III Jornada de Iniciação à Docência
CONSTRUÇÃO DE FORNOS SOLARES: UMA ATITUDE SUSTENTÁVEL PARA
ERRADICAÇÃO DA POBREZA
Naiane Nunes Gonçalves1
Renato Nunes de Andrade2
Bruno Magela de Melo Siqueira3
Rafael Baioco Ruy4*
RESUMO
Este trabalho foi desenvolvido pelo PIBID de Química do Instituto Federal de Educação do Espírito
Santo e objetivou a construção de fornos solares empregando materiais alternativos de baixo custo e
discussões acerca dos benefícios do uso dessa tecnologia social. A utilização dessa tecnologia é
considerada uma atitude sustentável, pois o seu uso coopera com a preservação da natureza, uma
vez que o equipamento pode ser construído com materiais recicláveis e utiliza a energia solar, uma
fonte gratuita e inesgotável. Ao mesmo tempo, reduz a dependência do uso de combustíveis fósseis
(gás de cozinha) e de recursos florestais (lenha e carvão) que provocam desmatamentos e cuja
queima contribui para o aquecimento global. É utilizado especialmente em comunidades carentes e
locais remotos e tem um baixo custo para aplicações domésticas. Testes realizados no verão
mostraram-se satisfatórios e possibilitaram assar bolos, pizzas e pães de queijo.
Palavras-chave: forno solar; energia solar; erradicação da pobreza.
ABSTRACT
This work was developed by PIBID of Chemistry, Federal Institute of Education at Espirito Santo
State and aimed to construct solar ovens using low cost alternative materials and discussions about
the benefits of using this social technology. The use of this technology is considered a sustainable
approach because its use cooperates with nature´s preservation, since the equipment can be built
with recycled materials and uses solar energy, a free and inexhaustible source. At the same time,
reduces dependence on fossil fuels (cooking gas) and forest resources (wood and coal) that causes
deforestation and burning which contributes to global warming. It is used especially in poor
communities and remote locations and has a low cost for domestic applications. Tests conducted in
the summer were satisfactory and allowed to bake cakes, pizzas and cheese breads.
Keywords: solar oven; solar energy; poverty eradication.
1
Estudante do curso de Licenciatura em Química / IFES - Campus Vila Velha / e-mail: [Link]@[Link]
2
Estudante do curso de Licenciatura em Química / IFES - Campus Vila Velha / e-mail: a_programador@[Link]
3
Estudante do curso de Licenciatura em Química / IFES - Campus Vila Velha / e-mail: brunosiq_es@[Link]
4*
Bacharel e Licenciado em Química (UFV), Mestre em Agroquímica: Físico-Química (UFV) / SEDU - EEEM Prof.
Renato Jose da Costa Pacheco / e-mail: rbaioco@[Link]
III Jornada de Iniciação à Docência
INTRODUÇÃO
O forno solar ou fogão solar é um equipamento que concentra os raios solares em uma zona,
permitindo por meio do efeito estufa, o aquecimento dos alimentos depositados em um recipiente
isolado termicamente.
Inventado na Suíça em 1767 pelo naturalista Horace de Saussure, o forno solar levou séculos para
ser difundido pelo mundo. Sua evolução deu um passo decisivo com a utilização de caixas de
papelão e o uso de plásticos, procedimento adaptado por duas pesquisadoras americanas, Barbara
Kerr e Sherry Cole, que divulgaram os resultados de seus trabalhos na internet através dos sites
“Solar Cookers Internacional” e “Solar Cooking Archive”.
Além das vantagens da utilização em si, usar um forno solar também significa estar cooperando
com a preservação da natureza, reciclando materiais do lixo e usando uma fonte de energia gratuita,
renovável e inesgotável, a energia solar, e, ao mesmo tempo, reduzindo a dependência da utilização
de combustíveis fósseis (gás) e dos recursos florestais (lenha e carvão) que provoca desmatamento e
cuja queima contribui para o aquecimento do planeta, o conhecido efeito estufa. Segundo o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, a utilização do fogão solar por 30% da população
brasileira reduziria anualmente a extração de lenha para cozimento de alimentos em 5.370.000 m³,
uma quantidade significativa.
Os fornos solares têm sido usados na Índia, China, Quênia, Afeganistão e Senegal, locais onde
existe escassez de combustíveis sólidos (lenha, carvão), sendo a utilização desses equipamentos
uma solução para confeccionar alimentos e esterilizar água. O Brasil ocupa a 13ª posição no ranking
dos 25 países com maior potencial para utilização de fornos solares, segundo dados de pesquisas
baseadas em parâmetros como: insolação anual, porcentagem de reservas florestais preservadas,
escassez de combustíveis, quantidade de habitantes e sua distribuição entre zona urbana e rural e
fração da população com água potável. Apesar disso, não é uma tecnologia amplamente adotada no
Brasil, mesmo com algumas tentativas de implementação. Possíveis fatores responsáveis por esse
fato são o preconceito, pela população considerar um aparelho "feio e artesanal" e utilizado por
pessoas que não tem condições financeiras de ter um fogão convencional; a funcionalidade, que é
inferior do que se tem por padrão social; e a própria falta de incentivo do governo, devido ao
barateamento do gás de petróleo liquefeito.
No entanto, o forno solar encontra adeptos notadamente em países como o Peru, Índia e China,
entre outros países. Segundo estudos realizados pela comunidade científica internacional, o número
de fornos solares em operação supera 100.000 unidades somente na Índia e na China. No estado do
Ceará, Brasil, o fotógrafo e ambientalista José Albano, fez algumas inovações no equipamento e o
ajustou de acordo com a posição mais alta do sol de acordo com latitude do nordeste brasileiro e,
nos últimos anos tem utilizado e difundido o uso dessa tecnologia através de oficinas.
Centenas de milhões de pessoas em todo o mundo cozinham em fogueiras alimentadas por madeira
ou esterco e caminham por quilômetros para coletar madeira ou gastam significativa parte de seu
limitado rendimento comprando combustível. Para famílias com baixa renda, os gastos com
consumo de energia para alimentação pode comprometer mais de 25% da renda familiar. Milhões
de pessoas não têm acesso à água potável e se tornam doentes ou morrem a cada ano de doenças
que seriam evitadas com a pasteurização da água utilizando energia solar. A Organização Mundial
da Saúde relata que em 23 países 10% das mortes se devem a apenas dois fatores de riscos
ambientais: água imprópria, incluindo saneamento e higiene deficientes, e poluição do ar interior,
devido ao uso de combustíveis sólidos para cozinhar.
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Ficou comprovado através de pesquisas feitas em Seattle e Arizona, que um forno para cozinhar
com a luz solar é mais simples de ser construído do que muitos métodos simples usados atualmente.
Através de procedimentos simples e eficientes, em poucas horas e com pouco dinheiro ou recursos é
possível construir um forno solar. Um modelo simples construído com papelão, vidro e papel
alumínio é o bastante para atingir temperaturas de até 300ºC, dependendo da eficiência e vedação
do equipamento.
As aplicações desses fornos podem ser para um simples preparo de alimentos, como também para
aquecimento de fluidos circulando em tubulações dispostas numa linha de concentração de calor e
até aplicações industriais pesadas. Na França, em Odeilo, nos Pirineus, foi construído um
equipamento com 9500 espelhos planos dispostos de tal maneira que a concentração da energia
refletida num forno construído dentro da torre do coletor proporciona uma temperatura de até
3800ºC. O forno solar industrial denominado Physics-Sun, localizado no Uzbequistão, possui 40
metros de altura usa 62 grandes espelhos individualmente controláveis, dispostos em um formato
côncavo para coletar a energia solar radiante. Cada espelho acompanha a trajetória do sol para criar
um nível previsível e sustentável de energia. As temperaturas no centro da torre de recolhimento
podem atingir cerca de 3000ºC e ultrapassar 1 milhão de watts de energia radiante. As altas
temperaturas fazem possível uma variedade ampla de experimentos científicos, especialmente
aqueles relacionados à ciência dos materiais.
De acordo com a Solar Cookers International, SCI, uma organização sem fins lucrativos com sede
em Sacramento, Califórnia, Estados Unidos, a utilização de fornos solares possui dezenas vantagens
e envolvem aspectos como: saúde, nutrição, economia, ajuda humanitária, meio ambiente, empresas
e governo, sendo as mais relevantes citadas a seguir.
Benefícios para a família.
Saúde e nutrição: moderadas temperaturas de cozimento preservam os nutrientes dos alimentos;
fogareiros alimentados à lenha emitem fumaça e causam problemas de saúde, além de aquecimento
e escurecimento global; fogões solares podem ser usados para cozinhar alimentos ou pasteurizar
água durante emergências, quando outros combustíveis e fontes de energia não estiverem
disponíveis.
Economia: muitas famílias atingidas pela pobreza em todo o mundo gastam 25% ou mais de sua
renda em combustível para cozinhar e a energia solar é gratuita e abundante.
Conveniência: alguns fogões solares são portáteis e permitem cozinhar em locais de trabalho,
piqueniques ou acampamentos; utensílios usados nos fogões solares são fáceis de limpar; devido a
moderadas temperaturas, o alimento pode permanecer no fogão por várias horas, permitindo ao
indivíduo realizar outras atividades; milhões de pessoas necessitam de caminhar quilômetros para
coletar lenha, a cozinha solar reduz riscos e encargos e libera o indivíduo para outras atividades.
Benefícios para as empresas
Fabricação, venda e manutenção de fogões solares.
Benefícios para o governo
Reduzir as importações de biomassa e combustíveis fósseis; preservar combustíveis fósseis (gás) e
recursos florestais (lenha e carvão).
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Benefícios para ações humanitárias
Em regiões subsidiadas pelas agências de ajuda, mais pessoas podem se beneficiar dos fundos
humanitários, uma vez que o custo de fabricação desses equipamentos é baixo.
Benefícios para o meio ambiente
Bilhões de pessoas dependem da madeira ou carvão vegetal como combustível para cozinhar e a
cozinha solar alivia o conflito entre as necessidades básicas do indivíduo e a necessidade de
preservar as florestas do planeta; biomassa e petróleo alimentaram fogueiras durante anos, fogões
solares são livres de poluição e, quando usados em grandes números, podem ajudar a reduzir o
aquecimento e escurecimento global.
Diante das vantagens comentadas e do potencial que o país possui para utilização de fornos solares,
este trabalho propôs oficinas para construção de diferentes fornos solares empregando materiais
alternativos e de baixo custo e discussões acerca dos benefícios do uso dessa tecnologia social5.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Este trabalho foi desenvolvido entre março e julho de 2012, na Escola Estadual de Ensino Médio
Professor Renato José da Costa Pacheco, da cidade de Vitória – ES, em parceria com bolsistas do
Programa Institucional de Bolsa de Iniciação a Docência, PIBID, subprojeto de Química, do
Instituto Federal do Espírito Santo, IFES, campus de Vila Velha.
A essência do projeto foi apresentada aos alunos do 2º ano do ensino médio e os mesmo foram
convidados a participar voluntariamente de oficinas no contra turno. O professor supervisor e
bolsistas pibidianos orientaram os alunos na construção dos equipamentos. Foram discutidos
assuntos como a necessidade da utilização de energia limpa e renovável, responsabilidade social e
ambiental, vantagens da utilização de fornos solares e seu principio de funcionamento.
O projeto envolveu grupos de alunos voluntários de diferentes turmas de 2º ano e resultou na
confecção de cinco fornos solares, sendo dois na configuração de tronco de cone e três na
configuração de caixa. Foram utilizadas caixas de papelão, papel alumínio, placas de isopor, cola
branca, papel cartão, barbante, tesoura sem ponta, conduíte corrugado e placas de vidro.
Confecção dos fornos em configuração de tronco de cone
Devido à cidade de Vitória – ES estar localizada a 20º sul de latitude, o forno em forma de tronco
de cone foi projetado com um ângulo de abertura de 60º (30º em relação ao eixo y) para que se
tenha uma maior incidência de raios solares em seu no interior.
Para o forno em forma de tronco cone, foi desenhada sua planificação em papel cartão, usando a
escala adequada, depois foram acertados os diâmetros de abertura superior e inferior do tronco e
cortados os excessos das bordas. A parte interna do tronco de cone planificado foi revestida com
papel alumínio e as abas foram coladas para fechá-lo. As bordas do tronco de cone foram reforçadas
com conduíte corrugado para que ficassem mais firmes. Foram empregados cálculos de
trigonometria e geometria espacial (Figura 1).
5
Tecnologia social: todo produto, método, processo ou técnica criado para solucionar algum tipo de problema social e
que atenda aos quesitos de simplicidade, baixo custo, fácil aplicabilidade e impacto social comprovado.
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Figura 1 – construção do tronco de cone
O forno propriamente dito, local onde ocorre o efeito estufa e cozimento dos alimentos, foi
confeccionado em forma de caixa cilíndrica com papel cartão isolado termicamente com isopor. O
interior da caixa foi revestido com papel alumínio para causar reflexão das ondas de calor e a
mesma foi fechada com tampa de vidro transparente (Figura 2).
Figura 2 – forno solar em forma de caixa cilíndrica isolada termicamente.
Confecção dos fornos em configuração de caixa.
O forno propriamente dito, local onde ocorre o efeito estufa e cozimento dos alimentos, foi
confeccionado em forma de paralelepípedo utilizando caixas de papelão isolado termicamente com
isopor e revestidas com papel cartão. O interior da caixa foi revestido com papel alumínio para
causar reflexão das ondas de calor e a mesma foi fechada com tampa de vidro transparente. Para
aumentar a concentração de raios solares no interior da caixa, foram acopladas abas revestidas em
papel alumínio em posições estratégicas da caixa. O projeto empregou conhecimento de
trigonometria e posicionamento geográfico (Figura 3).
Figura 3 – forno solar em forma de paralelepípedo isolado termicamente.
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RESULTADOS E DISCUSSÃO
Testes realizados no verão mostraram-se satisfatórios e possibilitaram assar bolos, pizzas e pães de
queijo (Figura 4), mas no inverno, os resultados esperados não foram alcançados devido a pouca
incidência de sol e a nebulosidade, resultando em maior tempo para aquecimento dos fornos,
menores temperaturas e cozimento incompleto dos alimentos.
Os testes efetuados envolveram a participação direta dos alunos do projeto, bolsistas pibidianos e
supervisor e a participação indireta de pessoas externas curiosas e interessadas em compreender o
que era o equipamento e seu princípio de funcionamento, como outros alunos da escola, professores
e demais funcionários.
Os testes foram realizados no pátio externo da escola e os alimentos preparados levaram entre 2 e
3,5h para ficarem completamente assados, dependendo da insolação, nebulosidade e tipo de
alimento. Os alimentos foram degustados por terceiros e foram classificados como sendo similares
aos assados em fornos convencionais.
Figura 4 – projeto finalizado e alimentos assados.
CONCLUSÃO
Os resultados obtidos foram satisfatórios no âmbito experimental, educacional e socioambiental. No
âmbito experimental, os resultados mostraram que é possível preparar alimentos com qualidade
adequada para consumo humano. Apesar de no inverno os alimentos não terem assado
completamente, possivelmente melhorias no modelo de forno e a sua utilização nas regiões áridas
do país resultariam em resultados positivos. No âmbito educacional, houve empenho, expectativa,
organização, iniciação científica, formação socioambiental e aprendizagem dos alunos. No âmbito
socioambiental, as discussões acerca da implementação de fornos solares em comunidades carentes
e locais remotos e de seus benefícios para o meio ambiente e sociedade, contribuíram para formação
cidadã dos alunos.
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AGRADECIMENTOS
O presente trabalho foi realizado com apoio do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à
Docência – PIBID, da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior –
Brasil.
REFERÊNCIAS
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Disponível em: <[Link] Acessado em
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