Amândio Pindula
Problemas Antropológicos actuais: Feitiçaria, Ciência e Racionalidade
Licenciatura em Contabilidade e Auditoria
LABORAL
2º ANO
Universidade Pedagógica de Maputo
Maputo
2021
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Amândio Pindula
Problemas Antropológicos actuais: Feitiçaria, Ciência e Racionalidade
Licenciatura em Contabilidade e Auditoria
LABORAL
2º ANO
O presente trabalho será apresentado no
departamento da FEG na disciplina de
Antropologia Cultural de Moçambique
para efeitos de avaliação.
Docente: Msc. Rute Macave
Universidade Pedagógica de Maputo
Maputo
2021
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Índice
1. Introdução............................................................................................................................1
1.1. Objectivos.....................................................................................................................1
1.1.1. Objectivo geral......................................................................................................1
1.1.2. Objectivos específicos..........................................................................................1
2. Metodologia.........................................................................................................................1
3. Feitiçaria, Ciência e Racionalidade.....................................................................................2
3.1. Feitiçaria.......................................................................................................................2
3.1.1. Feitiçaria em Moçambique...................................................................................3
3.1.2. Importância da feitiçaria.......................................................................................4
3.1.3. Feitiçaria e Modernidade em Moçambique..........................................................4
3.2. Ciência..........................................................................................................................5
3.3. Racionalidade...............................................................................................................5
4. Conclusão............................................................................................................................7
Referências Bibliográficas..........................................................................................................8
1.
1
2. Introdução
A antropologia, como ciência da modernidade, coloca seu aparato teórico construído no
passado, com possibilidade de, no presente, explicar e compreender os intensos movimentos
provocados pela globalização: de um lado, os processos homogeneizantes da ordem social
mundial e, de outro, contrariando tal tendência, a reivindicação das singularidades, apontando
para a constituição da humanidade como una e diversa. Contudo, essa tradição é hoje alvo de
controvérsias, na medida em que os fatos decorrentes da intensa transformação da realidade
parecem não estar contidos em seus princípios explicativos. Nesse campo de tensão, defende-
se que ora a trajetória da antropologia tem sido a de avaliar as diferenças sociais, étnicas e
outras com a finalidade de proporcionar alternativas de intervenção sobre a realidade social de
modo a não negar as diferenças; ora não seria a tradição antropológica suficiente para dar
conta do contexto político das diferenças e, como tal, estaria superada em seus propósitos.
Desta feita, neste trabalho pretende-se abordar os problemas antropológicos actuais
(Feitiçaria, Ciência e Racionalidade).
2.1. Objectivos
2.1.1. Objectivo geral
Falar dos problemas antropológicos actuais (Feitiçaria, Ciência e Racionalidade).
2.1.2. Objectivos específicos
Descrever os paradigmas da Feitiçaria em Moçambique;
Falar da ciência;
Elucidar a problema antropológico Racionalidade.
3. Metodologia
Para Gil (2008), o método é o caminho para se chegar a determinado fim. Portanto, os
métodos usados para a recolha de dados nesta pesquisa possibilitaram a obtenção de
informações no campo da análise.
Este estudo é de carácter qualitativo, porque a temática que está a ser analisado é meramente
social. Para a recolha de dados recorremos a técnica de pesquisa bibliográfica, Tomando em
conta a pesquisa bibliográfica, dizer que esta técnica consistiu na busca por informações e
fundamentações a partir de livros e artigos científicos.
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4. Feitiçaria, Ciência e Racionalidade1
4.1. Feitiçaria2
Segundo Gume (2021), etimologicamente, o termo feitiçaria surge do grego “farmakía”, que
significa "drogueadores", no sentido de preparadores de drogas com fins terapêuticos a partir
de plantas. Para além da intenção de curar, os feiticeiros também usavam drogas para induzir
estados alterados de consciência para ascender ao Mundo dos Espíritos.
O mesmo autor refere que a feitiçaria designa a prática ou celebração de rituais, orações ou
cultos com ou sem uso de amuletos ou talismãs (objectos ao qual são atribuídos poderes
mágicos), por parte de adeptos do ocultismo com vista à obtenção de resultados, favores ou
objectivos que, regra geral, não são da vontade de terceiros.
A feitiçaria pode ser descrita como uma acção maliciosa, levada a cabo através do recurso a
forças místicas ou mesmo pela violência, resultante de ódios e tensões intensas presentes na
sociedade, e que as pessoas interpretam como actuam sobre si independentemente da sua
vontade, (ASHFORTH, 2005: 87).
Pode estar relacionada com cultos às forças da natureza ou aos antepassados já falecidos,
sendo que está também frequentemente relacionada com o uso de artes consideradas mágicas,
à invocação de entidades, como por exemplo, espíritos, deuses, génios ou demónios, ou o
emprego de diversas formas de adivinhação.
A feitiçaria pode ser descrita como uma acção maliciosa, levada a cabo através do recurso a
forças místicas ou mesmo pela violência, resultante de ódios e tensões intensas presentes na
sociedade, e que as pessoas interpretam como actuam sobre si independentemente da sua
vontade (Ashforth, 2005: 87).
Sendo a feitiçaria uma linguagem de poder (Kapferer, 1997), os supostos feiticeiros, como a
maioria dos médicos tradicionais em Moçambique, operam de acordo com normas que
assentam em pilares referenciais que não foram integrados nas políticas do estado, que
emprega termos de análise e instrumentos políticos na resolução de problemas e conflitos
gerados pelo ‘oculto’ que não têm ligação alguma com estes sistemas epistémicas.
As acusações de feitiçaria são uma forma de controlo social face à turbulência das relações
sociais provocadas pelo aumento da mobilidade, o êxodo rural, o colapso das expectativas no
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https://pt.scribd.com/document/392659997/O-Dominio-Simbolico-Org
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https://pt.scribd.com/document/540965658/Feiticaria-Em-Mocambique
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papel facilitador do Estado e na estabilidade do emprego, como consequente aumento da
insegurança, a desestruturação das relações familiares, a exclusão social, o enriquecimento e o
empobrecimento rápidos, a emergência dos valores do individualismo e da autonomia em
conflito com os valores da família e da comunidade (um conflito que é muitas vezes
geracional), o aumento da concorrência na luta pela ascensão social ou pela promoção no
interior dos aparelhos de Estado, etc. (Gimbel-Sherre Augusto, 2007).
Sendo um processo dinâmico, o terreno de poder revela-se em permanente mudança, onde os
atores que nele se movem estão constantemente sujeitos a uma avaliação social. As novas
forças económicas e sociais podem exacerbar tensões e hostilidades entre os seus membros,
que se tornaram suspeitos de não só causar, mas também beneficiar dos problemas e aflições
dos outros. Nestes contextos extremamente voláteis, a feitiçaria reemerge como uma forma
persuasiva que justifica as doenças, infortúnios ou até mesmo a morte (Meneses, 2000, 2004,
2007).
4.1.1. Feitiçaria em Moçambique
Durante o auge da intervenção colonial portuguesa, a feitiçaria foi considerada de modos
diferentes: como um conjunto de crenças, muitas vezes incluindo modelos de comportamento
inversos, como modelos de acusação e como um julgamento da pesada tensão social. Apesar
de muitos assumirem que, com o início da modernidade, vista como produto da intervenção
colonial, a feitiçaria iria desaparecer, em muitas partes do mundo é visível uma forte presença
de bruxas e práticas de feitiçaria, com o número de acusações a aumentar (Geschiere, 2003;
Caplan, 2004; Stewart e Strathern, 2004).
Em Moçambique, a estrutura social tem sofrido profundas transformações fruto das tensões e
conflitos sociais, políticas e económicas que o país tem atravessado. Os deslocamentos de
populações geradas pelas guerras especialmente para contextos urbanos, o agravamento da
situação económica desde meados da década de 1980 e os mecanismos de marcantes da
exclusão social reflectem estas tensões, muitas das quais encontram escape em acusações e
suspeitas de feitiçaria.
Uma forma de explicar o infortúnio como uma consequência da malevolência humana Evans-
Pritchard, (1937), a feitiçaria usa a linguagem das relações interpessoais para falar sobre
catástrofes, conflitos e problemas importantes, quer imediatos, quer com profundas raízes.
Sendo a feitiçaria uma linguagem de poder KAPFERER, (1997), os supostos feiticeiros, como
a maioria dos médicos tradicionais em Moçambique, operam de acordo com normas que
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assentam em pilares referenciais que não foram integrados nas políticas do estado, que
emprega termos de análise e instrumentos políticos na resolução de problemas e conflitos
gerados pelo oculto que não têm ligação alguma com estes sistemas epistémicas.
Os supostos feiticeiros, tal como acontece com a maioria dos médicos tradicionais em
Moçambique, funcionam de acordo com as sua normas, existindo para além do alcance da
lógica formalista do Estado, que emprega termos de análise e instrumentos políticos que não
permitem uma ligação directa com o mundo do oculto.
4.1.2. Importância da feitiçaria
O primeiro aspecto a ter em conta, quando equacionamos o papel social da feitiçaria em
Moçambique, é que ela não constitui uma crença isolada, mas um elemento integrante dum
sistema mais vasto (e largamente partilhado) de interpretação e de acção sobre os infortúnios
e outros acontecimentos incertos.
De acordo com Gume (2021), a feitiçaria fornece, assim, um meio para dar sentido à incerteza
e ao aleatório, tornando-os explicáveis e permitindo reintegrar os infortúnios não apenas como
coisas cognoscíveis, mas também como resultados da acção humana e, portanto, passíveis de
serem manipulados por ela. Em conjunto e interacção com as restantes explicações causais
que foram mencionados, ela constitui assim quer um meio de compreensão daquilo que, de
outra forma, não teria sentido, quer um meio de agir sobre a realidade, potenciando ou
evitando aquilo que é indesejável. No entanto, a feitiçaria e particularmente as acusações de
prática de feitiçaria não desempenham apenas esse papel de domesticação da incerteza.
4.1.3. Feitiçaria e Modernidade em Moçambique
Gume (2021), enfatiza que a complexidade do relacionamento entre a modernidade e a
globalização apontam para a relevância do estudo da feitiçaria em África. No Moçambique
pós-colonial, suspeitas e acusações de práticas de feitiçaria surgem constantemente
demonstrando que a aplicação de vários modelos de desenvolvimento e modernização não
conduziram à libertação em relação a práticas obscurantistas. Assim se explica como a
religião e a feitiçaria se mantêm como uma das mais poderosas retóricas da cultura política
africana. Nos boatos a feitiçaria é apresentada como o modo mais comum de alcançar
sucesso, riqueza e prestígio em épocas de declínio económico e escassas oportunidades de
promoção social. No espaço doméstico, os conflitos familiares e sociais cristalizam-se
constantemente em torno de acusações de feitiçaria, sobretudo quando ocorrem mortes
inexplicáveis ou desastres pessoais.
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Permeando todo o espectro social e cultural, a feitiçaria sobressai hoje como uma força
ambivalente que ajuda a promover a acumulação individual e colectiva, actuando
simultaneamente como mecanismo de controlo das diferenças sociais. Todavia, a dimensão
oculta da política em África é frequentemente ignorada pelos estudos políticos e sociais.
Assim, o discurso da feitiçaria representa uma modernidade alternativa, forjada na
confluência de vários saberes e práticas. Uma abordagem preliminar aponta para o facto de
não se tratar de um problema marginal no espectro político-social, mas antes de uma
dimensão central à natureza da autoridade pública da liderança e das identidades em
Moçambique.
No Moçambique contemporâneo, a feitiçaria persiste como um conceito e uma realidade,
tanto em ambientes rurais como urbanos (Meneses, 2007; West, 2005); esta constatação
remete-nos, de um modo doloroso, para o facto de a feitiçaria não ser apenas uma
assombração do passado mas fazer parte do discurso e da experiência da modernidade
presente.
Ao longo dos últimos quinze anos, as acusações e suspeitas de práticas de feitiçaria têm
conhecido uma renovada importância. Com a emergência do moderno sistema colonial, a
feitiçaria transformou-se no símbolo do mundo selvagem, numa prática a ser abolida com a
introdução de uma racionalidade moderna.
4.2. Ciência
Ciência (latim, scientia: saber, conhecimento). Em seu sentido amplo e clássico, a ciência é
um saber metódico e rigoroso, isto é, um conjunto de conhecimentos metodicamente
adquiridos, mais ou menos sistematicamente organizados, e susceptíveis de serem
transmitidos por um processo pedagógico de ensino.
Mais modernamente, é a modalidade de saber constituída por um conjunto de aquisições
intelectuais que tem por finalidade propor uma explicação racional e objectiva da realidade.
É a forma de conhecimento que não somente pretende apropriar-se do real para explicá-lo de
modo racional e objectivo, mas procura estabelecer entre os fenómenos observados relações
universais e necessárias, o que autoriza a previsão de resultados (efeitos) cujas causas podem
ser detecta das mediante procedimentos de controlo experimental. Japiassú e Marcondes
(2001).
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4.3. Racionalidade
A racionalidade é a característica daquilo que é racional, que está de acordo com a razão Ex.:
princípios racionais, decisão racional. Oposto a irracional.
Do ponto de vista epistemológico e antropológico, questiona-se a universalidade do conceito
de racionalidade e os critérios segundo os quais se caracteriza um procedimento ou uma
decisão como racionais. Esses critérios seriam sempre, em última análise, culturais, variáveis
e relativos portanto, ou pertenceriam à própria natureza da razão humana como tal, Seriam
inatos, próprios do homem apenas, ou corresponderiam a princípios e leis que pertencem à
própria realidade, de carácter ontológico portanto, Max Weber (A ética protestante e o espírito
do capitalismo, 1904) distingue a acção racional valorativa (Wertrational) da acção racional
instrumental (Zweckrational).
A primeira caracteriza uma acção que se realiza de acordo com certos valores e que se
autojustifica, como p. ex., os rituais em certas culturas. A segunda caracteriza como racional
uma acção ou procedimento que visa fins ou objectivos específicos, procurando realizá-los
através do cálculo e da adequação dos meios a estes fins; dessa forma, os fins justificariam os
meios mais eficazes para sua obtenção. Weber identifica a razão
instrumental com o capitalismo e o desenvolvimento da técnica e da sociedade industrial. Em
síntese "a racionalidade é o estabelecimento de uma adequação entre uma coerência lógica
(descritiva, explicativa) e uma realidade empírica" (E. Morin, Scienceave
cconscience).Japiassú e Marcondes (2001).
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5. Conclusão
Com base no estudo empírico feito, conclui-se que a feitiçaria representa um comportamento
que se desvia das normas aceites numa sociedade: os feiticeiros são maus e criam desarmonia
nas relações sociais; eles representam um risco para a estabilidade da comunidade. Portanto,
chamar a alguém de feiticeiro equivale a pronunciar essa pessoa como traiçoeira, situando-a
num relacionamento antagónico com o resto da comunidade/sociedade. Porque as práticas de
feitiçaria são impossíveis de detectar ou verificar por meios normais, as pessoas acusadas de
tais práticas são vistas como destruidoras da solidariedade social do grupo. Sendo uma
ameaça, elas deixam de merecer apoio e reconhecimento da comunidade. Em suma, já não
fazem parte da comunidade; não existem socialmente.
A ciência é a modalidade de saber constituída por um conjunto de aquisições
intelectuais que tem por finalidade propor uma explicação racional e objectiva da realidade e
enfatiza-se que a racionalidade é o estabelecimento de uma adequação entre uma coerência
lógica (descritiva, explicativa) e uma realidade empírica.
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Referências Bibliográficas
ASHFORTH, B. E.; DUTTON, J, E. Organizational identity; Martins fontes; São
Paulo, 2005.
GUME, Gil José; Feitiçaria: Antropologia Cultural de Moçambique; Universidade
Licungo; Beira, 2021.
https://pt.scribd.com/document/392659997/O-Dominio-Simbolico-Org
https://pt.scribd.com/document/540965658/Feiticaria-Em-Mocambique
JAPIASSÚ, Hilton. MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de Filosofia; 3ª
Edição; Rio de Janeiro,2001.
TITIEV, Mischa; Introdução á antropologia cultural; 10ª Edição, Coimbra, 2009.