JUVENTUDES RURAIS, SOCIABILIDADES E INTERCULTURALIDADES:
os festejos religiosos como palco de variadas linguagens.
Valéria Silva1
RESUMO:
Pesquisa atualmente desenvolvida em Sebastião Leal-PI2, fronteira agrícola da monocultura
da soja, tendo como sujeitos os jovens da localidade rural Roça Nova, região tradicionalmente
assentada nas práticas da agricultura familiar. A categoria juventudes rurais é entendida como
realidade que toma corpo no interior das materialidades experimentadas e das simbologias em
trânsito, as quais os sujeitos constroem, experimentam, abandonam e retomam no cotidiano, a
partir de releituras várias. Toma-se neste trabalho para análise os festejos religiosos, eventos
de profusão de sentidos, que mobilizam a atenção dos jovens e demais. Os depoimentos, a
observação e a fotografia demonstraram que, para além do aspecto sagrado, os festejos
consolidam momentos de profunda complexidade social, ocupando determinado lugar na
cultura e nas sociabilidades local e regional. Por meio da etnografia percebeu-se que o festejo
sintetiza um lugar de encontro, de lazer, de fé, de rompimento com o isolamento reclamado
pelos jovens, de atualização da vida na região. Nesse processo, as linguagens juvenis em
trânsito se mostram como recursos imbricados e co-produtores de sociabilidades no ambiente
interculturalmente estabelecido.
PALAVRAS-CHAVE: Juventudes Rurais. Sociabilidades. Festejos. Interculturalidades.
As juventudes rurais e as sociabilidades em trânsito.
À primeira vista mostra-se como realidade comum aos segmentos ditos urbanos
tomar as juventudes que vivem no meio rural como sendo aqueles segmentos juvenis
definidos a partir de sua vinculação à terra, partilhando de sistemáticas tradicionais de
trabalho, tendo observância à disciplina familiar, guardando o respeito aos mais velhos. Essas
juventudes traduziriam um certo “atraso” quando comparadas aos jovens da cidade, tendo
como lugar mais comum de suas expectativas na realização o casamento, o qual passaria a
desenrolar-se em meio a uma proposta simples de vida, material e simbolicamente falando,
reproduzindo, assim, o sistema de vida dos seus antepassados. Na visão dicotômica – e ainda
hegemônica –, diferentemente dos “urbanos”, os “rurais” ainda viveriam um certo isolamento,
1
Doutora em Sociologia Política-UFSC. Professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e
Arqueologia da Universidade Federal do Piauí-UFPI. [email protected]
2
Investigação desenvolvida com o apoio do PROCAD/CAPES; UFPI-UFRRJ.
padecendo de restrito acesso à educação, ao lazer, ao consumo e outros aspectos que
caracterizariam a experiência juvenil nas cidades.
Entretanto, um olhar mais acurado sobre as condições em que vivem os jovens
rurais da atualidade informa sobre uma situação bem mais complexa do que a citada acima,
explicitando-se para além da marcante dicotomia a que me referi. Os estudos demonstram que
a condição do jovem rural brasileiro aparece, sim, marcada por várias circunstâncias
históricas que têm caracterizado o meio rural no Brasil e no Nordeste, mas também
profundamente imbricada a uma série de peculiaridades experienciadas pelos jovens da cidade
(CASTRO, 2010; SALES, 2006). Esse fenômeno tem se tornado possível em face da entrada
no campo dos códigos e modos de vida urbanos, os quais aportam nas realidades rurais por
meio das novidades verificadas no campo da telemática, do transporte, da escola, das estradas
etc.
Por esses e outros mecanismos, o chamado mundo rural, ora distante da imagem
de isolamento e tradição, encontra-se atravessado no seu cotidiano por aspectos de natureza
cultural, social, política, econômica, ambiental etc, etc., que, atuando articuladamente, em
muito provocam de mudança em contextos antes apartados das cidades. Além das trocas
territoriais, fenômenos como os processos produtivos, as relações de trabalho (CARNEIRO,
1999), as relações afetivas, as experiências de lazer, possibilidades comunicativas, aspectos
estéticos adotados etc. têm povoado com força os dois ambientes despudoradamente e, repito,
implicando em certa dificuldade de leitura acerca do observado na contemporaneidade como
sendo de natureza só rural ou exclusivamente urbana.
Quanto às realidades urbanas, essas não passam incólumes dos processos
instalados, posto que se mostram de mão dupla. O gosto dos novos rurais pelo campo, o
surgimento da produção orgânica, a música sertaneja, o redescobrimento do rural como lugar
que pode oferecer qualidade de vida ante o caos urbano etc (CARNEIRO,
http://www.uff.br/obsjovem/mambo/index.php?option=com_docman&task=doc_view&gid=11) têm
levado muitos a re-povoar o campo, a partir de leituras novas que fazem desse ambiente. Tal
fato traz cada vez mais para a cena urbana traços culturais antes próprios da vida junto aos
processos, paisagens e calendários da natureza.
Desse ponto de vista, as realidades têm obrigado novas interpretações, exercícios
que incorporem os trânsitos e impermanências que se dão no espaço de cada território e nas
vidas dos segmentos sociais. Compreender as juventudes rurais como sujeitos ativos desse
ambiente, portanto, implica na tarefa de situá-las nos contextos novos das ruralidades, onde o
que é urbano e o que é rural escorregam entre os cenários, desenhando várias possibilidades
de configuração de ruralidades e urbanidades. Com isso não quero dizer que inexistam
diferenças entre os segmentos juvenis que habitam as cidades e aqueles que habitam o campo,
mas indicar que portadores de uma experiência cultural vinculada ao campo, os jovens rurais,
na atualidade, também se relacionam em intensidade com a cosmovisão urbana, tanto local,
como nacional e internacional. Deste lugar, experimentam simultaneamente as tensões e
ansiedades cotidianas trazidas pela televisão, pelo rádio, pela internet. Relacionam-se com a
realidade da educação como requisito indispensável para a formação profissional da mesma
maneira que os jovens urbanos. Possuem demandas em relação a emprego, estudo, cultura,
lazer (CARNEIRO, 2005), esporte e consumo similares aos demais jovens, enquanto ainda
vivenciam seus territórios e relações familiares e de vizinhança, em parte, assentadas nos
costumes que orientaram a vida dos seus país e avós. Vivem, por fim, a complexidade
expostos às mudanças desse tempo que atravessam a existência humana nos diversos pontos
do globo. É dessa referência que os festejos surgiram como lugar relevante de análise, posto
que consolidam uma forte carga simbólica para aqueles que dele participam, mas não sem
evidenciar as profundas alterações porque também passa.
Os depoimentos juvenis trazem como ponto importante a reclamação da
inexistência de fatos “novos”, de alternativas de lazer na localidade. Na representação juvenil,
Roça Nova é identificada com um lugar “parado”; “sossegado demais”; onde “não acontece
nada”. Para os locais, a escassez de alternativas de lazer e outras atividades que ocupem
produtiva e prazerosamente o tempo livre da juventude e os coloquem em relação com outros
jovens são apontadas como responsáveis pelos casamentos precoces, especialmente dos
meninos.
De todo modo, os jovens3 apontam como locais onde se encontram com os demais
a Praça João Veloso, na cidade e também os barzinhos da localidade, onde os meninos bebem
cerveja e jogam sinuca e, ocasionalmente, vão ao banho Barra do Brejo, em Bertolínia. A
maioria participa das festas de clube comuns próximos a Roça Nova, onde se dança o forró
eletrônico, o forró romântico, reggae e funk. Pouca expressão tem o tecno e outros estilos
musicais, como os tradicionais forró pé-de-serra e baião, outrora de presença forte nos bailes
3
Devo destacar que na localidade existem dois irmãos - uma jovem e um jovem - evangélicos, os quais
costumam escutar música “de louvação” (gospel). Reconhecendo as diferenças, assim se expressa a menina: “Eu
entendo, porque eu já fui assim, mas eu não curto isso aí, essa coisa de beber, das festas daqui. Eu curto música
de louvação, as atividades da minha Igreja...” (Safira). Pude perceber que esses jovens, naquilo que dizem e do
modo como dizem, se diferenciam dos demais. A racionalidade orienta todo o discurso, por sua vez,
profundamente influenciado pelo ethos evangélico. A responsabilidade, o planejamento, a análise de
possibilidades, o convencimento do controle sobre os desdobramentos da vida povoam as falas, colocando-os na
plena condição de sujeito de sua narrativa.
rurais do Nordeste. A música preferida é especialmente o forró eletrônico, a música sertaneja,
a “internacional” – baladas românticas - e o “balanço” que esteja pontuando nas rádios. Isto é,
geralmente a música pop americana, impulsionada pela mídia. Os cantores e cantoras
preferidas da maioria das meninas são a dupla Victor&Léo, Akon, Lady Ga Ga, Beyoncè
além das Bandas Mala 100 Alça e Capricho de Menina, executados principalmente nos
celulares e também em aparelhos de som.
Os jovens da localidade costumam se relacionar com os segmentos juvenis de
outras localidades através dos jogos de futebol, tanto meninos, quanto meninas. Os meninos
de maior idade fazem parte do time local, treinado por Seu Daniel, um senhor da comunidade,
e disputam campeonatos com os times de Sebastião Leal, Bertolínia, Genipapo, Vereda dos
Tinguis e outras comunidades. O campeonato, sofrendo algumas modificações, acontece
todos os anos e envolve grande parte dos rapazes locais. As meninas também jogam, tanto
sozinhas quanto em time misto com os meninos mais novos que os rapazes, mas não têm
campeonato regular, muito menos treinador e/ou treinos sistemáticos. Por vezes organizam
disputas com os times femininos de Bertolínia, Sebastião Leal e do Genipapo, alternando o
local dos jogos entre Roça Nova e essas localidades. O futebol para elas é, assim, um lazer
descompromissado com a disputa regular. Embora com esta característica, os jogos são
marcados por intensas rivalidades. Nas últimas oportunidades, os jogos renderam
desentendimentos com as equipes de Bertolínia e Sebastião Leal. Segundo afirmaram, as
adversárias não aceitaram perder para o time de Roça Nova e as agrediram.
Na última década outro evento tem se apresentado na cena dos finais de semana
juvenis: o churrasco. Para alguns jovens, apenas uma alternativa agradável de convivência nos
grupos sociais familiares e de amizade em geral. Para outros, uma prática estranha à vida e
cultura locais trazida pelos imigrantes da soja. “Esse negócio do churrasco eu só me queixo da
vinda dos gaúchos que até nisso mudou a cultura nossa, que não tinha nada com isso.” (Seu
Vicente). Os estudiosos do assunto também já se deram conta da assunção de aspectos
culturais diversos pelos locais. A reflexão de Alves é construída de modo a endossar o que diz
o agricultor:
Com a instalação desses grupos ocorreram mudanças tanto na dinamização
da infra-estrutura do espaço urbano quanto nos costumes até então estranhos
aos piauienses dos cerrados. A instalação de empresas ligadas diretamente à
produção, mas também de comércio e serviços destinados à demanda dos
novos moradores, permitiu, da mesma maneira, que a população local tivesse
acesso a determinados serviços pouco freqüentes no seu cotidiano:
churrascarias, padarias, pizzarias, etc. possibilitando a incorporação de
novos hábitos. É possível hoje, ao adentrar em qualquer supermercado
desses municípios, encontrar erva mate para o preparo do chimarrão, ou
deparar-se com pizzarias que vendem variedades de pizzas só encontradas
no sul do Brasil, ou ainda, churrascarias com suas carnes preparadas ao
estilo dos novos moradores. (2005, p. 8, grifos meus).
Com o churrasco, outro hábito tem se expandido e arraigado no segmento juvenil,
que é o consumo de cervejas. Nas conversas entre os jovens a expressão “tomar uma gelada”
é muito presente. Para Ana, “[...] os jovens bebem muito e com freqüência. Eles acham que se
tiver isso aí [aponta para a garrafa de cerveja] é lazer, tá bom. Os jovens não têm muito o que
fazer, não. Não têm alternativas, não. Principalmente os homens.” (Ana). A bebida está
presente no cotidiano da juventude, tornando o consumo do álcool bem tolerado por todos,
inclusive pelos mais velhos. Assim, o consumo do álcool é trivializado, naturalizado, tornado
parte indissociável das sociabilidades.
Além do cotidiano da localidade, os encontros nas adjacências –seja em Sebastião
Leal, localidades ou outros municípios próximos – respondem pela tramas das relações
partilhadas pelos jovens. Os bares, sinucas, igrejas, lanchonete, festas, escolas, lan house,
churrasco, banho nos riachos, futebol, passeatas eleitorais e festejos são espaços onde
constroem a vida social e onde se constroem e reconstroem a si próprios, utilizando-se das
referências que lhes são apresentadas pelos meios vários. Desses momentos, destaco para
observação mais detalhada os festejos religiosos, vinculados à Igreja Católica que, dada a sua
forte presença material e simbólica para as sociabilidades dos sujeitos.
Os festejos: práticas e discursos traduzindo vivências interculturais.
No Nordeste os festejos religiosos são eventos sempre dedicados a algum santo.
Não obstante, aliada ao cumprimento de uma agenda sagrada, repleta de variadas práticas
devocionais levadas a cabo pelos freqüentadores das paróquias, costuma acontecer também
uma extensa programação profana, contemplando a instalação de feiras, jogos de futebol,
leilões, bingos e festas dançantes. Constituem oportunidade de sociabilidades complexas para
as populações das cidades do interior e de seus povoados, particularmente para os jovens.
Momento de oração, de agradecimento, de renovação de votos religiosos, de reencontro de
parentes, amigos e conhecidos, de comemoração, de compras e vendas, de alguma
dinamização da economia local, de geração de recursos extras para as famílias, de namoros,
de brincadeiras, de festa, de lazer... Todos esses aspectos imbricados constroem um estado
especial de ânimo para as pessoas e a localidade-sede, fazendo com que o festejo angarie
todas as atenções.
Para Roça Nova a situação não é diferente. Ali os festejos aparecem como evento
de relevância, para o qual as pessoas e famílias se planejam anualmente e assim também o
fazem os jovens. No calendário religiosofestivo da região, alguns eventos adquirem maior
relevância que outros, quer pela envergadura dos acontecimentos, quer pela tradição do
evento, vinculação com o local de moradia, existência de parentes no local do festejo,
‘importância’ do santo ou todos esses itens irmanados. Assim orientados, os moradores de
Roça Nova priorizam a participação no seu próprio festejo que ocorre no mês de dezembro,
em menção a Santa Luzia; o festejo de Bertolínia, em agosto, que festeja Nossa Senhora da
Conceição Aparecida e o de Sebastião Leal, em atenção a São João Batista, no mês de junho.
Dos eventos existentes na região o de Bertolínia aparece como de maior
relevância, pela capacidade de mobilização de grande contingente de pessoas. Em Roça Nova,
durante a minha estada, era comum ouvir os comentários sobre a quantidade de pessoas
vindas do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Brasília, de cidades piauienses e de tantos outros
lugares para participar do evento. Definitivamente, durante sua realização, o festejo se tornou
tema quase único das conversas, quebrando a rotina do lugar. Monopolizavam a atenção dos
jovens as pessoas que estariam lá, o bingo de motocicletas e as bandas que se apresentariam.
Outro assunto importante era saber se cada um da localidade iria ou não, quando iria, como
iria e com quem.
Para algumas das meninas a discussão também alcançava outro ponto importante,
inexistente para os meninos: os pais deixariam ou não deixariam que fossem Parte da
ocupação com o assunto do como ir dava-se em função de Bertolínia estar a 18 km de
distância, a estrada encontrar-se em condições extremamente precárias e não existir condução
além do ônibus intermunicipal, com percurso duas vezes por dia, mas em horários
incompatíveis com a participação nas atividades. Assim, o transporte mais comum era a
motocicleta que, carregando sempre duas ou três pessoas, enfrentava a massa densa de poeira
ao cruzar com as carretas de soja, tornando impossível qualquer visibilidade do percurso por
algum tempo e elevando ao pico o nível de risco da empreitada. Percebi que para os jovens a
aventura do festejo iniciava com as conversas em torno do mesmo, passando pelo momento
de partida e encerrando-se com a chegada em casa dia(s) depois.
Acompanhando um fim de tarde, início de noite do festejo pude mapear
minimamente os percursos juvenis no local, ante a programação ocorrida. O festejo estava
organizado em três cenários: a Igreja Católica, seu adro e a praça na qual se localizavam.
Local amplo, disponibilizando inúmeros bancos a quem chegava para participar das novenas e
celebrações típicas da ocasião, bem como do encerramento das procissões. Conforme
informações, a escolha das celebrações no pátio externo se fazia em função da Igreja não
comportar a quantidade de pessoas que freqüentavam as atividades, o que pude constatar ao
longo da noite. Nesse ambiente os destaques eram o andor da santa festejada e o cruzeiro,
local de pagamento de promessas, o qual concentrava pessoas acendendo velas ao seu redor.
No entorno da Igreja estavam carrinhos eou pequenas barracas com vendas de brinquedos,
balões e lanches rápidos, incluindo o hot dog.
Figuras 1 e 2: Festejo: o cruzeiro e o andor de Nossa Senhora. Bertolínia, agosto de 2010. Fotos: Valéria Silva
Figuras 3 e 4: Festejo: as barracas. Bertolínia, agosto de 2010. Fotos: Valéria Silva
O segundo cenário era nas adjacências do mercado público, onde estavam
instaladas as barracas de feirantes vindos de vários locais do Piauí e do Nordeste,
comercializando roupas, sapatos, redes, mantas e tapetes, utensílios de cozinha, plásticos,
pequenos aparelhos eletro-eletrônicos, CDs e DVDs piratas e brinquedos diversos. Na feira
chamava atenção a diversidade de produtos; inclusive vários itens que, certa vez, pude
encontrar à venda nas calçadas da Rua 25 de Março, na cosmopolita São Paulo-SP. Esse fato,
dentre tantos outros, denota o quanto as cidades do interior – e as comunidades rurais - estão
diretamente expostas e relacionadas às práticas de mercado vigentes no país como um todo e
no mundo, uma vez que a China, como sabemos, é a produtora de quase totalidade de bens
descartáveis vendidos no Brasil.
O terceiro ambiente, mais afastado das residências, é o Parque do Nordeste,
construído pela ex-prefeita Ana Paula. Trata-se de uma construção simples, numa área com
piso de cimento de tamanho médio, descoberta, acoplada a um palco destinado à apresentação
de bandas musicais. No entorno, o chão de poaca solta, recém-molhado para evitar a poeira,
sobre o qual estavam enfileiradas as barracas de palha4, contornando todo o Parque. Serviam
refeições, tira-gosto, bolos, espetinhos, bebidas alcoólicas e não-alcoólicas. Carrinhos e
barracas metálicas e de menor tamanho se encontravam distribuídos pela área,
comercializando jogos diversos, brinquedos, pequenas bugigangas e lanches rápidos. Uma
delas vendia adereços diversos para o público jovem, masculino e feminino, como piranhas,
bonés, pulseiras, brincos, capas para celular etc. etc. Neste mesmo local o proprietário
também fazia tatuagens de henna para quem se interessasse. Os motivos disponíveis
novamente me remeteram para um cenário distante de Bertolínia: a concorrida Praia de
Jericoacoara, no Ceará, onde pude ver, noutra ocasião, produto e estampas iguais àquelas
disponíveis ali no festejo. Na ocasião, havia um jovem da cidade que escolheu tatuar no seu
ombro a imagem do ídolo da juventude transnacional: Che Guevara.
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As barracas eram de tamanho grande, considerando-se o padrão das barraquinhas de festejo no Nordeste.
Figura 5: Festejo: tatuagem. Bertolínia, agosto de 2010. Foto: Valéria Silva
Especialmente naquele dia havia um quarto cenário em atividade: a Lanchonete
Larissa, onde naquela tarde ocorrera o bingo de R$ 1.500,00 e duas motocicletas. A atividade
mobilizou uma quantidade considerável de pessoas, as quais lotaram toda a parte externa do
estabelecimento. O bingo confiscou também a atenção de todos, de modo que se tornou o
assunto preferencial de Roça Nova, desde a sua antevéspera. A princípio, os jovens estavam
concentrados na Lanchonete para participar do bingo, porém a posse do cartão, credencial
para concorrer aos prêmios, mostrou-se de pouca importância. Participar do bingo era, além
de jogar, partilhar dos encontros, da animação dos lances do jogo, namorar e, às vezes, beber
e fumar. Era, por fim, estar envolvido no acontecimento que aglutinava a maioria dos
participantes do festejo. Ao fim, jogo encerrado, prêmios distribuídos e ilusões de
contemplação apaziguadas, um turbilhão de motos e carros se deslocou para a Igreja, onde
externamente, na própria praça, seguiria a celebração final do festejo. Na sua maioria, adultos
e idosos acomodavam-se nos bancos e cadeiras instalados no espaço da praça. Grande parte
dos jovens continuava no local, ao redor da multidão, parados em lugares estratégicos ou
ainda transitando de moto ou a pé5 pelo entorno. Ali abordavam pessoas e eram abordados,
festejando os encontros, as presenças esperadas e também aquelas inusitadas. Conversavam,
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Ao observar uma enormidade de veículos transitando em todos os sentidos, o meu condutor, Antônio,
comentou: “Isso aqui não tem isso, não! É parado, não passa um carro!”, referindo-se à quietude prevalecente na
cidade no cotidiano comum, fora dos festejos.
brincavam, identificavam, ao longe, pessoas que há tempos não viam, cortejavam
discretamente o sexo oposto, enquanto os personagens do centro do cenário seguiam com o
ritual religioso. Esse clima permaneceu até que, encerrada a missa, alguns seguiram para casa
a fim de preparar-se para a festa e outros seguiram para o terceiro cenário, o Parque do
Nordeste, para participar da festa animada pela Banda Saia de Renda, momento o qual não
pude acompanhar.
No dia seguinte à festa final, as conversas ocorridas em Roça Nova – entre os
jovens e entre os adultos - assinalavam quem estava no evento, como, com quem e fazendo o
quê. Pude verificar que os encontros, tanto com os conhecidos como com pessoas novas,
significam também, para os jovens, o aumento das possibilidades de relacionamento afetivo,
tanto que muitos deles têm início exatamente nessas ocasiões.
Certamente essa rotina se repete em cada localidade, consumando um ritual de
atualização, de resignificação das pessoas no contexto das relações que partilham. Não estar
em um dos festejos, é desaparecer dos discursos que se seguirão por um tempo, até o próximo
evento. Ao contrário, fazer-se presente é virar notícia nas histórias dos outros, reafirmando
sua existência junto aos demais. Por fim, os festejos se apresentam como um golpe na
cotidianidade tranqüila de Roça Nova; rompem com a calmaria da localidade rural, o
“parado” de que tanto reclamam: as mesmas pessoas, no mesmo tempo e lugares, fazendo as
mesmas coisas. Uma rotina, um incômodo previsível com o que os jovens manifestam
inquietação. Os festejos colocam em pauta o movimento, o inusitado, o diferente, o
inesperado; geram a expectativa do novo, da descoberta, do encontro. Desencadeiam novas
linguagens de grupos e situações diversas. Talvez nisso resida a importância que têm na
localidade. E não apenas para os jovens.
Os festejos, como esse grande lugar do encontro, pontilham toda a região mais
próxima de Roça Nova, conforme breve calendário que consegui mapear:
Genipapo (Sebastião Leal) festeja São Lázaro, em fevereiro;
Santa Fé (Sebastião Leal) festeja São José, em março;
Várzea Grande (Canavieira) festeja Sagrado Coração de Jesus, em maio;
Jerumenha festeja Santo Antônio, em junho;
Cágados (Bertolínia) festeja Santo Antônio, em junho;
Sebastião Leal festeja São João Batista, em junho;
Manoel Emídio festeja São Pedro, em junho;
Canavieira festeja São Raimundo Nonato, em agosto;
Campo Grande (Canavieira) festeja Bom Jesus da Lapa, em agosto;
Barra do Lance (Jerumenha) festeja São Francisco de Assis, em outubro;
Roça Nova (Sebastião Leal) festeja Santa Luzia, em dezembro;
Brejinho (Bertolínia) festeja N. Sra. da Conceição, em dezembro.
Os depoimentos apontam que as pessoas, de algum modo, se revezam nas
festividades, uma vez que não se mostra viável a presença em todas elas. A escolha do festejo
a freqüentar é orientada pela importância do evento quanto aos aspectos já comentados e a
possibilidade concreta de participação, relativa à condição financeira e autorização dos pais
(no caso das moças).
Como pude verificar, nas dinâmicas predominantes no festejo destaca-se o fluxo
das motocicletas. Normalmente levando o piloto e um passageiro, as motos conduzem as
pessoas do seu local de moradia às festividades e ali estavam em todos os pontos da cidade,
revelando a forte presença que possui também dentre os jovens ou especialmente junto a eles.
Se para a família a motocicleta se configura muito mais como um bem que viabiliza a
mobilidade necessária às providências do dia-a-dia, para os jovens, além desta função, ela
aparece como um item fundamental na socialização que partilham. No caso de Roça Nova,
poder deslocar-se na motocicleta é também poder desfrutar do convívio em outras localidades
próximas, ampliando as relações e as possibilidades de conhecer novas pessoas, o que não é
pouco, em face de existir uma minoria de mulheres jovens no local; apenas 37% do total da
faixa etária de 15 a 29 anos. Normalmente adquiridas com recursos próprios, advindos de
trabalho autônomo fora da roça familiar, as motocicletas também sinalizam um nível maior de
independência financeira do rapaz (na maioria dos casos), se consolidando como um ponto de
distinção entre os pares. Possuir a motocicleta é aparecer sob outro olhar no grupo e
incrementar, inclusive, as possibilidades dos namoros, como atestam os rapazes da localidade.
Os festejos são, sem dúvida, uma oportunidade ímpar de trocas simbólicas também no que diz
respeito a esse aspecto.
De tudo o que presenciei, retive a idéia de que os festejos, além de eventos
religiosos, efetivamente propiciam o acesso a um contexto de festa, de rompimento com a
rotina, consolidando-se como um cenário de encontros e reencontros, de linguagens variadas
em curso, produzindo e re-produzindo sentidos vários. É partilhando do trânsito de pessoas,
carros e motos; conhecendo os novos produtos à venda, a novidade das bandas de sucesso,
comprando, vendendo, rezando, dançando, comendo e bebendo que as pessoas dão substância
ao evento e à presença de cada sujeito que o povoa. Por fim, os festejos oportunizam, a cada
um, ver e ser visto, possibilitam conhecer e rever pessoas, atualizar a existência de cada um
para os demais, dinamizando a presença individual nas sociabilidades da região.
Por outro lado, as festas religiosas se consolidam como palco de trocas culturais,
de incorporação ou de rechaço daquilo que, por força do evento, aterrissam no município,
disponibilizando às juventudes sociabilidades holográficas tecidas também a partir do
ambiente material e simbólico vivenciado cotidianamente. Viver esses momentos é, para os
jovens, cada vez mais, expor-se a forte imprecisão quanto às fronteiras antes existentes entre o
rural e o urbano, posto que ali partilham experiências interculturais numa realidade híbrida,
impeditiva de classificação excludente desses territórios e da caracterização dos sujeitos neles
implicados. Nos festejos se utilizam de linguagens diversas que os levam a identificar-se
e/ou diferenciar-se uns dos outros. Como sujeitos do seu tempo e, assim, partilhando as
mudanças de códigos, anseios e projetos, os jovens rurais têm imprimido importante
complexidade às sociabilidades que vivenciam no campo, inclusive modificando fortemente o
palco do sagrado que experienciam em meio a parentes, conhecidos e desconhecidos de perto
e de longe.
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