Pastagem consorciada de Brachiaria decumbens com Stylosanthes guianensis 413
Disponibilidade, composição bromatológica e consumo de matéria
seca em pastagem consorciada de Brachiaria decumbens
com Stylosanthes guianensis
Luiz Januário Magalhães Aroeira(1), Domingos Sávio Campos Paciullo(1), Fernando César Ferraz Lopes(1),
Mirton José Frota Morenz(1), Eloísa Simões Saliba(2), Janaína Januário da Silva(2) e Carlos Ducatti(3)
(1)Embrapa Gado de Leite, Rua Eugênio do Nascimento, no 610, Dom Bosco, CEP 36038-330 Juiz de Fora, MG. E-mail:
[email protected],
[email protected], [email protected], [email protected] (2)Universidade Federal de Minas Gerais, Av. Antônio Carlos,
no 6.627, Campus Pampulha, CEP 31270-901 Belo Horizonte, MG. E-mail: [email protected], [email protected] (3)Universidade Estadual
Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Fac. de Medicina Veterinária e Zootecnia, Caixa Postal 560, CEP 18618-000 Botucatu, SP. E-mail:
[email protected]
Resumo – O objetivo deste trabalho foi avaliar a disponibilidade de forragem, a composição bromatológica, o
consumo de matéria seca e a proporção de gramínea e leguminosa na dieta de vacas mestiças Holandês x Zebu,
em pastagem consorciada de Brachiaria decumbens cv. Basilisk, Stylosanthes guianensis var. vulgaris
cv. Mineirão e leguminosas arbóreas. Para estimativa da produção fecal, foram usados 10 g vaca-1 dia-1 de óxido
crômico, durante dez dias. Amostras de extrusa foram usadas para determinação da composição bromatológica
e digestibilidade in vitro da matéria seca. A disponibilidade de matéria seca de forragem de B. decumbens variou
com as condições climáticas, enquanto a de S. guianensis decresceu linearmente ao longo do período experimen-
tal. O consumo de matéria seca foi maior em maio de 2001 (1,9% do peso do animal vivo) e não diferiu entre os
demais meses (1,5% do peso do animal vivo). Os baixos índices de consumo de matéria seca refletiram altos
teores de fibra em detergente neutro (70,2% a 79,4%) e baixos coeficientes de digestibilidade in vitro de matéria
seca (42,1% a 48,0%) da forragem. O consumo de leguminosa variou entre 8,7% e 24,1% do total ingerido.
O consumo de matéria seca esteve diretamente relacionado à porcentagem de leguminosa na pastagem, o que
evidencia o potencial de uso de pastagens consorciadas para vacas leiteiras.
Termos para indexação: Brachiaria decumbens, Stylosanthes guianensis, ingestão de forragem, leguminosa
forrageira, valor nutritivo.
Herbage availability, chemical composition and dry matter intake in mixed
pasture of Brachiaria decumbens with Stylosanthes guianensis
Abstract – The objective of this work was to evaluate the herbage availability, nutritive value, dry matter intake
and grass and legume percentage in diet of crossbred Holstein-Zebu cows, in pasture with Brachiaria decumbens
cv. Basilisk, Stylosanthes guianensis var. vulgaris cv. Mineirão and tree legumes. To estimate the fecal output,
it was used 10 g cow-1 day-1 of chromium oxide during ten consecutive days. Extrusa samples were used to
determine the chemical composition and in vitro dry matter digestibility. B. decumbens availability varied with
climatic conditions, while S. guianensis availability decreased linearly along the experimental period. Dry matter
intake was higher in May/2001 (1.9% body weight) and did not differ among other months (1.5% body weight).
Low dry matter intake values were related to low in vitro dry matter digestibility coefficients (42.1% to 48.0%) and
high neutral detergent fiber content (70.2% to 79.4%). Dry matter intake was directly related to legume percentage
in the pasture. This observation could indicate the potential of mixed pasture for improving nutritive value in
dairy cattle diet.
Index terms: Brachiaria decumbens, Stylosanthes guianensis, forage intake, forage legume, nutritive value.
Introdução gens no País são constituídas por capins do gênero
Brachiaria, e que a B. decumbens ocupa mais de 50%
A pecuária brasileira, especialmente no Brasil cen- do total formado por essas gramíneas (Boddey et al.,
tral, tem como base o sistema de produção extensivo, 2004). Grande parte das pastagens de braquiária culti-
com uso de pastagens exclusivas de gramíneas. Esti- vadas em diferentes regiões do Brasil, tem mostrado
mativas admitem que 80% a 90% das áreas de pasta- sinais de degradação em poucos anos de uso. A falta de
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414 L.J.M. Aroeira et al.
persistência dessas gramíneas pode ser atribuída à for- dem estar relacionados com a baixa palatabilidade da
ma extrativista de sua exploração, bem como a proble- leguminosa, sua pequena participação na composição
mas de adaptação, ao manejo inadequado das diferen- botânica do pasto e ao consumo variável de leguminosa
tes espécies, à redução da fertilidade do solo, à suscep- ao longo das estações do ano (Pereira et al., 1992).
tibilidade a pragas e à falta de adubação de reposição O objetivo deste trabalho foi avaliar a disponibilidade
(Rodrigues, 1996). e o consumo de matéria seca, a composição
As pastagens consorciadas de gramíneas e bromatológica e a proporção de gramínea e leguminosa
leguminosas forrageiras constituem boa opção, de bai- na dieta de vacas mestiças Holandês x Zebu, em pasta-
xo custo, para atenuar o problema da degradação das gem consorciada de Brachiaria decumbens cv. Basilisk,
pastagens. O uso de leguminosas forrageiras com ca- Stylosanthes guianensis var. vulgaris cv. Mineirão e
pacidade de fixação de N atmosférico por meio da leguminosas arbóreas.
simbiose com Rhizobium melhora a qualidade da liteira
da pastagem, podendo fornecer grandes quantidades de Material e Métodos
N ao sistema solo-planta-animal (Giller & Cadisch, 1995;
Cantarutti et al., 2002). A contribuição pode ser feita O experimento foi realizado na Embrapa Gado de
pela transferência do N fixado para a gramínea, o que Leite, em Coronel Pacheco, MG, durante o período de
aumenta a capacidade de suporte da pastagem e pro- janeiro de 2001 a novembro de 2002. O sistema
longa sua capacidade produtiva (Cantarutti et al., 2002). silvipastoril (SSP) foi estabelecido num Latossolo Ver-
Além disso, o N fixado pela leguminosa pode melhorar melho-Amarelo distrófico, em área de topografia mon-
a qualidade da dieta (Costa, 1995) e aumentar a produ- tanhosa, com declividade de aproximadamente
ção animal (Euclides, et al., 1998). Outra vantagem das 30 cm m-1. A precipitação média mensal é de 60 mm e
leguminosas é a menor variação estacional no seu valor temperatura média de 17ºC, de abril a setembro, e de
nutritivo, em comparação com as gramíneas forrageiras 230 mm e 24ºC, de outubro a março. As leguminosas
(Jingura et al., 2001). arbóreas Acacia mangium, Acacia angustissima, Mi-
O fracasso na adoção e utilização de pastagens con- mosa artemisiana e o Eucaliptus grandis foram plan-
sorciadas, em geral, é atribuído à baixa persistência das tadas em faixas de 10 m, intercaladas com faixas de
leguminosas nas pastagens, o que está associado à falta 30 m, plantadas com Brachiaria decumbens e
de técnicas de manejo específicas ou eficientes para Stylosanthes guianensis.
essas pastagens, e à adubação inadequada. Embora o Antes do plantio, em novembro de 1997, aplicaram-
cultivo de leguminosas forrageiras seja considerado se 1.000 kg ha-1 de calcário dolomítico, 600 kg ha-1 de
desgastado pelos insucessos observados no passado, sua fosfato de Araxá, 25 kg ha-1 de superfosfato simples,
adoção torna-se cada dia mais importante e factível, 100 kg ha-1 de cloreto de potássio e 30 kg ha-1 de
graças às novas práticas de cultura e de manejo, asso- FTE BR-16. As densidades de semeadura foram 10 e
ciadas a novas cultivares geradas pela pesquisa 1 kg ha-1 de B. decumbens e S. guianensis, respecti-
(Barcellos et al., 2003). vamente.
O principal fator nutricional que controla a produção As avaliações de disponibilidade e consumo de MS
é a quantidade de alimento oferecido em excesso, que o foram realizadas em três piquetes com área de 0,5 ha.
animal é capaz de ingerir diariamente. Em geral, o bai- Foi usado o delineamento experimental em blocos
xo consumo tem sido observado em animais mantidos casualizados, com repetições constituídas por piquetes
em pastagens de Brachiaria spp., estando tal fato rela- (três repetições) nas avaliações de disponibilidade, com-
cionado, geralmente, aos baixos teores de proteína da posição química e digestibilidade da forragem ou pelos
forragem, entre outros fatores (Lascano & Euclides, animais, no caso das avaliações de consumo.
1996). Os tratamentos experimentais foram de janeiro de 2001
O uso de pastagens consorciadas de gramíneas e a novembro de 2002.
leguminosas pode aumentar a proteína da dieta, o con- As avaliações de disponibilidade de matéria seca (MS)
sumo de matéria seca e o desempenho do animal. e de composição botânica foram realizadas durante os
A literatura registra, no entanto, alguns resultados meses de janeiro, março, maio, outubro e dezembro de
insatisfatórios para o consumo e ganho de peso de ani- 2001 e janeiro, maio, julho e novembro de 2002.
mais, em pastagens consorciadas. Esses resultados po- As amostras foram obtidas com auxílio de uma moldura
Pesq. agropec. bras., Brasília, v.40, n.4, p.413-418, abr. 2005
Pastagem consorciada de Brachiaria decumbens com Stylosanthes guianensis 415
quadrada de 0,5 m de lado, lançada vinte vezes, ao aca- denominados C3 e C4. Nas estimativas de consumo, a
so, em cada piquete. A forragem contida em cada mol- análise da abundância isotópica de δ13C, nas fezes, per-
dura foi cortada a 5 cm do nível do solo e levada ao mite a identificação do carbono derivado das plantas
laboratório, onde foi separada, manualmente, em C3 e C4.
B. decumbens, S. guianensis e material morto. De cada Os dados obtidos foram submetidos à análise de
espécie, foi retirada uma subamostra para separação variância, e as médias foram comparadas pelo teste de
das frações lâmina foliar e bainha foliar + colmo. Cada Tukey a 5% de probabilidade.
componente foi pesado e secado em estufa a 65ºC, até
peso constante, para determinação da MS. Resultados e Discussão
As extrusas para determinação da composição
bromatológica e digestibilidade foram coletadas de uma Os rendimentos de MS de B. decumbens variaram
vaca fistulada no esôfago, que permaneceu durante os com o período de avaliação, tendo sido maiores durante
dez dias de cada avaliação na área experimental. os meses de precipitações e temperaturas mais altas
As coletas foram realizadas pela manhã, durante os úl- (janeiro a maio e novembro e dezembro), que decresce-
timos seis dias de cada período de pastejo, de modo a ram, acentuadamente, durante os meses de outubro de
totalizar seis amostras durante cada período. As amostras 2001 e julho de 2002, período seco na Região Sudeste
foram analisadas quanto aos teores de proteína bruta do país (Figura 1). Nessa época, o problema de defici-
(PB), de acordo com Queiroz & Silva (2002); fibra em ência de forragem, para os animais em pastejo, foi solu-
detergente neutro (FDN) e fibra em detergente ácido cionado com uso de suplementação volumosa
(FDA), segundo Soest et al. (1991); e digestibilidade in (292 kg ha-1, em outubro de 2001, e 769 kg ha-1, em ju-
vitro da matéria seca (DIVMS), conforme com Tilley lho de 2002).
& Terry (1963). Durante o ano de 2001, a porcentagem de leguminosa
As estimativas de consumo foram realizadas durante na pastagem permaneceu constante durante os meses
os meses de janeiro, maio e dezembro de 2001 e janeiro, de janeiro a maio (26% a 29%), alcançou o maior valor
maio e novembro de 2002. Os piquetes foram maneja- (56%) durante o final do período seco (outubro) e dimi-
dos com vacas mestiças Holandês x Zebu, secas, du- nuiu com o início da época das chuvas (dezembro).
rante dez dias em cada época. O intervalo de desfolha Em 2002, a participação de S. guianensis na MS total
foi de 40 dias, período em que os piquetes permanece- de forragem seguiu o mesmo comportamento observa-
ram sem animais. O ajuste do número de animais, por do em 2001. Entretanto, o aumento da porcentagem de
piquete, durante os períodos de pastejo, foi feito de acordo estilosantes durante a seca (julho) foi menos acentuado
com a disponibilidade de forragem estimada antes do do que em 2002 (Figura 1). A variação na porcentagem
de leguminosa ao longo do período experimental esteve
início do período de avaliação, a fim de que ofertas de
condicionada, principalmente, à MS de B. decumbens
forragem com variação de 7% a 9% do peso vivo não
nos diferentes meses do ano e, em julho de 2002, obser-
limitassem o consumo de MS. Para isso, foram coloca-
vou-se queda menor na MS de B. decumbens do que
dos dois animais piquete-1 durante a avaliação de maio em outubro de 2001.
de 2001, e de três animais piquete-1 durante os demais
períodos avaliados.
As estimativas de consumo total de MS, para o cál- 2.000 60
Matéria seca (kg ha-1)
S . g u ia n e n s is ( % )
50
culo da produção fecal, foram feitas com auxílio do óxi- 1.500
40
do crômico. Foram fornecidas 10 g diárias de óxido
1.000 30
crômico, em uma aplicação pela manhã, durante dez
20
dias consecutivos. O consumo total de MS foi estimado 500
10
a partir da fórmula: 0 0
Consumo de MS = produção fecal x 100/(100 - DIVMS). Jan./01 Mar./01 Maio/01 Out./01 Dez./01 Jan./02 Maio/02 Jul./02 Nov./02
Para conhecer as proporções de gramínea (C4) e Mês/ano
leguminosas (C3) na dieta total dos animais, foi aplicada Figura 1. Rendimento de matéria seca de Brachiaria decumbens
a técnica de absorção do carbono (Ludlow et al., 1976), ( ) e porcentagem de Stylosanthes guianensis ( ), na pasta-
que se baseia na diferença entre os ciclos fotossintéticos gem, de acordo com o mês do ano.
Pesq. agropec. bras., Brasília, v.40, n.4, p.413-418, abr. 2005
416 L.J.M. Aroeira et al.
O decréscimo linear da MS de S. guianensis, ao lon- dezembro de 2001 e de FDN em janeiro de 2001 e 2002,
go do período experimental, resultou em menor valor e o menor teor de FDA em maio de 2001.
médio de porcentagem de leguminosa na pastagem em A DIVMS variou de 42,1% a 48,0%, dependendo do
2002 (17,5%), em relação a 2001 (31,2%). mês (Tabela 1). Estes dados são considerados baixos,
Hou ve queda de 19,7 kg ha-1 de MS por mês de avali- quando comparados aos valores citados por Valle et al.
ação (Figura 2). Nessa equação de regressão, X repre- (2001), de 50% a 60%. Os baixos valores encontrados
senta o mês de avaliação, em variação de são atribuídos aos elevados teores de FDN e FDA da
1 (janeiro de 2001) a 23 (novembro de 2002) e Y repre- extrusa.
senta a MS de S. guianensis. O consumo total de MS foi máximo em maio de 2001
O decréscimo na porcentagem de leguminosa, na e não variou nos demais meses de avaliação (Tabela 2).
consorciação, pode ser atribuído à competição por água, O maior consumo de leguminosa foi também observado
luz e nutrientes, em geral, e entre plantas das diferentes em maio de 2001, e o de gramínea, em novembro de
espécies. B. decumbens, por ser uma planta de maior 2002. Além de os menores teores de FDN e FDA do
eficiência fotossintética (ciclo C4) em condições tropi- pasto, em maio de 2001, favorecerem o consumo, a maior
cais e de melhor adaptação às condições de solo de participação da leguminosa na dieta, nesse mês, pode
baixa fertilidade e topografia declivosa, foi mais compe- ter contribuído para a maior ingestão total de matéria
titiva do que a leguminosa (ciclo C3). Corroboram essa seca. Os níveis de consumo estimados nesse estudo
hipótese os dados de Paciullo et al. (2003), que encon- foram baixos, embora na literatura existam relatos de
traram taxas médias de acúmulo de MS, durante a pri- consumos de Brachiaria spp., com variação de 1,3% a
mavera, de 4,0 kg ha dia-1 para a S. guianensis e de 2,6% (Euclides et al., 2000). Os consumos de forragem
25,0 kg ha dia-1 para a B. decumbens. A baixa persis- ora relatados podem ter sido limitados pelos altos teores
tência de leguminosas consorciadas com gramíneas é
freqüentemente relatada na literatura. Seiffert & Zimmer
(1988) e Euclides et al. (1998) observaram reduções na Tabela 1. Teores de proteína bruta (PB), fibra em detergente
porcentagem de leguminosas, quando consorciadas com neutro (FDN), fibra em detergente ácido (FDA) e
B. decumbens de 30% para 6% e de 15% para 6%, digestibilidade in vitro da matéria seca (DIVMS) da extrusa,
de acordo com o mês do ano(1).
respectivamente, após três anos de pastejo.
Mês/ano PB FDN FDA DIVMS
Os dados de composição química da extrusa mostra- (g kg-1) (g kg-1) (g kg-1) (%)
ram variação para todos os componentes, em relação Janeiro/2001 77b 762ab 439a 42,1b
Maio/2001 84b 702c 353b 47,3a
aos períodos de avaliação, apesar dessa variação ter Dezembro/2001 105a 712c 453a 45,8a
sido de pequena magnitude (Tabela 1). Não foi obser- Janeiro/2002 79b 794a 465a 46,5a
Maio/2002 86b 745b 427a 46,4a
vada tendência consistente dos dados ao longo dos me- Novembro/2002 80b 739b 413a 48,0a
ses, mas destacaram-se os maiores teores de PB em (1)Médias seguidas pela mesma letra, na coluna, não diferem entre si
pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
700 Y = 622,4 - 19,75*x
Matéria seca (kg ha-1)
2
600 R = 0,81
500
Tabela 2. Consumo total de matéria seca e consumo diferenci-
400
ado de gramínea e leguminosa, de acordo com o mês do ano(1).
300 Mês/ano Consumo total Consumo diferenciado (% do total)
200 (MS % PV) Gramínea Leguminosa
100 Janeiro/2001 1,50b 82,6b 17,4b
Maio/2001 1,91a 75,9c 24,1a
0
Dezembro/2001 1,56b 86,5b 13,5b
Jan./01 Mar./01 Maio/01 Out./01 Dez./01 Jan./02 Maio/02 Jul./02 Nov./02 Janeiro/2002 1,59b 84,5b 15,5b
Mês/ano Maio/2002 1,64b 83,1b 16,9b
Novembro/2002 1,57b 91,3a 8,7c
Figura 2. Rendimento de matéria seca de Stylosanthes (1)Médias seguidas pela mesma letra, na coluna, não diferem entre si
guianensis, durante o período experimental. pelo teste de Tukey a 5% de probabilidade.
Pesq. agropec. bras., Brasília, v.40, n.4, p.413-418, abr. 2005
Pastagem consorciada de Brachiaria decumbens com Stylosanthes guianensis 417
de FDN e baixos valores de DIVMS do pasto. Valores ram que a contribuição da leguminosa na dieta de ani-
de FDN acima de 55%–60% correlacionam-se negati- mais resultou em melhor desempenho de bovinos em
vamente com o consumo de forragem (Mertens, 1987). pastagem consorciada, relativamente àqueles mantidos
Considerando-se que os teores de FDN observados fo- em pastagem exclusiva de gramínea, mesmo quando a
porcentagem de leguminosa na pastagem foi baixa.
ram sempre acima do valor crítico sugerido por Mertens
(1987), admite-se que o consumo de forragem tenha
Conclusões
sido limitado principalmente pelo enchimento ruminal,
fenômeno normalmente observado para forrageiras tro- 1. A disponibilidade de forragem de B. decumbens é
picais. maior nos meses de novembro a maio, em relação ao
A técnica da avaliação da proporção isotópica do 13C meses de junho a outubro, enquanto a disponibilidade de
nas fezes é usada para estimativa da proporção de es- S. guianensis decresce linearmente ao longo do tem-
po.
pécies de ciclo fotossintético C3 e C4, presentes na die-
2. A composição químico-bromatológica e a
ta de bovinos. Não foi possível distinguir entre espécies digestibilidade in vitro da matéria seca da dieta selecio-
de mesmo ciclo fotossintético. O consumo de leguminosa nada por vacas em pastagem consorciada variam pou-
foi, em sua maior parte, constituído pelo S. guianensis, co e de forma inconsistente ao longo do ano.
embora tenha sido observado, visualmente, em todos os 3. S. guianensis participa da dieta de vacas mestiças
períodos de avaliação, ramoneio das leguminosas ao longo de todo o ano e o maior consumo é observado
arbóreas A. mangium e M. artemisiana pelos animais. no início da época seca.
A quantidade de leguminosa é importante para 4. Maior porcentagem de S. guianensis, na pasta-
gem, contribui para aumentar o consumo de forragem.
condicionar sua ingestão pelos animais e influenciar o
consumo total de forragem. Assim, os maiores consu-
Referências
mos totais de MS foram observados quando as porcen-
tagens de leguminosa nas dietas foram máximas BARCELOS, A.O.; VILELA, L.; MARTHA JÚNIOR, G.B.
(Figura 3). Lascano (1983) observou que a ingestão de Utilização de banco de proteína como alternativa para a
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forragem por novilhos, em pastagem consorciada de
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seco do ano, foi maior (1,9% do peso vivo) do que aque- BASES SUSTENTÁVEIS, 5., 2003, Juiz de Fora. Anais. Juiz de
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30 2,0
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Recebido em 2 de março de 2004 e aprovado em 6 de dezembro de 2004
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