"Mar Português"
Resumo
O presente poema dá nome à segunda parte da obra Mensagem de Fernando
Pessoa. Este data da época dos Descobrimentos e tem como tema central, a
5 conquista do mar até então nunca navegado. Na primeira estrofe, o sujeito poético
refere os sofrimentos passados pelos familiares dos marinheiros que partiram
corajosamente rumo à aventura marítima, admitindo que as mães, esposas e filhos
dos que embarcaram choraram tanto que as suas lágrimas tornaram o mar salgado.
Tudo isso por um único objectivo, “Para que fosses nosso, ó mar”.
10 No iniciar da segunda estrofe, Fernando Pessoa questiona se todo esse sofrimento,
todo esse sacrifício por parte dos Portugueses teria valido a pena. O poeta
responde à sua pergunta afirmando que sim, que quando “ a alma não é pequena”,
isto é, quando se é dotado de um espírito bravo e sonhador como o dos
Portugueses, nada do que se faz é em vão. Através dos últimos quatro versos do
15 poema, o sujeito poético constata que para conseguir atingir o seu objectivo de
descobrir o caminho marítimo para a Índia, o povo português teve que se sacrificar
e de ultrapassar muitos obstáculos. No entanto, apesar de o mar ser perigoso e a
viagem um desafio, os portugueses conseguiram chegar à Índia através dele,
fazendo valer o seu esforço e dando a conhecer a sua glória a todo o Mundo.
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Análise do poema "O Mar Português”
Escrito a 9 de Junho de 1935, seis meses antes da morte de Fernando Pessoa, este
poema tem uma importância eminentemente esotérica. Foi neste âmbito que a
análise será feita, recorrendo a um texto de Dalila Pereira da Costa, publicado em
25 1978.
Como bem indica esta pessoana de renome, o poema «Mar Português» surge na
continuação do que é a Mensagem. No entanto, e se tal for possível, é ainda mais
hermético do que aquela, porque se na Mensagem se invoca o Mar Português ainda
30 físico da conquista e depois lentamente transcendental do espírito, no poema «Mar
Português» a invocação é já plenamente transcendental, focada na importância da
obra do próprio Fernando Pessoa num futuro renascer da alma nacional.
Identificam-se temas comuns entre este poema e a Mensagem. Nomeadamente a
35 referência ao mar simultaneamente espelho e abismo, onde a alma se perde no
sonho e depois do sonho se reflecte num projecto de futuro esplendoroso porque
plenamente espiritual e desligado da terra.
Há o reconhecimento que nada mais há a buscar no mar físico, mas que resta a
exploração do mar espiritual, onde Pessoa quer ser empossado argonauta, porque
é através da poesia, da linguagem do inefável, que se podem descobrir os mistério
da alma e da vida, escondidos à visão normal dos homens.
5 Um primeiro ciclo exauriu-se: o da descoberta do mar. Um novo ciclo se anuncia: a
segunda vinda, a descoberta da alma, do mar espiritual.
É a água, o elemento água, a paz, a solidão, a reflexão, o contínuo movimento de
renovação e desafio que permite a revelação da profecia. É a água que simboliza a
latência do sonho, a água nua, despida e apenas espelho ou abismo, que mostra e
10 que esconde. Combinação proibida de opostos, como a própria poesia, que se por
um lado comunica, nada diz de imediato, mas antes quer provocar em quem a lê a
reflexão mais profunda ou a reflexão mais imediata, o abismo e o espelho. O mar, o
sonho e a poesia são os três elementos que Dalila Pereira da Costa indica como
sendo os vectores essenciais da alma portuguesa. Não interessa a ambição, mas o
15 sonho, não interessa o destino, mas a viagem, não importa nada que se acabe na
sua própria realização, porque nada que se consuma inteiramente pode ser eterna.
Portugal, pátria à beira água é também pátria à «beira-mágua». O sofrimento e a
dor marcam a viagem ás ilhas afortunadas da alma, porque nenhuma grande
descoberta se faz sem sacrifício de monta e relevo.
20 Esta alquimia, processo de integração dos desejos mais profundos e íntimos do ser,
liga o desejo à metafísica de o realizar na carne. Dalila relembra, e bem, Jung, na
sua análise do subconsciente como meio de alcançar a ligação entre os dois
mundos, porque ténue terreno de fracas consistências e certezas palpáveis, senão
pela intuição. Pessoa foi mais longe, ao desdobrar-se em quatro (Caeiro, Campos,
25 Reis e Soares) fez a chamada quadratura do círculo, antigo esquema alquímico em
que o Eu permanece no centro, permeado pelo mediador, pelo Logos.
O apocalipse do fim aparece em Pessoa como revelação de uma verdade interior,
reservada a quem empreenda a viagem sem destino que é perder-se de si mesmo.
O começar na nova aurora neste Império Espiritual é algo mais do que a presença
30 diáfana de um vasto território dominado por uma só língua e um só povo, antes um
horizonte sem fim em que se atinge a irmandade dos homens, a paz in excelsis
intemporal e imperfeita apenas por não ser ainda de Deus, mas encimada por um
desejo incompleto de se realizar sempre no futuro.
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Tema: O mar - desgraça e glória do povo português.
Três partes lógicas:
1ª parte ⇒ Dois primeiros versos
É uma exclamação do poeta sintetizando as desgraças que o mar nos causou:
"Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!"
5 Þ Muitas vidas se perderam. Muitos marinheiros foram vítimas de naufrágio ou
morreram trespassados pelas flechas dos índios.
2ª parte ⇒ Restantes 4 versos da 1ª estrofe
Justifica as contrapartidas negativas que o mar nos trouxe:
10 ⇒ Para que o mar fosse nosso, mães choraram, filhos rezaram em vão e noivas
ficaram por casar.
3ª parte ⇒ 2ª estrofe
Pergunta se valeu a pena suportar tais desgraças, respondendo ele próprio
15 que tudo vale a pena ao ser humano dotado de uma alma de aspirações
infinitas. → É que toda a vitória implica passar além da dor e, se Deus fez do
mar o local de todos os perigos e medos, a verdade, é que, conquistado, é ele o
espelho do esplendor do céu. As grandes dores são o preço das grandes glórias:
"Deus pôs o perigo e o abismo no mar, mas nele é que espelhou o céu" (a
20 glória).
Recursos Estilísticos:
Apóstrofe ⇒«Ó mar salgado, quanto do teu sal/São lágrimas de Portugal!» ⇔
25 Metáfora e Hipérbole
O Sal é amargo no sabor e as lágrimas são amargas não só no sabor, mas
também no que elas traduzem de sofrimento e dor. ⇒ Símbolo do sofrimento,
de tantas tragédias provocadas pelo mar.
O som l repetido nas palavras fundamentais dos dois primeiros versos ⇒
30 Sugere uma relação necessária e fatal entre as duas realidades: o mar e o
sofrimento do povo português.
⇒A confirmar esse sofrimento aparecem as mães, os filhos, as noivas ⇔ três
elementos importantes da família ⇒ Sugere que foi no plano do amor familiar que os
malefícios do mar mais se fizeram sentir.
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Metáfora ⇒ «Por te cruzarmos...» (v.3) → Aponta para cruz, sofrimento.
Formas verbais ⇒ Choraram, rezaram, ficaram por casar traduzem sofrimento,
aflição, uma dor provocada pela destruição do amor (fraternal, filial e de
namorados).
⇒ Isto só porque quisemos que o mar fosse nosso ⇒ Realçado por «Por te
cruzarmos» (v.3); «Para que fosses nosso» (v.6).
Anáfora → Quantas/Quantos/quantas ⇒ Vem realçar a frequência dessas
desgraças familiares.
5 Reiteração ⇒ «valeu... vale» (v.7); «passar... passar» (vs. 9/10) ⇒ Realça a
relação necessária entre a dor e o heroísmo.