Superior Tribunal de Justiça
EDcl no AgRg no RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 135.206 - RJ (2020/0253161-8)
RELATOR : MINISTRO JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR
CONVOCADO DO TJDFT)
R.P/ACÓRDÃO : MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
EMENTA
PROCESSUAL PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PRETENSÃO DE EFEITOS
INFRINGENTES. OMISSÃO NO ACÓRDÃO EMBARGADO. CONSTATAÇÃO DO
APONTADO VÍCIO. TEORIA DO JUÍZO APARENTE. AUSÊNCIA DAS CIRCUNSTÂNCIAS
JURÍDICAS NECESSÁRIAS À SUA CARACTERIZAÇÃO. EMBARGOS ACOLHIDOS, COM
PROVIMENTO DO AGRAVO REGIMENTAL E DO RECURSO ORDINÁRIO INTERPOSTO.
I. A constatação de omissão no julgado impõe o acolhimento dos embargos
declaratórios para correção desse vício.
II. Ancorando-se o acórdão embargado na Questão de Ordem na Ação Penal n. 937
do Supremo Tribunal Federal, constata-se a presença de manifesta omissão no necessário
enfrentamento da rejeição, pelos membros da Primeira Turma do STF, de ressalva de ampliação
do entendimento a todos os titulares de prerrogativa de foro, em quaisquer circunstâncias.
III. A existência de precedente do Supremo Tribunal Federal mais recente e com
substrato fático mais assemelhado com o deste processo, tal seja, a Pet n. 9.189/DF, impõe a sua
observância no julgamento deste feito, com adoção do entendimento de que se deve admitir a
excepcional e exclusiva prorrogação da competência criminal de parlamentar que, sem solução de
continuidade, investe-se em novo e sucessivo mandato federal em casa legislativa diversa
daquela que originalmente deu causa à fixação da competência originária.
IV. Nesse sentido, sucessivas diplomações, sem solução de continuidade, não
alteram o foro competente para o julgamento de eventuais ações penais em desfavor do titular de
foro por prerrogativa de função.
V. Embargos acolhidos com efeitos infringentes do julgado para dar provimento ao
agravo regimental e ao recurso ordinário interpostos pelo paciente.
ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos em que são partes as acima indicadas,
acordam os Ministros da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, na conformidade dos votos
e das notas taquigráficas a seguir, prosseguindo no julgamento, por maioria, acolher os embargos,
com efeitos infringentes, para dar provimento ao agravo regimental e ao recurso em habeas corpus
e conceder ordem de ofício, nos termos do voto do Sr. Ministro João Otávio de Noronha, que lavrará
o acórdão. Votaram com o Sr. Ministro João Otávio de Noronha os Srs. Ministros Reynaldo Soares
da Fonseca, Ribeiro Dantas e Joel Ilan Paciornik.
Votou vencido o Sr. Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT).
Brasília (DF), 09 de novembro de 2021(Data do Julgamento)
Documento: 2089802 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 17/11/2021 Página 1 de 8
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MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Relator p/ Acórdão
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Superior Tribunal de Justiça
EDcl no AgRg no RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 135.206 - RJ
(2020/0253161-8)
RELATOR : MINISTRO JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR
CONVOCADO DO TJDFT)
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
RELATÓRIO
O EXMO. SR. MINISTRO JESUÍNO RISSATO
(DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT): Trata-se de embargos de
declaração, opostos por F N B (fls. 993-1007), em face de v. acórdão proferido por esta
Quinta Turma, às fls. 947-990, que negou provimento ao agravo regimental em recurso
ordinário.
Transcrevo a ementa do v. acórdão recorrido (fl. 262):
"AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ORDINÁRIO EM
HABEAS CORPUS. CASO DAS 'RACHADINHAS' OU "ESQUEMA DOS
GAFANHOTOS" NA ALERJ. COMPETÊNCIA. FORO PRIVILEGIADO.
TEORIA DA APARÊNCIA. LICITUDE INTRÍNSECA DAS DECISÕES DO
PRIMEIRO GRAU. SUPRESSÃO DE INSTÂNCIA. REGRA GERAL.
MANUTENÇÃO DOS ATOS PROCESSUAIS. PRECEDENTES DO STJ.
PREJUÍZO NÃO DEMONSTRADO. AGRAVO DESPROVIDO.
I - A teoria da aparência do juízo se aplica in casu, dada a
sua não manifesta incompetência inicial para o feito. Isso se confirmou,
inclusive, quando a ordem que reconheceu o foro privilegiado foi
concedida mediante debate e votação não unânime no eg. Tribunal de
Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
II – A licitude intrínseca das decisões do 1º Grau não foi
objeto de impetração no TJRJ (razão pela qual se reconhece aqui a
indevida supressão de instância).
III - Sobre a possibilidade de ratificação, ou não, dos atos
praticados por juízo declarado supervenientemente incompetente, assente
nesta eg. Corte Superior que a regra geral é a de preservação dos atos
processuais. Precedentes.
IV – O agravante alega prejuízos advindos da atuação
inicial do 1º Grau. Ocorre que, além de genericamente colocados, não se
referem especificamente à atuação do juízo primevo.
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V - Em relação ao suposto excesso de prazo no
encaminhamento do feito principal ao Órgão Especial do TJRJ, as
informações são de que a providência já foi tomada pelo d. Juízo de
origem (conforme se extrai da fl. 3325 do feito conexo, o HC n.
594.360/RJ). Igualmente, não se pode olvidar que o tema do foro
privilegiado pende de julgamento nesta eg. Corte Superior e no col.
Supremo Tribunal Federal (ADI n. 6477). Em tempo, as últimas
informações prestadas aqui, às fls. 932-933, também insculpem que
tramita a Reclamação Constitucional nº 41910/STF acerca da matéria.
Agravo regimental desprovido."
Nas razões dos presentes embargos, a d. Defesa afirma a existência de
contradição e omissão no acórdão acima.
Aduz que a incompetência do d. Juízo a quo era patente ab ovo e que a "A
votação por maioria, per se, não implica na existência de dúvidas ou de aparência de
qualquer matéria ou questão jurídica" (fl. 995).
Assere que, "Toda a venia do valoroso Ministro SOARES DA FONSECA,
mas o precedente invocado como sustentáculo do seu veredicto não se relaciona com o
caso dos autos, de modo a lhe dar feição lógico-jurídica. Repare-se que lá, a
incompetência do Juízo foi descortinada em momento posterior, por conta de uma
diligência, o que é bem diferente do presente caso em que um magistrado pretendeu
isoladamente decidir sobre a sorte processual de um Senador por questões atreladas a
seu mandato, anterior, de Deputado Estadual, não havendo suporte jurídico para
emprestar aparência de juridicidade à competência que tomou para si" (fl. 996).
Invoca que teria havido omissão nos r. votos vencedores por não terem
enfrentado a suposta ofensa ao julgado na Questão de Ordem na Ação Penal n. 937 do col.
Supremo Tribunal Federal, apenas tratada no r. voto vencido do Em. Min. João Otávio de
Noronha. Entendimento não alterado pelo julgado na RCL n. 32989, verbis: “haja vista
que, ao tempo da sua deliberação, os atos decisórios praticados pelo juiz incompetente
já haviam sido realizados e surtidos seus efeitos, seja porque, nesta assentada, o
ilustrado Ministro Marco Aurélio se ateve a proclamar a incompetência do STF” (fl.
1005).
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Explica que a matéria afeta à prerrogativa de foro (de ex-deputado estadual)
passa, necessariamente, pela exegese do col. Supremo Tribunal Federal a respeito dessa
modalidade de competência, quando foi estabelecida nova parametrização para a modalidade
de competência, sob limites muito bem demarcados naquele julgamento (fl. 998).
Sustenta "a clara opção da Corte Constitucional pela reserva do debate
para pronunciamento seu ulterior" (fl. 1005).
Por fim, reclama a "ressalva feita no julgamento da AP 937, a qual
desautoriza a conclusão de que concorriam circunstâncias jurídicas para que o juízo da
27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro fosse aparentemente competente até a decretação
da sua incompetência" (fl. 1006).
Requer, assim, sejam supridos os vícios apontados, com efeitos infringentes,
para determinar a revisão do mérito e a concessão da ordem, mesmo que de ofício (fl. 1006).
O d. Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, em resposta aos
embargos de declaração, oficiou pela rejeição com imediata certificação do trânsito em
julgado, ante o caráter meramente protelatório da insurgência (fls. 1040-1058).
O d. Ministério Público Federal, em r. manifestação, pediu o não conhecimento
dos embargos de declaração (fls. 1015-1024).
Petições da d. Defesa (fls. 1059-1061 e 1062-1068).
Decisão de redistribuição do feito (fl. 1070), com a conclusão a esta Relatoria
aos 17/8/2021 (fl. 1077).
É o relatório.
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(2020/0253161-8)
VOTO VENCIDO
O EXMO. SR. MINISTRO JESUÍNO RISSATO
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Superior Tribunal de Justiça
(DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT): Os presentes embargos não
reúnem condições de prosperar.
Explico.
De plano, cumpre esclarecer que se admitem os embargos declaratórios
quando houver, na decisão embargada, ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão,
nos termos dos arts. 619 e 620 do Código de Processo Penal, sendo possível,
excepcionalmente, a alteração ou modificação do decisum nos efeitos infringentes.
Também, para a correção de eventual erro material, consoante o entendimento
preconizado pela doutrina e jurisprudência, hoje igualmente consagrado no art. 1.022, III, do
atual Código de Processo Civil.
Na lição de Nelson Nery Júnior & Rosa Maria Andrade Nery (Código de
Processo Civil Comentado, RT, 4ª ed., 1999, p. 1045): "Os EDcl têm finalidade de
completar a decisão omissa ou, ainda, de aclará-la, dissipando obscuridades ou
contradições. Não têm caráter substitutivo da decisão embargada, mas sim integrativo
ou aclaratório. Como regra, não têm caráter substitutivo, modificador ou infringente do
julgado".
No mesmo sentido, os precedentes: EDcl no AgRg no AREsp n. 292.108/MG,
Quinta Turma, Rel. Min. Jorge Mussi, DJe de 20/2/2015; EDcl no RHC n. 35.243/MG,
Quinta Turma, Rel. Min. Félix Fischer, DJe de 10/12/2014; EDcl no AgRg no AREsp n.
527.022/SC, Quinta Turma, Rel. Min. Gurgel de Faria, DJe de 9/10/2014; e EDcl no
REsp n. 1.290.073/ES, Quinta Turma, Relª. Minª. Laurita Vaz, DJe de 1º/7/2014.
Como dito, o embargante afirma a existência de contradição e omissão no
acórdão embargado.
Pois bem.
Inicialmente, discorre-se que a competência do d. Juízo da origem não era
"aparente", mas sim nítida e ab ovo absolutamente inaplicável.
Nesse passo, já foi devidamente esclarecido, no voto-relator e nos demais que
o acompanharam, que a teoria da aparência do juízo se aplicava in casu, dada a não
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manifesta incompetência inicial para o feito do d. Juízo de Primeiro Grau, que, diga-se de
passagem, unicamente conduziu investigações, em que, somente em um segundo momento, se
depararam com o embargante.
Nessa assentada, foi referido que a ordem concedida na origem, ao reconhecer
o foro privilegiado almejado, o foi mediante debate e votação não unânime no eg. Tribunal de
Justiça do Estado do Rio de Janeiro.
Porém, o fato de a ordem ter sido concedida nestas condições, ao contrário do
sustentado pelo embargante, apenas reforçou que a tese de incompetência absoluta ab ovo
deveria ser rechaçada, não sendo o seu único alicerce.
Ademais, destaca-se que a licitude intrínseca das decisões do d. Primeiro Grau
não foi sequer objeto de impetração no TJRJ.
Tudo o que reclama o reconhecimento da indevida supressão de instância neste
debate, pois inviável de apreciação esta eg. Corte Superior, sob pena de alargamento da
competência constitucional para o julgamento da ação mandamental.
In verbis: "A matéria (...) não foi submetida à apreciação do Tribunal a
quo, o que impede o seu conhecimento por esta Corte Superior, sob pena de indevida
supressão de instância" (HC 309.477/GO, Quinta Turma, Rel. Min. Reynaldo Soares da
Fonseca, DJe 24/8/2017).
Não obstante, sobre a possibilidade de ratificação, ou não, dos atos praticados
por juízo declarado supervenientemente incompetente, assente nesta eg. Corte Superior que a
regra geral é a preservação dos atos processuais - ainda mais quando não demonstrados os
prejuízos diretamente disso advindos, como no caso.
A jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça é firme no sentido de que a
declaração de nulidade exige a comprovação de prejuízo, em consonância com o art. 563 do
Código de Processo Penal.
Verbis: "O reconhecimento de nulidades no curso do processo penal
reclama uma efetiva demonstração do prejuízo à parte, sem a qual prevalecerá o
princípio da instrumentalidade das formas positivado pelo art. 563 do CPP (pas de
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nullité sans grief)" (AgInt no AREsp n. 442.923/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Ribeiro
Dantas, DJe de 11/5/2018).
Diga-se de passagem que os supostos prejuízos apontados pela d. Defesa
como advindos da atuação inicial do d. Primeiro Grau, nem de longe, se referiam
especificamente à atuação daquele primevo juízo.
Como dito no voto de Relatoria do Em. Min. Félix Fischer no v. acórdão
embargado (fl. 958): "A alegação de que 'o prejuízo na hipótese aqui retratada não
apenas abraçou o paciente, como o transcendeu para alcançar foros de interesse
nacional' (fl. 275, grifei), além de genérica e abstrata, se refere mais ao plano político do
que ao jurisdicional."
Por derradeiro, acerca da alegação de que o precedente invocado pelo Em.
Min. Reynaldo Soares da Fonseca não se relacionava ao caso, assim como da de que os r.
votos que restaram vencedores não enfrentaram a suposta ofensa ao julgado na Questão de
Ordem na Ação Penal n. 937 do col. Supremo Tribunal Federal, merece destaque que ela
apenas foi invocada, pela d. Defesa, neste recurso de embargos de declaração, que ora se
analisa.
O d. Ministério Público Federal, às fls. 1015-1024, não foi menos preciso, ao
afirmar que "(...) inova a diligente defesa em sede de embargos declaratórios ao alegar,
com arrimo em voto vencido do ínclito Ministro João Otávio de Noronha, primeiro
vogal, 'omissão (...) porquanto em nenhuma de suas peças sustentara as teses veiculadas
na Questão de Ordem em AP 937/STF, não obstante seu julgamento nos idos de
03/05/2018".
Nesse sentido, "Não é cabível a formulação de novas teses em embargos
declaratórios por constituir indevida inovação recursal" (EDcl no AgRg no REsp
1432917/RS, Sexta Turma, Rel. Min. Rogério Schietti Cruz, DJe 16/8/2021).
De qualquer forma, a Questão de Ordem na Ação Penal n. 937 estabeleceu
que a prerrogativa de foro de deputados federais e senadores somente se aplica a crimes
cometidos durante o exercício do cargo/mandato e caso relacionados às funções (propter
officium), ocorrendo a perpetuatio jurisdicionis somente se já encerrada a instrução (com a
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publicação do despacho de intimação para as alegações finais) - hipótese que não se coaduna
ao caso concreto destes autos.
Como se não bastasse, a matéria foi amplamente debatida no julgamento
anterior desta Turma, de forma que o r. voto-relator de agravo regimental em recurso ordinário
(e os demais que o acompanharam no julgamento por maioria) noticiou que, no col. Supremo
Tribunal Federal, o tema do foro privilegiado do embargante ainda pende de apreciação (tanto
na ADI n. 6.477 quanto na Reclamação Constitucional nº 41.910).
Aliás, muito bem destaco pelo d. Ministério Público do Estado do Rio de
Janeiro que "não foi proferida decisão concessiva de liminar na ADI 6.477, proposta pelo
partido REDE SUSTENTABILIDADE, tendo em vista adoção do procedimento
abreviado a que se refere o art. 12 da Lei 9.868/99" (fls. 1040-1058).
Portanto, a aparente competência inicial do Juízo a quo já foi devidamente
enfrentada por esta eg. Quinta Turma, embora em sentido oposto aos anseios do embargante.
Do acima exposto, verifica-se, pois, que os argumentos aqui apresentados não
demonstram a busca por qualquer saneamento, mas sim a revisão do mérito - o que não é
permitido nesta via.
Assim, não há que se falar em vícios no v. acórdão embargado tão somente
porque contrário aos interesses do recorrente.
Nesse passo:
"EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO
REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO EM
RECURSO ESPECIAL. ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA. FACILITAÇÃO
DE DESCAMINHO, DESCAMINHO, CORRUPÇÃO ATIVA E PASSIVA.
INTERCEPTAÇÃO DE COMUNICAÇÃO TELEFÔNICA. ALEGAÇÃO
DE OMISSÃO NO ACÓRDÃO EMBARGADO. INOCORRÊNCIA.
ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO A DISPOSITIVOS DA CONSTITUIÇÃO DA
REPÚBLICA. VIA INADEQUADA, AINDA QUE PARA FINS DE
PREQUESTIONAMENTO. COMPETÊNCIA DO PRETÓRIO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL. EMBARGOS REJEITADOS.
I - São cabíveis embargos declaratórios quando houver, na
decisão embargada, contradição, omissão ou obscuridade a ser sanada.
Podem também ser admitidos para a correção de eventual erro material,
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consoante entendimento preconizado pela doutrina e pela jurisprudência,
sendo possível, excepcionalmente, a alteração ou modificação do decisum
embargado.
II - Mostra-se evidente a busca indevida de efeitos
infringentes, em virtude da irresignação decorrente do resultado do
julgamento que desproveu o agravo regimental pois, na espécie, à conta
de omissão no decisum, pretende o embargante a rediscussão de matéria
já apreciada.
III - Não compete a este Superior Tribunal o exame das
supostas violações a dispositivos da Constituição da República (artigos 5º,
incisos II, LV e LVI, e 93, inciso IX), ainda que para fins de
prequestionamento, por estarem restritas à análise do Pretório Supremo
Tribunal Federal, por expressa previsão constitucional.
Embargos de declaração rejeitados" (EDcl no AgRg nos EDcl
no AREsp n. 1.205.732/SP, Quinta Turma, Rel. Min. Félix Fischer, DJe de
12/11/2018).
"EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO
REGIMENTAL NOS EMBARGOS DE DIVERGÊNCIA NO AGRAVO EM
RECURSO ESPECIAL. OMISSÃO. INEXISTÊNCIA DE VÍCIO NO
JULGADO. REDISCUSSÃO DO ENTENDIMENTO. IMPOSSIBILIDADE.
ACLARATÓRIOS REJEITADOS.
1. Inexistindo no acórdão embargado quaisquer dos vícios
previstos no art. 619 do Código de Processo Penal, que permitem o
manejo dos aclaratórios, não há como esses serem acolhidos.
2. Na espécie, inexiste o equívoco apontado pela parte,
tendo o acórdão embargado apreciado a insurgência de forma clara e
fundamentada, não sendo possível, em embargos de declaração, rediscutir
o entendimento adotado, sequer para fins de prequestionamento.
3. Embargos de declaração rejeitados" (EDcl no AgRg nos
EDv nos EAREsp n. 655.714/CE, Corte Especial, Rel. Min. Jorge Mussi,
DJe de 9/11/2018).
"PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO HABEAS
CORPUS. AMBIGUIDADE, OBSCURIDADE, CONTRADIÇÃO OU
OMISSÃO. INEXISTÊNCIA. SEGREGAÇÃO CAUTELAR
FUNDAMENTADA NAS PROVAS. INTERCEPTAÇÃO CONSIDERADA
[Link] DE MANUTENÇÃO PELAS DEMAIS PROVAS.
ANÁLISE DA PRISÃO PREVENTIVA. COMPETÊNCIA INSTÂNCIAS DE
ORIGEM. DECISÃO MANTIDA. PETIÇÃO. ALEGADO
DESCUMPRIMENTO DA DECISÃO PROFERIDA NO HABEAS
CORPUS. INOCORRÊNCIA. CONTINUIDADE DA AÇÃO PENAL.
FUNDAMENTO NOS DEMAIS ELEMENTOS PROBATÓRIOS.
1. Ausente contradição, obscuridade, omissão ou
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ambiguidade, são rejeitados os embargos declaratórios, que não servem à
rediscussão do julgado.
2. Tendo a magistrada do feito considerado que
remanesceriam válidas provas a suportar a justa causa da prisão
preventiva, mesmo desconsideradas as anuladas interceptações
telefônicas, não há obstáculo à manutenção da prisão preventiva ou ao
prosseguimento da ação penal.
3. Embargos de declaração rejeitados" (EDcl no HC n.
423.595/PE, Sexta Turma, Rel. Min. Nefi Cordeiro, DJe de 19/10/2018).
Corroborando, o d. Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, em
resposta aos embargos de declaração, por meio dos Drs. ORLANDO CARLOS NEVES
BELÉM, Assessor-Chefe da Assessoria de Recursos Constitucionais Criminais, ROBERTO
MOURA COSTA SOARES, Subprocurador-Geral de Justiça de Assuntos Criminais, e
LUCIANO OLIVEIRA MATTOS DE SOUZA, Procurador-Geral de Justiça.
Vejamos a r. manifestação de fls. 1040-1058:
"(...) Percebe-se, facilmente, que os aclaratórios não versam sobre
eventual omissão, contradição ou obscuridade, mas demonstram mera irresignação do
recorrente com o resultado que lhe foi desfavorável.
É evidente, que, com a interposição dos presentes Embargos de
Declaração manifestamente infundados, o embargante pretende um novo julgamento do
feito, o qual foi devidamente decidido pela Quinta Turma. Essa circunstância revela a
intenção de obstar o julgamento que lhe foi desfavorável.
Buscando refrear abusos dessa natureza, a jurisprudência do Supremo
Tribunal Federal alinhou-se no sentido de que 'quando animados de intuito meramente
protelatório, embargos de declaração devem ser rejeitados, com determinação de
cumprimento imediato da decisão cuja eficácia esteja suspensa, independentemente do
seu trânsito em julgado' (Ext nº 928/PT-ED-ED, Tribunal Pleno, Relator o Ministro
Cezar Peluso, DJe de 14/9/07).
(...)
Portanto, ante o intuito meramente protelatório dos presentes embargos
de declaração, estes devem ser rejeitados, devendo ser decretado o trânsito em julgado,
com imediata baixa dos autos à corte de origem.
(...)
Da leitura das razões dos embargos, conclui-se que os mesmos se
restringem a demonstrar, tão somente, a irresignação do recorrente quanto ao não
provimento do Recurso Ordinário em Habeas Corpus.
A clara pretensão do embargante de utilizar os presentes embargos apenas
para modificar a decisão proferida em seu desfavor, visando à obtenção de efeitos
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infringentes sem que haja vício que torne necessária a integração do decisum, não é
aceita na jurisprudência.
(...)
O legislador ordinário estabeleceu os requisitos para oposição de
embargos de declaração, ou seja, exigiu que a sentença ou o acórdão seja omisso acerca
de questão sobre a qual devia pronunciar-se ou contenha obscuridade ou contradição.
Não conferiu a lei o manejo dos embargos de declaração para possibilitar
um novo julgamento das questões já decididas, como pretendem os embargantes.
Como bem leciona o culto Prof. JOSÉ CARLOS BARBOSA MOREIRA, 'o
provimento dos embargos se dá 'sem outra mudança no julgado', além daquela
consistente no esclarecimento, na solução da contradição ou no suprimento da omissão'.
(...)
Quanto à hipótese dos autos, não existe qualquer omissão a ser sanada.
Dessa forma, forçoso concluir a clara pretensão do Embargante em
rediscutir matéria já devidamente abordada e decidida, sendo incontroversa a ausência
de fundamentos dos presentes aclaratórios, o que afasta qualquer possibilidade de
atribuição de efeitos infringentes, já que não há vício que justifique a modificação do
acórdão atacado.
No entanto, no que diz respeito ao mérito, cumpre reiterar que a teoria do
juízo aparente dispõe que são consideradas lícitas as provas produzidas a partir de
determinação de autoridade judiciária incompetente que atua, sob um erro escusável,
quanto a sua competência.
(...)
Nessa linha de raciocínio, alega a Defesa que não estaria configurado o
requisito do erro escusável a partir da divergência ocorrida no julgamento do writ pelo
Tribunal de origem pois: (i) a ordem teria sido concedida; (ii) ausência de decisões
concessivas de liminares na ADI 6477 e na RCL 41.910, ambas em trâmite no Supremo
Tribunal Federal e, por fim, (iii) o fato de o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do
Estado do Rio de Janeiro não só ter aceitado sua competência, como ter praticado atos
decisórios nos autos.
De início, convém salientar que o fato de a ordem ter sido concedida não
infirma a existência da controvérsia sobre a competência do juízo de primeiro grau.
Ao revés, do resultado não unânime do julgamento e do próprio teor do
voto vencedor, que afirma expressamente não existir entendimento pacificado sobre o
tema, é capaz de se concluir que o magistrado de primeiro grau atuou pautado pela
legítima convicção de que seria o juízo competente.
Mas não é só.
Conforme noticiado pela imprensa, a controvérsia sobre o tema alcança o
próprio Supremo Tribunal Federal, onde Ministro da Corte manifesta opinião contrária
ao resultado do julgamento: (...)
Em segundo lugar, cabe salientar que não foi proferida decisão concessiva
de liminar na ADI 6.477, proposta pelo partido REDE SUSTENTABILIDADE, tendo em
vista adoção do procedimento abreviado a que se refere o art. 12 da Lei 9.868/99.
Por fim, o fato de o Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado do
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Rio de Janeiro ter proferido atos decisórios nos autos só evidencia que referido órgão
acolhe a competência atribuída, mas não que devam ser anulados os atos decisórios
pretéritos.
Assim, diante da evidente celeuma sobre a existência do foro por
prerrogativa de função no presente caso, impõe-se a manutenção dos atos decisórios
praticados pelo juízo de primeiro grau.
Além disso, para a decretação de nulidade dos atos decisórios é necessária
a observância do princípio do prejuízo, previsto nos artigos 563 e 566, do Código de
Processo Penal, que se aplica tanto aos casos de nulidade relativa como absoluta.
(...)
Por todo o exposto, demonstrada a ausência de vício que enseje a
integração da decisão recorrida, requer o Ministério Público do Estado do Rio de
Janeiro sejam rejeitados os embargos de declaração, pugnando, ainda, pela decretação
do trânsito em julgado e imediata baixa dos autos à Corte de Origem, ante o caráter
meramente protelatório do presente recurso." (grifei)
No mesmo sentido, o d. Ministério Público Federal, em r. manifestação do Dr.
ROBERTO LUÍS OPPERMANN THOMÉ, Subprocurador-Geral da República.
Transcrevo as suas palavras (fls. 1015-1024):
"(...) Novamente a defesa em nome próprio (sic) e não da parte agravante
opôs embargos declaratórios (e-STJ, fls. 993/1006) sustentando em síntese 'omissão
sobre aspecto relevante, atinente à ressalva feita no julgamento da AP 937, a qual
desautoriza a conclusão de que concorriam circunstâncias jurídicas para que o juízo da
27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro fosse aparentemente competente até a decretação
da sua incompetência. Afinal, apesar da expressão jurídica desta ressalva, uma vez que
se cuida, na espécie, de imputação feita a deputado estadual, nenhuma consideração
sobre a mesma foi feita no v. aresto embargado' (e-STJ, fl. 1006), repisando em verdade
a mesma tese já exposta no recurso ordinário de que 'não se vislumbra um Juízo
Aparente de Competência, na hipótese em questão, de modo a legitimar decisões
judiciais gravosas praticados por juiz de primeiro grau em autos nos quais é processado
atual Senador da República por atos seus, tidos por criminosos e praticados em
detrimento do seu findo mandato de deputado estadual' (sic, e-STJ, fl. 1006).
(...)
Por cediço o instituto processual de embargos declaratórios tem por
desiderato sanar obscuridades, contradições ou omissões porventura existentes em
sentença ou acórdão.
Truísmo, ademais, inexistir omissão, contradição ou obscuridade quando o
Tribunal se pronuncie de modo claro e preciso sobre a questão posta, assentando-se em
fundamentos suficientes; por igual, sabe-se não estar o juízo obrigado a rebater, um a
um, argumentos trazidos pelas partes (STJ, 1ªT, REsp739.711/MG, Min. Luiz Fux, DJ
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14/12/06).
In casu, pois, não padece a v. decisão embargada de vício alguma
demandar sua integração por embargos declaratórios.
O recurso sequer deve(ria) ser conhecido, pois inova a diligente defesa em
sede de embargos declaratórios ao alegar, com arrimo em voto vencido do ínclito
Ministro João Otávio de Noronha, primeiro vogal, 'omissão sobre aspecto relevante,
atinente à ressalva feita no julgamento da AP 937, a qual desautoriza a conclusão de
que concorriam circunstâncias jurídicas para que o juízo da 27ª Vara Criminal do Rio de
Janeiro fosse aparentemente competente até a decretação da sua incompetência' (sic,
e-STJ, fl. 1006), porquanto em nenhuma de suas peças sustentara as teses veiculadas na
Questão de Ordem em AP 937/STF, não obstante seu julgamento nos idos de
03/05/2018.
Nada obstante, por amor ao debate, convém ressaltar que os parâmetros
fixados na referida Questão de Ordem na AP 937/STF acerca do 'foro por prerrogativa
de função' (o tal 'foro privilegiado') de que: a) a 'prerrogativa de foro' de deputados
federais e senadores somente se aplica a crimes cometidos durante exercício do
cargo/mandato, considerando-se como início a diplomação; b) a 'prerrogativa' somente
se aplica a crimes praticados durante o exercício do cargo e 'relacionados às funções',
ou seja, propter officium; c) a perpetuatio jurisdicionis somente ocorrerá se já encerrada
a instrução, com publicação do despacho de intimação para alegações finais (artigo 11
da Lei nº 8.038/90), hipótese em que a ação penal pública continuará tramitando no
STF, ainda que renuncie o parlamentar acusado, ou seja cassado ou sequer se reeleja,
circunstâncias por si sós inservíveis a afastar a conhecida 'Teoria da Aparência'
escorreitamente utilizada como fundamento para manter validade de todos os atos
praticados por juízo até então competente em primeiro grau jurisdicional neste caso
vertente.
A uma, por não ter-se unanimidade no aresto que decidira o agravo
regimental/interno defensivo sendo que o teor do próprio voto vencedor, asseverando
expressamente inexistir jurisprudência pacificada alguma sobre o tema, implica por
cediço concluir que o juízo singular de piso atuara pautado por legítima (a respeitar,
salvo outro juízo) convicção de que fora e seria o juízo competente; a duas, porque
posto que se entendesse incompetente à época para processo e julgamento de atos em
tese ilícitos do ora embargante nem se trata disso pois fora exercida jurisdição apenas
em pedidos de quebra de sigilos bancário e fiscal e busca a apreensão deferidos contra o
recorrente, hoje Senador da República, no âmbito de procedimento investigatório
criminal, tanto que o próprio Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de
Janeiro ao prolatar atos decisórios nos autos acolhendo competência que lhe fora
atribuída, convalidara expressamente os anteriores atos judiciais, por corretamente não
considerar que fossem inquinados ou devessem ser anulados haja vista inexistir prejuízo
algum à defesa, ilegalidade alguma, má-fé ou desídia, ou abuso de autoridade ou de
poder, ou teratologia manifesta, o que se mantém hígido até o presente. Nesse diapasão
veja-se este aresto do Supremo Tribunal Federal: (...).
O veredito profligado alinha-se portanto à jurisprudência pátria, inclusive,
ao que já decidira o próprio STF nos autos de Reclamação nº 32.989/STF ajuizada pelo
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mesmo ora embargante em que se afastara a pretensa e malsinada incompetência do
juízo de primeiro grau e nulidade de atos por ele juridicamente prolatados por ausente
'foro privilegiado' a acobertar crimes em tese cometidos no exercício de outro mandato
findo e eventualmente a esse passado vinculados, como bem consignara o Parquet em
suas contrarrazões recursais, in verbis(e-STJ, fl. 337): (...).
Depreende-se, assim das razões destes embargos declaratórios que, sob
pretensa alegação de omissão no veredito profligado visa a defesa tão somente a
rediscutir o julgado e suas conclusões para fazer prevalecer seu viés de que 'todos os
atos decisórios praticados pela 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro sejam considerados
nulos' (sic, e-STJ fl. 833) por pretensa inaplicabilidade da 'Teoria da Aparência'. Tal
insurgência do recorrente/embargante F N B não mais subsiste haja vista expressa
ratificação pelo Tribunal de Justiça local de todos os atos instrutórios e decisórios
prolatados pela autoridade judiciária supostamente coatora, tida como absolutamente
incompetente, por devidamente escorar-se na já multicitada 'Teoria do Juízo Aparente' e
inexistir qualquer imputação de desídia, má-fé, abuso de poder ou teratologia manifesta,
segundo jurisprudência firme nas Cortes Constitucionais pátrias quanto a ser possível
(melhor dizendo ser correto, devido, necessário, útil e esperado) à autoridade
competente ratificação de atos instrutórios e decisórios prolatados de juízo após tido por
incompetente.
Ausente, portanto, eiva alguma, contradição, omissão ou obscuridade na
decisão embargada, impõe-se rejeição destes embargos declaratórios defensivos, em
respeito à jurisdição e seus limites (sendo o de que ora se trata conhecido justamente por
'competência!') e à iterativa jurisprudência de ambas as Cortes Constitucionais pátrias.
(...)
Diante do exposto, o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL respeitosamente
requer a Vossa(s) Excelência(s) que sequer sejam conhecidos estes embargos de
declaração defensivos e, caso conhecidos, sejam rejeitados." (grifei)
Ante o exposto, à míngua de vícios no v. acórdão recorrido, rejeito os
embargos declaratórios.
É o voto.
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EDcl no AgRg no RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 135.206 - RJ (2020/0253161-8)
RELATOR : MINISTRO JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR
CONVOCADO DO TJDFT)
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
VOTO-VISTA
O EXMO. SR. MINISTRO JOÃO OTÁVIO DE NORONHA:
EMENTA
PROCESSUAL PENAL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. PRETENSÃO DE EFEITOS
INFRINGENTES. OMISSÃO NO ACÓRDÃO EMBARGADO. CONSTATAÇÃO DO
APONTADO VÍCIO. TEORIA DO JUÍZO APARENTE. AUSÊNCIA DAS CIRCUNSTÂNCIAS
JURÍDICAS NECESSÁRIAS À SUA CARACTERIZAÇÃO. EMBARGOS ACOLHIDOS, COM
PROVIMENTO DO AGRAVO REGIMENTAL E DO RECURSO ORDINÁRIO INTERPOSTO.
I. A constatação de omissão no julgado impõe o acolhimento dos embargos
declaratórios para correção desse vício.
II. Ancorando-se o acórdão embargado na Questão de Ordem na Ação Penal n. 937
do Supremo Tribunal Federal, constata-se a presença de manifesta omissão no necessário
enfrentamento da rejeição, pelos membros da Primeira Turma do STF, de ressalva de ampliação
do entendimento a todos os titulares de prerrogativa de foro, em quaisquer circunstâncias.
III. A existência de precedente do Supremo Tribunal Federal mais recente e com
substrato fático mais assemelhado com o deste processo, tal seja, a Pet n. 9.189/DF, impõe a sua
observância no julgamento deste feito, com adoção do entendimento de que se deve admitir a
excepcional e exclusiva prorrogação da competência criminal de parlamentar que, sem solução de
continuidade, investe-se em novo e sucessivo mandato federal em casa legislativa diversa
daquela que originalmente deu causa à fixação da competência originária.
IV. Nesse sentido, sucessivas diplomações, sem solução de continuidade, não
alteram o foro competente para o julgamento de eventuais ações penais em desfavor do titular de
foro por prerrogativa de função.
V. Embargos acolhidos com efeitos infringentes do julgado para dar provimento ao
agravo regimental e ao recurso ordinário interpostos pelo paciente.
RELATÓRIO
Trata-se de embargos de declaração com pretensão de efeitos infringentes opostos a
acórdão da Quinta Turma, que negou provimento a agravo regimental reconhecendo a legitimidade da
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aplicação da teoria da aparência ao Juízo de primeiro grau para o deferimento de medidas cautelares em
desfavor do paciente.
Em apertada síntese, lembro que o paciente é réu em processo que tramitou
originariamente na primeira instância da Justiça estadual do Rio de Janeiro, cuja competência foi
questionada pelo paciente neste habeas corpus. Por meio da concessão parcial da ordem pela Terceira
Câmara Criminal do TJRJ, por maioria, reconheceu-se a competência do Órgão Especial daquela Corte
para o processamento do inquérito então em curso e da ação penal subsequente.
No recurso ordinário interposto nestes autos, o recorrente limitou-se a postular a
declaração de nulidade de todos os atos decisórios praticados pelo Juízo de primeira instância, pretensão
rechaçada pela Quinta Turma por maioria.
O objetivo dos aclaratórios é que seja sanado vício de omissão sobre aspecto considerado
relevante pelo embargante. Arguiu-se que a ausência de menção à rejeição pelo Pleno do STF da
ressalva feita pelo Ministro Dias Toffoli, no julgamento da Questão de Ordem na Ação Penal n. 937,
cujas razões de decidir foram expressamente utilizadas como fio condutor do voto vencedor, evidenciou
contradição das premissas jurídicas adotadas no acórdão embargado.
Sustenta o embargante que a observância à indicada ressalva levará à necessária
modificação do julgado, desautorizando a conclusão de que concorriam circunstâncias jurídicas para
que o Juízo da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro pudesse ser considerado aparentemente competente
para os atos impugnados.
É o relatório.
VOTO
Importa aferir, de antemão, eventual interseção entre a matéria objeto destes embargos
declaratórios e aquela enfrentada no voto vencido por mim prolatado, de maneira a se verificar eventual
preclusão do tema. Antecipo conclusão de inexistência do apontado obstáculo. Explico.
No voto vencido, após preliminar de perda de objeto da ação, veiculei meu entendimento de
que a decisão da Terceira Câmara Criminal, que ratificou as decisões prolatadas pelo Juízo de primeiro
grau, seria manifestamente nula por ter sido proferida por órgão incompetente. Observei que o
Regimento Interno do TJRJ estabelece competir ao seu órgão especial o conhecimento e julgamento de
habeas corpus que trate de crime sujeito à competência originária do Tribunal, nos termos de seu art. 3º;
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e considerei que o habeas corpus possuía nítido contorno de reclamação contra usurpação de
competência do Órgão Especial e que deveria ter sido encaminhado àquele colegiado para julgamento.
Concluí afirmando que órgão incompetente para fazê-lo, a saber, a Terceira Câmara Criminal, teria
ratificado decisões prolatadas por juízo considerado incompetente, sem que possuísse poderes para
tanto.
Como se vê, o cerne do voto vencido diverge do objeto destes embargos, que veicula tema
não enfrentado no acórdão embargado, motivo pelo qual prossigo no seu conhecimento.
O relator deste habeas corpus, Ministro Felix Fischer, sem tecer comentário acerca da
opção do TJRJ pela eleição do foro privilegiado (afirmando não ser objeto da impetração), considerou
que a ausência de anulação das decisões do Juízo de primeiro grau seria acertada. Asseverou que a
competência aparente do juízo posteriormente declarado incompetente refletia a circunstância de que
não estivera a conduzir o feito com usurpação teratológica de função, conforme elemento extraído da
divergência de votos travada no julgamento do TJRJ. Após considerações doutrinárias acerca da teoria
do juízo aparente, o relator apontou a ausência de comprovação de prejuízo como obstáculo à
pretendida anulação, concluindo pela regularidade da preservação dos atos instrutórios e decisórios
praticados.
O voto do relator foi complementado pelos votos apresentados pelos Ministros Reynaldo
Soares e Marcelo Ribeiro Dantas, que reconheceram a presença, na espécie, da aparência de
legitimidade de atuação do magistrado de primeira instância, expondo fundamentação apoiada na
Questão de Ordem na Ação Penal n. 937 do STF. Lembraram que aquele precedente da Corte
Constitucional firmara o entendimento de que o foro por prerrogativa de função restringe-se aos crimes
cometidos durante o exercício do cargo e relacionados às funções desempenhadas.
Percebe-se que em nenhum dos votos apresentados houve expresso enfrentamento da
ressalva realizada pelo Ministro Dias Toffoli, na Questão de Ordem na Ação Penal n. 937, que veiculava
proposta de ampliação do entendimento restritivo a todos os titulares de prerrogativa de foro (e não
apenas aos senadores e deputados federais) – a pretendida simetria foi rejeitada pelo Plenário do STF, é
bom frisar.
Feitas essas considerações, entendo assistir razão ao embargante, uma vez que a exegese
restritiva adotada pelo Plenário do STF na mencionada questão de ordem limitou seu alcance aos crimes
praticados no exercício dos mandatos de senadores e deputados federais, hipótese diversa da destes
autos. Em verdade, a matéria enfrentada neste writ refere-se a “mandatos cruzados”, relativos a
períodos durante os quais o paciente ocupara o cargo de deputado estadual e de senador da República,
sucessivamente.
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Logo, o precedente invocado como sustentáculo do veredito não se relaciona com a
hipótese dos autos. Constatada a omissão, que possui cores de contradição das premissas com a
conclusão do julgado, impõe-se sua complementação retificadora.
Em verdade, o tema possui maior complexidade. É que o pressuposto de aplicação da
Questão de Ordem na Ação Penal n. 937, decidida pela Primeira Turma da Suprema Corte, foi superado
por entendimento superveniente exarado por seu Plenário em hipótese que possui substrato fático mais
assemelhado (embora não idêntico) ao dos presentes autos.
De fato, no julgamento da Petição n. 9.189/DF, foi admitida a excepcional e exclusiva
prorrogação da competência criminal originária do STF, quando o parlamentar, sem solução de
continuidade, encontrar-se investido em novo e sucessivo mandato federal, desta vez em casa legislativa
diversa daquela que originalmente deu causa à fixação da competência originária.
Certo é que o substrato fático, que ancorou o indicado julgamento no STF, não encontra
perfeita similitude com este que estamos a julgar. Isso porque, naqueles autos, o acusado manteve o
foro privilegiado por força do exercício de mandato em casas legislativas diversas, mas ambas federais;
nestes autos, houve a continuidade de mandatos em casas legislativas diversas, mas em esferas também
diversas: o paciente deixou de ser deputado estadual e assumiu o cargo de senador da República.
Ocorre que, em ambas as hipóteses, enfrenta-se a questão dos “mandatos cruzados”,
relativa à investidura de parlamentar, sem solução de continuidade, em mandato diverso e em casa
legislativa diversa daquela que originalmente deu causa à fixação da competência originária, nos termos
do art. 102, I, b, da Constituição Federal.
A questão sobre a qual se impõe a manifestação desta Corte pode ser assim resumida: na
hipótese de ausência de solução de continuidade entre mandatos, o foro por prerrogativa de função deve
ou não permanecer inalterado?
A Ministra Rosa Weber, relatora da Pet n. 9.189/DF, veiculou, em seu voto, premissa
fixada na necessidade de interpretação restritiva das normas constitucionais sobre prerrogativa de foro,
orientando-se pelo precedente firmado na Questão de Ordem na Ação Penal n. 937. Ocorre que aquela
ilustre relatora foi vencida na conclusão de que o foro por prerrogativa de função não perdura na
hipótese de mandatos parlamentares cruzados.
Abrindo divergência no julgamento da Pet n. 9.189/DF, o Ministro Edson Fachin adotou
compreensão no sentido de que o foro por prerrogativa de função alcança os casos denominados de
“mandatos cruzados” de parlamentar federal. O entendimento, no entanto, ficou restrito à hipótese de
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continuidade na atividade parlamentar exercida no Congresso Nacional (mais especificamente entre
deputado federal e senador da República, ou entre senador da República e deputado federal). A
conclusão de seu voto ficou assim redigida:
Diante do exposto, DIVIRJO da eminente Ministra relatora, para DAR
PROVIMENTO ao agravo regimental, assentando a competência do SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL para o processo e julgamento das ações penais em que se verifica a
ocorrência dos denominados “mandatos cruzados” de membros do Congresso Nacional,
sem solução de continuidade, nos termos do art. 102, I, b, da Constituição Federal.
O fio condutor do voto divergente na Pet n. 9.189/DF (que logrou firmar-se como
vencedor) fixou-se na premissa de que sucessivas diplomações não devem alterar o foro competente;
ancorou-se no entendimento de que a posição adotada não promove o criticado “sobe e desce
processual” ou “elevador processual” que justificaram a conclusão emanada da Questão de Ordem da
Ação Penal n. 937.
Considero que o substrato fático envolvido na ação penal movida em desfavor do paciente
se aproxima mais daquele examinado na Pet n. 9.189/DF. O paciente é detentor de mandatos cruzados:
sem solução de continuidade, manteve-se no exercício de mandato legislativo diverso. A conclusão que
se impõe é a de que não se justifica a descensão, tampouco a ascensão do foro competente para
conhecer de processo e julgá-lo em seu desfavor. O tão combatido “elevador processual” deve ser
abandonado em ambas as direções possíveis, mantendo-se a competência do TJRJ para o
processamento da investigação criminal e subsequente ação penal em desfavor do paciente.
Nessa linha de entendimento, a condução de medidas cautelares preparatórias por juízo de
primeira instância revelou-se temerária, despida da aparência de regularidade. De fato, não há como se
sustentar que um magistrado de primeira instância era aparentemente competente para investigar um
senador da República que acabara de deixar o cargo de deputado estadual.
E, se o magistrado de primeiro grau era absolutamente incompetente para o deferimento de
medidas cautelares investigativas em desfavor do paciente, não há como se sustentar a viabilidade de
ratificação dessas medidas pelo TJRJ, já que manifestamente nulas.
Com essas considerações, acolho os embargos declaratórios, conferindo-lhes efeitos
infringentes ao julgado, e dou provimento ao agravo regimental e ao recurso ordinário
interpostos pelo paciente, concedendo integralmente a ordem para reconhecer a nulidade das
decisões prolatadas pelo Juízo da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro e a ineficácia da
pretendida ratificação dessas decisões pela Terceira Câmara Criminal do TJRJ.
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É o voto.
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EDcl no AgRg no RECURSO EM HABEAS CORPUS Nº 135.206 - RJ
(2020/0253161-8)
RELATOR : MINISTRO JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR
CONVOCADO DO TJDFT)
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
VOTO-VOGAL
O EXMO. SR. MINISTRO REYNALDO SOARES DA FONSECA:
Trata-se de embargos de declaração opostos por F. N. B contra acórdão,
da relatoria do Ministro Felix Fischer, que negou provimento ao agravo regimental interposto
contra o não provimento do recurso em habeas corpus.
Nos presentes embargos, a defesa afirma, em um primeiro momento, que o
precedente por mim indicado em meu voto vogal – AgRg no HC 510.231/RS – não guarda
relação com a hipótese dos autos. Argumenta que no precedente, "a incompetência do Juízo
foi descortinada em momento posterior, por conta de uma diligência, o que é bem diferente do
presente caso em que um magistrado pretendeu isoladamente decidir sobre a sorte processual
de um Senador por questões atreladas a seu mandato, anterior, de Deputado Estadual, não
havendo suporte jurídico para emprestar aparência de juridicidade à competência que tomou
para si".
Destaca, outrossim, que o Supremo Tribunal Federal ao julgar a Questão de
Ordem na Ação Penal n. 937/RJ, não tratou da situação trazida nos presentes autos, sendo
expressamente recusada pelo Pretório Excelso a extensão da referida linha de entendimento
aos demais cargos. Conclui, dessa forma, que "inexistiam, naquele momento, as circunstâncias
jurídicas suficientes para o afastamento do foro privilegiado e atribuição de competência, ainda
que aparente, ao juiz de primeiro grau".
Pede, assim, o acolhimento dos embargos com efeitos infringentes.
Rememorando a situação dos autos, o recorrente busca, em síntese,
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reconhecimento da incompetência do Juízo de Primeiro Grau, bem como a nulidade de todos
os atos por ele praticados, relativos ao denominado "Caso das Rachadinhas" ou "Esquema dos
Gafanhotos" na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Ao me manifestar no julgamento do agravo regimental, considerei estar
configurada a hipótese do juízo aparente, fazendo um raciocínio sobre o que ficou decidido
Questão de Ordem na Ação Penal n. 937/RJ e chegando à conclusão de que a situação
ensejaria a competência residual do Juízo de 1º grau ( Inq. 4703-Q.O/DF, Primeira Turma,
Relator Ministro LUIZ FUX, DJe de 01/10/2018 - parâmetro que, todavia, não prevaleceu no
Plenário do STF).
Assim, ao refletir novamente sobre a questão, levando em consideração
recente decisão do Supremo Tribunal Federal sobre "mandatos cruzados", bem como os
argumentos trazidos pela defesa nos presentes embargos, constato que o voto apresenta
contradição cujo aclaramento ensejará a alteração do julgado.
De fato, conforme destacado pela defesa, o Supremo Tribunal Federal, ao
limitar o foro por prerrogativa de função, julgou situação específica, distinta da trazida nos
presentes autos, em que há continuidade do mandato eletivo, porém em casa legislativa
distinta.
Em recente julgado, o Supremo Tribunal Federal concluiu que a continuidade
do mandato eletivo, mesmo em casas distintas do Congresso Nacional, autoriza a manutenção
do foro por prerrogativa de função naquela Corte. A propósito, transcrevo a ementa do
referido julgado:
PETIÇÃO. PARLAMENTAR FEDERAL. “MANDATOS CRUZADOS”.
PRORROGAÇÃO DA COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL, DESDE QUE NÃO HAJA SOLUÇÃO DE
CONTINUIDADE ENTRE OS MANDATOS. AGRAVO REGIMENTAL
PROVIDO. 1. O Plenário do Supremo Tribunal Federal, ao julgar
Questão de Ordem suscitada nos autos da AP 937, de relatoria do
eminente Ministro Luís Roberto Barroso, decidiu que a competência
desta Corte para processar e julgar parlamentares, nos termos do
art. 102, I, b, da Constituição Federal, restringe-se aos delitos
praticados no exercício e em razão da função pública. 2.
Vislumbrada a presença das balizas estabelecidas pelo Pleno do
Supremo Tribunal Federal, o foro por prerrogativa de função
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alcança os casos denominados de “mandatos cruzados” de
parlamentar federal. É dizer, admite-se a excepcional e exclusiva
prorrogação da competência criminal originária do Supremo
Tribunal Federal, quando o parlamentar, sem solução de
continuidade, encontrar-se investido, em novo mandato federal,
mas em casa legislativa diversa daquela que originalmente deu
causa à fixação da competência originária, nos termos do art. 102,
I, “b”, da Constituição Federal. 3. Havendo interrupção ou término
do mandato parlamentar, sem que o investigado ou acusado tenha
sido novamente eleito para os cargos de Deputado Federal ou
Senador da República, exclusivamente, o declínio da competência é
medida impositiva, nos termos do entendimento firmado pelo
Plenário do Supremo Tribunal Federal na aludida questão de
ordem. 4. Provido o agravo regimental, para assentar a
manutenção da competência criminal originária do Supremo
Tribunal Federal em hipóteses como a dos presentes autos, em que
verificada a existência de “mandatos cruzados” exclusivamente de
parlamentar federal, ou seja, de parlamentar investido, sem solução
de continuidade, em mandato em casa legislativa diversa daquela
que originalmente deu causa à fixação da competência originária,
nos termos do art. 102, I, “b”, da Constituição Federal. (Pet 9189,
Relator(a): ROSA WEBER, Relator(a) p/ Acórdão: EDSON FACHIN,
Tribunal Pleno, julgado em 12/05/2021, ACÓRDÃO ELETRÔNICO
DJe-134 DIVULG 05-07-2021 PUBLIC 06-07-2021).
A situação retratada no precedente acima transcrito também não se aplica à
presente hipótese, uma vez que não se trata de "mandatos cruzados" do legislativo federal.
Nada obstante, a Constituição Federal dispensa aos Deputados Estaduais o mesmo tratamento
dado aos Deputados Federais (art. 27, § 1º, CF). Dessa forma, não havendo solução de
continuidade do mandato, tem-se que a escolha do juízo de 1º grau na presente hipótese,
não guarda aparência de legalidade.
Com efeito, não estando a situação dos autos abrangida pela Questão de
Ordem na Ação Penal n. 937/RJ e já tendo o Supremo Tribunal Federal negado seguimento à
Reclamação n. 32.989/RJ, consignando que "o fato de alcançar-se mandato diverso daquele
no curso do qual supostamente praticado delito não enseja o chamado elevador
processual", deve se concluir que o juízo aparentemente competente seria o anterior, ou seja, o
Tribunal de Justiça, e não o Juízo de 1º grau, que nunca teve competência, nem durante o
mandato de deputado estadual, nem durante o mandato de senador da república, para o qual
foi eleito sem solução de continuidade.
Documento: 2089802 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 17/11/2021 Página 24 de 8
Superior Tribunal de Justiça
Reitero que não se está aqui a definir o juízo competente, uma vez que não
compete ao Superior Tribunal de Justiça se antecipar e afirmar o Juízo competente. De fato, a
matéria está pendente de julgamento perante o Supremo Tribunal Federal, tendo sido,
inclusive, deferida a Medida Cautelar na Reclamação n. 41.910/RJ, pelo Ministro Gilmar
Mendes, determinando que o Órgão Especial do Tribunal de Justiça se abstenha de adotar
qualquer ato judicial que possa reformar a decisão da Terceira Câmara Criminal.
Nessa linha de inteleção, peço licença ao eminente relator, para, aclarando a
contradição identificada com relação aos precedentes indicados, concluir pela inaplicabilidade
da teoria do juízo aparente na presente hipótese, o que enseja a nulidade de todos os atos
praticados pelo Magistrado de origem.
Ante o exposto, com as vênias devidas, acolho os embargos com efeito
infringentes, para dar provimento ao agravo regimental e por conseguinte ao recurso em
habeas corpus, concedendo a ordem de ofício para anular os atos praticados pelo Juízo de 1º
grau.
Ressalto, por oportuno, que a decisão referente à Quebra de sigilo já tinha
sido afastada em outro writ e o compartilhamento de dados entre o COAF e o MP,
legitimado em outro remédio constitucional, na esteira dos precedentes da Suprema Corte de
Justiça Nacional e deste Tribunal da Cidadania. Tais decisões permanecem íntegras.
É como voto.
Documento: 2089802 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 17/11/2021 Página 25 de 8
Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA
EDcl no AgRg no
Número Registro: 2020/0253161-8 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 135.206 / RJ
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 0011759-58.2020.8.19.0000 00117595820208190000 117595820208190000 201800452470
202014100624 3207706920198190001 870864020198190001
EM MESA JULGADO: 24/08/2021
SEGREDO DE JUSTIÇA
Relator
Exmo. Sr. Ministro JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT)
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. FRANCISCO DE ASSIS VIEIRA SANSEVERINO
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
ASSUNTO: DIREITO PROCESSUAL PENAL - Jurisdição e Competência
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"Julgamento adiado por indicação do Sr. Ministro Relator"
Documento: 2089802 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 17/11/2021 Página 26 de 8
Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA
EDcl no AgRg no
Número Registro: 2020/0253161-8 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 135.206 / RJ
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 0011759-58.2020.8.19.0000 00117595820208190000 117595820208190000 201800452470
202014100624 3207706920198190001 870864020198190001
EM MESA JULGADO: 14/09/2021
SEGREDO DE JUSTIÇA
Relator
Exmo. Sr. Ministro JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT)
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK
Subprocurador-Geral da República
Exmo. Sr. Dr. JOÃO PEDRO DE SABOIA BANDEIRA DE MELLO FILHO
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
ASSUNTO: DIREITO PROCESSUAL PENAL - Jurisdição e Competência
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"Julgamento adiado por indicação do Sr. Ministro Relator"
Documento: 2089802 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 17/11/2021 Página 27 de 8
Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA
EDcl no AgRg no
Número Registro: 2020/0253161-8 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 135.206 / RJ
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 0011759-58.2020.8.19.0000 00117595820208190000 117595820208190000 201800452470
202014100624 3207706920198190001 870864020198190001
EM MESA JULGADO: 21/09/2021
SEGREDO DE JUSTIÇA
Relator
Exmo. Sr. Ministro JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT)
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK
Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. MÔNICA NICIDA GARCIA
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
ASSUNTO: DIREITO PROCESSUAL PENAL - Jurisdição e Competência
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
"Após o voto do Sr. Ministro Relator rejeitando os embargos de declaração, pediu vista o
Sr. Ministro João Otávio de Noronha."
Aguardam os Srs. Ministros Reynaldo Soares da Fonseca, Ribeiro Dantas e Joel Ilan
Paciornik.
Documento: 2089802 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 17/11/2021 Página 28 de 8
Superior Tribunal de Justiça
CERTIDÃO DE JULGAMENTO
QUINTA TURMA
EDcl no AgRg no
Número Registro: 2020/0253161-8 PROCESSO ELETRÔNICO RHC 135.206 / RJ
MATÉRIA CRIMINAL
Números Origem: 0011759-58.2020.8.19.0000 00117595820208190000 117595820208190000 201800452470
202014100624 3207706920198190001 870864020198190001
EM MESA JULGADO: 09/11/2021
SEGREDO DE JUSTIÇA
Relator
Exmo. Sr. Ministro JESUÍNO RISSATO (DESEMBARGADOR CONVOCADO DO TJDFT)
Relator para Acórdão
Exmo. Sr. Ministro JOÃO OTÁVIO DE NORONHA
Presidente da Sessão
Exmo. Sr. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK
Subprocuradora-Geral da República
Exma. Sra. Dra. ÁUREA M. E. N. LUSTOSA PIERRE
Secretário
Me. MARCELO PEREIRA CRUVINEL
AUTUAÇÃO
RECORRENTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
RECORRIDO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
ASSUNTO: DIREITO PROCESSUAL PENAL - Jurisdição e Competência
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO
EMBARGANTE : FNB
ADVOGADOS : RODRIGO HENRIQUE ROCA PIRES E OUTRO(S) - RJ092632
LUCIANA BARBOSA PIRES E OUTRO(S) - RJ130715
EMBARGADO : MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
CERTIDÃO
Certifico que a egrégia QUINTA TURMA, ao apreciar o processo em epígrafe na sessão
realizada nesta data, proferiu a seguinte decisão:
" Prosseguindo no julgamento, a Turma, por maioria, acolheu os embargos, com efeitos
infringentes, para dar provimento ao agravo regimental e ao recurso em habeas corpus e conceder
ordem de ofício, nos termos do voto do Sr. Ministro João Otávio de Noronha, que lavrará o
acórdão."
Votaram com o Sr. Ministro João Otávio de Noronha os Srs. Ministros Reynaldo Soares
da Fonseca, Ribeiro Dantas e Joel Ilan Paciornik.
Votou vencido o Sr. Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT).
Documento: 2089802 - Inteiro Teor do Acórdão - Site certificado - DJe: 17/11/2021 Página 29 de 8