CURSO: DIREITO
005078VB – ESTÁGIO SUPERVISIONADO EM PRÁTICA
PENAL
PROFESSOR: VIVIANE RIOS MAGALHÃES
TEMA: APELAÇÃO CRIMINAL
Aluno:
Dandara Camila Alves de Oliveira
Teresina
2021
CASO PRÁTICO
Breno, nascido em 07 de junho de 1945, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, falsifica uma
assinatura em uma folha de cheque e a apresenta em loja de eletrodomésticos localizada no bairro de
sua residência, com a intenção de realizar compras no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais). Após a
apresentação do cheque, apesar de a falsificação não ser grosseira e ser apta a enganar, o gerente do
estabelecimento comercial percebe que aquele cheque não fora assinado pelo verdadeiro correntista
do banco, já que o nome que constava do título de crédito era de um grande amigo seu. Descoberta a
fraude, o referido gerente aciona a polícia, e Breno é preso em flagrante antes de obter a vantagem
pretendida.
Com o recebimento dos autos, o Ministério Público opina pela liberdade de Breno e oferece denúncia
pela prática dos crimes do Art. 171, caput, e Art. 297, § 2º, na forma do Art. 69, todos do Código
Penal. Após concessão da liberdade provisória e recebimento da denúncia, houve juntada do laudo
pericial do cheque, constatando a falsidade e a capacidade para iludir terceiros, bem como da Folha
de Antecedentes Criminais, no qual consta uma condenação definitiva pela prática, no ano anterior,
do crime de homicídio culposo na direção de veículo automotor, além de uma ação em curso pela
suposta prática de crime de furto.
Durante a instrução, todos os fatos acima descritos são confirmados pelas testemunhas, não tendo
sido o réu interrogado, já que, apesar de intimado, apresentou problemas de saúde no dia e não pôde
comparecer à audiência. Ainda durante a audiência de instrução e julgamento, após a instrução, as
partes apresentaram suas alegações, sendo consignado pela defesa o inconformismo com a ausência
do réu, já que foi apresentado atestado médico, e, em seguida, o juiz proferiu sentença condenatória
nos termos da denúncia, condenando o agente pela prática dos dois delitos em suas modalidades
consumadas. No momento de fixar a pena-base, aumentou o magistrado a pena do estelionato em 02
meses, destacando que o comportamento de Breno não deixa qualquer dúvida de que agiu com dolo.
Já a pena do uso de documento falso foi aplicada em seu patamar mínimo. Na segunda fase, não
foram reconhecidas atenuantes, mas foi reconhecida a agravante da reincidência, aumentando a pena
de cada um dos delitos em mais 02 meses de reclusão. No terceiro momento, não foram reconhecidas
causas de aumento ou de diminuição. Assim, foi fixada a pena de 01 ano e 04 meses de reclusão e 14
dias-multa, no que tange ao crime de estelionato, e 02 anos e 02 meses de reclusão e 12 dias-multa
para o crime de falsificação de documento equiparado ao público, restando a pena final em 03 anos e
06 meses de reclusão e 26 dias-multa. O regime inicial de cumprimento de pena aplicado pelo
magistrado foi o semiaberto e não houve substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de
direito, tudo fundamentado na reincidência do agente.
Intimado da decisão, o Ministério Público apenas tomou ciência de seu teor, não apresentando
qualquer medida. Já a defesa técnica de Breno foi intimada de seu teor em 06 de dezembro de 2017,
quarta-feira, sendo quinta-feira dia útil em todo o país.
Considerando apenas as informações narradas, na condição de advogado(a) de Breno, redija a peça
jurídica cabível, diferente de habeas corpus e embargos de declaração, apresentando todas as teses
jurídicas pertinentes. A peça deverá ser datada no último dia do prazo para interposição.
EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA VARA
CRIMINAL DA COMARCA DE PORTO ALEGRE/RS
BRENO, já qualificado nos autos, por meio de seu procurador infra-assinado, conforme
procuração anexa, vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência, interpor o presente
RECURSO DE APELAÇÃO, com base no artigo 593, inciso I, do Código de Processo Penal.
Assim, requer seja recebido e processado o recurso, já com as razões inclusas, remetendo-se
os autos ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul.
Nestes termos,
Pede deferimento.
Porto Alegre(RS), 11 de dezembro de 2017.
Advogado
OAB
EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
Apelante: Breno
Apelado: Ministério Público
Processo nº ...
RAZÕES DO RECURSO DE APELAÇÃO EGRÉGIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DO RIO GRANDE
DO SUL COLENDA CÂMARA CRIMINAL
I – DOS FATOS
O réu foi denunciado pelos crimes previstos nos art. 171, caput e 297, §2º, na
forma do art. 69, todos do Código Penal Brasileiro. Durante a audiência de instrução,
foram ouvidas as testemunhas, sendo que o réu não compareceu, porque apresentou
problemas de saúde, não havendo interrogatório. Encerrada a instrução, as partes
apresentaram os respectivos memoriais. O juiz proferiu sentença condenando o réu, nos
termos da denúncia, fixando a pena final em 03 anos e 06 meses de reclusão e 26 dias-
multa, no regime inicial semiaberto, reconhecendo a reincidência do agente. A defesa foi
intimada no dia 06 de dezembro de 2017.
II – DO DIREITO
A) DA PRELIMINAR
A.1) DA NULIDADE
O réu não compareceu à audiência de instrução, porque se encontrava doente,
tendo a defesa, na ocasião, demonstrado o seu inconformismo com a realização da
audiência. Todavia, verifica-se que que todos os atos praticados a partir da audiência de
instrução e julgamento, bem como a sentença, são nulos, tendo em vista que a audiência
foi realizada sem a presença do réu, o qual não pode comparecer justificadamente, tendo
sido inclusive apresentado atestado médico pela defesa. Assim, resta clara a violação ao
princípio da ampla defesa, em seu elemento de autodefesa (direito de presença), estando
configurado também o cerceamento de defesa, já que o réu não foi interrogado, nos
termos do art. 5º, LV, da CF., in verbis
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,
nos termos seguintes:
LV - aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e
aos acusados em geral são assegurados o contraditório e
ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes;
B) DO MÉRITO
B.1) DO PRINCÍPIO DA CONSUNÇÃO
O réu foi condenado pela prática dos crimes do artigo 171, “caput”, e art. 297, §
2º, na forma do artigo 69, todos do Código Penal. Todavia, a falsificação do cheque foi
apenas um meio para a prática do crime de estelionato, não sendo possível, por isso, o
réu ser condenado pela prática de dois crimes autônomos, pois o delito de falsificação de
documento previsto no art. 297, §2º do Código Penal deve ser absorvido pelo delito de
estelionato, previsto no art. 171, caput, do Código Penal. Trata-se da aplicação do
princípio da consunção. Neste mesmo sentido, é o que prevê expressamente o Enunciado
17 da Súmula de Jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Ou seja, quando um
delito é praticado apenas como meio para a prática de outro crime, o primeiro deve ser
absorvido por este, em respeito ao princípio da consunção, o qual é um dos princípios
que soluciona o conflito aparente de normas. Assim, em tendo o delito de falsificação
apenas ocorrido como um crime meio para a prática do estelionato, o potencial lesivo do
crime foi exaurido, não devendo o réu responder pela prática de dois crimes autônomos.
Segue Súmula:
SÚMULA 17, STJ
Quando o falso se exaure no estelionato, sem mais
potencialidade lesiva, é por este absorvido.
B.2) DA SUBSIDIARIEDADE
a) DA PENA-BASE NO MÍNIMO LEGAL
Após fixar a pena-base do delito, o magistrado de 1º grau entendeu por aumentá-
la de acordo com as circunstâncias do art. 59 do Código Penal, com o fundamento de que
o réu teria agido com dolo. Todavia, o delito de estelionato somente é punido em razão
de comportamento doloso, não havendo previsão de punição em caso de conduta culposa,
sendo que o elemento subjetivo dolo já é inerente ao tipo, não podendo ser aumentada a
pena sob esse fundamento. Assim, a pena-base deve ser reduzida ao mínimo legal.
b) DA ATENUANTE
O réu, na data da sentença, era maior de 70 anos, pois nasceu em 1945, e a
sentença foi proferida em 2017, devendo ser aplicada a atenuante da senilidade, nos
termos do art. 65, inciso I, do Código Penal, in verbis
Art. 65 - São circunstâncias que sempre atenuam a
pena: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)
I - ser o agente menor de 21 (vinte e um), na data do
fato, ou maior de 70 (setenta) anos, na data da sentença
c) DA TENTATIVA
O réu foi condenado pela prática do crime de estelionato consumado. Todavia, ao
tentar realizar as compras que seriam pagas mediante apresentação de cheque de
terceiro falsificado, foi descoberto pelo gerente do estabelecimento, o qual acionou a
polícia, que prendeu o réu em flagrante, tendo sido impedida a consumação do delito.
Neste caso, em sendo o delito de estelionato de natureza material, e, não tendo ocorrido
a obtenção da vantagem ilícita, deve ser reconhecida a tentativa. Não havendo
consumação do delito por motivo alheio à vontade do agente, pugna-se pela aplicação do
art. 14, inciso II do CP, com a consequente diminuição da pena aplicada.
d) DA SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE
O Magistrado não substituiu a pena privativa de liberdade por restritiva de
direitos. Todavia, a condenação anterior do agente pelo crime de homicídio culposo não
impede a substituição da pena privativa de liberdade pela pena restritiva de direitos, pois
o art. 44, inciso II, do Código Penal apenas veda a substituição para o condenado
reincidente em crime doloso, o que não se aplica no presente caso. Na presente situação,
a pena aplicada anteriormente foi inferior a 04 anos e o agente foi condenado por crime
culposo, sendo possível, portanto, a substituição.
e) DA SUSPENSÃO CONDICIONAL DA PENA
Em não sendo acolhido o pedido de substituição da pena privativa de liberdade
por restritiva de direitos, pugna-se pela suspensão condicional da pena, nos termos do
art. 77, §2º do Código Penal, tendo em vista que a pena aplicada, caso mantida, foi inferior
a 04 anos, e o réu é maior de 70 anos. Logo, aplicável o sursis etário.
III – DOS PEDIDOS
Ante o exposto, requer seja conhecido e provido o presente recurso de apelação, a fim de
que:
a) Seja reconhecida a preliminar de nulidade da sentença, tendo em vista a ausência do
réu em audiência e a não realização de interrogatório;
b) Seja afastado o delito autônomo de falsificação de documento, com a consequente
absolvição, com base no artigo 386, III, do Código de Processo Penal;
c) Seja aplicada a pena base no mínimo legal, pois o dolo é inerente ao tipo penal do
estelionato;
d) Seja reconhecida a atenuante pelo fato do réu ser maior de 70 anos na data da sentença;
e) Seja reconhecida a causa de diminuição de pena pela tentativa;
f) Seja substituída a pena privativa de liberdade pela restritiva de direitos, pois a
condenação anterior era por crime culposo;
g) Subsidiariamente, requer a aplicação da suspensão condicional da pena.
Nestes termos,
Pede deferimento.
Porto Alegre, 11 de dezembro de 2017
Advogado
OAB Nº