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orno aconteceu de o ensino de literatura na escola ter-
se tornado o que é atualmente? Pode-se, inicialmente, dar a
essa questão uma resposta simples: trata-se do reflexo de
uma mutação ocorrida no ensino superior. Se os professores
de literatura, em sua grande maioria, adotaram essa nova
ótica na escola, é porque os estudos literários evoluíram
da mesma maneira na universidade: antes de serem profes-
sores, eles foram estudantes. Essa mutação ocorreu uma
geração mais cedo, nos anos 1960 e 1970, e sob a ban-
deira do "estruturalismo". Por ter participado desse movi-
mento, eu deveria sentir-me responsável pelo estado atual
da disciplina?
Quando cheguei à França, no início dos anos 1960, os
estudos literários universitários eram dominados, torno a
lembrar, por tendências bem diferentes das de hoje. Ao lado
de uma explicação do texto (essencialmente uma prática
T Z V E T A N TODOROV A Literatura em Perigo
empírica), pedia-se principalmente aos estudantes que se cujo tema era " O ensino da literatura", em Cérisy-la-Salle.
moldassem a u m contexto histórico e nacional; os raros Ao reler hoje minha conclusão dos debates, acho-a bastante
especialistas a fazer exceção a essa regra ensinavam fora do desarticulada (é a transcrição de uma intervenção oral), mas
território francês ou fora das cadeiras de estudos literários. clara nesse ponto. Eu procurava introduzir ali a ideia de uma
Antes de se interrogarem longamente sobre o sentido das poética e acrescentava: "A desvantagem desse tipo de traba-
obras, os doutorandos preparavam um inventário exaustivo lho é, digamos, sua modéstia, o fato de não ir longe o sufi-
acerca de tudo que as cercava: biografia do autor, protótipos ciente, não passando de um estudo preliminar, que consiste
possíveis das personagens, variantes da obra, além das rea- precisamente em constatar e identificar as categorias em jogo
ções provocadas por ela em seu tempo. Eu sentia a necessi- no texto literário, e não a nos falar do sentido do texto." 1
dade de equilibrar essa abordagem com outras, com as quais M i n h a intenção (e a das pessoas que me cercavam na
me familiarizei graças a leituras em línguas estrangeiras, a época) era a de estabelecer um melhor equilíbrio interno e
dos formalistas russos, dos teóricos alemães do estilo e das externo, como entre teoria e prática. Entretanto, não f o i
formas (Spitzer, Auerbach, Kayser) e dos autores do New assim que as coisas se passaram. O espírito de M a i o de 68,
Criticism americano. Pretendia também que, em vez de pro- que não tinha propriamente em si nada a ver com a orientação
ceder de maneira puramente intuitiva, fossem explicitadas as dos estudos literários, transformou as estruturas universitárias
noções utilizadas na análise literária; para esse fim, trabalhei, e modificou profundamente as hierarquias então existentes.
junto com Genette, na elaboração de uma "poética", ou O ponteiro da balança não se deteve num ponto de equilí-
estudo das propriedades do discurso literário. brio, indo muito além na direção oposta: hoje, prevalecem
A meu ver, tanto hoje quanto naquela época, a aborda- as abordagens internas e as categorias da teoria literária.
gem interna (estudo das relações dos elementos da obra Tal mutação nos estudos universitários de literatura não
entre si) devia completar a abordagem externa (estudo do pode ser explicada somente pela influência do estruturalis-
contexto histórico, ideológico, estético). O aumento da pre- mo; o u , se preferirmos, é necessário tentar compreender de
cisão dos instrumentos de análise permitia estudos mais agu- onde vem a força dessa influência. Aqui, a concepção subja-
dos e rigorosos; o objetivo último, porém, permanecia a cente que fazemos da literatura deve ser avaliada. N o decor-
compreensão do sentido das obras. Em 1969, organizei, em rer do período anterior, que durou mais de um século, a
colaboração com Serge Dõubrovsky, um colóquio de dez dias história literária dominou o ensino universitário; isto é,
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tratava-se essencialmente de um estudo de causas que con- sagrados. Sem qualquer surpresa, os alunos do ensino médio
duzem ao surgimento da obra: as forças sociais, políticas, aprendem o dogma segundo o qual a literatura não tem rela-
étnicas e psíquicas, das quais o texto literário supostamente ção com o restante do mundo, estudando apenas as relações
deveria ser a consequência; ou, ainda, os efeitos desse texto, dos elementos da obra entre si. O que, não se duvida, contri-
sua difusão, seu impacto no público, sua influência sobre bui para o desinteresse crescente que esses alunos demons-
outros autores. A preferência, assim, era concedida à inser- tram pela filière littéraire:* em poucas décadas, o número
ção da obra literária numa cadeia causal. O estudo do senti- passou de 3 3 % para 10% dos inscritos no bac geral! Por que
do, em contrapartida, era considerado com muita suspeita. estudar literatura se ela não é senão a ilustração dos meios
Esse estudo era criticado por nunca poder se tornar científi- necessários à sua análise? Ao término de seu percurso, de
co o bastante, sendo então abandonado a outros comentado- fato, os estudantes de Letras se vêem diante de uma escolha
res, desvalorizados, a escritores ou a críticos de jornais. A brutal: ou se tornam, por sua vez, professores de literatura,
tradição universitária não concebia a literatura como, em ou partem para o desemprego.
primeiro lugar, a encarnação de um pensamento e de uma De forma diferente do ensino no primeiro e segundo
sensibilidade, tampouco como interpretação do mundo. graus, a universidade não obedece a programas comuns, o
Essa tendência de longa duração pode ser reencontrada que permite encontrar, no ensino universitário, representan-
de maneira exacerbada na fase mais recente dos estudos lite-
rários. Decide-se neste momento (para citar apenas uma
entre m i l formulações) que "a obra impõe o advento de uma * N a França, a estrutura do ensino superior difere da brasileira. A o
ordem em estado de ruptura com o existente, a afirmação de lado das universidades, existem as Grandes Escolas, destinadas, em
um reino que obedece a suas leis e lógicas próprias", ex- 2 princípio, a receber e a f o r m a r a elite intelectual do país. Após o d i p l o -
m a de conclusão do ensino médio, o aluno que escolhe não entrar
cluindo uma relação com o "mundo empírico" ou a "realida-
numa universidade pode se candidatar a frequentar p o r 2 o u 3 anos os
de" (palavras que só passam a ser usadas entre aspas). Dito cursos preparatórios para as Grandes Escolas. Esses cursos, patrocina-
de outra forma, a partir de agora, a obra literária é represen- dos pelo Estado, dividem-se em 3 grupos importantes o u filières: o
tada como um objeto de linguagem fechado, auto-suficiente, literário (destinado aos estudos de literatura, história, filosofia, políti-
ca e t c ) , o c i e n t í f i c o e o e c o n ó m i c o / c o m e r c i a l . E n t r e as Grandes
absoluto. Em 2006, na universidade francesa, essas generali-
Escolas, u m a das mais prestigiadas é a École N o r m a l e Supérieure, que
zações abusivas ainda são apresentadas como postulados tem sede em Paris. (N.T.)
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tes das mais diversas, e mesmo das mais contraditórias, esco- exigências, essas disciplinas se tornaram, por sua vez, objetos
las de pensamento. Permanece o fato de que a tendência que fechados e auto-suficientes.
se recusa a ver na literatura um discurso sobre o mundo Estaria eu sugerindo que o ensino da disciplina deve se
ocupa uma posição dominante no ambiente universitário, apagar inteiramente em prol do ensino das obras? Não, mas
exercendo uma influência notável sobre a orientação dos que cada u m deve encontrar o lugar que lhe convém. N o
futuros professores de literatura. A recente corrente da "des- ensino superior, é legítimo ensinar (também) as abordagens,
construção" não levou a uma direção diversa. Seus represen- os conceitos postos em prática e as técnicas. O ensino médio,
tantes podem, de fato, se interrogar acerca da relação entre que não se dirige aos especialistas em literatura, mas
a obra, a verdade e os valores, mas apenas para constatar — a todos, não pode ter o mesmo alvo; o que se destina a todos
ou melhor, para decidir, pois eles o sabem previamente, tão é a literatura, não os estudos literários; é preciso então ensi-
forte é o dogma — que a obra é fatalmente incoerente e que, nar aquela e não estes últimos. O professor do ensino médio
por isso, não consegue afirmar nada, subvertendo assim seus fica encarregado de uma das mais árduas tarefas: interiorizar
próprios valores; e é a isso que eles chamam de desconstruir o que aprendeu na universidade, mas, em vez de ensiná-lo,
o texto. Diversamente do estruturalismo clássico, que afasta- fazer com que esses conceitos e técnicas se transformem
va a questão da verdade dos textos, o pós-estruturalismo numa ferramenta invisível. Isso não seria pedir a esse profes-
quer de fato examinar essa questão, mas seu comentário sor um esforço excessivo, do qual apenas os mestres serão
invariável é que ela nunca receberá qualquer resposta. O capazes? Não nos espantemos depois se ele não conseguir
texto só pode dizer uma única verdade, a saber: que a verda- realizá-lo a contento.
de não existe ou que ela se mantém para sempre inacessível. A concepção redutora da literatura não se manifesta
Essa concepção de linguagem estende-se para além da litera- apenas nas salas de aula ou nos cursos universitários; ela
tura e concerne, sobretudo nas universidades americanas, a também está representada de forma abundante entre os jor-
disciplinas nas quais, anteriormente, a relação com o mundo nalistas que resenham livros, e mesmo entre os próprios
não era contestada. Assim, a história, o direito e mesmo as escritores. Devemos nos espantar? Todos esses críticos pas-
ciências naturais serão também descritas como géneros lite- saram pela escola, muitos deles também pelas faculdades de
rários, com suas regras e convenções; assimilados à literatu- Letras, onde aprenderam que a literatura fala apenas de si
ra que supostamente só"deveria obedecer às suas próprias mesma e que a única maneira de honrá-la é valorizar o jogo
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de seus elementos constitutivos. Se os escritores aspiram ao se tenha de interrogar sobre a pertinência das opiniões
elogio da crítica, eles devem se conformar a tal imagem, por expressas no livro, nem sobre a veracidade do quadro que
mais pálida que esta seja; de resto, muitas vezes os próprios cie pinta. A história da literatura o mostra bem: passa-se
escritores começaram como críticos. Essa evolução é mais facilmente do formalismo ao niilismo ou vice-versa, e
visível na França do que no restante da Europa, e mais i n - podem-se mesmo cultivar os dois simultaneamente.
tensa também na Europa do que no restante do mundo. Por sua vez, a tendência niilista conhece uma exceção
Podemos nos perguntar ao mesmo tempo se não encontra- maior, que concerne ao fragmento do mundo constituído
mos aí uma das explicações do fraco interesse que a litera- pelo autor em si. Outra prática literária provém, com efeito,
tura francesa suscita hoje fora das fronteiras do país. de uma atitude complacente e narcísica que leva o autor a
Numerosas obras contemporâneas ilustram essa concep- descrever detalhadamente suas menores emoções, suas mais
ção formalista da literatura; elas cultivam a construção enge- insignificantes experiências sexuais, suas reminiscências
nhosa, os processos mecânicos de engendramento do texto, mais fúteis: quanto mais repugnante, mais fascinante é o
as simetrias, os ecos e os pequenos sinais cúmplices. Todavia, mundo! Falar mal de si, aliás, não destrói esse prazer, já que
essa concepção não é a única tendência a dominar a literatu- o essencial é falar de si — o que se diz é secundário. A litera-
ra e a crítica jornalística na França no início do século X X I . tura (nesse caso, diz-se, preferencialmente, "a escrita")
Outra tendência influente encarna uma visão de mundo que tornou-se apenas um laboratório no qual o autor pode estu-
poderíamos qualificar de niilista, segundo a qual os homens dar a si mesmo a seu bel-prazer e tentar se compreender. É
são tolos e perversos, as destruições e as formas de violência possível qualificar essa terceira tendência, após as do forma-
dizem a verdade da condição humana, e a vida é o advento lismo e do niilismo, de solipsismo, de acordo com essa teo-
de um desastre. Não se pode mais, nesse caso, afirmar que a ria filosófica que postula que o si mesmo é o único ser exis-
literatura não descreve o mundo: mais do que uma negação tente. A falta de verossimilhança dessa teoria, de fato, a con-
da representação, ela se torna a representação de uma nega- dena à marginalidade, mas isso não impede que ela se torne
ção. O que não a impede de permanecer como objeto de um programa de criação literária. Uma de suas variantes
uma crítica formalista: já que, para essa crítica, o universo recentes é o que se chama de "autoficção": o autor continua
representado no livro é auto-suficiente, sem relação com o a se dedicar à evocação de seus humores, mas, além disso, se
mundo exterior, abrem-se-as portas para sua análise sem que libera de todo constrangimento referencial, beneficiando-se
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nea francesa é solidária da ideia da literatura que se pode Para começar, deve-se dizer que, dentro do que com bas-
encontrar na base do ensino e da crítica: uma ideia absurda- tante acerto chamamos de teoria clássica da poesia, a relação
mente restrita e empobrecida. com o mundo exterior é afirmada com grande força. Algumas
das fórmulas utilizadas pelos Antigos para ilustrar essa ideia
são mantidas e repetidas fartamente, mesmo já se tendo per-
dido o sentido dado por seus autores, a saber: segundo
Aristóteles, a poesia é uma imitação da natureza, e, segundo
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Horácio, sua função é agradar e instruir. A relação com o objetos finitos (a comparação mais frequente é feita com
mundo encontra-se, assim, tanto do lado do autor, que deve Prometeu). Ou ainda, o génio humano, sublunar, imita o
conhecer as realidades do mundo para poder "imitá-las", Génio supremo, origem de nosso mundo. A ideia de imita-
quanto do lado dos leitores e ouvintes, que podem, é claro, ção é mantida, mas seu lugar não está mais entre a obra, pro-
encontrar prazer nessas realidades, mas que delas também duto finito, e o mundo; ela se situa doravante na ação de se
tiram lições aplicáveis ao restante de sua existência. N a produzir, no primeiro caso, um macrocosmo; no segundo,
Europa cristã dos primeiros séculos, a poesia serve principal- um microcosmo, mas sem qualquer obrigação de semelhan-
mente à transmissão e à glorificação de uma doutrina da qual ça nos resultados. O que é exigido de cada um é a coerência
ela apresenta uma variante mais acessível e mais impressio- de sua criação, não uma correspondência qualquer da obra
nante, mas ao mesmo tempo menos precisa. Ao se libertar com algo que ela não é.
dessa pesada tutela, ela é imediatamente relacionada aos cri- A ideia da obra como um microcosmo ressurge no início
térios antigos. A partir do Renascimento, pede-se à poesia da Renascença italiana, com, por exemplo, o cardeal Nicolau
que seja bela, mas a própria beleza se define pela verdade e de Cusa, teólogo e filósofo, que escreve em meados do sécu-
sua contribuição ao bem. É fácil nos lembrar dos versos de lo XV: " O homem é um outro Deus [...] enquanto criador de
Boileau: "Nada é mais belo do que o verdadeiro, apenas o pensamento e das obras de arte." Leon Battista Alberti, teó-
verdadeiro é amável." Essas fórmulas são indubitavelmente rico das artes, afirma, por sua vez, que o artista de génio,
percebidas como insuficientes, mas, em vez de rejeitá-las, nos "pintando ou esculpindo seres vivos, se distinguia como um
contentamos em acomodá-las às circunstâncias. outro deus entre os mortais". Dir-se-á paralelamente que
Deus é o primeiro dos artistas: "Deus é o poeta supremo, e o
Os tempos modernos vêm abalar essa concepção de duas
mundo é seu poema", afirma Landino, neoplatônico floren-
maneiras distintas, ambas ligadas ao novo olhar que incide tino. Essa imagem se impõe progressivamente nos discursos
sobre a progressiva secularização da experiência religiosa e acerca da arte e serve para a glorificação do criador humano.
uma concomitante sacralização da arte. A primeira maneira A partir do século X V I I I , ela passa igualmente a orientar o
consiste em retomar e revalorizar uma antiga imagem: o discurso crítico descritivo, graças à influência de uma nova
artista criador, comparável ao Deus criador, engendra con- filosofia, a de Leibniz, que introduz as noções de mônada e
juntos coerentes e fechados em si mesmos. O Deus do de mundo possível: o poeta ilustra essas categorias, já que
monoteísmo é um ser infinito que produz um universo fini- cria um mundo paralelo ao mundo físico existente, um uni-
t o ; ao imitá-lo, o poeta «e assemelha ao deus que fabrica verso tão independente quanto coerente.
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A segunda maneira de romper com a visão clássica con- Resultado dessas mutações: nos séculos X V I I e X V I I I , a
siste em dizer que o objetivo da poesia não é nem imitar a contemplação estética, o juízo de gosto e o sentido do belo
natureza nem instruir e agradar, mas produzir o belo. Ora, o serão instituídos como entidades autónomas. Não que os
belo se caracteriza pelo fato de não conduzir a nada que homens das épocas anteriores não tivessem sido sensíveis
esteja para além de si mesmo. Essa interpretação da ideia do tanto à beleza da natureza quanto à das obras de arte; antes,
belo, imposta a partir do século X V I I I , é em si mesma uma porém — a menos que se situassem na perspectiva platónica
laicização da ideia de divindade. E nesses termos que, ao fim na qual o belo se confunde com o verdadeiro e o bem — ,
do século IV, Santo Agostinho descreve a diferença entre os essas experiências constituíam apenas uma faceta de uma ati-
vidade cuja finalidade principal está em outro lugar. O cam-
sentimentos que dedicamos a Deus e aos homens: ao passo
ponês pode admirar a bela forma de seu instrumento agríco-
que podemos usar qualquer coisa ou qualquer ser com vistas
la, mas esse instrumento deve ser antes de tudo eficaz. O
a obter um f i m que transcenda essa coisa ou esse ser, a Deus
nobre aprecia a decoração de seus palácios, mas o que ele
apenas devemos nos contentar em fruir, isto é, temos de
quer em primeiro lugar é que essa decoração ilustre seu nível
amá-lo em si mesmo. Deve-se dizer que, ao trazer a distinção
social a seus visitantes. O fiel se encanta com a música que
agostiniana entre usar e fruir para o campo profano das ati-
escuta na igreja, assim como com a visão das imagens de
vidades puramente humanas, os teóricos do século X V I I I
Deus e dos santos, mas essas harmonias e representações são
promovem tão-somente a inversão do gesto do próprio
postas a serviço da fé. Reconhecer uma dimensão estética em
Agostinho, que transpunha as categorias platónicas para o
todos os tipos de atividades e de produção é uma caracterís-
domínio religioso. É Platão quem define o bem supremo
tica humana universal. O fato novo, surgido na Europa do
como aquilo que basta a si mesmo: aquele que é animado
século X V I I I , será o de isolar esse aspecto secundário de
por esse bem supremo possui, "de maneira plena e inteira, a
múltiplas atividades, instituindo-o como encarnação de uma
mais acabada suficiência" e, desse modo, "não necessita de
única atitude, a contemplação do belo, atitude ainda mais
mais nada". É também Platão quem convida à contempla-
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do próprio termo "estética" (literalmente, "ciência da per- "belas"). O mesmo vale para "belas-artes": a lembrança das
cepção"), em 1750, num tratado de Alexander Baumgarten artes utilitárias, ou mecânicas, ainda é forte. Uma vez adota-
dedicado à nova disciplina. da a nova perspectiva, o adjetivo "belo" não será mais indis-
O que há de revolucionário nessa abordagem é que ela con- pensável, e a expressão se tornará um pleonasmo, já que a
duz ao abandono da perspectiva do criador para adotar a do "arte" passa a ser definida como aspiração ao belo. Os anti-
receptor, que, por sua vez, só tem um único interesse: contem- gos tratados sobre a arte eram essencialmente manuais de
plar belos objetos. Essa mutação tem várias consequências. criação, instruções endereçadas ao poeta, ao pintor, ao músi-
Primeiramente, separa cada "arte" da atividade da qual era ape- co. A partir de então, a preocupação passa a ser a descrição
nas um grau superlativo; essa atividade se vê a partir de então do processo de percepção, a análise do juízo de gosto, a ava-
devolvida aos domínios, radicalmente diferentes, do artesanato
liação do valor estético. O ensino de Letras, na França, ilustra
e da técnica. Visto a partir da perspectiva da criação ou da fabri-
essa passagem com cem anos de atraso: ao passo que até
cação, o artista é apenas um artesão de melhor qualidade: os
meados do século X I X esse ensino era oriundo da retórica
dois praticam o mesmo ofício, com um pouco mais ou um
(aprende-se como escrever), a partir desse momento é ado-
pouco menos de talento. Ora, se nos situamos do lado de seus
tada a perspectiva da história literária (aprende-se como ler).
produtos, o artesão se opõe ao artista, pois, se um cria objetos
Consequência imediata: separadas do contexto de sua
utilitários, o outro cria objetos a serem contemplados apenas
criação, as artes exigem o estabelecimento de locais em que
pelo prazer estético proporcionado; um obedece a seu interes-
se, e o outro permanece desinteressado; um se situa sob a lógi- possam ser consumidas. Para os quadros, são instalados
ca do usar, e o outro, na do fruir; e, por fim, um permanece salões, galerias e museus: o Museu Britânico abre suas por-
puramente humano, e o outro se aproxima do divino. Segunda tas em 1733, os Uffizi e o Vaticano em 1759, e o Louvre em
consequência: as artes, que até então se ligavam cada uma à 1791. A concentração num só local de quadros, destinados
sua prática de origem, passam a ser reunidas em torno de originalmente a assumir funções as mais diversas nas igrejas,
uma mesma categoria. Poesia, pintura e música só podem ser palácios e residências particulares, os reserva para um único
unificadas se as situamos na ótica da recepção, correlativa à uso: o de serem contemplados e apreciados apenas por seu
mesma atitude desinteressada chamada a partir deste mo- valor estético. A hierarquia entre sentido e beleza se inverte:
mento de estética. o que era desejável (a qualidade de execução) torna-se ne-
Um termo como "belas-letras" ainda mantém essa cone- cessário; o que era necessário (a referência teológica ou
xão com a prática não-artística (existem "letras" que não são mitológica) passa a ser meramente facultativo. A ponto de o
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Ao instalarem de forma resoluta as artes sob o regime do gens, sem que uma seja inferior à outra: duas vias que con-
belo, os pensadores do século X V I I I não procuram, porém, duzem ao mesmo objetivo, uma melhor compreensão do
cortar suas relações com o m u n d o ; a arte não se t o r n o u homem e do mundo, uma sabedoria mais ampla. Um dos
estranha à verdade e ao bem. Nesse aspecto, eles seguem a primeiros a se dedicar à confrontação desses dois modos de
interpretação platónica: o belo material não é senão a mais conhecimento é o singular filósofo, historiador e retórico de
superficial manifestação da beleza, que, por sua vez, se refere Nápoles, Giambattista Vico, que distingue entre linguagem
à beleza das almas e daí à beleza absoluta e eterna, que tanto racional e linguagem poética. Ele projeta, é verdade, a lin-
engloba as práticas humanas cotidianas — ou seja, a moral guagem poética nas primeiras eras da humanidade, mas con-
— quanto a busca pelo conhecimento — ou seja, a verdade. cebe também que as duas linguagens sejam simultâneas; elas
Shaftesbury, primeiro a transpor para a descrição da arte o se opõem entre si do mesmo modo que o universal e o par-
vocabulário religioso da contemplação e da auto-suficiência, ticular: "E impossível ao homem ser ao mesmo tempo poeta
apresenta a arte, entretanto, como um meio para apreender e metafísico sublime; a razão poética se opõe a que isso ocor-
a harmonia do mundo e ascender à sua sabedoria. A partir ra; de fato, ao passo que a metafísica separa o espírito dos
daí, ele pode afirmar: " O que é belo é harmonioso e propor- sentidos, a faculdade poética quer, ao contrário, mergulhá-
cional. O que é harmonioso e proporcional é verdadeiro, e o lo neles; ao passo que a metafísica se eleva às ideias univer-
que é ao mesmo tempo belo e verdadeiro é, por conseguin- sais, a faculdade poética se dedica aos casos particulares",
te, agradável e b o m . " O processo de percepção e a ação dos
5
escreve ele em A Ciência Nova (1730). 6
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ciências: não é uma verdade que se estabelece apenas entre as por si mesma", talvez a origem de "a arte pela arte", Lessing
palavras e o mundo, mas implica a adesão de seus utilizado- identifica a submissão às exigências do belo como traço dis-
res; o nome que lhe convém é o de "verossimilhança", e seu tintivo da arte. N e m por isso ele renuncia a inscrever a arte
efeito é "produzido pela coerência interna do mundo cria- no centro das atividades representativas ("essa imitação que
d o " . A abstração apreende o geral ao custo, porém, de um é a essência da arte do poeta", ele escreve), chegando a defi-
empobrecimento do mundo sensível; a poesia capta sua nir a pintura como a arte que " i m i t a " no espaço, ao passo
riqueza, mesmo que as conclusões às quais chega careçam de que a poesia " i m i t a " no tempo.
clareza; o que ela perde em acuidade, ganha em vivacidade. D o mesmo modo, em a Dramaturgia de Hamburgo
Lessing, o grande autor do Iluminismo alemão que viria (1767), Lessing compara o trabalho do escritor ao do
dedicar várias obras à análise das artes, também combina Criador que fabrica um mundo coerente — mas autónomo,
duas teses. Por um lado, o que faz a especificidade da obra de " u m mundo em que os fenómenos estariam encadeados em
arte é seu anseio de produzir o belo; ora, o belo se define ordem distinta daquela do nosso mundo, mas ao qual não
como uma harmonia de seus elementos constitutivos sem estariam menos estreitamente encadeados"; um mundo em
submissão a um objetivo exterior. Por outro, a obra partici- que os incidentes da ação nasçam como necessários em cada
pa de u m conjunto mais amplo de práticas que têm como personagem, e que as paixões de cada um correspondam
objetivo buscar a verdade do mundo e de conduzir os exatamente a seu caráter. Nesse sentido, a obra escapa a seu
homens em direção à sabedoria. Assim, Lessing escreve no autor, que a escreve como que ditado por suas próprias per-
Laocoonte (1766): "Gostaria que fosse aplicado o nome de sonagens: sua verdade reside em sua coerência. Longe de
obras de arte apenas àquelas obras em que o artista pode se Lessing, no entanto, a tentação de ver na obra de arte um
mostrar como artista, nas quais produzir o belo tenha sido jogo de construção que encontrasse seu f i m em si mesmo.
seu primeiro e único anseio. Todas as obras que mostrem "Escrever e imitar a partir de um anseio é o que distingue o
traços perceptíveis de convenções religiosas não merecem o génio dos pequenos artistas, que escrevem por escrever e
nome de obra de arte, porque nesses casos a arte não foi pro- imitam por imitar, que se contentam com o pequeno prazer
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ligado ao uso de seus talentos e que fazem de seus talentos belo não pode ser estabelecido objetivamente, uma vez que
todo seu anseio." A preocupação em primeiro lugar com o provém de um juízo de gosto e reside, portanto, na subjeti-
belo é o que distingue arte e não-arte; mas se contentar com vidade dos leitores ou espectadores; mas ele pode ser reco-
esse objetivo ou ter anseio mais elevado é o que separa a nhecido pela harmonia dos elementos da obra e tornar-se
pequena da grande arte, a labuta dos génios: "Nada de gran- objeto de consenso.
de advém do que não é verdadeiro." 5 Encontramos um testemunho do impacto imediato des-
É por essa razão — depois de ter tomado a precaução de sas ideias no diário íntimo de Benjamin Constant, que,
lembrar que a verdade poética não é igual à dos cientistas, acompanhado por Germaine de Staél, passa alguns dias do
se aproximando mais da "verossimilhança" aristotélica — início do ano de 1804 em Weimar. Em 11 de fevereiro, ele
que Lessing pode fazer o elogio de seus autores preferidos anota: "Jantar com Robinson, aluno de Schelling. Seu traba-
precisamente pela verdade a que se pode chegar por meio lho sobre a estética de Kant. Ideias muito engenhosas. A arte
deles. O que faz de Shakespeare um grande dramaturgo é o pela arte, e sem objetivo; todo objetivo desnatura a arte.
fato de ele possuir "uma visão profunda sobre a essência do Mas a arte atinge o objetivo que não t e m . " É a primeira
amor": seu Otelo é um "manual completo sobre esse triste ocorrência conhecida em francês da expressão "a arte pela
frenesi" que é o amor. O que Eurípides aprendeu com arte"; mas logo se vê que é necessário distinguir entre vários
Sócrates não f o i uma doutrina filosófica ou máximas tipos de "objetivo": aquele que o artista dá previamente a si
morais, mas a arte de "conhecer os homens e se conhecer a mesmo, com a intenção de se tornar ilustre (equivalente aos
si mesmo; estar atento às nossas sensações; buscar e amar objetivos da educação religiosa, recusada por Lessing) e
em tudo os caminhos da natureza que sejam os mais retos e aquele inerente a toda obra de arte, em especial às superio-
os mais curtos; julgar cada coisa segundo seus anseios." E
10 res (as obras dos génios, que Lessing opunha aos pequenos
é por essa razão que Eurípides, por sua vez, soube escrever artistas). Ao escrever sobre a tragédia, um quarto de século
tragédias imortais. mais tarde, Constant tornará seu pensamento mais preciso:
O conjunto dessas noções será retomado e refundido na "A paixão impregnada de doutrina, e servindo a desdobra-
Crítica da Faculdade do Juízo, de Kant (1790), que influen- mentos filosóficos, é um contra-senso do ponto de vista
ciará toda a reflexão contemporânea sobre a arte, sempre artístico", mas isso não significa que a obra não venha a agir
mantendo essa dupla perspectiva; o belo é desinteressado, sobre o espírito de seu leitor: "A instrução não será o objeti-
ao mesmo tempo em que" é um símbolo da moralidade. O vo, mas o efeito do quadro." 11
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T Z V E T A N TODOROV
não existe: toda poesia é necessariamente " i m p u r a " , pois •L oda a estética dos iluministas, encarnada em diversos
necessita de ideias e valores; ora, tanto um quanto outro graus por Shaftesbury, Vico, Baumgarten, Lessing, Kant,
não lhe pertencem propriamente. Nisso, Constant perma- Germaine de Staél ou Benjamin Constant, teve êxito em
nece fiel às ideias de sua companheira Germaine de Staèl, manter esse equilíbrio instável: por um lado, diversamente
que, em 1800, publicou uma obra intitulada, significativa- das teorias clássicas, ela desloca o centro da gravidade da
mente, Da Literatura Considerada em Suas Relações com as imitação à beleza, afirmando a autonomia da obra de arte;
Instituições Sociais. Nesse livro, ele considera a noção de por outro, essa estética nunca ignora a relação que liga as
literatura "na acepção mais ampla, isto é, abrangendo em si obras ao real: elas ajudam a conhecê-lo e agem reciproca-
os escritos filosóficos e as obras de imaginação, enfim, tudo mente sobre ele. A arte continua a pertencer ao mundo
que concerne ao exercício do pensamento na forma de es- comum dos homens. A esse respeito, a estética romântica
critos, excetuando-se as ciências físicas." 13
Literatura de imposta a partir do início do século X I X não introduz qual-
imaginação e escritos científicos ou filosóficos são distintos, quer ruptura notável. Aos olhos dos primeiros românticos
mas dentro de um género comum; uns e outros dependem — sempre próximos de Germaine de Staèl e de Constant: os
do mundo e agem sobre ele, contribuindo para a criação de irmãos Schlegel, Schelling, Novalis —, a arte continua a ser
uma sociedade imaginária habitada pelos autores do passa- um conhecimento do mundo. Se novidade há, essa está no
do e os leitores do porvir. juízo de valor que eles atribuem aos diferentes modos de
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