MITO, RITO E TRADIÇÃO E O CANTAR DAS FOLHAS: UM ESTUDO DE
CASO
Maria Thereza Lemos de Arruda Camargo
Encontro Cultural de Laranjeiras
Sergipe
Janeiro de 2000
Este trabalho visa traçar algumas considerações sobre os ritos
relacionados ao cantar das folhas, num estudo de caso, baseado em uma
pesquisa realizada por José Flávio Pessoa de Barros e Maria Lina Leão
Teixeira (1988): Sassanhe: o "cantar das folhas" e a construção do ser, em
candomblé queto no Rio de Janeiro.
Certos rituais que dizem ser tradicionais por conservarem traços característicos
que se mantém sempre que o ato se repete, nos faz imaginar que tais traços
podem já não ser mais tão idênticos àqueles localizados num tempo histórico
difícil de se determinar. A própria tradição é dinâmica em decorrência de
fatores determinantes que variam segundo os períodos históricos pelas quais
passaram as religiões afro-brasileiras.
Tem-se a idéia de que os rituais próprios da vida religiosa nos sistemas de
crença sejam costumes mantidos como elo com um passado histórico
mitificado, que deve ser sempre mantido, tendo em vista a manutenção das
tradições ligadas a essas religiões.
Hobsbawm (1984:10) coloca uma diferença entre costume e tradição, que pode
ser, perfeitamente ajustada à idéia de rito religioso, quando este se liga à idéia
de tradição.
Para este autor o costume nas sociedades tradicionais não impede as
inovações, embora se prendam à idéia de que deve ser idêntico ao costume
precedente àquele que aconteceu a última vez. A tradição nas sociedades
tradicionais são traços que caracterizam o ritual, mantidos todas as vezes em
que o ato se repete. Está sempre associado ao costume. Acrescenta que se o
costume entra em decadência ou vai se enfraquecendo, a tradição tende a se
modificar.
Relacionado aos sistemas de crenças afro-brasileiros, onde os deuses
africanos são cultuados, o passado histórico está explícito nos mitos onde se
busca a legitimação dos ritos dedicados aos orixás.
Verger (1994:15), comenta que a comparação de textos antigos de tradição
oral com textos publicados há cem anos sobre as religiões iorubás mostram
diferenças, sem, contudo, se saber se decorrem de esquecimentos ou
acréscimos de elementos novos, sem, contudo, ser possível afirmar se os
mitos há um século estavam mais próximos de sua concepção original.
As atividades religiosas, evidentemente, variam segundo a origem dos
terreiros, onde se encontram indivíduos, que através de processos de iniciação
próprios de cada nação ao qual o terreiro se liga, eles se integram a uma
hierarquia ligada por laços de parentesco mítico. É durante o processo de
iniciação que vão adquirindo conhecimentos sobre os mitos, ritos, dança,
cânticos etc.
O processo de reafricanização impetrado por terreiros de candomblé os quais
buscam na África suas raízes para aqui se organizarem tal como lá ocorre,
mexe com os rituais certamente.
Citando Silva (1999:154) "Se em períodos anteriores a reafricanização
conviveu ao lado do sincretismo, o mesmo não ocorreu em épocas mais
recentes, quando algumas das principais lideranças do candomblé se
engajaram num movimento concentrado em afastar as influências católicas e
ameríndias do culto dos orixás, entendendo que a tradição africana é a
tradição africana no Brasil, como se, apagando no presente as marcas da
dominação católica e de outras misturas no candomblé, surgisse a África aqui
em seu estado puro, tal qual teria sido trazida pelos escravos no passado."
A dessicretização acompanha a reafricanização visando uma volta a um
africanismo primitivo que atualmente se expande pelo Brasil, conforme
comenta Ferretti (1999:116), lembrando ocorrer muitas vezes uma verdadeira
guerra santa de combate ao sincretismo. Porém, Prandi (1999:106), diz que a
africanização é também uma invenção de tradições, não sendo, pois uma volta
ao original primitivo, mas a ampliação do espectro de possibilidades religiosas
para uma sociedade moderna, em que a religião é também serviço e, como
serviço, se apresenta no mercado religioso, de múltiplas ofertas, como dotada
de originalidade, competência e eficiência. Porém, é necessário lembrar que o
tão apavorante sincretismo que polui os terreiros de candomblé, segundo a
visão de muitos de seus adeptos, já era sentido na própria África em períodos
anteriores à vinda dos negros para o Brasil, conforme demonstra o autor acima,
citando Thornton (1988:267), fazendo referência à penetração das práticas do
cristianismo europeu em meados do século XV no Congo, Angola, Gâmbia,
Serra Leoa, Guiné, Nigéria, Benin, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe,
propiciando misturas de práticas religiosas cristãs com práticas africanas.
Chegou-se, mesmo a ser preparado por um jesuíta português, um catecismo
em língua de Alladá do Benin, a fim de ser usado no Brasil em 1708.
Passados todos esses séculos, após a chegada dos primeiros africanos ao
Brasil lutando por um espaço sagrado, para cultuarem seus deuses e
procurando superar todas as adversidades obrigando-os a usar de formas
sincréticas, como subterfúgios para despistar as forças opressoras que
impunham a religião do colonizador, como ficam os mitos de origem?
Devemos considerar, ainda, que muitas das plantas hoje utilizadas nos rituais
não correspondem certamente às espécies botânicas originariamente louvadas
tanto na África como no Brasil, em tempos passados.
Um estudo por mim realizado com o fim de buscar a origem dos vegetais em
uso em rituais afro-brasileiros, permitiu constatar que das 97 espécies
levantadas, 47 são hoje também usadas na África iorubá, conforme registrou
Veger (1995). Das 47 plantas usadas tanto na África como no Brasil, apenas 8
são de origem africana, 16 são americanas, 12 asiáticas, 1 européia, 8 não
localizadas as origens e 2 são cosmopolitas.
A realização desse estudo baseou-se numa coleção de 97 plantas por mim
coletadas junto à umbanda e ao candomblé do Estado de São Paulo Porém,
visando envolver outras regiões do País, foram incorporados outros estudos
realizados por pesquisadores que se preocuparam com a identificação botânica
das espécies vegetais empregadas nos segmentos religiosos de interesse do
estudo. São eles: Guedes et ali (1985) tratando das plantas usadas na
umbanda carioca, Barros (1983) sobre as folhas em casas de santo jêje-nagô
da Bahia, Albuquerque (1997) sobre os cultos afro-brasileiros do Recife.
Para esta conferência me propus a traçar algumas considerações sobre as
cantigas das folhas, "Korin ewe", dentro da temática proposta por mais este
Encontro de Laranjeiras, o seja: Mito, Rito e Tradição, sem, contudo,
apresentar nenhuma idéia conclusiva, mas, sim abrir uma discussão sobre o
assunto.
O orixá dono das folhas é Ossaim, aquele que
domina o ritual, detonando o "axé" das folhas,
pois sem folha não há orixá (Kosi ewe, kosi orixá)
e sassanhe é o cantar para Ossaim ou cantar
folhas.
"O ritual do "sassanhe", integrante do complexo
simbólico subjacente a um dos ritos de
passagem, a "feitura dos orixás", ou "raspagem
da cabeça", é quando se processa a construção
da identidade dos adeptos" (Barros, 1988).
Sassanhe é um ritual fechado, como parte do
processo de iniciação quando da "feitura do
orixá".
A música e os textos cantados são empregados
para a transmissão dos conhecimentos, agindo, também, como indutores do
transe. Nestes textos, estão embutidos o nome das folhas e quando não, fazem
menção às suas características morfológicas, as virtudes de cada uma e sua
relação com o orixá.
Os textos cantados são em linguagem litúrgica, em um iorubá que foi se
alterando com o tempo e certamente perdendo seu sentido literal sem
perderem, todavia, seu significado ritual e o significado do texto. E, ainda,
através da pesquisa de Barros e Teixeira, foi possível constatar que apesar do
desconhecimento da tradução literal das palavras, o adeptos possuem o
domínio do sentido dos textos.
Um dos mitos de Ossaim conta que
"Ossaim, quando Obatalá distribuiu os domínios da terra entre os orixás,
escolheu as plantas, que passou a estudar e conhecer profundamente.
Aprendeu que elas são o segredo da cura e da vida. Um dia Xangô ordenou
que Iansã, com seus ventos, fizesse as folhas voarem para seu palácio, para
que todos pudessem ter poderes como os de Ossaim. Iansã fez o que Xangô
pediu, gerando um vendaval, que soprava todas as folhas em direção ao
palácio de Xangô. Ossaim, entretanto, percebendo o que ocorria, chamou as
folhas de volta para a mata, com suas palavras mágicas. E as folhas
obedeceram. As poucas que já haviam chegado ao palácio de Xangô
perderam o axé. Ossaim, entretanto, para evitar a inveja dos orixás, deu uma
folha para cada um e ensinou o segredo delas, seus efós, as cantigas de
encantamento, sem as quais as folhas não funcionam".
(Mito recolhido em pesquisa de campo pela antropóloga Rita Amaral).
José Flávio Pessoa de Barros e Maria Lina Leão Teixeira pesquisaram o ritual
das folhas em Terreiros de Candomblé "Ketu", localizados na região
metropolitana do Rio de Janeiro, trabalho no qual me apoio para desenvolver
esta minha conferência.
A pesquisa desses estudiosos orientou-se pelo seguinte critério: as cantigas
são apresentadas de acordo com a classificação da espécie louvada em:
1. "Igi", árvores; 2. "Kekere", vegetais rasteiros arbustivos de caules sésseis; 3.
"Afomã", trepadeiras e parasitas que têm como substrato outros vegetais,
geralmente "igis".
Do grupo 1. Está o Iroko (Ficus doliaria) planta originária do
Brasil. É a gameleira branca que na África corresponde a
Chlorophora excelsa, ambas espécies da família Moraceae.
A cantiga dedicada à gameleira branca louva a árvore e o
pássaro, elemento este pertencente ao símbolo de Ossaim, assim
como é o pássaro ligado às feiticeiras e as atividades destas, nas
religiões iorubás, onde elas também estão ligadas aos orixás e
aos mitos da criação do mundo. Chamadas de àjé , porém
tratadas como ìyámi òsòròngà ou por simplesmente ìyàmì (minha
mãe) ou eleye (donas dos pássaros).
Assim é a cantiga recolhida em candomblé Ketu no Rio de
janeiro:
Iroko não semeado
Árvore de pássaro meu
Árvore de pássaro não recebe chuva
Iroko, poderoso refúgio
Iroko não semeado
Árvore de pássaro meu
Árvore de pássaro, Iroko
Iroko, poderoso refúgio
Sim Iroko não semeado
Árvore de pássaro não recebe chuva
Iroko poderoso refúgio
Ah, Iroko poderoso refúgio
Calma é de Iroko
Iroko não falha
Calma é de Iroko, calma não falha
Segundo informantes na pesquisa de Barros e Teixeira, as cantigas são
lembranças do tempo em que se adoravam as árvores.
Porém, sabemos que as árvores eram consideradas moradas dos ancestrais e
de alguns orixás.
Nessa cantiga há uma louvação à árvore Iroko, lembrando as religiões
africanas de origem banto que cultuavam as divindades ligadas à natureza.
A árvore cultuada no Brasil não é a mesma espécie cultuada na África.
O pássaro referido na cantiga é o elemento presente no símbolo de Ossaim,
representado sobre uma haste de ferro central e cercado por seis outras hastes
dirigidas em leque para o alto.
Ossaim é originário de Iraô, atualmente na Nigéria, perto da fronteira com o
Daomé, conforme Verger (1981:122).
Com o exposto, fica entre outras indagações, a questão quanto à relevância do
termo "tradição", se ao analisarmos a cantiga citada, encontramos dados
referenciais que sugerem fontes diferentes de legitimação, tais como o culto à
árvore, particularmente a Iroko, a gameleira branca, morada do orixá ioruba
Iroko ou do orixá daomeano Loko, além do pássaro presente na cantiga citada.
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________ Grandeza e decadência do culto de Ìyàmi Òsòròngà (minha mãe
feiticeira) entre os Yorùbá In: As senhoras do Pássaro da noite:
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