha, o esforço foi coletivo, de in-
tegrantes do NUEVO (Núcleo de Estudos da Violência Organizacional).
Mas vale destacar o papel de um dos pesquisadores, o Dr. Dorival De Ste-
fani. Apesar da minha coordenação dos trabalhos, Dorival foi responsável
pela construção textual a partir de importante pesquisa histórica biblio-
gráfica que realizou dos capítulos específicos das dez formas de
18 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

intolerâncias presentes neste manuscrito. O trabalho de coordenação,


desde o seu início, contribuiu para fazer avançar a já existente parceria
intelectual, entre mim e Dorival, em mais de uma centena de reuniões se-
manais, a maioria delas realizadas em espaços de convivência inusitados
para uma tarefa desta natureza: padaria, supermercado etc. Nos reunía-
mos para debater as referências que utilizaríamos em cada capítulo,
selecionar quais argumentos desenvolver, relacionar o que estávamos es-
tudando com o que acontecia naquele momento no Brasil e no mundo,
organizar o texto, analisar os dados estatísticos etc. Mas também conver-
sávamos sobre a vida e sobre nossas dores e alegrias. Esse período da
pesquisa só aumentou ainda mais nossa amizade, mas agora estruturada
no projeto comum de tentar entender e, se possível, dar nossa cota de par-
ticipação para evitar que a intolerância se torne ainda mais comum do que
já é.
Podemos dizer que ficamos mais atentos aos modos sutis como as
violências se apresentam nas diversas formas de intolerâncias presentes
na nossa sociedade. Reafirmamos nosso compromisso em tentar esclare-
cer as pessoas por meio da nossa pesquisa e das nossas ações não só como
pesquisadores e professores, mas como humanos que sofrem ao ver um
mundo muito desigual e violento. Nosso intuito, depois de finalizar este
estudo, é de impedir que a banalização do mal, no nível social e individual,
torne-se parte constituinte da sociedade, naturalizando a violência como
algo fortuito e corriqueiro. De certa forma, fomos transformados, nessa
dinâmica dos nossos encontros, e podemos dizer que, em certa medida,
temos uma compreensão sobre as realidades das intolerâncias para além
das notícias da mídia informativa.
Sob minha responsabilidade, ficou a definição das dez formas de
intolerâncias, a partir dos estudos prévios que tinha feito sobre as organi-
zações totalitárias e dos estudos sobre violências realizados ou orientados
a partir dos diversos estudantes de iniciação científica, mestrado e douto-
rado. A definição primeira das dez formas de intolerâncias gerou o
questionário que foi aplicado por meios eletrônicos (e-mail, redes sociais,
Francis Kanashiro Meneghetti | 19

plataforma SurveyMonkey® etc.). Conseguiram-se em torno de 1.400 res-


postas, das quais 1.009 foram estatisticamente validadas e incorporadas
neste estudo.
O questionário consistiu de perguntas objetivas e uma subjetiva. As
perguntas objetivas possibilitavam estabelecer o panorama das dez formas
de intolerâncias:

• Intolerância associada à condição econômica e de classe;


• Intolerância de gênero;
• Intolerância geracional e de idade;
• Intolerância associada à condição física e mental;
• Intolerância étnica;
• Intolerância associada à cor de pele;
• Intolerância geográfica-cultural;
• Intolerância religiosa;
• Intolerância político-ideológica;
• Intolerância associada à identidade de grupo.

Obviamente que a apresentação dessas configurações tem objetivo


pedagógico, pois, conforme consta no próprio texto, a partir da análise
histórica e dos dados quantitativos, há um processo de interseccionalidade
que faz com que uma pessoa sofra concomitantemente mais de uma forma
de intolerância. Este fato é comprovado estatisticamente, além das respos-
tas subjetivas dadas pelos respondentes da pesquisa. Exemplo disso é a
própria compreensão de racismo, que envolve várias formas de intolerân-
cias sofridas por uma mesma vítima: intolerância associada à cor de pele,
étnica, religiosa, geográfica-cultural, para citar as mais frequentes entre os
respondentes.
Os dados quantitativos e qualitativos foram analisados por um grupo
de especialistas em estatística do NUEVO. Outro grupo de integrantes foi
responsável por fazer o levantamento bibliográfico de artigos científicos e
pesquisas científicas para elaborar o capítulo e identificar a existência de
diferenças conceituais entre preconceito, discriminação e intolerância.
Após a análise desses artigos, avançar sobre essa questão tornou-se ainda
20 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

mais necessário, dado que há diferenças significativas entre eles, mesmo


que estejam associados conceitualmente. Estas distinções estão no capítulo
inicial do livro, pois sem elas não seria possível compreender adequada-
mente o fenômeno da intolerância.
Em cada capítulo sobre as formas de intolerância, houve contribui-
ções de outros integrantes do NUEVO no levantamento de reportagens,
notícias, informações sobre as formas de intolerâncias para contextualizar
o momento atual em que elas ocorrem, assim como para servirem de base
para as relações com o desenvolvimento histórico de cada uma.
Desta forma, este foi um trabalho de grupo, em que cada participante
pode contribuir de forma voluntária e de acordo com suas expertises téc-
nicas cientificas e teóricas. Assim, para além do resultado do livro
propriamente dito, há um que me deixa profundamente feliz: a colabora-
ção competente de diversos integrantes do grupo de pesquisa que
coordeno. Após vinte anos na estrada da academia, um dos meus motivos
de grande satisfação é poder contar com a solidariedade espontânea da-
queles que participam voluntariamente do grupo, sobretudo porque estão
engajados em estudar e pesquisar temas que são difíceis de serem analisa-
dos e, ao mesmo tempo, possuem tamanha relevância social, sobretudo na
atualidade, como são os da violência e da intolerância.
Por fim, agradecemos ao leitor pelo interesse no tema. Deixamos
claro desde já que não é, muitas vezes, uma leitura agradável, pois trata
do que podemos encontrar de pior em muitos seres humanos. Mas é uma
discussão necessária não só pelo o que ocorreu no passado, mas pelo o que
ocorre no presente e, pior, pelo o que pode ocorrer no futuro. O esclareci-
mento é o primeiro ato para evitar que a intolerância seja um fenômeno
estruturado não só na sociedade brasileira, mas no mundo. As mudanças
dependem de nós e para que elas ocorram da melhor forma, é preciso en-
gajamento em estudar aquilo que é necessário mesmo sendo um tema que
causa espécie e provoca indignação.
1

Preconceitos, discriminações e intolerâncias:


definições e relações

Francis Kanashiro Meneghetti


Dorival De Stefani
Flavia Granzotto Fachini

O racismo é uma forma de preconceito, discriminação ou intolerân-


cia? Ou seria todos eles? Grande parte da confusão ocorre porque não
existe uma delimitação clara entre os três conceitos. É certo que o racismo
é um fenômeno que atinge milhares de pessoas no Brasil, sobretudo ne-
gros. Praticamente sete em cada dez trabalhadores negros afirmaram que
perderem uma vaga de emprego em decorrência da cor da sua pele1. Esse
é apenas um exemplo das consequências do racismo no cotidiano brasi-
leiro. O que assusta, no entanto, é que no Brasil há um discurso sistemático
de negar a existência do racismo contra negros. Em 1995, o instituto de
pesquisa Datafolha realizou uma pesquisa e identificou que 89% dos res-
pondentes afirmaram haver preconceito contra negros no país. Todavia,
somente 10% desses mesmos respondentes confessaram o preconceito.
No entanto, 87% dos pesquisados concordaram com frases racistas,
quando submetidos a elas na mesma pesquisa 2. O que se tem no Brasil é
um racismo dissimulado, que tende a ser negado e mesmo rejeitado
quando o “eu” de cada um dos brasileiros é questionado e posto em avali-
ação.

1
Ver https://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/60-dos-negros-dizem-ter-sofrido-racismo-no-
trabalho-aponta-pesquisa.ghtml
2
Ver https://tab.uol.com.br/racismo/
22 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

As práticas sociais nas quais os negros se inserem no cotidiano mos-


tram claramente sua condição de subalternidade nas relações de poder. Ao
longo dos séculos, essas práticas se estruturaram, inclusive impregnando
o inconsciente coletivo, da falsa ideia de que os negros têm limitações ou
são menos capacitados do que as pessoas que possuem outras caracterís-
ticas fenotípicas. A constituição desse racismo estrutural também pode ser
verificada com outros povos em contexto históricos específicos, como os
judeus na Alemanha da época nazista ou do genocídio armênio praticada
pelos otomanos no território turco. É possível afirmar que o racismo não
se limita apenas à característica física associada à cor da pele ou à etnia.
Certamente, esta é o elemento mais evidente que caracterizaria o racismo.
Mas ela também está associada a outros aspectos ligados à cultura religi-
osa, ao contexto geográfico-cultural, identidade de grupo cultural. Ou seja,
caso uma pessoa não tenha as características associadas à cor de pele ou
etnia, ela pode ser discriminada pelo fato de cultuar uma religião, morar
em uma determinada região ou vivenciar a cultura de um grupo. Assim,
alguém branco que seja adepto do candomblé, que more na Bahia e que
use roupas e tenha hábitos característicos da comunidade africana pode
sofrer racismo, mesmo não pertencendo à etnia africana. É evidente que a
probabilidade de sofrer a mesma violência será menor, dado que a apa-
rência é a porta de entrada do preconceito, discriminação e intolerância 3.
O racismo consiste assim na formação de estereótipos sociais – com
características historicamente construídas e reproduzidas –, que com o
tempo se tornam estigmas sociais, fomentando marginalizações de pes-
soas e grupos em função das relações de poder existentes na sociedade.
Mas somente entender como se dá a formação e a reprodução dos estereó-
tipos sociais não é suficiente para compreender como ocorre o problema
do racismo e de outras formas de violências sociais, como a homofobia ou
a misoginia, por exemplo.

3
Este fenômeno é conhecido como interseccionalidade. Para saber mais, ver o texto de Kimberlé Crenshaw
(Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero, 2002).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 23

É preciso compreender como se dá o modus operandi que, inicial-


mente, culmina na violência gratuita e que, posteriormente, se torna
planejada, sistemática e quase total contra grupos e coletivos que apresen-
tam determinadas características. Assim, é preciso compreender a relação
entre preconceito, discriminação e intolerância, pois esses fenômenos
apresentam relações entre eles, mas não são semelhantes. Tampouco po-
dem ser considerados sinônimos, pois sua mera equiparação conceitual
permite que haja simplificações de fenômenos sociais que são, na sua ori-
gem, complexos.
Para tanto, realizou-se estudo sistemático dos termos preconceito,
discriminação e intolerância nas bases de dados Scielo 4, Spell 5 e na base
de dados dos catálogos de teses e dissertações da CAPES 6, até o ano de
2017, mostra a publicação de 310 estudos sobre os três assuntos, conforme
Tabela 1, Tabela 2 e Tabela 3.
Tabela 1 – Referências sobre Preconceito
REFERÊNCIAS CONTIDAS NAS BASES DE DADOS (n = 174)
Scielo Spell Teses e Dissertações CAPES
Agrello e Garg (2009), Bernardino e Nunes (2013), Acioli (2017), Marcheri (2017),
Antunes e Zuin (2008), Camargo e Herédia (2018), Aguiar Junior (2016), Marsiglia (2017),
Bandeira e Batista (2002), Carvalho Neto, Tanure e Andrade Alcantara (2016), Matos (2017),
Borestein et al. (2008), (2010), Alencar (2017), Melo A. C. (2017),
Carvalho (1997), Carvalho Neto, Tanure e Santos Alves L. d. (2016), Melo C. E. (2016),
Carvalho (1999), (2014), Amorim (2016), Melo J. R. (2017),
Cavalcanti (1999), Eccel, Saraiva e Carrieri (2015), Arantes (2016), Mendonça (2017),
Cerqueira-Santos et al. González (2002), Araujo G. F. (2017), Menezes J. B.
(2006), Gonzalez e Ruschmann (2001), Badalotti (2017), (2016),
Crochilk (2005), Lage et al. (2016), Barreto L. X. (2017), Menezes M. S.
Crochilk et al. (2009), Levrini e Papa (2016), Barreto R. M. (2017), (2017),
Cruz R. d. (2012), Ruschmann et al. (2000), Barros (2016), Montes (2016),
Dantas (2009), Souza et al. (2017). Bornioto (2017), Muszkat (2016),
Discacciati e Vilaça (2001), Braga (2017), Nogueira L. C.
Fernandes (2009), Cabral F. A. (2016), (2017),
Fernandes et al. (2007), Cabral L. d. (2017), Noro (2016),
Fleury e Torres (2007), Candido (2017), Oliveira L. R.
Goldani (2010), Cappi (2017), (2017),
Gorski (2002), Carvalho V. G. Oliveira M. M.
Gouveia et al. (2006), (2017), (2016),

4
O sítio de acesso a base de dados do Scielo é http://www.scielo.br/?lng=pt
5
O sítio de acesso a base de dados do Spell é http://www.spell.org.br/
6
O sítio de acesso a base de dados do catálogo de teses e dissertações da CAPES é https://catalogodeteses.ca-
pes.gov.br/catalogo-teses/#!/
24 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Gouveia, et al. (2011), Castanheira (2017), Oliveira T. F.


Gouveira et al. (2012) Castelhano (2016), (2017),
Grynszpan (1996), Castelli (2016), Oliveira T. L.
Guimarães R. P. (2003), Catoia (2016), (2016) ,
Guimarães A. S. (2004), Cavalcanti A. P. Oliveira V. S.
Ianni (2004), (2016) (2016),
Jesus et al. (2010), Cazelatto (2017), Paiva (2016),
Lacerda, Pereira e Camino Ceccon (2016), Pedroso (2017) ,
(2002), Costa M. L. (2017), Peixoto (2017),
Lima e Vala (2004), Costa Junior (2017), Prazeres (2017),
Lima et al. (2006), Crociari (2017), Prestes (2016),
Madureira e Abreu (2007), Cruz S. R. (2017), Reck (2017),
Maggie (2006), Daros (2016), Ribeiro R. C.
Maia e Ribeiro (2010), Doria (2016), (2017),
Martins e Caponi (2010), Espinha (2017), Rodrigues D. C.
Moraes e Souza (1999), Farias M. d. (2017), (2017),
Nogueira (2007), Felippe (2016), Santos C. N.
Nunes e Camino (2011), Fernandes J. (2017), (2016),
Ohl et al. (2009), Ferrari (2017), Santos M. S.
Oltramari (2010), Ferreira H. d. (2016), (2017),
Pereira C. R. et al. (2011), Ferreira K. C. (2016), Silva Neto (2017),
Pereira, Torres e Almeida Figueiredo (2016), Silva C. M. (2016),
(2003), Folador (2016), Silva L. D. (2016),
Piccolo (2011), Freitas (2016), Silva R. R. (2016),
Pinheiro (2011), Gaspodini (2017), Silva Y. M. (2016),
Pôrto (2007), Gomes G. S. (2017), Silva D. B. (2017),
Queiroz Junior (1998), Juliani (2017), Silva M. O. (2017)
Rios e Gato (2009), Koury (2017), Silva T. N. (2017),
Sá e Siqueira (2013), Lawrenz (2017), Simões (2016),
Schiling e Miyashiro (2008), Leal (2017), Sousa A. C. (2016),
Sedl, Ribeiro e Galinkin Ledur (2017), Sousa K. O. (2017),
(2010), Lima M. G. (2016), Souza C. M.
Seyferth (1999), Lima T. J. (2016), (2016),
Shimizu, Cordeiro e Menin Machado (2017), Souza N. M.
(2006), Magalhães (2017), (2017),
Silva et al. (1998), Manfre Filho (2016), Tannuri (2017),
Silva L. M. (2006), Teixeira R. d.
Silva S. G. (2003), (2016),
Silva S. G. (2010), Theodoro (2016),
Vasconcelos et al. (2004), Toguchi (2016)
Witkoski (2009). Valerio (2017),
Vargas (2017),
Wagner (2017),
Waschek (2016),
Weber (2017),
Wendt (2017),
Zampronha
(2017),
Zanon (2016).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 25

Tabela 2 – Referências sobre Discriminação


REFERÊNCIAS CONTIDAS NAS BASES DE DADOS (n = 110)
Scielo Spell Teses e Dissertações CAPES
Alonso (1991), Galete (2010), Aguiar Junior Nascimento (2016),
Asinelli-Luz e Cunha (2011), Garcia e Souza (2010), (2016), Oliveira T. L. (2016),
Bandeira e Batista (2002), Gonçalves W. J. (2009), Aidar (2016), Pereira C. R. (2017),
Bastos et al. (2010), Irigaray, Saraiva e Carrieri Alves (2016), Pires (2017),
Biederman e Guimarães (2004), (2010), Amaral (2017), Radde (2017),
Bittencourt, et al. (2009), Mattei e Baço (2016), Amorim (2016), Ramos (2017),
Cacciamali e Hirata (2005), Santana Junior e Callado Bessa (2017), Reis (2016),
Castilho (2002), (2017), Calado (2017), Resadori (2016),
Cazetto e Sella (2011), Santo e Hemais (2017), Cassaniga (2016), Rocha (2016),
Cecchetto e Monteiro (2006), Silva, Mello e Lemos (2015), Coimbra (2016), Rodrigues D. C.
Cordeiro e Ferreira (2009), Souza e Pereira (2013), Costa J. C. (2016), (2017),
Couto et al. (2009), Uhr, Frio, Zibetti e Uhr Dominiciano (2016), Rosario (2017),
Crenshaw (2002), (2014), Faria (2017), Santos D. J. (2016),
Domingues et al. (2013), Varella (2010). Farias (2017), Santos Neto (2017),
Feres Junior (2006), Fernandes N. V. Santos R. d. (2017),
Freire e Cardinali (2012), (2016), Santos R. L. (2016),
Garcia e Koyama (2008), Ferreira (2016a), Santos R. R. (2017),
Garcia e Souza (2010), Garcia J. G. (2017), Scheffel (2017),
Gilbertil e Menezes- Filho (2005), Gomes M. R. (2016), Serejo (2017),
Gonçalves et al. (2012), Guedes (2017), Silva Junior (2016),
Graham et al. (2007), Lauria (2016), Silva V. P. (2017),
Guimarães A. S. (2000), Leal (2017), Soares (2017),
Irigaray, Saraiva e Carrieri Lepaus (2016), Souza P. F. (2016),
(2010), Lima T. J. (2016), Tamer (2016),
Loureiro (2003), Machado (2017), Tannuri (2017),
Lukasova, Barbosa e Macedo Marcheri (2017), Vieira (2016),
(2009), Meira (2016), Wother (2016).
Maggie (2006), Miyazaki (2017),
Meneghel e Bernardes (2009), Nagamine (2017).
Monteiro e Cecchetto (2009),
Nardi e Quartiero (2012),
Oliveira, Meneghel e Bernardes
(2009),
Pager (2006),
Pereira, Torres e Almeida (2003),
Rodrigues (2004),
Rodrigues M. B. (2007),
Sansone (1998),
Silva e Leão (2012),
Silva e Nardi (2011),
Silva S. G. (2010),
Taquette e Meirelles (2013),
Tavares (2009),
Teixeira (2009),
Thornicroft et al. (2009),
Travassos e Bahia (2011),
Varella (2009),
Vilela (2011),
Zucchi et al. (2010).
26 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Tabela 3 – Referências sobre Intolerância


REFERÊNCIAS CONTIDAS NAS BASES DE DADOS (n = 26)
Scielo Spell Teses e Dissertações CAPES
Döpcke (2001), -.- Araujo (2014), Jacome (2014),
Ferreira (2011), Arsenio (2017), Moraes L. M.
Fuks (2007), Bardini (2017), (2015),
Lui (2008), Bokany (2013), Oliveira R. d.
Márques (2011), Borges (2017), (2014),
Tostes (2009a), Carvalho E. R. Ribeiro (2017),
Tostes (2009b). (2014), Santos (2017),
Costa (2013), Silva A. T. (2017),
Ferreira D. G. Silva D. B. (2017),
(2017), Sottani (2016),
Franca (2013), Vaz (2017).
Gomes G. S.
(2017).

Ao analisar sistematicamente a utilização dos conceitos de preconceito,


discriminação e intolerância nos estudos publicados nas bases de dados, ve-
rifica-se que os termos frequentemente são utilizados de formas sinônimas,
correlatas ou mesmo idênticas.
Todavia, é importante ressaltar que existem diferenças entre eles que
vão além da mera utilização instrumental linguística. O que se propõe aqui
é delimitações constitutivas de cada conceito, com a finalidade de estabelecer
não só funcionalidades para cada termo, como também fundamentá-las no
contexto sócio-histórico em que se inserem na atualidade. Por conta desse
objetivo, foi essencial não só as análises de conteúdos realizados nos termos
utilizados nos trabalhos científicos, como também nas diversas formas como
foram usadas nas mais de 320 reportagens jornalísticas analisadas nos anos
de 2017, 2018 e início de 2019. Somados a isso, os conhecimentos dos auto-
res sobre violência no trabalho e nas organizações, organizações totalitárias
e fenômenos históricos de genocídios, guerras e conflitos ajudam a compre-
ender a forma como esses termos estão relacionados entre si, como se
constituem dentro de uma dinâmica sócio-histórica, como são incorporados,
utilizados e reproduzidos nas relações sociais e como se relacionam com ou-
tros fenômenos sociais, como a violência, a brutalidade, a banalização, a
justiça (ou a injustiça), o totalitarismo, a segregação, a violação de direitos
etc.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 27

No livro sobre as “Organizações Totalitárias”, Francis K. Meneghetti


apresenta a seguinte relação entre preconceito, discriminação e intolerância:
Começa simples, com um pensamento preconceituoso. Ganha força em atos de
discriminação, muitos deles também simples, como xingamentos, atos de des-
prezo, desqualificação pessoal ou num sutil fazer de conta “que não tem nada a
ver comigo” movido pela satisfação de ver a vítima se dar mal. Ganha notorie-
dade quando muitos dos discriminadores agem organizados politicamente e têm
o respaldo de uma massa de preconceituosos inertes que insistem em permane-
cer na ignorância ou na omissão confortável. Nesse momento, institui-se a
intolerância, em que milhares de pessoas criam uma rede colaborativa para con-
cretizar agressões, violências e injustiças contra aqueles que são considerados
indesejados, transviados, incapazes, desajustados sociais. A diferença entre a dis-
criminação e a intolerância social é que muitos desses perpetradores,
inicialmente apenas preconceituosos, estão em posições sociais e em instituições
que efetivamente podem criar ações organizadas e tomar decisões que afetam
concretamente e de forma negativa a vida das vítimas. A intolerância social é,
portanto, os preconceitos na ação de destruição dos outros, amparada pela ins-
titucionalização das diversas formas de violências e sedimentadas pela ação
direta, indireta ou pela negligência e omissão do estado e das organizações da
sociedade civil. 7

Ao refletir mais detalhadamente sobre os conceitos apresentados, é


possível chegar a certos entendimentos.
Em primeira análise, o preconceito é um juízo pré-concebido e tido
como certo. Está baseado em formulações imaginárias a partir de
concepções pré-estabelecidas de estereótipos compartilhados socialmente. O
preconceito geralmente manifesta-se no indivíduo, mas sua instituição é
social, ou seja, é socialmente elaborado, aprendido, compartilhado e
legitimado. Está associado a padrões e a formas que se polarizam. Na cabeça
do preconceituoso ou em uma sociedade preconceituosa, existem os padrões
adequados, corretos, certos e os não adequados, incorretos ou errados. No
fim, a relação é sempre binomial. O preconceito é manifesto como juízo de

7
Conforme Francis K. Meneghetti (Organizações totalitárias: esquadrões da morte, tribunais do crime e o Hospital
Colônia de Barbacena, 2019, p. 91).
28 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

valor, presente nos diálogos, na arte, na política, nas diversas formas de


interações sociais, ou seja, na cultura em geral.
Um segundo ponto a se destacar é que todos os indivíduos têm precon-
ceitos. Isso não significa que sempre os manifestem de forma a ferir, agredir,
prejudicar ou implicar atos de violências diretos e evidentes para outras pes-
soas. Os preconceitos estão baseados em preconcepções, isto é, são formas
sedimentadas de pensar que na sua forma mais radical tornam-se dogmas,
verdades imutáveis. Isso ocorre devido à incapacidade de refletir permanen-
temente sobre a realidade, de compreender as próprias limitações, de ter
empatia por outras pessoas ou de colocar-se no lugar do outro. Alguns pre-
conceitos permanecem silenciosamente nos indivíduos e em seus coletivos,
ou seja, não são manifestos de forma a prejudicar diretamente ou perpetrar
discriminações e violências claras contra os outros. Perduram no pensar,
nas racionalidades ou no imaginário social. São, inclusive, aceitos social-
mente. Exemplos comuns de preconceitos sutis são: os asiáticos são mais
aptos para as disciplinas de exatas (matemática, física, lógica etc.); as mu-
lheres são mais afetivas do que os homens; estudar torna as pessoas
melhores.
Essas padronizações são formas estereotipadas que passam a ser
aceitas pelos indivíduos e pela sociedade. Sua aceitação, sem reflexão,
questionamentos ou contextualizações, pode gerar situações específicas de
estigmatização. Por exemplo: caso alguém de descendência asiática tenha
dificuldades com disciplinas das áreas de exatas pode ser visto como alguém
inferior às demais pessoas do seu grupo étnico. Ou mulheres que sejam
menos carinhosas com seus filhos podem ser consideradas insensíveis e
incapazes de amar. Indivíduos com níveis escolares menores podem ser
consideradas pessoas piores do que outras que tenham escolaridade formal
maior. No âmbito social, a existência desses preconceitos pode implicar
discriminações e violências, geralmente sutis, para indivíduos
determinados, já que a existência de valores gerais e a tendência a
universalização deles constituem a formação do que é definido como
preconceito.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 29

Mas é possível pensar a realidade sem preconceitos? Se for levado em


consideração que se pensa a partir de padrões e que estes instituem precon-
cepções para poder dar sentido ao mundo em que se vive, não é possível se
desvencilhar dos preconceitos. Consegue-se apenas evitar que os preconcei-
tos se fossilizem de tal forma que seja inevitável manifestá-los na forma de
discriminações ou intolerâncias. Assim, indo na raiz do fenômeno do pre-
conceito, ele se constitui como um modus operandi necessário para pensar
o mundo ao mesmo tempo em que pode ser a origem dos problemas nas
relações com os outros e consigo mesmo. Para evitar que os preconceitos se
tornem a origem dos problemas sociais e que a violência se constitua como
a manifestação dominante das relações de poder 8, é preciso pensar dialeti-
camente 9, de forma a estabelecer um questionar a partir da relação entre o
pensar 10, a realidade concreta 11 e o imaginário social 12.
As formas sutis de manifestações dos preconceitos, quase
imperceptíveis, inicialmente não são muito diferentes dos preconceitos que
se materializam e se concretizam nas atitudes discriminatórias de crenças,
culturas, comportamentos, condições físicas, psíquicas e morais de
indivíduos, grupos e coletivos. A diferença reside na aceitação e na
legitimação social. Ou seja, os limites são sempre tênues e começam pelas
sutilezas na forma de pensar. Posteriormente, tornam-se valores
racionalizados socialmente, sem as devidas reflexões que levam a
questionamentos das possíveis consequências sociais a partir da adoção de
hábitos e costumes.
A incapacidade de refletir, no âmbito do indivíduo, ocorre por ignorân-
cia e/ou por incapacidade de compreender a realidade diversa da sua.
Inicialmente, o preconceituoso passa a sentir-se incomodado com aquilo que
é diferente ou fora dos padrões e modelos estabelecidos por ele. Suas ações

8
Ver José Henrique de Faria (Economia política do poder: fundamentos, 2004, p. 141).
9
Ver Theodor W. Adorno (Dialética negativa, 2009).
10
Ver Hannah Arendt (A vida do espírito, 2008).
11
Ver Karl Kosik (Dialética do concreto, 1976).
12
Ver Cornelius Castoriades (A instituição imaginária da realidade, 1982).
30 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

voltam-se para defender ou tentar estabelecer padrões que consideram cer-


tos. Com o tempo, os preconceitos são manifestos em formas de
discriminações. As discriminações envolvem sempre prejuízos para alguém.
Os prejuízos estão associados a danos físicos, psíquicos e materiais e ocor-
rem pela relação assimétrica de poder que impede a vítima de se defender
dos atos de discriminação.
Assim, a discriminação é o ato, sutil ou deliberado, individual ou cole-
tivo, de agir de forma agressiva ou violenta contra pessoas, grupos e
coletivos. A discriminação está estruturada afetivamente por sentimentos
como ódio, fúria, raiva, ira ou emoções como medo, inveja, ciúmes, desprezo
etc. Também pode estar associada à ignorância – no sentido de desconheci-
mento ou incapacidade de colocar-se no lugar do outro – ou tentativas de
autopreservação. Na discriminação, identificam-se de forma distinta as víti-
mas e os perpetradores e sua existência está associada a vínculos objetivos e
intersubjetivos entre os dois.
Entre os atos de discriminações sutis mais comuns, destacam-se: igno-
rar, distinguir ou isolar pessoas, grupos e coletivos por conta das suas
diferenças ou características particulares. Essas formas de discriminação
não implicam agressões e violências diretas. Geralmente são discretas e acei-
tas socialmente com a prerrogativa de que existem afinidades entre pessoas
e coletivos e que o exercício da liberdade se consolida em fazer escolhas por
valores comuns e identificações 13. A reflexão a ser feita, no entanto, é o
quanto dessas escolhas e afinidades estão amparadas em aproximações por
simpatia e não pela falta de empatia pelo outro baseada em preconceitos
estruturados em preconcepções rígidas, estereótipos e estigmas. É sempre
importante ressaltar que as razões que nos qualificam, justificam e nos ex-
plicam estão fundamentadas em processos inconscientes, nos quais Eros e
Thanatos 14 coexistem como forças antagônicas, ou seja, somos mobilizados

13
Ver Didier Anzieu (O grupo e o inconsciente: o imaginário grupal, 1993).
14
Cf. Herbert Marcuse (Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud, 1975).
MARCUSE, Herbert. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. 6ª ed. Rio de Janeiro: Zahar
Editores, 1975, p. 193-204.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 31

pela luta incessante entre ‘o melhor’ e ‘o pior’ de nós mesmos. Situações


mais diretas e visíveis, com consequências mais diretas e danosas para quem
a sofre, estão relacionadas a agressões físicas e verbais 15. Nelas, penaliza-se
o corpo das vítimas, assim como provoca tensões e estresse psíquicos.
O efeito direto e inevitável do preconceito, da discriminação e da into-
lerância é a violência. Ela é a amálgama das relações sociais que definem as
diferenças entre o preconceito, a discriminação e a intolerância. Como uma
manifestação do poder assimétrica, a violência 16 só ocorre no contexto hu-
mano. Assim, a violência é
[...] a prática de ações de não-questionamento da realidade com o intuito de re-
produzi-la, voltadas para preservar interesses específicos através de
instrumentos coercitivos explícitos ou sutis de qualquer natureza, em contrapo-
sição aos mais legítimos interesses e direitos coletivos, desqualificando a práxis
democrática, crítica e reflexiva e instituindo, com a finalidade de perpetuar, fatos
e situações intensas de força e que são desproporcionais à utilidade considerada
política, econômica, social e psicologicamente tolerável de aceitação da domina-
ção como fruto das relações de poder 17.

Entre as manifestações de violências que podem ocorrer em situações


de preconceito, discriminação e intolerância, destacam-se, entre outros:
• Os socos, pontapés, tapas, empurrões e todas as formas de agressões físicas que
causem um dano ao corpo da vítima;
• Os xingamentos e agressões verbais;
• As desqualificações pessoais;
• As calúnias e difamações;
• As piadas;

15
É importante distinguir a agressão da violência. As agressões são atos que implicam desconforto, dor, mal-estar no
agredido. Podem ser atos voluntários ou não. Estão associadas às manifestações de medo e de autodefesa. As agressões
físicas são respostas a situações contingenciais do ambiente. Por isso, são típicas dos animais e estão relacionadas à pre-
servação da vida. As agressões verbais são aquelas que são reações impensadas que expressam um xingamento. Quando
o conteúdo do xingamento é pensado, ou seja, refere-se ao uso de palavra ou conceito intencionalmente elaborado e
planejado de forma a expressar um ataque articulado que esteja amparado em preconceitos do agressor, aí tem-se uma
situação de violência. As agressões se diferem da violência, que é uma manifestação do poder. A violência está inserida
em relações sociais complexas que vão muito além dos fatores desencadeantes das agressões. Uma das formas de expres-
são ativa da violência é a agressão física. Mas não é a única. A violência pode ser expressa por meio da omissão, ou ainda,
por meio da indiferença. Para saber mais, consultar o livro de Eric Fromm (Anatomia da destrutividade humana, 1979).
16
Ver Hannah Arendt (Sobre a violência, 1994).
17
Conforme José Henrique de Faria e Francis Kanashiro Meneghetti (A instituição da violência nas relações de trabalho,
2007, p. 283).
32 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

• Humilhações públicas;
• O isolamento de grupo e/ou coletivos.

Apesar de as manifestações de violências serem manifestas nas situa-


ções de preconceito, discriminação e intolerância, é preciso levar em
consideração as consequências diretas e indiretas para as vítimas. Geral-
mente, nas situações de preconceitos, as violências perpetradas são
direcionadas para um sujeito estereotipado, ou seja, para uma representa-
ção idealizada do perpetrador a partir de preconcepções. No ato de violência,
o perpetrador expõe para outra pessoa ou para coletivos suas preconcep-
ções, estabelecendo estereótipos que provocam consequências negativas
para os indivíduos e grupos estigmatizados. Os preconceitos são mais comu-
mente manifestos em formas de piadas, isolamentos de grupo e/ou coletivos
e em calúnias e difamações, ou seja, estão no escopo prioritariamente da
violência moral, imaginária ou social. Mas são nessas formas de violências
que se evidenciam os preconceitos predominantes na sociedade. A partir de-
las que se estabelecem não o “politicamente incorreto”, mas o socialmente
tolerável. Os preconceitos têm adesão da sociedade de uma forma geral, so-
bretudo porque os estigmas são produzidos por processos de
estabelecimento de estereótipos aceitos consciente e inconscientemente, in-
clusive pelas próprias vítimas dos preconceitos 18.
Nas situações de discriminação, o ato de violência é direcionado dire-
tamente para alguém ou algum coletivo. Ou seja, a vítima existe na sua
materialidade individual ou coletiva, não como ente ou sujeito abstrato e
imaginário que se formou a partir das preconcepções que se transformaram
em estereótipos. Nos atos de discriminação, a violência não fica somente no
âmbito simbólico. Ela ganha materialidade nas situações de agressões físi-
cas, verbais e morais sofridas pelas vítimas. Mesmo as violências que se
estruturam no contexto do simbólico e do imaginário são vivenciadas como

18
Aqui vale uma reflexão essencial: a aceitação da violência ocorre também em função não só da admissão pacífica das
vítimas, mas também da participação direta e indireta delas. Esse fenômeno foi verificado por Hannah Arendt (Eichmann
em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal, 1999), quando a pensadora, sendo judia, denuncia que houve parti-
cipação consciente e ativa de lideranças judaicas que facilitavam a deportação dos seus próprios pares os campos de
concentração.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 33

agressões, punições físicas, psíquicas e morais pelas vítimas. Ou seja, as pi-


adas, as calúnias e difamações, as humilhações, as desqualificações pessoais,
os xingamentos ou isolamentos provocam dor e sofrimento nas vítimas,
sentidas e somatizadas nos seus corpos, de forma a provocar a perda da sa-
úde física e mental.
A rigor, não existe indivíduo intolerante sem legitimidade social. O que
existe é uma sociedade que assegura a existência e corrobora a prática de
indivíduos agressivos, violentos e indiferentes à existência dos outros. A in-
tolerância se constitui, primeiro, na existência de perpetradores e algozes
que se legitimam e se constituem nas práticas de violências como forma ma-
joritária de socialização. Há no processo civilizatório de uma sociedade
intolerante o predomínio de vínculos destrutivos entre as pessoas, ou seja,
os atos de violências são eles mesmos fornecedoras de identidades individu-
ais e coletivas e se constituem como o elemento central no estabelecimento
de vínculos sociais. Nas sociedades intolerantes, o universo simbólico é co-
lonizado por estereótipos e estigmas e fomentado, reproduzido e
consolidado nas organizações e instituições sociais. A escola, a família, as
organizações produtivas e todos os contextos coletivos são os locais priori-
tários, mas não únicos, da constituição e firmamento dos preconceitos.
Autorizados, direta ou indiretamente, os indivíduos se sentem arrogados a
manifestar seus preconceitos. Aceitos socialmente, eles passam a estereoti-
par e estigmatizar pessoas e coletivos e, sentindo-se autorizados, agem de
forma agressiva e violenta, ou seja, surgem os atos discriminatórios. Sob
diversas formas de discriminações, a violência torna-se a forma predomi-
nante de manifestação de poder nas relações sociais. Quando a violência se
transforma no principal elemento das relações sociais, ou seja, o princípio
civilizador de uma sociedade, tem-se a consolidação da intolerância social.
Por isso, a intolerância é incapacidade, falta de disposição ou de condi-
ção mental de sujeitos (indivíduos e coletivos) reconhecerem ou respeitarem
as diferenças de outras pessoas nas suas diversas formas de ser, sentir, pen-
sar e agir. A intolerância é acompanhada de atitudes hostis (inclusive
omissões e negligências), atos de agressividades e práticas de violências em
34 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

relação aos outros, pessoas ou coletivos específicos. Difere da discriminação


por ser manifesta na forma institucionalizada de violência. As formas de in-
tolerâncias demonstram claramente relações assimétricas de poder entre os
agressores e suas vítimas, em que os primeiros se impõem sobre os segun-
dos, eliminando a possibilidade de resistências e defesas contra as violências
praticadas. A existência da intolerância se perpetua e ganha notoriedade
quando há omissões, negligências ou ações diretas de estados, grupos insti-
tucionalizados, organizações sociais e práticas educacionais que impeçam os
direitos presentes no artigo 7 da Declaração Universal dos Direitos Huma-
nos, em que "todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer
distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra
qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer
incitamento a tal discriminação."
A intolerância é uma forma organizadora da vida social e sua essência
reside na aceitação das violências praticadas e legitimadas socialmente. Os
elementos que caracterizam a intolerância são:
I- Existência de pelo menos um agressor, pessoal, coletivo ou institucional;
II- Presença de atos de agressões e violências perpetrados contra indivíduos, gru-
pos ou coletivos, ou seja, a existência de práticas de discriminações e não
somente de manifestações de preconceitos;
III- A institucionalização da omissão, falta de apoio, negligência, indiferença, por
parte de indivíduos, instituições, organizações e Estado, no acolhimento das
vítimas das agressões e violências.

Por fim, a intolerância está associada à violência institucionalizada.


Nesse processo, existe uma rede de participantes, ativos e passivos, que re-
produzem as violências dentro de uma estrutura de poder estabelecida na
sociedade de forma a possibilitar um processo de destruição não só das pes-
soas, mas também da política.
O desenvolvimento deste trabalho tem por objetivo esquadrinhar mi-
nimamente as características históricas, os relatos de práticas de
intolerância social produzidos pela mídia informativa e a análise de mani-
festações coletadas de 1009 respondentes da pesquisa (quantitativa e
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 35

qualitativa) realizada pelos autores para cada tipo de intolerância social pra-
ticadas no mundo e, especialmente, no Brasil.
A pesquisa qualitativa realizada aponta para a existência de uma prá-
tica discriminatória e violenta fazendo vítimas cerca de 29%, em média, dos
respondentes da pesquisa. A tabela 4 retrata esse quadro para todos os tipos
de intolerância pesquisados, cujo pódio da violência, em percentual de víti-
mas, pode ser destacado como: 50% dos respondentes declararam ser
vítimas por atos de intolerância político-ideológicos; 37,5% dos responden-
tes se disseram vítimas por atos de intolerância associada à sua condição
econômica ou classe social; e 36% dos respondentes declararam ser vítimas
por atos de intolerância religiosa. Em relação ao grupo de agressões sofridas
pelas vítimas, conforme a tabela 5, em média, 27% dos respondentes decla-
raram ser vítimas de piadas no ambiente em que se encontravam e 24%
declararam ser vítimas de desqualificação pessoal devido às ideias e forma
de pensar. Em relação ao grupo de agressores, destacam-se que eles são, em
geral, pessoas conhecidas. A tabela 6 mostra que, em média, 21% dos res-
pondentes declararam ter sido vítimas de colegas de trabalho; 19% vítimas
de colegas de escola e/ou faculdade; e 18% de amigos e/ou colegas em geral.
Em relação ao apoio recebido, 37% das vítimas, conforme a tabela 7, decla-
raram não ter recebido qualquer tipo de apoio e, entre aquelas vítimas que
receberam algum tipo de apoio, cerca de 22% receberam apoio de amigos;
18% das vítimas disseram ter recebido apoio de familiares; 12% declararam
ter recebido apoio do cônjuge; e, por fim, apenas 0,5% declararam ter rece-
bido apoio de assistência social e psicológica pública.
Tabela 4 – Quantidade de respondentes vítimas e não-vítimas da amostra por intolerância (%)
Vítima
Tipos de Intolerância
Sim Não
Intolerância associada à condição socioeconômica ou de classe 37,5% 62,5%
Intolerância de gênero 32,0% 68,0%
Intolerância geracional e de idade 32,0% 68,0%
Intolerância associada à condição física ou mental 24,0% 76,0%
Intolerância étnica 13,0% 87,0%
Intolerância associada à cor de pele 15,0% 85,0%
Intolerância geográfica-cultural 24,0% 76,0%
Intolerância religiosa 36,0% 64,0%
Intolerância político-ideológica 50,0% 50,0%
Intolerância associada à identidade de grupo 24,0% 76,0%
36 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Tabela 5 – Quantidade de respondentes vítimas por grupo de agressões e por intolerância (%)
Grupo de Desquali- Desqualifica-
Humilha-
agressões Socos, Xinga- Vítima de ficação ção por
ções
pontapés, mentos e piadas no pessoal possuir de- Calúnia Isola-
públicas
tapas, agres- ambiente devido às terminadas ou difa- mento
de natu-
empur- sões onde es- ideias e característi- mação de grupo
reza
Tipo de intole- rões etc. verbais tava forma de cas físicas ou
moral
rância pensar aparentes
Intolerância
associada à
condição soci- 2% 12% 55% 39% 23% 17% 11% 48%
oeconômica
ou de classe
Intolerância
6% 30% 65% 65% 29% 38% 25% 23%
de gênero
Intolerância
geracional e 1% 13% 55% 65% 15% 23% 9% 25%
de idade
Intolerância
associada à
5% 29% 68% 22% 32% 54% 15% 34%
condição física
ou mental
Intolerância
3% 19% 59% 35% 23% 36% 15% 26%
étnica
Intolerância
associada à 1% 25% 54% 28% 24% 55% 12% 35%
cor de pele
Intolerância
geográfica- 0% 10% 67% 31% 16% 17% 10% 21%
cultural
Intolerância
1% 1% 62% 62% 14% 11% 12% 23%
religiosa
Intolerância
político-ideo- 1% 32% 57% 77% 22% 6% 20% 25%
lógica
Intolerância
associada à
3% 22% 60% 61% 21% 24% 24% 37%
identidade de
grupo
Total de víti-
mas por
1% 9% 27% 24% 10% 11% 7% 13%
grupo de
agressões
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 37

Tabela 6 – Quantidade de respondentes vítimas por grupo de agressores e intolerância (%)


Grupo de
agressores Amigos e/ou Colegas de Es- Parentes (fa-
Familiares Di- Colegas de
colegas em ge- cola e/ou de mília Desconhecido
retos Trabalho
Tipo de Intole- ral Faculdade estendida)
rância
Intolerância
associada à
condição soci- 8% 31% 26% 45% 22% 34%
oeconômica
ou de classe
Intolerância de
29% 27% 57% 33% 32% 45%
gênero
Intolerância
geracional e de 23% 19% 51% 18% 20% 22%
idade
Intolerância
associada à
31% 49% 38% 53% 37% 32%
condição física
ou mental
Intolerância
3% 24% 33% 42% 12% 45%
étnica
Intolerância
associada à 8% 24% 24% 37% 17% 53%
cor de pele
Intolerância
geográfica-cul- 0% 34% 37% 32% 10% 36%
tural
Intolerância
28% 40% 35% 33% 32% 22%
religiosa
Intolerância
político-ideo- 22% 50% 51% 37% 40% 28%
lógica
Intolerância
associada à
22% 36% 40% 38% 30% 34%
identidade de
grupo
Total de víti-
mas por
10% 18% 21% 19% 14% 17%
grupo de
agressores
38 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Tabela 7 – Quantidade de respondentes vítimas por grupo de apoio recebido e intolerância (%)
Assistên-
Grupo de
cia social e
apoio rece- Desconhe- Assistên-
Cônjuge, psicoló-
bido cido (no Colegas cia
Não recebi compa- Familia- gica
Amigos momento de traba- psicoló-
ajuda nheira(o), res pública –
da agres- lho gica
parceira(o) organiza-
Tipo de Into- são) particular
ção
lerância
pública
Intolerância
associada à
condição soci- 57% 12% 28% 21% 1% 3% 4% 0,5%
oeconômica
ou de classe
Intolerância
46% 19% 23% 35% 3% 11% 12% 0,9%
de gênero
Intolerância
geracional e 49% 16% 25% 26% 1% 11% 6% 0,6%
de idade
Intolerância
associada à
condição fí- 52% 12% 29% 20% 0% 3% 13% 1,7%
sica ou
mental
Intolerância
59% 11% 23% 27% 3% 7% 3% 0,8%
étnica
Intolerância
associada à 54% 14% 30% 24% 2% 4% 3% 0,6%
cor de pele
Intolerância
geográfica- 63% 12% 21% 25% 2% 5% 4% 0,4%
cultural
Intolerância
48% 16% 25% 28% 1% 6% 4% 0,6%
religiosa
Intolerância
político-ideo- 42% 22% 22% 38% 4% 14% 4% 0,0%
lógica
Intolerância
associada à
45% 16% 17% 42% 1% 8% 6% 0,8%
identidade de
grupo
Percentual
Total de
Agressões 37% 12% 18% 22% 1% 6% 4% 0,5%
por Agresso-
res

À guisa de esclarecimento, neste estudo foi aplicado o teste estatístico


de Análise de Correspondência (ANACOR) para indicar a proximidade e
força da relação entre as variáveis do grupo de agressores e as variáveis de
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 39

grupo de agressões, associadas às variáveis que identificam o tipo de into-


lerância pertinente 19. Deste modo, essas variáveis – tipo de intolerância,
grupo de agressores e grupo de agressões – foram combinadas em uma
estrutura de identificação unívoca para permitir a realização do respectivo
teste estatístico. Assim, toma-se a identificação de cada tipo de intolerân-
cia, conforme descrito na tabela 8, e acresce-se a ela a identificação dos
grupos de agressores, conforme descrito na Tabela 9, ou dos grupos de
agressões, conforme descrito na Tabela 10. Além disso, adiciona-se, ao fi-
nal dessa mesma estrutura de identificação, um numeral para identificar
a resposta do respondente da pesquisa, na respectiva intolerância, para o
grupo de agressores ou para o grupo de agressões, qual seja, “0” para in-
dicar uma “resposta negativa” ou “1” para indicar uma “resposta positiva”.
E, à guisa de exemplificação, a variável identificada por “X8.B2_0” signi-
fica que se trata de uma variável que está associada ao grupo de
intolerância geográfica-cultural (X8), referindo-a uma agressão verbal
(B2), refletindo uma resposta negativa do respondente para a respectiva
intolerância (0). Em outro exemplo, “X8.A2_1” trata-se de uma variável
associada ao grupo de intolerância geográfica-cultural (X8), referindo-se
ao agressor “amigos” (A2), refletindo uma resposta positiva do respon-
dente (1), e assim sucessivamente. Esse teste estatístico será aplicado no
estudo de cada tipo de intolerância, sendo descrito nos próximos capítulos.

19
O presente estudo utilizou a técnica da Análise de Correspondência (ANACOR) para indicar a proximidade e força
de relação entre duas variáveis envolvidas nos tipos de intolerância e consequentes agressões (Pallant, 2013). A
ANACOR foi aplicada a todas as variáveis de comportamento relacionadas às agressões provenientes das intolerân-
cias presentes neste estudo. Esta técnica permite visualizar as associações entre diferentes variáveis em um mesmo
conjunto de respondentes, por meio de mapas perceptuais (Whitlark & Smith, 2001). A utilização de mapas percep-
tuais para estabelecer relações entre variáveis de comportamento não é nova (Hauser & Koppelman, 1979). No
entanto, o seu desenvolvimento em uma pesquisa relacionada ao comportamento de agressores e tipos de agressões
relacionadas à intolerância é inovador, e permitiu uma importante redução de dimensões que possibilitaram a per-
cepção de relações fatores comportamentais até então não explorados (Hair, Black, Babin, Anderson, & Tatham,
2009). A opção pela utilização desta ferramenta para análise de cada um dos tipos de intolerância aqui estudados é
importante como uma forma de aumentar a possibilidade de compreensão dos leitores quanto às relações estabele-
cidas na Análise de Correspondência, tendo em vista que a compreensão estatística nem sempre é evidente para
todas as leitoras e todos os leitores.
40 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Tabela 8 – Identificação das variáveis utilizadas por tipo de intolerância


Variável Intolerância Legenda
Intolerância religiosa X1
Intolerância geracional X2
Intolerância gênero X3
Intolerância cor de pele X4
Intolerância identidade étnica X5
Intolerância condição sócio econômica X6
Intolerância político ideológica X7
Intolerância geográfica-cultural X8
Intolerância condição física ou mental X9
Intolerância identidade de grupo X10

Tabela 9 – Identificação dos grupos de agressores


Variável Agressor Legenda
Agressor Família Primeiro Grau A1
Agressor Amigos A2
Agressor Colegas de Trabalho A3
Agressor Faculdade e/ou Escola A4
Agressor Família Segundo Grau A5
Agressor desconhecido A6
Agressor Outros A7

Tabela 10 – Identificação dos grupos de agressões


Variável Agressão Legenda
Agressão Física B1
Agressão Verbal B2
Agressão Piadas B3
Agressão Desqualificação de Ideias B4
Agressão Humilhação Moral B5
Agressão Desqualificação de Características Físicas B6
Agressão Calúnia e Difamação B7
Agressão Isolamento B8
Agressão Outro B9

Cada um dos capítulos (de 2 a 11) abordará um tipo de intolerância


social, compreendendo minimamente a contextualização de sua natureza
e a sua prática corroborada por evidências reportadas na mídia informa-
tiva e por dados da pesquisa quantitativa e qualitativa realizada pelos
autores. Por fim, o capítulo 12 apresentará como conclusão as relações en-
tre as diversas formas de manifestações de intolerâncias.
2

Intolerância associada à condição econômica ou de classe

Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Rafaela Mota Ardigó
Rodrigo Alves Silva

Não é necessário colocar um profundo olhar sobre a sociedade brasi-


leira para nela encontrar muitas e grandes fissuras e máculas sociais que
a tornaram conhecida mundialmente como uma das sociedades mais de-
siguais, ignorantes e violentas do mundo. Alguns dados dão guarida a essa
realidade. O Brasil está entre os cinco países mais desiguais do mundo pelo
fato de que o 1% mais rico do Brasil concentra entre 22% e 23% do total
da renda do país, nível bem acima da média internacional, que está entre
5% e 15% 1. O instituto britânico Ipsis Mori aponta o Brasil como sendo o
terceiro país mais ignorante do mundo 2. E, em termos de violência, o Bra-
sil tem uma taxa de homicídio 30 vezes maior do que a da Europa 3; das
50 cidades mais violentas do mundo, 17 estão no Brasil 4; e o expressivo
volume de 142.665 atendimentos de denúncias de violações de direitos hu-
manos, em 2017, ou seja, mais de 390 atendimentos de denúncias de
violação por dia 5.

1
Conforme ONU Brasil (Brasil está entre os cinco países mais desiguais, diz estudo de centro da ONU, 2018).
2
Conforme Felipe Germano (Brasil é o terceiro país mais ignorante do mundo, 2018).
3
Conforme Daniel Salgado (Atlas da Violência 2018: Brasil tem taxa de homicídio 30 vezes maior do que Europa,
2018).
4
Conforme BBC News Brasil (Estas são as 50 cidades mais violentas do mundo (e 17 estão no Brasil), 2018).
5
Conforme MMFDH (Disque Direitos Humanos: Relatório 2017, 2018), baseado nos dados do serviço Disque 100.
42 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Os investimentos e os esforços que o país aplicou e continua apli-


cando em educação, no âmbito público e privado, não têm sido suficientes
para erradicar a ignorância e nem para alcançar o ideal de civilidade das
pessoas ou dos grupos que, motivados por ódio, medo, raiva ou mesmo
aversão, não toleram o convívio pacífico com aqueles que lhes sejam ou
lhes pareçam ser diferentes.
A diversidade cultural brasileira, tão bem reconhecida e festejada nos
mais diversos cantos do mundo, está sob ataque aqui mesmo em plena
terra brasilis, mediante incontáveis manifestações preconceituosas e dis-
criminatórias que diariamente violam direitos de uma parcela expressiva
dos cidadãos brasileiros, pois 30% da população diz ter sofrido precon-
ceito por causa da classe social 6.
O preconceito associado à condição econômica ou de classe social é
somente mais um dentre tantos que estão presentes, reprimidos ou mani-
festos, na população brasileira. Na sua face violenta, ele se manifesta como
discriminação e intolerância. Para além da ausência da polidez, urbani-
dade, delicadeza e cortesia de pessoas educadas e não-educadas, as pessoas
estão tresmalhadas na imensa desigualdade social que se estabeleceu no
mundo desde as civilizações mais antigas até as mais recentes, graças ao
ordenamento socioeconômico e político do Estado e ao sistema produção
material e espiritual nele subjacente, em cada época e lugar. No Brasil, esse
fenômeno vigora desde os primeiros dias do início da formação de seu
povo. A organização social, política e econômica de um Estado responde
diretamente pela existência, em maior ou menor grau, da desigualdade
social que se converte em combustível propulsionador de manifestações
de discriminação e intolerância por parte de bárbaros e incautos dos tem-
pos modernos.
Ao se trazer à luz essas questões históricas da desigualdade social,
apontando algumas evidências sobre a realidade da violência associada à

6
Conforme G1 (Datafolha: 30% dos brasileiros dizem ter sofrido preconceito por causa da classe social, 2019).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 43

condição econômica ou de classe social, pretende-se, como propósito cen-


tral deste trabalho, contribuir para o avançamento da educação e da
civilidade da sociedade brasileira.
Como dito nessa introdução, o preconceito associado à condição eco-
nômica ou à classe social e sua manifestação remontam às civilizações da
Idade Antiga em razão da forma como elas organizaram e estratificaram
social, política e economicamente os seus povos. Antecipa-se aqui que a
organização e a estratificação dos povos perpassam, em todas as civiliza-
ções antigas, medievais e modernas, pela definição de uma estrutura de
poder na qual uns, poucos, são detentores de poder, enquanto outros, mui-
tos, submetidos a esse poder. Em geral, as organizações políticas
dominantes dessas civilizações engendraram, com certo grau de sofistica-
ção, o regime político – monarquia, oligarquia ou democracia –, a forma
de governo – realeza, aristocracia ou regime constitucional – e um con-
junto de mecanismos destinados ao exercício e à manutenção da
dominação de uns e da submissão de outros. Não é incomum que, entre
uns e outros, possam também ser encontrados aqueles ‘ungidos’ pela
classe social dominante com funções e papéis destinados a lidimar o poder
desta sobre classes sociais subalternas, formando uma classe intermediá-
ria na organização sociopolítica e econômica da sociedade.
Não se sabe com precisão, mas alguns fatos históricos dão conta que
foi no Egito Antigo que emergiu a noção de Dinastia, aproximadamente
3100 a. C., sob o comando absoluto de um Faraó para unificar o povo em
torno de uma ideia central e aglutinadora formando ao que corresponde-
ria, nos dias da Idade Moderna, ao Estado. Ou seja, uma organização tal
que leva ao cabo uma estrutura de controle social pela estratificação da
população, muito das vezes hierarquizada, para tornar longevo o poder
político de uns sobre outros. Sim, a Civilização Egípcia foi uma dessas ci-
vilizações que se organizou segundo uma hierarquia de funções e poderes
7
, na qual as funções superiores subordinam as funções inferiores, nesta

7
Formados às margens do rio Nilo, os clãs egípcios desenvolveram meios agropastoris, plantavam e criavam animais
para sobreviver. Também ali desenvolveram a religião, a arquitetura, um sistema de governo centralizado, a arte, a
44 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

ordem: o Faraó, aquele a quem tudo pertencia desde os campos, minas,


rios, até os homens, mulheres e os animais; os sacerdotes, a quem compe-
tia controlar as riquezas dos templos e, por isso, gozavam de prestígio e
poder; os chefes militares, voltados para garantir a segurança do território
egípcio; os escribas, responsáveis pela escrita e registros de acontecimen-
tos e da vida do Faraó; depois, o povo egípcio, que representava a maior
parte da população, composto por comerciantes, artesãos, lavradores e
pastores que ganhavam o suficiente para a manutenção da vida; e, por
último na hierarquia, os escravos capturados em guerras, que trabalha-
vam muito e não recebiam salários. Ao fazê-lo desse modo, as civilizações
já produziam oficialmente um ato discriminatório em favor dos donos do
poder e em desfavor das classes subalternas e oprimidas pelo poder domi-
nante.
Existiram outras civilizações tão importantes quanto a Civilização
Egípcia que, ainda que com algumas diferenças, levaram adiante essa ideia
de segregacionismo funcional e estratificado do povo, dentre as quais, ape-
nas para citar algumas, a Mesopotâmica, Hebraica, Fenícia, Persa, Grega
8
. Esta, em particular, será aqui escortinhada por ser um exemplar extra-
ordinário da influência que exerceu sobre o desenvolvimento político de
muitas nações ocidentais e orientais, principalmente, no período Helenís-
tico 9.
A Civilização Grega, com domínio sobre uma parte da região medi-
terrânea, começou sua ascensão no Período Arcaico (século VIII ao século

ciência, e a escrita na forma de hieróglifos, tornando possível, a partir deles, das artes e das religiões se autodocu-
mentarem, deixando registrado inúmeros mistérios, muitos deles ainda não revelados até os dias atuais.
8
A Civilização Mesopotâmica era dividida em unidades políticas, sendo o comando formado por nobres, sacerdotes
e militares para explorar a classe menos privilegiada formada pelos camponeses, artesões e escravos. A Civilização
Hebraica, de estrutura patriarcal, era formada em dois níveis: ao patriarca competia exercer as funções de chefe
militar, juiz e sacerdote e ser a autoridade moral e política do seu clã. A classe dominante na Civilização Fenícia era
composta pelos comerciantes, proprietários de oficinas de artesanato, negociantes de escravos e pelos funcionários
e sacerdotes como prepostos do poder real, depois, vinha a classe dominada composta de trabalhadores livres, sendo
que a classe mais oprimida compreendia os escravos domésticos e os marinheiros pobres. A Civilização Persa, sob
comando de um imperador, era dividida em províncias governadas por prepostos de confiança; os povos dominados
eram obrigados a pagar tributos e servir ao exército persa.
9
A expansão do império macedônico sobre a Pérsia e a Grécia Antiga, no período Helenístico, acabou por disseminar
a cultura grega, levando-a a fundir-se com as culturas orientais.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 45

VI a.C.) e alcançou o seu apogeu no Período Clássico (do século V ao século


IV a.C.), deixando como um de seus principais legados a concepção demo-
crática de governo que deu origem à constituição da Polis (cidade-Estado)
com suas instituições políticas fundeadas na monarquia, no início, e, de-
pois, em oligarquias aristocráticas, guarnecidas pelo grande
desenvolvimento do comércio marítimo e por sua expansão para o interior
da península e sobre a Ásia Menor, no Mar Negro ou mesmo na Península
Itálica.
A organização social das Poleis, especialmente a de Atenas, consistiu
em distinguir e classificar e, por assim dizer, segregar politicamente as
pessoas originárias desses lugares segundo as diferenças biológicas, étni-
cas e materiais de subsistência que lhes eram próprias e naturais no
sentido aristotélico, permitindo a uns poucos ‘bem-nascidos’ um segundo
nascimento 10, enquanto outros, muitos, eram submetidos à privação de
direitos políticos e à condição de escravo 11. A mulher, alijada de participar
nos destinos da Polis, foi legitimada na condição de escrava pela condição
de ser procriadora e por sua dedicação à manutenção da prole. O homem
que necessitasse produzir o próprio sustento, o sustento de sua família e
ou de seu senhor era também alijado dos negócios públicos da Polis e co-
locados na condição de escravo, sendo distinguido daquele que, livre desse
trabalho, por ser proprietário de terras e nascido na polis, era elevado à
condição de cidadão (ou Eupátrida) com plenos direitos sociais e políticos
para os negócios públicos da Polis. Em algumas Poleis, notadamente em
Atenas, a presença de estrangeiros não era incomum. Entre gregos livres
e gregos escravos, situavam-se os metecos que, por serem estrangeiros,
eram também privados de direitos políticos e de propriedade de terras.
Contudo, a presença dos metecos propulsionava o desenvolvimento eco-
nômico de Atenas, já que boa parte de sua economia era realizada por eles,

10
Conforme Hannah Arendt (A condição humana, 2007), se uns, por razões biológicas, étnicas ou materiais, eram
circunscritos aos negócios privados – procriação e manutenção da prole, provimento do sustento próprio e de outrem
–, outros, no entanto, pelas mesmas razões (i.e., homens, nascidos na polis e proprietários de terras), experienciaram
um segundo nascimento e se tornaram cidadãos orientados para os negócios públicos.
11
O escravo era propriedade de seu senhor. A maior parte da população ateniense era composta de escravos.
46 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

no exercício do direito que lhes era concedido para trabalhar como comer-
ciantes, artesãos, artistas e professores.
Atenas tornou-se o berço da democracia, mas não sem lutas. O cla-
mor popular exigiu o fim dos privilégios da elite oligárquica-aristocrata e
a concessão de direitos aos comerciantes, proprietários de terras, artesãos,
camponeses, a fim de participarem da vida pública e da riqueza produzida
na Polis. Duas grandes mudanças realizadas serviram para romper com o
sistema de poder político opressor vigente à época fundamentado pela di-
visão de famílias. Para conter a revolta popular liderada por Clístenes, o
Arconte Sólon, mandatário oligarca-aristocrático ateniense, tomou medi-
das para reorganizar as estruturas social, econômica e política da cidade-
Estado de Atenas 12. Uma das medidas tomadas pelo Arconte foi a classifi-
cação censitária da população ateniense em quatro classes sociais segundo
o critério de renda: Pentacosiomedimnos (donos de terras, os mais ricos),
Hippeis (ou Hippeus, aqueles que tinham recursos suficientes para manter
um cavalo de guerra a serviço do Estado), Zeugitas (camponeses de classe
média com recursos poderiam para tornar-se um cidadão-soldado de in-
fantaria) e Tetes (os mais pobres, englobando os atenienses camponeses
pobres e artesãos) e, destas, somente as duas primeiras podiam ascender
às magistraturas 13. Além dessa medida, outras complementaram a mu-
dança: a proibição da escravatura por endividamento e a retirada da
obrigatoriedade de pagamento da sexta parte da colheita dos camponeses
aos donos da terra. Em razão das fortes reações da classe proprietária para

12
Conforme Antonio Carlos Wolkmer e Débora Ferrazzo (Resignificação do conceito de democracia a partir de
direitos plurais e comunitários latino-americanos, 2014), em referência à justificativa de Gustave Glotz para a revolta
dessas classes sociais: “Camponeses condenados por suas dívidas à escravidão, comerciantes indignados a quem a
própria riqueza não permitiu esperar a obtenção de direitos políticos, todos se concentraram para exigir a publicação
das leis que só eram conhecidas dos Eupátridas” (p. 203). Para todos os efeitos, destaca-se que no texto de Wolkmer
e Ferrazzo, a obra de Aristóteles (A Constituição dos Atenienses, 2003) ocupa um lugar central para esclarecer a
origem e a essência da democracia ocidental a partir de uma compreensão crítica da experiência ateniense. O regime
democrático ateniense preconizava que todos tinham o direito à palavra (isegoria), a igualdade perante a lei (isono-
mia) e igual participação no exercício do poder (isocracia).
13
Os magistrados, em colegiado de nove pessoas, respondiam pela administração da cidade, eram eleitos por um
sistema que combinava sorteio e voto popular para ocuparem os cargos de Arcontes: Arconte-rei que cuidava das
funções religiosas, Arconte Polemarco que exercia o comando do exército e Arconte Temotetas que preparavam as
leis e cuidavam da sua execução. Nessa nova organização social, as mulheres e os estrangeiros permaneceram sem
direitos políticos na condição de escravos.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 47

preservar o status quo oligárquico-aristocrático, essas mudanças foram


insuficientes para tornar Atenas uma sociedade igualitária. Se não foi pos-
sível realizar uma sociedade igualitária, essas medidas tomadas fizeram
avançar a democracia, ao menos, em um dos seus fundamentos essenciais:
a isonomia, isto é, as leis promulgadas eram iguais para todos (i.e., igual-
dade jurídica ou formal). As mudanças realizadas conseguiram atender ao
propósito de conter as forças insurgentes de oposição à exploração. Mas,
ao fim, o instituto da igualdade formal, de per si, desacompanhada dos
outros fundamentos essenciais da democracia, como a isegoria e a isocra-
cia, contribuíram para “dissimular conjunturas de profunda desigualdade
e injustiça” 14. Depois de Sólon, assumiu o poder o aristocrático Pisístrato
que o exerceu por pouco tempo, mas com extrema tirania e vilania, pro-
vocando nova revolta popular e, novamente, liderada por Clístenes. Depois
da queda do tirano, em assembleia popular, Clístenes foi aclamado novo
governador (legislador) de Atenas. Sob o comando dele, a democracia em
Atenas se consolidou com a introdução de reformas fundeadas nos princí-
pios da igualdade de todos os cidadãos, independentemente da sua
situação econômica, e na participação ativa deles na vida pública. Dentre
as mudanças realizadas, destaca-se aqui aquela em que Clístenes:

Dividiu a população de Atenas em 100 demos abolindo assim todos os traços


do carácter tribal da sociedade ateniense. Elevou para 500 os membros da as-
sembleia do povo ou Eclésia, escolhidos como representantes dos demos em
número proporcional à população de cada um deles. A sua reforma instituiu
também a votação secreta para o Conselho ou Bulé. Essa teve o número de
conselheiros aumentado para 500 e passou a ter como funções controlar as
magistraturas e preparar os projetos de lei a serem submetidos à Assembleia.
Introduziu a execução dos condenados à morte por envenenamento com in-
gestão de cicuta e a pena do ostracismo para aqueles que ameaçassem a
democracia. 15

14
Conforme Wolkmer e Ferrazzo, op. cit., (p. 203). Os autores afirmam que “é nesta medida de instituição da igual-
dade formal que se situam as bases da democracia ocidental.”
15
Conforme IEUL (Clístenes, s/d). Ver também José Felipe Quintanilha França (Democracia, a herança grega de
Atenas no pensamento político universal (Sólon / Clístenes / Péricles), 2014).
48 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Para além da definição do conceito de democracia, as ideias e as ações


de Clístenes também inspiraram legisladores do mundo ocidental e orien-
tal. Por isso, ele é considerado um dos pais da democracia. Mas a
democracia não é um sistema perfeito. Ao classificar a população ateni-
ense, uma parcela desta foi considerada não-cidadã, sem direitos políticos
e sem direitos de propriedade 16.
Enquanto a igualdade de direitos dirige-se para todo o povo de uma
nação, a realidade social, pelo exercício de poder das classes dominantes,
não confere igualdade a todos, excluindo dela uma parte do acesso ‘real’ e
‘integral’ ao conjunto desses direitos 17. Algumas civilizações e as socieda-
des que vieram depois da Civilização Grega intensificaram o processo de
dominação/submissão, ampliando a exclusão social, política e econômica
em razão da forma como foram organizadas. São exemplares as nações
mais desenvolvidas organizadas sob o feudalismo, as quais introduziram
as relações de vassalagem e suserania 18, e, depois, as nações organizadas
sob influência do capitalismo na passagem da Idade Média para a Idade
Moderna, no século XV, ganhando maior robustez a partir do século XVIII,
com as revoluções que articularam novos meios de produção capitalista
tanto no campo como na cidade.
No plano político do feudalismo, a estrutura social consistiu em três
classes sociais (ou estamentos): a nobreza (senhores feudais), o clero e os
camponeses, os quais compreendiam a maior parcela da população 19. Ad-
mitia-se, com raras exceções, a mobilidade social de filhos de camponeses
para o clero. A economia feudal era baseada na agropastoril de subsistên-
cia, rudimentar e autossuficiente. O comércio era interno, isolado, sem

16
Id. (Cidadão, s/d) eram considerados cidadãos os indivíduos do sexo masculino, com mais de 20 anos, nascidos de
pais atenienses e com o serviço militar cumprido. Apenas estes podiam possuir terras e casas, direitos negados às
mulheres e aos escravos. Também era negada aos estrangeiros a possibilidade de participar na administração da
cidade, apesar de serem obrigados a pagar impostos e a prestar serviço militar.
17
Conforme Washington Peluso Albino de Souza (Democracia e exclusão social, 2000).
18
O suserano era quem dava ao vassalo um lote de terra, proteção e um lugar no sistema de produção e, este, em
troca, oferecia ao senhor, ou suserano, fidelidade e trabalho. Este sistema deu origem às redes de vassalagem que
estenderam por várias regiões. O rei era o suserano mais poderoso.
19
Conforme Fábio Konder Comparato (Capitalismo: civilização e poder, 2011) o comerciante (o burguês) era rejeitado
pela sociedade estamental (p. 259)
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 49

moeda, predominando o escambo. A organização do trabalho era baseada


em relações servo-contratuais. Embora não sendo escravos, a maioria dos
camponeses jamais poderia deixar as terras onde trabalhava, que, geral-
mente, tinham sido conquistadas à força pelo rei, por invasão ou por
guerra, e por ele cedidas aos nobres mediante apoio militar e fidelidade e
aos altos dignitários do clero mediante o trabalho de garantir a manuten-
ção do status quo. Por sua vez, os proprietários concediam o uso das
terras, proteção militar e espiritual 20 aos camponeses mediante juramento
de fidelidade (subserviência absoluta), pagamento da corveia (dias de tra-
balho semanais) ou da talha (em produtos, geralmente um terço da
produção) e, ainda, da banalidade (por empréstimo de instrumentos agrí-
colas), destinando também o excedente de produção aos donos das
referidas terras, cuja posse era do senhor feudal 21. Os nobres exerciam
grande poder jurídico, econômico e político sobre as demais classes sociais,
eram guerreiros e orientavam-se para guerras. O clero, por sua vez, além
de ser isento de taxas e tributos, arrecadava o dízimo por seu trabalho, que
consistia em exercer o poder da palavra para uma sociedade de fiéis em
benefício da espiritualidade e da nobreza: rezavam para prover a proteção
espiritual e persuadiam os camponeses para manter a ordem na sociedade,
para evitar revoltas e para apresentar justificativas religiosas às contrata-
ções camponesas. À medida que o sistema era formado, agentes do senhor
feudal, ministeriais, designados conforme a região feudal, de bailios ou se-
nescais, foram constituídos de autoridade para administrar o feudo, de
forma mais próxima e mais intensamente, tendo como funções básicas: a
manutenção da ordem e a cobrança das obrigações devidas pelos servos.
Com a intensificação da exploração camponesa, ao largo de quase dois sé-
culos (entre os séculos XI e XIII), e a adoção de novas técnicas e novos
meios de produção, os senhores alcançaram significativo aumento da pro-
dução, requerendo do sistema econômico a adoção de medidas para a
comercialização do excedente, e, em consequência, progressivo aumento

20
No sentido religioso.
21
Por este fato, o camponês não se interessava em melhorar a produtividade do seu trabalho.
50 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

da circulação monetária, além do fortalecimento do sistema político-reli-


gioso, da reabilitação da importância política dos centros urbanos e da
abertura do comércio para o mundo oriental, o que foi facilitado ou viabi-
lizado graças à ação das Cruzadas. Dado o aumento de renda, decorrente
da maior demanda das cidades e do comércio externo com o Oriente, li-
bertando-se da exploração dos senhores feudais, os camponeses passaram
a adquirir terras e a viver em burgos, tornando-se comerciantes e novos
exploradores do trabalho camponês. Tais fatos, associados à insurreição
camponesa, à peste negra, à falta de alimentos para atender ao aumento
populacional e à baixa produtividade, marcaram o início da decrepitude
do sistema feudal e o nascimento do sistema capitalista burguês de matriz
mercantilista, viabilizado pelas navegações europeias de longa distância. 22
A passagem do feudalismo ao capitalismo foi marcada por dois fenô-
menos distintos, simultâneos e independentes, advindos do campo e da
cidade: do campo emergiram as bases materiais para o desenvolvimento
da indústria, quais sejam, a produção de excedentes e o êxodo de campo-
neses obrigados a deixar a servidão do campo (i.e., cercamentos 23) para
ganhar a vida na cidade; e da própria cidade, a experiência do comércio
que deu origem a um sofisticado sistema de trocas monetárias substanci-
adas pela introdução do crédito e do sistema financeiro que
impulsionaram os negócios, não apenas os negócios agrícolas, mas tam-
bém os artesanais. As formas artesanais de trabalho foram sendo
substituídas por corporações de ofício – o que originou uma divisão social
do trabalho –, pelas quais mestres-artesãos passaram a ter acesso a ferra-
mentas, matérias-primas e mão-de-obra assalariada de oficiais e também
de aprendizes não assalariados, para produzir mercadorias com o seu tra-
balho, proporcionando a eles, proprietários dos meios de produção, a

22
Conforme Dorival De Stefani (A administração como ação prática: uma análise das práticas em organizações com
fins teleológicos dicotomizados entre espaço público e privado, 2013).
23
Com a transformação das terras produtivas de uso comum em propriedades privada dos senhores feudais, estas
foram cercadas para a produção de ovelhas, e os camponeses expulsos e excluídos de seu meio de sustento. Isto
marcou profundamente a transição do feudalismo para o capitalismo.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 51

acumulação de capital pelo lucro obtido. A propriedade dos meios de pro-


dução e o controle sobre o tempo e o trabalho de outrem, que em troca
recebiam salário pelo tempo trabalhado, fortaleceram a concentração eco-
nômica da classe social dos burgueses. Aqueles que não eram detentores e
nem controladores dos meios de produção dependiam para sobreviver tão
somente da troca de sua força de trabalho por salário. Essa lógica capita-
lista rompeu com o sistema de vassalagem e suserania como forma de
organização social, política e econômica da Idade Média e inaugurou a pas-
sagem desta para a Idade Moderna.
Esse novo sistema de produção capitalista foi determinante de gran-
des transformações na Idade Moderna mediadas por um articulado
progresso técnico e científico 24 culminando, no século XVII, com a Re-
volução Industrial e uma nova Revolução Agrícola, dois fenômenos
imbricados entre si, que solaparam não apenas as habilidades dos artesões
e das corporações de ofícios para dar lugar às corporações industriais, mas
também, a doutrina mercantilista, levando os comerciantes a ceder lugar
em favor do sistema de produção capitalista e aos proprietários dos meios
de produção, tornando-os participantes de uma nova classe dominante.
No mesmo sentido, o Estado Feudal deu lugar ao Estado Absolutista para
guarnecer o sistema mercantil e, depois, ao Estado Moderno Liberal para
estatuir, estrutural e ideologicamente, o modo de produção capitalista de
matriz industrial, interferindo diretamente na organização social, política
e econômica da sociedade. Essa nova ordem colocou definitivamente em
mãos dos proprietários e dos controladores dos meios de produção as con-
dições essenciais para apropriação da riqueza 25 gerada pela força de
trabalho. O Estado tornou-se representante dos interesses dessa nova

24
Conforme Hannah Arendt (A condição humana, 2007), foi decisivo para o progresso técnico e científico o emprego
da experimentação para fins de conhecimento, isto é, o elemento de fabricação presente no próprio experimento,
que produz os próprios fenômenos de observação e, portanto, depende desde o início das capacidades produtivas do
homem (criatividade), pois o homem só pode conhecer aquilo que ele mesmo fabrica. Isso marca, portanto, uma
mudança de ênfase da história da ciência que não mais se limita a discutir a ‘coisa’ sob a perspectiva do ‘que é’ e do
‘por que’ existe, mas se volta para uma nova questão: discutir ‘como’ as ‘coisas’ vieram a existir (história) e, isto, só
pode ser encontrado na experienciação (p. 308).
25
Conforme Karl Marx (O capital: crítica da economia política, 1996) a concepção de mais-valia corresponde ao lucro
obtido com trabalho não pago.
52 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

classe dominante com a criação de uma miríade de normas reguladoras


que formam a estrutura jurídico-política e a estrutura ideológica (i.e., su-
perestrutura) necessárias para manter a estrutura da produção capitalista
– forças de produção (matéria-prima), meios de produção e os próprios
trabalhadores (i.e., infraestrutura) – e assegurar os interesses dos propri-
etários e dos controladores dos meios de produção 26. A sociedade passou
a ser organizada segundo a relação de propriedade, da qual origina a rela-
ção social que opõe proprietários e proletários, estes, tão somente
proprietário-alienantes de força de trabalho 27. Essa relação de proprie-
dade perpetra uma dinâmica de desigualdade social pelo acesso de uns e o
não-acesso de outros à riqueza produzida e ao nível de escolaridade entre
outros, determinando o poder aquisitivo e, por conseguinte, a posição de
cada um na escala social. Enquanto a uns poucos concedem-se o poder
político e econômico e a posição mais alta na escala social, a outros, repre-
sentando a maior parcela da população, impõem-se a condição de
submissão e a posição mais baixa na escala social. A existência de uma
classe social justifica e qualifica a existência da outra classe social.
Depois da fase do mercantilismo na Europa do século XVIII, o sistema
de produção capitalista impressa pela Revolução Industrial revestiu-se de
uma nova ordem social, política e econômica fundeada em uma ideologia
de acumulação de renda e de crescimento econômico. Esta nova ordem
resultou no aparecimento de grandes empresas que romperam barreiras,
ultrapassaram fronteiras e se constituíram como empresas multinacionais
e/ou transnacionais, espalhadas pelo mundo, guarnecidas por modernos
aparatos tecnológicos, complexos sistemas de controle e uma organização
social que provê um novo arranjo de classes sociais. Ou seja, as classes
dominantes e as classes dominadas são interpoladas por uma classe inter-
mediária de sustentação e estabilização do poder que dá legitimidade a

26
Conforme Karl Marx e Friedrich Engels (A ideologia alemã, 2001).
27
Conforme Karl Marx, op. cit., em referência à Teoria de Classes Sociais.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 53

mecanismos de dominação e submissão, respectivamente, das classes do-


minantes e das classes dominadas 28.
Sob o signo da Revolução Industrial, o desenvolvimento do sistema
de produção capitalista alcançou patamares de produtividade sem prece-
dentes, notadamente, depois da II Grande Guerra, gerando, de um lado,
intensa concentração da renda em mãos de poucas pessoas e, de outro
lado, intensa pobreza para a maior parcela da população mundial. As evi-
dências desse fenômeno vêm sendo sistematicamente denunciadas pelas
mídias informativas. Recentemente, a Agência Brasil reportou matéria que
aponta que “o patrimônio dos 26 mais ricos do mundo é igual ao da me-
tade da população mundial mais pobre” (i.e., 3,8 bilhões de pessoas mais
pobres) 29. As empresas, multinacionais e/ou transnacionais com negócios
ao redor do mundo, cresceram e concentraram não apenas patrimônio,
mas, sobretudo, poder de influência nos países onde passaram a atuar.
Estudos revelam a dimensão dessa influência, qual seja, 174 multinacio-
nais estariam controlando 40% da economia mundial 30. E mais: em
termos do produto interno bruto (PIB), muitas dessas empresas são mais
poderosas do que muitos países 31.
No Brasil, o desenvolvimento do sistema de produção capitalista e da
estrutura que engloba e organiza todo o povo deram-se em circunstâncias
diversas daquele das nações europeias: a colonização baseou-se na escra-
vidão como força de trabalho, na decimação indígena como meio para
expropriação de terras e na miscigenação de raças para originar uma etnia
brasileira 32. A formação do povo brasileiro começou quando o capitalismo

28
O objetivo atribuído a essa classe intermediária parece guardar certa semelhança ao objetivo atribuído ao clero e
aos bailios ou senescais na estrutura de poder da organização social do feudalismo.
29
Conforme Agência Brasil (Patrimônio dos 26 mais ricos do mundo é igual ao da metade mais pobre, 2019).
30
Conforme Lívia Aguiar (As 10 empresas que controlam o mundo, 2016) afirma, 174 empresas controlariam 40%
da economia mundial, enquanto Luiz Nassif (147 multinacionais controlariam 40 por cento da economia mundial,
2012), referindo-se ao mesmo estudo, estabelece que são 147 as empresas. Embora discrepantes, o quadro de con-
centração de poder e influência das empresas na economia mundial, apresentados pelos dois artigos, não é alterado
significativamente.
31
Conforme Cristina Galindo (Quando as empresas são mais poderosas que os países, 2017).
32
Depois de consolidada foi reconhecida e elogiada mundo afora por ser compor uma extraordinária riqueza diver-
sidade cultural que a definiu
54 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

de matriz mercantil se encontrava ainda em desenvolvimento na Europa,


no fim do século XV e início do século XVI, sob forte intervenção do Estado.
Graças ao desenvolvimento das grandes navegações, aportaram em praias
brasileiras, no ano de 1500, representantes do mundo civilizado europeu
em busca de ganhos, em ouro e glórias. Aqui chegando, os portugueses
encontraram o esplendor da natureza ainda bruta e dos seus habitantes,
os índios. Para espanto de cada envolvido, defrontaram-se ali, naquele mo-
mento, a civilização e a selvageria 33. Este seria o primeiro encontro do
processo de colonização do Brasil. Mas com um agravante. O enfrenta-
mento étnico não se daria exclusivamente entre europeus e indígenas, mas
também, pouco tempo mais tarde, o enfrentamento incluiria uma terceira
etnia: a africana. Tem-se notícia de que em menos de quatro décadas de-
pois da chegada dos colonizadores, os primeiros negros africanos foram
trazidos ao Brasil, aprisionados ou trocados por mercadorias, para aten-
der, na condição de escravo, às necessidades de mão-de-obra na
agricultura (em especial, cana-de-açúcar e tabaco) e do comércio negreiro
34
. Esse processo perdurou por quase quatro séculos até alcançar, depois
da independência, a uniformidade cultural e a unidade nacional. Nascia,
assim, o povo brasileiro, pelo esforço e grande sabedoria política de muitas
gerações, ainda que locupletado de disparidades, contradições e antago-
nismos e lutas, como explica Darcy Ribeiro:

A unidade nacional, viabilizada pela integração econômica sucessiva dos di-


versos implantes coloniais, foi consolidada, de fato, depois da independência,
como um objetivo expresso, alcançado através de lutas cruentas e da sabedoria
política de muitas gerações [...].
Essa unidade resultou de um processo continuado e violento de unificação po-
lítica, logrado mediante um esforço deliberado de supressão de toda

33
Darcy Ribeiro (O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil, 1999) fala do encontro entre a civilização e a
selvageria.
34
Conforme Amanda Rossi (Navios portugueses e brasileiros fizeram mais de 9 mil viagens com africanos
escravizados, 2018) , 5 milhões de escravos africanos foram trazidos ao Brasil, em mais de 9 mil viagens marítimas.
Nenhum outro lugar do mundo recebeu tantos escravos africanos, comparativamente, informa a jornalista, os Esta-
dos Unidos receberam quase 400 mil. O primeiro censo demográfico realizado no Brasil (Censo demográfico do
Brasil, 1872) apurou que a população brasileira, em 1872, era de aproximadamente de 9,9 milhões de habitantes e,
destes, 1,5 milhão (15,2%) eram escravos.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 55

identidade étnica discrepante e de repressão e opressão de toda tendência vir-


tualmente separatista. Inclusive de movimentos sociais que aspiravam
fundamentalmente edificar uma sociedade mais aberta e solidária. A luta pela
unificação potencializa e reforça, nessas condições, a repressão social e clas-
sista, castigando como separatistas movimentos que eram meramente
republicanos ou antioligárquicos.
Subjacente à uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda dis-
tância social, gerada pelo tipo de estratificação que o próprio processo de
formação nacional produziu. O antagonismo classista que corresponde a toda
estratificação social aqui se exacerba, para opor uma estreitíssima camada pri-
vilegiada ao grosso da população, fazendo as distâncias sociais mais
intransponíveis que as diferenças raciais [grifo nosso]. 35

Na esteira do desenvolvimento do Sistema Capitalista brasileiro, com


esmerado olhar crítico, Darcy Ribeiro distinguiu dois corpos conflitantes
na cúpula das classes sociais brasileiras. O patronato, formado pelos em-
presários cujo poder é oriundo da exploração econômica, e o patriciado
cujo poder decorre do desempenho de cargos. Os patrícios ricos aspiram
ao cargo de patrão e à glória de um mandato que lhes dê riqueza e poder
de determinar o destino alheio. Um novo corpo estranho que não há muito
tempo surgiu nessa cúpula inere ao estamento gerencial das empresas es-
trangeiras, que passou a constituir o setor predominante das classes
dominantes, composto por competentes tecnocratas com alto poder de
mando, capazes de controlar a mídia informativa e eleger parlamentares
e governantes. 36 Depois desta classe dominante, encontram-se as classes
intermediárias, compostas de oficiais, profissionais liberais, policiais, pro-
fessores e outros. E a estes, na hierarquia, seguem-se as classes
subalternas, compostas, de um lado, do grupo dos operários que têm em-
pregos estáveis, sobretudo os trabalhadores especializados e, de outro
lado, o grupo de pequenos proprietários, arrendatários, gerentes de gran-
des propriedades rurais, entre outros. Depois desse, segue-se a mais ampla
na base da pirâmide, composta da grande massa das classes oprimidas,

35
Conforme Darcy Ribeiro, op. cit., (pp. 22-23).
36
As empresas brasileiras de grande porte econômico seguiram o mesmo modo de organização sociopolítico das
grandes empresas estrangeiras.
56 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

dos chamados marginais, principalmente negros e mulatos, moradores


das favelas e periferias das grandes cidades. Nestes grupos estão aqueles
trabalhadores quase analfabetos e incapazes de organizar-se para reivin-
dicar novas e melhores condições de trabalho e de vida; eles buscam por
mobilidade social e, se não conseguem tal intento, permanecem na condi-
ção da classe intrinsecamente oprimida. 37 Em síntese, referindo-se à
organização social do povo brasileiro, Darcy Ribeiro conclui:

Essa estrutura de classes engloba e organiza todo o povo, operando como um


sistema autoperpetuante da ordem social vigente. Seu comando natural são as
classes dominantes. Seus setores mais dinâmicos são as classes intermédias.
Seu núcleo mais combativo, as classes subalternas. E seu componente majori-
tário são as classes oprimidas, só capazes de explosões catárticas ou de
expressão indireta de sua revolta. Geralmente estão resignadas com seu des-
tino, apesar da miserabilidade em que vivem, e por sua incapacidade de
organizar-se e enfrentar os donos do poder.
[Isto] retrata a estratificação social brasileira tal como a vemos, empirica-
mente. Aí estão seus quatro estratos superpostos, correspondentes às classes
dominantes, aos setores intermédios, às classes subalternas e às classes opri-
midas. Os primeiros, cujo número é insignificante, detêm, graças ao apoio das
outras classes, o poder efetivo sobre toda a sociedade. Os setores intermédios
funcionam como um atenuador ou agravador das tensões sociais e são levados
mais vezes a operar no papel de mantenedores da ordem do que de ativistas
de transformações.
[...] As classes subalternas são formadas pelos que estão integrados regular-
mente na vida social, no sistema produtivo e no corpo de consumidores,
geralmente sindicalizados. Seu pendor é mais para defender o que já têm e
obter mais, do que para transformar a sociedade. O quarto estrato, formado
pelas classes oprimidas, é o dos excluídos da vida social, que lutam por ingres-
sar no sistema de produção e pelo acesso ao mercado. Na verdade, é a este
último corpo, apesar de sua natureza inorgânica e cheia de antagonismos, que
cabe o papel de renovador da sociedade como combatente da causa de todos
os outros explorados e oprimidos. Isso porque só tem perspectivas de integrar
a vida social rompendo toda estrutura de classes. Essa configuração de classes
antagônicas, mas interdependentes, organiza-se, de fato, para fazer oposição

37
Conforme Darcy Ribeiro (O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil, 1999), em “Classe, cor e poder” (pp.
208-209),
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 57

às classes oprimidas – ontem escravos, hoje subassalariados – em razão do


pavor-pânico que infunde a todos a ameaça de uma insurreição social genera-
lizada. 38

As condições do surgimento do povo/Nação do Brasil provocaram


um distanciamento social entre as classes dominantes e as subordinadas
e, entre estas e as oprimidas, em razão da concentração de uma força de
trabalho escrava, recrutada para servir a propósitos mercantis alheios a
ela por meio de processos violentos de ordenação e repressão, e não de-
corrente de agrupamentos humanos que se conjugaram para atender às
suas necessidades de sobrevivência e progresso 39. Com o fim da escravi-
dão no Brasil, o último país do mundo a aboli-la oficialmente (Lei Áurea
promulgada em 13 de maio de 1888), os negros livres se viram à margem
da sociedade sem ter onde morar e nem como sobreviver, sem nenhum
auxílio, qualificação ou proteção social em face da plena ausência de von-
tade política dos mandatários e de políticas públicas essenciais para
promover a integração deles na sociedade. Grande parte da elite brasileira
de matriz europeia – portanto, de brancos – impôs uma política de segre-
gação racial e, por conseguinte, de classe social, que até hoje macula a
sociedade brasileira em razão de um moroso e indecoroso processo de in-
tegração social, econômica e política que, mesmo depois de centro e trinta
anos do fim da escravatura, ainda avilta a dignidade humana.
Não é sem razão que o Brasil ocupa a nona posição de país mais de-
sigual do mundo. Isto deve-se ao fato de que 1% da população detém quase
30% da renda do país 40 e os 5% mais ricos da população recebem por
mês o mesmo que os demais 95% juntos 41. Dados recentes mostram que

38
Ibid., (pp. 209-210).
39
Ibid. As classes subordinadas, segundo Darcy Ribeiro, se formam mediante a evolução de formas anteriores de
sociabilidade, em que grupos humanos se estruturam em classes opostas. Depreende-se desta que a organização
social estruturada dentro do capitalismo mercantil é exemplar da ideia de sociabilidade, uma vez que rompeu com o
modelo de servidão, uma espécie mais branda de escravismo, estatuído pelo sistema feudal. No processo de coloni-
zação brasileiro, a servidão foi recuperada sob a forma mais perversa de escravismo, guarnecido pelo Império, que
levou à formação de uma ampla classe de subordinados oprimidos.
40
Conforme Isabela Alves (O Brasil ocupa a 9° posição de país mais desigual do mundo, 2018).
41
Conforme Adriana Brandão (5% mais ricos do Brasil detêm a mesma renda que os outros 95%, 2018).
58 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

a proporção de pessoas pobres no Brasil, entre 2016 e 2017, subiu de


25,7% para 26,5% da população, um aumento de dois milhões: agora, são
quase 55 milhões de brasileiros passando por todo tipo de privação; destes,
5,2 milhões vivem abaixo da linha da extrema pobreza 42.
Notadamente, no Brasil, o modo de produção capitalista e as institui-
ções subjacentes não têm sido capazes de minorar essa triste realidade. Ao
contrário, o sistema de produção capitalista tem afastado e privado grande
contingente da população do acesso a diversos âmbitos da estrutura da
sociedade, contribuindo para o incremento da exclusão social, da discrimi-
nação e da violação de direitos. Ao mesmo tempo, o próprio país se coloca
em situação de vulnerabilidade frente aos grandes desafios mundiais em
questões associadas ao clima, sustentabilidade, desenvolvimento de novas
tecnologias, fontes alternativas de energia, e a outras questões importan-
tes e complementares inerentes à competitividade dos negócios
internacionais.
A estratificação social brasileira tem a face racional de um negócio
concebido sob a luz do sistema de produção capitalista “que a uns privile-
gia e enobrece, fazendo-os donos da vida, e aos demais subjuga e degrada,
como objeto de enriquecimento alheio”, tornando o empreendimento Bra-
sil tal qual a uma feitoria e não como a uma sociedade 43, produzindo
distâncias abissais entre as diferentes camadas sociais, condicionando a
camada superior a encarar o povo como mera força de trabalho destinada
a consumir-se no processo produtivo e a reproduzir-se para repor a mão-
de-obra consumida. 44 Essas enormes distâncias sociais segregam e opõem
os brasileiros pobres e ricos, alimentando o já arraigado preconceito de
classe que, no Brasil, se caracteriza tanto pela posse econômica como pelo
grau de integração no estilo de vida dos grupos privilegiados, distinguindo

42
Conforme Jornal Nacional (No Brasil, 15,2 milhões vivem abaixo da linha da extrema pobreza, diz IBGE, 2018).
43
Ibid., (p. 212), uma sociedade não é outra senão aquela que estrutura a população para o preenchimento de suas
condições de sobrevivência e de progresso, e não para favorecer o enriquecimento de uma camada senhorial voltada
para atender às demandas exógenas.
44
Ibid., (p. 211) quando um indivíduo consegue atravessar a barreira de classe para ingressar no estrato superior e
nele permanecer, se pode notar em uma ou duas gerações seus descendentes crescerem em estatura, se embeleza-
rem, se refinarem, se educarem, acabando por confundir-se com o patriciado tradicional.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 59

uns e outros: os analfabetos dos letrados; os detentores de um saber vulgar


transmitido oralmente daqueles de saber moderno, herdeiros do patrimô-
nio cultural erudito; dos descendentes de famílias bem situadas daqueles
de origem humilde e outras. 45
As diferenças sociais são enormes e o preconceito que delas decorre
ativa em algumas pessoas sentimentos de ódio, aversão, medo em relação
a outras pessoas e, também, em alguns grupos, em relação a outros cole-
tivos. Esses sentimentos, quando exacerbados, transformam-se em
manifestações de intolerância de uns contra outros, as quais são, como
muitos pensam e afirmam, medidas instintivas de autopreservação (de
pessoas e/ou grupos), mas que, pela legislação mundial e, em especial, pela
brasileira, trata-se de crime, mais precisamente, de crime de ódio. Como
mencionado anteriormente, 30% dos brasileiros dizem ter sofrido discri-
minação por causa da classe social. Manifestações de discriminação, como
aquela do personagem político Justo Veríssimo, em programa televisivo de
humor, de Chico Anysio, no qual ele sempre afirmava o bordão: “eu tenho
horror a pobre”, estão presentes na vida dos brasileiros. Para além das
fantasias de um programa de humor, a vida real está repleta de casos se-
melhantes e muitos deles têm sido denunciados na mídia informativa, tal
como no caso de uma aluna da PUC-Rio que disse: “tive a infelicidade de
me matricular em uma disciplina cuja professora não gostava de pobre.
Isso ficava evidente nas muitas piadinhas que ela fazia sobre empregadas
domésticas" 46. E, mais, há o caso da professora universitária, também da
PUC-Rio, que debochou de passageiro pobre em aeroporto, em rede social
47
. Mas não são apenas professores que discriminam. Alguns jornalistas
não fazem por menos. Hildegard Angel buscou estimular autoridades para
ampliar a segregação entre ricos e pobres ao propor certa limitação quanto

45
Ibid., (p. 236).
46
Conforme Jefferson Puff (‘A professora não gostava de pobre’: bolsistas criam página contra preconceito em
universidade carioca, 2016).
47
Conforme Pragmatismo Político (Professora da PUC debocha de 'passageiros pobres' em aeroporto, 2014). Nesse
artigo, a pessoa discriminada por essa professora fez manifestação de repúdio, sendo publicada por Luiz Nassif
(Advogado ironizado por professora em aeroporto diz que está “tomando providências”, 2014).
60 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

ao uso de aparelhos públicos por intermédio de duas medidas: “em dias de


grande concentração de pessoas nas ruas e praias, nos fins de semana e
feriados do verão”, a circulação de linhas de ônibus e metrô no fluxo Zona
Norte – Zona Sul seja “drasticamente” diminuída; e a segunda, não menos
polêmica, denominada por ela de “plano B radical”, propõe cobrar entrada
nas praias do Leme, Copacabana, Ipanema e Leblon. A blogueira Silvia Pilz,
por sua vez, publicou matéria que gerou muitas manifestações de repúdio
ao afirmar que “o pobre que frequenta consultórios médicos finge estar
doente para se sentir em um cenário de novela”. 48
A mídia informativa tem colocado em destaque manifestações de pes-
soas ‘educadas’ em flagrantes práticas de discriminação e intolerância,
embora atos de violência de pessoas não-educadas também têm sido causa
de manchetes jornalísticas. Assim, pessoas que têm por ocupação precípua
formar (professores) e informar (jornalistas) que, ignorando a própria
educação, por vezes, custeada pela sociedade, retornam à condição do ‘ho-
mem’ em estado natural para tornar-se o “lobo do próprio homem” 49.
Essas pessoas agem em seu imenso e ignóbil universo de ignorância e in-
civilidade para realizar pretensos desejos de alcançar honra, poder e glória
ou, então, apenas jactar-se, às custas da aniquilação emocional, psicológica
e, por vezes, também, física, daqueles a quem não lhes permitem, por
questões econômicas ou de posição social, o direito de dividir ou compar-
tilhar o mesmo espaço. 50
Não apenas a mídia informativa, os relatórios oficiais e os documen-
tos históricos dão conta dos números da intolerância associada à condição
econômica ou de classe. Em pesquisa realizada pelos autores do presente
trabalho, que contou com 1.009 respondentes, 378 afirmaram já ter sido

48
Id. (Quem tem medo e/ou nojo de pobres?, 2015).
49
Conforme Thomas Hobbes (Do cidadão, 2002, p. 30).
50
Ibid. Hobbes já apontava, em 1642, que não há combate mais feroz do que o combate entre os espíritos; a discórdia
que nasce da comparação das vontades é de todos o combate mais feroz, especialmente, quando a contestação incide
sobre doutrinas ou sobre a prudência política.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 61

vítimas de intolerância associada à condição econômico-social, represen-


tando cerca de 37,5% do total de indivíduos que participaram da pesquisa,
conforme a Tabela 4.
As principais agressões sofridas declaradas pelas vítimas, conforme a
Tabela 5, foram piadas, representando 55% das agressões, isolamento de
grupo, com 48% das agressões, desqualificação pessoal devido a ideias e
formas de pensar, com 39% das agressões, e humilhações públicas de na-
tureza moral, com 23%. A violência física representou cerca de 2% das
agressões. As demais formas de agressões – calúnia e difamação, xinga-
mentos e desqualificação por possuir determinadas características físicas
ou aparentes – situaram-se no patamar entre 11% e 17% das agressões.
Os principais agressores declarados pelas vítimas, conforme a Tabela
6, foram colegas de escola e/ou faculdade, desconhecidos, amigos e/ou co-
legas em geral, respectivamente, com 45%, 34% e 31% das agressões. Os
agressores familiares diretos e parentes (família estendida) foram respon-
sáveis, respectivamente, por 8% e 22% das agressões, segundo
declarações das próprias vítimas.
Em relação ao apoio recebido, conforme a Tabela 7, 57% das vítimas
declararam não ter recebido apoio. Entre os que declararam ter recebido
apoio, 28% das vítimas receberam apoio de familiares, 21% de amigos e
12% do cônjuge. Vale destacar que apenas cerca de 0,5% das vítimas re-
ceberam assistência social e psicológica pública – organização pública e
4% receberam assistência psicológica particular. Entre 1% e 3% das víti-
mas receberam apoio de desconhecidos e colegas de trabalho.
As vítimas com menor remuneração, até 2 SM (salário mínimo) 51,
sofreram mais intolerância do que os de outros estratos, conforme Tabela
11. Os que menos sofreram foram os mais ricos, ou seja, aqueles que ga-
nham mais de 15 SM. É importante ressaltar que a pesquisa estabeleceu
como critério de estratificação a renda familiar. Isto implica que: (i) muitos
respondentes podem não contribuir individualmente para a remuneração
da renda familiar, ou seja, ser apenas um respondente que se beneficia da

51
O valor do Salário Mínimo referência utilizado é o de 2017, ano anterior a elaboração do questionário da pesquisa.
62 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

renda obtida por outros integrantes da família; (ii) a renda per capita pode
variar com o número de integrantes da família, ou seja, os patamares de
capacidade financeira individual são menores que os valores do teto de
cada estrato; (iii) as pessoas que apontaram o estrato mais baixo (Até 1
SM) podem não ter renda nenhuma. Ou seja, a realidade econômica dos
respondentes dos dois estratos mais baixos pode ser ainda pior em relação
aos estratos superiores. Essa possibilidade fica mais forte quando é anali-
sada as respostas qualitativas da pesquisa. Em cinco depoimentos escritos,
a menção de que a renda era muito pequena para o número de integrantes
da família era um problema a ser enfrentado no cotidiano para garantir
subsistência de todos.
Tabela 11 – Intolerância associada à condição econômica ou de classe social: quantidade de vítimas e não-
vítimas da amostra por faixa de renda (%)
Vítima de intolerância
Faixa de renda familiar
Sim Não
Até 1 SM (até R$ 937,00) 48% 52%
Entre 1 e 2 SM (R$ 938,00 a R$ 1.874,00) 55% 45%
Entre 2 e 5 SM (R$ 1.875,00 a 4.685,00) 35% 65%
Entre 5 e 10 SM (R$ 4.686,00 a R$ 9.370,00) 38% 62%
Entre 10 e 15 SM (R$ 9.371,00 a R$ 14.055,00) 34% 66%
Acima de 15 SM (R$ 14.056,00) 30% 70%

Em todo ato associado à intolerância econômica ou de classe social,


verifica-se a existência de múltiplos grupos de agressões e de agressores.
A pesquisa mostrou que todos os grupos de agressores manifestaram atos
de intolerância contra a maioria absoluta das vítimas, sendo os seus atos
predominantes piadas, desqualificação pessoal devido a suas ideias e modo
de pensar, e o isolamento de grupo. A Tabela 12 mostra o relacionamento
entre os grupos de agressões sofridas e grupos de agressores, indicando,
com base na declaração dos respondentes-vítimas, o predomínio das pia-
das como atos de agressão, praticados por parentes (família estendida) e
familiares diretos, respectivamente, por 74% e 62% das vítimas; por pes-
soas conhecidas (amigos e colegas) apontados por 65% das vítimas; e
desconhecidos, apontados por 49% das vítimas. O isolamento de grupo é
outra forma bastante comum de violência praticada por todos os grupos
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 63

de agressores sobre a maioria absoluta (superior a 50%) das vítimas. Os


grupos de desconhecidos e parentes (família estendida) se destacam como
agressores, neste tipo de agressão, respectivamente, por 61% e 60% das
vítimas.
Tabela 12 – Intolerância associada à condição econômica ou de classe: quantidade de vítimas por grupo de
agressões e grupo de agressores (%)
Grupo de agressores Amigos / Colegas Colegas de Parentes
Familiares
colegas de Traba- Escola / (família Desconhecido
Diretos
Grupo de agressões em geral lho Faculdade estendida)
Socos, pontapés, tapas, em-
7% 0% 0% 1% 2% 1%
purrões etc.
Xingamentos e agressões
17% 14% 14% 17% 21% 13%
verbais
Vítima de piadas no ambi-
62% 65% 65% 68% 74% 49%
ente onde estava
Desqualificação pessoal de-
vido às suas ideias e forma 66% 50% 57% 44% 55% 37%
de pensar
Humilhações públicas de
21% 25% 33% 30% 38% 33%
natureza moral
Desqualificação por possuir
determinadas características 10% 25% 28% 25% 23% 22%
físicas ou aparentes
Calúnia ou difamação 21% 14% 18% 11% 21% 16%
Isolamento de grupo 52% 53% 56% 56% 60% 61%

A pesquisa possibilitou também levantar a relação entre grupos de


agressões e apoio. A Tabela 13 apresenta em percentuais os grupos de
agressões sofridas e, de acordo com o grupo de agressão, o tipo de apoio
recebido pela vítima. Chama a atenção o baixo apoio de desconhecidos e
de assistência psicológica pública.
64 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Tabela 13 – Intolerância associada à condição econômico-social: quantidade de vítimas apoiadas (ou não)
por grupo de apoio recebido e grupo de agressões (%)
Grupo de
Apoio de Apoio de
Apoio rece- Apoio de Apoio
Não Apoio assistên- assistên-
bido cônjuge, Apoio de Apoio de de cole-
rece- de cia cia
parceiro(a), familia- desconheci- gas de
beu ami- psicoló- psicoló-
compa- res dos traba-
apoio gos gica gica
Grupo de nheiro (a) lho
particular pública
agressões
Socos, ponta-
pés, tapas,
33% 0% 17% 67% 17% 0% 0% 0%
empurrões
etc.
Xingamentos
e agressões 47% 16% 36% 31% 7% 9% 9% 0%
verbais
Vítima de pia-
das no
53% 13% 32% 26% 2% 5% 4% 0%
ambiente
onde estava
Desqualifica-
ção pessoal
devido às suas 60% 14% 26% 21% 2% 6% 4% 0%
ideias e forma
de pensar
Humilhações
públicas de
56% 19% 35% 28% 3% 6% 5% 0%
natureza mo-
ral
Desqualifica-
ção por
possuir deter-
minadas 53% 12% 35% 32% 6% 8% 5% 0%
características
físicas ou apa-
rentes
Calúnia ou di-
45% 28% 40% 43% 3% 8% 5% 0%
famação
Isolamento de
52% 14% 28% 25% 2% 3% 4% 1%
grupo

No teste de Análise de Correspondência (ANACOR) elaborado pelos


autores, conforme sinalizado na Figura 1, é possível observar o mapa per-
centual da intolerância associada à condição econômica ou de classe para
as variáveis referentes ao grupo de agressor e ao grupo de agressão dentro
deste tipo de intolerância. Nota-se, nessa figura, a indicação de uma ten-
dência de comportamento intolerante que vai além deste para se associar
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 65

a outros tipos de intolerância. As variáveis X6.A1 e X6.A5, sinalizadas nessa


Figura 1, referem-se aos agressores, respectivamente, à “família primeiro
grau” e “família segundo grau” e à sua proximidade com as variáveis
X6.B4 e X6.B6, que representam, respectivamente, as agressões “desqua-
lificação de ideias” e “desqualificação de característica física”, indicando
que a intolerância exercida sobre as vítimas não está associada exclusiva-
mente a uma condição econômica ou de classe, mas também a outras
naturezas de intolerâncias, neste caso, ao modo de pensar e ao aspecto
constitutivo corporal ou ao aspecto exterior da vítima.

Figura 1. Intolerância associada à condição econômica ou de classe - mapa perceptual para as variáveis referentes
aos grupos de agressores e aos grupos de agressões.

A intolerância associada à condição econômica ou de classe frequen-


temente vem combinada a outras formas de intolerâncias, fato que pode
ser comprovado tanto nos dados quantitativos como nas respostas abertas
presentes na fase qualitativa da pesquisa, conforme depoimento de um dos
respondentes da pesquisa:

“Vim de origem humilde e de família com baixo nível de escolaridade. Durante


toda minha vida eu passei pelos mais diversos tipos de intolerância relacionada
a renda, local de moradia, vestimenta, personalidade, orientação sexual e ori-
gem étnica indígena. Fui diversas vezes agredido verbalmente e fisicamente
[sic], passando por humilhações, isolamento e desqualificação de pensa-
mento.”
66 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

As análises qualitativas mostram com clareza que raramente a into-


lerância associada à condição econômica ou de classe se manifesta de
forma isolada. É também comum, conforme o exemplo do depoimento
apresentado, que ela esteja combinada com outras formas de intolerância,
gerando diversas formas de violências, que dificilmente são esquecidas pe-
las vítimas. Nos depoimentos espontâneos dos pesquisados, encontra-se
algumas particularidades que não são evidenciadas na parte quantitativa
da intolerância. Vejam-se alguns depoimentos ilustrativos dessa contun-
dente realidade.
A primeira é que quatro depoentes mulheres escrevem que sofreram
a intolerância associada à condição econômica ou de classe juntamente
com a de gênero. Apesar disso, duas situações distintas devem ser esclare-
cidas. Duas delas afirmam que o fato de serem mulheres é agravado com
a característica de serem pobres. Por outro lado, mesmo que seja exceção,
outras duas depoentes escrevem que sofreram violências pelo fato de se-
rem do estrato econômico mais alto da sociedade. Nestas situações, a
queixa está associada ao fato de elas terem conseguido ascender social-
mente por meio do estudo, segundo elas mesmas, e que seus estilos de
vida instituem a percepção de que vivem como “patricinhas” ou “filhinhas
de papai”, termos pejorativos que procuram desqualificá-las por meio do
imaginário social que vivem uma vida fácil, sem usura e sem ter que em-
preender grandes esforços no mundo do trabalho.
Naturalmente que a situação financeira favorável dessas duas depo-
entes as coloca em situação social melhor do que aquelas que não têm as
mesmas condições econômicas, dado que a sobrevivência e a liberdade em
um sistema econômico capitalista são facilitadas quando se tem acesso aos
recursos econômicos, financeiros e materiais. Entretanto, ao se estudar o
fenômeno da intolerância, é preciso abdicar de banalizar as formas de so-
frimento, mesmo daqueles que vivem em condições melhores que as
demais pessoas. O depoimento a seguir mostra isso claramente:
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 67

Sofri devido a minha forma de falar, fui isolada em grupos de colégio e tiravam
muito sarro, depois de adulta fui julgada devido à classe social dos meus pais
sendo chamada de filhinha de papai por adultos.

O fato de sofrer preconceito, discriminação ou, mais grave ainda, in-


tolerância pode levar a posturas radicais, que instituem discursos tão
intolerantes quanto aquelas sofridas. É o caso de uma depoente, que tam-
bém reclama o fato de ser julgada pela sua condição econômica melhor
que a maioria das pessoas.

Sou intolerante com ladrões. Só isso.

As violências sofridas por pessoas que foram alvos de intolerância as-


sociada à condição econômica e de classe deixam sequelas profundas,
sobretudo se elas ocorreram na infância. O depoimento a seguir é de uma
pessoa com quarenta e cinco anos, ou seja, de alguém que ainda tem ativa
na sua memória a situação de violência vivida por volta de trinta e cinco
anos atrás.

Meu irmão e eu fomos discriminados quando éramos crianças por um babaca


casado com uma prima nossa e por parte da família de meu pai, devido a nossa
condição econômica e local onde vivíamos (uma chácara). Éramos, para eles,
motivo de chacota por ajudarmos nossos pais no trabalho manual. Chegamos
a ouvir palavras chulas, referidas a nossa forma de nos vestir e de nos portar
quando tínhamos entre 7 e 11 anos.

A animosidade e ressentimento podem ser motivos para que os agre-


didos, agora adultos, se coloquem na posição de potenciais intolerantes. O
fato é que analisando todos os depoimentos, todas as formas de intolerân-
cias provocam sentimentos ambivalentes nas vítimas.
Mesmos os que vivenciam condições econômicas melhores, quando
se sentem excluídos ou vítimas de violências, acabam por desenvolverem
problemas psicológicos ou patologias que levam a um estado de sofri-
mento, conforme demonstra o depoimento a seguir:
68 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Muitas vezes imaginei que o preconceito e a intolerância partiam por motivos


como a cor da pele, ou contra os menos favorecidos economicamente. Porém
o caso de intolerância que ocorreu comigo foi justamente o contrário, por pos-
suir uma condição financeira favorável, constantemente há o julgamento de
que tudo é mais fácil, que não tenho motivos para reclamar de alguma coisa,
como se o dinheiro trouxesse tudo que é necessário. As pessoas não percebem
que, na realidade, eu devo estudar como ou mais que elas para manter o pa-
drão, não percebem que o que eu venho conquistando é fruto de 15 ou mais
horas diárias, de planos e estratégias traçadas a todo momento. E essa intole-
rância, por mais que possa soar como algo patético para quem está lendo, é
algo que me trouxe diversos problemas, no meu trabalho o rendimento veio a
cair, meu psicológico sinto fragilizado, venho tendo ataques de ansiedade fre-
quentemente, o que acaba dificultando a socialização com desconhecidos.

É evidente que pessoas com condições econômicas mais altas e clas-


sificadas socialmente como de classes superiores vivem situações reais de
vida melhores do que aqueles que vivem na escassez financeira ou em con-
dições materiais que colocam em risco a dignidade humana. São situações
que merecem ser ponderadas, pois as violências se somam ou se multipli-
cam quando além de viverem a pobreza material que leva à indignidade
humana, essas pessoas ainda vivenciam situações de discriminação e into-
lerância. Todavia, é importante ressaltar que não se pode banalizar o
sofrimento das pessoas ou mesmo estabelecer relações de comparações
simplistas baseadas no maniqueísmo moralista. No caso da intolerância
associada à condição econômica e de classe, diferente das outras, é um ca-
talizador das violências que uma pessoa pode sofrer. E este é o ponto no
qual é necessário tentar combater a exclusão econômica, mesmo sabendo
que uma situação de equidade econômica não implica necessariamente a
exclusão da intolerância como um todo.

Não poder entrar em um determinado shopping da cidade por não parecer ter
condições de compra ou até mesmo de entrar, fui barrado por um segurança
que não me deixou entrar.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 69

À guisa de conclusão, pode-se afirmar que a ignorância e a incivili-


dade andam juntas e a maneira certa de vencê-las é sobretudo por
intermédio da educação e, em especial, como no sentido Durkheimiano,
da educação como processo socializador, para fixar certas similitudes re-
clamadas pela vida coletiva, tais como a fixação de valores e a formação
de uma identidade coletiva e sentimento de pertença; e, concomitante-
mente, para desenvolver as múltiplas aptidões tanto para o exercício e
cultura do pensamento como para o exercício de uma tarefa ou de uma
ação, restrita e especializada, que a vida social requer para favorecer o di-
álogo e a cooperação entre pessoas ou grupos como recurso de mediação
das diferenças de interesse e de opinião dos interlocutores 52.

52
Conforme Émile Durkheim (A Educação como processo socializador: função homogeneizadora e função
diferenciadora, 1987).
3

Intolerância de gênero

Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Cristiannne Teixeira Carneiro
Flavia Granzotto Fachini
Heloisa Sbrissia Selzler
Stephanie Daher
Rodrigo Alves Silva

O ser humano apreende e assume comportamentos, atitudes, carac-


terísticas e sentimentos mediante experiências significativas vivenciadas
com um outro no contexto sócio-histórico, econômico e político que o ro-
deia. A condição do homem e da mulher no mundo não é determinada,
como muitos acreditam, por sua natureza biológica, respectivamente, de
masculino e feminino, mas, sobretudo, por ser ela socialmente determi-
nada. 1 Na modernidade, esta perspectiva apresenta um quadro de luta
para desnaturalizar uma ideia tão antiga e enraizada em muitas socieda-
des, orientais e ocidentais, de que determinados papéis são pertinentes à
essência feminina e outros voltados à essência masculina.
Ao longo da História, homens e mulheres se desenvolveram não da
mesma forma e nem no mesmo sentido, uma vez que eles e elas se cons-
truíram enredados por relações de dominação e submissão. A mulher na

1
Este princípio vigotskyano coloca à margem as ideias de que o ser humano se forma pelo desenvolvimento de suas
características inatas ou, então, tal como advogam empiristas e comportamentalistas, se forma mediante estímulos
externos.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 71

Grécia Antiga de Platão e Aristóteles foi legitimada na condição de escrava


por conta de seu papel destinado à procriação e à manutenção da prole,
sendo, por isso, alijada de participar nos destinos da pólis. Do mesmo
modo e na mesma direção, uma estremadura se estabeleceu entre os ho-
mens dessa época. O papel de uns foi determinante para segregar os
homens considerados escravos por estarem presos à condição de produzir
o próprio sustento, o sustento de suas famílias e o de seus senhores, da-
queles que, livres desse trabalho, poderiam dedicar-se aos negócios
públicos da Polis.
O trabalho na antiguidade, tido como limitador da liberdade de uma
parcela significativa da população, passou a ser valorizado no sistema de
produção capitalista, tornando-se um importante meio de mobilidade so-
cial mediante novos e sofisticados meios de dominação e submissão;
evidentemente, com a mobilidade social materializaram-se novas formas
de desigualdade, tais como a desigualdade de classe social e a desigualdade
econômica (discute-se este tema no capítulo 2: “Intolerância econômica ou
de classe social”). Por muitos séculos, o homem manteve a hegemonia do
trabalho produtivo, especialmente no período mercantilista, quando al-
cançou o seu ápice; a mulher continuava dedicada ao trabalho doméstico
e economicamente dependente do homem, seja ele marido, pai ou mesmo
irmão. Na matriz intelectual e cultural, não se pode negar, há a prevalência
da perspectiva dos homens 2. Pode-se dizer que a desigualdade de direitos
entre homens e mulheres se espraiou, desde o princípio, por diversos as-
pectos da vida humana, muito em função da natureza das atividades
fundamentais da vida na terra 3.
Se a luta dos homens [livres] foi dirigida para conquistar honra, po-
der e glória 4, a luta das mulheres tem sido de uma outra natureza:
transformar a matriz intelectual e cultural pela perspectiva dos pontos de

2
Conforme Friedrich Engels (A origem da família, da propriedade privada e do Estado, 1984): a mulher foi a primeira
propriedade privada do homem.
3
Conforme Hannah Arendt (A condição humana, 2007): tais atividades são ação, trabalho e labor.
4
Conforme Thomas Hobbes (Leviatã. Matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil, 1983).
72 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

vistas da mulher para buscar a autocompreensão, a superação de desigual-


dades de direitos em relação aos homens e tornar-se autônoma em relação
ao seu próprio corpo 5.
Sem menosprezar a importância de manifestações de mulheres 6
dentro de um campo de luta por direitos ao longo da história mais remota,
foi tão somente a partir do século XVIII, quase 23 séculos depois da emer-
gência da política na Grécia Antiga, que os direitos das mulheres
começaram a ser reivindicados graças ao pioneirismo da escritora inglesa
Mary Wollstonecraft (1759-1797). Crítica ferrenha do processo de sociali-
zação das mulheres, para quem “as mulheres são socializadas para serem
escravas do corpo e de sua sexualidade, [justificando que] segundo a soci-
edade do século XVIII, elas devem permanecer escravizadas, idolatradas
no lar, preocupando-se somente com suas proclividades “naturais”, a sa-
ber, modéstia, castidade e beleza” 7. Wollstonecraft desenvolveu suas
ideias no sentido de provar que as mulheres eram racionais e deveriam
ser educadas para ajudar no progresso da sociedade 8. Ela defendeu a ra-
cionalidade como tema crucial para superação da condição da mulher no
mundo, afirma a sua biógrafa, Sylvana Tomaselli:

Wollstonecraft queria que as mulheres desejassem ser cidadãs plenas, mas


para isso precisariam desenvolver a razão. As mulheres racionais perceberiam
quais suas verdadeiras obrigações. Elas deixariam de lado o mundo das meras
aparências, o mundo dos desejos insaciáveis, que era a base do século XVIII,
conforme explicado lucidamente por Adam Smith. 9 [tradução livre]

Posteriormente, novos acontecimentos surgiram para ampliar o ca-


minho de luta das mulheres por igualdade de direitos e de oportunidades.

5
Inspirado no ensaio de Claudia de Lima Costa (O leito de Procusto: gênero, linguagens e as teorias feministas, 1994).
6
Para citar algumas delas: Aspásia, Grega de Mileto (Sec. 5 a.C); Lisístrata (445-385 a.C); Lívia de Roma (58 a.C - 29
d.C.); a escritora francesa Christine de Pisan (1364-1430); Joana D’Arc (1412-1431); Lucrécia Bórgia (1480-1512); e
Catarina de Médici (1519-1589).
7
Conforme Daniel Miranda (Apresentação: brevíssima contextualização histórica e bibliográfica, 2015, p. 16).
8
Ver Mary Wollstonecraft (Reivindicação dos direitos das mulheres, 2015), este livro é considerado o primeiro grito
feminista, publicado originalmente em 1792.
9
Conforme Sylvana Tomaselli (Mary Wollstonecraft, 2016, p. 6): biografia publicada e revisada, respectivamente,
em 2008 e 2016, a qual foi traduzida por Daniel M. Miranda, op. cit., (p. 14).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 73

O avanço do capitalismo e o advento da Revolução Industrial nos séculos


XVIII e XIX fizeram crescer significativamente o número de mulheres em-
pregadas que passaram a realizar longas [e desiguais] jornadas de
trabalho, em casa e na fábrica, motivando a realização da primeira con-
venção dos direitos da mulher, em 1848, na cidade de Seneca Falls (NY),
e, depois, em 1857, sob a influência do socialismo, em Nova York, a reali-
zação do primeiro movimento grevista feminino por igualdade de jornada
de trabalho e direito ao voto 10.
A luta das mulheres passou a ganhar novos e importantes reforços
provenientes de acontecimentos havidos na Europa. Na Grã Bretanha, a
educadora Millicent Fawcet (1847-1929) que, em 1897, fundou a União Na-
cional pelo Sufrágio Feminino, se associou ao movimento que visava
revelar o sexismo institucional britânico, encabeçado por Emmeline
Pankhurst (1858-1928), e foram às ruas desencadeando uma série de pro-
testos que culminou com a aprovação do sufrágio feminino no Reino
Unido, em 1918. 11
Na Alemanha, Clara Zetkin, jornalista e política adepta ao marxismo,
tornou-se, no início do século XX, uma bastiã na organização das mulheres
trabalhadoras e socialistas: denunciou a opressão das trabalhadoras sob o
regime capitalista; lutou pelo direito de as mulheres auferirem salário
igual por trabalho igual ao dos homens e articulou a organização e
realização da primeira edição da Conferência Internacional de Mulheres
Socialistas, em 1907, em Stutgart, que tinha sua estrutura centrada no

10
Este movimento, ocorrido em 1857, alcançou grande repercussão pela repressão empregada pela polícia nova-
iorquina e o incêndio da fábrica ocupada provocado pelos patrões que resultou em 129 mulheres mortas. Em 29 de
Março de 1911, também em Nova York, durante uma greve, foi registrada a morte de 146 pessoas, a maioria mulheres
imigrantes judias e italianas, durante um incêndio causado pela falta de segurança nas péssimas instalações de uma
fábrica têxtil. Ainda que os Estados americanos pudessem promulgar o voto feminino, e alguns deles assim o fizeram,
foi somente em 1920 que os EUA aprovaram a emenda constitucional introduzindo o voto feminino para todos os
seus Estados.
11
O sistema de produção capitalista, reforçado pelo advento da Revolução Industrial, tornou-se o berço dos movi-
mentos feministas dos séculos XVIII e XIX: saindo de casa para trabalhar nas fábricas, as mulheres começaram a
superar a menoridade (no sentido kantiano) e a se dar conta da sua condição no mundo (esclarecimento) (Kant,
2008, p. 100). Se na antiguidade o sistema político enclausurou as mulheres em casa, em outro momento histórico
o sistema de capital as levou para fora de casa para trabalhar e empregou métodos de opressão que puderam desvelar
um caminho de esclarecimento e tomada de consciência da sua condição de ser mulher – racional – no mundo, tal
como defendeu Wollstonecraft (2015).
74 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

movimento de trabalhadores socialdemocratas alemães e no direito ao


sufrágio universal da mulher adulta. 12
Mulheres brasileiras também tomaram parte na luta pelo direito ao
voto feminino. Em 1910, a pioneira Leolinda de Figueiredo Daltro fundou
a Junta Feminina Pró-Hermes da Fonseca para apoiar a sua eleição à pre-
sidência do Brasil. A necessária luta pela emancipação das mulheres
recebeu um contributo da União das Costureiras, Chapeleiras e Classes
Anexas do Rio de Janeiro, em 1920. Em manifesto, essa entidade de classe
clama para os homens conscientes: “Se refletirdes um momento, vereis
quão dolorida é a situação da mulher, nas fábricas, nas oficinas, constan-
temente amesquinhada por seres repelentes e vis” 13. Depois, mais tarde,
em 1922, no Rio de Janeiro, a bióloga e cientista Bertha Lutz fundou a Fe-
deração Brasileira pelo Progresso Feminino em prol da implantação dos
direitos eleitorais e políticos da mulher. O direito ao voto feminino no Bra-
sil somente foi aprovado em 24 de fevereiro de 1932, por decreto instituído
pelo Colégio Eleitoral Brasileiro.
A Grande Depressão americana, o surgimento do Nazifascismo e a
eclosão da II Grande Guerra Mundial, produziram grandes alterações eco-
nômicas, sociais, demográficas e políticas no mundo 14, e, também,
contribuíram para o arrefecimento da luta das mulheres durante o período

12
O movimento sufragista britânico inspirou diversos países europeus a aprovar o voto feminino: o sufrágio feminino
foi introduzido na Alemanha, em 12 de novembro de 1918; na Holanda e Rússia, em 1917; Áustria, Polônia e Tche-
coslováquia, em 1923; Portugal e Espanha, em 1931; França, em 1945; Itália, em 1946; e Suíça, em 1971. Contudo, não
foi um país europeu a ser o primeiro a aprovar o voto feminino, mas a Nova Zelândia, na Oceania, em 1892, fruto do
movimento liderado por Katherine Wilson Sheppard o qual reuniu mais de 32.000 assinaturas de mulheres para que
o parlamento aprovasse o direito ao voto a elas.
13
Conforme Celi Regina Jardim Pinto (Uma história do feminismo no Brasil, 2003, p. 35).
14
Conforme ONU (Carta das Nações Unidas, 1945). Criada, em 1945, no contexto do Pós-Guerra, a Organização das
Nações Unidas (ONU) e com ela, em Carta, reafirma-se a fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no
valor do ser humano, na igualdade de direito dos homens e das mulheres. Em 1948, foi proclamada a Declaração
Universal dos Direitos Humanos. Também, em 1948, a Convenção Interamericana Sobre a Concessão dos Direitos
Civis à Mulher outorga às mulheres os mesmos direitos civis de que gozam os homens. A Convenção sobre os Direitos
Políticos da Mulher, em 1953, determinou o direito ao voto em igualdade de condições para mulheres e homens. A
Convenção da OIT no. 100, em 1951, dispôs sobre a igualdade de remuneração. Outras medidas foram ainda tomadas
no âmbito da OIT, como por exemplo, em 1952, sobre o amparo materno; em 1958, sobre a discriminação em matéria
de Emprego e Profissão; em 1981, estendeu aos homens a responsabilidade sobre a família; em 1975, a I Conferência
Mundial sobre a Mulher (Cidade do México) reconheceu o direito da mulher à integridade física, inclusive a autono-
mia de decisão sobre o próprio corpo e o direito à maternidade opcional; e, em 1979, realizada a Convenção Para
Eliminar Todas as Formas de Discriminação Contra a Mulher.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 75

compreendido entre 1930 a 1960. Depois desse período, os movimentos


feministas ressurgiram na esteira dos movimentos contraculturais 15, an-
corados no pensamento existencialista, com destaques a Simone de
Beauvoir por sua clássica frase que tornou uma marca indelével do femi-
nismo: “não se nasce mulher, se torna mulher” 16.
Em termos práticos, há um longo caminho a ser percorrido até que
seja ´apaziguada´ a compreensão da condição de ser mulher no mundo,
tanto por parte delas próprias como dos participantes do contexto social
que as rodeiam (doxa), dos acadêmicos e acadêmicas estudiosos da ques-
tão (endoxa) e dos formuladores de políticas públicas. Os acontecimentos
e eventos promovidos pelas mulheres até as primeiras décadas do século
XX buscavam conquistar direitos civis e romper com a opressão subjacente
ao sistema social de relações de dominação e submissão historicamente
estabelecidas no âmbito da vida política e do trabalho. Contudo, tais com-
plexos de relações – de poder e de trabalho – são insuficientes para
esquadrinhar a abrangência do sistema social de relacionamentos dentro
do qual as mulheres [e os homens] se situam. É preciso ir além dessas
instâncias e compreender que existe, ao menos, uma outra que orienta e
estrutura as relações sociais em um sistema cuja finalidade é livrar as mu-
lheres do sentimento de opressão a que historicamente estiveram
submetidas e, em seu lugar, substanciar e guarnecer a construção de um
sentimento de liberdade sobre o próprio corpo, sobre a própria voz, sobre
a própria expressão 17. Sistema esse reconhecido como um sistema de
sexo/gênero que expressa a utopia de um estado ideal de liberdade e que
perspectiva materializar-se mediante complexas conexões entre variadas

15
Estes movimentos emergiram nos EUA na década de 1960 e alcançaram a Europa e, também, com menor força, a
América Latina. Os movimentos Beat Generation e o Hippie (este festejado pelo festival de Woodstock), notabilizados
pela capacidade de mobilização e contestação social e cultural de jovens, ganharam grande repercussão mundial pela
oposição à estagnação social e cultural provocada por uma sociedade materialista do pós-guerra, rompimento do
estilo de vida convencional pela alienação às normas impostas pela sociedade, aos problemas políticos e às rotinas de
trabalho; pelo consumo de drogas e liberdade nas práticas sexuais; e outros.
16
Conforme afirma Celi Pinto (Uma história do feminismo no Brasil, 2003), a obra O segundo sexo, de Simone de
Beauvoir, publicada em 1949, a primeira publicação feminista havida no período de 30 anos, entre 1930 e 1960,
“marcará as mulheres e será fundamental para a nova onda do feminismo” (p. 16).
17
Conforme Marcia Tiburi (Feminismo e liberdade, 2015) delineou a ideia de liberdade.
76 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

formas de interação humana que envolvem as práticas diárias das pessoas


(mulheres e homens), levando-as a surdir ou abismar as diferenças de gê-
nero para construir “uma identidade corpórea, um certo modo de ser num
corpo e de viver o corpo, [devindo disso] uma pluralidade de masculinida-
des e feminilidades em oposição a uma visão de homens e mulheres como
dois blocos homogêneos e indiferenciados entre si” 18.
Os movimentos de construção da liberdade da mulher nas relações
sociais – poder, trabalho, práticas sexuais – foram deslocados, nas últimas
décadas do século XX e nas primeiras do século XXI, para dentro dos estu-
dos de gêneros capitaneados pelas reflexões e debates que incidiram sobre
as relações entre a academia e o feminismo. Os conceitos de gênero “es-
truturam a percepção e a organização concreta e simbólica de toda a vida
social” 19. Ou seja, o grau de inserção teórica deste campo de saber do gê-
nero é ampliado e engloba tanto os estudos sobre mulheres, a
interdisciplinaridade exigida pelo recurso a conceitos teóricos de gênero,
desconstrução e diferença e o caráter da transversalidade desses conceitos
de gênero, como também as demais dimensões do social, tais como: po-
der, trabalho e outras 20.
A luta feminista que se concentrava até então em compreender a si-
tuação das mulheres em seus papéis, separadamente do homem, para
ocupar um lugar no mundo do homem, encontrou ancoragem, para além
das diferenças biológicas entre homens e mulheres (sexo), na construção

18
Conforme Claudia de L. Costa (O leito de Procusto: gênero, linguagens e as teorias feministas, 1994, pp. 159-160).
19
Conforme Joan Scott (Gênero: uma categoria útil de análise histórica, 1995, p. 88). As estruturas sociais nada mais
são do que estruturas construídas no processo de socialização mediado pela liberdade e individualidade de sujeitos
na construção de suas identidades. O termo gênero surgiu na literatura como uma categoria de trabalho desenvolvida
por Robert Stoller (Sex and gender: the development of masculinity and femininity, 1968) ao estudar a intersexuali-
dade em crianças. Stoller relata suas descobertas sobre o desenvolvimento, manutenção e manifestações de
masculinidade e feminilidade e introduz a noção de gênero distinta da noção de sexo, referindo-se aos significados
sociais, culturais e históricos relacionados aos sexos, cujo papel é determinado por forças psicológicas pós-natais,
independentemente da anatomia, morfologia e fisiologia da genitália externa que caracterizam as pessoas como
sendo fêmeas ou machos. E mais, Stoller constatou que quando um indivíduo foi criado no gênero oposto ao seu sexo
biológico, mesmo tomando conhecimento que suas genitálias eram ambíguas (i.e. intersexo), torna-se cada vez mais
difícil ou impossível para a maioria das pessoas, depois da idade de dois anos e meio, mudar o gênero: elas mantêm
os padrões de comportamento de acordo com os quais haviam sido educados (p. 30). Diante disso, Stoller concluiu
que mudar o sexo biológico é mais fácil do que mudar o gênero de uma pessoa (p. 48).
20
Conforme Lia Zanotta Machado (Introdução, 1992, p. 10) que, em parte, neste texto, subsidia tais argumentos.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 77

cultural coletiva tanto dos atributos de masculinidade e feminilidade e dos


papéis sexuais (gênero), como do lugar do indivíduo na cultura do con-
texto social, constituindo um sentimento de identidade e pertencimento
(identidade de gênero), e do campo de práticas e sentimentos ligados à
atividade sexual (sexualidade) 21. A maneira de ser homem e de ser mu-
lher é definida não pela anatomia do sexo biológico, como já assinalado
anteriormente, mas pela dimensão social, pela cultura, que impulsiona a
constituição do sentimento individual de identidade. Nesse sentido, o gê-
nero representa essa maneira de ser de como o homem e a mulher
enxergam e interpretam a si próprios, se como cisgênero (i.e., pessoa que
tem uma identidade e expressão de gênero correspondente ao seu sexo
biológico), transgênero (i.e., pessoa que tem uma identidade, ou expressão
de gênero diferente do seu sexo atribuído) ou agênero (i.e., pessoa que tem
a identidade não contemplada dentro da classificação binária homem-mu-
lher). A identidade de gênero representa a maneira de os homens e
mulheres [cisgêneros, transgêneros ou agêneros] estarem no mundo con-
tribuindo para o desenvolvendo do sentimento de pertença a um grupo
sociocultural que represente o seu sentimento individual de identidade no
contexto social mais amplo. E, por sua vez, a sexualidade, componente
indispensável do gênero, que compreende a maneira como o homem e a
mulher expressam a sua afetividade sexual, se de modo heteroafetivo (i.e.,
atração sexual por pessoa do sexo oposto), homoafetivo (atração sexual
por pessoas do mesmo sexo) ou biafetivo (atração sexual por pessoas de
ambos os sexos).
A combinação do sentimento individual de identidade e a natureza da
orientação sexual explica e categoriza a diversidade sexual existente em

21
Conforme Miriam Pilar Grossi (Identidade de gênero e sexualidade, 2010, p. 12). Como visto nesse texto, as cate-
gorias sexo, gênero, identidade de gênero e sexualidade não são equivalentes, mas distintas e complementares entre
si, para interpretar a situação das mulheres na cultura ocidental em geral e na brasileira em particular. Ressalta-se
aqui que o campo de estudos sobre gênero vem se consolidando no Brasil, haja vista o crescimento da produção
brasileira especialmente após o ano de 2002, indicando um significativo aumento do interesse de estudiosos de di-
versos matizes acadêmicos. Uma multiplicidade de abordagens passou a tensionar as fronteiras do campo. Esse
diálogo interdisciplinar e transdisciplinar não se estabeleceu, contudo, de modo uniforme, sendo possível diferenciar
“teorias de gênero”, a fim de articulá-lo com outros sistemas de diferenciação e subordinação, como as relações
raciais, étnicas, de classes e de orientações sexuais como assinalam Farah, Diniz, Marcondes, Youssef e Silva (Gênero
e política pública: panorama da produção acadêmica no Brasil (1983-2015), 2018, p. 430).
78 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

uma sociedade, tornando possível às pessoas reconhecer-se, distinguir-se,


pôr-se no mundo como participantes de um movimento dinâmico, intera-
cional, e construir-se, individual e coletivamente, como sujeitos
heteroafetivo, homoafetivo, biafetivo ou assexual, travando as lutas sociais
essenciais para adaptar-se ao mundo, livrar-se da opressão/submissão e
conquistar liberdade e igualdade que são direitos inalienáveis de cidadãos
em uma sociedade democrática. A diversidade sexual se apresenta no con-
texto social como movimentos de lutas que aglutinam, de um lado, as
mulheres heteroafetivas ou cisgêneros e, de outro, as pessoas transgêneros
ou homoafetivos, que formam os conhecidos grupos LGBT 22 em torno de
causas e propósitos comuns que se voltam para reivindicar direitos, opor-
tunidades e um lugar no mundo.
As mulheres e os grupos (ou comunidades) LGBT lutam pelo direito
de construírem um sentimento de liberdade sobre o próprio corpo, sobre
a sua própria voz e sobre a sua própria expressão, pelo reconhecimento da
diversidade sexual e a promoção dos interesses dos homossexuais 23 diante
da sociedade brasileira.
A História mostra que as relações sociais são relações que forjam prá-
ticas de violência pela subjugação e exploração do homem pelo próprio
homem, tal como na metáfora hobbesiana Lupus est homo homini lúpus
24
. Essas relações sociais de dominação e submissão continuam presentes
até os dias atuais, utilizando mecanismos, táticas e manobras para trans-
formar as relações sociais, de gênero e afetivas, e assegurar o equilíbrio e

22
O termo transgênero é utilizado aqui para qualificar genericamente as pessoas cujo objeto do desejo sexual é uma
pessoa do mesmo sexo. A sigla LGBT significa: Lésbicas (homoafetividade feminina), Gays (homoafetividade mascu-
lina), Bissexuais (que exercem atração sexual pelo sexo masculino ou feminino), Travestis (pessoas que têm
identidade de gênero masculino e que objetivam a construção do feminino) e Transexuais ou Transgêneros (pessoas
que têm identidade de gênero diferente de seu sexo biológico e do papel que lhes são atribuídos). Há outras variantes
dessa sigla que buscam acomodar especifidades de gêneros, tais como: LGBTI, que adiciona ao grupo LGBT as pes-
soas intersexuais; ou, então, LGBTIQ+ que adiciona as pessoas queer, com sinal positivo (+). O sinal positivo tem
como propósito eliminar os aspectos ofensivos que o termo queer carrega em sua etimologia. Influenciada pelas obras
de Michel Foucault e Jacques Derrida, da década de 1970. A Teoria Queer expande o âmbito da análise para abranger,
conforme Richard Miskolci (A Teoria Queer e a Sociologia: o desafio de uma analítica da normalização, 2009), todos
os tipos de atividade sexual e de identidade classificados como "normativos" ou "desviantes”. A Teoria Queer começa
a se consolidar, em 1990, com Judith Butler (Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade, 2003).
23
Conforme AGLBT (Manual de comunicação LGBT: lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, 2015).
24
Isto é, o homem é o lobo do homem (Hobbes, 1983)
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 79

a manutenção da organização social vigente. O arcabouço conceitual de


que trata a identidade de gênero e a sexualidade aqui discutidas preconiza
uma luta social das mulheres, dos grupos LGBT, e por que não afirmar que
também trata da luta dos homens, os quais têm em vista a construção co-
letiva do sentimento de liberdade segundo os interesses de parte a parte.
Essa luta mostra que o empoderamento das mulheres e dos grupos LGBT
vem se alargando nas sociedades ocidentais 25 em geral e na sociedade bra-
sileira em particular. Isto vem, de certo modo, arrebatando opositores que
defendem a manutenção do status quo, constituindo-se ferrenhos e, por
vezes, violentos opositores, incultamente violentos, expondo as mulheres
e as pessoas LGBT a um outro tipo específico de violência – a violência de
gênero – discriminação, violência física e violência psicológica –, tipificada
como crime de ódio 26.
A partir dos compromissos assumidos pelo Brasil junto à ONU para
combater a desigualdade e a discriminação contra as mulheres e pessoas
LGBT 27, significativos avanços puderam ser verificados sobre essa questão
pela implementação de políticas públicas com vistas a proteger esses gru-
pos da população. Em 2013, a Secretaria de Políticas para as Mulheres
entrega à sociedade o PNPM 2013-2015 (Plano Nacional de Políticas para
as Mulheres – 2013-2015), quase 10 anos depois da sua edição inicial em
2003, como medida para avançar sempre na perspectiva do diálogo e da
construção coletiva com os movimentos de mulheres, feministas e demais
movimentos sociais, revertendo lógicas desiguais presentes há séculos na

25
Conforme Deutsche Welle (Parlamento alemão aprova 'terceiro gênero' em certidões de nascimento, 2018), citando
que o Parlamento Alemão aprovou o ‘terceiro sexo’ para intersexos, entrando em vigor no primeiro dia de 2019.
26
As leis brasileiras definem os crimes de ódio como sendo crimes motivados pelo preconceito contra um determi-
nado grupo social. Tal crime vai muito além de um crime individual, ele produz um efeito em todo o grupo a que as
vítimas pertencem, conforme diz a Dra. Flavia Teixeira Ortega (O que são crimes de ódio?, 2016, p. 1), “é um crime
coletivo de extrema gravidade”. Ver também o trabalho de Marcos de Jesus Oliveira (O crime de ódio contra LGBTs
no Brasil: algumas hipóteses interpretativas, 2016) que aborda crimes de ódio sob a perspectiva de algumas hipóteses
interpretativistas.
27
O Brasil é signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos; da Agenda 2030; da resolução sobre violência
LGBT, entre outros, que se destinam a promover a igualdade de homens e mulheres sem distinção de orientação
sexual e ‘tolerância zero’ contra qualquer forma de discriminação ou violência com base na orientação sexual. Se-
gundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), a população LGBT, as crianças e
adolescentes, as pessoas idosas e pessoas com deficiência estão entre os públicos considerados mais vulneráveis da
sociedade.
80 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

sociedade brasileira. As medidas contidas nesse plano visam a afirmar e


reafirmar os princípios orientadores da Política Nacional para as Mulheres
28
; pactuar políticas para transformar os espaços cristalizados de opressão
e invisibilidade das mulheres dentro do aparato estatal; e reorganizar to-
das as políticas públicas e das instituições para incorporar a perspectiva de
gênero, de modo que a ação do Estado como um todo seja a base da política
para as mulheres 29. No mesmo sentido, em maio de 2009, a Secretaria
dos Direitos Humanos apresentou à sociedade brasileira, aos gestores pú-
blicos e segmentos organizados da população LGBT o Plano Nacional de
Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais como medida para obter reconhecimento de seu
papel no combate à homofobia e para orientar a formulação de políticas
públicas que consigam responder às necessidades potencialidades e direi-
tos dessa população.
Esses dois planos nacionais contemplam princípios que são caros
tanto às mulheres como à população LGBT. Eles orientam sobre a igual-
dade no mundo do trabalho e autonomia econômica, sobre o
enfrentamento de todas as formas de discriminação e violência contra mu-
lheres e pessoas LGBT e sobre o enfrentamento do racismo, sexismo e
lesbofobia. De todo modo, não se pode afirmar que essas medidas são su-
ficientes para coibir a discriminação e a intolerância contra essas parcelas
da população. As violações vêm crescendo tanto em quantidade como em
gravidade como mostram os dados da monitoração dos direitos humanos
do Ligue 180 e o Disque 100 30. Dado o caráter de abrangência desses dois

28
Conforme Brasil (Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, 2013): a autonomia das mulheres em todas as
dimensões da vida; busca da igualdade efetiva entre mulheres e homens, em todos os âmbitos; respeito à diversidade
e combate a todas as formas de discriminação; e outros
29
Ibid.
30
São serviços subordinado ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH). O “Ligue 180”
(Atendimento a mulheres em situação de violência, 2018) é uma Central de Atendimento à Mulher em Situação de
Violência – é um serviço de utilidade pública gratuito e confidencial (preserva o anonimato), oferecido pela Secretaria
Nacional de Políticas, desde 2005 . Já o “Disque 100” é um serviço de recepção, análise e encaminhamento de denún-
cias de violações de direitos humanos relacionadas aos seguintes grupos e/ou temas: Crianças e adolescentes; Pessoas
idosas; Pessoas com deficiência; Pessoas em restrição de liberdade; População LGBT; População em situação de rua;
Discriminação ética ou racial; Tráfico de pessoas; Trabalho escravo; Terra e conflitos agrários; Moradia e conflitos
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 81

sistemas de apoio, não se pode desprezar a contundência das matérias que


circulam diariamente nas mídias informativas lançando luz sobre a reali-
dade da violência no Brasil.
Mulheres. Mais da metade da população brasileira (51,5%, conforme
censo IBGE 2012) é de mulheres que, em situação de violência, contam
com o ‘Ligue 180’, desde 2009, com cobertura nacional. Em 9 anos de ope-
ração, foram realizados mais de 6,6 milhões atendimentos, equivalente a
1 atendimento para cada 15 mulheres. No período de três anos, 2015 a
2017, foram realizados 46% de todos os atendimentos realizados desde a
implantação desse serviço, isto é, aproximadamente 3 milhões de atendi-
mentos, com uma média de 2,7 mil atendimentos por dia. Apenas no ano
de 2017 foram realizados cerca de 1,2 milhão de atendimentos, correspon-
dente a 18% de todos os atendimentos já realizados, média de 3,2 mil
atendimentos diários. Comparando os dados de 2017 em relação a 2015,
verifica-se um crescimento de 56% no volume de atendimentos e, em re-
lação ao ano de 2016, o crescimento é de 3%. Em 2017, 87,6% dos relatos
de violência foram motivados por violência física (42%); violência psico-
lógica (38%); e violência sexual (7,6%).
Segundo a pesquisa da Datafolha e Fórum Brasileiro de Segurança
Pública (FBSP), 4,6 milhões de mulheres foram tocadas ou agredidas fisi-
camente por motivos sexuais em 2018. Essa pesquisa também mostra que,
nesse mesmo ano, 536 mulheres foram vítimas de violência física por hora
e, também, que 9 mulheres foram vítimas de algum grupo de agressão por
minuto. 31
Nos primeiros 8 meses de 2018, em Minas Gerais, mais 68 mil novos
processos referentes à violência das mulheres foram distribuídos a juízes
mineiros. O Estado registrou 187 casos de feminicídio, entre janeiro e ju-
nho de 2018, uma média de 1 feminicídio por dia. Em 2017, foram
registradas mais de 145 mil ocorrências de mulheres que sofreram algum

urbanos; Violência contra ciganos, quilombolas, indígenas e outras comunidades tradicionais; Violência policial (in-
clusive das forças de segurança pública no âmbito da intervenção federal no estado do Rio de Janeiro); Violência
contra comunicadores e jornalistas; e Violência contra migrantes e refugiados.
31
Conforme Instituto Patrícia Galvão (9 mulheres foram vítimas de agressão por minuto em 2018, 2019).
82 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

tipo de lesão, sofrimento físico, sexual, psicológico ou patrimonial, e 459


feminicídios. 32
Matéria publicada no Jornal Nacional dá conta de que 84 mulheres
foram assassinadas por crimes de ódio nos primeiros oito meses de 2018
no estado de São Paulo. Nessa mesma reportagem, destacam-se dois casos
trágicos com repercussão nacional: os assassinatos de Marielle Franco e da
advogada Tatiane Spitzner 33.
LGBT. O site Brasil de Fato (BdF) estima em 20 milhões de pessoas
a população brasileira LGBTI 34 a qual conta, desde 2011, com o serviço
‘Disque 100’. O último balanço anual desse serviço, com dados completos
até 2017 e parciais de 2018, dá conta do acolhimento de mais de 13 mil
denúncias com mais de 24 mil violações associadas, ou seja, quase 1,9 vio-
lações por denúncia e 1 denúncia para cada 1,5 mil pessoas LGBT. Nos
últimos 3 anos completos (2015, 2016 e 2017), cerca de 5,5 mil denúncias
foram acolhidas, representando 42% do volume de denúncias acolhidas
desde a implantação desse serviço, com a média 5,1 denúncias acolhidas
por dia. Apenas em 2017 foram apresentadas cerca de 1,7 mil denúncias
representando 13% do total e, em média, 4,7 denúncias acolhidas por dia,
e cerca de 3 mil violações associadas, assim distribuídas: 48,6% por dis-
criminação; 28,7% por violência psicológica; 12,8% por violência física; e
9,9% por outros motivos 35.
Verifica-se um curioso fenômeno não explicado pelos administrado-
res desse banco de dados de registros de violações contra o público LGBT,
qual seja, o recorde de denúncias acolhidas deu-se em 2012, com 3 mil
denúncias e quedas nos dois anos seguintes, respectivamente, 1,7 mil e 1
mil denúncias acolhidas. Já em 2015 deu-se um novo pico de denúncias
acolhidas, o segundo maior volume da série histórica, com quase 2 mil

32
Conforme Letícia Fontes (Ações de violência contra mulher superam as de crime de trânsito, 2018).
33
Conforme Jornal Nacional (Crimes de ódio matam 84 mulheres em SP nos 8 primeiros meses de 2018, 2018):
Marielle Franco assassinada a tiros em uma rua do Rio de Janeiro e Tatiane Spitzner esganada e jogada da sacada de
seu apartamento pelo marido, em Guarapuava, no Paraná.
34
Conforme Brasil de Fato (Diversidade, 2017) não há ainda um censo IBGE definindo o tamanho dessa população.
35
Conforme Disque 100 (2017) – LGBT (MMFDH, 2018).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 83

denúncias e, novamente, nos dois anos seguintes, em 2016 e 2017, novas


quedas, respectivamente, 1,8 mil e 1,7 mil denúncias acolhidas. Se esse ser-
viço, de um lado, aponta para um decrescimento à taxa de 15% no volume
anual de denúncias em relação ao ano recorde de 2012, de outro lado, as
notícias publicadas na mídia informativa brasileira dão conta de um cená-
rio dramático, extremado e estarrecedor, de violação contra essa
população. Em 2018 houve 420 vítimas fatais de discriminação contra pes-
soas LGBT 36 e 445 mortes na rua, por armas de fogo em 2017, superando
em 30% o número de assassinatos LGBT ocorridos em 2016 37.
No ano de 2017, a cada 19 horas um LGBT foi assassinado ou se sui-
cidou vítima da “LGBTfobia”. Os Estados que mais registraram mortes:
São Paulo (59), Minas Gerais (43) e Bahia (35). Os menores de 18 anos
foram as maiores vítimas de mortes (41,2%), seguido pelas vítimas de 18
a 40 anos (38,6%) e acima de 40 anos (20,2%). Das 445 vítimas de ho-
motransfobia registradas em 2017, 194 eram gays (43,6%), 191 trans
(42,9%), 43 lésbicas (9,7%), 5 bissexuais (1,1%) e 12 heterossexuais
(2,7%). Esse quadro faz o Brasil ser o campeão mundial desse tipo de
crime. 38
Dois aspectos sintetizam bem a questão da LGBTfobia no Brasil: a
‘ignorância é a mãe do preconceito’ e ‘o preconceito tem a ver com os ou-
tros, não comigo’, segundo pesquisas, respectivamente, da Fundação
Perseu Abramo 39 e da Agência Patrícia Galvão 40. As pesquisas da Funda-
ção Perseu Abramo dão conta de que é a escolaridade um dos fatores que
mais influenciam o nível de preconceito da população em relação a homos-
sexuais, ou seja, quanto mais anos de estudo, maior é a aceitação do

36
Conforme Marco Hermanson (Relatório registra 420 vítimas fatais de discriminação contra LGBTs no Brasil em
2018, 2019) sobre o relatório Mortes Violentas da População LGBT.
37
Conforme Luíza Souto (Assassinatos de LGBT crescem 30% entre 2016 e 2017, segundo relatório, 2018).
38
Ibid.: utilizando dados do Relatório Mundial da Transgender Europe, Luíza Souto informa que de um total de 325
assassinatos de transgêneros registrados em 71 países entre 2016 e 2017, mais da metade (52%) ocorreram no Brasil
(171), seguido do México (56) e dos Estados Unidos (25). Em outra matéria, conforme Larissa Bortoni (2018) publica,
o Brasil é o país onde mais se assassina homossexuais no mundo.
39
Conforme Fundação Perseu Abramo (Pesquisa mostra que escolaridade causa impacto em nível de preconceito
contra homossexuais, 2011).
40
Conforme Agência Patrícia Galvão (Dossiê: Violência Contra as Mulheres, Lésbicas, Bis e Trans, s/d).
84 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

indivíduo em relação à diversidade sexual, enquanto que entre aqueles que


nunca frequentaram a escola, o índice de homofóbicos é 52%, entre aque-
les com nível educacional superior, o índice é de 10%. Além disso, essa
fundação informa que as mulheres são menos homofóbicas (20%) do que
os homens (30%), e a variação de renda não tem grande impacto nesse
comportamento.
Já as pesquisas da realizadas pela Agência Patrícia Galvão dão conta
que mais de 90% dos entrevistados admitem a existência de preconceitos
contra a população LGBT, sendo 92% contra gays; 92% contra lésbicas;
90% contra bissexuais; 93% contra travestis; e 91% contra transexuais.
Quando perguntados se são preconceituosos, mais de 69% dos entrevis-
tados admitem não sê-lo. Ou seja, apenas 31% dos entrevistados admitem
ser preconceituosos, com pequenas variações pela natureza da orientação
sexual, assim distribuídos: 29% admitem preconceito contra travestis,
sendo que, destes, 14% admitem ser muito preconceituosos; 28% contra
transexuais e, destes, 15% admitem ser muito; 27% contra lésbicas e con-
tra bissexuais, sendo que, destes, respectivamente, 15% admitem ser
muito; 26% admitem preconceito contra gays e, destes, 9% admitem ser
muito preconceituosos.
Não apenas a mídia informativa, os relatórios oficiais e documentos
históricos dão conta dos números da intolerância de gênero. Em pesquisa
realizada pelos autores do presente trabalho, que contou com 1.009 res-
pondentes, 324 afirmaram já terem sido vítimas de intolerância de gênero,
representando cerca de 32% dos indivíduos que participaram dessa pes-
quisa, conforme a Tabela 4. Entre os respondentes, conforme a Tabela 14,
pessoas do sexo feminino são as principais vítimas, ou seja, cerca de 43%
dos indivíduos do sexo feminino declararam já ter sido vítimas de intole-
rância de gênero, ao passo que aproximadamente 13% dos indivíduos do
sexo masculino afirmaram ter sofrido esse tipo de intolerância.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 85

Tabela 14 – Intolerância de gênero: quantidade de vítimas e não-vítimas da amostra por sexo (%)
Vítima de intolerância
Gênero
Sim Não
Masculino 13% 87%
Feminino 43% 57%

Quanto à orientação sexual, os bissexuais e homossexuais são as prin-


cipais vítimas de intolerância de gênero. A Tabela 15 mostra que 59% das
pessoas que declararam ser bissexuais, declararam ter sido vítimas de in-
tolerância de gênero por sua orientação sexual, enquanto 55% das pessoas
que declararam ser homossexuais, também declararam ter sido vítimas
desse mesmo tipo de intolerância. A estes seguem as pessoas que declara-
ram ser desinteressadas sexualmente, das quais 41% declararam ter sido
vítimas de intolerância e, depois, por 29% dos que declararam ser hete-
rossexuais, igualmente vítimas desse mesmo tipo de intolerância.
Tabela 15 – Intolerância de gênero: quantidade de vítimas e não-vítimas da amostra por orientação sexual
(%)
Vítima de intolerância
Orientação Sexual
Sim Não
Bissexual 59% 41%
Homossexual 55% 45%
Heterossexual 29% 71%
Desinteressado sexualmente 41% 59%
Outros 0 100%

As principais agressões sofridas declaradas pelas vítimas, conforme a


Tabela 5, foram piadas e desqualificação pessoal devido às suas ideias e
formas de pensar representando, cada qual, 65% das agressões. Desqua-
lificação por possuir determinadas características físicas ou aparentes e
xingamentos alcançaram, respectivamente, cerca de 38% e 30% das
agressões. A violência física representou cerca de 6% das agressões. As
demais formas de agressões – isolamento de grupo, calúnia e difamação,
humilhações públicas de natureza moral – situaram-se no patamar entre
23% e 29% das agressões sofridas pelas vítimas.
Os principais agressores declarados pelas vítimas, conforme a Tabela
6, foram colegas de trabalho, desconhecidos e colegas de escola, respecti-
vamente, com 57%, 45% e 33% das agressões sofridas pelas vítimas. Os
86 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

agressores parentes (família estendida) e familiares diretos foram respon-


sáveis, respectivamente, por 32% e 29% das agressões, segundo
declaração das próprias vítimas, enquanto amigos e/ou colegas em geral
representaram 27% das agressões.
Em relação ao apoio recebido, conforme a Tabela 7, 46% das vítimas
declararam não ter recebido apoio. Entre os que declararam ter recebido
apoio, 35% das vítimas receberam apoio de amigos, 23% de familiares,
19% do cônjuge e 11% de colegas de trabalho. Vale destacar que apenas
cerca de 0,9% das vítimas receberam assistência social e psicológica pú-
blica – organização pública e 12% receberam assistência psicológica
particular.
Em todo ato associado à intolerância de gênero, verifica-se um ou
mais grupos de agressões e de agressores. A Tabela 16 mostra, ao se rela-
cionar os grupos de agressões e de agressores, que as vítimas sofrem,
predominantemente, com as piadas e com a desqualificação pessoal devido
às suas ideias e forma de pensar praticadas por todos os grupos de agres-
sores, para a maioria das vítimas. Assim sendo, veja-se: os amigos e
colegas em geral, os parentes (família estendida) e os colegas de escola
praticaram piadas contra, respectivamente, 89%, 83% e 81% das vítimas.
Os demais grupos – familiares diretos, desconhecidos e colegas de trabalho
– não ficaram muito aquém, entre 70% e 73% das vítimas sofreram agres-
sões por piadas desses grupos de agressores. Já a desqualificação pessoal
devido às ideias e formas de pensar também constitui uma significativa
forma de agressão pelos grupos de agressores, sendo que entre 74% e
85% das vítimas sofreram este tipo de agressão, exceção feita aos desco-
nhecidos que promoveram tal agressão em cerca de 61% das vítimas.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 87

Tabela 16 – Intolerância de gênero: quantidade de vítimas agredidas por grupo de agressões e grupo de
agressores (%)
Grupo de agressores Amigos / Colegas de Parentes
Familiares Colegas de Desco-
colegas em Escola / Fa- (família es-
Diretos Trabalho nhecido
Grupo de agressões geral culdade tendida)
Socos, pontapés, tapas, empur-
13% 10% 8% 10% 12% 8%
rões etc.
Xingamentos e agressões verbais 48% 38% 31% 42% 43% 40%
Vítima de piadas no ambiente
73% 89% 70% 81% 83% 72%
onde estava
Desqualificação pessoal devido às
84% 77% 74% 80% 85% 61%
suas ideias e forma de pensar
Humilhações públicas de natureza
41% 39% 34% 44% 43% 36%
moral
Desqualificação por possuir deter-
minadas características físicas ou 47% 53% 46% 55% 53% 46%
aparentes
Calúnia ou difamação 41% 31% 28% 39% 35% 29%
Isolamento de grupo 39% 34% 28% 38% 39% 20%

Foi possível levantar a relação entre grupos de agressões e apoio. A


Tabela 17 apresenta em percentuais os grupos de agressões sofridas e, de
acordo com este grupo de agressão, o tipo de apoio recebido pela vítima.
Chama a atenção o baixo apoio de assistência psicológica pública.
Tabela 17 – Intolerância de gênero: quantidade de vítimas apoiadas (ou não) por grupo de apoio recebido e
grupo de agressões (%)
Apoio de
Grupo de Apoio Não Apoio Apoio de Apoio de Apoio de as-
cônjuge, Apoio de Apoio de
recebido rece- de colegas assistência sistência
parceiro(a), familia- desco-
beu ami- de traba- psicológica psicológica
compa- res nhecidos
Grupo de agressões apoio gos lho particular pública
nheiro (a)
Socos, pontapés, tapas,
55% 10% 15% 30% 0% 10% 20% 10%
empurrões etc.
Xingamentos e agressões
37% 20% 28% 51% 6% 13% 21% 2%
verbais
Vítima de piadas no am-
42% 21% 27% 44% 4% 14% 14% 1%
biente onde estava
Desqualificação pessoal
devido as suas ideias e 43% 20% 23% 42% 2% 11% 14% 1%
forma de pensar
Humilhações públicas de
40% 26% 28% 45% 6% 15% 16% 2%
natureza moral
Desqualificação por pos-
suir determinadas
43% 23% 29% 44% 5% 16% 16% 2%
características físicas ou
aparentes
Calúnia ou difamação 39% 25% 31% 49% 5% 16% 19% 1%
Isolamento de grupo 45% 21% 30% 41% 4% 11% 19% 0%
88 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

No teste de Análise de Correspondência (ANACOR) elaborado pelos


autores, conforme sinalizado na Figura 2, é possível observar, dois agru-
pamentos entre agressores e tipos de agressão. Um deles, o maior,
compreende o agrupamento das variáveis X3.A1, X3.A2, X3.A4, X3.A5,
X3.B2, X3.B5, X3.B6, X3.B7 e X3.B8, que pode indicar uma tendência de
os agressores que fazem parte dos grupos “família primeiro grau”, “ami-
gos”, “faculdade escola” e família segundo grau” cometerem as agressões
“verbal”, “humilhação moral”, “desqualificação característica física, “calú-
nia difamação”, e “isolamento”. E o outro, o menor, compreende o
agrupamento entre as variáveis X3.A3, X3.A6, X3.B3 e X3.B4 pode indicar
uma relação entre as agressões “piadas” e “desqualificação ideias” e os
agressores “colegas trabalho” e “desconhecidos”.

Figura 2. Intolerância de gênero: mapa perceptual para as variáveis referentes aos grupos de agressores e aos gru-
pos de agressões.

Diversas são as formas de preconceitos, discriminações e intolerân-


cias de gênero. Elas estão associadas a machismo, sexismo, misoginia,
homofobia, transfobia, bifobia, lesbofobia etc. Na fase qualitativa da pes-
quisa, os pesquisados, ao serem incentivados em relatar os casos de
intolerâncias sofridas, a grande maioria das respondentes foram mulhe-
res. Foi possível categorizar as situações mais comuns dos mais de 30
relatos realizados.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 89

Primeiro foi o machismo (relacionados ao sexismo e misoginia) e


suas manifestações na família, relacionado ao estado civil, ao combate ao
feminismo, à objetificação sexual, ao trabalho e à inserção da mulher no
mundo.
Em relação à família, as queixas apresentadas nos relatos mostram
que o fato de ser mulher é motivo para sofrer intolerância. O que chama
atenção nos relatos é que essa forma de intolerância ocorre frequente-
mente de familiares próximos, de convivência diária, como aponta a fala a
seguir:

“[...] uma das principais causas é o fato de ser mulher em uma sociedade ma-
chista. Tive um padrasto que me torturava emocional e psicologicamente e
não confiava em mim pelo simples fato de eu ter uma vagina e não um pênis”.

Na fala, a vítima demonstra claramente situação de misoginia. As vi-


olências sofridas por ela mostram que a situação vai além da
discriminação, já que a palavra tortura indica persistência e continuidade
das agressões sofridas pela vítima.
Entre as situações comuns que ocorrem no interior das famílias, a
reprodução das situações de preconceito, discriminação e intolerância es-
tão associadas às diferenças de gerações, conforme o depoimento em
relação:

“Quanto à questão de gênero, meu avô é extremamente machista e cresci ou-


vindo absurdos sobre as mulheres.”

A reprodução do machismo não ocorre somente de homens em rela-


ção às mulheres, mas também entre mulheres:

“As mulheres da minha família são ainda mais machistas que os homens. A
pressão para ser a mulher padrão, que atende os homens, que cuida dos filhos
e da casa, sempre foi muito forte na minha família, desde minha avó até mi-
nhas irmãs mais velhas, passando pela minha mãe e, obviamente, minha
sogra. O pior é que os filhos com o tempo acabam cobrando da gente a mesma
coisa porque ‘aprendem’ a se tornarem machistas com o tempo”.
90 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

É obvio que a origem do machismo está no poder que os homens


tentam instituir e reproduzir socialmente e isso influencia as mulheres a
fazer o mesmo. Nessa situação é importante não atribuir às mulheres a
principal fonte da cultura machista. As adesões de muitas delas a essa cul-
tura ocorrem por isomorfismo mimético e pela coação e coerção sofridas
pelos homens. Existe, ainda, a sutileza com que toda forma de dominação
é reproduzida, com adesão das pessoas pela falta de questionamentos so-
bre a realidade.
A realidade do machismo passa pela tomada de consciência das víti-
mas, das autoridades legais e da população em geral. O processo de
conscientização é lento e requer uma nova forma de se relacionar com a
cultura do machismo, conforme depoimento:

“A vida toda fui vítima do machismo, mas não tinha consciência. Em um de-
terminado momento da minha existência, comecei a aprender o que é o
machismo e percebi que está tão infiltrado em nossa cultura que até mesmo
as mulheres são extremamente machistas e não sabem. O machismo, assim
como diversas formas de preconceito, tem sutilezas enraizadas em nossa soci-
edade e dificilmente serão eliminadas”.

Fica claro que o processo educativo é extremamente importante no


processo de superação do machismo como forma de relacionamentos in-
terpessoais e social. As pessoas que têm consciência e passam a lutar
contra ele, quando mulheres, acabam sofrendo duplamente a violência.

“Sofro agressões e xingamentos por ser feminista e não tolerar machismo ou


qualquer tipo de preconceito. Sou considerada radical por isso”.

As reações geralmente são virulentas e violentas contra aquelas que


se posicionam como feministas. Geralmente são desqualificadas e passam
a ser vistas como radicais. Não é incomum sofrerem julgamentos morais
machistas, os quais afirmam que elas são “mulheres mal-amadas”, “que
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 91

precisam de um homem para dar um jeito nelas”, “que se tornaram femi-


nistas porque não têm conseguem arranjar um homem”, ou ainda
justificativas ainda mais agressivas e deselegantes.
O machismo é uma fonte de preconceitos e um celeiro de julgamentos
morais que tentam instituir uma forma de criar distinções entre homens
e mulheres, obviamente tentando estabelecer superioridade aos primeiros.
A forma como se tenta estabelecer essa superioridade, geralmente, é
pela instituição de regras, normas, valores e crenças, de natureza moral
ou racionalizações baseadas em falsos pressupostos.
Entre elas, o estado civil está entre as mais comuns. Nas respostas
qualitativas, mulheres respondentes manifestaram sofrer preconceito e
discriminação pelo fato de serem divorciadas, algo que não ocorreu com
homens. A ideia de que as mulheres nasceram para o matrimônio, mater-
nidade e funções específicas, por conta de serem mais “sensíveis” do que
os homens, serve para estabelecer uma estruturação social imaginária que
tenta definir papéis a partir de falsos pressupostos biológicos e psicológi-
cos.
Depoimentos mostram todo preconceito em relação às mulheres sol-
teiras, mães, ou aquelas que escolheram estar solteiras ou sem parceiro. O
depoimento a seguir mostra claramente uma miríade de preconceitos:

“Sempre recebi muitas "piadinhas" no que diz respeito a ser mulher, solteira,
ou quando estive casada com um homem que não era o pai do meu filho. Fra-
ses como: "como pode uma mulher bonita como você solteira”; “você não é
casada com o pai do seu filho?”; “você apenas se juntou, não casou?"; "você
vai se separar de novo, e seu filho?" Inclusive recebi questionamentos de ou-
tras mulheres sobre ser mulher casada por duas vezes e com um filho sozinha
para criar.”

O maior número de depoimentos em relação à intolerância de gênero


refere-se aos problemas que as mulheres sofrem no ambiente de trabalho
ou relacionado a vida profissional. Conforme depoimento: “Ofensas por
ser mulher, polaca e exercer cargo superior” são comuns segundo uma
depoente.
92 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Tentar estabelecer posição subalterna é outra situação corriqueira.


Na tentativa de estabelecer o trabalho como uma extensão do ambiente
doméstico – com todo seu preconceito, obviamente – é algo corriqueiro.
Por exemplo:

“Em quase todas as reuniões de trabalho pedem que eu ou outra mulher pe-
guemos café ou faça anotações (como se homens não fossem capazes) e
quando eu torno a situação clara (de subalternidade), frequentemente as pes-
soas criticam, como se eu estivesse querendo criar um problema”.

Sair da condição de servir é sempre um problema. Há uma estrutu-


ração social que sedimenta a moral dominante dos homens em relação às
mulheres. Quando as mulheres estão em posições de liderança e comando,
os ataques podem ser ainda maiores.

“Como mulher percebo que alguns colegas e funcionários (sou profissional li-
beral) se sentem em posição de vantagem. Já vivenciei de desrespeitos
interrompidos por um sócio homem”.

Mesmo em relação de equidade hierárquica, tenta se reproduzir um


sistema de autoridade baseada na tradição machista. Os motivos para as
discriminações podem ser diversos, que sempre somados à questão de gê-
nero se acentuam, conforme depoimento:

“Ao mesmo tempo, pelo fato de ser administradora, sofremos preconceito e


certa intolerância dos colegas de trabalho que são da área de exatas. Eles ten-
dem a desqualificar nossas ideias e opiniões por não sermos da área deles”.

As formas de violências podem ser as mais diversas e estão associadas


ao nível hierárquico dos envolvidos. Todavia, o que prevalece, no caso de
relações profissionais que envolvem mulheres e homens, é a cultura do
machismo.

“Outro preconceito que sempre sofro é por ser mulher, engenheira civil atu-
ante na construção. Sempre sou descreditada pelos homens em cargos
superiores ou mesmo nível, praticam assédios morais, gaslightings, manex-
planing, interrupções, mesmo tendo conhecimento igual ou superior a eles”.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 93

Em situações mais sérias, as violências podem ser diversas, conforme


depoimento a seguir:

“Sofri assédio durante a gravidez e desqualificação por ser mulher. No geral,


tenho que provar o tempo todo que posso fazer o trabalho igual ou melhor que
os colegas homens. Já sofri assédio moral, assédio sexual. Realizando o mesmo
trabalho, ganho salário muito inferior ao dos colegas homens, além de perder
oportunidades de trabalho também por causa da religião, sem ser considerada
minha capacidade profissional.”

Situações como a relatada são comuns, conforme pesquisas sobre o


tema na área. A cultura geral é incorporada e reproduzida no ambiente
organizacional. O enfrentamento é difícil porque se há uma estrutura so-
cial que fomenta, incentiva – mesmo que indiretamente –, reproduz e
legitima, a busca por ajuda acaba sendo difícil. Mesmo em ambientes em
que supostamente existam pessoas mais esclarecidas, a intolerância de gê-
nero é frequente:

“Enfrentei intolerância relacionada a gênero em universidades e cargos de ges-


tão. A experiência que tive foi claramente de boicote por ser mulher. Tive
minha autonomia intelectual impedida, ouvi piadas sobre mulheres, enfrentei
um ambiente de patriarcado total”.

As mulheres também são vistas como objetos de prazer masculino.


As formas mais comuns e violentas são a redução da mulher a objeto se-
xual. Depoimentos e relatos apontam que há um permanente processo de
fetichização a partir das diversas formas como o feminino se apresenta na
sociedade, exemplificado na fala a seguir:

“Não obstante, o preconceito que paira sobre as mulheres asiáticas é ainda


mais potencializado, incluindo na lista a fetichização extrema baseada na ideia
da indústria pornográfica de que as mulheres orientais são ‘exóticas’ e ‘obedi-
entes’”.
94 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

De forma ainda mais violenta, as mulheres de cor de pele negra rela-


tam que é comum a condição de objetos de prazer masculino:

“Os homens, principalmente os brancos, acham que nós que somos negras
servimos para realizar os prazeres sexuais deles. Principalmente aqui no Sul,
a ideia que se tem da mulher negra é que ela vive como objeto sexual disponí-
vel para eles!”.

O fato é que ser mulher em um país como o Brasil é difícil. Mesmo


mulheres que em situação financeira melhor, heteronormativas, que não
sofrem racismo, estão sujeitas a outras formas de intolerância, conforme
depoimento:

“Ser mulher, heterossexual, branca, de classe média alta é um prato cheio para
preconceitos e piadinhas. É muito comum homens fazerem piadas de mulher,
de feminismo (mesmo quando sequer entendem o conceito disto). Em diver-
sas situações eu tenho medo de andar na rua por ser mulher, tanto no Brasil,
quanto fora, especialmente em países tradicionalmente machistas. Não tenho
coragem de viajar sozinha para qualquer lugar por medo de sofrer violência.
Já sofri assédio sexual na Malásia e na China, estando acompanhada de um
homem”.

Outro depoimento que associa a misoginia com a intolerância geo-


gráfica cultural mostra o sofrimento de uma brasileira viajando para
outros países:

“Detesto ser mulher brasileira, principalmente, no exterior. Somos "rotuladas"


como putas, só porque somos brasileiras”.

Ampliando a discussão da sexualidade para além da relação homem-


mulher, a intolerância é extremamente presente com todos que fogem à
heteronormatividade. Seguindo os resultados da fase quantitativa da pes-
quisa, na fase qualitativa fica também evidente que homossexuais,
bissexuais ou mesmo assexuados sofrem preconceito, discriminação e in-
tolerância. A fala a seguir sintetiza a da maioria dos respondentes:
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 95

“Quando algumas pessoas descobrem que sou homossexual, mudam comple-


tamente a forma como se relacionam comigo. Muitas se afastam, deixam de
me incluir nos encontros da turma, começam a fazer piadinhas, brincadeiras
de gay. Eles imaginam que a gente só pensa em sacanagem, que vivemos uma
vida promíscua e que temos todas as doenças sexuais do mundo”.

Alguns relatam que a orientação sexual já trouxe situações de violên-


cia física, conforme relato a seguir:

“É muito comum sermos atacados fisicamente por pessoas intolerantes. Eu


mesmo já apanhei de vários homens porque estava com meu namorado de
mãos dadas. No fim eu e meu namorado fomos parar no hospital com vários
ferimentos”.

Entre as formas de intolerâncias, conforme depoimentos, a de gênero


relacionada à sexualidade é uma das intolerâncias que mais produz agres-
sões físicas e humilhações.
A aprovação de políticas públicas para promover a igualdade entre
mulheres e homens sem distinção de orientação sexual e a ‘tolerância zero’
contra qualquer forma de discriminação ou violência com base na orien-
tação sexual sinalizam importantes avanços no Brasil. Os dados
analisados, tanto os publicados na mídia impressa como os apurados na
pesquisa realizada pelos autores, mostram que os esforços aplicados no
combate à intolerância de gênero não têm sido suficientes para fazer re-
crudescer a discriminação e a intolerância instauradas no país. O Brasil
continua sendo um grande devedor de resultados práticos, positivos, nes-
ses campos. Essa situação macula a imagem do país no mundo a ponto de
ser, internacionalmente, considerado como o país onde mais se assassina
homossexuais no mundo.
4

Intolerância geracional e de idade

Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Herminda A. Bulhões S. Hashimoto
Rejane Cioli
Milena Cristina da Silva
Rodrigo Alves Silva

Muito tem sido dito sobre a questão geracional e de idade. Falam


tanto as pessoas em seus cotidianos, como jornalistas e acadêmicos. Não é
incomum a manifestação de certa preocupação acerca do envelhecimento
da população e o quanto essa condição afeta a maioria das famílias brasi-
leiras para prover cuidados e qualidade de vida a seus entes idosos 1. Além
disso, é frequente a veiculação de notícias na mídia informativa, quase que
diariamente, abordando casos de discriminação e intolerância contra ho-
mens e mulheres idosos. No campo científico, as abordagens utilizadas
para formar um conceito de gerações têm inquietado pesquisadores, no-
tadamente sociólogos, pelos diversos discursos e narrativas que o campo
apresenta: a geração é uma questão biológica – nascimento, envelheci-
mento e morte – medida pelo tempo; ou então a geração resulta de
estruturas que constituem o mundo humano, num dado momento pre-
sente, vinculadas a processos históricos de formação; ou ainda a geração

1
Conforme Estadão (Estudo aponta Suíça como melhor país do mundo para idosos, 2015): em termos de qualidade
de vida dos idosos, na categoria “ambiente favorável” que mede a satisfação com segurança e acesso a transportes
públicos, o Brasil encontra-se posicionado entre os últimos lugares: 87º. no rol de 96 países.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 97

se forma quando os sujeitos adquirem ativamente o conhecimento sócio-


histórico-cultural pela linguagem e na interrelação com outros sujeitos, no
presente e no contexto social no qual se encontram inseridos; ou, então, é
tudo isso mesmo.
Não se pode afirmar que a formação do conceito de geração esteja
bem equacionada ou bem delineada no meio acadêmico. Os estudos gera-
cionais são relativamente recentes e há, sem dúvida, muito ainda a ser
esclarecido. Talvez a principal inquietude dos sociólogos esteja na quase
ausência de uma demarcação conceitual da noção de “geração” 2, o que
delimita ou limita o campo de conhecimento próprio do pesquisador. Mas
esforços notáveis têm sido feitos desde a época de Auguste Comte, o pri-
meiro a desenvolver um estudo científico sobre a questão.
Entre 1830 e 1840, Comte examinou a sucessão das gerações como a
força motora do progresso histórico, levando-o a crer que o ritmo desse
progresso é determinado pelo ritmo da mudança geracional 3 (i.e., pers-
pectiva positivista). Algumas décadas mais tarde, em 1866, Wilhelm
Dilthey, o primeiro a mostrar interesse no fenômeno das gerações na his-
tória, investigou as origens da homogeneidade das tradições intelectuais,
tomando como análise o romanticismo germânico. Nesse estudo, Dilthey
desenvolveu a hipótese de que a absorção de impressões formativas du-
rante a adolescência tende a transmitir para a vida, a grande número de
indivíduos da mesma idade, um fundo de diretrizes filosóficas, sociais e
culturais relativamente homogêneas (perspectiva historicista) 4.

2
O termo geração vem colocado entre aspas por ser discutido aqui como fenômeno social e uma categoria sociológica,
no que difere dos significados pelos dicionários, tais como, apresentado pelo Dicionário Houaiss (Houaiss & Villar,
2007): “grau de filiação em linha direta”; “tronco familiar”; ou “conjunto de pessoas que têm aproximadamente a
mesma idade”.
3
Conforme Auguste Comte (Curso de filosofia política, 1978): o progresso geracional ocorre em ciclos aproximados
de 30 anos.
4
Conforme Hans Jaeger (Generations in history: reflections on a controversial concept , 1985): Dilthey descobriu que
muitos dos representantes mais importantes do romanticismo germânico nasceram em anos adjacentes, tais como:
Schlegel em 1767, Schleiermacher em 1768, Holderlin em 1770, Novalis e Tieck em 1773. Ou seja, Dilthey acreditava
que as impressões formativas que as pessoas recebem durante um curto período na adolescência dificilmente podem
ser descartadas mais tarde através de fortes impressões de natureza oposta. Com essa suposição, Dilthey formulou
uma alternativa à "hipótese da taxa de pulso". Essa hipótese alternativa também pode ser encontrada, embora seja
menos sugestiva, em alguns trabalhos de autores anteriores do século XIX. (p. 276).
98 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Pouco mais de seis décadas depois de a obra de Dilthey ter sido pu-
blicada, Karl Mannheim, opondo-se a ele e a Comte, trouxe para o campo,
em 1928, uma nova abordagem de natureza interpretativista (ou sócio-
histórica cultural) sobre a análise e formação das gerações. O objetivo dele
era compreender a estrutura dos movimentos sociais e intelectuais e o
ritmo acelerado de mudança social característico de sua época. Esse traba-
lho traduziu-se em uma grande referência para os estudos e debates
acadêmicos acerca do problema geracional e de idade. Do trabalho de Man-
nheim serão aportados alguns fragmentos para ajudar a contextualizar a
noção de geração necessária ao desenvolvimento deste capítulo 5.
A formulação de Mannheim compreende a ideia de que a existência
de gerações somente se dá pelos vínculos geracionais que se estabelecem
pela participação ou prática coletiva que levam os contemporâneos a re-
fletir sobre os mesmos eventos ou acontecimentos em comum 6. Ou seja,
a geração tem um sentido de comunidade de vida na qual seus membros
têm um conhecimento concreto uns dos outros e sua unidade mental e
espiritual é garantida pela proximidade física 7. Deste modo, para as gera-
ções existirem em uma sociedade, é indispensável a “interação social entre

5
Conforme Karl Mannheim (O problema sociológico das gerações, 1982). A publicação do referido texto, na versão
em português, sofreu críticas tanto pela redução do número de páginas, notadamente, a subtração do primeiro ca-
pítulo, como por sua tradução. De todo modo, a versão espanhola pode perfeitamente suprir tais deficiências, ver em
Karl Mannheim (El problema de las generaciones, 1993).
6
Ibid. (p. 68): situa o centro organizador do problema das gerações no campo da sociologia e sugere ajustes em seus
pressupostos epistemológicos, quais sejam: realizar a transição da estática formal para a dinâmica formal e, depois,
para a sociologia histórica. Ou seja, Mannheim propõe fazer a transição do estudo da “existência social do homem de
um modo exclusivamente estático” para enfocar “o dinamismo social e [as] leis que governam a ação das compo-
nentes dinâmicas do processo social” e, depois, alcançar a sociologia histórica aplicada que estuda as criações do
sujeito coletivo, tornando possível, à luz dessas três perspectivas, abranger completamente o campo da pesquisa
sociológica geracional.
7
Ibid. (pp. 69, 71-73): a geração não é e nem se forma pela existência de grupos concretos, grupos associativos,
grupos etários ou de classes sociais, isto porque, conforme justifica o autor: [i] a geração não é um grupo concreto
no sentido de uma comunidade, um grupo não pode existir sem os seus membros terem um conhecimento concreto
uns dos outros, e que cessa de existir como uma unidade mental e espiritual assim que é abolida a proximidade
física”. [...] as organizações formadas para um objetivo específico, [...] se caracterizam por um ato deliberado de
fundação, estatutos, escritos, e uma maquinaria para dissolver a organização – características que servem para man-
ter coeso o grupo, mesmo no caso de inexistirem laços de proximidade espacial e de comunidade de vida. [ii] a
antropologia e a biologia apenas nos ajudam a explicar os fenômenos da vida e da morte, o período limitado de vida,
e as mudanças mentais, espirituais e físicas que acompanham o envelhecimento enquanto tal; elas não oferecem
qualquer explicação para a relevância assumida por fatores primários na modelagem dos inter-relacionamentos so-
ciais em seus fluxos históricos. [iii] para qualquer grupo de indivíduos que partilhem a mesma posição de classe, a
sociedade sempre aparece sob o mesmo aspecto, tornado familiar através da experiência constantemente repetida.
Pode-se dizer, em geral, que os dados experienciais, intelectuais e emocionais à disposição dos membros de uma
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 99

seres humanos, [...] uma estrutura social definida e a história estar base-
ada em um tipo particular de continuidade” 8. A existência das gerações
em uma sociedade e como elas são formadas pode ser evidenciada pela
análise de alguns fenômenos básicos da vida social do homem, quais se-
jam:

a) Novos participantes do processo cultural estão surgindo, enquanto


b) antigos participantes daquele processo estão continuamente desaparecendo;
c) os membros de quaisquer das gerações apenas podem participar de uma
seção temporalmente limitada do processo histórico, e
d) é necessário, portanto, transmitir continuamente a herança cultural acumu-
lada;
e) a transição de uma para outra geração é um processo contínuo. 9

Esses fenômenos básicos implicados pelo simples fato de as gerações


existirem orientam para o rejuvenescimento cultural da sociedade 10, a for-
mação da geração pela similaridade da situação 11 e a necessidade da
transmissão cultural de uma geração a outra 12.
A cultura de uma sociedade é renovada pela chegada de novos indi-
víduos que entram em contato com a herança cultural acumulada de uma
maneira diferente: relacionamento alterado para encontrar um algo novo,
distanciado em relação ao objeto, e uma abordagem original na assimi-
lação, uso e desenvolvimento do material oferecido (i.e., contato original)

certa sociedade não são uniformemente “dados” a todos eles; em lugar disso, o fato é que cada classe tem acesso
apenas a um conjunto daqueles dados, restrito a um aspecto “particular”.
8
Ibid. (p. 74): razão que torna inimaginável a existência de uma sociedade destituída de gerações, estando limitada
a “uma geração que vivesse para sempre e não se seguisse nenhuma outra para substituí-la”.
9
Ibid., (p. 74).
10
Ibid., (p. 78): ser capaz de iniciar do zero uma nova vida, construir um novo destino, um novo quadro de anteci-
pações, a partir de um novo conjunto de experiências, são coisas que só podem surgir no mundo através de um novo
nascimento.
11
Ibid., (pp. 79-80): o fato de as pessoas nascerem ao mesmo tempo, ou de que a sua juventude, maturidade e velhice
coincidem, não envolve por si só uma similaridade de situação; o que realmente cria uma situação comum é elas
estarem numa posição para experienciar os mesmos acontecimentos e dados, [...]. Não é difícil perceber por que a
mera contemporaneidade cronológica não pode, por si própria, produzir uma situação de geração comum.
12
O aspecto mais importante é a passagem automática às novas gerações dos modos tradicionais de vida, sentimentos
e atitudes.
100 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

13
. Isto traz algumas consequências para o “estoque” cultural existente. De
um lado, o aparecimento contínuo de novos seres humanos certamente
resulta em alguma perda de possessões culturais acumuladas e, de outro,
torna possível uma seleção original; facilita a reavaliação do inventário e
ensina a esquecer o que já não é mais útil. A cultura de uma sociedade se
modifica pelo esquecimento e pelo iniciar de uma ação a partir do zero, ou
se mantém pela recordação social. Os dados psíquicos e culturais existem
tão somente na medida em que são produzidos e reproduzidos no pre-
sente e a experiência torna-se relevante ao ser concretamente incorporada
ao presente 14, consciente ou inconscientemente 15. Aquelas recordações
que permanecem com os sujeitos, criadas diretamente pelo próprio sujeito
em situações reais são mais importantes do que as recordações assumidas
de alguma outra pessoa. Esta diferença é significativa e distingue pessoas
velhas das pessoas jovens. Ao se viver dentro de um quadro de referências
específico, individualmente adquirido, baseado em experiências passadas
utilizáveis, próprio das pessoas velhas, em grande parte, determina-se an-
tecipadamente a forma e a situação de toda nova experiência. Na
juventude, quando a vida é nova, as forças formativas estão começando a
existir, e as atitudes básicas em processo de desenvolvimento podem apro-
veitar o poder modelador de situações novas. É uma vantagem que a
experiência dependa da idade e falte experiência à juventude, pois facilita
a vida deles num mundo em transformação.
A constituição de uma geração pressupõe que todos os contemporâ-
neos estejam expostos à mesma fase do processo coletivo e definidamente

13
Ibid., (pp. 74-75): o contato original significa “encontrar alguma coisa de modo novo” tal como ocorre na vida de
um indivíduo quando ele é forçado pelos acontecimentos a abandonar o seu grupo social e a entrar em um novo –
quando, por exemplo, um adolescente deixa o lar, ou um camponês sai do campo para a cidade, ou quando um
emigrante muda de local, ou alguém muda de status ou classe social. Nestes casos, sabe-se que ocorre uma transfor-
mação bastante visível e impressionante na consciência do indivíduo em questão: uma modificação, não meramente
no conteúdo da experiência, mas no ajustamento mental e espiritual do indivíduo a ela.
14
O desempenho atual, no presente, opera uma certa seleção entre os dados disponíveis (memória) transformando-
se para adequar-se à nova situação prevalecente, ou então potencialidades anteriormente despercebidas ou negligen-
ciadas no material (memória) são descobertas durante o desenvolvimento de novos padrões de ação.
15
Exemplo de manifestação consciente: modelos reconhecidos pelos quais os homens amoldam suas condutas etc.
Exemplo de manifestação inconsciente: padrões incorporados nos homens pelas experiências passadas que são re-
fletidas em manifestações específicas tal como a da sentimentalidade.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 101

em posição de partilharem, como um grupo integrado, de certas experiên-


cias comuns. O fato de as pessoas nascerem ao mesmo tempo, ou de que
a sua juventude, maturidade e velhice coincidam, não envolve por si só
uma similaridade de situação. A condição que realmente cria uma situação
comum é o fato de as pessoas estarem numa posição para vivenciar os
mesmos acontecimentos e dados e, especialmente, que essas experiências
incidam sobre uma consciência similarmente estratificada. Não se pode
afirmar que haja a mesma situação de geração quando alguns grupos etá-
rios mais velhos passam por certos processos históricos, juntamente com
a geração jovem: a orientação primária delas é inteiramente diferente. A
formação da consciência humana dada pelas primeiras impressões e ex-
periências infantis tende a se cristalizar numa visão natural do mundo e
todas as experiências posteriores estão propensas a receber seu significado
desse conjunto inicial. Toda experiência concreta está relacionada com
esse estrato primário de experiências, que se constitui como doador de
significados para todas as outras. Outro fato, quase inevitável, é que quais-
quer duas gerações subsequentes sempre lutam com inimigos diferentes,
tanto internos como externos. Enquanto as pessoas mais velhas podem
ainda estar combatendo algo nelas próprias ou no mundo exterior de tal
modo que todos os seus sentimentos e esforços, e mesmo os seus conceitos
e categorias de pensamento, são determinados por aquele adversário; para
as pessoas mais jovens, esse adversário pode ser simplesmente inexis-
tente. A problemática vivencial da juventude está voltada para adversários
diferentes dos de outras gerações. Isso desafia as gerações de pessoas mais
velhas.
As gerações se encontram em um estado de interação constante e o
que de mais amplo essa interação pode proporcionar é a educação ou a
instrução dos mais jovens no sentido de transmitir todos os estímulos para
que adquiram ou assumam aquilo que pode ser-lhes útil e benéfico para
sua conduta prática (i.e., conhecimento pragmático). Isso necessariamente
comporta uma dificuldade. A partir do momento em que o jovem começa
a experimentação pessoal com a vida, emergem os problemas, os quais
102 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

começam a ser localizados, questionados e refletidos em um tempo pre-


sente e são experienciados como tais. Uma luta se estabelece no entorno
dessa questão. Nesse momento, aquele nível de dados e atitudes que a mu-
dança social tornou problemático requerendo reflexão foi alcançado: os
grupos juvenis lutam para esclarecer essas questões, por vezes, de modo
radical, inebriados de um espírito aventureiro e descompromissado com o
status quo, e, no entanto, por mais radical que sejam, exalam potenciali-
dades, suas ações coletivas têm em vista a tentativa de transformar o
estrato mais superficial da consciência, que está aberto à reflexão consci-
ente, em direção à maturidade. Cabe à sociedade decidir por servir-se
delas, lembrando que em um mesmo tempo encontram-se pessoas convi-
vendo com outras pessoas de mesma ou de diferentes idades. Trata-se,
portanto, de uma mediação professor-aluno. A relação professor-aluno
que essa transmissão da herança cultural demanda é impossível de ser so-
lucionada: não se trata de um relacionamento entre dois (ou mais)
representantes da consciência em geral, mas entre um possível centro sub-
jetivo de orientação vital com capacidade de viver de perto os problemas
do presente (i.e., juventude) e um outro subsequente mais experiente.
Uma tensão se estabelece nessa relação entre gerações. E, para contempo-
rizar essa impossibilidade e minimizar os efeitos das tensões geradas, há
um caminho possível: ambas as gerações, professor-aluno, necessitam
educar-se mutuamente nessa experiência.
Mannheim trouxe à luz a formação das gerações. A partir de seu tra-
balho, é possível compreender quando, onde e como as gerações se
renovam: no tempo presente, no cotidiano da vida social dos contemporâ-
neos, pela transmissão constante da herança cultural de uma geração a
outra, ou seja, das gerações mais velhas para as gerações mais novas.
Há ainda muito por ser feito em relação à problemática geracional.
Por vezes, o tema desaparece e fica esquecido no meio acadêmico, talvez
por ser a sua formação fluída e instável acompanhando a vida humana
biológica: nascimento, maturidade, envelhecimento e morte; e, também,
talvez pelo notável impacto que essa fluidez e instabilidade gera sobre a
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 103

sua episteme. Por vezes, ele ressurge acompanhado de indagações acerca


da influência que certas situações da vida política, social e econômica im-
põem, contribuindo para a emergência de conflitos intergeracionais, tais
como, apenas para citar algumas delas: as relações de poder econômico e
a divisão do trabalho; falta de postos de trabalhos e o desemprego; insufi-
cientes políticas afirmativas associadas às pessoas idosas e a quase
(im)possibilidade de promoção de cuidados e proteção de pessoas jovens
e velhas; redução de vulnerabilidades que, de modo variado, assolam as
pessoas de diferentes espectros geracionais, entre outras.
Aprofundar o estudo desse tema é um indispensável empreendi-
mento para maximizar o resultado de ações que possam levar o ser
humano e, em especial, o brasileiro, em seu tempo e lugar geracional, à
reflexão e à atualização do “estoque” cultural e, ao mesmo tempo, levar à
redução dos efeitos nefastos da ignorância que guarnece as manifestações
de discriminação e intolerância contra pessoas velhas e, embora de modo
diverso, também contra pessoas jovens. Estas instâncias geracionais ins-
piram continuamente a necessidade de certa proteção por parte da família,
da sociedade e do Estado. De um lado, para conceber uma vida digna ao
idoso, qual seja, a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar
as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defen-
dendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida 16 e, de
outro lado, para exigir da família, da sociedade e do próprio Estado a in-
clusão do jovem nos espaços públicos e comunitários a partir da sua
concepção como pessoa ativa, livre, responsável e digna de ocupar uma
posição central nos processos políticos e sociais 17. Nota-se alguma espe-
rança nessa causa. Recentemente, estudantes e professores demonstraram
interessar-se sobre o tema, conforme evidencia um caso bem particular: o
artigo “A atualidade do conceito de gerações na pesquisa sobre o envelhe-
cimento”, da professora Alda de Britto Motta 18, publicado em 2010, obteve

16
Conforme artigo 230 da Constituição Federal, promulgada em 05/10/1988.
17
Conforme inciso I do artigo 4º. do estatuto da juventude.
18
Conforme Alda Britto da Motta (A atualidade do conceito de gerações na pesquisa sobre o envelhecimento, 2010).
104 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

mais de 23 mil acessos, segundo a Scielo Analytics 19. Destes acessos, 17


mil (73%) ocorreram no período entre 2015 e outubro de 2018 (i.e., depois
de mais de quatro anos da publicação). E mais, em 2017, o artigo foi aces-
sado mais de 10 mil vezes, correspondendo a 35% do volume total de
acessos e, em 2018, até o mês de outubro, já havia atingido aproximada-
mente 4 mil acessos (9%). Ou seja, 44% dos acessos ocorreram nos
últimos 22 meses, o que corresponde à marca expressiva de 15,1 acessos
ao dia.
Nesse artigo, Alda de Brito Motta 20 recupera os pressupostos de for-
mação das gerações de Mannheim para subsidiar uma questão central em
seu trabalho: a violência contra pessoas idosas, em especial, contra a mu-
lher idosa. A autora aponta para o fato de que as gerações mais jovens
estiveram no centro das atenções dos estudos sociológicos em face dos mo-
vimentos juvenis de autoafirmação que sucederam desde os anos 1960:
movimentos estudantis, hippies, contra a guerra do Vietnã, e outros; e
também que isso, de algum modo, teve uma parcela de contribuição para
ofuscar um olhar mais atento e detido sobre a questão das gerações mais
velhas. O grupo das gerações de velhos passou a ter mais atenção bem
mais tarde em relação ao grupo geracional de jovens, graças ao movimento
político que culminou com o fim do regime militar em 1985 e à promulga-
ção da Constituição em 1988, ganhando força também com os
movimentos de aposentados e a luta pela afirmação da previdência pública
e, mais tarde, com as universidades para a “terceira idade”. Compreende-
se do trabalho dessa autora que o conflito de gerações está imbricado em
algumas esferas sociais e seus efeitos se espraiam significativamente pela
sociedade. Na base deste tipo de conflito, encontram-se o déficit social e o
déficit econômico decorrentes, notadamente, da insuficiente educação e

19
Ibid.: os dados sobre o número de acessos à publicação desse referido artigo foram disponibilizados pela Scielo
Analytics (Site usage chart & Usage heat chart, 2018). Não há referência sobre o número de pessoas que realizaram
os acessos e nem a quantidade de citações em referência a ele.
20
Ibid.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 105

trabalho, apenas para citar duas das dimensões fundamentais da vida so-
cial 21. O acesso a direitos ou a retirada deles faz pendular respectivamente
a solidariedade que proporciona a coesão social e o conflito que depõe con-
tra ela. A solidariedade social e o conflito social andam juntos, não na
mesma direção, mas pendulando por direções opostas: ao maximizar o
exercício de um implica necessariamente minimizar o exercício do outro e
vice-versa, e o fiel dessa balança está no acesso (ou no não-acesso) aos
direitos de as pessoas buscarem realizar a sua autonomia: acesso à escola-
rização e ao mercado de trabalho. Ou seja, baixo nível de educação
(ignorância) ou limitação no acesso aos meios de existência digna (recur-
sos materiais), ou ambos, tendem para conflitos de diversas ordens,
inclusive, entre gerações. Uma sociedade que restringe direitos a seus ci-
dadãos (ou a parte deles), direta ou indiretamente, promove o acirramento
das disputas e de ressentimentos e faz minimizar a solidariedade social.
No Brasil, nos últimos anos, verifica-se um aumento da mobilidade inter-
geracional de educação 22 mais do que a da mobilidade da renda 23 e, ao
mesmo tempo, coincidências à parte, verifica-se o fenômeno do cresci-
mento da intolerância de diversas ordens, inclusive da intergeracional,
vindo a ocupar a atenção da população, de jornalistas, de professores-pes-
quisadores de várias áreas de conhecimento e de gestores sociais 24.
Direitos ameaçados colocam o país diante de uma catástrofe anunciada:

21
Conforme Brasil (Constituição (1988)., 2012): estabelece Direitos e Garantias Fundamentais, dentre os quais, os
Direitos Sociais, no qual o Estado Social de Direito deve garantir liberdades positivas aos indivíduos, os quais se
referem, além da educação e trabalho, também, aos direitos à saúde, previdência social, lazer, segurança, proteção à
maternidade e à infância e assistência aos desamparados.
22
Conforme IBGE (Brasil em síntese, s/d): o nível de instrução cresceu de 2007 para 2014, sendo que o grupo de
pessoas com pelo menos 11 anos de estudo, na população de 25 anos ou mais de idade, passou de 33,6% para 42,5%.
O nível de instrução feminino manteve-se mais elevado que o masculino. Em 2014, no contingente de 25 anos ou
mais de idade, a parcela com pelo menos 11 anos de estudo representava 40,3%, para os homens e 44,5%, para as
mulheres. Todavia, conforme Ana Carolina Moreno (Cresce o número de jovens entre 15 e 29 anos que não estudam
nem trabalham, 2018), a quantidade de pessoas jovens que não trabalham e nem estudam cresceu de 21,8% em
2016, para 23% em 2017.
23
Conforme Kimi Tomikazi (Entre velhos e jovens: conflitos geracionais e ressentimento, 2018). Apenas para corro-
borar a informação de Tomikazi, a renda média dos brasileiros recuou em 2017: de R$ 2.124 em 2016 para R$ 2.112
em 2017. Essa matéria aborda também que 10% da população concentrava 43,3% da renda do país em 2017, sendo
mantido sem variação significativa os dados de 2016, conforme UOL-Economia (10% da população concentrava
43,3% da renda do país em 2017, diz IBGE, 2018).
24
Conforme Nova/sb (Dossiê: intolerências visíveis e invisíveis no mundo digital, s/d).
106 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

jovens e idosos estão vulneráveis, colocados à margem do sistema de pro-


dução de bens e serviços: o assombroso desemprego decorrente das crises
de 2008 e de 2014 25 e o fenômeno do envelhecimento da população, o
aumento da expectativa de vida e redução do crescimento da população 26.
Uma combinação “explosiva” que o Estado brasileiro e o sistema capita-
lista de produção, enquanto imersos na perversidade do déficit econômico
(fiscal) e do déficit social, não dão conta de resolver, não dão conta de ga-
rantir na prática os direitos fundamentais para essas gerações de
brasileiros: jovens e velhos. Isso constitui violência da sociedade e dos go-
vernos contra essas gerações: os jovens estão fadados e fazer parte de uma
geração perdida enquanto os velhos estão fadados à improdutividade e ao
isolamento social.
Há na sociedade uma luta entre gerações e, muito das vezes, essa luta
traz resultados positivos pelo benefício do convívio entre jovens e velhos,
nesta relação há apenas ganhadores: reflete-se sobre o “estoque” de cul-
tura acumulado e o renova mediante o ato de experienciar em conjunto
novas situações que se apresentem a essas gerações. Mas, muito das vezes,
o resultado desse combate faz prostrar perdedores pela violência prati-
cada: física (maus tratos), abuso sexual, abandono (deixar de prestar
socorro a uma pessoa que necessite de proteção), negligência (recusa ou
omissão de cuidados devidos e necessários aos idosos) e autonegligência
(recusa de prover cuidados necessários a si mesma), econômico-financeira

25
Conforme UOL (2018), dados do IBGE apontam que no segundo trimestre de 2018 faltou trabalho para 27,6 mi-
lhões de pessoas no Brasil; a taxa de subutilização da força de trabalho foi de 24,6%; o desalento foi recorde – pessoas
que desistiram de procurar empregos – chegou a 4,8 milhões de pessoas; e o número desempregados alcançou 13
milhões de pessoas, 12,4% da PEA – População Economicamente Ativa.
26
Conforme Daiane Costa e Lucianne Carneiro (Envelhecimento da população acelera e cresce 16% em 4 anos no
país, 2017): entre 2012 e 2016, a população de pessoas com mais de 60 anos cresceu 16%, enquanto o número de
crianças entre 0 e 13 anos caiu 6,7%. Esse desequilíbrio geracional impõe severas restrições sociais e aumentam
sobremaneira os riscos previdenciários. No mesmo sentido, conforme Nielmar de Oliveira (População com 60 anos
ou mais cresce quase 19% em cinco anos, 2018) publica, a população de pessoas acima 60 anos cresceu, de 2012 até
2017, 18,8% enquanto que a população de crianças de 0 e 9 anos, caiu 3,6%, nesse mesmo período. Além disso, a
população experimenta um outro fenômeno, a expectativa de vida vem aumentando, em 2018, alcançou 76 anos e,
em consequência disso, a longevidade vem crescendo, os velhos estão vivendo mais tempo. A expectativa de vida em
1960, conforme Otávio Augusto (Expectativa de vida do brasileiro chega a 76 anos, a maior da história, 2018), era
de 54 anos, 22 anos a menos do que a expectativa atual.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 107

e do patrimônio (uso indevido de recursos dos idosos) e psicológica (hu-


milhação e menosprezo).
A luta intergeracional é carregada de manifestações de discriminação
e intolerância, notadamente, de pessoas jovens contra pessoas idosas. Aqui
cabe de imediato uma reflexão: o medo está na base de todo ato discrimi-
natório e intolerante entre pessoas, umas contra outras, e a ira é a maneira
como as pessoas ou grupos dão vazão a esse medo. Em primeiro lugar, não
se pode menosprezar a disputa por espaços de produção. Por mais velada
que seja, essa disputa provoca nos jovens certo distanciamento afetivo e os
leva a negar as contribuições e experiências adquiridas que ainda pode-
riam ser utilizadas pelos mais velhos em favor do progresso. Isso tem
consequências: impõe aos jovens o desafio de atuar sobre certas situações,
para as quais lhes faltam experiência, contribuindo para rejeitarem as ex-
periências dos velhos e adotarem uma posição de desconfiança,
reforçando, inconscientemente, o preconceito, discriminação e a intole-
rância contra as gerações mais velhas. Em segundo lugar, a identificação
com os velhos açula os jovens à não aceitação das condições de vida da
velhice – perda das condições físicas e mentais, incapacidade de produzir
como dantes, a demanda e dependência por cuidados de outros –, inci-
tando o desejo nos jovens de que os velhos se mantenham autossuficientes
como antes. E ao agirem desse modo, os jovens demonstram certa defesa
antecipada sobre o que lhes poderá acontecer na velhice. Além dessas duas,
considere-se uma terceira, qual seja, a solidariedade intergeracional fami-
liar 27 e o quanto que a sua ausência (ou o medo de sua ausência) contribui
para acirrar conflitos e violência no âmbito da família. Isto tudo traz im-
plicações severas aos velhos: lidar com condições externas impostas pelos
mais jovens e suas famílias e, ao mesmo tempo, lidar com tensões e pres-
sões que a própria situação de idoso lhes colocam.

27
A solidariedade intergeracional familiar se caracteriza por apoios e relacionamentos que membros das famílias de
diferentes gerações dispensam ao longo do ciclo vital para suprir necessidades de natureza afetiva, associativa, con-
sensual, funcional, normativa ou estrutural. Uma discussão bem interessante dessa temática e apresentada por
Vanessa Barbosa R. Lemel e parceiros (Solidariedade Intergeracional Familiar nas pesquisas brasileiras: revisão
integrativa da literatura, 2016).
108 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

A violência contra a pessoa idosa, apurada pelo Ministério da Mulher,


da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH), por meio do sistema Disque
100, mostra um quadro devastador. Desde o início da série histórica em
2011 até o primeiro semestre do ano de 2018, foram acolhidas 212.599 de-
núncias contra pessoas idosas 28. Duas exceções devem ser aqui
consideradas acerca desses dados: a primeira, no ano do lançamento do
programa Disque 100, possivelmente pelo desconhecimento da grande po-
pulação, o sistema acolheu apenas 3,9% do total de denúncias e, o
segundo, em 2013, possivelmente por força de campanhas extraordinárias
do MMFDH, houve o recorde de denúncias registradas, cerca de 39.976
(18,3%). A partir de 2014, a série histórica retorna à base de 15,2% e,
desde então, vem apresentado pequeno crescimento anual, alcançando em
2017 o volume de 33.133 denúncias acolhidas (15,6%). Em apenas 6 meses
de 2018, foram acolhidas 16.670 denúncias (7,8%). Os quatro Estados que
mais acolheram denúncias, desde o início da série histórica, foram: São
Paulo com 41.388 (19,5%), Rio de Janeiro com 29.077 (13,7%), Minas Ge-
rais com 20.991 (9,9%) e Rio Grande do Sul com 12.778 (6,0%).
Chama a atenção a pesquisa publicada, em 2018, na Revista Brasileira
de Enfermagem, pela natureza da análise que os autores fizeram da vio-
lência contra idosos a partir dos casos de internamentos em
estabelecimentos públicos e privados de saúde, no Brasil, no período de
2000 a 2013 29. Seguindo os critérios metodológicos pré-estabelecidos,
2.264 casos de internamentos foram selecionados decorrentes de violência
e maus tratos contra pessoas idosas. Destes, 1.787 (79%) foram motivados
por agressão corporal e 477 (21%) por negligência e abandono. Os idosos
vítimas de agressão corporal tinham o seguinte perfil predominante: ho-
mens (79,7%), entre 60 e 69 anos, habitantes da Região Sudeste (45%),
atendidos em estabelecimentos de saúde públicos (71%) e em caráter de

28
Conforme MMFDH (Balanço - Disque 100, 2018). Infelizmente dados do Balanço Geral 2011 a 1º sem de 2018 -
Pessoa Idosa, não estratifica as denúncias segundo o perfil das pessoas agredidas e nem das pessoas agressoras.
29
Conforme Vivian Carla Castro, Leidyane Karina Rissardo e Lígia Carreira (Violence against the Brazilian elderlies:
an analysis of hospitalizations, 2018): os dados de internações hospitalares foram coletados no Sistema de Informa-
ções Hospitalares (SIH/SUS), cujo instrumento de registro é a Autorização de Internação Hospitalar (AIH), através
do DATASUS: Informações de Saúde (TABNET).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 109

urgência (93,3%) e o maior volume de internações ocorreu em 2013


(20,8%). Já os idosos vítimas de negligência e abandono tinham o seguinte
perfil predominante: homens (55,3%), entre 70 e 79 anos (34,8%), habi-
tantes da Região Sul (94,1%), atendidos em estabelecimentos de saúde
públicos (99,1%) e em caráter de urgência (67,0%) e o maior volume
anual dos casos em 2010 (18,6%).
A Agência Brasil publicou, em outubro de 2017, matéria divulgada
pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) sobre a
divulgação da terceira edição do Mapa da Violência contra Pessoa Idosa do
Distrito Federal (DF). Nesse mapa, apurou-se o volume de 1.157 denúncias
de violência contra idosos e o que chamou a atenção foi o fato de que 59,1%
dos casos de violência foram causados pelos próprios filhos das vítimas e
11,6% por outros membros da família. 30
Matéria do G1-Maranhão, publicada em 05 de junho de 2018, registra
alguns casos: idoso de 72 anos encontrado abandonado em um cativeiro
doméstico e dormindo em um colchão velho e sujo; idosa de 92 anos foi
resgatada por equipes da Promotoria do Idoso e Defensoria Pública após
denúncias de vizinhos de que estaria sendo maltratada pelo filho que foi
preso por suspeita de agredi-la; idoso de 69 anos foi encontrado dentro de
uma rede no fundo do quintal de uma residência em São Luís: relatos dos
vizinhos mais próximos dão conta de que diariamente ouviam gritos, ge-
midos, sem assistência e alimentação; idosa de 84 anos agredida pelo filho
flagrado em uma série de vídeos sendo preso pela polícia do Maranhão,
depois, mais tarde, ele foi condenado a 10 anos de prisão. 31
Não apenas a mídia informativa e os relatórios oficiais dão conta dos
números da intolerância de geracional e de idade. Em pesquisa realizada
pelos autores do presente trabalho, com 1.009 respondentes, 325 afirma-
ram já terem sido vítimas de intolerância geracional e de idade,

30
Conforme Julia Buonafinna (Filhos são autores de 59% dos casos de violência contra idoso no DF, diz estudo,
2017).
31
Conforme G1 (Dez casos de violência contra idosos são registrados por dia no Maranhão, segundo a Defensoria
Pública, 2018).
110 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

representando, cerca de 32% do total de indivíduos que participaram da


pesquisa.
As principais agressões sofridas declaradas pelas vítimas, conforme a
Tabela 5, foram a desqualificação pessoal devido às suas ideias e formas
de pensar, representando 65% das agressões; as piadas sinalizam 55% das
agressões; o isolamento de grupo, 25% das agressões e desqualificação por
possuir determinadas características físicas ou aparentes, 23%. A violên-
cia física representou cerca de 1% das agressões. As demais formas de
agressões – calúnia e difamação, xingamentos e humilhações públicas de
natureza moral – situaram-se no patamar entre 9% e 15% das agressões.
Os principais agressores declarados pelas vítimas, conforme a Tabela
6, foram colegas de trabalho, com cerca de 51% das agressões. Familiares
diretos, desconhecidos e parentes (família estendida) representaram, res-
pectivamente, 23%, 22% e 20% das agressões. Os agressores amigos e/ou
colegas em geral e colegas de escola representaram, respectivamente,
cerca de 19% e 18% das agressões.
Em relação ao apoio recebido, conforme a Tabela 7, 49% das vítimas
declararam não ter recebido apoio. Entre os que declararam ter recebido
apoio, 26% das vítimas receberam apoio de amigos, 25% de familiares,
16% do cônjuge. Vale destacar que apenas cerca de 0,6% das vítimas re-
ceberam assistência social e psicológica pública e 6% receberam
assistência psicológica particular. Cerca de 1% das vítimas receberam
apoio de desconhecidos e 11% de colegas de trabalho.
Os jovens entre 10 e 19 anos são as principais vítimas da intolerância
geracional e de idade, de acordo com a forma como os respondentes se
autodeclararam quanto à faixa etária, conforme a Tabela 18, com cerca de
43% dos indivíduos respondendo positivamente para este tipo de intole-
rância, constituindo a faixa etária com maior percentual de indivíduos que
declararam já ter sido vítimas de intolerância geracional. As faixas etárias
entre 40 e 49 anos, entre 30 e 39 anos e acima de 60 anos registraram os
menores percentuais, respectivamente, 27%, 30% e 31% dos responden-
tes afirmando já terem sido vítimas deste tipo de intolerância.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 111

Tabela 18 – Intolerância geracional e de idade: quantidade de vítimas e não-vítimas por faixa etária (%)
Vítima de intolerância
Faixa etária
Sim Não
10-19 anos 43% 57%
20-29 anos 36% 64%
30-39 anos 30% 70%
40-49 anos 27% 63%
50-59 anos 35% 65%
Mais de 60 anos 31% 69%

Em todo ato associado à intolerância de gênero, verifica-se um ou


mais grupos de agressões e de agressores associados. A Tabela 19 mostra
que, ao se relacionar os grupos de agressões e de agressores, as vítimas
sofrem violência por desqualificação pessoal devido às suas ideias e forma
de pensar, praticada por familiares diretos em 88% das agressões, e por
parentes (família estendida) em 86% das agressões sofridas pelas vítimas.
Este tipo de violência é também praticado por amigos, colegas de escola e
colegas de trabalho, representando, respectivamente, 63%, 67% e 78%
das agressões às vítimas. A segunda mais importante forma de agressão
são as piadas, as quais são, precipuamente, praticadas por amigos e cole-
gas e parentes (família estendida) representando, cada qual, com cerca de
75% das agressões, e por familiares diretos e colegas de escola, respecti-
vamente, com cerca de 64% e 70% das agressões sofridas pelas vítimas.
Tabela 19 – Intolerância geracional e de idade: quantidade de vítimas agredidas por grupo de agressões e
grupo de agressores (%)
Grupo de agressores Amigos / Colegas de Parentes
Familiares Colegas de Desco-
colegas em Escola / Fa- (família es-
Diretos Trabalho nhecido
Grupo de agressões geral culdade tendida)
Socos, pontapés, tapas, empur-
3% 2% 1% 2% 2% 1%
rões etc.
Xingamentos e agressões verbais 24% 8% 13% 18% 20% 15%
Vítima de piadas no ambiente
64% 75% 56% 70% 75% 58%
onde estava
Desqualificação pessoal devido às
88% 63% 78% 67% 86% 52%
ideias e forma de pensar
Humilhações públicas de natureza
31% 17% 19% 20% 28% 17%
moral
Desqualificação por possuir deter-
minadas características físicas ou 27% 33% 24% 33% 26% 23%
aparentes
Calúnia ou difamação 11% 8% 12% 12% 17% 8%
Isolamento de grupo 33% 25% 27% 42% 34% 24%
112 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Também foi possível levantar a relação entre grupos de agressões e


os tipos de apoios recebidos. A Tabela 20 apresenta em percentuais os gru-
pos de agressões sofridas e, de acordo com este grupo de agressão, o tipo
de apoio recebido pela vítima. Chama a atenção o baixo apoio de assistên-
cia psicológica pública.
Tabela 20 – Intolerância geracional e de idade: quantidade de vítimas apoiadas (ou não) por grupo de apoio
recebido e grupo de agressões (%)
Apoio de
Apoio de Apoio de
assistên-
Grupo de Apoio cônjuge, Apoio Apoio assistên-
Apoio Apoio de cia
recebido Não rece- par- de fa- de cole- cia
de desconheci- psicoló-
beu apoio ceiro(a), miliare gas de psicoló-
amigos dos gica
Grupo de agressões compa- s trabalho gica
particu-
nheiro (a) pública
lar
Socos, pontapés, ta-
25% 0% 25% 50% 0% 0% 0% 0%
pas, empurrões etc.
Xingamentos e agres-
45% 19% 36% 36% 0% 14% 5% 0%
sões verbais
Vítima de piadas no
46% 19% 31% 31% 2% 9% 6% 0%
ambiente onde estava
Desqualificação pes-
soal devido às ideias e 48% 19% 28% 31% 1% 12% 7% 0%
forma de pensar
Humilhações públicas
42% 24% 38% 34% 2% 12% 10% 0%
de natureza moral
Desqualificação por
possuir determinadas
55% 17% 25% 25% 0% 13% 5% 3%
características físicas
ou aparentes
Calúnia ou difamação 36% 32% 46% 32% 4% 21% 18% 0%
Isolamento de grupo 48% 15% 30% 31% 0% 12% 7% 0%

No teste de Análise de Correspondência (ANACOR) elaborado pelos


autores, conforme sinalizado na Figura 3, é possível observar o mapa per-
centual da intolerância geracional e de idade, para as variáveis referentes
ao grupo de agressor e ao grupo de agressão, que mostram um grupo de
proximidades entre as variáveis X2.A2, X2.A3, X2.A4, X2.B3, X2.B4 e
X2.B6 indicando que os grupos de agressores “amigos”, “colegas trabalho”
e “faculdade escola” podem estar mais relacionados com os tipos de agres-
são “piadas”, “desqualificação ideias” e “desqualificação característica
física”. Nota-se, também, na mesma Figura 3, outro agrupamento entre as
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 113

variáveis X2.A1, X2.B2 e X2.B5, que pode indicar uma tendência entre o
agressor “família primeiro grau” e as agressões “física”, “verbal” e “humi-
lhação moral”.

Figura 3. Intolerância geracional e de idade: mapa perceptual para as variáveis referentes aos grupos de agressores
e aos grupos de agressões.

Ao analisar os discursos dos respondentes acerca da intolerância ge-


racional, fica evidente que o conflito aparece sempre associado a questões
relacionadas ao trabalho, conforme relato abaixo:

“A última intolerância sofrida, a primeira desta natureza, foi em relação à


idade, fui "taxada" de ser uma pessoa velha e ultrapassada, de forma direta,
por um concorrente a uma vaga em um órgão representativo. Apesar da ati-
tude de ser caracterizada como uma ‘brincadeira entre concorrentes’, foi
constrangedor para ambas as partes por ser uma situação pública e como pes-
soa me senti agredida: não entendi a piada, nem a aceitei.”

A vítima, com idade entre 50 e 59 anos, mostra, assim como o resul-


tado da pesquisa quantitativa, que há discriminação entre pessoas dessa
faixa de idade, sobretudo quando a idade está relacionada a situações pro-
fissionais que envolvem disputa, competição ou relações de conflitos entre
pessoas de gerações diferentes.
114 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

O interessante é que o mesmo pode ocorrer com pessoas que estão


“deslocadas” no tempo definido como o “certo” ou adequado à sua época
de vida, como o caso a seguir:

“Durante a entrevista para o processo seletivo para um curso de pós-gradua-


ção, o entrevistador disse que eu era muito velha para fazer o curso, visto que
já tinham se passado 10 anos da conclusão da minha graduação, e que eu ‘não
daria conta do recado’. Palavras do agressor: ‘Vamos te apertar até você ‘pipo-
car’, isto é, iriam exigir o máximo possível até eu desistisse do curso. Já estou
quase concluindo o curso com coeficiente de rendimento: 9,3 o máximo é 10.”

Apesar de a depoente ter apenas 35 anos, o fato de ela tentar uma


oportunidade profissional após 10 anos da sua graduação a faz ser uma
candidata considerada ‘velha’ para os padrões de quem ingressa em um
programa de mestrado, segundo o entrevistador. Apesar da idade da en-
trevistada não ser avançada, há um padrão socialmente estabelecido para
ingresso no mestrado, segundo o avaliador.
Assim, os conflitos geracionais são permeados de referências do que
socialmente é aceitável, adequado ou apropriado. Os conflitos de geração
estão associados, em grande parte, a situações de adequações a padrões
pré-estabelecidos socialmente. Isto, de certa forma, é comprovado na pes-
quisa quantitativa, pois os respondentes da intolerância geracional são de
idades diversas e não estão concentrados necessariamente em vítimas no
estrato superior da pesquisa (mais de 60 anos).
5

Intolerância associada à condição física ou mental

Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Kamille Ramos Torres
Rodrigo Alves Silva

Pontuar de forma breve sobre como as sociedades se dispuseram a


lidar com os direitos e a dignidade de pessoas com deficiência ajuda a dar
uma ideia sobre a questão, não apenas pela distância que separa a socie-
dade dos dias de hoje com a dos tempos passados, mas sobretudo pelas
diferenças construídas e as semelhanças remanescentes entre elas ao
longo do tempo.
Na era primitiva, homens e mulheres eram nômades em busca de
meios de sobrevivência, em ambientes de severa hostilidade, tornando im-
possível a existência de uma pessoa com deficiência nos grupos humanos
primitivos: só os mais fortes eram capazes de vencer as adversidades na-
turais e, em algumas tribos, crianças com deficiências eram eliminadas por
representarem um fardo a ser carregado pelo grupo. No Egito Antigo
(5000 a.C.), evidências arqueológicas revelaram que a pessoa com defici-
ência se integrava nas diferentes e hierarquizadas classes sociais. Há
indícios de que pessoas com nanismo não tinham qualquer impedimento
físico para as suas ocupações e ofícios, principalmente de dançarinos e mú-
sicos. Na Grécia Antiga (400/300 a.C.), Platão, em A República, e
116 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Aristóteles, em A Política, indicaram que crianças com deformidades fos-


sem segregadas: filhos dos homens superiores deveriam ser apartados em
um bairro da cidade sob cuidados de uma ama e os filhos dos homens
inferiores deveriam ser escondidos em um lugar interdito e oculto 1. Na
Roma Antiga, as leis facultavam aos pais eliminar as crianças com defici-
ência por afogamento ou por abandono em cestos, no Rio Tigre ou em
outros lugares sagrados: os sobreviventes eram explorados como esmolei-
ros nas cidades ou utilizados nos circos para entretenimento 2. Essa prática
de eliminação de filhos nascidos com deficiência foi combatida pelo cristi-
anismo, a despeito da existência de perseguição aos cristãos, o que
contribuiu para proverem-se alterações nas concepções romanas a partir
do Século IV. Foi nesse período em que surgiram os primeiros hospitais
para abrigar indigentes e pessoas com deficiências. Na Idade Média, mar-
cada pela ignorância e por precárias condições de vida e de saúde, o
nascimento de pessoas com deficiência era tido como castigo de Deus e
aquelas que sobreviviam eram separadas de suas famílias e quase sempre
ridicularizadas. Na Idade Moderna do século XVI, pensava-se que pessoas
surdas não pudessem ser educadas e, apesar dessa crença, Gerolamo Car-
domo, médico e matemático, inventou um código para ensinar pessoas
surdas a ler e escrever. Mais tarde, o monge beneditino Pedro Ponce de
Leon desenvolveu um método de educação para pessoa com surdez, por
meio de sinais. A partir daí emerge uma possibilidade inicial, porém real,
de integração de pessoas com deficiência auditiva na sociedade. A constru-
ção de uma cadeira de rodas, em 1655, na Alemanha, por Stephen Farfler,
paraplégico, dá início a um processo de desenvolvimento até tomar forma

1
Conforme Platão (A república, 2001, p. 460 c), “Pegarão então nos filhos dos homens superiores, e levá-los-ão para
o aprisco, para juntos de amas que moram à parte num bairro da cidade; os dos homens inferiores, e qualquer dos
outros que seja disforme, escondê-los-ão num lugar interdito e oculto, como convém” (p. 460 c). E conforme Aristó-
teles (2005) “Quanto a rejeitar ou criar os recém-nascidos, terá de haver uma lei segundo a qual nenhuma criança
disforme será criada; com vistas a evitar o excesso de crianças, se os costumes das cidades impedem o abandono de
recém nascidos deve haver um dispositivo legal limitando a procriação” (p. 1335 b).
2
Conforme Mafalda Maria Leal de Oliveira e Silva Frade (Práticas, Valores e Crenças da Corte Imperial Romana,
2007, p. 49), o Direito Romano admitia a morte ou exposição de crianças deficientes, por as considerar inúteis [...].
De facto, em Roma, a lei da sobrevivência falava alto e a família tinha por funções essenciais o aprovisionamento
alimentar e o amparo dos ascendentes idosos e incapazes e dos descendentes ainda novos.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 117

dobrável pelas mãos de Everest e Jennings, em 1932. O sistema BRAILE,


desenvolvido no século XIX por Louis Braille, deu grande alento à integra-
ção dos cegos na sociedade. No Brasil, seguindo o movimento europeu, foi
criado, em 1854, o Imperial Instituto dos Meninos Cegos e, mais tarde, em
1857, foi fundado, pelo Imperador, o Imperial Instituto de Surdos Mudos
para atender pessoas de todas as regiões do país, a maioria abandonada
pelas famílias. No século XX, em 1945, por ocasião da criação da Organi-
zação das Nações Unidas (ONU), os temas essenciais emergiram e foram
divididos entre agências, começando a construção de um caminho para o
resgate da dignidade, para acabar com a pobreza, transformar todas as
vidas e proteger o planeta 3. Dentre os temas essenciais, à época, coube à
Organização das Nações Unidas para Pessoas com Deficiência (UN
ENABLE) tomar a frente de mobilização para defesa dos direitos e da dig-
nidade das pessoas com deficiência com o fito de realizar uma mudança
de perspectiva, tirando-lhes a imagem de objetos de caridade, para visua-
lizá-las como portadoras de direitos 4; coube à UNESCO (Organização das
Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (1946)) a promoção da
paz e segurança no mundo por intermédio das educação, ciências naturais
e humanas, comunicações e informação; ao UNICEF (Fundo das Nações
Unidas para a Infância (1946)) coube a promoção da defesa dos direitos
das crianças e a contribuição para o seu desenvolvimento; e à OMS (Orga-
nização Mundial da Saúde (1948)) coube o propósito de desenvolver, ao
máximo possível, o nível de saúde de todos os povos. Em dezembro de
1948, é proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. 5 Em
síntese, a promoção dos direitos e o resgate da dignidade das pessoas com
deficiências empreendida pelas Organização das Nações Unidas e seus pa-
íses signatários têm como eixo central produzir uma ruptura no processo

3
Conforme ONU (The Road to Dignity by 2030: Ending Poverty, Transforming All Lives and Protecting the Planet,
2014), o caminho da dignidade é muito longo para muitos países, sobretudo, para os países subdesenvolvidos ou em
desenvolvimento.
4
Conforme ONUBR (A ONU e as pessoas com deficiência, s/d).
5
Conforme Maria Aparecida Gugel (Pessoas com Deficiência e o Direito ao Trabalho, 2008) e Maria Ivone Fortunato
Laraia (A pessoa com deficiência e o direito ao trabalho, 2009).
118 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

sócio-histórico que teve, nos primórdios, a eliminação e, depois, a segre-


gação das pessoas com deficiências 6, passando por processos integrativos,
para culminar com medidas inclusivas e legais dessas pessoas no seio da
sociedade 7. Nunca é tarde para se começar a adoção de medidas de pro-
moção e reconhecimento dos direitos, do respeito e do resgate da
dignidade da pessoa com deficiência. Em homenagem ao 58º. Aniversário
da Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), a Assembleia das
Nações Unidas, em 13 de dezembro de 2006, homologou a Convenção so-
bre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu Protocolo Facultativo.
Em 2009, o Brasil tornou-se signatário dessa Convenção, reconhecendo:

[Preâmbulo “e”] que a deficiência é um conceito em evolução e que a deficiên-


cia resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às
atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pes-
soas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, [...]
[Preâmbulo “h”] que a discriminação contra qualquer pessoa, por motivo de
deficiência, configura violação da dignidade e do valor inerentes ao ser hu-
mano,
[Preâmbulo “i”] a diversidade das pessoas com deficiência, [...]
[Preâmbulo “j”] a necessidade de promover e proteger os direitos humanos
de todas as pessoas com deficiência, inclusive daquelas que requerem maior
apoio [quais sejam: as mulheres (artigo 6) e as crianças (artigo 7)] 8.

Os países signatários dessa convenção se comprometem a “promo-


ver, proteger e assegurar o exercício pleno e equitativo de todos os direitos

6
Conforme Daniela Arbex (Holocausto brasileiro:, 2013), no Brasil imperou a barbárie e a segregação. O interna-
mento de pessoas com deficiências em manicômios submetidos a tratamentos quase comparáveis aos da era
medieval: eletrochoques, maus tratos, espancamentos, falta de higiene e fome, mas não se pode esquecer do Holo-
causto Brasileiro que reporta uma violência sistemática que levou à morte algo como 60 mil pessoas.
7
Conforme Marcelo Kervalt (Um raio x das barreiras enfrentadas por pessoas com deficiências, 2014, p. s/p), com-
preende-se a integração como a ação de realizar, entre outras, medidas básicas de acessibilidade, de atender alunos
com deficiências em escola regulares, desde que consiga acompanhar o ritmo das demais crianças. Em outras pala-
vras, desse mesmo autor, a ‘integração não inclui’ (p. s/p).
8
Conforme Brasil (Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência: protocolo facultativo à convenção sobre
os direitos das pessoas com deficiência: Decreto Legislativo nº 186, de 09 de julho de 2008: Decreto nº 6.949, de 25
de agosto de 2009, 2011).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 119

humanos e liberdades fundamentais por todas as pessoas com deficiência


e promover o respeito pela sua dignidade inerente” 9.
Para situar brevemente o espectro mais geral da deficiência, tem-se,
por primeiro, que homens e mulheres são predestinados a assumir papéis,
segundo suas capacidades potenciais, para resolver problemas ou criar
produtos que importam ao contexto sociocultural ao qual pertencem. As
capacidades potenciais humanas são variadas e a trajetória de desenvolvi-
mento delas pode levá-las de manifestações básicas e universais a um
estado de possível perícia. Todos possuem capacidades potenciais, embora
algumas delas sejam mais desenvolvidas em algumas pessoas do que em
outras 10. Enquanto algumas pessoas são pródigas em certas capacidades,
em outras, elas são deficientes. É quase impossível a uma pessoa normal,
isto é, física e mentalmente saudável, desenvolver todas as capacidades
(inteligências) potenciais. Infere-se, portanto, que ao nascerem as pessoas
serão, em algum grau, deficientes para o exercício de certas atividades hu-
manas. E muitas são as razões para a existência desse fenômeno. Na
Escola, as crianças são estimuladas a desenvolver, quase que exclusiva-
mente, as inteligências linguística e lógico-matemática, enquanto o
desenvolvimento das demais inteligências é relegado a um plano inferior,
levando-as a ter grandes dificuldades ou a ser incapazes de desempenhar

9
Ibid.: referência ao Artigo 1, do Decreto no 6.949, de 25 de agosto de 2009.
10
Conforme Howard Gardner (Inteligência: múltiplas perspectivas, 1998) ao nascerem, as pessoas possuem múlti-
plas capacidades potenciais. Suas pesquisas o levam a identificá-las em oito classes de inteligências: linguística,
musical, lógica-matemática, corporal-cinestésica, espacial, interpessoal, intrapessoal (existencial) e naturalista. A in-
teligência linguística é a capacidade de encontrar a palavra certa para se expressar, tal como a desenvolvem os
poetas, jornalistas, publicitários e advogados. A inteligência musical é a capacidade de distinguir sons, ritmos e
timbres, tal como a desenvolvem os compositores, maestros, instrumentistas, os peritos em acústicas e os engenhei-
ros de áudio. A inteligência lógico-matemática é a capacidade de fazer e provar quantificações e hipóteses, tal como
a desenvolvem os matemáticos, programadores de computador, analistas financeiros, contadores, engenheiros e ci-
entistas. A inteligência espacial é a capacidade de ver o mundo em múltiplas dimensões, tal como a desenvolvem
os artistas visuais, geógrafos, cirurgiões e navegadores. A inteligência corporal-cinestésica que é capacidade de
coordenar a mente e corpo, tal como a desenvolvem os coreógrafos(as), dançarinos(as), alpinistas, malabaristas,
ginastas e outros atletas. A inteligência existencial (intrapessoal) é capacidade de questionar o porquê vivemos e o
porquê morremos, alcançando, em seu nível mais elevado, um profundo autoconhecimento, tal como a desenvolvem
as pessoas em idade mais avançada, de longa experiência de vida, quando tomam decisões de grande impacto ou
atuam para orientar outras pessoas de seu contexto social. A inteligência interpessoal que é a capacidade entender
os sentimentos e as motivações das pessoas e de agir em função deles e moldá-los, para o bem ou para o mal, tal
como a desenvolvem os terapeutas, religiosos, pais e professores dedicados. A inteligência naturalista que é capa-
cidade de entender os seres vivos e a natureza, distinguindo plantas, animais e rochas, tal como a desenvolvem os
biólogos, botânicos, veterinários e outros.
120 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

certas atividades. Isto é, enquanto uma ou mais inteligências manifesta-se


em um alto nível em uma pessoa, as demais permanecem inteligências
latentes ou, então, manifestam-se em níveis médio ou baixo. Este tipo de
deficiência nem sempre é possível visualizar pela aparência física da pes-
soa. Nesse sentido, pode-se afirmar que todo ser humano é um sujeito
portador de deficiência em alguma das múltiplas inteligências humanas
descritas por Howard Gardner 11, entretanto, como já dito, muitas das ve-
zes, essas deficiências não são socialmente aparentes, por isso, podem não
causar algum tipo de estranhamento social.
A natureza de deficiência apontada acima tem pouca ou nenhuma re-
lação com aquela que decorre da perda ou anomalia de uma estrutura ou
função psicológica, fisiológica ou anatômica 12. Tais perdas ou anomalias
determinam a incapacidade de uma pessoa desempenhar a atividade den-
tro do padrão considerado normal para o ser humano, levando-a a ter um
impedimento de longo prazo de natureza sensorial, física ou intelectual
(ou mental) 13. De fato, impedimentos de longo prazo em interações po-
dem obstruir a participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de
condições com as demais pessoas 14. As deficiências, originadas por doen-
ças ou distúrbios, são agrupadas de acordo com a sua natureza mais
específica: intelectual (ou mental), de conduta típica, sensorial, na lingua-
gem, múltipla, motora e física 15. Dados estatísticos retratam o quadro da
deficiência no mundo e no Brasil.

11
Ibid.
12
Conforme Linamara Rizzo Battistella (Conceito de deficiência segundo a convenção da ONU e os critérios da CIF,
2011) discutem no mesmo sentido, as doenças e os distúrbios levam à repercussão imediata da doença sobre o corpo,
impondo uma alteração estrutural ou funcional ao nível tecidual ou orgânico (deficiências), provocando uma redução
ou falta de capacidade de realizar uma atividade num padrão considerado normal para o ser humano (incapacidade),
representando um impedimento que limita o desempenho de uma pessoa em uma atividade considerada normal
(desvantagem).
13
Conforme Brasil (Decreto nº. 3.298 (20/12/1999), 1999).
14
Id., (Convenção sobre os direitos das pessoas com deficiência: protocolo facultativo à convenção sobre os direitos
das pessoas com deficiência: Decreto Legislativo nº 186, de 09 de julho de 2008: Decreto nº 6.949, de 25 de agosto
de 2009, 2011).
15
Conforme Erenice Natália Soares de Carvalho e Diva Maria Moraes de Albuquerque Maciel (Nova concepção de
deficiência mental segundo a American Association on Mental Retardation - AAMR: sistema 2002., 2003) , as defici-
ências mentais são originadas na gestação ou parto difícil e a sua severidade se apresenta em diferentes graus sendo
que as pessoas acometidas podem ser educáveis, treináveis ou dependentes. Elas se apresentam com diferentes
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 121

Em termos quantitativos, no mundo, 1 bilhão de pessoas vivem com


alguma deficiência: uma pessoa com deficiência em cada 7, ou seja, apro-
ximadamente, 15% da população mundial possui alguma deficiência.
Segundo o UNICEF, no total, 150 milhões de crianças (entre 0 e menos de
18 anos) têm alguma deficiência 16. Da população mundial de pessoas com
deficiência, 20% das pessoas mais pobres têm algum tipo de deficiência e
80% delas vivem em países em desenvolvimento 17.
No último Censo Demográfico, realizado no Brasil, em 2010, 45,6 mi-
lhões de pessoas declararam ter pelo menos um tipo de deficiência, seja
visual, auditiva, motora ou intelectual (ou mental), o que representava, à
época, 23,9% da população brasileira. Dessas pessoas, mais de 38,4 mi-
lhões se encontravam em áreas urbanas e mais de 7,1 milhões, em áreas
rurais. As mulheres, com apenas uma deficiência, representavam 26,5%
dessa população (mais de 25,8 milhões) enquanto os homens representa-
vam 21,2% (mais de 19,8 milhões). Dos homens com pelo menos uma
deficiência, 67,7% eram idosos com 65 anos ou mais, 24,9% entre 14 e 64
anos, e 7,5% entre 0 a 14 anos. Das pessoas com alguma deficiência: 18,8%

graus: leve, moderado, severo ou profundo. Mediante sua condição, as pessoas com deficiência mental poderão al-
cançar limitado progresso de escolarização, socialização e profissionalização. As deficiências por condutas múltiplas
são manifestações decorrentes de quadros neurológicos, psicológicos complexos ou psiquiátricos persistentes. Tais
quadros são de extrema complexidade e alguns de muita gravidade. (Brasil, 2002). As deficiências sensoriais com-
preendem a auditiva e a visual. A deficiência auditiva consiste da perda total ou parcial da capacidade de ouvir. Não
se pode esperar por fala e linguagem normais se a perda é de origem congênita e grave. Prevê-se comunicação efetiva
como resultado de medidas máximas para sua reabilitação. A deficiência visual engloba a cegueira e a baixa visão. A
deficiência na linguagem compreende um defeito na maneira de falar que interfere na comunicação, ou seja, quando
a maneira de falar da pessoa distrai a atenção daquilo que é dito, ou quando a fala é de tal ordem que o próprio
falante se sente indevidamente constrangido ou apreensivo acerca de sua maneira de falar. A deficiência múltipla
caracteriza-se por retardo mental associado com outra incapacidade física. A deficiência motora diz respeito ao com-
prometimento, por doenças ou lesões, do aparelho locomotor, que compreende o sistema osteoarticular, o sistema
muscular e o sistema nervoso, podendo produzir quadros de limitações físicas de grau e gravidade variáveis, segundo
os segmentos corporais afetados e o tipo de lesão ocorrida. A deficiência física consiste em uma alteração completa
ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano de uma pessoa, comprometendo a função física com perda
de movimento ou de sensibilidade do membro atingido, decorrente de deformidade congênita ou adquirida.
16
Conforme ONUBR (A ONU e as pessoas com deficiência, s/d).
17
Id., (ONU: Inclusão de pessoas com deficiência é fundamental para a implementação da Agenda 2030, 2016) traz
a discussão na ONU a inclusão de pessoas com deficiência é fundamental para a implementação da Agenda 2030,
afirmando ser esse um dos grandes desafios mundial a ser vencido.
122 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

declararam possuir deficiência visual; 7% motora; 5,1% auditiva; e 1,4%


intelectual (ou mental) 18.
Esses números são expressivos e informam sobre a grandeza do pro-
blema. E a realidade brasileira é ainda mais cruel, pois é discriminatória e
constitui violência contra os direitos das pessoas com deficiência pelo fato
de que “nossas leis falam de praticamente tudo de que precisamos, mas
não são cumpridas”, trazendo, como consequência a essas pessoas políti-
cas públicas ausentes, não implementadas, ou, então, implementadas com
resultados pífios 19. O respeito às leis existentes só se resolve com políticas
públicas efetivas 20 e a demora em suas implementações “é mais um re-
flexo do preconceito que vitima as pessoas com deficiência” 21. Destaca-se
que na sociedade brasileira houve significativos avanços nos últimos anos,
porém, não suficientes para acolher condignamente as pessoas com defi-
ciência. Os motivos podem ser muitos, mas, certamente, a questão esbarra
na insuficiente vontade política de governantes e insuficientes recursos
aplicados nesse campo, levando à procrastinação de mudanças concretas
de efetivação de cidadania 22. Mas não apenas isso. As pessoas com defici-
ências têm sido colocadas diante de outras situações sociais que lhes
solapam a dignidade, as quais parecem guardar certa relação com práticas
que vieram de um passado histórico carregado de preconceito, discrimi-
nação e intolerância que as levam a distanciar-se cada vez mais de alcançar
a sua autonomia.
Há, na sociedade, “um estranhamento causado pela deficiência” 23. A
mídia informativa brasileira e os relatórios oficiais têm reportado evidên-
cias de tal situação. Dados do Ministério dos Direitos Humanos dão conta

18
Conforme IBGE (Censo demográfico 2010: características gerais da população, religião e pessoas com deficiência,
2010).
19
Por exemplo, como explicar guias com rampa de acesso em calçadas esburacadas? Ou então, longas calçadas sem
guias com rampa de acesso a elas? Tais situações fazem parte da realidade de muitas cidades brasileiras.
20
Conforme Tereza Costa d´Amaral (O estatuto não deveria ser sancionado: nossas leis falam de praticamente tudo
de que precisamos, mas não são cumpridas, 2015).
21
Conforme Senado Federal (Para Paim, demora na aprovação reflete o preconceito, 2015).
22
Conforme Thais Leitão (Acessibilidade é desafio para deficientes em todo o país, 2018).
23
Conforme Luciene M. da Silva (O estranhamento causado pela deficiência: preconceito e experiência, 2006) de-
nuncia, “o corpo marcado pela deficiência, por ser disforme ou fora dos padrões, lembra a imperfeição humana. [...]
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 123

de que as denúncias de violência no Disque 100 cresceram no Brasil em


cerca de 7% no ano de 2017 em relação a 2016. Violações contra crianças
lideram as denúncias, seguidas pelas violações contra idosos e pessoas com
deficiência: foram registradas 11.682 denúncias e 22.177 violações de pes-
soas com deficiências, sendo que 67% das denúncias indicaram
negligência; 50%, violência psicológica; e 30% dos casos envolviam vio-
lência física, 63,82% das violações foram realizadas na casa da vítima 24.
Em 2018, no primeiro semestre, em todo o Brasil, já foram registradas
5.389 denúncias de violência e de 10.422 violações. Na liderança do ran-
king de violações, encontra-se a negligência, com 3.792 casos (36%),
seguido da violência psicológica, com 1.677 casos (16%), depois vem a vi-
olência física com 1.650 casos (15,8%) e a violência patrimonial com 1.412
casos (13,5%) de violações. O Estado de São Paulo registrou o maior vo-
lume de denúncias, 1.243 casos (23%), seguido de Minas Gerais, com 746
(13,8%). 25 Nos seis primeiros meses de 2018, 95% das violações são de
natureza intrafamiliar 26.
O G1 de Campinas e Região publicou matéria informando o expres-
sivo crescimento do número de casos de violência contra pessoas com
deficiência, em Campinas (SP): 1441 casos em 2015, 34% superior aos do
ano anterior. Nessa matéria são narrados inúmeros testemunhos de pes-
soas com deficiência vítimas de discriminação e de violência. 27

as pessoas com deficiência causam estranheza num primeiro contato, que pode manter-se ao longo do tempo a
depender do tipo de interação e dos componentes dessa relação. [...] A condição das pessoas com deficiência é um
terreno fértil para o preconceito em razão de um distanciamento em relação aos padrões físicos e/ou intelectuais que
se definem em função do que se considera ausência, falta ou impossibilidade” (p. 427).
24
Conforme Mariana Diniz (Disque 100 registra 142 mil denúncias de violações em 2017, 2018).
25
Conforme MMFDH (Balanço - Disque 100, 2018).
26
Conforme Aline Wanderer (Violência intrafamiliar contra pessoas com deficiência: discutindo vulnerabilidade,
exclusão social e as contribuições da psicologia , 2012), a violência intrafamiliar é qualquer ação ou omissão que
prejudique o bem-estar, a integridade física, psicológica ou a liberdade e o direito ao pleno desenvolvimento de outro
membro da família, ou seja, é qualquer forma de abuso cometida no espaço privado dessa instituição. A família,
numa perspectiva mais estendida possível, é constituída por um lócus onde nascem e amadurecem os afetos, onde
se inicia a vivência do amor. A pesquisa empreendida nessa dissertação apurou 10 registros de casos atendidos pela
equipe psicossocial do SERAV (Serviço de Assessoramento aos Juízos Criminais), que se referiam a situações de vio-
lência contra pessoas com deficiência, relacionadas ao âmbito familiar.
27
Conforme G1 (Casos de violência contra deficientes crescem 34% em Campinas, SP, 2016).
124 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

O G1 do Rio Grande do Sul aborda o caso do advogado que “sem aces-


sibilidade no Fórum, juiz sugere troca de advogado cadeirante” 28. O
advogado afirma que o juiz, além de negar pedidos para que os encontros
fossem realizados no térreo, sugeriu que seu cliente trocasse de defensor
por conta dos problemas de acessibilidade. “O maior problema é que estou
me sentindo prejudicial à Justiça. Passo a ser, em vez de uma peça essen-
cial, um obstáculo à aplicação da lei”. A matéria expõe que o advogado já
perdeu duas audiências no segundo andar porque o edifício não possui
elevador e a estrutura necessária para deslocamento interno.
Em outro caso, relatado pelo G1-Distrito Federal, professor é acusado
de depreciar aluna deficiente visual, estudante de Engenharia Química, ao
afirmar que "O engenheiro que não consegue visualizar as coisas não é um
bom profissional. [...] Se um engenheiro civil não consegue visualizar a
viga, ela provavelmente vai desabar". E completou: ‘Engenheiro é 80%
visão’. Por sua vez, a UnB diz ser 'contra intolerância e discriminação'. O
Procurador da República que assina a petição defende que a conduta do
professor ultrapassa qualquer “infelicidade” e alcança o nível da discrimi-
nação. E mais, diz o procurador, “não se pode admitir que, por causa de
uma deficiência, a pessoa tem maior ou menor capacidade”, e que esse tipo
de analogia só tem um objetivo: depreciar a aluna deficiente visual 29.
“A sociedade da intolerância”, matéria publicada por Jairo Marques,
na Folha de S. Paulo, relata sobre a atitude de passageiros de um voo que
vaiaram duas deputadas federais que são cadeirantes, Mara Gabrilli
(PSDB-SP) e Rosinha Adefal (PT do B – AL), por conseguirem, após uma
hora de atraso, embarcar no avião em Brasília. As duas embarcaram atra-
sadas por tentarem junto à empresa aérea e à Infraero um equipamento
que garantisse o embarque delas 30.
Existe uma rede discriminatória velada nas empresas contra pessoas
com deficiência. Esta afirmação é do Procurador Regional do Trabalho, da

28
Conforme Guilherme Fadanelli (Sem acessibilidade no Fórum, juiz sugere troca de advogado cadeirante, 2015).
29
Conforme G1 DF (MPF denuncia professor da UnB por discriminar aluna com deficiência visual, 2018).
30
Conforme Folha de S. Paulo, texto de Jairo Marques (A sociedade da intolerância, 2014).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 125

Região de Sergipe, a Anderson Barbosa, repórter do G1-Sergipe. A matéria


cita uma pesquisa apontando que quatro entre dez pessoas com deficiên-
cias admitiram ter sofrido discriminação no ambiente de trabalho. Nessa
mesma matéria, algumas pessoas com deficiência testemunharam acerca
do sofrimento decorrente desse tipo discriminação. 31
Não apenas a mídia informativa, os relatórios oficiais e os documen-
tos históricos dão conta dos números da intolerância associada à condição
física ou mental. Em pesquisa realizada pelos autores do presente traba-
lho, que contou com 1.009 respondentes, 238 afirmaram ter sido vítimas
de intolerância associada à condição física ou mental, representando cerca
de 24% dos indivíduos que participaram pesquisa, conforme a Tabela 4.
As principais agressões sofridas declaradas pelas vítimas, conforme a
Tabela 5, foram piadas e desqualificação por possuir determinadas carac-
terísticas físicas ou aparentes, representando, respectivamente, 68% e
54%. As agressões isolamento de grupo e humilhações públicas de natu-
reza moral representaram, respectivamente, 34% e 32% das agressões. A
violência física representou cerca de 5% das agressões. E as demais formas
de agressões – calúnia e difamação, desqualificação pessoal devido às suas
ideias e forma de pensar e xingamentos situaram-se no patamar entre
15% e 29% das agressões sofridas pelas vítimas.
Os principais agressores declarados pelas vítimas, conforme a Tabela
6, foram colegas de escola e amigos e/ou colegas em geral, respectiva-
mente, com 53% e 49% das agressões sofridas pelas vítimas. Os
agressores colegas de trabalho e parentes (família estendida) representa-
ram, respectivamente, cerca de 38% e 37% das agressões sofridas pelas
vítimas. Os demais agressores – familiares diretos e desconhecido – situa-
ram-se no patamar entre 31% e 32% das agressões sofridas pelas vítimas.
Em relação ao apoio recebido, conforme a Tabela 7, 52% das vítimas
declararam não ter recebido apoio. Entre os que declararam ter recebido
apoio, 29% das vítimas receberam apoio de familiares, 20% de amigos,

31
Conforme Anderson Barbosa (Discriminação é a pior violência no mercado de trabalho’, afirma jovem com
deficiência, 2017).
126 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

13% de assistência psicológica particular, 12% do cônjuge e 3% de colegas


de trabalho. Vale destacar que apenas cerca de 1,7% das vítimas receberam
assistência social e psicológica pública.
Nas manifestações de intolerância associada à condição física verifi-
cam-se múltiplos grupos de agressões associados a múltiplos agressores.
A Tabela 21 mostra que, ao se relacionar os grupos de agressões sofridas e
os grupos de agressores, as vítimas sofrem agressões por piadas praticadas
por todos os grupos de agressores, sendo os familiares diretos e parentes
(família estendida) os principais agressores representando, cada qual,
cerca de 85% das agressões sofridas pelas vítimas, seguido dos demais
grupos de agressores com cerca de 76% a 80% das agressões sofridas pe-
las vítimas. A segunda mais importante forma de agressão é a
desqualificação por possuir determinadas características físicas ou aparen-
tes, a qual foi precipuamente praticada por amigos e/ou colegas em geral,
colegas de escola, parentes (parentes) e desconhecidos, situando-as no pa-
tamar entre 62% e 67% das agressões. Os demais grupos ficaram no
patamar entre 53% e 58% das agressões deste tipo sofridas pelas vítimas.
Tabela 21 – Intolerância associada à condição física e/ou mental: quantidade de vítimas agredidas por grupo
de agressões e grupo de agressores (%)
Grupo de agressores Amigos / Colegas de Parentes
Familiares Colegas de
colegas em Escola / Fa- (família Desconhecido
Diretos Trabalho
Grupo de agressões geral culdade estendida)
Socos, pontapés, tapas, em-
7% 7% 5% 8% 3% 7%
purrões etc.
Xingamentos e agressões
34% 34% 31% 35% 38% 36%
verbais
Vítima de piadas no ambi-
85% 80% 76% 79% 85% 76%
ente onde estava
Desqualificação pessoal de-
vido às ideias e forma de 31% 26% 33% 22% 27% 23%
pensar
Humilhações públicas de na-
43% 38% 41% 41% 41% 39%
tureza moral
Desqualificação por possuir
determinadas características 53% 62% 58% 62% 64% 67%
físicas ou aparentes
Calúnia ou difamação 19% 20% 24% 18% 23% 23%
Isolamento de grupo 42% 42% 40% 40% 42% 48%
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 127

A Pesquisa possibilitou levantar a relação entre grupos de agressões


e os tipos de apoio. A Tabela 22 apresenta em percentuais os grupos de
agressões sofridas e o respectivo tipo de apoio recebido pelas vítimas.
Chama a atenção o baixo apoio de assistência psicológica pública, porém,
há um destaque a se fazer: cerca de 6% das vítimas por calúnia e difama-
ção procuraram por este tipo de apoio público.
Tabela 22 – Intolerância associada à condição física e/ou mental: quantidade de vítimas apoiadas (ou não)
por grupo de apoio recebido e grupo de agressões (%)
Apoio de
Apoio de
Grupo de Apoio Apoio Apoio Apoio Apoio de assistên-
cônjuge, par- Apoio de
recebido Não rece- de de de cole- assistência cia
ceiro(a), desco-
beu apoio famili- ami- gas de psicológica psicoló-
companheiro nhecidos
Grupo de agressões ares gos trabalho particular gica
(a)
pública
Socos, pontapés, ta-
55% 9% 18% 18% 0% 0% 9% 0%
pas, empurrões etc.
Xingamentos e
46% 3% 36% 22% 0% 1% 19% 3%
agressões verbais
Vítima de piadas no
ambiente onde es- 53% 12% 29% 24% 0% 2% 10% 2%
tava
Desqualificação pes-
soal devido às ideias 37% 17% 37% 21% 0% 6% 35% 4%
e forma de pensar
Humilhações públi-
cas de natureza 44% 12% 31% 29% 0% 3% 21% 1%
moral
Desqualificação por
possuir determina-
52% 10% 30% 23% 0% 1% 13% 2%
das características
físicas ou aparentes
Calúnia ou difama-
43% 11% 40% 26% 0% 3% 23% 6%
ção
Isolamento de grupo 50% 10% 28% 24% 0% 4% 24% 1%

No teste de Análise de Correspondência (ANACOR) elaborado pelos


autores, conforme sinalizado na Figura 4, é possível observar o mapa per-
centual da intolerância associada à condição física ou mental para as
variáveis referentes ao grupo de agressor e ao grupo de agressão dentro
deste tipo de intolerância. Nessa figura 4, nota-se um agrupamento entre
as variáveis X9.A2, X9.A4, X9.A6, X9.B3 e X9.B6, o qual pode representar
uma relação entre os agressores “amigos e/ou colegas em geral”, “colegas
de escola e/ou faculdade” e “desconhecidos” e as agressões do tipo “piadas
128 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

no ambiente onde estava” e “desqualificação por possuir determinadas ca-


racterísticas físicas ou aparentes” para este tipo de intolerância. Nota-se,
ainda, outro agrupamento distinto entre a variável X9.A3, referente ao
agressor “colegas de trabalho” e às variáveis X9.B2, X9.B5 e X9.B8, que se
referem aos grupos de agressões “xingamentos e agressões verbais”, “hu-
milhações públicas de natureza moral” e “isolamento de grupo”.

Figura 4. Intolerância associada à condição física e/ou mental: mapa perceptual para as variáveis referentes aos
grupos de agressores e aos grupos de agressões.

De todas as formas de intolerâncias analisadas, a intolerância associ-


ada à condição física e mental é aquela que está menos associada a outras.
Isto é, quem responde que sofre esta forma de intolerância, geralmente,
não responde que sofre as outras formas. Este fato é comprovado na aná-
lise estatística, assim como no depoimento das vítimas.
O fato curioso da pesquisa é que existem duas categorias de respon-
dentes em relação à intolerância associada à condição física e mental.
Primero é do grupo de pessoas que possuem deficiência física ou
mental, ou seja, convivem com restrições físicas e mentais que de alguma
forma provocam limitações no cotidiano dessas vítimas. Esta categoria en-
globa a grande maioria dos respondentes da fase qualitativa da pesquisa.
O segundo grupo é de pessoas que não possuem deficiência limitan-
tes, mas que a aparência não se enquadra dentro do que a sociedade
entende por normalidade. Nesta categoria, com um número bem menor
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 129

de pessoas do que o primeiro grupo, encontram-se alguns respondentes


com obesidade ou mesmo que se consideravam feios ou de aparência ina-
dequada aos padrões estéticos valorizados socialmente.
O depoimento a seguir demonstra a caracterização desse segundo
grupo:

“Sempre fui gordo. Desde cedo aprendi a conviver com as piadas e com o iso-
lamento por parte de algumas pessoas. Apesar de conseguir fazer tudo no dia-
a-dia, a intolerância me gerou problemas de baixa autoestima. Não é fácil não
ser aceito por causa da sua deficiência física”.

Aqui há o efeito nefasto de anos de discriminações sofridas pela ví-


tima. Apesar de ela não ter nenhuma deficiência física efetivamente, ela se
considera portadora de uma deficiência porque há, de fato, comprometi-
mento psicológico. Longos períodos de sofrimentos decorrentes de
situações de preconceito, discriminação e intolerância vividos causaram
marcas profundas não só nos portadores de deficiências físicas e mentais,
mas também em pessoas que que passam a se ver como portadoras de tais
deficiências. O relato a seguir corrobora este fenômeno.

“Durante anos sofri com o fato de ser uma pessoa um pouco ansiosa. As pes-
soas que se relacionam comigo sempre dizem que tenho algum problema
mental. Acreditei que poderia ter mesmo. Mas quando comecei a ir no [sic]
psicólogo, ele me disse que não tinha!”

A situação demonstra como a sucessão de experiências negativas


pode levar a uma deformação da autopercepção, inclusive a de internalizar
preconceitos a partir de estereótipos comportamentais instituídos na soci-
edade.
Os dois relatos, apesar de serem as exceções nos depoimentos reali-
zados nesta pesquisa, permitem entender como se dá o mecanismo de
instituição, em última instância, da autoculpa, inicialmente, e, posterior-
mente, em alguns casos, do autopreconceito.
130 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Esse mecanismo psicológico pode ser percebido em um relato de um


deficiente físico.

“Eu nasci com essa deficiência de não poder ver direito. Eu acho que é um
castigo que carrego comigo de outras vidas...”

Essa percepção pode provocar a aceitação de atos de intolerâncias vi-


vidos pelo depoente. O fato de atribuir culpa da sua deficiência a um
fenômeno extrafísico pode provocar a autopermissão para sofrer violên-
cias oriundas de outras pessoas ou mesmo impostas por si mesmo. É um
ato de flagelo com vistas a se libertar de uma suposta culpa originária.
Por fim, um depoimento mostra o modus operandi comum da into-
lerância.

“Sou deficiente auditivo (plenamente integrada), mas a intolerância vem de


todos os lados, inclusive presente nos grupos destinados a proteção de defici-
entes.”

A situação de diferença de condição física auditiva, por si só, é motivo


para que a vítima sofra discriminação. Nossa sociedade não é capaz de li-
dar com as diferenças entre as pessoas. Nem mesmo pessoas próximas,
como mostra não apenas esses depoimentos, mas também a pesquisa
quantitativa, conseguem aceitar essas diferenças. É possível perceber que
mesmo entre aqueles que deveriam amparar, ajudar e sustentar as pessoas
com deficiências, muitas vezes, são incapazes de lidar com elas, tornando-
se vetores de atitudes preconceituosos, discriminatórias e mesmo intole-
rantes.
Ao analisar reflexivamente, todos nós possuímos limitações físicas e
mentais. Todavia, essas limitações muitas vezes não são visíveis se com-
parados aos padrões de “normalidade” instituídos pela sociedade. É uma
questão de “escalas” de “referências” que criam critérios de comparações
entre as pessoas. A intolerância associada à condição física e mental é a
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 131

que deixa mais claro que no nível de análise dos grupos ou mesmo da so-
ciedade como massa, o que direciona a forma de entender a realidade são
os estereótipos, que fomentam os pré-conceitos, inicialmente. Muitos são
bases dos preconceitos e, posteriormente, de atos de discriminações até o
ponto de ser tornarem intolerância.
6

Intolerância étnica

Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Marjorie Mariana de Abreu
Rodrigo Alves Silva

Parece não residir dúvidas sobre a África ser o berço da humanidade.


Parece não residir dúvidas também de que esta versão não é definitiva. Na
versão mais recente, pesquisadores – arqueólogos, antropólogos e geneti-
cistas – apontam para uma origem múltipla do Homo Sapiens, em várias
populações isoladas, nos quatro cantos da África 1, indicando que “a evo-
lução das populações humanas na África foi multirregional, [...] nossos
antepassados foram multiétnicos [...] e a evolução do nosso material cul-
tural foi multicultural” 2. Tais argumentos mostram que abordar a questão
étnica passa necessariamente por se analisar alguns fragmentos da rica,
abundante e longeva história africana, sobretudo, a partir da Revolução
Cognitiva, iniciada há 70 mil anos. Também se faz necessário proceder à
análise de alguns fragmentos da formação sociocultural e religiosa de so-
ciedades ocidentais pela influência que exerceram sobre o modo de agir –
cultura, religião etc. – nos mais variados cantos da terra. A análise dessas
formações socioculturais e religiosas, ainda que tomando em consideração
pequenos e esparsos fragmentos, podem fornecer importantes pistas tanto

1
Fonte: Bruno Vaiano (Em que parte da África, exatamente, surgiu o Homo sapiens? Em várias, 2018).
2
Conforme Instituto Humanitas Unisinos (A origem do Homem na África acaba de ser reescrita (de novo), 2018).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 133

da origem de grupos tribais-étnicos como a emergência do etnocentrismo


nas sociedades. Evidências de condutas discriminantes e intolerantes as-
sociadas à etnia serão discutidas a partir de alguns conflitos étnicos
havidos no continente africano, mas não apenas: serão debatidas essas
questões também sob o contexto das Américas Anglo-saxônica, Espanhola
e Portuguesa. Ao final, resgata-se a ideia do etnocentrismo, suas repercus-
sões e efeitos, ao excitar indivíduos, organizados ou não, para a adoção de
tais condutas incivilizadas contra indivíduos e grupos étnicos considerados
diferentes.
De início, convém estabelecer limites conceituais dos termos: raça,
etnia, tribo e nação, os quais ensejam designação de coletivos ou grupos
sociais. Cabe, portanto, desde já, esclarecer que etnia e raça possuem sig-
nificados diferentes, embora, por vezes, esses termos sejam apresentados
como sinônimos em muitos estudos históricos, em matérias publicadas
nas mídias informativas e, mesmo, nas conversas cotidianas entre popu-
lares. Como já abordado em capítulo específico, raça é um conceito
biológico que distingue subgrupos de uma espécie. Na espécie humana,
raça compreende a divisão tradicional e arbitrária dos grupos humanos,
determinada pelo conjunto de caracteres físicos hereditários, tais como cor
da pele, formato da cabeça, tipo de cabelo, compleição física e outras ca-
racterísticas fenotípicas3. A raça humana não possui subespécies, nem
subcategorias, sendo aplicável tão somente para classificar conjuntos de
indivíduos de outras espécies (e.g., cachorro da raça labrador), sendo, por-
tanto, inapropriado indicar a existência de diferentes raças humanas.
As características fenotípicas dos grupos humanos não são suficientes
para determinar ou explicar a origem e a formação de um grupo étnico.
No imaginário popular, notadamente no Brasil, as pessoas negras são ge-
ralmente classificadas como sendo de origem africana (i.e.,
afrodescendente). Há certa razão nisso, pois a maior parcela da população

3
Conforme definição do Dicionário Houaiss e Villar (Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 2007, p. [Raça]). À
guisa de complemento, o IBGE (Caracteríscticas étnicos-raciais da população: classificações e identidades, 2013) de-
fine raça pela marca da cor de pele.
134 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

africana é constituída por pessoas de cor negra e uma significativa parte


dessa população foi forçada a imigrar para inúmeros países que adotavam
mão-de-obra escrava (i.e., diáspora Africana), especialmente o Brasil, con-
siderado o maior centro de tráfico de escravos africanos 4.
Mas nem todas as pessoas de cor negra, originárias da África, fazem
ou fizeram parte de uma mesma e única etnia 5. Apenas para pontuar, por
exemplo, a República da África do Sul conta com uma população de 54,9
milhões de pessoas (dados de 2018), 70% dela está distribuída por várias
etnias ou tribos, tais como: Zulus (a maior delas, 20,5% em população),
depois, Xhosas (18%), Pedis (9%), Sotos (7%), Tswanas (6%), Tsongas
(3,5%) e outras minorias (6%) de origem Khoi-khoi (Bosquímanos) e Ho-
tentotes 6.
Na França dos séculos XVI e XVII, os termos ‘nação’ e ‘tribo’ tinham
o mesmo sentido. Mais tarde, em fins do século XIX, surge o termo etnia,
do grego ethnos: povo, nação que, na língua francesa, possuem significa-
dos muito próximos à concepção de tribo 7, de forma que esses três termos
podiam ser utilizados com sentidos intercambiáveis entre eles. Entretanto,
o desenvolvimento socioeconômico, político e cultural dos grupos sociais
produziu e até hoje vem produzindo significativas mudanças tanto no
modo de produzir a vida material como a espiritual, circunscrevendo na
língua novos elementos significantes. O sentido de nação se desgarrou do
sentido de tribo e passou a significar uma realidade étnica em base de con-
juntos culturais mais vastos, como retratada na história de muitos povos,
inclusive, dos povos africanos 8.

4
Fonte: https://jornalggn.com.br/sociedade/brasil-o-centro-mundial-do-trafico-de-escravos-por-andre-motta-ara-
ujo/.
5
Fonte: https://www.buzzfeed.com/br/alexandreorrico/grupos-etnicos-diversidade-africa. A diversidade africana é
maior do que se imagina. Constituem o continente africano 54 países e mais de 3 mil grupos étnicos diferentes e,
entre estes, há grupos constituídos por pessoas não-negras. Para saber mais, Herbert George Wells (Uma breve
história do mundo, 2013, p. 66) apresenta um diagrama que sintetiza as relações entre as raças paleolíticas primitivas
e paleolíticas posteriores.
6
Fonte: https://www.suapesquisa.com/paises/africa_do_sul/.
7
Conforme Jean-Loup Amselle (Etnias e espaços: por uma antropologia topológica, 2017, p. 32).
8
Conforme Elisa Larkin Nascimento (A matriz africana no mundo, 2008).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 135

A África pré-colonial retrata cenários de lutas entre etnias/tribos mo-


tivadas, sobretudo, pela necessidade de expansão territorial para fins de
pastoreio e agricultura. O Clã Zulu é um exemplo disso. Depois da morte
do fundador Zulu kaNtombhela, no início do século XIX (1816), Tchaka,
seu filho, assumiu à força o trono e constituiu um exército muito bem apa-
relhado e, sob o seu comando, derrotou inúmeras tribos e fez incorporar,
pela práxis dos vencedores, o espólio das tribos derrotadas: as mulheres,
as crianças, o gado e os homens feitos prisioneiros, escravizados. Desta
forma, consolidou-se a formação de um império (ou nação) que se tornou
conhecido como Império Zulu. 9
A beligerância entre grupos étnicos incorporou e fez subsumir as “so-
ciedades segmentares” 10 derrotadas. Assim, a nova concepção de nação
pôs por terra o equivalente significado francês dos termos tribo/etnia e
passou a significar uma sociedade estatal, com poder centralizado, que se
formou pela via da incorporação do espólio de guerra das tribos derrota-
das, fazendo prevalecer, pelo exercício da dominação política, unidades
sociais raciais, culturais e linguisticamente desiguais e heterogêneas em
suas composições.
Entre os antropólogos, as definições dos termos etnia/tribo são bem
poucas. Importantes características de algumas dessas definições estão
inventariadas no trabalho de Jean-Loup Amselle 11, tais como, referindo-se
a S. F. Nadel, “uma tribo existe [...] em virtude de uma unidade ideológica
e de uma identidade aceita como dogma” e, também, em complemento,
“um agrupamento unitário cujos membros reivindicam seu
pertencimento a tal agrupamento”; referindo-se a J. Richard Molard, “o
conjunto étnico é um espaço de paz entre coletividades com parentescos

9
Fonte: https://vivimetaliun.wordpress.com/2015/09/18/tribo-zulu/. A província sul-africana do KwaZulu-Natal é
considerada a pátria original dos Zulus (ou amaZulu, em sua língua); sua língua é denominada de isiZulu. Em 1879,
na batalha conhecida como Anglo-Zulu, os Zulus foram derrotados pelo Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e
submetidos à colonização.
10
Conforme Amselle, op. cit., (p. 34), as sociedades segmentares, ou tribos no sentido anglo-saxão, são marcadas
pela presença de elementos sociais de natureza idêntica (linhagem etc.) e provenientes das cisões sucessivas de uma
mesma célula inicial.
11
Ibid., (pp. 35-37).
136 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

reais ou fictícios, as relações são menos tensas entre elas do que com as
coletividades vizinhas”; referindo-se a P. Mercier, “etnia é um grupo
fechado, descendente de um ancestral comum ou mais geralmente tendo
uma mesma origem, possuindo uma cultura homogênea e falando uma
língua comum, é igualmente uma unidade de ordem política”, define,
também, em complemento, “coincidência de um grupo, por mais
heterogêneo que ele seja, mas que pelo menos realizou a unidade
linguística com um espaço”; referindo-se a G. Nicolas, “uma etnia, na
origem, é antes de tudo um conjunto social relativamente fechado e
durável, enraizado em um passado de caráter mais ou menos mítico [que]
se afirma como diferente de seus vizinhos.”; referindo-se a J. Honigmann,
uma tribo compreende “um território comum, uma tradição de
descendência comum, uma linguagem comum, uma cultura comum e um
nome comum, todos esses critérios formam a base de união de grupos
menores como os das aldeias, bandos, distritos, linhagens”; e referindo-se
a F. Barth, o termo grupo étnico serve geralmente para designar uma
população que:

1) tem uma grande autonomia de reprodução biológica; 2) compartilha valores


culturais fundamentais que se atualizam em formas culturais que possuem
uma unidade patente; 3) constitui um campo de comunicação e de interação;
4) tem um modo de pertencimento que o distingue e que é distinguido pelos
outros na medida em que constitui uma categoria distinta de outras categorias
de mesma espécie.

Na síntese que fez Jean-Loup Amselle, ele aponta que essas diferentes
acepções possuem alguns critérios comuns: “a língua, um espaço, os
costumes, os valores, um nome, uma mesma descendência e a consciência
que os atores sociais têm de pertencer a um mesmo grupo” 12. E como não
poderia ser deixado de lado, o dicionário da língua portuguesa traz a
definição de tribo e etnia com certa similaridade de sentido: uma
coletividade de indivíduos que se diferencia de seus vizinhos por sua

12
Ibid., (pp. 37-38).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 137

especificidade sociocultural (i.e., grupo étnico), refletida principalmente


pela língua, religião e maneiras de agir 13.
A língua e a religião constituem-se, segundo os historiadores, como
elementos centrais da origem dos primeiros grupos primitivos e das bases
socioculturais de suas existências 14, mesmo sendo os participantes desses
primeiros grupos sujeitos de pensamento primitivo 15 e de religião domés-
tica 16.
Não se sabe muito ainda sobre a formação das sociedades humanas
nos seus estágios inaugurais, mas sabe-se bem que a sobrevivência delas
dependia de adaptação às inóspitas condições naturais e climáticas, pere-
grinação incessante em busca de alimentos, proteção física contra
predadores e a superação da inscícia, mesmo em tempos dos primeiros
dias da sua existência sociocognitiva 17.
Desde a aurora do périplo existencial sociocognitivo, o próprio
homem e tudo que o cercava estava por ser especulado e conhecido; os
instintos humanos de sobrevivência e socialização já se faziam presentes
no sistema límbico dos homens da Idade da Pedra e os moviam para
preservar e proteger a vida (i.e., relativo aos instintos vitais ou da
sobrevivência: instinto sexual, de luta e fuga) e assegurar um lugar no
mundo em razão de sua necessidade de dependência de outro ser humano
(i.e., relativo aos instintos sociais: necessidade de companhia, poder,

13
Conforme Houaiss e Villar, op. cit., (p. s/p [Etnia & Tribo]).
14
Conforme Herbert George Wells, op. cit.
15
Ibid., (pp. 55-56): Conforme afirma Wells, o homem primitivo provavelmente pensava, em grande medida, como
pensa uma criança, ou seja, através de uma série de figurações imaginárias. Ele evocava imagens ou imagens mani-
festavam em sua mente, e ele agia de acordo com as emoções que elas suscitavam.
16
Ibid., (pp. 58-59): Conforme afirma Wells, na mente de um ser primitivo, o sistema de causa e efeito é o fetiche. Se
a caça não fosse abundante ou o peixe difícil de ser apanhado e não disponível em quantidade, a crença em talismãs,
feitiços e presságios, era utilizada para alcançar os resultados desejáveis. Se as pessoas adoeciam e morriam ou fica-
vam debilitadas sem causa aparente, sonhos ou suposições fantásticas os levavam a culpar isto ou aquilo, ou a
pedirem ajuda a determinada besta ou coisa. Os homens primitivos tinham a aptidão da criança para sentir medo e
pânico. O especialista em fetiche, o médico, foi o primeiro sacerdote. Ele exortava, interpretava sonhos, dava avisos,
executava os complicados truques que traziam sorte ou evitavam calamidades.
17
Conforme David Eagleman (Incógnito: as atividades secretas do cérebro, 2012, p. 53): os instintos são os motores
de nosso comportamento. Nossos comportamentos inatos representam ideias tão úteis que se tornaram codificadas
na linguagem criptografada e mínima do DNA. Isto foi realizado pela seleção natural durante milhões de anos: os
que tinham instintos que favoreceram a sobrevivência e a reprodução tenderam a se multiplicar.
138 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

prestígio e propriedade). Os homens primitivos estavam fadados, por


desejo e necessidade, a controlar o mundo: eles aprenderam a fazer e usar
ferramentas; descobriram o fogo e aprenderam a utilizá-lo; exploraram o
mundo que habitaram; começaram a contar histórias de uns aos outros;
caçadores migrantes intercambiaram informações; passaram a viver em
comunidades, em pequenos grupos familiares; distinguiram coisas
sagradas das coisas profanas; cooperaram uns com os outros; também, os
grupos se confrontaram e competiram uns com os outros por acesso a
recursos de sobrevivência18. E a religião 19 teve papel singular e decisivo na
formação das primitivas sociedades.
Há muito tempo se sabe “que os primeiros sistemas de representa-
ções que o homem fez do mundo e de si mesmo são de origem religiosa”
20
. Mas a religião não foi o primeiro sistema de pensamento que o homem
primitivo desenvolveu, antes dela, tal como preparação de um caminho
propício à sua emergência, os primitivos construíram um logos explicativo
da natureza e do universo que dava causa aos fenômenos naturais, atribu-
indo-a aos seres espirituais, benevolentes e malignos, que habitavam e
animavam animais, vegetais e todos os objetos inanimados do mundo. A
alma quase tudo no universo animava!
É possível que tal crença tenha sido derivada, por extensão, de uma
outra de natureza fundante: “os povos primitivos acreditam que os seres
humanos são habitados por espíritos semelhantes” 21, e isto foi

18
Adaptado de Robert Winston (Instinto humano, 2006).
19
Conforme Émile Durkheim (As formas elementares da vida religiosa, 1996, pp. XV-XVI; XVIII), a religião é um
composto de crenças e ritos, isto é, uma cosmologia e uma especulação sobre o divino, construído socialmente que
se firma (ou se firmou) como representações coletivas que exprimem realidades coletivas: os ritos são maneiras de
agir que nascem do seio dos grupos reunidos e que são destinados a suscitar, a manter ou a refazer certos estados
mentais desses grupos. A religião, muito tempo antes do surgimento das ciências, tornou o homem seu devedor de
uma grande parcela de seus conhecimentos e da forma como esses conhecimentos são elaborados.
20
Ibid. (p. XV): as representações coletivas são o produto de uma imensa cooperação que se estende não apenas no espaço,
mas no tempo; para fazê-las, uma multidão de espíritos diversos se associaram, misturaram, combinaram suas ideias e
sentimentos; longas séries de gerações acumularam aqui sua experiência e seu saber. Uma intelectualidade muito particu-
lar, infinitamente mais rica e mais complexa do que a do indivíduo, está aqui, portanto, como que concentrada.
Compreende-se desde então como a razão tem o poder de ultrapassar a capacidade dos conhecimentos empíricos.
21
Conforme Sigmund Freud (Totem e Tabu, 1996, pp. 57-59). Baseando-se em diversas autoridades no assunto,
Freud afirma que a raça humana desenvolveu, no decurso das eras, três sistemas de pensamento, três grandes re-
presentações do universo: a animista (ou mitológica), religiosa e científica. Destas, o animismo, o primeiro a ser
criado, é talvez o mais coerente e completo e o que dá uma explicação verdadeiramente total da natureza do universo.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 139

compreendido por Freud e outras autoridades no assunto que encararam


“como perfeitamente natural e de modo algum estranho que o homem
primitivo tivesse reagido aos fenômenos que despertavam suas
especulações através da formação da ideia da alma e, depois, estendendo
esse mesmo princípio especulativo aos objetos do mundo exterior” 22,
passando a dar existência ao sistema animista.
Na esteira do animismo 23 emerge o sistema de pensamento religi-
oso24. Entre certos povos primitivos da África, da América e da Austrália,
o totemismo ocupa o lugar da religião e provê a base de sua organização
social, constituindo-se como religião e como sistema social 25, fazendo
emergir duas classes de coisas, reais ou ideais, dois gêneros opostos: “um,
tudo que é sagrado, outro, tudo que é profano” 26. As relações lógicas entre
as coisas teriam fornecido base às relações sociais dos homens, dividindo-
os em clãs de acordo com uma classificação prévia das coisas, e o tote-
mismo seria derivado desse processo 27. Em seu aspecto religioso, o
totemismo compreende as “relações de respeito e proteção mútua entre

Ele não fornece simplesmente uma explicação de um fenômeno específico, mas permite apreender todo o universo
como uma unidade isolada de um ponto de vista único. Freud credita à necessidade prática de controlar o mundo
como fator determinante para os primitivos obter domínio sobre os espíritos dos homens, dos animais e das coisas.
A ‘feitiçaria’ e a ‘magia’ desempenharam um papel importante no sistema animista. Para saber mais, veja “Animismo,
magia e a onipotência de pensamentos, capítulo III, do livro Totem e Tabu” (p. 57 [e seguintes]).
22
Ibid., (p. 57).
23
Ibid., (p. 58): o animismo primitivo deve ser encarado como a expressão espiritual do estado natural do homem.
24
Ibid., (p. 58): o animismo em si mesmo não é ainda uma religião, mas contém os fundamentos sobre os quais as
religiões posteriormente foram criadas.
25
Ibid. De acordo com Sigmund Freud (p. 75), o totem do clã é reverenciado por uma corporação de homens e
mulheres que se chamam a si próprios pelo nome do totem, acreditam possuírem um só sangue, descendentes que
são de um ancestral comum, e estão ligados por obrigações mútuas e comuns e por uma fé comum no totem. E um
totem, conforme o autor, nunca é um indivíduo isolado, mas sempre uma classe de objetos, em geral uma espécie de
animais ou vegetais, mais raramente uma classe de objetos naturais inanimados, muito menos ainda uma classe de
objetos artificiais.
26
Conforme Émile Durkheim, op. cit. (p. 19): todas as crenças religiosas conhecidas, sejam simples ou complexas,
apresentam um mesmo caráter comum: supõem uma classificação das coisas, reais ou ideais, que os homens conce-
bem, em duas classes, em dois gêneros opostos, designados geralmente por dois termos distintos que as palavras
profano e sagrado traduzem bastante bem.
27
Conforme Émile Durkheim, op. cit. Ver, também, em Sigmund Freud, op. cit., no capítulo Horror ao Incesto, a
exogamia totêmica, ou seja, a proibição de relações sexuais entre os membros do mesmo clã, parece ter constituído
o meio apropriado não apenas para impedir o incesto grupal, mas também para dar origem a novos clãs totêmicos
(p. 57 [e seguintes]).
140 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

um homem e o seu totem; e em seu aspecto social as “relações dos inte-


grantes do clã uns com os outros e com os homens de outros clãs”28.
Como sistema religioso, o totemismo se caracteriza por um conjunto
de particularidades de crença (i.e., totem) e de regras de convivência (i.e.,
tabu). Algumas dessas particularidades dão a dimensão da crença no to-
tem e dos tabus reguladores da convivência, quais sejam:

os membros de clã totêmico chamam-se a si mesmos pelo nome do totem e


geralmente acreditam serem realmente descendentes dele. Decorre dessa
crença que não caçarão, não matarão e não comerão o animal totêmico e, se
este for outra coisa que não um animal, abster-se-ão de fazer uso dela sob
outras modalidades. As normas contra matar ou comer o totem não são os
únicos tabus; às vezes, são proibidos de tocá-lo ou até mesmo de olhá-lo; num
certo número de casos, não se pode mencionar o totem pelo próprio nome.
Qualquer violação dos tabus que protegem o totem é automaticamente punida
por doença grave ou morte.
[...] O clã espera receber proteção e cuidados da parte de seu totem. Se se
tratar de um animal perigoso (como um animal de presa ou uma cobra vene-
nosa), há a pressuposição de que não causará mal aos seus protegidos; e, se
essa expectativa não se cumprir, o homem ferido é expulso do clã. [...] O totem
presta auxílio na doença e transmite augúrios e advertências ao seu clã. O apa-
recimento do totem numa casa ou perto dela é frequentemente encarado como
um presságio de morte; o totem veio buscar o seu parente. 29

“O totemismo como sistema social se expressa principalmente por


uma injunção feita respeitar severamente e uma ampla restrição”:

28
Conforme Sigmund Freud, op. cit., (p. 73)., no qual, de início, afirma que os membros de clã totêmico chamam-se a si
mesmos pelo nome do totem e geralmente acreditam serem realmente descendentes dele. Decorre dessa crença que não
caçarão, não matarão e não comerão o animal totêmico e, se este for outra coisa que não um animal, abster-se-ão de fazer
uso dela sob outras modalidades. As normas contra matar ou comer o totem não são os únicos tabus; às vezes, são
proibidos de tocá-lo ou até mesmo de olhá-lo; num certo número de casos, não se pode mencionar o totem pelo próprio
nome. Qualquer violação dos tabus que protegem o totem é automaticamente punida por doença grave ou morte. Espé-
cimes do animal totêmico são ocasionalmente criados pelo clã e por este cuidado em cativeiro. Um animal totêmico
encontrado morto é pranteado e enterrado como um membro do clã que tivesse morrido. Se for necessário matar um
animal totêmico, isso é feito de acordo com um ritual de escusas prescrito e cerimônias de expiação. O clã espera receber
proteção e cuidados da parte de seu totem. Se se tratar de um animal perigoso (como um animal de presa ou uma cobra
venenosa), há a pressuposição de que não causará mal aos seus protegidos; e, se essa expectativa não se cumprir, o
homem ferido é expulso do clã. Os juramentos, na opinião de Frazer, foram originalmente provações; assim, muitas
verificações de descendência e legitimidade eram submetidas à decisão do totem. O totem presta auxílio na doença e
transmite augúrios e advertências ao seu clã. O aparecimento do totem numa casa ou perto dela é frequentemente enca-
rado como um presságio de morte; o totem veio buscar o seu parente. (p. 76).
29
Conforme Sigmund Freud, op. cit., (p. 76), em referência ao trabalho de Frazer.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 141

Os membros de um clã totêmico são irmãos e irmãs e estão obrigados a aju-


dar-se e proteger-se mutuamente. Se o membro de um clã é morto por alguém
não pertencente a ele, todo o clã do assassinado se une no pedido de satisfações
pelo sangue que foi derramado. O laço totêmico é mais forte que o de família,
em nosso sentido. Os dois não coincidem, uma vez que o totem, via de regra,
é herdado através da linhagem feminina, sendo possível que a descendência
paterna fosse deixada, originalmente, inteiramente fora de consideração.
A restrição de tabu correspondente proíbe aos membros do mesmo clã totê-
mico de casar-se ou de ter relações sexuais uns com os outros. Temos aí o
notório e misterioso correlato do totemismo: a exogamia. 30

Toda religião, em qualquer tempo e lugar, tem como essência crenças


e elementos reguladores da convivência, para fazer agir o homem e o au-
xiliar a viver 31 em seu espaço sociocultural. No totemismo não é diferente.
As crenças, os ritos religiosos, os laços familiares, as normas relacionais
clânicas, hierárquicas e invocatórias, as restrições de tabu e a exogamia,
de um lado, formaram uma cultura (costumes e práticas comuns) que é o
elemento essencial de mediação da integração dos indivíduos no grupo e
constituinte da força da vida do clã e, de outro lado, a cultura totêmica
serviu para preparar o caminho para uma civilização mais adiantada 32,
instaurando uma fase de transição entre a era dos homens primitivos e a
era mitológica dos heróis e deuses 33 e, desta, depois, para o predomínio
das religiões monoteístas 34.
As unidades sociais primitivas, notadamente aquelas originadas nas
diferentes regiões da África, foram formadas por famílias cujas chances de
sobrevivência eram bem maiores se cooperassem mutuamente umas com

30
Conforme Sigmund Freud, op. cit., (p. 76).
31
Durkheim, op. cit., (p. 459). Durkheim preconiza que, diferentemente das ciências (i.e. o terceiro sistema de pen-
samento), a religião faz agir o homem e o auxilia a viver, visto que o homem crente que se comunica com seu deus
sente em si mais força, seja para suportar as dificuldades da existência, seja para vencê-las (p. 459).
32
Conforme Sigmund Freud, op. cit., (p. 73): em referência ao trabalho Elemente der Völkerpsychologie, de Wundt.
Seguindo a McLennan, Freud aponta que grande número de costumes e práticas comuns em várias sociedades anti-
gas e modernas deveriam ser explicados como remanescentes de uma época totêmica.
33
Conforme Bernard Esvlin (Heróis, deuses e monstros da mitologia grega, 2012).
34
Concepção de um Deus único que se revelou aos profetas e formou alianças com o seu povo e dessas emergiram o
Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo.
142 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

outras. Nos estágios inaugurais da história humana, é bem provável que


grupos familiares vizinhos se encontraram, permaneceram juntos, coope-
raram entre si e se multiplicaram, dando origem aos primeiros clãs,
bandos, tribos 35. Não é impensável que “às vezes a relação com os bandos
vizinhos eram sólidas o suficiente a ponto de eles constituírem uma única
tribo, partilhando a mesma língua [36], os mesmos mitos, as mesmas nor-
mas e os mesmos valores” 37. Mas o processo de cooperação de uns com os
outros pode não se mostrar suficiente para o ser humano preservar e pro-
teger a vida e assegurar o seu lugar no mundo. Há algo mais no seu
interior que ‘grita’ e o impele para competir, confrontar e lutar, uns contra
outros, por acesso a recursos de toda ordem. Necessidade e desejo, inveja
e intriga já se haviam presentes no sistema límbico do homem da Idade da
Pedra, excitava-o a desenvolver, individual ou coletivamente, atitudes,
comportamentos e condutas de competição, confrontação e de lutas. Agir,
nesse sentido, impõe consequências significativas à vida coletiva que po-
dem levá-la à desorganização, à segregação ou até mesmo à sua dissolução,
desde as unidades familiares até os clãs, bandos, tribos etc. 38
Nas três situações ilustrativas seguintes, verifica-se que uma delas
comporta potencial proliferação de tribos/etnias; outra, que impõe certo

35
Conforme Herbert George Wells, op. cit., (p. 56). O autor associa a formação das tribos humanas com a formação
dos bandos dos antigos mamíferos os quais surgiram a partir de famílias que permaneciam juntas e se multiplicavam.
36
O que tende a amalgamar uma coletividade é a existência de uma língua comum, sem a qual não seria possível
estabelecer comunicação entre os indivíduos, nem tampouco desenvolver sentimentos de pertencimento em relação
a qualquer grupo social, em qualquer época. Todavia, isoladamente uma língua comum não garante a formação de
uma etnia, tribo ou mesmo uma nação, embora seja requisito para sua existência. Os povos Bantus corroboram essa
afirmação. O termo Bantu, cujo significado é povo, não se refere especificamente a um grupo étnico e nem a uma
língua específica, mas a um conjunto de 400 etnias que falam as línguas Bantus – mais de 650 línguas, línguas
nigeriano-congolesas – vivendo entre os Camarões e a Somália, na África Central, África Oriental e na África Austral
(Fonte: https://www.hauniversity.org/pt/Bantu.shtml). O que esse exemplo suscita é que, além da língua comum,
uma comunidade, grupo social, etnia ou tribo se constitui como tal, independentemente da época de sua existência,
pelo modo de produzir a vida material e espiritual, por seus espaços e estruturas sociais e religiosas, e o modo de
agir dos participantes nesses espaços socioculturais-religiosos, Conforme Amselle, op. cit., (p. 55).
37
Conforme Yuval Noah Harari (Sapiens: uma breve história da humanidade, 2015, p. 54). E mais, os membros de
um mesmo bando se conheciam e eram cercados por amigos e parentes durante a vida toda.
38
Conforme Sigmund Freud (Totem e Tabu, 1996, p. 63): tudo o que precisamos admitir é que o homem primitivo
tinha uma crença imensa no poder de seus desejos. É fácil perceber os motivos que conduziram os homens a praticar
a magia: são os desejos humanos (p. 63). Os desejos humanos dos primitivos persistiram, perpassaram as eras e
chegaram até os dias de hoje impulsionando os homens às ações, sejam de cooperação, sejam de competição, con-
fronto ou lutas.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 143

reordenamento delas e, ainda, uma terceira situação que aponta para con-
flitos intertribais e suas consequências. Tais situações estão intimamente
ligadas à necessidade de o homem atender os desejos infinitos de poder e
constituir-se pai, aquele que tudo pode.
A primeira, o desejo do jovem, quando amadurece, de deixar sua fa-
mília e ir embora, rompe com o medo de seu pai 39 e com a proteção de
sua mãe para se relacionar por conta própria em um novo espaço físico,
formando um provável e novo núcleo familiar-cultural, com língua, mitos,
normas, valores específicos e próprios 40. Considerando que a história se
reproduz segundo uma mesma dinâmica, novas relações de cooperação
com bandos vizinhos dão origem a novos bandos, novas tribos, e, assim
por diante, até que um novo acontecimento venha impor nova cisão ao
coletivo em questão41. Este era um dos meios empregados que permitia ao
indivíduo realizar o seu desejo de poder, dando origem a novas tribos –
novos espaços sociocultural-étnico-tribais – para constituir um novo pai
que tudo pode (i.e., totem, deus).
A segunda, o mecanismo simbólico e mítico da interdição do pai –
aquele que tudo pode – pelo banquete totêmico (uma história mítica, um
ritual mítico, assinada por Freud), cuja morte do pai é oferecida pelos fi-
lhos em banquete para ser devorado por todos. Ou seja, os irmãos se
reuniam para pôr fim àquele que não apenas possuía as mulheres, mas
provocava reverência, terror e amor ao mesmo tempo que sufocava, cas-
trava, além de ser o portador e depositário das proibições: o pai, aquele
que devia ser morto ou vencido e oferecido em banquete para ser devorado
por todos. Neste ato, entre o ódio e o contentamento, a incorporação da

39
Ibid., (p. 101): o pai, violento e ciumento que guarda todas as fêmeas para si próprio e expulsa os filhos à medida
que crescem. [Os filhos] odiavam o pai, que representava um obstáculo tão formidável ao seu anseio de poder e aos
desejos sexuais; mas amavam-no e admiravam-no também.
40
Conforme Darcy Ribeiro (O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil, 1999, p. 29), ao referir-se aos povos
indígenas, em especial, aos povos Tupi, precedentemente à chegada dos portugueses em 1500, o autor dá uma ideia bem
objetiva sobre a formação de novas tribos, qual seja: eram, tão-só, uma miríade de povos tribais, falando línguas do
mesmo tronco, dialetos de uma mesma língua, cada um dos quais, ao crescer, se bipartia, fazendo dois povos que come-
çavam a se diferenciar e logo se desconheciam e se hostilizavam (p. 29). Ribeiro afirma também que sua própria condição
evolutiva de povos de nível tribal fazia com que cada unidade étnica, ao crescer, se dividisse em novas entidades autôno-
mas que, afastando-se umas das outras, iam se tornando reciprocamente mais diferenciadas e hostis (p. 30).
41
Adaptado de Herbert George Wells, op. cit.; e Yuval Noah Harari, op. cit.
144 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

potência, do corpo e do sangue único do onipotente passa a correr na veia


de todos, culmina com um sentimento coletivo, caracterizando os filhos
como semelhantes entre si, selando de forma duradoura, harmônica, pa-
cificada e civilizada a existência do grupo 42 pela conversão desse ato de
morte ao totem em novos tabus – aquilo que não pode ser feito, tocado,
comido (i.e., leis, normas, regras): a proibição do incesto, do parricídio
(morte do totem) e do fratricídio 43, cujas transgressões eram submetidas
a penalidades, repressões, para instaurar, reinstaurar ou manter o pri-
mado de civilidade em benefício de toda a coletividade 44.
A terceira, o fenômeno da morte do pai, simbólico ou real, sobrevive
ao longo das eras e chega à era moderna no mesmo périplo que chegaram
os primitivos instintos humanos vitais e sociais, mediados pelos processos
civilizatórios que forjaram sociedades e seus povos. Entretanto, forças
endógenas e exógenas fizeram com que a civilização não alcançasse a todos
os seres humanos e a todas as sociedades de uma mesma maneira,
produzindo nelas e entre elas, cada qual a seu tempo e lugar, distinções
sobre o modo de produzir a existência material e espiritual que implicaram
às sociedades humanas alcançar diferentes estágios em sua evolução 45,
produzindo significativas, por vezes, profundas desigualdades sociais,

42
Ibid.; Sigmund Freud, op. cit.
43
Adaptado de Eugène Enriquez (Da horda ao Estado: psicanálise do vínculo social, 1996): Proibição do incesto:
Para um corpo social viver em relações estabilizadas e simbolizadas, faz-se necessário edificar uma proibição e uma
instância repressora para interditar e impedir a satisfação do desejo de incesto do indivíduo. O desejo de incesto,
presente em todas as sociedades, se manifesta de tal forma nas sociedades primitivas que estas são verdadeiramente
possuídas pelo medo do incesto. Os desejos sexuais dividem os homens e impedem sua união (todos os irmãos dese-
jam todas as mulheres para si, logo, desejam o lugar do pai). Assim, a proibição do incesto é fundamental para o
funcionamento da família, a aceitação da aliança e da filiação e é fundamental para mantê-la estruturalmente orga-
nizada. Proibição do parricídio (morte do totem): como uma comunidade não sobrevive sem chefe, o desejo de
apropriar-se dos poderes e ocupar o lugar do pai destronado toma conta de cada um – o amor dá lugar à rivalidade.
Isto faz pensar que o homicídio do pai institui a possibilidade do assassinato, portanto, ao chefe compete reforçar a
unanimidade para proteger e não dilacerar a comunidade. Proibição do fratricídio: os irmãos sentem-se culpados
pela morte do pai que amavam e temiam, renunciam ao objeto do desejo que os ligara no início para não reacender
uma nova guerra entre eles. O pai torna-se mito (Totem ou Deus).
44
Conforme Sigmund Freud, op. cit. (p. 131): a restrição e a repressão do instinto devem fundamentalmente sua
origem à submissão às exigências da civilização.
45
Há diferentes métodos de avalição do estágio da evolução das sociedades anônimas desenvolvidos por autores
seminais, tais como: A lei dos três estados, de Auguste Comte; A teoria dos quatro estágios, de Adams Smith; Etapas
do Desenvolvimento Econômico, de Walt Whitman Rostow; Macroperíodos do desenvolvimento organizacional pro-
posto por David Harvey etc.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 145

morais, intelectuais e industriais, seja no plano interno delas, seja entre


elas. Os primitivos desejos de poder e a necessidade social continuaram,
ao longo do tempo, a mobilizar o homem, porém, em muitas sociedades,
o desenvolvimento sociocognitivo não se deu em grau suficientemente
amplo e uniforme para conter manifestações de incivilidade de indivíduos
e/ou grupos sociais.
A História mostra que o desejo de poder e as necessidades sociais têm
mobilizado os homens a garantir sua sobrevivência material e espiritual.
Este empreendimento nem sempre se realiza pela via do esclarecimento e
da cooperação mútua, mas também pelo confronto e luta de uns à custa
de outros para conquistar ou manter o domínio sobre os recursos neces-
sários à existência e à supremacia étnico-religiosa de uma tribo sobre
outras. Não são poucos os conflitos, as situações de confrontos e lutas ét-
nico-religiosos ao redor do mundo, nem apenas se localizam em
sociedades com fraco desempenho sociocultural, político e econômico,
nem estão circunscritos a uma determinada era, nem são exclusivas do
homem Pré-histórico com incipiente desenvolvimento sociocognitivo. Eles
estão presentes nas práticas humanas em todas as eras, desde a Idade An-
tiga até a Idade Contemporânea, perpassando as Idades Média e Moderna,
e, ao longo do tempo, se desenvolveram e se instrumentalizaram com apa-
ratos cada vez mais sofisticados e robustos, os quais tornaram-se
elementos mediadores dos comportamentos e condutas discriminantes e
intolerantes, tanto a intolerância simbólica como a física, inclusive, de ex-
trema letalidade. Alguns exemplos mostram uma sorte de conflitos que
tiveram lugar tanto na África, Europa e Américas Anglo-saxã, Espanhola e
Portuguesa, nos períodos que compreende a passagem da Idade Média à
Idade Moderna, até os dias da contemporaneidade.
O continente africano tem sido palco de inúmeras disputas tanto por
territórios e acesso a recursos (e.g., água, outros minérios) como por riva-
lidades tribais envolvendo questões étnico-religiosas e busca por
independência política que tiveram lugar no Sudão e Sudão do Sul, Nigé-
ria, Ruanda, Mali, Burundi, República Democrática do Congo e Angola.
146 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Muitos desses conflitos são conflitos ancestrais que se converteram em


sangrentas guerras civis que dizimaram milhões de pessoas e levaram à
redefinição de novas fronteiras artificiais e reordenamento político do con-
tinente. A formação pré-colonial do império Zulu, abordado
anteriormente, corrobora esses fatos, assim como os bárbaros conflitos
entre Hútus vs Tutsis e os de Biafra, apenas para citar outros dois exem-
plos provenientes desse continente.
As disputas entre Hútus (85% da população) e Tutsis (15%) remon-
tam aos séculos XII e XV. Mas, em fins do século XX, sob o domínio da
minoria Tutsi, os Hútus foram excluídos do processo socioeconômico,
sendo submetidos à condição de refugiados, cerca de 800 mil pessoas
(10% da população) foram forçadas a viver em campos de reagrupamento
e outros 700 mil a viver em outros países. Em Ruanda, por ocasião da
guerra de 1994, desencadeada pelos Hútus, 13% da população foi morta,
desta, 90% integrava a minoria Tútsi. Cerca de 1 milhão de pessoas mor-
reram nesses conflitos. 46
Biafra, província da Nigéria, compunha um mosaico étnico de cerca
de 250 etnias. Nos anos 1960, houve uma tentativa de tomada do poder
desencadeada por militares pertencentes à etnia Ibos (cristãos do Biafra)
e, em defesa, militares islâmicos contragolpearam, massacrando os Ibos
no norte do país, onde cerca de 30 mil pessoas foram mortas. Em 1967, os
Ibos declararam-se independentes da Nigéria e, em consequência desse
ato, as forças armadas nigerianas bombardearam, matando indiscrimina-
damente soldados biafrenses e civis e, com o apoio da marinha nigeriana,
bloquearam o acesso a alimentos, medicamentos e armamentos, gerando
uma crise humanitária cujo ápice culminou com cerca de 5 mil mortes di-
árias por fome e doença. Em fins de 1970, o número de mortos chegou a 3
milhões de pessoas, quando houve a reintegração da Nigéria. Esta guerra
foi motivada por disputas sobre o acesso às fontes de energia, especial-
mente, às fontes de petróleo e seu refino, tendo como consequência o

46
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1995/8/23/mundo/9.html.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 147

primeiro grande desastre humanitário provocado por um conflito de ori-


gem étnica após o Holocausto. 47
A Europa também foi palco de intensos conflitos étnicos. Por vin-
gança pelas atrocidades dos otomanos cometidas contra os eslavos da
Macedônia, militares da Sérvia, Bulgária, Grécia e Montenegro derrotaram
os turcos e cederam a Albânia à Sérvia. A bandeira do pan-eslavismo to-
mou conta do nacionalismo sérvio baseado na ideia de que todos os eslavos
da Europa Oriental constituíam uma grande família. Esses e outros moti-
vos, como o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando e a guerra
da Áustria contra a Sérvia, deram causas à Primeira Guerra Mundial. 48 A
segunda Grande Guerra produziu, na Europa, o Holocausto como resul-
tado do projeto-ideal nazista de supremacia da raça ariana, levando ao
extermínio milhões de judeus, também, de ciganos (roma ou sinti) 49 e de
pessoas de outros grupos sociais.
Nos anos 1990, a região dos Balcãs foi novamente palco de atrocida-
des e barbáries. As condições políticas que emergiram depois da morte do
Marechal Tito e do enfraquecimento comunista na região recrudesceram
e agravaram as divergências étnico-religiosas – croatas católicos, sérvios
cristãos ortodoxos e bósnios mulçumanos –, fazendo ressurgir rancores
históricos. Os croatas apoiaram os nazistas durante a Segunda Guerra
Mundial, cometendo atrocidades nesse período. Os sérvios formaram uma
guerrilha comunista lutando contra os croatas, culminando com a defla-
gração da guerra civil na Iugoslávia. A Sérvia buscou reviver o seu projeto
da Grande Sérvia, que englobaria quase toda a Bósnia e parte da Croácia.
Os croatas, por sua vez, reivindicavam parte da Bósnia. Enfim, o desejo de
independência e autonomia de algumas repúblicas, de um lado, e, de outro
lado, o desejo de controle de umas sobre outras, os rancores entre repú-
blicas e as divergências étnico-religiosas, levaram a produzir um cenário

47
Fonte: https://www.dn.pt/globo/africa/interior/biafra-40-anos-da-guerra-que-acabou-com-um-pais-
1469361.html.
48
Fonte: https://www.historiadomundo.com.br/idade-contemporanea/a-crise-nos-balcas.htm.
49
Conforme Marcos Toyansk Silva Guimarais (O extermínio de ciganos durante o regime nazista, 2015).
148 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

de lutas e massacres, resultando em milhões de pessoas mortas, desabri-


gadas ou refugiadas em outros países. 50
Conflitos étnicos também ocorreram nas Américas. Na realidade, es-
ses conflitos nem devem ser considerados como puros conflitos étnicos,
mas como enfrentamentos realizados por forças organizadas com o pro-
pósito ‘imperialista’ de eliminar obstáculos à colonização anglo-americana
nos EUA, espanhola na América Espanhola e portuguesa na América Por-
tuguesa (leia-se Brasil).
A chegada dos europeus nas américas inaugurou uma época de holo-
causto. Os colonizadores visavam à apropriação das terras e dos recursos
naturais e usaram o seu poderio belicoso para exterminar, expulsar e es-
cravizar em massa os nativos, cujos resultados consistiram em grande
mortalidade e prejuízos inimagináveis com epidemias, intensificação de
guerras e desestruturação étnico-sociocultural. Em todos os lugares por
onde passaram, os colonizadores encontraram certa resistência momen-
tânea, mas não em grau suficiente para impedi-los de realizar seus
propósitos colonizadores graças à superioridade bélica dos seus aparatos
de guerra. No período de 4 séculos, entre 1492 e 1892, a população hemis-
férica estimada em 100 milhões de nativos foi diminuída em algo acima de
90%, devido aos empreendimentos norteados pelos anglo-americanos nos
EUA e pelos espanhóis na América espanhola. 51
Nos Estados Unidos da América (EUA), a população nativa atingiu o
nível mais baixo na década de 1890, com pouco mais de 237.000 – uma
redução de 98% em relação ao tamanho original, estimado em pouco mais
de 11,8 milhões de nativos 52. Ward Churchill considera tal processo de

50
Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/1996/10/08/esporte/10.html. À guisa de esclarecimento, tanto o Holo-
causto Nazista como a guerra civil iugoslava foram temas abordados também no capítulo Intolerância associada à
identidade de grupo.
51
Conforme Ward Churchill (Since predator came: notes from the Struggle for american indian liberation, 2005, p. 41).
52
Ibid., Churchill, segundo suas próprias palavras, disse: como observei com frequência em meus escritos e palestras
públicas, o genocídio infligido aos índios americanos nos últimos cinco séculos é incomparável na história do homem,
tanto em termos de sua magnitude quanto em sua duração. Na maioria das vezes, com a exceção de incursões oca-
sionais na descrição da natureza real do empreendimento colombiano no Caribe, concentrei minha atenção e a de
meus leitores / ouvintes no genocídio perpetrado em minha própria terra natal, na América do Norte, principal-
mente, por anglo-americanos.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 149

extermínio nada menos do que genocídio realizado de forma sistemática,


de grande duração e magnitude, realizado pelos meios mais sórdidos da
época: ferimentos por machados, espadas, pisoteados por cavalos, balea-
dos, espancados, esfaqueados, enforcados em ganchos de carne,
enterrados vivos, jogados ao mar, esgotamento por trabalhos forçados
como escravos, por fome e congelamento, infectados deliberadamente
com doenças epidêmicas e outras formas. Churchill dá como certo que
“mais de 90 milhões de pessoas tenham sido ‘eliminados’ no curso da ‘ci-
vilização’ europeia (anglo-saxônicos e espanhóis) no hemisfério ocidental
americano”. 53 O genocídio de indígenas americanos foi motivado pelo de-
sejo de expansão econômica e integração do país, impulsionados pelo
governo e apoiados pelos agentes econômicos: industriais, banqueiros, fa-
zendeiros e outros capitalistas, em favor do sonho americano de sucesso,
prosperidade e uma sociedade sem obstáculos.
Na América Espanhola, por sua vez, os conquistadores espanhóis
promoveram o extermínio de indígenas das etnias astecas, incas, maias e
outros povos minoritários. As conquistas começaram em 1519, na cidade-
Estado dos mexicas (asteca), Tenochthin, onde, em poucos dias, foram
massacrados dois terços da população, cerca de 350 mil mortos entre com-
batentes e não-combatentes. Depois desta conquista, os espanhóis se
dirigiram, em 1525, à porção mais ao sul do México, Guatemala, Belize,
oeste de Honduras, Nicarágua e Panamá, e à medida que avançavam iam
matando, devastando, queimando, roubando e destruindo todo o país,
desta feita, as vítimas foram os nativos da etnia maia e outros povos. Desde
então, por 15 anos, até o ano de 1540, estima-se que foram mortas entre 4
e 5 milhões de pessoas. Ao norte do antigo império dos mexicas, os espa-
nhóis, com seus exércitos, seguiram torturando ou incendiando enquanto
apreendiam ou destruíam enormes reservas nativas de alimentos. As prá-
ticas de extermínio eram devastadoras: doenças, depredação, escravização

53
Conforme A. Claire Brandabur (Review of Ward Churchill, a little matter of genocide: holocaust and denial in the
Americas, 1492 to the present, 1999). Essa história de barbárie é negada, suprimida, minimizada, nem mesmo co-
memorada por aqueles que negam o que Churchill também denominou de holocausto americano.
150 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

e massacres foram combinados para extinguir culturas indígenas inteiras


no noroeste do México. Enquanto isso, se desenvolvia a "Conquista dos
Incas" na região onde hoje se encontram Peru e Chile. Nessa região, grande
parte dos líderes indígenas foram capturados e submetidos a métodos de
torturas para ‘convencê-los’ a trair o seu povo e submetê-lo à escravidão.
Grande número de nativos foram queimados até a morte. Enfim, dentro
da área do antigo reino mexica, as pessoas que, no momento da chegada
dos conquistadores somavam mais de 25 milhões, foram mortas em de-
corrência de massacres e trabalhos forçados em empresas de mineração e
plantação. Depois de pouco mais de 75 anos, o censo espanhol realizado
em 1595 indicou que apenas 1,3 milhão de indígenas permaneciam vivos
em toda a região. E nas outras regiões, o quadro da barbárie não era me-
lhor. 54
No Brasil desse tempo, as áreas costeiras eram dominadas
praticamente pelos indígenas de fala tupi 55, que sofreram uma mudança
radical quando um pequeno grupo de portugueses, agressivo e com
grande e variada capacidade destrutiva, desembarcou e perpetrou uma
saga de conflitos com impactos em todos os níveis de existência dos
nativos, seja “pelas pestes que o branco trazia no corpo e eram mortais
para as populações indenes”, seja “pela disputa do território, de suas matas
e riquezas para outros usos”, seja “pela escravização do índio, pela
mercantilização das relações de produção provendo o velho mundo de
gêneros exóticos, cativos e ouro” 56. Os índios, legalmente livres,
produtores de sua subsistência, eram caçados nos matos e engajados na
condição de escravos, mediante processos violentos de ordenação e
repressão para servir aos propósitos extrativistas, produção de engenho e
mercantis dos seus senhores, os colonizadores. Quando aprisionados em
guerras justas (i.e. justas por meio de decreto), os índios, mesmo que já

54
Conforme Ward Churchill, op. cit., (pp. 42-45).
55
Conforme Darcy Ribeiro (O povo brasileiro. A formação e o sentido do Brasil, 1999) esclarece, os povos de fala tupi
não eram, obviamente, uma nação, porque eles não se sabiam tantos nem tão dominadores. Eram, tão-só, uma
miríade de povos tribais, falando línguas do mesmo tronco, dialetos de uma mesma língua (p. 29).
56
Ibid.: Darcy Ribeiro classificou e significou esses níveis de existência em biótico, ecológico e socioeconômico (p. 30).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 151

incorporados à vida colonial, eram colocados em cativeiro e vendidos como


escravos. O episódio da guerra por vingança, autorizada por Mem de Sá,
levou os colonos a avançar sobre as missões jesuíticas, matando cerca de
11 mil índios catecúmenos, restando apenas mil vivos quando a ordem de
guerra foi revogada. Dezenas de guerras ‘jutas’ foram decretadas contra
índios considerados culpados de grandes agravos ou simplesmente hostis.
Ao serem integrados à vida colonial, os índios na condição de escravos
eram desgastados até a morte servindo como meios de transporte de carga
aos seus ‘donos’. 57 “O processo de apresamento como forma de recrutar
mão de obra nativa para a colonização constituiu um genocídio de
proporções gigantescas” 58. Enquanto a população brasileira recenseada
vem apresentando, desde a primeira metade do século XVI, um
crescimento vertiginoso, chegando no fim do século XX com quase 170
milhões de pessoas, a população indígena vai em sentido contrário, com
um grande decrescimento: a população indígena recenseada em terras
indígenas brasileiras, em 1550, era de 2,4 milhões, e em 2000, cerca de
294 mil pessoas.
Se ao longo do tempo a população que vivia em terras indígenas foi
reduzida, a de africanos que aqui chegaram ganhou expressividade: mais
de 4 milhões desembarcaram no período compreendido entre 1531 e 1855.
59
Um raciocínio bem simples acompanha tais dados. Eliminar os
obstáculos à colonização, massacrar, expulsar e aprisionar indígenas
favoreceu os colonizadores quanto à ocupação das terras indígenas, e
trazer e utilizar africanos escravos em lugar dessa mão de obra indígena
cuja escassez se impôs favoreceu o uso das terras indígenas e a apropriação
de seus recursos naturais. De acordo com a CEPAL, em relatório de 2007,
o Brasil contava com 305 comunidades indígenas, o maior número de
comunidades entre os países da América Latina, e 900 mil indígenas
(incluindo aqueles viviam em comunidades fora de suas terras, em zona

57
Ibid. (pp. 99-100).
58
Ibid., (p. 103).
59
Conforme IBGE (Brasil: 500 anos de povoamento, 2007, p. 222).
152 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

rural ou urbana); destas comunidades, 70 povos encontravam-se em risco,


em perigo de desaparecimento. 60
O movimento que desaloja os indígenas de seus lugares nunca foi in-
terrompido. Em nome do desenvolvimento econômico em certas regiões
do país, a expansão do agronegócio – agricultura, pastoril –, da mineração
e da extração de madeira ilegal continua desalojando populações indígenas
de seus territórios 61. A releitura jurídica do “marco temporal de ocupação”
tem impulsionado esse movimento. A interpretação jurídica do “marco
temporal de ocupação”, segundo a qual se exige a presença dos índios na
área objeto da demarcação na data da promulgação da Constituição, isto
é, em 5 de outubro de 1988, para serem reconhecidos os seus direitos ori-
ginários, tem contribuído para a anulação de processos de demarcação de
terras, o aumento dos conflitos no campo, a insegurança jurídica e incer-
tezas sobre os direitos territoriais indígenas. Alega o CIMI (Conselho
Indígena Missionário) que a tese do Marco Temporal é inconstitucional e
extremamente perversa porque, dentre outros motivos, pode vir a punir
povos que não ocupavam seu território em 1988 pelo fato de que haviam
sido expulsos deles 62.
O retrato da violência contra povos indígenas no Brasil, em tempos
bem mais recentes, contabiliza, em números de 2018 compilados pelo
CIMI 63, 941 violações contra o patrimônio, sendo que a omissão e a moro-
sidade na regularização de terras representa 87% dessas violações; 110
atos de violência contra a pessoa, 36% refere-se à tentativa de assassinato
(20%) e homicídio culposo (16%); 142 casos de violência por omissão do
poder público, 84% refere-se à desassistência – geral, educação, saúde;
135 homicídios, 46% no Estado de Roraima e 28% no Estado de Mato
Grosso do Sul; 101 casos de suicídios, 44% no Estado de Mato Grosso do
Sul; e 591 casos de mortalidade na infância, 37% no Estado de Amazonas,

60
Conforme Ana Cristina Campos (Relatório da ONU aponta aumento do número de indígenas na América Latina, 2014).
61
Ibid.: Segundo o relatório, na América Latina, entre 2010 e 2013, foram detectados mais de 200 conflitos em terri-
tórios indígenas ligados a atividades extrativas de petróleo, gás e mineração.
62
Conforme CIMI 2017 (Violência contra os povos indígenas no Brasil – Dados de 2017, 2018).
63
Conforme CIMI 2018 (Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2018, 2019, pp. 150-151).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 153

12% no Estado de Roraima, seguidos pelos Estados de Mato Grosso do Sul


com 10%, Pará com 7,6% e Mato Grosso do Sul com 7% dos casos. Em
2018, foram registradas 11 ocorrências de conflitos relativos a direitos ter-
ritoriais nos estados do Ceará (2), Maranhão (3), Pará (1), Paraná (1),
Pernambuco (1), Rio Grande do Sul (1) e São Paulo (2). Alguns desses con-
flitos, por sua contundência e magnitude, foram citados no próprio
Relatório CIMI 64. Destacam-se aqui os conflitos ocorridos nos Estados do
Maranhão e Pernambuco:

No Maranhão, três jagunços armados entraram no território Tremembé, ame-


açando e causando terror. São 60 famílias que vivem em 86 hectares desde
seus ancestrais Tremembé. Mesmo que tenha sido constatada fraude na vera-
cidade dos títulos do suposto proprietário, o despejo das famílias indígenas
aconteceu, designado pelo desembargador Raimundo José de Barros.
[...] Em Pernambuco, em menos de dois meses, a Terra Indígena (TI) Panka-
raru de Araçuaí, do povo Pankararu, sofreu ataques que resultaram no
incêndio de uma escola e do posto de saúde e na depredação da igreja católica.
Os prédios atacados estão próximos a uma área de conflito com posseiros ins-
talados ilegalmente dentro da terra indígena. No mês de setembro, doze
famílias que moravam ilegalmente na área foram retiradas. Foi necessário o
uso de força policial para realizar a desocupação pois os posseiros se recusa-
ram a cumprir a ordem judicial e ameaçaram os indígenas. 65

A mídia informativa brasileira tem noticiado inúmeros atos de discri-


minação e intolerância contra grupos étnicos-raciais, precipuamente,
contra os indígenas. Destacam-se aqui algumas matérias. A Revista Carta-
Capital publicou que, no dia 30 de abril de 2017, indígenas da etnia gamela
sofreram ataques de homens munidos de armas de fogo e facões no mu-
nicípio de Viana, no Maranhão. O episódio deixou cerca de 13 indígenas
feridos. Dois chegaram a ter as mãos decepadas e cinco foram baleados. 66
O CIMI publicou que foram registradas invasão de madeireiros, lote-
amento dentro de terras demarcadas e ameaças de posseiros em terras do

64
Ibid., (p. 53)
65
Op. cit.
66
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/carta-explica/entenda-o-conflito-indigena-no-brasil/.
154 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Maranhão, Mato Grosso, Pará e Rondônia. O número de invasões de terras


demarcadas vem crescendo nos últimos anos após os cortes nos recursos
dos órgãos responsáveis por fiscalizar as terras indígenas e unidades de
conservação. Em 2017, o CIMI registrou 96 casos de invasão, exploração
ilegal de recursos naturais e danos diversos às terras indígenas no Brasil –
um aumento de 62% em relação ao ano anterior, quando 59 casos foram
registrados. O ano de 2019 iniciou com uma intensificação das denúncias
de invasão a terras indígenas, em ao menos 5 terras demarcadas. As Terras
Indígenas (TIs) Arara, no Pará, e Arariboia, no Maranhão, registraram no
primeiro mês do ano a invasão de madeireiros e a de grileiros que vêm
tentando se estabelecer no interior das áreas demarcadas. Os povos Uru-
Eu-Wau-Wau e Karipuna, ambos no Estado de Rondônia, identificaram
novas investidas de grileiros, que já abrem picadas e, no caso Karipuna,
vêm se estabelecendo dentro da terra indígena. 67
O Relatório Figueiredo denuncia o genocídio de índios brasileiros
ocorrido sob a jurisdição da entidade de Serviço de Proteção aos Índios
(SPI), substituída, em 1967, pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio) 68.
O referido relatório detalhou o assassinato em massa, tortura, escravidão,
guerra bacteriológica, abuso sexual, roubo de terras e negligência travada
contra a população indígena, que teve como consequência o desapareci-
mento completo de algumas tribos e a dizimação de muitas outras 69. Tais
crimes foram perpetrados por latifundiários, empresários da mineração e
funcionários do então SPI. Seguem-se algumas passagens retiradas do re-
ferido relatório à guisa de compor uma breve síntese sobre a atuação do
SPI e de seus funcionários e, também, sobre alguns dos crimes relatados.
Diz o relator:

[Sobre a atuação do SPI e seus funcionários:] pelo exame do material in-


fere-se que o Serviço de Proteção aos Índios foi antro de corrupção inominável

67
Fonte: https://cimi.org.br/2019/01/pelo-menos-seis-terras-indigenas-sofrem-com-invasoes-e-ameacas-no-ini-
cio-de-2019/.
68
Conforme Jader de Figueiredo Correia (Relatório Figueiredo, 1967)
69
Conforme Ministério Público Federal – MPF (Relatório Figueiredo, s/d).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 155

durante muitos anos. O índio, razão de ser do SPI, tornou-se vítima de verda-
deiros celerados, que lhe impuseram um regime de escravidão e lhe negaram
um mínimo de condições de vida compatível à dignidade de pessoa humana.
É espantoso que existe na estrutura administrativa do País repartição que haja
descido a tão baixos padrões de decência. E que haja funcionários públicos,
cuja bestialidade tenha atingido tais requintes de perversidade. Venderam-se
crianças indefesas para servir aos instintos de indivíduos desumanos. 70
[Sobre alguns dos crimes cometidos:] citaremos, entre outros, as chacinas
do Maranhão, onde fazendeiros liquidaram toda uma nação, sem que o SPI
opusesse qualquer reação. O episódio da extinção da tribo localizada em Ita-
buna, na Bahia [...]. Jamais foram apuradas as denúncias de que foi inoculado
o vírus da varíola nos infelizes indígenas para que se pudessem distribuir suas
terras entre figurões do Governo. [...] os Cintas-largas, em Mato Grosso, te-
riam sido exterminados a dinamite atirada de avião, e a extricnina [sic]
adicionada ao açúcar enquanto os mateiros os caçam a tiros [...] e racham
vivos, a facão, do púbis / para a cabeça, o sobrevivente. 71

Este crime contra os Cinta-Largas, Mato Grosso, ficou conhecido


como o Massacre do Paralelo 11, em 1963. Nele foram mortos 3,5 mil índios
envenenados por alimentos misturados com estricnina (há quem diga que
o veneno utilizado foi o arsênico) presenteados aos índios por empresá-
rios, com a cobertura de funcionários agentes do SPI, bombardeados por
artefatos de dinamite lançados por avião sobre a Aldeia e assassinados por
pistoleiros que, organizados em expedição, invadiram a reserva indígena,
armados de metralhadoras para exterminar sobreviventes e pôr fim à exis-
tência da tribo naquela região, quando, nessa ocasião, também, praticaram
de roubo ao estupro, passando por grilagem, suborno, tortura e outras
agressões 72. Este foi um dos crimes mais sangrentos acontecidos nas ma-
tas da Amazônia brasileira, ganhando repercussão internacional, sendo o
Brasil, pela primeira vez, acusado de genocídio por organismos internaci-
onais 73.

70
Conforme Correia, op. cit., (p. 2).
71
Conforme Correia, op. cit., (p. 7). O crime cometido contra os Cintas-largas, em Mato Grosso, ficou conhecido como
o Massacre do Paralelo 11.
72
Fonte: Estadão do Norte-Porto Velho-RO em https://pib.socioambiental.org/en/Not%c3%adcias?id=17879.
Acesso em 10 de outubro de 2019.
73
Conforme Hariessa C. Villas Bôas (Mineração em terras indígenas: a procura de um marco legal, 2005, p. 124).
156 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Em diferente escala, a devastação indígena, dos nativos e de seu ha-


bitat natural, nos tempos atuais, reproduz o mesmo ideário dos primeiros
colonizadores chegados de além-mar. Há uma miríade de casos ilustrati-
vos de conflitos étnicos no Brasil tendo como fonte opressora pessoas
associadas a grupos empresariais apoiados por agentes públicos que bus-
cam eliminar obstáculos à expansão de seus negócios no campo do
agronegócio, da mineração, do comércio de madeiras e outros, invadindo
terras indígenas demarcadas ou à espera de demarcação, massacrando e
expulsando os sobreviventes. Isso sem levar em consideração o fato de que
a solução desses conflitos em favor da parte opressora, pela natureza ex-
pansionista de seus negócios, enseja seguramente danos cruciais e, por
vezes irreparáveis, ao meio ambiente. O professor e pesquisador Carlos
Nobre, um dos mais prestigiados climatologistas do mundo, afirma que é
“possível aumentar muito a produção agropecuária com desmatamento
zero”, basta aproveitar as terras já desmatadas e abandonadas, e, sobre-
tudo, aperfeiçoar a técnica de produção para aumentar a produtividade
que, na Amazônia, é baixa, muito inferior ao potencial, não sendo neces-
sário, pois, fazer avançar os negócios sobre novas áreas de produção 74. Ao
se adotar políticas empresariais de melhoria da produtividade com base
na melhoria da técnica de produção em lugar de aumentar a produção pela
expansão das áreas de produção sustentada na devastação florestal, o Bra-
sil poderia compilar extraordinários ganhos no campo biótico, ecológico e
socioeconômico. Ao se preservar as terras indígenas e os seus nativos ha-
bitantes, novas técnicas de manejo dos biomas florestais seriam
desenvolvidas e, com efeito, os níveis de criminalidade reduzidos.
Nota-se, por essas barbáries, que os atos discriminatórios e intole-
rantes têm para os perpetradores, individual ou coletivo, uma só
finalidade: eliminar obstáculos à realização de desejos infinitos de po-
der socioeconômico e político. Todo ato de tal natureza é dirigido para
eliminar o outro, física ou simbolicamente, seja o outro um indivíduo ou
um grupo social. Todo ato de tal natureza dirigido a um indivíduo tem a

74
Conforme Rodrigo Martins (Amazônia corre o risco de se converter em uma savana degradada, 2019).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 157

finalidade de não apenas eliminar o indivíduo em questão, mas, por exten-


são, eliminar simbolicamente tudo o que ele representa e lhe dá sentido e
identidade: raça, religião, gênero, etnia etc. Para os perpetradores, tudo o
que deles difere – cor da pele, crença, orientação sexual, origem étnica etc.
– torna-se ameaça e obstáculo para realizar os seus mais íntimos propósi-
tos e converte-se em objeto personificado de sua barbárie. Para os
perpetradores, o objeto personificado e tudo o que ele representa tem de
ser eliminado, seja por eliminação simbólica, tal como no banquete totê-
mico, seja por eliminação física. Os perpetradores, tanto os reais como os
potenciais (aqueles que comungam ideias, mas não atuam), se acham
como povo e cultura ao qual pertencem superiores em relação a todos os
outros grupos sócio-étnicos, acham-se convictos de sua superioridade e de
estar no seu direito de ser bem-sucedido na luta pela sobrevivência. Esses
perpetradores comungam e manifestam uma atitude fascista “de recusa
de direitos, de desvalorização política e social e de negação de valor indivi-
dual a pessoas [oriundas] de determinados grupos [socioculturais]” (esta
acepção do termo fascismo é geral e de uso corrente) 75, o que corresponde
definitivamente a uma atitude preconceituosa. Essa atitude preconceitu-
osa e comportamento discriminatório 76, propensos à barbárie, anversos
ao esclarecimento e à civilidade, ‘acionados’ pelo comando psicológico do
fascismo 77, consistem nas principais razões para a existência de rupturas,

75
Conforme Douglas Garcia Alves Júnior (A personalidade autoritária hoje: por que o fascismo volta a fascinar?,
2018, p. s/p). Há outra acepção do termo fascista ligada à ciência política, que registra o seu lastro histórico, e tem
sua referência maior no fascismo italiano e no nazismo alemão, da primeira metade do século passado. Segundo essa
acepção, o fascismo é uma forma política que se caracteriza por uma série de elementos que se apoiam mutuamente,
dentre os quais, o culto a um líder carismático; nacionalismo expansionista; etnocentrismo (o ‘nós’ da comunidade
nacional, definida racialmente, de modo excludente); valorização da violência como elemento criativo e regenerador
do corpo político e outros.
76
Conforme Iray Carone (A personalidade autoritária: estudos frankfurtianos sobre o Fascismo, 2012, p. 7), o com-
bustível do comportamento discriminatório é o preconceito.
77
Ibid., (p. 6 [grifos do autor]). Referindo-se à pesquisa cujo objetivo é mapear tendências subjetivas básicas, confi-
gurações psicodinâmicas relacionadas a atitudes de expressão de preconceito antissemita, etnocentrismo,
conservadorismo político e econômico e, finalmente, potencial fascista, a qual dá origem ao livro “A personalidade
autoritária”, de Theodor Adorno, Iray Carone apresenta a configuração da estrutura psicológica do sujeito fascista.
Nove disposições inconscientes e latentes constituem o seu perfil do sujeito fascista: a submissão autoritária, a agres-
sividade autoritária, o convencionalismo, a projetividade, a anti-intracepção, a preocupação com o comportamento
sexual das pessoas, a valorização do poder e da dureza, a superstição e a estereotipia, a destrutividade (ou visão
catastrófica do mundo) e o cinismo. Os dois primeiros traços são do caráter sadomasoquista, ou seja, do sujeito que
158 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

segregações, clivagens e máculas sociais; mas não apenas isto, também, de


massacres e extermínios, genocídios e holocaustos, entre indivíduos e gru-
pos de diferentes etnias, bem como de diferentes raças, gêneros, religiões
etc. Tudo isto não apenas mostra, mas também significa que o precon-
ceito, o etnocentrismo e o potencial fascista estão ligados, imbricados
entre si 78 e, juntos, eles excitam o que há de mais atroz no homem, a sua
iniquidade e sua pravidade, tal como expôs o já citado Relatório Figuei-
redo.
Não apenas a mídia informativa, os relatórios oficiais e documentos
históricos dão conta dos números da intolerância étnica. Em pesquisa re-
alizada pelos autores do presente trabalho, que contou com 1.009
respondentes, 129 afirmaram ter sido vítimas de intolerância étnica, re-
presentando cerca de 13% dos indivíduos participantes, conforme a Tabela
4. A Tabela 23 mostra os percentuais de vítimas de acordo com a etnia
autodeclarada pelos respondentes. Os respondentes que se declararam asi-
áticos tiveram mais de 50% de ocorrências de intolerância, seguido por
aqueles que se autodeclararam de origem judaica e africana com, respec-
tivamente, 41% e 26% dos respondentes foram vítimas deste tipo de
intolerância. Quanto aos demais grupos, os resultados alcançaram marcas
inferiores a 17% dos respondentes que afirmaram ter sido vítimas de in-
tolerância, exceção feita àqueles que se autodeclaram indianos, os quais
afirmaram não ter sofrido qualquer tipo de intolerância.

se submete incondicionalmente à autoridade (masoquismo) e descarrega a agressividade nos grupos de contra-iden-


tificação (sadismo). A anti-intracepção é a dificuldade do sujeito entrar em contato com a sua vida psicológica e
desvalorizar sentimentos, emoções, ternura, sensibilidade, como se fosse, por isso, muito racional. Daí também de-
corre a sua valorização do poder e da dureza (quem é duro consigo mesmo também o é com os demais); a
projetividade é resultado de pulsões proibidas e negadas pelo sujeito que, no entanto, são exteriorizadas pela atribui-
ção a outrem; a preocupação com o comportamento sexual das pessoas decorre tanto do sadomasoquismo como da
projetividade, como se os outros realizassem as “sujeiras” que gostariam, mas estão impedidos de realizar, etc.
78
Conforme Alves Júnior, op. cit. (p. s/p [grifo nosso]). Referindo-se à pesquisa que deu origem ao livro A persona-
lidade autoritária, de Theodor Adorno, Alves Junior destaca que, em termos muito sucintos, esse estudo mostrou
correlações significativas nos resultados obtidos nas escalas de medida de preconceito contra os judeus (AS, de an-
tissemitismo) e etnocentrismo (E), bem como entre ambas e a escala F, de potencial fascista, este é o achado mais
importante de A personalidade autoritária. Para saber mais, consultar (Adorno, Frenkel-Brunswik, Levinson, &
Sanford, 1950).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 159

Tabela 23 – Intolerância étnica: quantidade de vítimas e não-vítimas da amostra por etnia (%)
Vítima de intolerância
Etnia
Sim Não
Asiática 54% 46%
Judaica 41% 59%
Africana 26% 74%
Indígena 16% 84%
Multietnia 16% 84%
Latino-americano ou sul americano 15% 85%
Oriente médio 12% 88%
Brasileiro 10% 90%
Europeu 9% 91%
Indiana 0% 100%

As principais agressões sofridas, conforme a Tabela 5, foram as pia-


das de acordo com a declaração de 59% das vítimas de intolerância étnica.
Às piadas, seguiram-se as agressões de desqualificação por possuir deter-
minadas características físicas ou aparentes e de desqualificação pessoal
devido às suas ideias e forma de pensar, representando, respectivamente,
cerca de 36% e 35% das agressões sofridas pelas vítimas. A violência física
alcançou cerca de 3% das agressões. As demais agressões – xingamentos,
humilhações públicas e isolamento de grupos – situaram-se no patamar
entre 15% e 26% das agressões sofridas pelas vítimas.
Os principais agressores declarados pelas vítimas, conforme a Tabela
6, foram desconhecidos e colegas de escola, representando, respectiva-
mente, 45% e 42% das agressões sofridas pelas vítimas. Colegas de
trabalho e amigos em geral representaram, respectivamente, 33% e 24%
das agressões sofridas pelas vítimas. Os demais agressores – familiares
diretos e parentes (família estendida) – situaram-se no patamar entre 3 e
12% das agressões sofridas pelas vítimas.
Em relação ao apoio recebido, conforme a Tabela 7, 59% das vítimas
declararam não ter recebido apoio. Entre os que declararam ter recebido
apoio, receberam apoio de amigos, familiares e cônjuges, respectivamente,
cerca de 27%, 23% e 11% das vítimas de agressão. 7% das vítimas rece-
beram apoio de colegas de trabalho. Vale destacar que apenas cerca de
0,8% das vítimas receberam assistência social e psicológica pública, e 3%
160 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

das vítimas receberam apoio tanto de desconhecidos como de assistência


psicológica particular.
Em todo ato associado à intolerância étnica verifica-se um ou mais
grupos de agressões associados a múltiplos agressores. A Tabela 24 mostra
que, ao se relacionar os grupos de agressões sofridas e agressores, predo-
minam as agressões por piadas e humilhações públicas. Neste tipo de
intolerância, as piadas praticadas por desconhecidos alcançaram o pata-
mar de 53% das agressões, enquanto nos demais grupos ficaram no
patamar entre 72% e 87% das agressões sofridas pelas vítimas. Já as hu-
milhações públicas praticadas por parentes diretos representaram 75%
das agressões, enquanto os demais grupos ficaram no patamar entre 26%
e 43% das agressões sofridas pelas vítimas.
Tabela 24 - Intolerância étnica: quantidade de vítimas agredidas por grupo de agressões e grupo de agressores (%)
Grupo de agressores Amigos / Colegas de Parentes
Familiares Colegas de
colegas em Escola / Fa- (família es- Desconhecido
Diretos Trabalho
Grupo de agressões geral culdade tendida)
Socos, pontapés, tapas,
0% 6% 5% 6% 7% 5%
empurrões etc.
Xingamentos e agressões
0% 23% 28% 24% 20% 26%
verbais
Vítima de piadas no ambi-
75% 87% 72% 83% 73% 53%
ente onde estava
Desqualificação pessoal de-
vido às ideias e forma de 50% 52% 51% 46% 53% 36%
pensar
Humilhações públicas de
75% 39% 35% 43% 33% 26%
natureza moral
Desqualificação por pos-
suir determinadas
50% 39% 44% 48% 47% 40%
características físicas ou
aparentes
Calúnia ou difamação 50% 23% 19% 20% 27% 14%
Isolamento de grupo 75% 26% 30% 33% 27% 34%

A pesquisa possibilitou analisar a relação entre grupos de agressões


e os tipos de apoio recebido. A Tabela 25 apresenta em percentuais os gru-
pos de agressões sofridas e, de acordo com este grupo de agressão, o tipo
de apoio recebido pela vítima. Chama a atenção o baixo apoio assistência
psicológica pública.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 161

Tabela 25 – Intolerância étnica: quantidade de vítimas apoiadas (ou não) por grupo de apoio recebido e
grupo de agressões (%)
Apoio de
Apoio de
Apoio de Apoio assistên-
Grupo de Apoio assistên-
cônjuge, Apoio de Apoio de cole- cia
Apoio recebido Não rece- de cia
parceiro(a), familia- de gas de psicoló-
beu apoio desco- psicoló-
companheiro res amigos traba- gica
Grupo de agressões nhecidos gica
(a) lho particu-
pública
lar
Socos, pontapés, ta-
75% 0% 25% 25% 50% 25% 0% 0%
pas, empurrões etc.
Xingamentos e
54% 13% 29% 50% 13% 8% 8% 0%
agressões verbais
Vítima de piadas no
ambiente onde es- 55% 16% 30% 29% 4% 12% 4% 1%
tava
Desqualificação pes-
soal devido às ideias 49% 16% 31% 40% 7% 11% 7% 0%
e forma de pensar
Humilhações públi-
cas de natureza 60% 13% 27% 33% 7% 13% 10% 3%
moral
Desqualificação por
possuir determina-
57% 11% 30% 30% 4% 6% 2% 2%
das características
físicas ou aparentes
Calúnia ou difama-
63% 11% 16% 32% 11% 11% 5% 5%
ção
Isolamento de grupo 67% 9% 18% 33% 3% 6% 6% 3%

No teste de Análise de Correspondência (ANACOR) elaborado pelos


autores, conforme sinalizado na Figura 5, é possível observar o mapa per-
centual da intolerância étnica para as variáveis referentes ao grupo de
agressor e ao grupo de agressão dentro deste tipo de intolerância. Nota-se
que as variáveis que se mostram mais próximas entre si, relacionando
agressor e agressão, são X5.A2, X5.A3, X5.A4, X5.A5, X5.B3 e X5.B4, o que
pode indicar um grupo de tendência entre os agressores “amigos”, “cole-
gas trabalho”, “faculdade escola”, “família segundo grau” e os tipos de
agressão “piadas” e “desqualificação ideias”.
162 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

Figura 5. Intolerância étnica: mapa perceptual para as variáveis referentes aos grupos de agressores e aos grupos
de agressões.

Na fase qualitativa da pesquisa, pronuncia-se uma ideia de intersec-


cionalidade de violências na categoria étnica. A violência que sofre uma
pessoa pertencente a um grupo étnico pode vir carregada de outras vio-
lências associadas ao gênero, à classe econômica e ao grupo ou contexto
sociocultural de pertencimento. A história cultural do povo brasileiro está
aí para corroborar tal fenômeno. Para muitas pessoas-vítimas de discrimi-
nação e intolerância, a violência que sofrem é marcada por estereótipos
enraizados na cultura brasileira, cujas sementes foram lançadas pelo pro-
cesso colonizador do Brasil e, desde então, vêm se desenvolvendo e se
constituindo no interior de um ideário de branqueamento 79, de modo que,
se um indivíduo aparenta pertencer a um grupo étnico tal como o indí-
gena, o africano, o rom (romani) ou um outro, no ideário dos sujeitos
potencialmente intolerantes, ela tende a ser jungida com a mácula de po-
breza material e espiritual (conhecimento), tanto pelo modo como se
veste, como pelo contexto social em que vive e pelo modo como expressa
suas ideias, sua religiosidade, sua orientação sexual, conforme os depoi-
mentos:

79
Cf. Andreas Hofbauer e Kabengele Munanga (Uma história de branqueamento ou o negro em questão, 1999).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 163

“Vim de origem humilde e de família com baixo nível de escolaridade. Durante


toda minha vida, eu passei pelos mais diversos tipos de intolerância relacio-
nada a renda, local de moradia, vestimenta, personalidade, orientação sexual
e origem étnica indígena. Fui diversas vezes agredido verbal e fisicamente,
passando por humilhações, isolamento e desqualificação de pensamento. Du-
rante minha vida, me agarrei à educação e busca de conhecimento para mudar
a realidade à minha volta. Atualmente, depois de mudança de cidade e au-
mento de capacidade de técnica, possuo reconhecimento pelas minhas
atividades e sou respeitado pelos meus pares. Olhando para trás, sinto que o
Brasil possui um grau alto de intolerância, mesmo sendo um país muito di-
verso. As pessoas tendem a agruparem seu pensamento à sua condição e
recusar todo tipo de pensamento diverso. As marcas desta realidade ficarão
gravadas na minha memória para sempre, mas também acredito que todas
estas experiências me tornaram mais forte e consciente da necessidade de mu-
dança, partindo especialmente de mim mesmo.”

“Por morar em cidade pequena com uma mesma constituição étnica, geral-
mente julgam as pessoas por sobrenomes e filho de quem... quem não faz
parte das famílias tradicionais acabam sendo vistas com desconfiança... já me
perguntaram filha de quem eu era quando fui entregar currículo, como se
fosse isso que importava...não consegui emprego...”

“A intolerância racial, de gênero, étnica e, principalmente, ideológica permi-


tida em nosso ensino escolar infanto-juvenil se reflete na violência,
principalmente simbólica e verbal, de inúmeras manifestações ainda utilizadas
nas esferas públicas e privadas destes mesmos adultos. Quanto à etnia, tenho
uma parente que não suporta alemães e recebi algumas ofensas por parte dela.
Quanto a mim, creio que superei as questões, mas na época sofri muito.”

“Já tive que escutar um amigo do meu marido falando: Lá no sul vocês se
acham os bons, tudo arianos!!! Na hora falei: - se fosse ariana não viria na
Bahia buscar um marido!!! Tentei levar na esportiva, mas fiquei chateada por
ser comparada a uma ideia nazista idiota, só porque meus bisavôs são ale-
mães!!!”

Tem-se presente que as vítimas de intolerância predominantemente


são participantes de grupos sociais minoritários ou de classes sociais me-
nos favorecidas, no interior dos quais se encontram os elementos-gatilhos
164 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

– étnico, religioso, cultural, econômico – que impulsionam os potenciais


agressores a manifestações de discriminação e intolerância vitimando pes-
soas pela condição de pertencer a uma etnia ou de aparentar ser membro
de uma, conforme os depoimentos a seguir:

“Por ser praticante de religião de origem africana, constantemente percebo


preconceito, não apenas em relação à religião, mas em relação à própria cul-
tura do negro. Embora, por estar em uma condição social um pouco mais
privilegiada (Ensino Superior, emprego, estrutura familiar), percebo que o
preconceito e a intolerância sejam de forma mais velada, menos direta.”

Note-se que, nesses depoimentos, as pessoas relataram não apenas o


acontecimento da violência sofrida por elas, mas o que essa violência in-
fluenciou o seu próprio desenvolvimento pessoal. Da perspectiva das
vítimas, a discriminação e a intolerância deixam marcas inesquecíveis na
memória de quem as sofrem e da perspectiva dos agressores é uma tenta-
tiva de produzir a morte da vítima, se não uma morte física, ao menos,
uma morte simbólica daquilo que a vítima representa ao agressor.
Por fim, não há como não fazer coro e ecoar as palavras do Diretor
da Survival International, Stephen Corry, sobre o Relatório Figueiredo.
Disse ele, esse relato “faz uma leitura horrível, mas de uma forma, nada
mudou: quando se trata do assassinato de índios, reina a impunidade. Ho-
mens armados matam rotineiramente índios com a consciência que há
pouco risco de serem julgados e punidos”. E complementa: “é difícil não
suspeitar que o racismo e a ganância estão na raiz do fracasso do Brasil
em defender as vidas de seus cidadãos indígenas.” 80

80
Conforme José Idoyaga (Relatório ‘perdido’ expõe genocídio de índios brasileiros, 2013).
7

Intolerância associada à cor de pele

Dorival De Stefani
Francis Kanashiro Meneghetti
Fernando Ressetti Pinheiro Marques Vianna
Giselle Quaesner
Rejane Cioli
Rodrigo Alves Silva

Em primeiro lugar, recorda-se parte dos pressupostos da declaração


sobre a raça e os preconceitos raciais, adotada e proclamada pelas Organi-
zações da Nações Unidas (ONU): “Todos os seres humanos pertencem à
mesma espécie e descendem de uma origem comum. Nascem iguais em
dignidade e em direitos e todos fazem parte integrante da Humanidade.” 1
E continuando a declaração, esclarece:

Todos os indivíduos e grupos têm o direito de ser diferentes, de se considera-


rem diferentes e de serem vistos como tal. Contudo, a diversidade de estilos
de vida e o direito de ser diferente não podem, em quaisquer circunstâncias,
servir de pretexto para o preconceito racial; não podem justificar, de direito
ou de facto, qualquer prática discriminatória, nem servir de fundamento à po-
lítica do apartheid, a qual constitui uma forma extrema de racismo. 2

Em geral, sabe-se da importância desse estatuto para o


desenvolvimento harmonioso da vida coletiva. Muitos brasileiros têm plena
consciência dele, compreendem bem e o reconhecem como um valor

1
Conforme ONU (Declaração sobre raça e os preconceitos raciais, 1978).
2
Ibid.: em referência ao artigo 1, parágrafos 1 e 2 (pp. 2-3).
166 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

inalienável para si próprios e para toda a sociedade. Outros, todavia, não


têm essa consciência. Pode-se afirmar que a ignorância sobre os princípios
orientativos e educativos da boa convivência e respeito dá origem a
manifestações de racismo. Em uma rápida passagem pelas principais mídias
informativas brasileiras é muito comum encontrar matérias abordando
manifestações preconceituosas, discriminatórias e intolerantes contra
pessoas e grupos sociais por sua origem racial, étnica, geográfica-cultural
ou, ainda, por sua marca (cor de pele), as quais têm sido reportadas
indistintamente de sua especificidade, como práticas de racismo. O racismo,
enquanto teoria, preconiza uma hierarquia baseada na ideia de raça e a
superioridade de uma raça em relação a outras e, enquanto prática, o
racismo constitui-se de manifestação real de desprezo, hostilização,
segregação ou eliminação de pessoas ou grupos com características
diferentes, ou seja, constitui-se de manifestação real de violência que pode
ser tanto simbólica, sem coação física, causando apenas danos morais e
psicológicos, como física, que, em seu grau máximo, pode levar ao
extermínio de pessoas ou mesmo de grupos raciais minoritários 3.
O entendimento sobre a noção de raça, ao longo da História, tem sido
bastante controverso, ideologicamente carregado e, até certo ponto, cien-
tificamente inoperante. Se para uns, a raça é definida por fatores genéticos
afetando e organizando a vida social das pessoas em um certo modo, com
base nos critérios de cor da pele, morfológicos e químicos 4, tais fatores
deram origem a grande número de raças, sub-raças e outras tantas ainda
mais inferiores do que estas. Para outros, no entanto, a raça é um produto
resultado do processo de construção social mediado por fatores histórico-
cultural e geográfico-ambiental.

3
O Holocausto Nazista e o Holodomor (Holocausto Ucraniano) são exemplares. Ver também Tiago Cordeiro (Os 10
maiores genocídios da história, 2018).
4
Conforme Kabengele Munanga (Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, identidade e etnia, 2003).
A perspectiva francesa concebida no século XVI definiu raça a partir de atributos físicos: cor da pele, dos olhos e do
cabelo. No século XVIII, a cor da pele torna-se o principal atributo para distinção de raças: branca, negra e amarela.
Mais tarde, no século XIX, foram introduzidos atributos de natureza morfológica para aperfeiçoar a classificação:
forma do nariz, dos lábios, do queixo, do formato do crânio, o ângulo facial e outros. No século XX, critérios químicos
foram introduzidos para acurar ainda mais a classificação: análise do sangue para determinar grupos sanguíneos,
certas doenças hereditárias e outros fatores na hemoglobina.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 167

Na França dos séculos XVI e XVII, o conceito de raça 5 começou a ser


utilizado como meio de distinguir classes sociais 6. Mais tarde, no século
XVIII, os estudos naturalistas continuaram com essa ideia de classificação
e hierarquização das raças ao erigir uma relação intrínseca entre o bioló-
gico (cor da pele, traços morfológicos) e as qualidades psicológicas, morais,
intelectuais e culturais 7. Ainda que os estudiosos das ciências biológicas
tenham concluído que a raça não é uma realidade biológica explicativa da
diversidade humana e da divisão em raças distintas 8, seus estudos deixa-
ram marcas simbólicas em boa parte das populações contemporâneas. No
imaginário coletivo dessas populações, permanece a existência de raças
sociais – hierarquizadas – construídas a partir das diferenças fenotípicas
(cor da pele e outros critérios morfológicos), as quais se reproduzem e
mantêm os racismos populares, justificando uma realidade social e política
que advoga a raça como uma construção sociológica e uma categoria social
de dominação e de exclusão, tal como aquela idealizada pelos franceses dos
séculos XVI e XVII. As origens do conceito de raça e, por conseguinte, do
racismo associado, não são de natureza biológica, mas ideológica.
As teorias racistas que dão força ou origem a movimentos racistas e
eugenistas devem muito ao darwinismo social que se desenvolveu a partir

5
Conforme IBGE (2013), no século XVII, a “raça já era bastante usada para designar povos, nações, tribos, ou outros
grandes grupos humanos de mesma progênie – real ou mítica” (p. 85).
6
Conforme Munanga, op. cit., (p. 1): na França dos séculos XVI e XVII, a nobreza local que se identificava com os
Francos, de origem germânica, se opunham aos Gauleses, população local identificada com a Plebe. Os Francos se
consideravam dotados de sangue “puro”, afirmando sobre suas habilidades especiais e aptidões naturais para dirigir,
administrar e dominar os Gauleses, que segundo pensavam, podiam até ser escravizados. Trata-se do uso do conceito
de raça pura para legitimar as relações de dominação e de sujeição entre classes sociais (Nobreza – Plebe), sem que
houvesse diferenças morfobiológicas notáveis entre os indivíduos pertencentes a ambas as classes.
7
Ibid., (p. 5): os indivíduos da raça “branca” foram decretados coletivamente superiores aos da raça “negra” e “ama-
rela” em função de suas características físicas hereditárias, tais como a cor clara da pele, o formato do crânio
(dolicocefalia), a forma dos lábios, do nariz, do queixo, etc., as quais, segundo pensavam, os tornam mais bonitos,
mais inteligentes, mais honestos, mais inventivos, etc., e consequentemente mais aptos para dirigir e dominar as
outras raças, principalmente a negra, mais escura de todas, e, consequentemente, considerada como a mais estúpida,
mais emocional, menos honesta, menos inteligente, portanto, a mais sujeita à escravidão e a todas as formas de
dominação.
8
Ibid., (pp. 4-5): as pesquisas comparativas levaram os estudiosos à conclusão de que os patrimônios genéticos de
dois indivíduos pertencentes à mesma raça podem ser mais distantes do que os pertencentes a raças diferentes; um
marcador genético característico de uma raça pode, embora com menos incidência, ser encontrado em outra raça.
Para os estudiosos, as raças, biológica e cientificamente, não existem.
168 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

da publicação da Teoria da Evolução, em 1859, por Charles Darwin 9.


Mesmo com a inoperância da raça biologicamente definida, ela continua
servindo a uma significativa parcela de pesquisadores para explicar o ra-
cismo cuja crença fundamenta-se nas diferenças e desigualdades entre
povos e nações 10.
No Brasil, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) re-
conhece o conceito de raça como sendo socialmente construído, o qual
orienta as ações das pessoas no mundo concreto. Essa mesma instituição
entende que a diversidade humana é representada pelas raças e que subjaz
nela um problema: a sua hierarquização comporta insegurança e medo de
uns em relação a outros a partir do momento em que atitudes e compor-
tamentos de preconceito, discriminação e intolerância medeiam a
interação entre pessoas de grupos raciais diferentes. A produção e a repro-
dução dessa violência inter-racial, e os efeitos que dela resultam,
contribuem, segundo o próprio IBGE, para que os grupos discriminados
tenham, em média, piores condições de vida, agravando as condições ima-
nentes da desigualdade racial. O deslocamento da explicação das
diferenças entre povos e nações da Biologia para o campo da Cultura não
foi capaz de superar o racismo, mas deu a ele um novo vigor às suas prá-
ticas, afirmando-se nas diferenças e desigualdades culturais. 11 O racismo
praticado nas sociedades contemporâneas, nos tempos atuais, não neces-
sita mais do conceito de raça ou da variante biológica, ele preserva a ideia
dominação-exclusão e se redefine nos conceitos de cor da pele, etnia ou
identidade geográfica-cultural. 12
Como as ciências não criam raças, o seu papel tem sido o de apenas
explicá-las. Por isso, torna-se relevante, especialmente, às Ciências Sociais,
compreender a diversidade humana por meio da perspectiva das pessoas

9
Conforme IBGE (Caracteríscticas étnicos-raciais da população: classificações e identidades, 2013): aplicadas às so-
ciedades e aos seres humanos, as ideias da Teoria da Evolução levaram à suposição errônea de que as sociedades
europeias eram superiores por representarem o ápice da evolução da espécie, compostas por raças mais evoluídas e
mais aptas.
10
Conforme Munanga, op. cit. e IBGE, op. cit.
11
Conforme IBGE, op. cit., (p. 62).
12
Conforme Munanga, op. cit.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 169

comuns que utilizam a raça para designar grandes grupos humanos que
compartilham uma marca visível, corporal ou não, de sua linhagem co-
mum. No Brasil, a raça está associada a uma marca visível, isto é, a raça é
uma questão de aparência e não de origem, e a cor da pele é a marca pre-
dominante que permite a identificação da raça. Essa é a orientação adotada
pelo IBGE.
O teste de marca (cor) e origem (raça) incluído na Pesquisa Mensal
de Emprego (PME) de 1998 revelou ao IBGE que a origem da população é
brasileira, com eventuais adições de outras origens: portuguesa e italiana,
sendo esta predominante sobre aquela, tornando irrelevante a definição
de origem para efeitos de pesquisa. O IBGE se vale desta constatação 13 e
decide manter-se pela classificação (de marca) e pela inutilidade da inclu-
são do quesito de origem (raça) na pesquisa das características étnico-
raciais da população que se realizaria em 2000 (PERCEP 2000), justifi-
cando que, no Brasil, a cor da pele é a principal marca e onde predomina
o preconceito racial de marca, a origem não importa. 14
No sistema de classificação racial brasileiro, a ênfase no fenótipo fa-
vorece a mobilização do preconceito de marca existente no país, muito em
razão de que não há nada natural e nem inerente nos traços fenótipos des-
tacados para constituir a cor, a qual adquire significado apenas no interior
de uma ideologia preexistente, capaz de criar fatos que a organizam 15. No
Brasil, afirma o IBGE, essa ideologia é o branqueamento 16.

13
Conforme IBGE (Caracteríscticas étnicos-raciais da população: classificações e identidades, 2013), esta constatação cor-
robora plenamente o predomínio do preconceito de marca e reforça a pertinência estética da identificação da raça pela
cor.
14
Ibid.: a pesquisa nacional por amostra de domicílios (PNAD) de 1995 e de 1998 obtiveram, respectivamente, 95%
e 94% das respostas espontâneas enquadradas em apenas sete categorias, definidas pela cor da pele. Essas sete
categorias foram confirmadas, na PERCEP de 2008, por 88% dos respondentes. As categorias confirmadas como as
mais frequentes, definidas pela cor, são: Branca, Morena, Parda, Negra, Preta, Amarela e Indígena. Mesmo sendo,
por vezes, alvo de críticas, estas categorias também têm exercido um papel legitimador das representações sobre os
diferentes grupos étnico-raciais que convivem no País.
15
Ibid.
16
Ibid.: o IBGE recorre à dissertação de Alessandra Santos Nascimento (2005) para esclarecer que a ideologia do
branqueamento foi forjada no final do Século XIX no País. E mais, que ela serviu para orientar as políticas públicas
de imigração, de segurança, de saúde, de educação, entre outras. Para concluir que talvez uma de suas dimensões
mais perversas tenha sido a negação da diversidade como um valor para o projeto de nação.
170 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

O ideário do branqueamento, profundamente imbricado nas relações


sociais e na cultura brasileiras, preconiza que os negros e os indígenas não
impulsionam, mas obstaculizam a nação de alcançar um estágio de civili-
zação econômica e moral, sendo, por esta razão, negado a eles a condição
de povo no mais ínfimo porão da desigualdade social. No pensamento da
classe dominante, os projetos de imigração de europeus – civilizados e
brancos – ao país, entre os séculos XIX e XX, seriam centrais para a homo-
geneização e modernização da nação, de modo que, no arco de algumas
gerações, seria possível transformar as “raças negra e vermelha” (i.e., in-
feriores) em “raça branca” (i.e., superior) pela via da seleção sexual
(preferência por casamentos com brancos). 17
Esta é uma tentativa sutil e sofisticada de extinguir a “raça negra” e,
também, o que resta da “raça indígena”, contudo não é a única, existem
outras formas de negar-lhes a condição de povo.
O Atlas da violência 2018 alerta para uma particularidade da desi-
gualdade racial no Brasil: a forte concentração de homicídios na população
negra 18. Enquanto a taxa de homicídios de não negros atingiu 16%, entre
os negros a taxa foi superior em duas vezes e meia, atingindo a marca de
40,2%. Os homens, jovens, negros e de baixa escolaridade são as princi-
pais vítimas de mortes violentas no país. Em dez anos, entre 2006 e 2016,
houve um crescimento de 23,1% de homicídios de negros enquanto a de
não negros houve um decréscimo de 6,8%. Entre as mulheres, nesse
mesmo período, o assassinato de negras foi de 71% superior ao assassinato
de não negras. 19

17
Ver a entrevista de Andreas Hofbauer em Conexão Professor: Entrevista com o antropólogo Andreas Hofbauer:
Racismo no Brasil e o branqueamento da sociedade. Disponível em: < https://andreashofbauer.wordpress.com/
entrevistas/conexao-professor-entrevista-com-o-historiador-andreas-hofbauer-racismo-no-brasil-e-o-branquea-
mento-da-sociedade/>. Acesso em 18 de setembro de 2020.
18
Conforme Adriana Saraiva (População chega a 205,5 milhões, com menos brancos e mais pardos e pretos, 2017). O PNAD-
C (Amostra de Domicílios Contínua) divulgada em 20 de novembro de 2017, referente ao ano de 2016, informa que da
população brasileira (205,5 milhões), 44,2% autodeclara-se como sendo de cor branca (90,9 milhões), enquanto que 55,8%
autodeclara-se de cor não branca (112,7 milhões), ou seja, 8,2% autodeclara-se de cor preta (16,8 milhões) e 46,7% auto-
declara-se de cor parda (95,9 milhões). Por questões de arredondamento estatístico, há uma diferença de 0,1% no cômputo
total quando se somam as parcelas percentuais das pessoas que se autodeclararam pretas e pardos.
19
Conforme IPEA e FBSP (Atlas da violência 2018, 2018) apontam, a desigualdade racial no Brasil se expressa de
modo cristalino no que se refere à violência letal e às políticas de segurança (pp. 40-41).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 171

A revista CartaCapital publicou a matéria de Tony Oliveira demons-


trando o abismo racial existente no Brasil. Nessa matéria, há uma
contundente afirmativa: “a população negra é a mais afetada pela desi-
gualdade e pela violência” 20. Além do discutido anteriormente sobre a
concentração de homicídios e do feminicídio na população negra, a maté-
ria, com apoio de dados do Levantamento Nacional de Informações
Penitenciárias (INFOPEN), aponta que, da população prisional do Brasil, a
quarta maior do mundo, 61,6% são pretos e pardos.
A desigualdade racial também é evidenciada pelo salário médio aufe-
rido. Em 2015, os brasileiros brancos ganhavam, em média, quase o dobro
do que os negros, respectivamente R$1589 e R$898 mensais. E mais, da
população negra brasileira, 67% auferem salário de até 1,5 salário mínimo,
o índice entre as pessoas de pele branca é de 45%.
Dois outros dados apontados pela revista CartaCapital corroboram a
desigualdade racial, agora no campo da cultura: a baixa representatividade
no cinema e na literatura e o efeito da crise e do desemprego. Entre os
autores de livros brasileiros publicados entre 1965 e 2014, apenas 10% fo-
ram escritos por autores negros e, entre os personagens retratados, 60%
dos protagonistas são homens e 80% deles, brancos. No cinema, nesse
mesmo período, nenhuma mulher desempenhou a função de diretora e,
entre os diretores, apenas 2% eram negros. Quanto aos filmes analisados,
31% deles tinham no elenco atores negros, quase sempre interpretando
papéis associados à pobreza e à criminalidade. A população negra brasi-
leira foi a mais afetada com a crise e a onda de desemprego, cerca de 63,7%
dos desocupados são negros (8,3 milhões). Enquanto a taxa de desocupa-
ção entre trabalhadores brancos alcançou 9,9%, a de trabalhadores negros
atingiu o patamar de 14,6%.
Não apenas a mídia informativa, os relatórios oficiais e documentos
históricos dão conta dos números da intolerância associada à cor de pele.
Em pesquisa realizada pelos autores do presente trabalho, que contou com

20
Conforme Tony Oliveira (Seis estatísticas que mostram o abismo racial no Brasil, 2017) as estatísticas evidenciam
que, no Brasil, a população negra é mais atingida pela violência, desemprego e falta de representatividade.
172 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

1.009 respondentes, 156 afirmaram já ter sido vítimas de intolerância as-


sociada à cor de pele, representando cerca de 15% do total de indivíduos
que participaram da pesquisa, conforme a Tabela 4. Na Tabela 26 são ex-
postos os percentuais de vítimas, de acordo com a forma como os
indivíduos se autodeclararam quanto à cor de pele. De acordo com os da-
dos apresentados, importa destacar que apenas nos casos de respondentes
que se autodeclaram Negros (89%) ou Pretos (100%), o percentual de in-
divíduos que declararam já ter sido vítima de intolerância é superior ao
percentual de indivíduos que declararam não ter sido vítimas de intole-
rância. Ressalta-se também que na medida em que a coloração da pele vai
da tonalidade branca até mais escura, há um aumento do percentual de
pessoas que sofrem intolerância. Ou seja, morenos (25%) e pardos (36%),
apesar de terem menor probabilidade de sofrerem intolerância, sofrem
bem mais do que pessoas com a cor de pele branca (7%). Outro resultado
relevante de ser comentado é que indígenas também sofrem intolerância
associada à cor de pele (50%).
Tabela 26 – Intolerância associada à cor da pele: quantidade de vítimas e não vítimas da amostra por cor da
pele (%)
Vítima de intolerância
Cor da pele
Sim Não
Preta 100% 0%
Negra 89% 11%
Indígena 50% 50%
Parda 36% 64%
Morena 25% 75%
Amarela 21% 79%
Branca 7% 93%

Os dados da pesquisa mostram a disparidade entre brancos (93%),


negros (11%) e pretos (0%) que não sofreram intolerância, demonstrando
que a pesquisa realizada pelos autores está alinhada com resultados de
outras pesquisas 21 que expõem como o preconceito, a discriminação e in-
tolerância associada a cor de pele geram consequências drásticas para
negros e pretos no Brasil.

21
Cf. relatórios publicados pelos Institutos de Pesquisa Datafolha (Preconceito, 2018), do IBGE (Retratos. Somos
todos iguais? O que dizem as estatísticas, 2018) e do IPEA (Vidas Perdidas e Racismo no Brasil, 2017).
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 173

As principais agressões sofridas declaradas pelas vítimas de intole-


rância à cor de pele foram, conforme a Tabela 5, desqualificação por
possuir determinadas características físicas ou aparentes e piadas, repre-
sentando, respectivamente, 55% e 54% das agressões sofridas pelas
vítimas. As agressões isolamento de grupo, desqualificação pessoal devido
às suas ideias e forma de pensar, xingamentos e humilhações públicas de
natureza moral representaram, respectivamente, 35%, 28%, 25% e 24%
das agressões sofridas pelas vítimas. A violência por calúnia e difamação
situou-se no patamar de 12% das agressões sofridas pelas vítimas e a vio-
lência física representou cerca de 1% das agressões.
Os principais agressores declarados pelas vítimas, conforme a Tabela
6, foram desconhecidos, com 53%, e colegas de escola, com 37% das
agressões sofridas pelas vítimas. Os agressores amigos e/ou colegas em
geral e colegas de trabalho representaram, cada qual, 24% das agressões
sofridas pelas vítimas, enquanto os parentes (família estendida) represen-
taram 17% das agressões. Já os agressores familiares diretos contribuíram
com 8% das agressões sofridas pelas vítimas.
Em relação ao apoio recebido, conforme a Tabela 7, 54% das vítimas
declararam não ter recebido apoio. Entre os que declararam ter recebido
apoio, 30% das vítimas receberam apoio de familiares, 24% de amigos e
14% de cônjuges. Os demais tipos de apoio – desconhecido, colegas de tra-
balho e assistência psicológica particular – situaram-se no patamar entre
2% e 4% das agressões sofridas pelas vítimas. Vale destacar que apenas
cerca de 0,8% das vítimas receberam assistência social e psicológica pú-
blica.
Em todo ato associado à intolerância à cor de pele, verificam-se múl-
tiplos grupos de agressões associados a múltiplos grupos de agressores. A
Tabela 27 mostra que, ao se relacionar os grupos de agressões sofridas e
os grupos de agressores, as vítimas sofrem violência, predominantemente,
por piadas praticadas por amigos e/ou colegas em geral e familiares dire-
tos representando, respectivamente, 86% e 85% das agressões sofridas
pelas vítimas, enquanto colegas de trabalho, colegas de escola e parentes
174 | Intolerância: uma análise sobre a realidade brasileira

(família estendida) situam-se, cada qual, em um patamar que varia de


73% a 79% das agressões, e desconhecidos praticaram cerca de 56% das
agressões sofridas pelas vítimas. A segunda mais importante forma de
agressão, neste tipo de intolerância, é a desqualificação por possuir deter-
minadas características físicas ou aparentes, a qual foi precipuamente
praticada por parentes (família estendida) em 85% das agressões sofridas
pelas vítimas, familiares diretos em 77% das agressões, colegas de traba-
lho em 73% e, por sua vez, os amigos e/ou colegas em geral e colegas de
escola ficaram no patamar entre 65% e 69% das agressões sofridas pelas
vítimas.
Tabela 27 – Intolerância associada à cor da pele: quantidade de vítimas agredidas por grupo de agressões e
grupo de agressores (%)
Grupo de agressores Amigos / Colegas de Parentes
Familiares Colegas de
colegas em Escola / (família Desconhecido
Diretos Trabalho
Grupo de agressões geral Faculdade estendida)
Socos, pontapés, tapas,
0% 3% 3% 2% 4% 2%
empurrões etc.
Xingamentos e agressões
23% 43% 32% 38% 37% 29%
verbais
Vítima de piadas no am-
85% 86% 73% 79% 74% 56%
biente onde estava
Desqualificação pessoal
devido às ideias e forma 31% 41% 59% 40% 44% 33%
de pensar
Humilhações públicas de
23% 38% 46% 41% 44% 30%
natureza moral
Desqualificação por pos-
suir determinadas
77% 65% 73% 69% 85% 56%
características físicas ou
aparentes
Calúnia ou difamação 23% 16% 24% 21% 30% 13%
Isolamento de grupo 31% 46% 43% 45% 41% 44%

A pesquisa tornou possível levantar a relação entre grupos de agres-


sões e apoio recebido. A Tabela 28 apresenta em percentuais os grupos de
agressões sofridas e, de acordo com este grupo de agressão, o tipo de apoio
recebido pela vítima. Chama a atenção o baixo apoio de assistência psico-
lógica pública.
Francis Kanashiro Meneghetti; Dorival De Stefani | 175

Tabela 28 – Intolerância associada à cor da pele: quantidade de vítimas apoiadas (ou não) por grupo de
apoio recebido e grupo de agressões (%)
Apoio de
Apoio de
Apoio de Apoio assistên-
Grupo de Apoio Apoio assistên-
cônjuge, Apoio de de cole- cia
Apoio recebido Não rece- de de cia
parceiro(a), desconheci- gas de psicoló-
beu apoio famili- ami- psicoló-
companheiro dos traba- gica
Grupo de agressões ares gos gica