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Sociologia e Educação: Relações e Transformações

1) A sociologia se desenvolveu ao mesmo tempo que a escola se institucionalizou, já que ambas surgiram na sociedade moderna. 2) A sociologia da educação se interessou pela escola a partir de Durkheim, que defendia que a educação mantém laços sociais e cumpre funções como desenvolver disciplina e senso de pertencimento. 3) A sociologia da educação analisa a realidade escolar para refletir sobre problemas educacionais.

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Sociologia e Educação: Relações e Transformações

1) A sociologia se desenvolveu ao mesmo tempo que a escola se institucionalizou, já que ambas surgiram na sociedade moderna. 2) A sociologia da educação se interessou pela escola a partir de Durkheim, que defendia que a educação mantém laços sociais e cumpre funções como desenvolver disciplina e senso de pertencimento. 3) A sociologia da educação analisa a realidade escolar para refletir sobre problemas educacionais.

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AULA 1

As ciências sociais e a escola

Objetivo: Localizar o interesse das ciências sociais, em especial a sociologia, pela


instituição escolar. Pode-se dizer que a sociologia, enquanto ciência, nasce ao mesmo
tempo em que a escola se institucionaliza e é por isso que a sociedade moderna pode ser
considerada um marco tanto para a sociologia quanto para a escola.

A sociologia nasce como ciência ao mesmo tempo que a vida em sociedade começa a se
organizar de uma nova forma.
Neste novo modo de organizar a vida, observa-se uma profunda transformação nas
relações de trabalho, marcada agora por uma relação contratual de trabalho, concomitante
à crença na ideia de progresso.
Este foi submetido a uma severa disciplina, a novas formas de conduta diante das relações
de trabalho, completamente diferentes das vividas anteriormente por eles (no auge da
revolução industrial, os trabalhadores passam a cumprir uma jornada de até 16 horas de
trabalho diário).
transformação da atividade artesanal em manufatureira e, por último, em atividade fabril
desencadeou uma maciça emigração do campo para a cidade, assim como engajou
mulheres e crianças em jornadas de trabalho de pelo menos 12 horas, sem férias e
feriados, ganhando um salário para a subsistência.

No campo mais geral, este aumento progressivo de população redundou no surgimento de


alguns problemas sociais que antes não se tinha notícia, tais como: acréscimo da
prostituição, do suicídio, do alcoolismo, do infanticídio, da criminalidade, da violência etc.
Não é por mero acaso que a sociologia, enquanto instrumento de análise, inexistia nas
relativamente estáveis sociedades pré -capitalistas, já que o ritmo e o nível das mudanças
que aí se verificavam não chegavam a colocar a sociedade como um problema a ser
investigado.
Assim, pode-se afirmar que os problemas decorrentes da revolução industrial – a rápida
expansão das cidades e dos cortiços, a imigração em massa, os deslocamentos
populacionais, o rompimento dos costumes tradicionais e o resultante desnorteamento das
pessoas envolvidas neste processo – ensejaram um grande volume de pesquisa sociológica
(BERGER, 1986, p.
Compreender a realidade na qual se está inserido exige então um rigor metodológico,
ferramenta útil para instrumentalizar a análise do sociólogo dentro de um quadro de
referências científicas, como, por exemplo, a tentativa de olhar a realidade que se observa a
partir de um ponto de vista relativamente objetivo, imparcial, livre de preconceitos pessoais
etc.
sociedade, ou o segmento da sociedade que ele estiver estudando no momento, o
sociólogo lançará mão de vários meios de análise, como sociologia.indd 12 26/01/2012
18:10:46 13 Aula 1
a
meio para investigar o problema de natureza social cabe à orientação teórica do sociólogo:
(…) o que interessa é a curiosidade de que é tomado qualquer sociólogo diante de uma
porta fechada atrás da qual ouçam vozes humanas.
As ciências sociais se interessará pela educação e, consequentemente, pela escola, a partir
do momento em que Émile Durkheim (1858- 1917), considerado o “pai fundador da
sociologia da educação”, defenderá o argumento de que é por meio da educação que se
mantêm certos laços sociais nas sociedades modernas, além dela cumprir três funções
essenciais na sociedade: a) Desenvolver o senso de disciplina e, com ela, o respeito às
hierarquias;
Seria a educação a agência de socialização responsável por imprimir no homem as marcas
do social, marcas estas que representariam um conjunto de regras, valores,
comportamentos, atitudes etc., essenciais para a manutenção do equilíbrio da sociedade.
O projeto da disciplina para o período era o de que esta ajudaria a enfrentar alguns
problemas sociais emergentes, criados pelas mudanças sociais em processo: crescente
industriasociologia.indd 13 26/01/2012 18:10:46 14 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO lização
da economia, urbanização da população, expansão do proletariado, desenvolvimento das
classes médias etc.
A relação educação e sociedade, produto da disciplina, retorna à cena educacional com a
inclusão da sociologia como disciplina obrigatória no ensino médio, segundo o Parecer nº
38 do CNE assinado em 2006.
importância da disciplina que se academiciza no país ainda em um passado não muito
distante é importante, uma vez que o avanço das ciências sociais ampliou as possibilidades
de entendimento das relações entre escola e sociedade (SOUZA, 2007, p.
Para tanto, o autor, parafraseando Wright Mills, diz como as sociedades modernas se
transformam rapidamente e, com isso, a vida das pessoas fica submetida às injunções de
novos contextos, novos problemas, trazendo um sentimento de incerteza.
Mills acreditava que eram as ciências sociais que poderiam ajudar no desenvolvimento
dessa imaginação “sociológica”: “(…) o que precisam é uma qualidade de espírito que lhes
ajude
a
13), ao evocar Mills, lembra as várias possibilidades que o uso da imaginação sociológica
pode trazer ao indivíduo: compreender a relação entre sua vida particular e a história,
elucidar como um indivíduo singular se situa na relação com outras singularidades dentro
de determinado período histórico e perceber as possibilidades que podem ser
compartilhadas entre eles.
Possuir imaginação sociológica é ser capaz de transitar de um lado a outro da relação entre
indivíduo e sociedade e ser capaz de compreender tanto o lugar dos indivíduos como
agentes na estrutura social quanto o que essa estrutura faz aos indivíduos (SOUZA, 2007,
p.

Autoavaliação Assinale com um x a alternativa correta: 1. A sociologia nasce como ciência


ao mesmo tempo em que a vida em sociedade começa a se organizar de uma nova forma.
Isto acontece porque: (x) Neste novo modo de organizar a vida, observa-se uma profunda
transformação nas relações de trabalho, marcada agora por uma relação contratual de
trabalho, ao mesmo tempo em que se alimenta a crença na ideia de progresso. ( ) A
sociologia nasce e firma-se como uma tentativa de compreensão de situações novas,
criadas pela então nascente sociedade capitalista. Por isso, o século 18 é particularmente
importante não só para o pensamento ocidental, mas também para o surgimento da
sociologia. ( ) A revolução industrial não trouxe nenhum impacto sobre a constituição desta
ciência. 2. A educação, na concepção de Émile Durkheim, cumpriria as seguintes funções:
( ) A educação deve criar no homem um ser novo; isto porque o homem nasce como uma
tábula rasa e cabe à sociedade agregar ao ser individual uma natureza moral e social. ( )
Seria a educação a agência de socialização responsável por imprimir no homem as marcas
do social, marcas estas que representariam um conjunto de regras, valores,
comportamentos, atitudes etc., essenciais para a manutenção do equilíbrio da sociedade. ( )
É por meio da educação que se mantêm certos laços sociais nas sociedades modernas,
além dela cumprir três funções essenciais na sociedade: a) Desenvolver o senso de
disciplina e com ela o respeito às hierarquias; b) Desenvolver o sentimento de
pertencimento a um grupo; c) Desenvolver a autonomia individual dos sujeitos.

AULA 2

Os principais percursos teóricos da sociologia da educação: um breve apontamento

Desta forma, nos dias atuais, a sociologia da educação propõe como investigação realizar
um mapa da realidade escolar, a fim de que este possa ser analisado e refletido por todos
aqueles que se debruçam sobre os problemas educacionais.
A sociologia da educação emergiu com mais evidência como campo científico a partir dos
anos de 1960, trazendo em seu discurso certa denúncia a um período precedente tido
sociologia.indd 17 26/01/2012 18:10:47 18 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO como “otimista”
pelos economistas que defendiam a tese do “capital humano” (VAN ZANTEN, 2000, p.
sociologia da educação, a partir dos anos de 1960, adotou um discurso crítico, que se
opunha a uma visão naturalista dos dons e habilidades intelectuais, fortemente presente na
teoria funcionalista de Durkheim
e
reativada pelo sociólogo americano Talcott Parsons, defensor da tese da seleção escolar
com base nas habilidades e aproveitamento escolar diferenciado, conjunto este que seria
responsável pela preparação dos indivíduos para ocupar postos sociais hierarquizados, em
nome do equilíbrio harmonioso da sociedade, como veremos a seguir.
Os países do chamado Primeiro Mundo começaram a se preocupar com a modernização de
seus sistemas educacionais a partir do fim da década de 1950 e ao longo da década de
1960.
Contrapondo-se à tese de que a educação corrigiria as desigualdades sociais, ao promover
uma política educacional com base na tese da equalização social, a sociologia da educação
do final dos anos de 1960 começou a ver a escola com certo desencantamento e, portanto,
como uma instituição distante para cumprir a promessa de que a democratização do ensino
pudesse representar um fator de equidade social, logo, de progresso econômico.
A partir deste período, os trabalhos versados na área de sociologia da educação
manifestam um desejo latente de compreender melhor o funcionamento interno das
instituições de ensino, denotando, de certa forma, uma lacuna existente tanto na tradição
funcionalista quanto na tradição marxista em compreender a equação entre os mecanismos
globais da sociedade e a atividade comum dos profissionais da educação, bem como a
experiência dos próprios alunos.
Os dois grandes paradigmas da sociologia da educação acabam explorando sociologia.indd
18 26/01/2012 18:10:47 19 Aula 2 pouco os determinantes individuais da ação,
subestimando o papel do ator e conferindo um peso maior às dinâmicas macroestruturais
da sociedade.
VAN ZANTEN, 2000), podemos falar de dois momentos que são considerados
particularmente importantes para esta disciplina: • Primeiro momento: período que vai de
Émile Durkheim, considerado “o pai fundador da sociologia da educação”, até
aproximadamente a Segunda Guerra Mundial;
Desta forma, os sujeitos da sociologia da educação neste período são quase que uma
categoria abstrata, ou seja, não pertencem a uma classe, não têm voz, sua origem social é
desconhecida, não são filiados
a
Este período é marcado pela chamada “explosão demográfica”, conhecida como baby
boom: as famílias se recompõem, os homens voltam da guerra, as mulheres ingressam no
mercado de trabalho e o período sociologia.indd 19 26/01/2012 18:10:47 20 SOCIOLOGIA
DA EDUCAÇÃO
é
De acordo com Parsons, para que uma sociedade estável pudesse existir, era preciso
responder a diversas funções: a adaptação ao meio que assegura a sobrevida da
sociedade, a busca por objetivos, a integração de membros do grupo e, finalmente,
a
partir deste modelo, Parsons procura explicar as diferentes instituições sociais da sociedade
americana: a família, a polícia, a justiça, o ensino, a religião, suas funções e sua lógica
interna.
Isto porque o contexto em que as teorias de Parsons foram concebidas tinham uma
especificidade: enquanto a sociologia do pré-guerra esteve marcada pela crise e problemas
de desorganização social, como a marginalidade, a criminalidade, a imigração, entre outras,
a América do pós-guerra de Parsons vive um período de crescimento e de forte integração
social.
De acordo sociologia.indd 20 26/01/2012 18:10:47 21 Aula 2 com o clima de euforia
econômica no qual vivia, Parsons foi um entusiasta do sistema capitalista, acreditando que
este sistema ofereceria melhores oportunidades às pessoas por meio do esforço e do
mérito.
concepção de educação que temos hoje ainda se organiza pela promessa de
funcionamento meritocrático, de democratização fundada no mérito, este é o tema que
surge com força nos países ocidentais, sobretudo na sociedade americana na década de
1950 (CASASSUS, 2007, p.
na América, e Maio de 68, na França, é paradigmático das reivindicações por uma
universidade menos elitista e que pudesse fazer parte do universo de aspirações de todas
as pessoas, independente de seu pertencimento de classe social.
Depois da chamada “democratização de ensino” no que diz respeito à educação básica, era
hora de lutar pelo acesso ao ensino superior, começando a luta por uma reforma
universitária na França.
Se antes a escola era analisada como uma instituição natural, contribuindo para a
reprodução dos saberes e habilidades requeridas pela divisão do trabalho, a sociologia
crítica da educação (na figura de Bourdieu, por exemplo), transforma a tranquilidade deste
esquema, redefinindo-a como instrumento de produção/ reprodução das relações de força.
sociologia.indd 21 26/01/2012 18:10:47 22 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Para Bourdieu,
muitas vezes é difícil fazer a crítica ao sistema escolar em virtude do apego a uma certa
definição de equidade de oportunidades que seria resultante do processo de escolarização.
A posse deste “capital” permitiria o acesso a percursos escolares marcados pelo sucesso e
pela distinção, legitimando, pela via da escola, um “patrimônio” familiar –
a
escola refletem, pois, a posição social que esta ocupa na sociedade: quanto mais elevada
for sua posição social, maiores suas expectativas de escolarização, e quanto mais
desfavorecida for a família, mais limitadas suas aspirações em relação ao futuro.
As duas instâncias, quando conjugadas, permitem aos pais não somente intervir com
competência na escolaridade dos filhos, mas influenciar no desenvolvimento do aluno por
meio do ambiente familiar e, notadamente, das conversas e dos diálogos entretidos entre
pais e filhos.
Pode-se dizer que a cultura de elite é tão próxima à cultura escolar que as crianças
originárias de outras classes não podem adquirir, senão penosamente, o que é herdado
pelos filhos das classes cultivadas: o bom gosto, o estilo, o talento etc.
Tal ideologia faz com que as classes desfavorecidas aceitem o destino que a sociedade
lhes reserva e acreditem, desta forma, que o responsável pelo seu insucesso deriva de sua
própria “inaptidão natural” para a cultura escolar.
sociologia.indd 22 26/01/2012 18:10:47 23 Aula 2 Esta corrente, chamada “teoria da
reprodução cultural”, marca uma linha de pensamento que concluiu que a fonte das
diferenças nos resultados dos alunos – e, portanto, de desigualdade educacional – está
ancorada tanto nos fatores internos à escola, quanto nos fatores externos, encontrados
tanto nos mecanismos de transmissão de um saber pela escola quanto no âmbito
socioeconômico e familiar.
Acredita-se que um dos fatores que possibilitou o chamado “retorno do ator” e a valorização
do microscópico tenha sido a crise do marxismo e, com ela, a esterilização das explicações
estritamente econômicas para as desigualdades escolares.
O “por que” dá lugar ao “como”, ou seja, muda-se o foco de explicações reducionistas para
o fraco desempenho escolar e passa- -se a desvendar a “alquimia” que faz com que o
capital cultural da família, medido pelo grau de instrução dos pais, produza sucesso ou
fracasso escolar.
A figura do sujeito passa a ser central para as análises sociológicas, isto é, tal linha de
pensamento passa a atribuir um papel relevante para os sujeitos e suas interações na
dinâmica social.
Para os teóricos dessa corrente, o mundo deveria ser visto não apenas em termos de
dominação, inculcação, legitimação etc., mas se deveriam entender as relações sociais em
termos de resultados de conflitos, de projetos e de debates entre os diferentes grupos
sociais.
A escola, a partir deste momento, deixa de ser vista apenas como um espaço de
reprodução e passa a ser percebida também como um espaço de produção de práticas
culturais diversas, inclusive práticas de resistência, revelando que a escola não é uma
instituição passiva diante das estruturas sociais.
sociologia.indd 23 26/01/2012 18:10:47 24 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Novos objetos
passam a dar o tom para a sociologia da educação, alargando tanto o campo de análise
quanto o instrumental teórico necessário para se compreender a relação entre educação e
sociedade.
Pode-se dizer hoje que a sociologia da educação constitui um campo fértil de análise das
relações escolares, campo este aberto à interlocução com outras disciplinas, e está
disposta, enquanto disciplina e campo científico, a olhar tanto para as relações
microscópicas, quanto para as relações macroscópicas que acontecem dentro e fora dos
muros escolares.
sociologia da educação contemporânea tem buscado cada vez mais conjugar teoria e
prática de pesquisa, reabilitando a célebre assertiva de Durkheim: “Nossas pesquisas não
valem mais do que meia hora de reflexão se elas forem meramente especulativas.” Com
base nesta afirmação, Brandão (2001, p.
partir da década de 1980, ficou cada vez mais evidente para a sociologia da educação que
as opções teórico-metodológicas devem apoiar-se cada vez mais nas necessidades da
investigação e não em uma opção apriorística do pesquisador por qualquer uma das
alternativas.
156), uma antiga querela ainda ronda a pesquisa em sociologia da educação: a divergência
sobre qual a perspectiva mais compatível com o estudo dos processos educacionais: a das
relações face a face entre os indivíduos empreendidas pelas análises microssociais, ou das
relações entre as estruturas – imposições mais gerais da sociedade –, por meio de análises
macrossociais.
Superar o antagonismo micro/macro na apreensão dos fenômenos sociais pela sociologia
da educação é a tarefa principal desta disciplina científica, a qual busca ultrapassar as
oposições clássicas e defender que o coletivo é individual e que os níveis microsssociais
constroem gradativamente padrões de ações e representações que se consubstanciam em
níveis macrossociais.
A abordagem fenomenológica inspirou as perspectivas microssociais, ao passo que entre
os defensores das perspectivas macrossociais estão os adeptos do funcionalismo, das
teorias sistêmicas e estruturalistas de diferentes extrações teórico-ideológicas.
Pode-se dizer que, no que tange à sociologia da educação no Brasil, até a década de 1980,
houve um predomínio de estudos sociodemográficos e exames macrossociais voltados para
a análise das relações escolares, como desigualdade, repetência etc.
ao caráter demasiadamente genérico de algumas abordagens de pesquisa, como os
surveys, é que assistimos a uma virada hegemônica no campo das estratégias
metodológicas em sociologia da educação (BRANDÃO, 2001, p.
nova sociologia da educação (a partir de 1980), portanto, rejeita as perspectivas unilaterais,
pois entende que os processos de configuração social estão inseparavelmente ligados às
dinâmicas micro
e
A arte do pesquisador estaria exatamente em sua capacidade de escolher o instrumento de
análise mais adequado ao problema de pesquisa que o desafia e às possibilidades
empíricas do campo de investigação que se apresentam ao pesquisador (BRANDÃO, 2001,
p.

Autoavaliação Caros alunos: O objetivo desta avaliação é mensurar a capacidade reflexiva


de vocês sobre a temática vista na disciplina Sociologia da educação. Para tanto, foram
selecionados três artigos recentes de jornal que refletem, em alguma medida, a situação
educacional do nosso país e que podem e devem ser pensados a partir de uma perspectiva
sociológica. Após a leitura dos artigos 1 e 2, vocês devem identificar as questões corretas e
marcá-las assinalando V ou F (verdadeiro ou falso). O artigo 3 deve ser lido e respondido de
maneira dissertativa, tendo em vista os argumentos dos autores apresentados durante
nossa disciplina. Por último, na questão 4, vocês devem assinalar a(s) resposta(s)
correta(s). Boa prova! Após ler os seguintes artigos, responda às questões 1 e 2. Artigo 1
Este artigo discute, em linhas gerais, a questão da mobilidade social entre as classes
menos favorecidas. Recorrendo ao professor José Pastore, sociólogo que discute a
problemática da mobilidade, a autora do artigo concluiu que a educação é o fator principal
para a mobilidade ascendente entre as classes menos favorecidas: Educação: o caminho
para o sucesso “No Brasil a educação tem um peso muito importante na mobilidade social.
Entre as pessoas que sobem na sociedade, cerca de 60% subiram por causa da educação.
Então, quando comparadas com seus pais, elas estão numa posição melhor e a educação
teve um peso bastante expressivo”, revela Pastore. O estudo empreendido pelo sociólogo
data do ano de 2000, mesmo assim o sociólogo acredita que hoje – das cerca de 85
milhões de pessoas que estão no mercado de trabalho – a metade tenha nível educacional
e renda superiores a de seus pais. A história de Marialva, retratada pela jornalista Fernanda
Galvão na publicação citada, ilustra bem esse fato. Marialva Pereira da Silva, que nasceu
no meio rural e estudou numa escola pública de São Sebastião. Numa cidade onde, de
acordo com o IBGE, menos de 1% dos moradores fazem curso superior, ela conseguiu
passar para Pedagogia na Universidade de Brasília. A única dos dez irmãos a chegar tão
longe. É a própria Marialva quem confessa: “Nas famílias, ainda é comum ver os pais
acharem que se o filho terminou o segundo grau e arrumou um emprego mais ou menos, já
está bom demais. Na época eu saí no jornalzinho e todo mundo comentava: ‘A Marialva,
estudante da Escola São Paulo, passou no vestibular da UnB. A filha da dona Senhorinha e
do seu Boa foi aprovada.’ Desde então, virei referência.” Mesmo com alguns de seus
familiares desacreditando de um futuro reservado à maioria de seus pares, Marialva
perseguiu seus propósitos. Hoje Marialva leciona em São Sebastião e diz aos alunos que
todos podem chegar à universidade, se quiserem. Alunos pobres podem contar com alguns
programas para facilitar o acesso ao nível superior. Pelo menos um cursinho pré-vestibular
oferece bolsas de estudos: 200 por semestre. “(…) Os brasileiros não percebem que a
nossa sociedade é muito móvel, tem muita mobilidade. É ascendente, principalmente
porque o grosso da mobilidade se dá na base da pirâmide. sociologia.indd 26 26/01/2012
18:10:48 27 Aula 2 O Brasil é um país que, além de ter aumentado as oportunidades
educacionais formais, tem uma profusão de cursinhos de todas as naturezas, que permitem
dar uma qualificação decisiva na mobilidade social”, destaca o sociólogo José Pastore.
“Quando eu comecei a fazer faculdade, pensei: ‘Meu Deus: o que eu vou fazer naquela UnB
com aquele tanto de gente que eu não conheço? Nem roupa pra ir eu tenho.’ Só que,
quando você chega lá, a roupa é o de menos. É claro que vai um povo muito chique, mas
tem gente que vai de chinelo e bermuda e é muito inteligente. Assim você começa a ver as
coisas de outro modo. Você vê que é uma pessoa como qualquer outra, que também é
capaz”, confessa a professora Marialva. GALVÃO, Fernanda. Educação: o caminho para o
sucesso. Séries de Reportagens Bom dia Distrito Federal – Globo Comunidade. Brasília,
Distrito Federal, 14 fev. 2008. Disponível em: .Acesso em: 4 mar. 2010. 1. Assinale V
(verdadeiro) ou F (falso): ( ) A teoria da reprodução cultural de Pierre Bourdieu procura
desmistificar o mito de “escola libertadora”, evidenciado pela teoria estrutural funcionalista
de Talcott Parsons. ( ) A mobilidade ligada à escola é um juízo de valor comum em
sociedades democráticas, nas quais os talentos individuais são cultivados, já que se espera
dessas sociedades uma igualdade de oportunidades para os indivíduos. ( ) De acordo com
o texto lido, fica evidente que a mobilidade social pela via da escola só acontece para as
pessoas que têm familiares altamente escolarizados. ( ) A associação entre educação e
mobilidade social está fortemente assentada na concepção liberal de economia, de política
e de sociedade. ( ) A meritocracia é uma concepção que diverge da ideia de se cultivar os
talentos individuais e as aptidões inatas do indivíduo. Peso: 5 pontos Artigo 2 O artigo
intitulado: “O que a ranking do Enem não nos conta” problematiza de que modo as
desigualdades sociais impactam as desigualdades escolares: O que o ranking do Enem não
nos conta Imagine dois competidores disputando uma maratona. O primeiro deles, forte e
saudável, usa um tênis sofisticado. O outro, mais fraco, tem um calçado normal. Ninguém
duvida de que o primeiro vencerá a corrida. Mas você associaria o resultado ao tênis que
ele usou? Em certa medida, é isso que fazemos ao comparar acriticamente escolas no
ranking do Enem. De acordo com essas observações, parece ficar claro que as chamadas
“variáveis posicionais”, ou seja, as variáveis como classe social, renda e ocupação
interferem e muito sobre os resultados escolares dos alunos. sociologia.indd 27 26/01/2012
18:10:48 28 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Desde 1966, quando o sociólogo James
Coleman publicou relatório pioneiro sobre fatores associados ao desempenho de alunos
nos EUA, especialistas em avaliação educacional vêm confirmando que é o nível
socioeconômico dos estudantes o que mais explica o resultado. É por isso que colégios que
atendem somente filhos de pais de alta renda e escolaridade largam na frente no Enem –
não necessariamente por suas práticas pedagógicas, mas, principalmente, pelo perfil de
aluno que atendem. É sabido que as poucas escolas de nível médio que conseguem
preparar bem um estudante para a prova do Enem estejam entre as públicas (federais ou
técnicas), pois elas também fazem, em sua maioria, um processo de seleção de estudantes.
Para o autor do artigo, mesmo na comparação entre colégios de elite, é preciso ter cautela.
Uma escola que dá bolsas para alunos pobres, que não discrimina deficientes e não
expulsa estudantes que repetiram de ano perderá pontos não por seus defeitos, mas por
seus méritos. Isso não invalida a utilidade do ranking do Enem – ferramenta valiosa para
ajudar os pais a avaliar a escola dos seus filhos. Só não deve ser a única. Constatar que o
resultado é explicado principalmente pelo perfil do aluno não significa que a escola não faça
diferença. Mas é preciso ter em mente que o melhor colégio não é necessariamente o que
está no topo do ranking, mas sim aquele que consegue fazer mais do que se esperava por
seus alunos. E isso, infelizmente, o ranking do Enem não nos conta. GOIS, Antônio. O que
o ranking do Enem não nos conta. Folha de S.Paulo, 29 abr. 2009. 2. Após a leitura do
artigo e dos conteúdos vistos em sala de aula, vocês devem identificar se existe uma
correlação entre origem social e desempenho escolar, assinalando verdadeiro (V) ou falso
(F) para as seguintes questões: ( ) O pobre não gosta de estudar. Isso explica o fato de as
escolas públicas estaduais estarem entre as piores na lista do ranking das melhores escolas
do Enem. ( ) As diferenças culturais atrapalham a aquisição de certas competências. ( ) Os
problemas ligados ao fracasso escolar devem ser explicados à luz das desigualdades
econômicas e socioculturais. ( ) Não é possível que uma sociedade injusta produza uma
educação justa. ( ) Os alunos de meio social mais favorecido apresentam um desempenho
escolar melhor nos exames nacionais de avaliação porque eles estudam mais. Peso: 5
pontos Artigo 3 Este artigo discute uma questão que parece uma ferida que nunca se fecha
em nossa sociedade. Por que a educação do pobre tem que ser uma porcaria? Na nossa
Constituição, ela é um direito público adquirido, mas sabemos que aos pobres são
reservadas as piores escolas, o corpo docente mais instável e menos qualificado, entre
outras coisas. O desempenho dos alunos da sociologia.indd 28 26/01/2012 18:10:48 29
Aula 2 escola pública, segundo os especialistas, não reflete apenas a qualidade do ensino
formal. Antes de mais nada, reflete o ambiente socioeconômico do aluno: pouca educação
na família, pobreza material e cultural, pouca leitura, falta de orientação para o
desenvolvimento pessoal. Além disso, os professores do ensino oficial são mal pagos,
muitos são mal preparados e não têm estímulo para se aperfeiçoar. O sistema escolar é
pobre, as instalações são precárias, os controles e as avaliações são falhos. Os alunos
passam poucas horas na classe e suas possibilidades de aprendizado são escassas.
Muitos mal sabem ler quando terminam a quarta série. E quem pode ficar surpreso, se os
alunos diplomados no ensino médio têm dificuldades enormes para entrar numa faculdade?
A educação do pobre tem que ser mesmo uma porcaria? Educação de pobre tem de ser
mesmo uma porcaria? Ninguém diz isso em voz alta. Provavelmente ninguém aceita essa
ideia, de forma consciente, mesmo numa conversa com seus botões. Qualquer um ficaria
corado se ouvisse a própria voz pronunciando essas palavras. Mas essa é, na prática, a
orientação dominante na política educacional brasileira. Há uma espécie de fatalismo nessa
política. Esse fatalismo é desastroso e tende a perpetuar a desigualdade e a pobreza. A
Educação poderia ser o instrumento de ruptura do círculo vicioso, mas acaba contribuindo
para perpetuá-lo. Quando os jornais publicam, como ontem, grandes coberturas sobre
exames de avaliação de cursos - o Enem é só um exemplo -, os comentários dos
especialistas são tão previsíveis quanto desanimadores. Segundo o padrão “realista”, não
tem sentido a comparação de resultados de Escolas públicas e privadas. O desempenho
dos alunos da Escola pública, segundo os especialistas, não reflete apenas a qualidade do
ensino formal. A descrição das misérias do ensino público pode ser verdadeira, de modo
geral, mas isso é só a constatação de um problema. Entre a constatação e a aceitação há
um abismo. A comparação de resultados tem sentido, sim, e é indispensável. Se se
comparam níveis de renda e condições de sucesso profissional de pessoas de classes
diferentes, por que não comparar também seu desempenho Escolar e suas notas em testes
como o Enem, o Enade e a Prova Brasil? Realismo não é rejeitar a comparação, e sim levar
em conta a diferença entre as oportunidades educacionais. Por fim, o autor conclui que não
se elimina essa diferença apenas com a universalização do acesso à Escola. Esse é um
passo essencial, mas insuficiente. Enquanto se amplia a cobertura Escolar, como nas
últimas décadas, amplia-se também a distância entre o níveis de Educação oferecidos a
crianças e jovens de diferentes origens sociais. O abismo é cada vez maior. Uma criança de
7 anos criada num ambiente favorável e matriculada numa boa Escola pode estar mais
preparada para o treinamento científico do que um estudante de oitava série formado em
cursos de baixa qualidade. Este é um fato observável no dia a dia. É uma tolice falar sobre
igualdade de oportunidades quando se menospreza esse dado. As chamadas políticas
afirmativas nunca serão mais do que remendos de valor muito duvidoso. Podem produzir
algum efeito, mas nunca bastarão para compensar a diferença efetiva entre a boa e a má
Educação, entre a boa e a má preparação para a vida profissional e até para o exercício da
cidadania. (...) A chamada justiça social começa com a distribuição equitativa da Educação.
Se uma criança vem de um ambiente socioeconômico desfavorável, a Escola deve
compensar essa deficiência. Por isso, a Educação pública tem de ser muito boa e muito
rigorosa, e não relaxada e leniente, sociologia.indd 29 26/01/2012 18:10:48 30
SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO como no Brasil. Políticas educacionais frouxas não nivelam
oportunidades. Ao contrário: reproduzem as desigualdades e empurram os problemas para
a frente, como se as cotas e outras soluções fáceis pudessem mudar a realidade. KUNTZ,
Rolf. A educação do pobre tem que ser mesmo uma porcaria? O Estado de S. Paulo, 30
abr. 2009. 3. Após ler o artigo, escreva, de maneira sucinta (aproximadamente 12 linhas)
até que ponto a educação pode representar uma mudança social. Lembre-se de que, ao
apresentar seu argumento, você deve justificá-lo de acordo com as críticas e ideias dos
autores trabalhados durante a disciplina.
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Peso: 5 pontos
4. Após ler as afirmações, marque com um x a alternativa que você considera correta: I. As
tendências atuais na sociologia da educação tiram o foco da macroestrutura e passam a se
interrogar por aquilo que se passa na “caixa-preta” da escola. II. Pierre Bourdieu não se
preocupou em anunciar uma resposta para as desigualdades escolares, mas sim em
desvendar os mecanismos sutis que fazem com que a escola “favoreça os já favorecidos e
desfavoreça ainda mais os desfavorecidos”. III. Para a teoria de Tacott Parsons, o
importante era tentar entender as desigualdades escolares não pelo aproveitamento escolar
que os alunos faziam ao longo da escolaridade primária (elementar), mas sim por meio da
condição socioeconômica dos alunos. IV. As novas tendências na sociologia da educação
abriram espaço para o diálogo com outras disciplinas, como a história, a antropologia e a
psicologia. A ( ) todas as afirmações estão corretas; B ( ) todas as afirmações tão incorretas;
C ( ) todas as afirmações estão corretas, exceto a afirmação III; D ( ) todas as afirmações
estão corretas, exceto as afirmações II e III; E ( ) todas as afirmações estão corretas, exceto
as afirmações I e II

AULA 3

A escola, a sala de aula e seus sujeitos em uma perspectiva sociológica


Objetivo: Mapear as discussões atuais que têm permeado as análises da sociologia da
educação contemporânea.
As tendências atuais na sociologia da educação têm cumprido o papel de recobrar o “lugar”
do sujeito nas suas investigações, além de tomar como objeto de pesquisa todas as
relações contidas na chamada “caixa- -preta” do universo institucional.
95), a sociologia da educação procurou romper com a tradição funcionalista-positivista de
investigação, que demonstrou uma grande capacidade descritiva e uma forte tendência à
prescrição, mas que instigou uma atitude de neutralidade política em face da educação
escolar.
Uma sociologia que evidencie de que modo as relações de poder e de dominação se
corporificam na organização escolar, beneficiando assim os saberes mais abstratos, mais
distantes da vida cotidiana, mais dependentes da codificação estrita, mais adaptados aos
procedimentos de avaliação formal etc., faz parte deste novo campo de preocupações da
disciplina, redimensionando então o papel do currículo e dos saberes escolares.
Os sistemas escolares são atualmente também imensas máquinas burocráticas, nas quais
o sentido do trabalho, constantemente reafirmado no discurso dos adultos, é, muitas vezes,
negado na prática (PERRENOUD, 1995, p.
Entretanto, há muito tempo tal objeto permaneceu sendo a “caixa-preta” da sociologia da
educação francesa, ao passo que, tanto nos EUA quanto na Inglaterra, tais espaços,
aparentemente irrelevantes e pouco atrativos, foram submetidos ao escrutínio tanto da
antropologia da educação quanto da sociologia da educação desde a década de 1950.
Se para o “pai” da sociologia e para algumas correntes americanas e inglesas a sala de
aula era tida como o locus do processo de escolarização e lugar privilegiado de transmissão
do saber, para a França foi somente a partir da década de 1980 que se descobriu um objeto
que coincide com o “retorno do ator” (Touraine).
Pode-se mesmo afirmar que tais estudos permitem que se evidenciem as contribuições e as
falhas de uma sociologia das desigualdades escolares centrada principalmente nas teorias
da reprodução, uma vez que, através destes estudos, encontram-se salientadas a parte da
autonomia da situação da sala de aula e a complexidade dos mecanismos adaptativos e
das estratégias estabelecidas pelos próprios atores (SIROTA, 1994, p.
partir do estudo da sala de aula como uma “pequena sociedade”, com todos os conflitos e
negociações oriundos deste pequeno universo social, pretende-se conjugar diferentes
modos de abordagens interpretativas (negociação, situação, improvisação, rotina, estratégia
etc.), com as análises oriundas das teorias da reprodução.
sociologia.indd 33 26/01/2012 18:10:49 34 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Os sujeitos: o
ofício do aluno Perrenoud (1995) teceu interessantes observações a respeito do ofício do
aluno e do papel que este tem hoje em uma sociedade racionalizada
e
Para vivenciar a cultura escolar, é preciso levar em consideração não apenas o currículo
formal, o qual se apresenta como uma imagem digna de ser transmitida, com o recorte, a
codificação e a formalização correspondente a esta intenção didática, mas também
vivenciar o currículo real como um conjunto de experiências, tarefas e atividades que geram
ou que se pressupõe que gerem aprendizagens (PERRENOUD, 1995, p.
assim que Perrenoud pensa a pedagogia na sociologia da educação, ou seja, no currículo
real em perspectiva, isto é, na produção e na vivência de um conjunto de experiências dos
alunos, enfim, tudo aquilo que lhes acontece na escola.
ofício do aluno compreende estabelecer, criar rotinas que devem suscitar a aprendizagem,
com a colaboração da família, com o grupo social de pertencimento, com os professores de
sua vida escolar pregressa, com o seu grupo de pares.
103), o interesse pela questão dos saberes transmitidos na escola, das modalidades
interativas dessa transmissão e da construção também interativa dos veredictos escolares
se torna central desde a segunda metade do século 20, atraindo sociólogos do currículo da
Grã-Bretanha, teóricos críticos e da resissociologia.indd 34 26/01/2012 18:10:49 35 Aula 3
tência nos Estados Unidos, sociólogos da educação e didatas na França, sociólogos da
educação e curriculistas no Brasil: Tal debate (…) nos conduz a considerar que a escola e
os sistemas de ensino não se limitam a selecionar os saberes e os materiais culturais
disponíveis.
A transmissão escolar do patrimônio de conhecimentos, de emoções, de valores, de
conflitos típicos de uma sociedade (ou de uma civilização) supõe um formidável trabalho de
reorganização, de reestruturação, de reconstrução, de ressignificação, pois novas formas
de saber, novas relações com o saber, modos de pensamento específicos, atitudes e
competências típicas se criam e se recriam permanentemente (VALLE, 2008, p.
Embora a escola continue sendo uma das maiores agências de socialização em nossa
sociedade, tanto a sociologia do currículo quanto a sociologia dos saberes escolares
sinalizam para a necessidade de se repensar a socialização como um processo que leva
em conta agora a identidade do sujeito e a relação que ele estabelece com a cultura.

Autoavaliação 1. Após ler as afirmações, marque com um x a alternativa que você


considera correta: I. As tendências atuais na sociologia da educação tiram o foco da
macroestrutura e passam a se interrogar por aquilo que ocorre na “caixa-preta” da escola. II.
Pierre Bourdieu não se preocupou em anunciar uma resposta para as desigualdades
escolares, mas sim em desvendar os mecanismos sutis que fazem com que a escola
“favoreça os já favorecidos e desfavoreça ainda mais os desfavorecidos”. III. Para a teoria
de Tacott Parsons, o importante era tentar entender as desigualdades escolares não pelo
aproveitamento escolar que os alunos faziam ao longo da escolaridade primária
(elementar), mas sim por meio da condição socioeconômica dos alunos. IV. As novas
tendências na sociologia da educação abriram espaço para o diálogo com outras
disciplinas, como a história, a antropologia e a psicologia. A ( ) todas as afirmações estão
corretas; B ( ) todas as afirmações estão incorretas; C ( ) todas as afirmações estão
corretas, exceto a III; D ( ) todas as afirmações estão corretas, exceto as II e III; E ( ) todas
as afirmações estão corretas, exceto as I e II. 2. Comente esta entrevista: A criança é
educada na família, na escola e no bairro Uma das análises feitas pela pesquisadora do
Ippur, Mariane Koslinski, ao concluir a pesquisa sobre as oportunidades educacionais nas
regiões metropolitanas brasileiras, foi de que a escola, de maneira geral, desestimula as
crianças a continuar a frequentá-la, um dos fatores de evasão. Por que a escola perdeu o
valor para os alunos? Em primeiro lugar, pais e alunos precisam acreditar que o sucesso na
vida futura depende da escola, que, por sua vez, deve ser capaz de oferecer oportunidades
iguais para as crianças. Dessa forma, a progressão no sistema escolar seria um caminho
para ter uma profissão de maior status e, consequentemente, melhores condições sociais.
Porém, se um aluno percebe que dentro da própria escola não consegue ter chances iguais
a de seus colegas de aprender, deixa de acreditar na ascensão social via escolarização. Ele
constrói esse conceito por meio da sua própria experiência escolar, reforçado pelo fato de
que a oferta de boas chances quase nunca é observada na escola pública. sociologia.indd
36 26/01/2012 18:10:49 37 Aula 3 Isso tem a ver com a localização da escola? A
organização socioterritorial da cidade é relevante porque a criança é educada na família, na
escola e no bairro. Se ela se acostumar a ver pessoas sem escolarização “se dando bem na
vida”, terá apenas esse modelo. Já em áreas mais heterogêneas, é possível que o jovem
tenha contato com gente que teve acesso à escola e ascendeu socialmente. Como reverter
essa descrença em relação ao ensino? As próximas gerações terão pais escolarizados.
Acho que o segredo está na valorização do papel do educador, na melhoria das condições
de trabalho e na possibilidade de ter uma carreira que permita que ele atue em uma única
escola.

AULA 4

A desigualdade escolar como objeto da sociologia da educação

Objetivo: Refletir sobre o papel da sociologia da educação na compreensão das


desigualdades escolares e sociais.

É sabido que a sociologia da educação, por meio do seu instrumental analítico, ajuda-nos a
compreender como os processos escolares podem atenuar ou maximizar as desigualdades
sociais.
Esta desigualdade, por sua vez, repercute na desigualdade de renda, pois faz com que os
grupos que estão em melhor posição possam ter melhores oportunidades que os grupos
desfavorecidos, gerando um círculo vicioso que tende a aumentar as desigualdades
(CASASSUS, 2007, p.
Se nas décadas precedentes a preocupação da política educacional era assegurar a
expansão quantitativa da escola pública, garantindo a sua oferta, as reformas
implementadas a partir da década de 1990 terá como objetivo melhorar a qualidade da
educação.
Tal como analisamos na aula anterior, não é possível perceber os efeitos das desigualdades
escolares tomando como ponto de partida uma suposta igualdade no início, onde a
diferença de resultados estaria na aplicação de técnicas ou processos de socialização
diferenciados que sociologia.indd 39 26/01/2012 18:10:49 40 SOCIOLOGIA DA
EDUCAÇÃO culminariam em desempenhos diferenciados por parte dos alunos, tal como
explicitado na teoria funcionalista de Talcott Parsons.
Por outro lado, é impossível analisar as razões das desigualdades escolares considerando
apenas como fator implícito uma desigualdade no início, nos termos de Bourdieu, não
observando o efeito agregado de fatores como clima escolar, efeito turma etc., ou seja, não
dimensionando o papel que a escola tem como fator de redução das desigualdades
escolares ao longo dos anos.
estudo da desigualdade também não pode ser atribuído apenas ao sucesso dos alunos, já
que a aprendizagem é um processo que sintetiza fenômenos que ocorrem em nível
cognitivo e emocional em um indivíduo, como também social (CASASSUS, 2007, p.
Desde a década de 1980, a pobreza e a desigualdade social não param de crescer, apesar
de grande parte dos países que compõem este continente ter conseguido expandir sua
economia e aumentar o gasto social durante a década de 1990, como é o caso do Brasil.
A desigualdade que assola boa parte dos países da América Latina pode ser vista nos
seguintes números: por volta de 1999, só 5% da população ganhavam um quarto do total da
renda e 10% ganhavam 40%.
O Brasil vive o paradoxo de ser uma das 10 economias mais potentes do mundo e ao
mesmo tempo ocupar o 67º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), posição
esta que o coloca um lugar à frente de Serra Leoa, na África, país marcado por constantes
guerras civis e disputas pelo poder, que colocam sua população em uma zona de alta
vulnerabilidade social.
38), foi-se criando uma distância cada vez maior entre, de um lado, os que têm uma boa
educação e uma boa situação econômica e, de outro, os que correm o duplo risco de ter
uma educação deficiente e viver na pobreza.
sociologia.indd 40 26/01/2012 18:10:49 41 Aula 4 Assim, é possível inferir que o sistema
educacional está enraizado em uma sociedade estruturada por relações sociais desiguais,
com consequências profundas no rendimento escolar.
É necessário construir uma “democratização pelas finalidades e pelo funcionamento”, pois
os percursos escolares podem se tornar menos desiguais socialmente se as condições de
acesso forem modificadas, se a autosseleção de certos grupos sociais for eliminada, se os
veredictos deixarem de ser excludentes, se os conteúdos curriculares dotarem as novas
gerações de instrumentos de análise e de ação, indispensáveis à sua emancipação e à
transformação social.
A ideia de educação como sinônimo de justiça redistributiva, fim do privilégio de “sangue”,
franqueamento das oportunidades etc., estaria sendo substituída por um contexto de
deterioração nas relações interpessoais e erosão das regras que regulam e definem o
espaço escolar.
Atualmente, para alguns segmentos sociais, a escola funcionaria como uma instituição
limitadora das oportunidades, uma vez que a outorga do diploma escolar não garantiria
mais uma colocação segura no mercado de trabalho e tampouco representaria expectativas
ampliadas em relação ao futuro.
O contexto de extrema desigualdade no Brasil, tal como acabamos de ver, não pode ser
desconsiderado para entender o esgarçamento dos laços de solidariedade e a ausência de
regras que regulam o espaço escolar, tal como observado na sociologia clássica.
Etnometodologia e interacionismo simbólico: estudo dos procedimentos escolares que,
dentro de uma rotina, são capazes de levar a uma adesão ou a uma recusa aos valores
sociologia.indd 41 26/01/2012 18:10:49 42 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO escolares
(julgamento e certas condutas adotadas pela administração e pelo corpo docente das
escolas).
A grande aceitação da ideia do dom também retoma a discussão da centralidade do
indivíduo na superação dos desafios, reativando o mito da escola libertadora, a qual
proporcionaria chances iguais para que todos os indivíduos desenvolvessem seus talentos
individuais.
Para além da ideologia do dom, a teoria da reprodução também procurou sistematizar qual
seria o papel da escola (e não mais do indivíduo) na produção do fracasso escolar.
Assim, as crianças que receberam na sua família e na sua classe social uma educação
voltada para aquela cultura que a escola privilegia têm mais chances de serem alunos
bem-sucedidos na escola (CHARLOT, 2007, p.
Como já estudamos nos capítulos anteriores, por trás de uma aparência democrática, a
escola favorece os mais favorecidos e desfavorece ainda mais os já desfavorecidos, uma
vez que, sob o signo de uma “suposta neutralidade”, ela aproxima da cultura escolar os
alunos que já receberam das suas famílias um certo patrimônio cultural, distanciando
aqueles que só podem esperar da escola
o
escola contribuiria, desta forma, para o papel de reprodução das desigualdades sociais,
reproduzindo estas desigualdades por meios específicos como as avaliações feitas pelos
professores, a transmissão sociologia.indd 42 26/01/2012 18:10:50 43 Aula 4 de saberes, o
veredicto escolar etc.
Ele vive uma experiência que interpreta e, conforme o sentido conferido a esta situação de
fracasso, age e reage de maneira diferente.” Parte-se aqui da premissa de que devemos
tratar o fracasso e/ou sucesso não como um dado natural que o sujeito cumpre em seu
destino, mas como uma relação social que é construída ao longo da história pessoal,
institucional, cultural e social do aluno e, ainda, de um conjunto de relações: “(…) é preciso
pesquisar as relações com o saber e, de modo mais geral, com o aprender, quer fora da
escola quer dentro e, para tanto, é necessário investigar as relações do aluno com
o
corrente teórica que dialoga com alguns dos princípios do interacionismo, qual seja, a da
relação com o saber (Charlot, 2007), busca melhor compreender os sentidos do sucesso ou
do fracasso escolar na mente dos atores, quer sejam alunos, quer sejam professores ou
diretores, supervisores, pais etc.
subjetiva supõe reconhecer o peso das variáveis objetivas no futuro escolar das crianças,
mas atentar também para a importância da variável subjetiva na construção das
disposições, sobretudo se quisermos investigar o sentido que o saber escolar tem na vida
dos sujeitos.
Entender que um aluno é filho de um pai cuja categoria socioprofissional deriva de uma
classificação do CBO (Conjunto Brasileiro de Ocupações), por exemplo, não permite captar
de que maneira este aluno vivencia essa condição (se é com orgulho, com vergonha, com
desejo de superação etc.).

Autoavaliação 1. Marque F (falso) ou V (verdadeiro) para as seguintes questões: A


desigualdade de renda repercute de maneira direta nas desigualdades educacionais: ( ) É
por isso que o Brasil vive o paradoxo de ser uma das 10 economias mais potentes do
mundo e ao mesmo tempo ocupar o 67º lugar no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).
( ) O estudo da desigualdade escolar não pode ser atribuído apenas ao nível
socioeconômico das famílias. Esta é uma das variáveis que menos repercute sobre o
rendimento dos alunos. ( ) As condições de vida dos 30% mais pobres do Brasil são
inaceitáveis para o resto da população. Como lembra Casassus (2007, p. 38), foi-se criando
uma distância cada vez maior entre, de um lado, os que têm uma boa educação e uma boa
situação econômica e, de outro, os que correm o duplo risco de ter uma educação deficiente
e viver na pobreza. ( ) É possível inferir que o sistema educacional está enraizado em uma
sociedade estruturada por relações sociais desiguais, com consequências profundas no
rendimento escolar. Uma sociedade injusta não consegue produzir uma escola justa. ( ) Em
nossa sociedade, a escola funciona como uma instituição limitadora das oportunidades,
uma vez que a outorga do diploma escolar não garante mais uma colocação segura no
mercado de trabalho e tampouco representa expectativas ampliadas em relação ao futuro.

AULA 5

Por que é tão difícil pensar que a escola pode corrigir as desigualdades sociais?

Objetivo: Propor uma breve discussão a respeito do alcance que a instituição escolar tem
sobre a correção das desigualdades sociais
.

Para tratar deste assunto, recorremos a François Dubet (2008), autor do livro O que é uma
escola justa?.
O autor coloca em dúvida o princípio da igualdade das oportunidades, sem, todavia, deixar
de refletir sobre os meios de se aproximar desse ideal de justiça.
Para o autor, a concepção de justiça escolar reúne todos esses componentes acima
citados, entretanto tais componentes são conflitivos quando conjugados.
sociologia.indd 47 26/01/2012 18:10:50 48 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Os limites da
igualdade de oportunidades Uma sociedade democrática seria aquela que tivesse também
valores meritocráticos, assentados em ideais de justiça e igualdade.
A escola de massas surge então com a promessa de oferecer uma certa igualdade de
oportunidades, na medida em que, generalizando o acesso à escola, instala
progressivamente entre o seu público uma situação de heterogeneidade social.
Aqueles antes excluídos do sistema escolar e que agora obtinham êxito reforçavam o mito
“libertador” da escola democrática, como sendo uma instituição que permitia certa
mobilidade social para aqueles menos favorecidos socialmente.
Desde o final dos anos de 1960, os teóricos da reprodução cultural vêm demonstrando que
a riqueza não é o único obstáculo à igualdade das oportunidades e que a distribuição das
carreiras e das performances escolares dos alunos permanece muito desigual.
tese de que os alunos originários das categorias sociais mais privilegiadas, os mais bem
municiados em capital cultural e social, apresentam um rendimento melhor, cursam estudos
mais longos, mais prestigiosos e mais rentáveis do que os outros (DUBET, 2008, p.
Os entraves escolares são mais evidentes: falta de comunicação entre os pais e a escola,
equipe docente menos estável, expectativa dos professores quanto ao futuro escolar dos
alunos menos favorável às famílias desfavorecidas.
sociologia.indd 48 26/01/2012 18:10:50 49 Aula 5 Crueldade no modelo meritocrático: os
“vencidos” são responsabilizados pelo seu próprio fracasso, pois a escola lhes deu, a priori,
todas as chances para alcançar o sucesso como os outros.
Alunos perdem a autoestima, não aderem aos valores escolares, abandonam projetos
futuros e assim a escola “meritocrática” acaba legitimando as desigualdades sociais.
Uma vez que a escola meritocrática submete os alunos à mesma competição e avaliação,
os “não herdeiros” logo desistem da competição, sentindo-se cada vez mais enfraquecidos.
Embora as críticas expostas à ideia meritocrática, devemos lembrar que a oferta
educacional para suprimir alguns privilégios de classe parece ser algo mais tangível para
rompermos com certa cumplicidade evidente entre alguns grupos sociais e a escola.
principal fator de igualdade essencial consiste então na redução das desigualdades sociais,
uma vez que nenhuma escola consegue, sozinha, produzir uma sociedade justa.
discriminação positiva seria uma espécie de política compensatória que deveria levar em
consideração as desigualdades sociais: tornar o trabalho do professor mais eficaz e criar
mecanismos compensatórios centrados no aluno e em seu trabalho.
Para tanto, é necessário definir os conteúdos de uma cultura escolar comum, aquela que
todos os alunos devem obter como garantia ao final da escolaridade obrigatória.
necessário uma valorização da educação profissional e um novo estímulo às carreiras não
tão valorizadas e que possuem igualmente importância no mercado de trabalho.
sociologia.indd 49 26/01/2012 18:10:50 50 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO As esferas da
justiça Pensar a justiça de modo inverso: os efeitos gerados pela desigualdade escolar e
que incidem sobre as desigualdades sociais.
A escola deve ser um espaço de educação e de cultura na instrução e ir mais além, com
atividades culturais e esportivas, organização da própria vida escolar e atendimento aos
alunos fora da classe.
Por fim, a escola deve educar os alunos independentemente de seu desempenho escolar
quando houver um diálogo entre família e escola, quando os alunos forem tratados como
sujeitos em evolução e não como alunos engajados em uma competição.

Autoavaliação 1. Após a leitura deste quadro e com base nos textos lidos até o presente,
comente qual parece ser o papel da escola em nossa sociedade.

AULA 6
O que a sociologia tem a dizer sobre a formação do professor?

Objetivo: Tentar desconstruir a ideia – naturalizada pelo senso comum – de que a sociologia
é uma disciplina científica voltada eminentemente para o campo teórico.
Neste livro vimos que a própria disciplina nasce em um contexto de grandes transformações
sociais e ganha legitimidade ao querer transformar todo e qualquer problema social em
problema sociológico.
Conhecer significa passar por uma experiência de formação inicial que permita ao professor
conhecer não somente a instituição social representada pela escola como também
conhecer a própria sociedade de onde emanam as instituições sociais que a compõem.
Ao tomarmos o conhecimento como princípio educativo, evocamos a assertiva de Durkheim
(1955), pensando que a formação possui um peso preponderante no processo de
profissionalização da profissão docente, constituindo-se então em um meio privilegiado de
ação: “conhecer para transformar”, vaticinava o sociólogo.
A importância da formação caminha contrariamente à lógica da mudança como sendo
apenas fruto de voluntarismos, já que não basta querer transformar sociologia.indd 53
26/01/2012 18:10:51 54 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO para mudar.
Há situações historicamente e objetivamente determinadas que tornam pequeno o alcance
das iniciativas de mudança encontradas no trabalho diário do professor.
Para que esse círculo vicioso (formação inicial-prática-formação continuada) se transforme
em um círculo virtuoso, é necessário que os cursos de formação discutam em suas
disciplinas a importância que a reflexão sobre seu campo teórico tem sobre o seu futuro
profissional.
formação, seja ela inicial ou continuada, não pode, pois, prescindir de uma teoria reflexiva
das práticas, pois ela deve fornecer a competência para agir justamente no universo das
rotinas de trabalho.
necessário refletir sobre a prática docente de um ponto de vista mais sociológico, em que a
noção de habitus de Bourdieu (1996) pode apresentar-se como uma ferramenta útil de
análise na formação docente.
Aqui o habitus é entendido como uma gramática geradora das práticas, isto é, como rotinas
que supõem um grau de improvisação e inovação diante de novas situações que podem
evidenciar que o saber meramente especulativo presente no processo de formação de
professores não faz sentido por si só.
controle da normatização, ou seja, para treinar um olhar normativo sobre a realidade, há
que se dizer que nem sempre a realidade está de sociologia.indd 54 26/01/2012 18:10:51
55 Aula 6 acordo com a norma.
Em outros termos, a sociologia da educação “(…) propõe uma imagem da prática talvez
mais realista do que a que encontramos geralmente no discurso pedagógico ou
metodológico” (PERRENOUD, 1993, p.
Desta forma, nesta aula evidenciamos de que modo tanto a sociologia da educação mais
clássica quanto a sociologia da educação contemporânea têm, cada qual de seu lado,
contribuições a trazer para o campo voltado à formação do professor.

Segundo Baudelot, reconhecer o fracasso já é, por si só, uma lição da sociologia para ação:
“A realidade escolar, como parte da realidade social, não se muda nem pela boa vontade
dos professores, nem pelos decretos do governo.” (BAUDELOT, 1991, p.
Neste cenário, teríamos a divisão entre o homo faber e o homo sapiens, ou seja, para
Baudelot, a escola capitalista forma 20% de trabalhadores intelectuais e 80% de
trabalhadores manuais.
preocupação da sociologia crítica seria então mostrar que a ideologia da igualdade de
oportunidades não condiz com a forma como a sociedade está organizada, uma vez que a
eliminação dos filhos das camadas mais desfavorecidas começa desde a escola primária.
sociologia.indd 55 26/01/2012 18:10:51 56 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Democratizar o
ensino é colocar a escola a serviço do povo, e não simplesmente aumentar as estatísticas
das matrículas e oferecer serviços de subinstrução a essa camada.
Os práticos devem também ser os teóricos da sociologia da educação porque são aqueles
que melhor conhecem o mapa da realidade escolar, uma vez que, como diria Durkheim
(1955), o conhecimento não é monopólio da teoria.

Autoavaliação Leia alguns trechos da reportagem do educador e economista Eric


Hanushek, da Universidade de Stanford, e responda às questões que se seguem. O autor
defende a demissão de maus professores, uma vez que está convencido de que a
educação é a chave para o desenvolvimento econômico. Para Hanushek, os profissionais
que não sabem ensinar atrasam a vida de alunos em todos os países. Educador americano
defende demissão de professores que não sabem ensinar “Bom professor é aquele cujos
alunos aprendem” (Hanushek). Segundo Hanushek, somente a experiência e a prática são
reveladoras da aptidão e desenvoltura para o magistério. Para ele, é imprescindível que o
poder público possa demitir quem não dá conta do recado. Ele sugeriu contratos de
experiência por cinco anos. Depois, profissionais com fraco desempenho seriam
dispensados. Outra saída é a aposentadoria compulsória. “É melhor pagar professores para
não estarem na sala de aula” (Hanushek). Maria Helena Guimarães de Castro, ex-secretária
de Educação de São Paulo, disse que é preciso mudar a legislação para permitir a
demissão, mas lembrou que a formação universitária costuma ser deficiente no Brasil e que
o país investe menos do que deveria em ensino. Para Maria Helena, o Brasil é refém de
uma legislação antiga, corporativa, estatizada e difícil de mudar. Os diretores deveriam ter
autonomia para formar equipes. Não existe cultura de carreira que valorize o mérito e o
desempenho – disse Maria Helena, lamentando que o Judiciário seja refratário a mudanças
na exigência legal de que aumentos salariais sejam dados a toda a categoria. Ao analisar
resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), Hanushek
concluiu que a substituição de 10% dos piores professores dos Estados Unidos elevaria a
nota média do país em quase 50 pontos na prova de ciências. No caso brasileiro, segundo
ele, a substituição faria o país encostar em Portugal, subindo da 52ª posição para a 37ª no
Pisa. WEBER, Demétrio. Educador americano defende demissão de professores que não
sabem ensinar. Disponível em: . Acesso em: 3 fev. 2009. 1. Pautado em quais argumentos
Hanushek (educador e economista da Universidade de Stanford) defende a demissão de
maus professores?
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sociologia.indd 57 26/01/2012 18:10:51 58 SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO 2. Para o
educador e economista, os diplomas conquistados pelo professor suplantariam todas as
deficiências da formação?
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3. Segundo as ideias do autor, quem pode ser considerado um bom professor?
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4. Diante do assunto tratado, você concorda que o professor deveria receber uma
certificação sobre o seu desempenho? Você acha que ele, como qualquer outro profissional,
deve ser avaliado periodicamente para testar sua proficiência para exercer o magistério?
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5. Por que, segundo o artigo lido, o aluno de classe desfavorecida é aquele que é mais
penalizado diante de um mau professor?
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Peso: 20 pontos, ou seja, cada questão vale 4 pontos.

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