CONCRETISMO
“O poema concreto é uma realidade em si, não um poema sobre” (Eugen Gomringer)
O que, de Arnaldo Antunes
Elegia Holandesa
José Paulo Paes
TEORIZANDO
No contexto da poesia brasileira, o Concretismo afirmou-se como
antítese à vertente intimista e estetizante dos anos 40 e
repropôs temas, formas e, não raro, atitudes peculiares ao
Modernismo de 22 em sua fase mais polêmica e mais aderente às
vanguardas europeias [...] (o som, a letra impressa, a linha, a
superfície da página; eventualmente a cor, a massa) e, por isso,
levam a rejeitar toda concepção que esgote nos temas ou na
realidade psíquica do emissor o interesse e a valia da obra. A
poesia concreta quer-se antiexpressionista”.
BOSI, Alfredo. In. História concisa da literatura brasileira.
Contexto
histórico-social
Período após a 2ª Guerra Mundial;
Processo de urbanização: construção de grandes
prédios, estruturas metálicas e asfaltamento;
Popularização da fotografia;
Publicação da Revista Noigandres.
MOVIMENTAÇÃO CULTURAL
Teatro Oficina Inauguração do MAM
1 3
Teatro Oficina (1958), localiza Museu de Arte Moderna de São
no prédio do homônimo Teatro Paulo (1948), no Parque Ibirapuera,
Oficina, no bairro paulistano do projetado por Oscar Niemeyer e
Bixiga. reformado por Lina Bo Bardi.
Companhia de Inauguração do MASP
2 Cinema Vera Cruz 4
A Companhia Cinematográfica Museu de Arte de São Paulo
Vera Cruz foi um importante (1968), na Avenida Paulista,
estúdio cinematográfico brasileiro arquiteta: Lina Bo Bardi.
que produziu e distribuiu filmes
entre 1949 e 1954.
Surgiu com a publicação em
1956 da revista Noigrandes, que
lançou o concretismo na literatura
brasileira, com os irmãos Augusto e
Haroldo Campos e Décio Pignatari.
Augusto Campos traduziu Noigandres
como sendo o “Antídoto do Tédio”.
Arte concreta Luiz Sacilotto. Concreção 8692, 1986
02
Jupiter
01 04
Mars Saturn
03
Geraldo de Barros. Sem título, 1983 Luiz Sacilotto. Concreção 005, 2002
Waldemar Cordeiro. Movimento, 1952
Grupo Ruptura
Arte concreta Aluísio Carvão. Composição, 1953.
02
Jupiter
01 04
Mars Saturn
03
Ivan Serpa. Formas, 1951 Lygia Pape. Piraquê, 1960
Lygia Pape. Tecelar, 1957
Grupo Frente
Estrutura
1
verbivocovisual VERBI
Refere-se à escolha lexical
e semântica da palavra.
2 VOCO
Refere-se ao som produzido na
repetição de consoantes ou vogais.
3 VISUAL
Giro, de Marcelo Moura
Refere-se à imagem projetada,
ocupando os espaços do suporte.
Fluvial/pluvial, de Augusto de Campos Alfabismo, de Álvaro de Sá
Características gerais
■ Poesia espacial: aproveita-se os espaços em branco – rompimento com as
convenções da escrita;
■ Ênfase na racionalidade, no raciocínio e na ciência, abolindo a subjetividade;
■ Uso de figuras abstratas nas artes plásticas em vez de muitas palavras;
■ Na literatura, os poetas concretistas buscavam utilizar efeitos gráficos,
aproximando a poesia da linguagem a do design;
■ Influência de Oswald de Andrade;
■ Ausência de versos.
Décio Pignatari
Poeta, ensaísta, tradutor, contista, romancista,
dramaturgo, publicitário e professor, nasce em Jundiaí,
São Paulo, filho de imigrantes italianos, mas cedo
transfere-se para Osasco, onde mora até os 25 anos.
décio pignatari: terra, 1956 décio pignatari: um movimento, 1956
décio pignatari: beba coca-cola, 1957
Augusto de Campos
Poeta, tradutor e ensaísta, nasce em São Paulo, irmão
mais novo do também poeta, tradutor e ensaísta
Haroldo de Campos (1929 - 2003). Em 1949, é
publicado na Revista Brasileira de Poesia, do Clube de
Poesia de São Paulo, ligado à chamada Geração de 45.
augusto de campos: tudo está dito, 1974 augusto de campos: código, 1973
augusto de campos: dias dias dias, 1953
Ouça na voz de Caetano Veloso:
https://www.youtube.com/watch?v=Hlgkz-g-ukc
augusto de campos: o pulsar, 1975
Haroldo de Campos
Poeta, tradutor, ensaísta e professor, nasce em São
Paulo, irmão mais velho do também poeta, tradutor e
ensaísta Augusto de Campos (1931). Em 1950, publica
seu primeiro livro de poesias, O Auto do Possesso, pelo
Clube de Poesia de São Paulo, ligado à chamada
Geração de 45, com a qual rompe no ano seguinte.
haroldo de campos: nascemorre, 1965
haroldo de campos: poema sem título, 1958 haroldo de campos: crisantempo, 1998
Desdobramentos
Avelino de Araújo
José Lino Grüneward
José Paulo Paes Philadelpho Menezes
POEMA PRÁXIS POEMA PROCESSO
Palavra que gera outras palavras Uso, sobretudo, da linguagem não-
– palavra energia – comutação. verbal – influência publicitária.
“A ‘poesia concreta’ propõe o útil: o poema, como
um objeto de consumação, integrado na vida
cotidiana, como ‘forma mentis’ fecunda de
sugestões à propaganda, às manchetes, ao rádio,
cinema, t., etc.; o livro, como um objeto verbal
totalmente planejado, de fruição integral”.
Augusto de Campos
Neoconcretismo
O movimento Neoconcreto foi fundado por Amilcar de
Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann,Lygia Clark, Lygia Pape,
que não apenas renegou o concretismo, como passou a combatê-lo,
vendo na poética inovadora da década de 1950 apenas um
vanguardismo vazio e historicamente datado: “Trata-se de uma
poesia artificiosa, imposta pela teoria. Uma novidade que logo
passou.”
■ Percepção de que o poema precisa, também, de lirismo;
■ Mostra a realidade do homem de forma complexa;
■ Utiliza a linguagem escrita;
■ Os sentimentos do eu-lírico são importantes.
■ Luta contra a opressão e a injustiça social
Ferreira Gullar
O autor atravessou diversas fases em sua carreira, no entanto é
possível, ainda assim, traçar o seu norte artístico. O autor tinha
como características principais:
Primórdios do concretismo;
Exploração das palavras enquanto sentido vocal e gráfico;
Quebra das concepções líricas;
Anos mais tarde, o autor adota um lirismo exacerbado em seu texto
depois de quebra com o Concretismo (pós anos de 1950);
Reflexão da existência humana e existencialismo presente;
Preocupação com o social – engajamento.
Poema Brasileiro Não há Vagas
No Piauí de cada 100 crianças que nascem O preço do feijão
78 morrem antes de completar 8 anos de idade não cabe no poema. O preço
do arroz
No Piauí não cabe no poema.
de cada 100 crianças que nascem Não cabem no poema o gás
78 morrem antes de completar 8 anos de idade a luz o telefone
a sonegação
No Piauí do leite
de cada 100 crianças da carne
que nascem do açúcar
78 morrem do pão
antes O funcionário público
de completar não cabe no poema
8 anos de idade com seu salário de fome
“não há vagas”
sua vida fechada
Só cabe no poema
antes de completar 8 anos de idade em arquivos.
o homem sem estômago
antes de completar 8 anos de idade Como não cabe no poema
a mulher de nuvens
antes de completar 8 anos de idade o operário
a fruta sem preço
antes de completar 8 anos de idade que esmerila seu dia de aço
O poema, senhores,
e carvão
não fede
nas oficinas escuras
nem cheira
— porque o poema, senhores,
está fechado:
Poema sujo o cavalo
(trecho) azul
turvo turvo teu cu
a turva tua gengiva igual a tua bocetinha
mão do sopro que parecia sorrir entre as folhas de
contra o muro banana entre os cheiros de flor
escuro e bosta de porco aberta como
menos menos uma boca do corpo
menos que escuro (não como a tua boca de palavras) como uma
menos que mole e duro entrada para
menos que fosso e muro: menos que furo eu não sabia tu
escuro não sabias
mais que escuro: fazer girar a vida
claro com seu montão de estrelas e oceano
como água? como pluma? entrando-nos em ti
claro mais que claro claro: coisa alguma bela bela
e tudo mais que bela
(ou quase) mas como era o nome dela?
um bicho que o universo fabrica Não era Helena nem Vera
e vem sonhando desde as entranhas nem Nara nem Gabriela
azul nem Tereza nem Maria
era o gato Seu nome seu nome era…
azul Perdeu-se na carne fria
era o galo perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia
azul
LYGIA PAPE
Lygia Pape (Nova Friburgo, Rio de
Janeiro, 1927 - Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 2004). Escultora,
gravadora e cineasta. Aproxima-se
do concretismo, integrando o
Grupo Frente, e em março de
1959 é uma das signatárias
do Manifesto Neoconcreto.
O OVO, 1968
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LÍNGUA APUNHALADA, 1968
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EAT ME, 1976
A Gula ou a Luxúria?
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LYGIA CLARK
Lygia Clark, pseudônimo de Lygia
Pimentel Lins foi uma pintora e
escultora brasileira contemporânea
que se autointitulava "não artista".
BICHOS, 1961
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CAMINHANDO, 1964
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ROUPA-CORPO-ROUPA, 1965
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HÉLIO OITICICA
Hélio Oiticica foi um pintor, escultor, artista
plástico e performático de aspirações
anarquistas. É considerado um dos maiores
artistas da história da arte brasileira.
GRANDE NÚCLEO, 1960
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PARANGOLÉS, 1960
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TROPICÁLIA, 1969
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VAMOS
TREINAR?
Questões ENEM.
EGO
Marcelo Sahea: Ego
ENEM 2015
da sua memória
Trabalhando com recursos formais inspirados no
mil
Concretismo, o poema atinge uma expressividade
e
que se caracteriza pela
mui
a) interrupção da fluência verbal, para testar os
tos
limites da lógica racional.
out
b) reestruturação formal da palavra, para provocar o
ros
estranhamento no leitor.
ros
c) dispersão das unidades verbais, para questionar o
tos
sentido das lembranças.
sol
d) fragmentação da palavra, para representar o
tos
estreitamento das lembranças.
pou
e) renovação das formas tradicionais, para propor
coa
uma nova vanguarda poética.
pou
coa A fragmentação das palavras fica evidente em praticamente todos os
pag versos, sugerindo visualmente um processo de estreitamento das
lembranças.
amo
meu
ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo:
Perspectiva, 1998.
ENEM 2004
O poema abaixo pertence à poesia concreta
brasileira. O termo latino de seu título significa
“epitalâmio”, poema ou canto em homenagem
aos que se casam.
Considerando que símbolos e sinais são utilizados
geralmente para demonstrações objetivas, ao
serem incorporados no poema “Epithalamium - II”,
a) adquirem novo potencial de significação.
b) eliminam a subjetividade do poema.
c) opõem-se ao tema principal do poema.
d) invertem seu sentido original.
e) tornam-se confusos e equivocados.
Os símbolos (A) adquirem novo potencial de significação. As notações
utilizadas criam uma sequência de imagens mentais subjetivas.
ENEM 2013
Meu povo, meu poema O texto Meu povo, meu poema, de Ferreira Gullar, foi
Meu povo e meu poema crescem juntos escrito na década de 1970. Nele, o diálogo com o
Como cresce no fruto contexto sociopolítico em que se insere expressa uma
A árvore nova voz poética que
No povo meu poema vai nascendo a) precisa do povo para produzir seu texto, mas se
Como no canavial esquiva de enfrentar as desigualdades sociais.
Nasce verde o açúcar b) dilui a importância das contingências políticas e sociais
No povo meu poema está maduro na construção de seu universo poético.
Como o sol c) associa o engajamento político à grandeza do fazer
Na garganta do futuro poético, fator de superação da alienação do povo
Meu povo em meu poema d) afirma que a poesia depende do povo, mas esse nem
Se reflete sempre vê a importância daquela nas lutas de classe.
Como espiga se funde em terra fértil e) reconhece, na identidade entre o povo e a poesia, uma
Ao povo seu poema aqui devolvo etapa de seu fortalecimento humano e social.
Menos como quem canta Para essa questão, o candidato precisaria analisar as relações, já expostas
Do que planta no título “Meu povo, meu poema”, entre o Povo e o Poema, que crescem
juntos e se interligam nos eventos expostos nos versos de Ferreira Gullar.
FERREIRA GULLAR. Toda poesia. José Olympio: Rio
de Janeiro, 2000.
ENEM 2017
Sou um homem comum
brasileiro, maior, casado, reservista,
e não vejo na vida, amigo No poema, ocorre uma aproximação entre a
nenhum sentido, senão realidade social e o fazer poético, frequente no
lutarmos juntos por um mundo melhor.
Poeta fui de rápido destino Modernismo. Nessa aproximação, o eu lírico atribui
Mas a poesia é rara e não comove à poesia um caráter de
nem move o pau de arara. a) agregação construtiva e poder de intervenção na
Quero, por isso, falar com você
de homem para homem,
ordem instituída.
apoiar-me em você b) força emotiva e capacidade de preservação da
oferecer-lhe meu braço memória social.
que o tempo é pouco c) denúncia retórica e habilidade para sedimentar
e o latifúndio está aí matando
[…]
sonhos e utopias.
Homem comum, igual d) ampliação do universo cultural e intervenção nos
a você, valores humanos.
[…] e) identificação com o discurso masculino e
Mas somos muitos milhões de homens
comuns questionamento dos temas líricos.
e podemos formar uma muralha O autor quer, além de demonstrar uma insatisfação com a ordem instituída,
com nossos corpos de sonhos e margaridas. provocar mudanças, característica do período Modernista. (interpretação,
Modernismo)
FERREIRA GULLAR. Dentro da noite veloz.
Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 (fragmento)