O Universo elegante: Supercordas, dimensões
ocultas e a busca da teoria definitiva
Brian Greene
A minha mãe e à memória de meu pai, com amor e gratidão
Prefácio
Nos últimos trinta anos da sua vida, Einstein buscou sem descanso a
chamada teoria do campo unificado — uma teoria capaz de descrever as forças da
natureza por meio de um esquema único, completo e coerente. As motivações de
Einstein não eram as que normalmente inspiram os empreendimentos científicos,
como a busca de explicações para este ou aquele conjunto de dados experimentais.
Ele acreditava apaixonadamente que o conhecimento mais profundo do universo
revelaria a maior das maravilhas: a simplicidade e a potência dos princípios que o
estruturam. Einstein queria iluminar os mecanismos da natureza com uma luz nunca
antes alcançada, que nos permitiria contemplar, em estado de encantamento, toda a
beleza e a elegância do universo.
Ele nunca realizou o seu sonho, em grande parte porque as circunstâncias
não o favoreciam, já que em sua época várias características essenciais da matéria
e das forças da natureza eram desconhecidas ou, quando muito, mal
compreendidas. Mas durante os últimos cinqüenta anos, as novas gerações de
físicos — entre promessas, frustrações e incursões por becos sem saída — vêm
aperfeiçoando progressivamente as descobertas feitas por seus predecessores e
ampliando os nossos conhecimentos sobre a maneira como funciona o universo. E
agora, tanto tempo depois de Einstein ter empreendido em vão a busca de uma
teoria unificada, os físicos acreditam ter encontrado finalmente a forma de combinar
esses avanços em um todo articulado — uma teoria integrada, capaz, em princípio,
de descrever todos os fenômenos físicos. Essa teoria, a teoria das supercordas, é o
tema deste livro.
Escrevi O universo elegante com o objetivo de tornar acessível a uma ampla
faixa de leitores, especialmente aos que não conhecem física e matemática, o
notável fluxo de idéias que compõe a vanguarda da física atual. Nas conferências
que tenho feito nos últimos anos sobre a teoria das supercordas, percebi no público
um vivo desejo de conhecer o que dizem as pesquisas atuais sobre as leis
fundamentais do universo, de como essas leis requerem um gigantesco esforço de
reestruturação dos nossos conceitos a respeito do cosmos e dos desafios que terão
de ser enfrentados na busca da teoria definitiva. Espero que os dois elementos que
constituem este livro — a explicação das principais conquistas da física desde
Einstein e Heisenberg e o relato de como as suas descobertas vieram a florescer
com vigor nos avanços radicais da nossa época — venham a satisfazer e enriquecer
essa curiosidade.
Espero ainda que O universo elegante interesse também aqueles leitores que
de fato têm conhecimentos científicos. Para os estudantes e professores de
ciências, espero que o livro logre cristalizar alguns dos elementos básicos da física
moderna, como a relatividade especial, a relatividade geral e a mecânica quântica, e
ao mesmo tempo possa transmitir a euforia contagiante que sentem os
pesquisadores ao se aproximarem da conquista tão ansiosamente aguardada da
teoria unificada. Para o leitor ávido por ciência popular, tratei de explicar aspectos do
extraordinário progresso que o nosso conhecimento do cosmos experimentou na
última década. E para os meus colegas de outras disciplinas científicas, espero que
o livro lhes dê uma indicação honesta e equilibrada de por que os estudiosos das
cordas estão tão entusiasmados com os avanços alcançados na busca da teoria
definitiva da natureza.
A teoria das supercordas engloba uma grande área. E um tema amplo e
profundo, relacionado com muitas das descobertas capitais da física. Como ela
unifica as leis do grande e do pequeno, leis que regem a física desde as unidades
mínimas da matéria até as distâncias máximas do cosmos, são múltiplas as
maneiras de abordá-la. Decidi focalizá-la a partir da evolução da percepção que
temos do espaço e do tempo. Creio que esse é um caminho especialmente
interessante por permitir uma visão fascinante e rica das novas maneiras de pensar.
Einstein mostrou ao mundo que o espaço e o tempo comportam-se de
maneiras incomuns e surpreendentes. Agora, as pesquisas mais recentes
conseguiram integrar as suas descobertas a um universo quântico, com numerosas
dimensões ocultas, enroladas dentro do tecido cósmico — dimensões cuja
geometria prodigamente entrelaçada pode propiciar a chave para a compreensão de
algumas das questões mais profundas que já enfrentamos. Embora alguns destes
conceitos sejam sutis, veremos que podem ser apreendidos através de analogias
comuns. Uma vez compreendidas, essas idéias proporcionam uma perspectiva
deslumbrante e revolucionária do universo.
Em todo o transcorrer do livro, procurei manter o padrão científico e, ao
mesmo tempo, dar ao leitor — freqüentemente por meio de analogias e metáforas —
a compreensão intuitiva de como os cientistas chegaram à concepção atual do
cosmos. Embora eu tenha evitado o uso de linguagem técnica e a apresentação de
equações, a natureza radicalmente nova dos conceitos aqui considerados pode
forçar o leitor a fazer uma pausa em alguns pontos, a meditar aqui e ali, ou a refletir
sobre as explicações dadas, de modo a acompanhar a progressão das idéias.
Certas seções da parte IV (a respeito dos avanços mais recentes) são mais
abstratas que as demais; tomei o cuidado de advertir o leitor sobre essas seções e
de estruturar o texto de modo que elas possam ser lidas superficialmente ou mesmo
saltadas sem maior impacto sobre o fluxo lógico do livro. Incluí um glossário de
termos científicos com o objetivo de propiciar definições simples e acessíveis para
as idéias apresentadas no texto. Embora o leitor menos comprometido possa ignorar
totalmente as notas finais, o mais aplicado encontrará aí observações adicionais,
esclarecimentos de idéias expostas de maneira simplificada no texto, bem como
incursões técnicas para os que gostam de matemática.
Devo agradecer a muitas pessoas pela ajuda recebida durante a preparação
deste livro. David Steinhardt leu o manuscrito com atenção e generosidade, além de
propiciar inestimáveis incentivos e comentários editoriais precisos. David Morrison,
Ken Vineberg, Raphael Kasper, Nicholas Boles, Steven Carlip, Arthur Greenspoon,
David Mermin, Michael Popowitz e Shani Offen leram o manuscrito detalhadamente
e ofereceram sugestões que em muito beneficiaram a apresentação da obra. Outros
que leram o manuscrito total ou parcialmente e forneceram conselhos e incentivos
foram Paul Aspinwail, Persis Drell, Michael Duff, Kurt Gottfried, Joshua Greene,
Teddy Jefferson, Marc Kamionkowski, Yakov Kanter, Andras Kovacs, David Lee,
Megan McEwen, Nari Mistry, Hasan Padamsee, Ronen Plesser, Massimo Poratti,
Fred Sherry, Lars Straeter, Steven Strogatz, Andrew Strominger, Henry Tye, Cumrun
Vafa e Gabriele Veneziano. Devo agradecimentos especiais a Raphael Gunner,
entre outras coisas pelas críticas feitas logo ao início do trabalho, que me ajudaram
a dar-lhe a forma definitiva, e a Robert Malley, por seu incentivo suave e persistente
para que eu passasse do estágio de pensar no livro para o de escrevê-lo. Steven
Weinberg e Sidney Coleman contribuíram com sua assistência e conselhos valiosos,
e é um prazer registrar as muitas interações positivas com Carol Archer, Vicky
Carstens, David Cassei, Anne Coyle, Michael Duncan, Jane Forman, Wendy
Greene, Susan Greene, Erikjendresen, Gary Kass, Shiva Kumar, Robert Mawhinney,
Pam Morehouse, Pierre Ramond, Amanda Salles e Elero Simoncelli. Devo a Costas
Efthimiou a ajuda nas pesquisas de confirmação e na organização das referências,
bem como na transformação de meus esboços preliminares em desenhos gráficos, a
partir dos quais Torn Rockwell criou — com paciência de santo e olhos de artista —
as figuras que ilustram o texto. Agradeço também a Andrew Hanson e Jim Sethna
pela ajuda na preparação de algumas figuras especializadas.
Por concordarem em ser entrevistados e oferecer suas próprias perspectivas
em diversos tópicos, agradeço a Howard Georgi, Sheldon Glashow, Michael Green,
John Schwarz, John Wheeler, Edward Witten e, novamente, a Andrew Strominger,
Cumrun Vafa e Gabriele Veneziano.
Fico feliz em reconhecer as penetrantes observações e as inestimáveis
sugestões de Angela Von der Lippe e a aguda sensibilidade para o detalhe de Traci
Nagie, minhas editoras na W. W. Norton, que aumentaram significativamente a
clareza da apresentação. Agradeço ainda a meus agentes literários, John Brockman
e Katinka Matson, por sua excelente orientação na arte de "pastorear" o livro do
começo ao fim.
Por haverem apoiado com generosidade as minhas pesquisas em física
teórica por mais de quinze anos, expresso meu reconhecimento e gratidão à
National Science Foundation, à Alfred P. Sloan Foundation e ao Departamento de
Energia do Governo dos Estados Unidos. Não é surpresa para ninguém que a minha
pesquisa se concentrou no impacto da teoria das supercordas sobre os nossos
conceitos de espaço e tempo, e nos capítulos finais do livro eu descrevo algumas
das descobertas em que tive a felicidade de participar. Apesar da minha esperança
de que o leitor aprecie a leitura destes relatos "íntimos", temo que eles possam dar
uma idéia exagerada do papel que desempenhei no desenvolvimento da teoria das
supercordas. Permitam-me, portanto, aproveitar esta oportunidade para homenagear
os mais de mil físicos de todo o mundo que participam de maneira dedicada e crucial
do esforço de compor a teoria definitiva do universo. Peço perdão a todos aqueles
cujo trabalho não foi incluído neste relato; isso reflete apenas a perspectiva temática
que escolhi e as limitações de tamanho de uma apresentação de caráter geral.
Agradeço também o trabalho de tradução deste texto para a língua
portuguesa, feito por José Viegas Filho, assim como a revisão técnica realizada por
Rogério Rosenfeld.
Finalmente, expresso os meus profundos agradecimentos a Ellen Archer por
seu amor e seu apoio incansável, sem os quais este livro nunca teria sido escrito.