Visão geral da Odontogênese
Odontogênese refere-se aos processos celulares e moleculares da formação dos dentes que,
apesar de suas características diferentes, são todos formados a partir de um processo em
comum. Sendo o dente formado por vários tipos de tecidos diferentes, também possui
denominações e característica especifica, que serão abordadas em mais detalhes nas aulas
subsequentes. (KATCHBURIAN, 2017)
O início da formação dentária é o resultado da interação do epitélio oral com o ectomesênquima
subjacente, que são células que migraram da crista neural. No embrião, por volta da sexta ou
sétima semana, observa-se um agrupamento de células que se proliferam para formar a lâmina
vestibular e a lâmina dentária, local em que permanecerão os futuros arcos dentários.
A lâmina dentária é caracterizada por quatro fases principais: a fase do botão, que representa o
início da formação do dente; a fase do capuz, na qual ocorre intensa proliferação de células
epiteliais; a fase da campânula, ocorrendo o início da morfogênese e diferenciação celular; e a
fase da coroa ou fase avançada da campânula, na qual ocorre a deposição de dentina e esmalte
na coroa do futuro dente.
A coroa é a porção do dente que se projeta para fora, enquanto a raiz permanece dentro do arco
dentário, recoberto pelas gengivas. Os vinte dentes decíduos estão divididos entre os dois arcos
dentários (superior e inferior) que, mais tarde, serão precursores dos dentes permanentes,
somado aos molares permanentes, totalizando trinta e dois dentes na vida adulta.
(KATCHBURIAN, 2017)
Porção mineralizada
A coroa e a raiz são recobertas por um duro tecido mineralizado, chamado de esmalte, na região
da coroa, e denominado cemento, na região da raiz. Abaixo desses dois tecidos, outro tecido
mineralizado faz parte da composição dentária, a dentina, que é circundada pela cavidade pulpar
e da polpa dental, composta de tecido conjuntivo frouxo, com intensa vascularização e
inervação. (KATCHBURIAN, 2017)
A cavidade pulpar é dividida em câmara pulpar (porção coronária) e canal radicular (porção da
raiz), que se estendem até o ápice, onde fica localizado o forame apical, o qual permite a
passagem de vasos linfáticos, sanguíneos e nervos. O ligamento periodontal fixa o dente no
alvéolo, através de fibras colágenas inseridas no osso alveolar e no cemento (Figura 1).
Dentina
A dentina é formada por tecido mineralizado, extremamente duro, composto de fibrilas de
colágeno do tipo I, glicosaminoglicanos, fosfoproteínas, fosfolipídios e cristais de cálcio
(Hidroxiapatita).
A hidroxiapatita, cristal derivado da apatita, é o mineral mais impregnado nos tecidos duros.
Sua composição pode variar de acordo com o tecido e com a disponibilidade das biomoléculas
utilizadas para sua formação; entretanto, sua forma básica mais comum é: Ca10(PO4)6OH2.
Várias unidades formam um cristal com um arranjo padrão, podendo ser reconhecido pela
difração eletrônica e microanálise de raio X. Além do cálcio e do fosfato, há também alguns
minerais como: carbonato, citrato, sódio, magnésio, potássio, cloreto, flúor, entre outros
elementos em menores quantidades. Dentre esses, o flúor representa um importante componente
que pode alterar a dureza do cristal. (KATCHBURIAN, 2017)
Os odontoblastos são as células responsáveis por produzir e secretar a matriz orgânica da
dentina. Essas apresentam uma estrutura alongada que contém, em seu citoplasma, grânulos
secretores e um núcleo basal. Cada célula tem uma extensão apical que penetra,
perpendicularmente, e percorre toda a sua extensão, conhecida como prolongamentos
odontoblásticos ou fibras de Tomes. Podem ser mais longos, proporcionalmente à espessura da
dentina, formando canais estreitos (túbulos dentinários), que são ramificados próximos à junção
da dentina e do esmalte. (KATCHBURIAN, 2017)
O início da mineralização da dentina em desenvolvimento ocorre pelas vesículas da matriz, que
são vesículas circundadas por membranas, produzidas pelos odontoblastos. Anteriormente a
isso, a matriz é não mineralizada, sendo chamada de pré-dentina. As vesículas da matriz contêm
elevado conteúdo de cálcio e fosfato, que formam pequenos cristais de hidroxiapatita e servem
como sítio de nucleação, para deposição adicional de minerais sobre as fibrilas de colágeno ao
redor da vesícula (Figura 2).
Esmalte
O esmalte é formado por cerca de 96% de mineral, 3% de água e 1% de matéria orgânica,
correspondendo ao tecido mais duro do corpo humano. O principal componente do esmalte é a
hidroxiapatita, entretanto, íons estrôncio, magnésio, chumbo e fluoreto podem estar presentes na
sua formação e ser absorvidos pelos cristais.
Para Katchburian (2017), a amelogênese corresponde à formação do esmalte e é originada do
ectoderma, com a matriz orgânica composta por proteínas chamadas de amelogeninas e
enamelinas. Os cristais de hidroxiapatita formam colunas alongadas, conhecidas como prisma
do esmalte, que são unidas pelos esmaltes interprismáticos, com a orientação dos cristais
diferenciados. Os ameloblastos são um conjunto de células altas, com grandes quantidades de
mitocôndrias, logo abaixo do núcleo, um reticulo endoplasmático granuloso, e complexo de
Golgi muito bem desenvolvido, acima do núcleo. Cada ameloblastos contém prolongamentos
conhecidos como os processos de Tomes, com grânulos secretores de proteínas, que constitui a
matriz do esmalte. Após a síntese, os ameloblastos formam um epitélio protetor até o momento
da erupção dos dentes.
Polpa dental
A polpa é uma região de tecido conjuntivo frouxo, composta por odontoblastos, fibroblastos e
matriz de fibrilas de colágeno e glicosaminoglicanos. É altamente vascularizada e inervada
pelas fibras pulpares e, por isso, é um local sensível a dor, reconhecido como a porção sensorial
do dente, como apresentado na Figura 2.
Peridonto – Cemento
O cemento é a porção que recobre a dentina radicular (raiz do dente), na qual se encontram os
cementócitos, células semelhantes ao tecido ósseo, porém ausente de vasos sanguíneos e
sistemas haversianos. Os cementócitos se mantêm enclausurados, formando lacunas, que
recebem nutrição através do ligamento periodontal. Possui atividade de reabsorção e síntese de
tecido novo contínuo, causado pelo desgaste fisiológico, apesar de possuir uma atividade
metabólica baixa, se comparado com os ossos. (MAFRA, 2012)
Peridonto – Osso alveolar
O osso alveolar tem a função principal de sustentação, possui contato direto com o ligamento
periodontal e apresenta características de um osso primário ou imaturo. As fibras colágenas do
ligamento atravessam esse osso para se ligarem ao cemento, além dos vasos sanguíneos que
atravessam o osso e penetram no ligamento, formando os vasos perfurantes. Alguns nervos
também podem ser encontrados nesse local.
O ligamento periodontal é um conjunto de fibras de tecido conjuntivo, arranjados em feixes
grossos, conhecidos como fibras de Sharpey. Ele penetra no cemento e no osso alveolar,
possibilitando os movimentos limitados aos dentes, auxiliando na mastigação e diminuindo a
força empregada ao osso, evitando, assim, a reabsorção desnivelada. (MAFRA, 2012)
Por fim, para Mafra (2012), a gengiva é uma membrana mucosa, aderida ao periósteo dos ossos
maxila e mandíbula e, juntamente com o cemento e o osso alveolar, forma o peridonto. As
características histológicas e embriológicas de cada uma das porções do dente, mencionadas
aqui, serão vistas em mais detalhes nas aulas seguintes.
Finalizando
A Odontogênese refere-se a mecanismos celulares e moleculares da formação dos dentes. As
células do ectomesênquima se agrupam e se diferenciam, a princípio, em duas lâminas que
darão origem ao vestíbulo e a porção dentária. Os dentes possuem duas porções, a coroa e a
raiz, e ambas são formadas por células capazes de mineralização, dando aos dentes um aspecto
duro. O tecido mineralizado que recobre a coroa é chamado de esmalte; e o que recobre a raiz,
cemento.
Logo abaixo encontra-se a dentina, outro tecido com capacidade de mineralização, produzida
pelos odontoblastos. A amelogênese é a formação de esmalte, tecido duro que recobre a coroa e
que ocorre por meio da ação de proteínas amelogeninas e enamelinas. Já, na porção da raiz, os
cementócitos são as células responsáveis pela síntese e reabsorção do mineral que,
diferentemente dos ossos, tem seu constituinte muito mais duro.
O principal composto mineral atrelado a esses tecidos é a hidroxiapatita, cristais de fosfato de
cálcio que se unem a alguns íons em comum e formam uma porção mineralizada, pouco
vascularizada e com atividade metabólica baixa, o que lhe confere a dureza.
O osso alveolar é o local em que o dente está inserido. Distintamente dos outros ossos do corpo,
possui trabéculas nas quais penetram vasos e nervos até a polpa dental, que irão nutrir os dentes.
O peridonto é a estrutura formada pelo ligamento periodontal, gengiva, cemento e osso alveolar,
sendo somente as duas últimas com componentes mineralizados.