2015 Anais IV Sima
2015 Anais IV Sima
ISSN 2447-9810
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA
Editora da UFRR
SIMA 2015
Simpósio Internacional de Música na Amazônia
JEFFERSON TIAGO DE SOUZA MENDES DA SILVA
GUSTAVO FROSI BENETTI
FRANCISCO ZMEKHOL NASCIMENTO DE OLIVEIRA
DAMÍAN KELLER
(Organizadores)
ISSN: 2447-9810
Boa Vista / RR
2016
EDITORA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA
Prof. Dr. Damián Keller (UFAC) Prof. Dr. Luiz Daniel Lerro (UNIR)
Prof. Me. Flávio Miranda de Farias (IFAC) Prof. Me. Francisco de Oliveira (UNIR)
Prof. Dr. Gustavo Frosi Benetti (UFRR) Prof. Me. Cléber Maurício de Lima (UNIR)
Prof. Me. Jefferson Mendes (UFRR) Prof. Me. Alexandre Motta (UNIR)
Prof. Me. Leonardo Vieira Feichas (UFAC) Profa. Espec. Ezenice Bezerra (UNIR)
Profa. Dra. Adina Izarra (USB - Venezuela) Produtora Cultural Patrícia de Freitas Pessoa
Profa. Dra. Valéria Cristina Marques (UFPA)
REALIZAÇÃO
Departamento de Artes
Chefe: Prof. Dr. Luiz Daniel Lerro
Curso de Música
Coordenador: Prof. M.e Francisco Zmekhol Nascimento de Oliveira
Curso de Música
Coordenador: Prof. Espec. Rafael Ricardo Friesen
SUMÁRIO
PRÓLOGO 9
Francisco Zmekhol Nascimento de Oliveira
APRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS 12
Inspiração: os limites entre o popular e o erudito. 13
Leonardo Vieira Feichas
Sdirrubbatu 17
Marcello Messina
Universo Amazônico 25
Llítsia Moreno llitsia@[Link]
EDUCAÇÃO MUSICAL 26
A presença de atividades músico-educacionais no ensino fundamental em escolas de Porto Velho/RO 27
Silvia Regina Fernandes das Neves
Movimento Musical: utilização dos principais aspectos da euritmia de dalcroze como ferramenta de
musicalização na educação básica 40
Leandro Machado Ferreira
Diretrizes e Conteúdos Curriculares Musicais como referências para a análise de audiovisual infantil 60
Nilze de Sá Sampaio
Áureo Deo de Freitas Júnior
A avaliação no ensino do violão para iniciantes, em cursos à distância, através dos domínios: psicomotor,
cognitivo e afetivo 95
Roberto Marcos Gomes de Onófrio
O ensino de partitura nas primeiras aulas de violão: estimulando a vivência em performance e o fomento ao
estudo sistemático 114
José Simião Severo
Coleção Musical: uma interdisciplinaridade entre educação musical e educação ambiental 135
Selton Passos Riateque
Lucyanne de Melo Afonso
Licenciatura em Educação do Campo no norte do Tocantins: Lutas, disputas e desafios para uma habilitação
em artes visuais e música 142
Marcus Facchin Bonilla
A interdisciplinaridade como ferramenta para a formação docente: discussão acerca dos Encontros
Integrativos do PIBID 153
Joalisson Jonathan Oliveira Diniz
Calígia Sousa Monteiro
Luciano Luan Gomes Paiva
O nordeste brasileiro nas Três Peças para viola e piano de Guerra-Peixe 177
Rafael Friesen
Mito e Música: aproximação conceitual entre Luciano Berio e Claude Lévi-Strauss a partir do problema da
abertura 225
Max Packer
ETNOMUSICOLOGIA 238
Os músicos de jazz paulistanos: fazendo um som profissional por amor 239
Marcus Vinicius Scanavez Ramasotti Medeiros de Almeida
A performance musical das bandas e fanfarras escolares no “Festival de Bandas e Fanfarras” do Município de
Santarém- Pará 271
Eliane Cristina Nogueira Ferreira Fonseca
José Agostinho da Fonseca Júnior
Improvisação na música polifônica do século XVI: a arte de diminuir com ogni sorte de strumento et canto302
Giulia da Rocha Tettamanti
As Bandas de Música: Uma contribuição portuguesa, africana e indígena na formação das primeiras bandas de
musica no Brasil e na cidade de Penedo-Alagoas 349
Ana Greyce Moraes Pereira
Exemplos de Figuras Retóricas de Interrupção e Silêncio em José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita 363
Eliel Almeida Soares
Diósnio Machado Neto
Catalogação das Obras para Trompete de José Siqueira e Breve Análise Interpretativa de Duas Peças
Selecionadas 399
Ranilson Bezerra de Farias
Samuel Cavalcanti Correia
Da rua aos palcos: um estudo sobre a inserção da bateria nas orquestras de frevo-de-rua 412
Adriano Ramos Coelho
Cleber da Silveira Campos
A homenagem de Villa-Lobos ao sertanejo no Prelúdio n.º 1 para violão: simbólico e tradução emergidos. 426
João Gustavo Kienen
Daniel Guerra Lopes
Aspectos da construção de uma interpretação musical do Trio para violino, viola e violoncelo de Camargo
Guarnieri 434
Ricardo Lobo Kubala
Eliane Tokeshi
Sept Papillons de Kaija Saariaho para violoncelo solo: uma análise dos elementos técnico-interpretativos 442
Frederico Arantes Nable
Fabio Soren Presgrave
Análise física de parâmetros variáveis na embocadura da flauta transversal durante a execução 486
Luiz Fernando Barbosa Jr
Creio que tenhamos obtido êxito nos três pontos. Primeiramente, para além da participação,
na organização de evento, de professores de universidades de 6 estados distintos da Amazônia
Brasileira e da Venezuela (Professora Doutora Adina Izarra - Universidad Simón Bolívar); para além
da submissão e aprovação de trabalhos de pesquisadores de todos os estados da Região Norte e; para
além da participação conjunta de professores de distintas universidades de nossa região em GT’s e
mesas-redondas, tivemos no evento uma mesa-redonda especificamente direcionada às
peculiaridades da pesquisa em música na Região Amazônica em nossas universidades (com presença
de Prof. Dr. Roberto Victorio - UFMT, Prof. Dr. Damían Keller - UFAC, e Prof. Dr. Gustavo Benetti
- UFRR).
Com relação à inovação na pesquisa em música, creio que dois núcleos temáticos tenham se
destacado durante o evento – para não mencionar as múltiplas contribuições que possamos encontrar
-9-
nos mais de 50 artigos apresentados e compilados nesta publicação –: primeiramente, o de tecnologia
em música e, mais especificamente, das práticas criativas em um contexto em que o acesso à
tecnologia tenha sido tão expandido como o foi nas últimas duas ou três décadas, assunto tratado
tanto pelo Prof. Dr. Julio d’Escriván (Huddersfield University - Inglaterra) e Prof. Dr. Damián Keller
(UFAC) em suas respectivas palestras e minicurso, como em algumas das comunicações das subáreas
de práticas criativas e de educação musical; em segundo lugar, o encontro entre etnomusicologia e
composição musical, não apenas tangido por algumas das comunicações enviadas às subáreas de
etnomusicologia e de estudos de música recente, como tema central da palestra “Etnomusicologia e
Composição”, ministrada pelo Prof. Dr. Roberto Pinto Victorio (UFMT), a respeito de sua pesquisa
junto à etnia Bororo (MT) desde a década de 1990 e dos resultados composicionais por ele obtidos
em decorrência de tal pesquisa.
Por fim, muito embora o evento tenha, por todas as suas atividades e como um todo, valor
para a formação complementar de licenciandos em música e professores de música em ensino básico,
alguns fatos e atividades desta edição devem ser destacados por suas contribuições específicas nesse
sentido: primeiramente, tivemos uma presença significativa, no evento, de alunos não apenas da
Licenciatura em Música da UNIR, mas também da UFAM, UFPA, UFAC e da UFRN, e de
professores de todas as três escolas municipais de música de Porto Velho; tivemos um bom volume
de trabalhos apresentados na subárea de educação musical (dezesseis, ao todo), com fortuitas
convergências temáticas que nos permitiram, por exemplo, fazer uma sessão de comunicações
dedicadas a experiências do ensino de música em educação básica em escolas do Acre, Amazonas,
Pará e Rondônia, outra de comunicações dedicadas ao ensino de violão; tivemos um Grupo de
Trabalho específico sobre ensino de música em educação básica, com a presença de Prof. Me.
Jefferson Tiago de Souza Mendes da Silva (UFRR); tivemos tanto comunicações como palestras e
mesas que se dedicassem à cultura indígena e à educação ambiental no contexto dos estudos de
música, oferecendo aos educadores musicais presentes em nosso evento forte aporte para o
cumprimento das Leis 11.645/2008 e 9.795/1999, as quais determinam, respectivamente, a inclusão
de cada um desses dois temas nos currículos de ensino básico no Brasil e suas integrações às
disciplinas regulares.
Tendo cumprido nossos objetivos para a presente edição e tendo dado um importante passo
em direção à consolidação do evento, temos muito a comemorar com o SIMA 2015. Concluo esta
apresentação com agradecimentos, em nome de nossa comissão organizadora, àqueles que
possibilitaram a realização do evento:
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Ao CNPq pelo financiamento ao evento.
À PROCEA/UNIR, pelo apoio direto ao evento, com liberação de diárias e passagens e material
gráfico.
Aos nossos pesquisadores convidados Roberto Victorio, Alexandre Takahama, Julio d’Escriván,
Maria Luisa da Silva, Claudia Caldeira e Nailson Simões pelo trabalho e boa vontade e às suas
respectivas universidades por gentilmente lhes ceder afastamento.
À Universidade Federal de Roraima, por hospedar, através do sistema Splinter, nossas submissões de
trabalhos.
Ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação no Estado de Rondônia por ceder leitos para que
recebêssemos participantes vindos de outros estados do Brasil.
Ao General de Brigada Ricardo Augusto Ferreira Costa Neves, ao Coronel Aviador Giancarlo França
Apuzzo e ao Coronel Nilton Gonçalves Kisner por liberarem os músicos sob seus respectivos
comandos para participação no evento.
- 11 -
APRESENTAÇÕES ARTÍSTICAS
- 12 -
INSPIRAÇÃO: OS LIMITES ENTRE O POPULAR E O ERUDITO.
Nota de programa
Marcus Almeida e Leonardo Feichas formam o duo “Almeida e Feichas”, formado em
2014. O projeto “Inspiração” inclui obras de diferentes autores de diferentes épocas, tanto do universo
popular quanto do universo erudito. Além disso, algumas composições são de autoria de Marcus
Almeida e os arranjos são elaborados pelos dois intérpretes. Além de intérpretes, ambos são
pesquisadores e educadores musicais.
Autoria da obra:
Diversos
Aníbal Augusto Sardinha (Garoto)
Henri Mancini
Marcus Almeida
Paganini
Dilermando Reis
Detalhe técnico
A música popular pode ser abordada de diferentes formas. Muitas vezes, o termo
“popular” remete, como que por oposição, ao termo “erudito”, sendo que ambos carregam uma
bagagem de significados que podem variar, dependendo do enfoque adotado. Para esta Proposta de
Trabalho Artístico, entender a música popular é relacionar uma maneira de fazer música a um grupo
de indivíduos, enfatizando as relações que se constroem. Portanto, vale a pena começar esclarecendo
de que maneira ela está inserida na sociedade. Entende-se por música popular um tipo de manifestação
cultural urbana dirigida às distrações urbanas1. Desse modo, o músico popular pode ser visto como
um entertainer, como aquele que entretem. Essa ideia contrasta com a imagem do artista
intelectualizado, que passa a maior parte do tempo refletindo e pesquisando. Segundo Tinhorão, o
surgimento da música popular no Brasil está diretamente relacionado às transformações sociais pelas
quais passava a Europa saindo da Idade Média. Foi o surgimento das cidades no Velho Continente,
1
TINHORÃO, José R. História Social Da Música Popular Brasileira. Lisboa: Caminho Ed., 1990 - pp. 17 e 18.
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consequência de uma nova organização social, que apresentou a necessidade de novas formas de
entretenimento, dentre essas, a música. Tinhorão coloca (TINHORÃO, 1990, pp. 17 e 18):
O resultado desse novo quadro de vida urbana sob o moderno regime de relações de produção
pré-capitalista - que assim tendia a abolir o interesse coletivo em favor da particularidade
expressa, caso a caso, na letra da lei - iria fazer-se sentir também no campo cultural. É que,
enquanto os cantos e danças do mundo rural continuavam a constituir manifestações
coletivas, onde todos se reconheciam, a música da cidade - exemplificada no aparecimento
da canção a solo, com acompanhamento pelo próprio intérprete - passou a expressar apenas
o individual, dentro do melhor espírito burguês.
Assim, pode-se concluir que a música popular que se desenvolveu no Brasil - e, por que
não dizer, em todo continente americano - é consequência da forma de colonização adotada e da
maneira como as cidades se formaram no Novo Continente. Por isso, a música popular não deve ser
colocada em oposição à Música Erudita, mas paralela a essa. A música popular feita no Brasil se
desenvolveu de maneira a atender as necessidades de uma classe urbana nova, recém surgida.
Conforme a sociedade foi se transformando e se diversificando, a música popular acompanhou essa
trajetória.
Vale a pena observar, nesse momento, que as artes, de maneira geral, e a música,
especificamente, não devem ser compreendidas como reflexo dessas transformações sociais. As artes
desempenham um papel ativo nesse processo, construindo (e desconstruindo, quando necessário) a
sociedade, contribuindo de maneira decisiva na trajetória de um povo2. Olhando por um outro prisma,
a música popular deve ser entendida como uma forma de fazer música reconhecida e admirada por
um grupo de pessoas que, muitas vezes, apresentam características e interesses diversos. Apesar disso,
é a paixão pela música (por um tipo específico de música) que os identifica enquanto um grupo3.
Justamente pelo fato de a música erudita não se opor à popular, é possível detectar pontos
de contato entre os dois universos. Assim, por exemplo, é possível perceber uma influência na técnica
de alguns instrumentistas populares que passaram pela escola erudita, e alguns grupos que dão um
tratamento camerístico à performance popular. Além disso, é possível encontrar espaços onde a
performance musical transita entre o erudito e o popular. Durante a pesquisa de doutorado do
proponente, foi realizada uma etnografia em bares de jazz da cidade de São Paulo, onde foram
detectados elementos, seja na música, seja no discurso ou, ainda, na postura dos participantes da
performance, que realçam esses pontos de contato. Nesse contexto, o duo Almeida e Feichas procura
explorar essas fronteiras. Formado por violino (instrumento ligado à tradição erudita) e guitarra
elétrica (de tradição popular), o duo se propõem a atuar em uma área onde os limites do que é erudito
e popular não é muito clara. Vale ressaltar que não se trata de negar a existência dessas tradições,
mas, ao contrário, de reafirmá-las explorando uma área onde esses universos parecem dialogar.
2
Ver FELD, Steven. “Sound structure as social structure”, em Ethnomusicology, Vol. 28, nº 3. Published by: University
of Illinois Press, on behalf of Society for Ethnomusicology. [Link] 1984.
3
Ver TURINO, Thomas. Music as social life; the politics of participation. The University of Chicago Press, Chicago, pp.
100 - 101, 2008.
- 14 -
OBRAS E ARRANJOS PARA VIOLÃO EM ESTILO BRASILEIRO
Nota de programa
- Ternura – 5 minutos e 20 segundos, compositor – K-ximbinho – arranjo: Marco Pereira
[Link]
- Felicidade – 5 minutos, compositor: Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes – arranjo: Roland
Dyens
- Valsa e prelúdio – 3 minutos e 43 segundos, compositor – João Juvankle
Proposta executada anteriormente em recital solo no curso de graduação em música
Bacharelado em violão na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Descrição técnica
A prática do violão solo em sua performance no contexto brasileiro foi consolidado pelos
aspectos peculiares do instrumento através da escrita polifônica, do acompanhamento rítmico
harmônico, da capacidade melódica, do tímbre e dos efeitos percussivos, estes últimos bastante
utilizados na música contemporânea. O desenvolvimento do violão solo atual no Brasil foi marcado
por transformações estilísticas e composicionais que acabaram por delinear novos traços ao
instrumento.
Estas1 transformações ocorreram de forma significativa a partir de influências de outras
culturas, principalmente da música norte americana, do Jazz, neste contexto, temos como exemplo o
violonista Marco Pereira (1950) que introduz elementos composicionais em suas obras considerados
tradicionais e elementos considerados modernos provindo do jazz, como também gêneros
pertencentes à tradição da música popular brasileira tais como o samba e o choro.
Sendo assim, não existe o moderno. Sendo o violão solo brasileiro um instrumento de
cultura enraizada no país a partir do final do século XIX (TABORDA 2011), faz-se necessário
explicitar um caminho que nos traga como resultado final a performance instrumental no repertório
solo de concerto em estilo brasileiro.
O recital demonstrará uma conceituada concepção sobre arranjos e obras em estílo
brasileiro valorizando dessa maneira o que é nosso, portanto, com a referida apresentação espero
1
Para investigarmos a música com maior propriedade devemos nos debruçar no que há de comum entre as várias
manifestações musicais - e que efetivamente as transcende -inclusive as não ocidentais e as do atual momento 'babélico'
da música contemporânea. COSTA (2004, p. 79)
- 15 -
contribuir e despertar de modo peculiar para o conhecimento mais abrangente sobre o repertório para
violão solo brasileiro.
Referências Bibliográficas
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SDIRRUBBATU
Marcello Messina1
Universidade Federal do Acre - UFAC - marcelloposta@[Link]
Nota de programa
A composição musical Sdirrubbatu (“derrubado” em siciliano) nasce da reelaboração de
uma ideia musical esboçada mais ou menos dez anos atrás. A intervenção a posteriori num material
sonoro que pertence a uma determinada tradição (individual) e possui uma própria identidade assume
a forma de uma incursão violenta e impiedosa, que demole e literalmente derruba a coerência
pregressa do material utilizado, e constrange o material mesmo a empregar várias táticas para
recuperar esta coerência. No específico, Sdirrubbatu pretende criticar a música culta ocidental e a sua
tradição vanguardista modernista e pós-modernista, que é implicitamente portadora de discursos
totalizantes, patriarcais, eurocêntricos e burgueses. Porém, em expor a violência intrínseca das
convenções vanguardistas, a peça faz uso de ferramentas próprias destas mesmas convenções,
confirmando a dificuldade de evadir ou ignorar tradições musicais, culturais e ideológicas
dominantes.
Compositor: Marcello Messina
Descrição técnica
A composição musical Sdirrubbatu (“derrubado” em siciliano) nasce da reelaboração de
uma ideia musical esboçada mais ou menos dez anos atrás. Esta ideia inicial era baseada num ostinato
do piano, como na figura em baixo:
1
Professor colaborador
- 17 -
Ao passo que na ideia inicial a métrica era fixa em 4/4, a peça final alterna continuamente
a fórmula de compasso entre o 4/4 e o 7/8, assim que a composição é construída no o seguinte
elemento repetido:
- 18 -
No específico, Sdirrubbatu pretende criticar a música culta ocidental e a sua tradição
vanguardista modernista e pós-modernista, que é implicitamente portadora de discursos totalizantes,
patriarcais, eurocêntricos e burgueses. Esta crítica é feita por meio de uma intervenção
desestabilizadora na própria tradição musical pessoal, tratando o si mesmo como um outro, dum jeito
quase auto-etnográfico. O forçamento da alteridade dentro dum espaço normativo modernizador
expõe a violência intrínseca das convenções vanguardistas da tradição musical culta ocidental. Porém,
em expor esta violência, a peça faz uso de ferramentas próprias destas mesmas convenções,
confirmando a dificuldade de evadir ou ignorar tradições musicais, culturais e ideológicas
dominantes.
- 19 -
- 20 -
- 21 -
- 22 -
- 23 -
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UNIVERSO AMAZÔNICO
Llítsia Moreno
llitsia@[Link]
Nota de programa
A Pianista e Professora. Llítsia Moreno, apresentará uma singular releitura sonora, das
composições dos trovadores de Porto Velho, através de seu talento sensível e criativo no seu peculiar
estilo de interpretar. Os ouvintes terão a oportunidade de apreciar timbres melódicos dentro do
universo sonoro pianístico que abordam a beleza e a profundidade da Amazônia. A pesquisadora,
através da música, faz também um chamado para um olhar mais atento para esta região. Destacando
temas como os Ribeirinhos através do Remador a preservação das matas ciliares com A Vitoria Regia.
(Zezinho Maranhão), a preservação e cuidado dos rios, através da música Siglas (Baríbu Nonato). A
graça e alegria das lavadeiras do Rio Madeira e seus afluentes através da música As Lavadeiras e o
desmatamento desmedido que extermina a flora e a fauna na Flora Concreta (Bado). Através deste
trabalho sonoro investigativo da professora Llitsia Moreno, compartilhamos através da música a
alegria de se viver em Porto Velho.
Compositor: Llístsia Moreno
Descrição Técnica
Porto Velho, inserido no universo Amazônico, se expressa através das artes e a música
como expressão artística se destaca nas vozes de seus trovadores que cantam e expressam suas
impressões acompanhados de seus violões, nos diversos espaços culturais da capital. Como
pesquisadora e professora de música, procura estar atenta ao universo sonoro inserido em nosso
habitat. Registro através da uma linguagem pianística as suas impressões, e as idéias centrais destas
melodias por ela escutadas, oferecendo uma releitura, através do universo sonoro do piano que nos
possibilita enfatizar a expressão sonora através dos recursos que este instrumento oferece com os
timbres e o destaque dos acentos rítmicos nas articulações de expressão, tudo dentro de uma
performance sonora contemporânea, que brinda a liberdade de apreciação sonora para o ouvinte.
Como professora da Escola Múnicipal de Música em Porto Velho, participa e apoia ativamente
iniciativas que visam a educação através da música, destacando a importância da música na formação
integral do ser humano nas primeiras etapas da vida
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EDUCAÇÃO MUSICAL
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A PRESENÇA DE ATIVIDADES MÚSICO-EDUCACIONAIS NO ENSINO FUNDAMENTAL
EM ESCOLAS DE PORTO VELHO /RO
Resumo: Este trabalho tem por base pesquisa realizada em escolas de Porto Velho, visando
detectar a presença de atividades músico-educacionais no ensino fundamental, com apoio nas
ideias de Swanwick (2003) e Kraemer (2000), sobre ensino musical, objetivando conhecer
aspectos relevantes para compreensão da natureza daquelas atividades, com realização de
levantamento em setenta e três escolas, através da aplicação de questionários, seguido de
estudo de campo aprofundado, em seis escolas, por meio de entrevistas, cujos dados
receberam tratamento por meio de análise de conteúdo, conforme Guerra (2010),
acompanhado de uma pesquisa documental. Os resultados indicam a presença de atividades
músico-educativas isoladas, sem que se vislumbre a definição de políticas de educação claras
para esta área, naquele contexto escolar.
Abstract: This paper is based on research conducted in Porto Velho schools, to detect the
presence of music- educational activities in such teaching - reasoned, supported in Swanwick
ideas (2003) and Kraemer (2000), musical education, aiming to meet relevant to
understanding the nature them activities, conducting survey in seventy- three schools,
through questionnaires, followed by in-depth field study in six schools, through interviews,
whose data were treated by content analysis , according to Guerra (2010) and conducting
documentary research. The results indicate the presence of isolated music-educational
activities, without that glimpse setting clear education policy in this area at that school
context.
Introdução
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em uma breve revisão bibliográfica. Como fundamentação teórica, foram consideradas,
principalmente, as proposições de Kraemer (2000), para quem “no centro das reflexões musicais
estão os problemas da apropriação e transmissão da música” (KRAEMER, 1995/2000, p.), assim
como, as ideias de Swanwick (2003) sobre a consolidação de um currículo musical integrado,
segundo o qual “o aluno compõe, toca e responde à música como apreciador” (SWANWICK,
2003, p. 113). A questão da formação dos educadores musicais também ganhou relevância,
conforme já ressaltado por Figueiredo, quando ele diz:
Neste momento da educação musical brasileira, quando temos uma legislação que
estabelece a música como, conteúdo curricular obrigatório‟ na educação básica (BRASIL, 2008),
diversas considerações têm sido feitas com relação à ausência de professores licenciados para
atuarem nas escolas em todo o Brasil, mas não se sabe exatamente qual a necessidade numérica
que se apresenta (FIGUEIREDO, 2010, p. 162).
Desta forma, tomando por base conceitos para definição de uma pedagogia da música
e, levando em consideração as recomendações específicas para a área de educação musical,
buscou-se empreender uma investigação ampla e, ao mesmo tempo, aprofundada, sobre a
realidade do ensino musical, nos contextos escolares investigados.
O trabalho de campo para esta pesquisa se deu em duas fases, sendo que a primeira
consistiu na realização de um levantamento, abrangendo 73 (setenta e três) escolas de ensino
fundamental, integrantes da rede estadual de educação, ligadas às RENs/SEDUC/RO1, em Porto
Velho e distritos. A este levantamento inicial seguiu-se um estudo aprofundado, envolvendo seis
das escolas pesquisadas, complementado por uma pesquisa documental, com base em
documentos de planejamento escolar e institucionais, além de registros de imagem relativos às
atividades de ensino musical, desenvolvidas nessas escolas.
O levantamento consistiu na aplicação de questionários dirigidos aos diretores,
professores, coordenadores de projetos específicos e instrutores de música, nas 73 escolas
participantes, contendo perguntas abertas e fechadas, objetivando detectar a presença de
atividades músico- educacionais nesses contextos escolares, além de conhecer a visão destes
agentes sobre a inclusão da música enquanto “componente curricular obrigatório” na educação
básica (BRASIL, 2008). O tratamento dos dados dos questionários envolveu, de forma sucessiva,
classificação e codificação das respostas, organização de quadros e estabelecimento de relações
entre os dados, possibilitando lançar um olhar sobre a realidade do ensino musical, naqueles
contextos escolares. A seguir, foi realizado um estudo de campo aprofundado, objetivando
investigar “as condições de várias das entidades que estavam sendo examinadas” (YIN, 2010, p.
88).
Este estudo envolveu 06 (seis) escolas, escolhidas por apresentar experiências mais
estruturadas na área da educação musical sendo que, nesta etapa do trabalho de campo, foram
realizadas entrevistas do tipo semiestruturada envolvendo professores, coordenadores de projeto
1
No decorrer da pesquisa, houve uma reorganização administrativa na SEDUC/Porto Velho e a três RENs existentes, se
fundiram em uma só.
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e instrutores de música. Os dados das entrevistas receberam tratamento por meio de processo
simplificado de análise de conteúdo, a partir das propostas de Poirier e Valladon (1983 apud
GUERRA, 2010, p. 68). A análise dos dados das entrevistas se deu em etapas, envolvendo análise
tipológica, categorização e análise interpretativa, possibilitando o conhecimento sobre os
diversos aspectos relativos à natureza das atividades músico-educacionais desenvolvidas nas
escolas, assim como, as formas como estas estão inseridas nos diversos contextos escolares
pesquisados.
Complementando o trabalho de campo, foi realizada uma pesquisa documental, com
o propósito de verificar registros escolares diversos, tais como: planejamentos escolares,
planejamentos institucionais, relatórios, material didático-pedagógico, dentre outros,
objetivando conhecer aspectos mais formais destas experiências. Também se localizou registros
fotográficos, contendo imagens das atividades músico-educativas realizadas, como forma de
ilustrar tais processos.
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projeto conta com dois anos de existência e tem propiciado a que alunos, oriundos de uma escola
localizada em um dos bairros periféricos da cidade, entrem em contato com a música em seus
vários aspectos, desenvolvendo o domínio da técnica para instrumentos de corda, sopro e
percussão, além de conhecimentos de leitura e escrita musical, ampliando a sua cultura musical.
Desta forma, tem angariado o respeito da comunidade e alcançado projeção para além dos muros
da escola, com realização de apresentações em distintos locais da cidade ou, mesmo, fora do
Estado.
A realização de um festival escolar anual de música, nas modalidades autoral e
interpretação, é uma iniciativa de dois professores que encontram, nesta atividade, a
oportunidade de implementação de uma proposta interdisciplinar. Este festival tem-se
desdobrado em diversas ações integradas, resultando, várias edições depois, em um Festival de
Arte e Cultura anual, desenvolvido a partir de uma proposta globalizadora, onde a temática
escolhida é trabalhada de forma interdisciplinar, pelos professores das diversas disciplinas e
apresentada através de diferentes meios de expressão (arte, música, teatro, dança, literatura, etc.),
a partir do envolvimento de toda a comunidade escolar. Este é um exemplo do potencial da
música enquanto elemento integrador, dentro da realidade das escolas.
Também de iniciativa de um professor de História, temos a realização de uma
“Oficina de Voz e Violão”, abertas a toda a comunidade escolar, com a finalidade de
aproveitamento do tempo ocioso das salas de aula no período do interturno. Este projeto objetiva
proporcionar oportunidade de contato com a técnica inicial do violão, conhecimentos na área de
canto, além de formação musical mais ampla, tanto para alunos como para professores e
servidores daquela escola.
Já o Projeto “Mais Educação”, originário da esfera federal, realizado em diversas
escolas de ensino fundamental da rede estadual de educação em Porto Velho, abriga inúmeras
atividades músico-educacionais, tais como: formação de fanfarras escolares, oficinas de violão
e de instrumentos de percussão, atividades de canto, etc. Estas atividades são oferecidas no
contra turno, ou mesmo, no interturno, e são ofertadas aos alunos interessados, na forma de
atividades extraclasse. A implementação destas atividades tem como suporte material os
diversos instrumentos musicais e demais materiais músico-pedagógicos enviados pelo MEC e se
apoiam, principalmente, no empenho dos coordenadores e monitores, para a continuidade destas
ações. Os recursos humanos disponibilizados se resumem a voluntários, oriundos da comunidade
ou, ainda, estagiários dos cursos de licenciatura em música, o que dificulta que estas ações
possam ser reofertadas. Mesmo assim, inúmeras iniciativas vêm sendo desenvolvidas, com
resultados promissores, apresentados à comunidade escolar através de apresentações de grupos
musicais, dança, corais, realização de festivais de fanfarras, mostras musicais, sempre com
grande repercussão junto à comunidade escolar.
Também as atividades relacionadas ao folclore local, tais como, a formação de
quadrilhas e grupos de boi-bumbá, com apresentação de danças e músicas regionais, são
trabalhadas em muitas escolas de ensino fundamental, ainda que, de forma esporádica. Tais
atividades, comprometidas com o objetivo de resgate das manifestações culturais regionais
tradicionais, nem sempre integram os projetos específicos, ficando ao encargo, na maior parte
das vezes, dos professores de Arte.
Os planejamentos escolares, a embasar as atividades músico-educacionais
desenvolvidas nas escolas, partem de princípios que estão ancorados, muito mais, nas visões
individuais, do que com base em diretrizes oficiais que possam balizar tais ações. De fato, de
- 30 -
uma maneira geral, não foi possível divisar a existência de diretrizes, emanadas dos órgãos
gestores, a presidir estas práticas. Em nossos contatos com a equipe pedagógica da SEDUC/RO,
ainda na etapa preparatória para o trabalho de campo, não foi possível localizarmos a existência
de orientações ou propostas pedagógicas formalizadas para a área de educação musical.
Informações dispersas nos levaram a tomar conhecimento da existência de uma equipe externa,
a qual estaria incumbida de elaborar propostas curriculares para as diversas áreas do currículo
escolar, a serem implementadas nas escolas do sistema estadual de ensino. Este documento,
porém, não havia chegado ao conhecimento dos professores e demais agentes responsáveis pelo
desenvolvimento das atividades músico-educacionais, durante o período de realização desta
pesquisa.
De acordo com a pesquisa documental empreendida, tendo por base documentos de
planejamento escolar e institucional, detectou-se que os objetivos educacionais, explicitados
nestes documentos, denotam uma preocupação com aspectos gerais, tais como: formação integral
do educando; desenvolvimento dos aspectos cognitivo, afetivo e motor, para o desenvolvimento
harmonioso da personalidade do educando; desenvolvimento da apreciação estética; formação
para uma vida social mais produtiva; enriquecimento cultural; desenvolvimento psicossocial do
educando e, mesmo, inserção no mercado de trabalho. Já os conteúdos discriminados, incluem:
o som, ritmo e ritmos musicais, leitura e escrita musical, leitura absoluta, tipos de acordes, cifras,
sequências harmônicas, aspectos técnicos da prática instrumental (violão, instrumentos de sopro
e percussão), afinação, prática de conjunto, características de diferentes culturas musicais
(nacional e internacional), etc. Tais conteúdos são trabalhados através de atividades diversas,
envolvendo: jogos, marchas, cantar, tocar, movimentar-se, marcar ritmos, vivências musicais,
atividades direcionadas através da música, estudos teóricos, exercícios de leitura e escrita
musical, audição musical, prática instrumental, aplicação de ritmos para acompanhamento,
improvisação musical, criação e formação de grupos musicais (grupo de violão, violão e voz,
bandas, fanfarras, orquestra e coral). De acordo, ainda, com os documentos analisados, tais
atividades propiciam o desenvolvimento musical através de: processos de musicalização,
desenvolvimento da percepção musical, vivência de diferentes ritmos, ampliação da capacidade
de apreciação musical, compreensão de conceitos teórico-musicais, aquisição de habilidades de
leitura e escrita musical, desenvolvimento de habilidades específicas voltadas à prática
instrumental e prática de conjunto, domínio técnico do instrumento, ampliação da cultura
musical, aprofundamento do apreço pelas manifestações culturais de sua comunidade e de outras
culturas, além do desenvolvimento da consciência crítica em relação à veiculação de músicas
através das diferentes mídias. Os resultados obtidos se concretizariam através da participação
dos alunos em apresentações musicais diversas, tais como: audições, recitais, mostras, festivais
escolares e demais ações integradas ao ambiente escolar.
Por outro lado, a insuficiência de referenciais teórico-metodológicos, assim como, de
diretrizes músico-pedagógicas a subsidiar tais atividades, é sentida como um dos fatores que
dificultam o desenvolvimento desta área. O pouco acesso às fontes de pesquisa foi citado, pelos
profissionais, como um dos fatores que impactam, negativamente, o trabalho a ser desenvolvido.
Por sua vez, os PCNs de /Arte nem sempre são citados, espontaneamente, por estes profissionais,
como fonte de consulta para os seus planejamentos pedagógicos, mesmo quando disponíveis nas
escolas. Alguns desconhecem este referencial e, entre aqueles que tiveram acessos ao mesmo,
nem todos se mostram inclinados a utilizá-lo como suporte para seus planejamentos, alegando
dificuldades quanto à compreensão das propostas apresentadas ou, ainda, falta das condições
ambientais e materiais, para sua concretização. Os profissionais apontam, ainda, outras fontes
- 31 -
de pesquisa para seus planejamentos, tais como: conteúdo da Internet, livros didáticos na área
de música, métodos para prática instrumental, revistas e, principalmente, os conteúdos das
disciplinas dos cursos de licenciatura em música, assim como, a experiência musical anterior do
professor. Os recursos músico-pedagógicos utilizados compreendem: apostilas especialmente
elaboradas para o desenvolvimento destas atividades, contendo exercícios e atividades a serem
realizadas pelos alunos; apostilas informativas e métodos com exercícios para a prática
instrumental; livros de teoria musical; partituras musicais, recursos audiovisuais (CD, vídeos,
arquivos digitais, etc.), entre outros recursos disponíveis. Um dos aspectos considerados
preocupantes se refere à dificuldade de acesso aos materiais músico-pedagógicos, identificados
com a realidade cultural local.
Quanto aos recursos materiais envolvidos, estes tem sido considerado insuficientes
e, em alguns casos, até mesmo, inadequados. A carência, assim como, as inadequações destes
materiais são apontadas como fatores que dificultam o desenvolvimento das atividades musicais
nas escolas, da mesma forma que as condições inadequadas para a guarda e manutenção destes
materiais. A (in)disponibilidade de espaços físicos adequados, também, é considerada como um
dos fatores que dificultam o desenvolvimento das atividades músico-educativas nas escolas,
considerando que estas acontecem, via de regra, em ambientes improvisados, quase sempre
inadequados, caracterizando um quadro marcado pelo descaso para com as reais necessidades
das escolas, necessitando medidas que visem a superação desta situação, tanto no seu aspecto
quantitativo, quanto qualitativo.
Observa-se, portanto, que as atividades músico-educacionais, desenvolvidas nos
anos/séries finais do ensino fundamental, nas escolas participantes da segunda etapa desta
pesquisa, acontecem, geralmente, no contra turno ou no interturno, caracterizando-se como
atividades de caráter extraclasse, atendendo somente a parte do alunado. Os alunos beneficiados,
em geral, são escolhidos dentre aqueles que demonstram maior interesse e, em alguns casos, são
adotados critérios de seleção, seja através de testes de aptidão musical, ou mesmo, por meio da
realização de cursos preparatórios, ao final dos quais são selecionados aqueles que apresentam
melhor aproveitamento. Tais processos implicam na exclusão da maioria dos alunos, de forma
que estas atividades não atingem, diretamente, o conjunto dos discentes de uma mesma escola.
Quanto à receptividade, por parte dos diversos segmentos da comunidade escolar, há
relatos sobre dificuldades para a compreensão sobre a natureza do trabalho músico-educativo
sendo que, mesmo entre o corpo docente, são encontradas resistências. Muitos professores
reconhecem a legitimidades da presença da música no cotidiano escolar, porém, alguns ainda se
sentem incomodados pelas especificidades da área, considerada estranha à natureza do trabalho
escolar e, desta forma, ora reclamam do barulho excessivo, ora se desgastam em ter que dividir
espaços e equipamentos, de resto, quase sempre insuficientes, ou, ainda, alegam que as
atividades musicais “roubam” o tempo de estudo dos alunos, que passariam a ter menor
desempenho em outras disciplinas. Porém, segundo observado pelos educadores musicais, a
situação real é, exatamente, inversa: o aluno, desmotivado para os estudos, encontraria nas
atividades musicais um incentivo para manter uma relação mais próxima com a escola.
Já os diretores, frequentemente, são citados como incentivadores das atividades
musicais, em suas escolas. Este é um dado importante, pois revela haver espaço para a
consolidação destas iniciativas, assim como, o surgimento de novas proposições. Quanto às
equipes técnico-pedagógicas, as mesmas nem sempre assumem a tarefa de assessoramento
pedagógico aos educadores musicais. Neste ponto, entretanto, há algumas divergências entre os
- 32 -
relatos dos entrevistados, pois, enquanto alguns revelam receber este acompanhamento, outros
afirmam não contar com este serviço. O desconhecimento sobre a área de Arte, em geral, e da
Música, em específico, tem levado os coordenadores de projeto a tentar suprir tais deficiências,
passando a acompanhar a atuação dos instrutores de música e monitores. Nunca é demais
lembrar, ainda, o já histórico afastamento da música dos currículos escolares, levando a um certo
distanciamento em relação à realidade das escolas. Neste sentido, os educadores musicais têm
procurado uma maior participação, principalmente nos momentos de planejamento escolar,
visando uma maior integração com a vida escolar.
A relação com a SEDUC/RO, por outro lado, tem sido descrita, por muitos dos
entrevistados, como fria e distanciada. Alguns afirmam não receber, por parte daquele órgão
gestor da educação, o apoio necessário para o desenvolvimento das atividades músico-
educativas, em suas escolas. Ressentem-se, ainda, da falta de programas voltados à formação
continuada, seja através de cursos de capacitação ou, ainda, da realização de treinamento em
serviço, na área de música. Quanto às perspectivas futuras, muitos destes profissionais
consideram importante a continuidade dos projetos desenvolvidos em suas escolas, porém, têm
consciência de que a sua continuidade, assim como, a ampliação do número de alunos
beneficiados, depende da existência de mais profissionais, envolvidos com esta área, nas escolas.
Assim, com base nas análises empreendidas, podemos dizer que o panorama da
educação musical, nos anos/séries do ensino fundamenta, em escolas da rede estadual de ensino,
em Porto Velho/RO e distritos, aponta para a presença de atividades musicais isoladas,
caracterizando-se pela coexistência de distintas formas de inserção da música naqueles contextos
escolares, não sendo possível divisar a existências de políticas de educação claras, voltadas para
a área de educação musical, no âmbito daquele sistema educacional.
3. Considerações finais
Referências bibliográficas
- 33 -
BRASIL. Lei Nº 11.769, de 18 de agosto de 2008. Poder Executivo. Brasília: 2008. Disponível em:
[Link] Acesso: 03/01/2011.
SWANWICK, K. Ensinando música musicalmente. Trad. Alda de Oliveira e Cristina Tourinho. São
Paulo: Moderna, 2003.
- 34 -
EDUCAÇÃO MUSICAL NA REDE ESTADUAL DE ENSINO DO ACRE - BR
Resumo: Esta é parte de uma pesquisa realizada como Trabalho de Conclusão de Curso na
Universidade Federal do Acre. Buscou-se descrever como estava o quadro, em números, da
educação musical à nível de ensino público oferecido pelo governo do estadual no Acre
(Brasil) no ano de 2013. Pode-se constatar que, segundo os dados da Secretaria de Educação
do Estado, não havia nenhum professor formado em licenciatura em música contratado pelo
Estado, e que o conteúdo de artes estava sendo ministrado por professores com outras
formações. Além disso, não havia nenhuma política pública até julho de 2014 voltada para o
desenvolvimento da educação musical nas escolas públicas mantidas pelo estado.
Abstract: This is part of a research realized to the work Completion of course in the Federal
University of Acre. We sought to describe how was the picture, in numbers, the level of
music education in public schools offered by the state government in Acre (Brazil) in 2013.
It can be verified that, according to data from the Secretary of State for Education there was
no teacher degree in bachelor's degree in music hired by the State, and that the arts content
was being taught by teachers with other formations. In addition, there was no public policy
by July 2014 focused on the development of music education in public schools run by the
state.
1. Introdução
- 35 -
microrregiões: Brasileia; Cruzeiro do Sul; Rio Branco; Sena Madureira; e Tarauacá. Em alguns
municípios como Santa Rosa do Purus, Jordão, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter, o acesso
é difícil e se dá apenas por avião, vias fluviais durante a cheia dos rios e por estrada de terra, no
período de estiagem.
A metodologia adotada para a execução dessa pesquisa foi a exploratória onde busca-
se entender como está se dando o problema, mostrar suas conquistas, fragilidades e, a partir das
conclusões construir hipóteses para que em estudos futuros possamos ter uma melhor
compreensão do fenômeno (GIL, 2010), buscando melhorar a educação musical no estado.
A coleta de dados se deu principalmente através de documentos cedidos pela SEE do
Acre, pois, alguns dos documentos analisados, são de uso interno dessa secretaria e não estão
disponibilizados na internet. Documentos esses são: relatórios de senso escolar, que se referem
a quantidade de escolas construídas, alunos matriculados, professores contratados e Cadernos de
Orientação Curricular do Estado do Acre, onde alguns estão disponíveis online e outros não.
Os documentos coletados e analisados referem-se ao ano de 2013, pois na época da
coleta de dados (jul. 2014) o departamento estava em processo pesquisa e de organização de
dados do ano de 2014.
Foi realizada uma entrevista semiestruturada com a coordenadora pedagógica de
Artes na Secretaria de Educação do Estado. Essa entrevista se fez necessária em virtude de que
haviam ainda algumas dúvidas que não eram possíveis de serem sanadas apenas com os
documentos, principalmente em relação ao que a secretaria vem pensando e planejando para o
ensino de música nas escolas.
Atualmente, a rede de ensino do estado do Acre está organizada de forma diferente
para a zona rural e a urbana, sendo assim trataremos dos dois ensinos de forma separada.
Entre outras peculiaridades, na zona rural do estado do Acre, o ano letivo segue um
calendário que começa em abril e vai até o mês de novembro, isso porque as chuvas muito
intensas de dezembro a março trazem transtornos como grandes alagações e estradas de terra
intrafegáveis neste período.
Segundo o Departamento de Divisão de Estudos e Pesquisas Educacionais (DEPE),
o estado do Acre possui cerca de 1.678 escolas, distribuídas em toda a zona rural dos 22
municípios do estado, oferecendo ensino nos níveis de: creche, pré-escolas, escolas de ensino
fundamental, escolas de ensino médio, educação de jovens e adultos (EJA) e escolas
profissionalizantes.
Ainda de acordo com senso escolar realizado pelo DEPE, estavam em 2013, 157.214
alunos matriculados na rede estadual de ensino rural do Acre, esses alunos estavam divididos
em: 428 alunos no nível pré-escolar; 25.338 alunos no ensino fundamental de primeiro ao nono
ano; 22.023 alunos matriculados no ensino médio; 98 alunos no ensino profissionalizante; e
3.931 na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
Dentre os professores que atuavam na rede pública estadual de ensino, 322
professores possuíam contrato efetivo, 2016 professores possuíam contrato provisório e 34
- 36 -
professores eram contratados de forma terceirizada, portanto a zona rural do estado possuía um
total de 2.372 professores que assistiam essas escolas.
Atualmente na grande maioria das escolas rurais do Acre, os professores que atuam
na área de artes não são formados em nenhuma das licenciaturas em artes. Tínhamos em 2013,
1.527 professores ministrando aulas de artes nas escolas, incluindo música, desses apenas dois
professores possuíam formação em artes visuais, os outros são licenciados que possuem
graduação em outras disciplinas que não artes, além de professores que só possuem magistério
ou ensino médio completo.
A SEE do Acre, no intuito de desenvolver um ensino de melhor qualidade para zona
rural, elaborou no ano de 2005, 2008 e 2009 (ACRE, 2014) um programa intitulado Asas da
Florestania, onde os conteúdos são dados em módulos para atender as escolas de zona rural.
Especificamente para a área de artes esse projeto visa promover uma intervenção
pedagógica com as artes integradas (artes cênicas, plásticas, música e dança) para o ensino
médio, fundamental e infantil das escolas da zona rural do estado.
Esse projeto tem uma carga horária de 40 horas, com apenas cinco encontros de 240
minutos, realizado dentro do ano letivo. Como exemplo e para melhor esclarecimento podemos
citar o 1º ano do Ensino Médio onde em sua primeira unidade são abordados os conteúdos
referente às artes visuais; na segunda unidade, o projeto trabalha com música: (Visual Música),
timbre e ritmos no espaço; na terceira unidade trabalha os conteúdos de dança; na quarta unidade
trabalha as artes cênicas; na quinta unidade trabalha os conteúdos referentes ao cinema; na sexta
unidade trabalha a apreciação e analise; e na sétima unidade o projeto desenvolve a expressão
nas modalidades de artes (SEE/AC, 2012).
Nota-se que em todo o conteúdo proposto para o primeiro ano do ensino médio pelo
projeto para desenvolver os conteúdos de artes para a zona rural do estado, só são abordados
timbre e ritmos no espaço que demonstra uma maior ênfase as demais áreas de artes.
Segundo o último Censo Demográfico feito em 2010 cerca de 53.0270 pessoas viviam
na zona urbana do Acre, sendo que destas 308.545 residiam em Rio Branco (capital do estado).
A maior parte dos municípios do estado já possuem fácil acesso terrestre, no entanto ainda há
alguns como o caso de Santa Rosa do Purus, Jordão, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter,
onde a alternativa é o transporte fluvial ou aéreo.
Ao contrário da zona rural, a zona urbana não enfrenta grandes problemas com
relação ao período chuvoso, entretanto, em algumas regiões as enchentes do Rio Acre, Envira e
Tarauacá, atrasam o calendário escolar, pois o governo utiliza as unidades escolares como
alojamento para abrigar a população atingida pelas cheias.
Segundo o último censo em toda zona urbana, estão construídas 2.207 unidades
escolares, que oferecem o ensino nas etapas: creche, pré-escola, ensino fundamental, ensino
médio, profissionalizante e EJA (Educação de Jovens e Adultos). Em um mesmo
estabelecimento de ensino pode ser ofertado mais de um Nível/Modalidade de Ensino (Censo
Demográfico, 2010).
- 37 -
Nas escolas da rede pública da zona urbana do estado tinha-se em 2013, 157 alunos
matriculados em creches, 238 matriculados na pré-escola, 29.693 no ensino do primeiro ao
quarto ano, 3.8778 no ensino do sexto a nono ano do ensino fundamental, 1374 em escolas
profissionalizantes, 285.975 no ensino médio e 16.878 alunos no sistema EJA (dados do DEPE,
2013).
O estado conta para suprir a demanda da zona urbana em seu quadro de professores
com contrato efetivo um total de 1.949 em toda rede, possui em seu quadro provisório cerca de
2.014 profissionais e 252 professores terceirizados.
Na zona urbana, assim como na rural, o Estado possui em seu quadro de professores
que ministram as matérias de artes, profissionais com graduação em diversas áreas, em 2013
eram 1.556 professores que atuavam no ensino de Artes de forma geral, desses apenas 15 com
formação específica em artes visuais, não havendo nos registros professores com formação em
música, teatro ou dança.
Segundo a coordenadora pedagógica de Artes na SEE do Acre, a música é uma das
artes mais difíceis de ser trabalhada por professores que não têm formação na área, ficando
assim, muitas vezes sem ser trabalhada nas escolas.
A questão que a gente tem é que o aluno tem que ter as quanto linguagens, a escola pode
ofertar a música, o teatro, a dança ou artes visuais. Eu trabalhei com professora polivalente...
O quê que eu fazia? Eu tinha mais afinidade com a artes visuais, então eu trabalhava arte
visual, eu trabalhava a música não tocando instrumento, mas passando o conceito de música,
então é isso que os professores trabalham também, porque nãos temos essa habilidade, e é
isso que os professores sentem mais dificuldade, o que é mais difícil de trabalhar a música, é
a linguagem mais inacessível, e que os professores fogem dela (risos)” (Entrevista,
coordenadora pedagógica de Artes da SEE do Acre, jul. 2014).
Ainda segundo ela, a rede pública de ensino urbana possui uma estrutura um pouco
mais desenvolvida que a zona rural, segundo ela algumas escolas
possuem uma estrutura física como sala de artes ou sala de música, entretanto, as estrutura
física é de total responsabilidade da gestão da escola, pois a mesma possui total autonomia
para adaptar a estrutura da escola para desenvolver o ensino, seja de música, artes plástica,
visual ou cênica (Entrevista a SEE – 2014).
- 38 -
Conclusão
Foi notado que há, poucas políticas públicas voltadas a educação musical no estado
do Acre, e que há muitas dificuldades na implementação da música nas escolas, sendo que as
principais são: quantidade de professores inferior a demanda de todo o estado e dificuldade de
acesso a alguns municípios e escolas rurais. Além disso há falta de profissionais qualificados e
poucas universidades oferecem a licenciatura em música.
Pode-se notar também estratégias incipientes traçadas pela SEE-AC para poder
desenvolver o ensino de música na zona rural, o projeto Asas da Florestania oferta nas escolas
rurais os conteúdos de músicas e as demais linguagens artísticas.
A implementação da lei passa pela necessidade do aumento de cursos de formação e
capacitação de professores, bem como políticas de incentivos, que fomentem o interesse de
professores licenciados pelo ensino público.
Dessa forma a presente pesquisa pode servir de referência para novas pesquisas na
área de educação musical, ensino de artes e para uma maior reflexão acerca de como vem se
dando o ensino de música nas escolas do Acre, quais mudanças devem ser efetuadas e quais
possíveis caminhos podem ser traçados.
Referências bibliográficas
ACRE. Ensino Rural. Secretaria de Estado de Educação e Esporte Ensino Rural. Rio Branco, 2014.
Disponível em: <[Link] Acesso em:
30 mar. 2015.
FONTERRADA, M. T. O. De tramas e fios: um ensaio sobre música e educação. São Paulo: Editora
da UNESP, 2008.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisas. 5. ed. São Paulo: Atlas, 2010.
SEE/AC. Projeto Asas da Florestania: primeiro ano do Ensino Médio. Rio Branco, 2012.
- 39 -
MOVIMENTO MUSICAL:
UTILIZAÇÃO DOS PRINCIPAIS ASPECTOS DA EURITMIA DE DALCROZE COMO
FERRAMENTA DE MUSICALIZAÇÃO NA EDUCAÇÃO BÁSICA
Resumo: O presente trabalho consiste em analisar a proposta desenvolvida por Émile Jaques-
Dalcroze no que tange ao ensino da música. Os principais aspectos de uma de suas
concepções pedagógicas, conhecida como “Dalcroze Eurhythmics”, foram abordados a partir
de bibliografias, visando suas reais possibilidades de utilização como ferramenta de
musicalização na educação básica brasileira. A principal proposta da pesquisa é o fomento
metodológico influenciado em Dalcroze como instrumento facilitador dos processos de
educação musical infantil que, de acordo com a Lei 11.769/2008, passa a vigorar como
conteúdo obrigatório da grade curricular das instituições escolares regularmente registradas
no Brasil.
Abstract: This work is the proposal of analysis developed by Emile Jaques-Dalcroze for
music education. The main aspects of their pedagogical concepts, known as "Dalcroze
Eurhythmics" were approached from bibliographies, seeking their realistic utilization as
musicalizacion tool in Brazilian basic education. The main purpose of the research is the
methodological development influenced in Dalcroze as facilitator of children's musical
education processes that, according to brazilian law 11.769/2008, is effective as mandatory
content of the curriculum of educational institutions regularly registered in Brazil.
Keywords: Child Education. Teaching music. Dalcroze Eurhythmics. Music and movement.
Apesar dos inúmeros avanços tecnológicos, bem como a contribuição das ciências ao
longo dos anos e o avanço significativo da legislação brasileira no que diz respeito ao
direito da criança à educação de qualidade desde o nascimento, a realidade denuncia um
- 40 -
grande descompasso entre o discurso da lei e o cotidiano de muitas escolas infantis.
(PASCHOAL & MACHADO, 2009, p. 79).
Verifica-se que, até meados dos anos setenta, pouco se fez em termos de legislação que
garantisse a oferta desse nível de ensino. Já na década de oitenta, diferentes setores da
sociedade, como organizações não governamentais, pesquisadores na área da infância,
comunidade acadêmica, população civil e outros, uniram forças com o objetivo de
sensibilizar a sociedade sobre o direito da criança a uma educação de qualidade desde
o nascimento. (PASCHOAL & MACHADO, 2009, p. 85).
- 41 -
A Lei 8.069/90, comumente conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente
(ECA), é, igualmente, mais um importante passo dado quanto ao reconhecimento e efetivação
dos direitos assegurados constitucionalmente: com a aprovação do ECA o Ministério da
Educação publicou, entre 1994 e 1996, uma série de documentos intitulados “Política Nacional
de Educação Infantil”, que estabeleceram diretrizes pedagógicas para melhoramento da
qualidade da educação infantil e expansão da capacidade de atuação.
Dentre as principais medidas elaboradas pelo Ministério da Educação destaca-se a
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996, cuja determinação fundamental está
baseada na concepção de que a finalidade da educação infantil é promover o desenvolvimento
integral da criança até a faixa etária de seis anos.
A fim de regulamentar as instituições de ensino, dando-lhes qualificação para
funcionamento, em consonância com a Constituição Federal, no ano de 1998, o Ministério da
Educação publicou uma série de documentos - “Subsídios para o Credenciamento e o
Funcionamento das Instituições de Educação Infantil”.
O “Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil” é outra publicação do
mesmo ano que determina as diretrizes educacionais a partir de orientações didáticas, conteúdos
e objetivos a serem adotados pelos profissionais da educação na docência com crianças de zero
a seis anos de idade.
A melhoria dos resultados de aprendizagem ancorados às diretrizes educacionais vale
ressaltar, relaciona-se essencialmente com o posicionamento adotado pelo educador, que deve
estar apto a aplicar estratégias didáticas diversificadas, desde atividades pedagógicas orientadas
até brincadeiras de cunho educativo. Ou seja, as diretrizes legais “ditam as regras”, mas ao
profissional de educação cabe à busca da melhor condução da sua atuação docente, de acordo
com a situação em questão, pois apesar de muitos avanços relacionados à legislação, a qualidade
do ensino infantil brasileiro apresenta diversas lacunas, desde aspectos estruturais até políticas
de aperfeiçoamento dos profissionais da área.
- 42 -
Tal fato representa um problema: “não é possível levar o futuro profissional a
compreender que a criança pequena aprende de modo integrado, quando, no seu curso de
formação, os conteúdos se apresentam de maneira fragmentada [...]”. (PASCHOAL &
MACHADO, 2009, p. 90)
Além dos entraves relacionados à formação, há outros desafios são constantes na
atuação docente brasileira: as realidades encontradas em sala de aula nem sempre são
compatíveis com os conceitos meramente teóricos que, em muitos casos, não se aplicam às
situações reais encontradas pelo professor em sua práxis profissional.
É conveniente ressaltar que a qualidade tem muitas leituras e pode ser analisada sob
diferentes perspectivas. O importante é que a educação de qualidade da criança pequena
possa ser reconhecida não só no plano legislativo e nos documentos oficiais, mas pela
sociedade como um todo. Afinal essa modalidade educacional é de responsabilidade
pública e, como tal, deve prioritariamente ser assumida por todos; esse é o nosso maior
desafio. (PASCHOAL & MACHADO, 2009, p. 92).
Mesmo que os amparos legais sejam bastante recentes na história da educação infantil
brasileira, muitos avanços ocorreram. Mas, acima de tudo, para a efetiva melhoria do sistema,
cabe ao poder público, aos profissionais da área e à sociedade em geral o reconhecimento de que
muito ainda deve ser feito.
A educação musical infantil é um processo pelo qual a criança desenvolve uma série
de aspectos cognitivos. Porém, é necessário compreendermos que educar através de uma
expressão artística é mais do que simplesmente transmitir conhecimentos: é contribuir com a
formação sócio/cultural do indivíduo.
Uma grande ferramenta inicial de educação musical é o ritmo. Em razão disto, o
desenvolvimento da percepção rítmica deve fazer parte das primeiras atividades de Educação
Musical infantil.
A duração dos sons e silêncios é facilmente perceptível às crianças. Contudo,
conceitos teóricos são dispensáveis nesta primeira fase, pois “impossibilita a verdadeira
compreensão do assunto. Ao contrário, é importante sentir o ritmo musical, de modo que a
- 43 -
passagem do nível intuitivo ao nível consciente desse aprendizado se faça de maneira natural e
consistente” (MOURA; BOSCARDIN, 1989, p. 31).
Além do ritmo, outra questão importante a ser apontada é a necessidade de
observação do contexto cultural no qual a criança está inserida. A música não pode ser um
elemento de imposição de uma determinada cultura; o educador musical deve investigar o
universo cultural de uma ou um grupo de crianças e, dessa forma, escolher a abordagem mais
adequada.
Swanwick, a esse respeito, nos traz o seguinte posicionamento:
É óbvio que toda música nasce em um contexto social e que ela acontece ao longo e
intercalando-se com outras atividades culturais, talvez com um grupo de pais atuando
como agentes, ou talvez assegurando-nos da continuidade e do valor de nossa herança
cultural. (SWANWICK, 2003, p. 38).
É inacreditável até que ponto, diante desses fenômenos, a maior parte dos educadores
tendem a esquecer por completo que a criança que lhes foi confiada cantava, no entanto,
afinado e no tempo; logo falam dela como carente de dons musicais. No entanto, a
pretensa “falta de dons”, tanto nas crianças como nos adultos, é simplesmente a
dificuldade de se familiarizarem com as condições do jogo instrumental, as atitudes, os
gestos, os movimentos de que eles necessitam. É essa dificuldade, a obsessão que ela
suscita, os esforços que provoca, que obscurecem os dons para a música. (HOWARD,
1984, p. 56).
Transitando em outro “território” - no que se refere às legislações do ensino
infantil, o Brasil conta com os Parâmetros Curriculares Nacionais de 1ª a 4ª Série (P.C.N.). Neste
documento, encontram-se diretrizes educacionais de diversas áreas do conhecimento, inclusive
direcionadas à Educação Musical.
As orientações acerca do ensino da música presentes nos Parâmetros Curriculares
Nacionais de 1ª a 4ª Série envolvem:
- Comunicação e Expressão em Música: interpretação, improvisação e composição.
- 44 -
- Apreciação Significativa em Música: escuta, envolvimento e compreensão da linguagem
musical.
- A Música como Produto Cultural e Histórico: música e sons do mundo.
O ano de 2012 é data limite para que todas as escolas públicas e privadas do Brasil
incluam o ensino de música em suas grades curriculares. A exigência surgiu com a lei
nº 11.769, sancionada em 18 de agosto de 2008, que determina que a música deva ser
conteúdo obrigatório em toda a Educação Básica. "O objetivo não é formar músicos,
mas desenvolver a criatividade, a sensibilidade e a integração dos alunos" [...].
(COSTA, 2011, p.1).
Ainda sobre a lei é importante esclarecer que, de acordo com os termos legais, a
música não é obrigatoriamente uma disciplina exclusiva, mas sim um dos conteúdos ou
linguagens pertencentes à grade curricular da disciplina Arte, a qual também pode englobar
outras expressões como artes plásticas, teatro e dança.
Apesar de representar uma grande conquista para a educação musical e,
consequentemente, para a cultura brasileira, ainda não há um consenso quanto à plenitude
qualitativa da Lei 11.769/2008. Um dos pontos mais questionados é a não obrigatoriedade da
formação específica dos professores de música, uma vez que para a atuação docente exige-se
nível superior. Diante deste contexto, Costa faz a seguinte recomendação aos pais dos alunos:
É necessário prestar atenção se o seu filho está tendo aulas de música com uma equipe
adequada ou mesmo se esse tipo de aula está sendo oferecida na escola dele, como diz a lei.
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases de 1996, só estão autorizados a lecionar na
educação básica os professores com formação em nível superior, ou seja, profissionais que
tenham cursado a licenciatura em Universidades e Institutos Superiores de Educação na área
- 45 -
em que irão atuar. No entanto, há uma enorme carência de profissionais com formação
superior em Música capacitados para lecionar. (COSTA, 2011, p.1).
As aulas de música podem servir como base de compreensão de outros aspectos além
da arte dos sons. A interdisciplinaridade é um termo amplamente discutido atualmente, através
da qual os alunos aprendem conceitos integrados, ao invés de meramente fragmentados por
disciplinas separadas umas das outras.
Culturas regionais, lendas folclóricas, hábitos sociais são apenas alguns aspectos
passíveis de serem abordados por meio da educação musical e, para tanto, é importante que o
professor de música esteja articulado com professores de outras áreas.
Em suma, a inserção do ensino da música na educação básica apresenta-se como um
grande salto qualitativo na educação brasileira. Certamente um longo caminho ainda será
percorrido até o aperfeiçoamento dessa ação pedagógica, mas, com políticas públicas adequadas,
que contemplem boas condições físicas e de capacitação profissional, as futuras gerações serão
amplamente beneficiadas pela Lei 11.769/2008.
Os profissionais da área devem fazer sua parte com práticas docentes efetivamente
eficientes na busca pelos melhores resultados que a educação musical pode proporcionar para a
formação global das crianças. Para tanto, deve pesquisar e selecionar a maior quantidade possível
de estratégias pedagógico/educacionais.
Dentre os grandes autores de metodologias direcionadas ao ensino da música,
destacamos Dalcroze e seu processo didático conhecido como Euritmia.
- 46 -
2. Émile Jaques-Dalcroze: a música em movimento
A produção literária deixada por Dalcroze serve como base para músicos, atores,
atletas, bailarinos entre outros. Processos de educação musical, educação física, expressões
teatrais e até mesmo criações de coreografias são inspirados em suas concepções. Sua literatura
envolve sete livros, aqui listados por ordem cronológica:
1
Michel Eyquem de Montaigne (1533 - 1592). Foi um escritor e ensaista francês, considerado por muitos como o
inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras e, mais especificamente nos seus "Ensaios", analisou as instituições, as
opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como
objeto de estudo.
- 47 -
1) Le Coeur Chante: impressions d’un musicien [1900]. Genève.
2) La Rythmique I [1916]. Lausanne: Jobin & Cie.
3) La Rythmique II [1917]. Lausanne: Jobin & Cie, 1917.
4) Souvenir, Notes et Critiques [1942]. Neuchâtel: Attinger.
5) La Musique et Nous: notes sur notre double vie [1945]. Genève: Perret-Gentil.
6) Notes Bariolées [1948]. Genève/Paris: Jeheber.
7) Le Rythme, la Musique et L’Éducation [1965]. Lausanne: Editions Foetisch (edição original
de 1920).
Tomamos este livro como importante referência, pois de acordo com Madureira
(2007, p. 270) “paira sobre a obra [...] o sentimento de um homem que se debruçou por toda a
vida na realização de um ambicioso propósito: harmonizar a sociedade através da educação
poético-musical da criança”.
Acerca das possibilidades de desenvolvimentos musicais contidas em Le Rythme, la
Musique et L’Éducation, Madureira segue destacando que:
- 48 -
Importantes princípios da Rítmica encontram-se diluídos nos diversos textos que esta
obra reúne: “O ritmo é o alicerce de toda arte” (DALCROZE, 1907, p. 40), “Trata-se
de uma educação para o ritmo através do ritmo” (DALCROZE, 1898, p. 12); a
linguagem musical, tecida de matéria incorpórea, é traduzida em matéria sublunar, o
corpo. As métricas, as modulações, as dinâmicas de intensidade e as nuances agógicas
tornar-se-iam gestos, formas de caminhar, dissociações entre movimentos dos braços e
das pernas (polirritmia). A denominada Plástica Animada (Plastique Animée) realiza-
se como operação hermenêutica, uma transcrição da música em dança; o solfejo,
tradicionalmente responsável pela educação auditiva e pela justa produção vocal do som
(intervalos), metamorfoseia-se em solfejo corporal, estruturando um dos fundamentos
mais importantes da Rítmica, cujo propósito se baseia no ajuste (“afinação”) das tensões
corporais. (MADUREIRA, 2007, p. 271).
Ainda com sua formação musical inteiramente pautada pelos preceitos da Música
Erudita, Dalcroze combatia os excessos de teorizações e ensinamentos puramente direcionados
à frieza da execução, chegando a afirmar que:
Pois se existem pianistas de primeira ordem que são ao mesmo tempo músicos perfeitos,
existem também aqueles que não amam em absoluto a arte da música, ou amam somente
a música composta e interpretada por eles mesmos; existem ainda outros que apreciam
apenas as acrobacias de um concerto, incapazes de distinguir estilos ou formas e que
não se interessam nem se emocionam com as obras mais comoventes. (DALCROZE,
1912, p. 51).
Muitas foram as dificuldades encontradas na tentativa de ter seu sistema aceito pelos
colegas e pelos diretores do Conservatório. Uma delas assim se revelou: nessa cidade,
de forte tradição calvinista, causava escândalo, no início do século XX, que as moças
- 49 -
de boa família retirassem os sapatos durante as aulas, o que era proposto por Dalcroze
com a intenção de proporcionar aos seus alunos um maior conforto durante os exercícios
corporais e as marchas. (MADUREIRA & LEITE, 2010, p.1).
- 50 -
A Rítmica, ainda que tenha sido inicialmente descrita como ginástica rítmica e tenha
influenciado amplamente os sistemas ginásticos europeus [...] e, consequentemente, a
Educação Física, não é de modo algum uma ginástica higiênica ou esportiva, mas uma
justa educação rítmico-musical do corpo, uma força propulsora do estado de arte
inerente a toda criatura humana. (MADUREIRA, 2007, p. 270).
Uma educação poética combinada em grande medida como exercício corporal poderia,
sozinha, apaziguar nosso sistema nervoso completamente comprometido. Se a educação
for unicamente esportiva, ela ultrapassará seu objetivo e criará gerações inteiras
desprovidas de sensibilidade. É importante que a educação faça caminhar lado a lado o
desenvolvimento intelectual e o desenvolvimento físico, e parece-me que a Rítmica
deve ter, neste sentido duplo, uma influência muito benéfica. (DALCROZE, 1920, p.
95).
Euritmia significa literalmente “bom ritmo” (de eu = bom, rhythm = fluxo, rio ou
movimento). A euritmia de Dalcroze estuda todos os elementos da música através do
movimento, partindo de três pressupostos básicos:
- Todos os elementos da música podem ser experimentados (vivenciados) através do
movimento;
- Todo som musical começa com um movimento - portanto o corpo, que faz os sons, é
o primeiro instrumento musical a ser treinado;
- Há um gesto para cada som, e um som para cada gesto. Cada um dos elementos
musicais - acentuação, fraseado, dinâmica, pulso, andamento, métrica - pode ser
estudado através do movimento. (GOULART, 2010, p.2).
- 51 -
Um dos princípios utilizados por Dalcroze para a ideia da Euritmia foi a kinestesia2,
pela qual o indivíduo desenvolve a consciência corporal (kines = movimento, thesia =
consciência).
Euritmia, na verdade, foi uma terminologia empregada para designar uma série de
concepções metodológicas utilizadas por Dalcroze desde suas primeiras experiências como
professor de música. Não se trata de uma ideia que surgiu “de repente”, mas uma compilação de
procedimentos didáticos pautados pela conscientização corporal.
De acordo com o conceito de Fernandes:
A Euritmia é uma das três etapas formadoras do Método Dalcroze, mencionado por
Fernandes, o qual ainda conta com o Solfeto e a Improvisação, ambos executados através de
movimentos corporais. Para Dalcroze, o desenvolvimento das habilidades musicais propicia,
também, a construção do pensamento e da capacidade intelectual, desde que o processo seja
experimentado através de um envolvimento corporal ativo.
O princípio básico da Euritmia consiste no fato de que o ritmo, além de ser percebido
pelo corpo, é um jogo de durações de tempo. Acrescido dos fatores velocidade e intensidade,
conscientemente trabalhados em conjunto, induzem um movimento físico, e não apenas um
raciocínio lógico. Vejamos um exemplo proposto por Fernandes para a aplicação da Euritmia
sobre palavras cantadas:
Exemplo, pode-se ter um movimento do corpo e da voz sequencial e rápido (como numa
embolada – uma rajada de palavras ou de movimentos corporais). Mas, eu também
posso usar esta mesma sequência de palavras, nesta mesma velocidade em rajada, mas
com outra distribuição temporal, eu posso colocar uma pausa silente bem nomeio da
sequência, eu posso prolongar uma ou duas palavras através de suas vogais, ou posso
“gaguejar” em alguma sílaba, repetindo-a, e assim criativamente ad libitum. Ainda nesta
mesma velocidade rápida, eu posso alterar o fluxo de ar emitido, variando a intensidade
das palavras, algumas mais fracas, tênues, sussurradas, outras mais fortes, pujantes,
enfáticas. (FERNANDES, 2010, p. 10).
Outra designação sinônima para Euritmia é Eurítmica, que seria a realização de
exercícios que utilizam esta técnica a fim de promover uma série de benefícios. Seus objetivos,
de acordo com Dalcroze são:
2
Alguns estudiosos defendem a kinestesia como o verdadeiro sexto sentido. Na infância, todos os sentidos recebem
informações da kinestesia, por isso é que as crianças estão sempre se movimentando: estão explorando o mundo e
construindo os “mapas” mentais que serão usados pelo resto da vida.
- 52 -
[...] fortalecer o poder da concentração, acostumar o corpo a se sustentar, como se
estivesse em alta pressão, em prontidão para executar ordens do cérebro, conectar o
consciente com o subconsciente, e aumentar as faculdades subconscientes com os frutos
de uma cultura especialmente desenhada para este propósito. E além disso, estes
exercícios tendem a criar mais e numerosos movimentos habituais e novos reflexos,
para obter o máximo de efeito com o mínimo de esforço, e então purificar o espírito,
fortalecer a força de vontade, e instalar ordem e clareza no organismo. (DALCROZE,
1920, p. 118).
Para entender melhor como a metodologia pode ser aplicada, imagine-se o aluno de uma
escola de música tradicional. Quando está no conservatório, ele permanece boa parte do
tempo sentado, fazendo apenas os movimentos relacionados ao aprendizado do
instrumento musical. Ao adotar os princípios da Rítmica Dalcroze, porém, esse mesmo
estudante vale-se do ensaio para movimentar todo o corpo no ritmo da música. É quando
ocorre a interação entre melodia e gesto. Não raro, a experiência serve de estímulo à
criatividade, uma vez que está intimamente ligada à improvisação. (FILHO, 2006, p.
12).
- 53 -
Um consenso entre os profissionais especializados em processos educacionais é a
necessidade de adequação etária para o desenvolvimento e/ou aplicabilidade das ações de
aprendizagem. O ensino da música, bem como das artes em geral, não apenas é indicado como
é fundamental para o desenvolvimento intelectual, cognitivo e motor. Mas, para tanto, é
imprescindível que o agente promotor da ação pedagógica (independente da instituição) esteja
apto a adequar este processo a uma série de condições inerentes ao receptor (aluno, aprendiz,
dentre outros).
As pesquisas desenvolvidas por Dalcroze sempre tiveram as crianças como foco
principal, dedicando, inclusive, boa parte de seu trabalho ao direcionamento da educação musical
às crianças com necessidades especiais, pois “voltou-se, ele próprio, a partir da década de 1920,
ao ensino de atividades de Rítmica para crianças com necessidades especiais, ou seja, crianças
surdas, cegas e outras que apresentavam atrasos intelectuais.” (MADUREIRA & LEITE, 2012,
p. 1).
Os três pilares do Método Dalcroze (Euritmia, Solfejo e Improvisação) são
perfeitamente aplicáveis à musicalização infantil, especialmente por representarem ações
dinâmicas e atrativas ao universo das crianças.
A Euritmia apresenta-se como uma excelente ferramenta de socialização, não apenas
por envolver as crianças em atividades coletivas, mas, também, por permitir que diversas
experiências sejam transmitidas entre elas. Do ponto de vista dessa “personalidade social”
infantil, Lino destaca que:
- 54 -
instrumentos musicais, equipamentos de áudio e vídeo etc.). Entretanto, os profissionais da área
podem (e devem) utilizar a criatividade para buscar subsídios e estratégias no intuito de
promover uma educação musical de qualidade, ainda que sem grandes recursos financeiros. De
acordo com Reis:
Nem toda escola dispõe de uma sala especial para as aulas de artes, mas isso não pode
e não deve constituir empecilho para o desenvolvimento de tais atividades, que podem
ser trabalhadas na própria sala de aula, bastando, para isso, tomar alguns cuidados.
(REIS, 2007, p. 15).
Neste sentido, a Euritmia é uma ótima opção didática. Suas atividades não requerem
equipamentos sofisticados, tão pouco um espaço físico dotado de muitos recursos que não seja
a própria sala de aula.
O trabalho baseado na movimentação corporal envolve e diverte as crianças. Ainda
que “brincando”, aprenderão conceitos musicais fundamentais como células rítmicas, altura,
intensidade etc.
Entende-se, portanto, a Euritmia como uma “brincadeira musical” perfeitamente
acessível à modalidade de educação básica, onde as regras serão determinadas em conjunto pelos
professores e alunos. Porém, não se trata exatamente de uma competição, afinal, todos saem
vitoriosos.
O momento parece ser bastante propício para discutir a Rítmica, uma vez que as aulas
de música voltam a habitar o currículo pleno das escolas em todo o país. O sistema
criado por Jaques-Dalcroze pode ser pensado como resposta para três questões que
instigam os educadores: Para que ensinar música na escola? O que ensinar sobre música
na escola? Como ensinar música na escola? (MADUREIRA & LEITE, 2010, p. 2).
Com o objetivo de tentar elucidar alguns aspectos da terceira pergunta, aduzida acima
“Como ensinar música na escola?”, até então o artigo buscou esclarecer o que a Euritmia
significa nos processos de musicalização. Agora, a atenção volta-se para a aplicação como
recurso metodológico de ensino-aprendizagem.
Para exemplificar essas possibilidades de ações, foram selecionadas duas atividades
de musicalização já realizadas por diferentes professores. Essas práticas pedagógicas possuem
dois pontos em comum: têm a Euritmia como princípio didático e foram concebidas para a
aplicação na educação básica.
Obs.: As transcrições serão fiéis às publicações.
- 55 -
1ª Atividade – desenvolvida por Mário Meireles (2011, p. 42 - 43):
Objetivo:
- Fazer com que todos trabalhem juntos, uns ajudando os outros.
Material:
- Balões.
Passo a passo:
1. Solicitar aos participantes que andem aleatoriamente pelo recinto, ao som de uma música.
2. Após alguns minutos, o coordenador deve ir lançando balões e os participantes não podem
deixá-los cair no chão.
3. Trocar a música. Alguém deve fazer alguma coreografia e todos devem imitá-lo; os balões
devem permanecer no alto e o coordenador lançará outros balões.
4. Trocar a música novamente e, desta vez, os participantes devem eleger três representantes,
que têm de manter no ar os balões que os demais forem lançando para eles.
Esta atividade é composta por três ações. As autoras abordam um importante aspecto envolvendo
um principio básico da Euritmia, o qual envolve a audição e os movimentos corporais. Este ato,
denominados por elas de “ouvir motoricamente” e, de acordo com suas concepções
- 56 -
2ª) A próxima etapa é colocar os CDs para uma primeira apreciação e perguntar se já conheciam
alguma das músicas. Quais são os instrumentos que aparecem nas gravações? Alguém teve
vontade de dançar enquanto ouvia as músicas? Será que todas as músicas que você ouve dão
vontade de dançar? Após as respostas dos jovens, fazer uma breve contextualização sobre cada
uma delas.
3ª) Colocar as músicas para uma segunda audição e pedir que organizem grupos e montem uma
coreografia com uma das músicas. Finalizar a atividade com a apresentação e gravação dos
grupos com suas coreografias que serão apresentadas posteriormente para toda a turma. A
avaliação será analisar as diferentes propostas para uma mesma música e ressaltar aspectos
relacionados aos corpos juvenis que se movem em diferentes andamentos e ritmos. Pedir que os
alunos listem as músicas que escolhem só para ouvir e dançar. Esse repertório poderá ser
socializado com os colegas e, a partir dele, realizar outras atividades musicais que relacionem
música, movimento e dança.
Considerações finais
Referências bibliográficas
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988, p.
305.
- 57 -
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais. 2. Arte: Ensino
de primeira a quarta série. 1. Título. Brasília: MEC/SEF, 1997.
BRITO, T. A. A barca virou: o jogo musical das crianças. In: Música na educação básica v. 1. Porto
Alegre: Abem, 2009.
FERNANDES, A. Dalcroze, a música e o teatro: fundamentos e práticas para o ator compositor. In:
Fênix – Revista de história e estudos culturais v. 7 nº 3. Disponível em:
[Link]
RO_-_FUNDAMENTOS_E_PRATICAS_PARA_O_ATOR_COMPOSITOR Acesso em 24 de jul.
2012.
MADUREIRA, J. R. O ritmo, a música e a educação. In: Pró-posições v. 18. Campinas: Scielo Brasil,
2007.
MEIRELES, M. Dinâmicas, gincanas e jogos: atividades para brincar e aprender. São Paulo (SP):
Paulinas, 2011.
REIS, S. M. G. 150 ideias para o trabalho criativo com crianças de 2 a 6 anos. 5. ed. Campinas:
Papirus, 2007.
- 58 -
SOUZA, J; TORRES, M. C. A. Maneiras de ouvir música: uma questão para a educação musical
com jovens. In: Música na educação básica v. 1. Porto Alegre: ABEM, 2009.
- 59 -
DIRETRIZES E CONTEÚDOS CURRICULARES MUSICAIS COMO REFERÊNCIAS PARA
A ANÁLISE DE AUDIOVISUAL INFANTIL
Nilze de Sá Sampaio
Instituto de Ciências da Artes da Universidade Federal do Pará - nilzesampaio@[Link]
Áureo Deo de Freitas Júnior
Resumo: Este trabalho é uma pesquisa bibliográfica que tem como objetivo expor as
diretrizes e os conteúdos musicais presentes nos documentos nacionais oficiais “Indicadores
de Qualidade na Educação Infantil”, “Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica”
e “Referencial Curricular Nacional para a Educação infantil”. O estudo desses documentos
possibilitou a exposição/verificação das orientações didáticas e conteúdos musicais a serem
trabalhados na educação infantil, o que servirá de referência para análise dos propósitos
educativos de audiovisual infantil.
Abstract: This paper is a literature review that aims to present guidelines and music contents
present in the official national documents: (a) "Quality Indicators in kindergarten", (b)
"National Curriculum Guidelines for Basic Education" and (c) "Reference National
Curriculum for Children's Education". The study of these documents enabled the exposure /
verification of educational guidance and musical contents to be worked in early childhood
education, which serve as a reference for analysis of the educational purposes of child
audiovisual.
1. Introdução
- 60 -
[...] a televisão -enquanto meio - por si só não é prejudicial à imaginação da criança.
Seus efeitos perniciosos ou benéficos dependem de seus conteúdos e linguagens, do
contexto da recepção e da qualidade geral da vida da criança - física, afetiva e poética
- não podendo ser isolados dos demais processos socioculturais (FANTIM, 2007, p. 5).
[...] O tempo antes dedicado à leitura perde o lugar para as novelas, os programas de
auditório, os jogos irradiados pela TV, a internet, sendo que a linguagem mais universal
que a maioria deles compartilha é a da música, ainda que, geralmente, a partir de poucos
gêneros musicais. Novos desafios se colocam, pois, para a escola, que também cumpre
um papel importante de inclusão digital dos alunos. Ela precisa valer-se desses recursos
e, na medida de suas possibilidades, submetê-los aos seus propósitos educativos. Há
que se considerar que a multiplicação dos meios de comunicação e informação nas
sociedades de mercado em que vivemos contribui fortemente para disseminar entre as
crianças, jovens e população em geral o excessivo apelo ao consumo e uma visão de
mundo fragmentada, que induz à banalização dos acontecimentos e à indiferença quanto
aos problemas humanos e sociais. É importante que a escola contribua para transformar
os alunos em consumidores críticos dos produtos oferecidos por esses meios, ao mesmo
tempo em que se vale dos recursos midiáticos como instrumentos relevantes no processo
de aprendizagem [...]. (BRASIL, 2013, pg. 110-111)
- 61 -
Para a consecução do objetivo supracitado realizou-se pesquisa bibliográfica,
expondo os conhecimentos contidos nos documentos “Indicadores de Qualidade na Educação
Infantil”, “Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica” e “Referencial Curricular
Nacional para a Educação Infantil”.
Partindo do livro “Indicadores de Qualidade na Educação Infantil”, fez-se uma
exposição dos objetivos deste documento, da questão da multiplicidade de linguagens, dos
indicadores de avaliação da educação infantil. Em seguida, tendo como referência as “Diretrizes
Curriculares Nacionais da Educação Básica”, apresentou-se o objetivo da educação infantil e
algumas questões a serem trabalhadas nesta etapa. Por fim, apresentaram-se os conteúdos ligados
à educação musical presentes no “Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil”.
A Educação Infantil, segundo as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação
Básica (2013, p. 36) é a primeira etapa da Educação Básica e compreende a Creche, com crianças
de até três anos e onze meses de idade, e a Pré-Escola, que possui duração de dois anos,
abarcando crianças de quatro e cinco anos de idade, essas, público-alvo deste estudo.
É necessário observar que a criança de idade pré-escolar já é influenciada nesta fase
pelos signos e interage com esses elementos a ela apresentados. Nesta idade, a criança encontra-
se na fase pré-operatória de desenvolvimento psíquico e está começando a compreender o mundo
através da representação, da função simbólica, que é “baseada em esquemas de ação internos e
simbólicos, mediante os quais a criança manipula a realidade não mais diretamente, senão
através de diferentes sucedâneos - signos, símbolos, imagens, conceitos, etc” (Martí, 1995, p.
135).
A seguir serão expostos as orientações e os conteúdos musicais segundo os
documentos supracitados.
O educador italiano Loris Malaguzzi escreveu uma poesia sobre “As cem linguagens da
criança”. Nela, ele nos fala das cem maneiras diferentes de a criança pensar, sentir,
falar, inventar, sonhar... Mas, diz a poesia, os adultos roubam noventa e nove dessas
cem linguagens das crianças. Na avaliação de uma instituição de educação infantil,
devemos perguntar: o trabalho educativo procura desenvolver e ampliar as diversas
formas de a criança conhecer o mundo e se expressar? As rotinas e as práticas adotadas
favorecem essa multiplicidade ou, ao contrário, como sugere o poeta, roubam a
possibilidade de a criança desenvolver todas as suas potencialidades? (BRASIL, 2009,
p.40)
- 62 -
natural e social; crianças tendo experiências agradáveis e saudáveis com o próprio corpo;
crianças expressando-se por meio de diferentes linguagens plásticas, simbólicas, musicais e
corporais; crianças tendo experiências agradáveis, variadas e estimulantes com a linguagem oral
e escrita; e crianças reconhecendo suas identidades e valorizando as diferenças e a cooperação.
(2009, p.41-43)
Em 2013, foram publicadas as Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica,
em que consta a Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil.
Tendo como base a Lei nº 9.394/96, artigos 1º e 29º, nas Diretrizes, o objetivo da
Educação Infantil é “[...] o desenvolvimento integral da criança até 5 (cinco) anos de idade, em
seus aspectos físico, afetivo, psicológico, intelectual e social, complementando a ação da família
e da comunidade” (Brasil, 2013, p.83).
Desse modo, há a orientação de na Educação Infantil trabalharem-se questões como
emoções, preservação ambiental, higiene, alimentação, entre outros, e aqui se observa a
necessidade do trabalho educativo abranger não somente a questão intelectual, mas outras
dimensões, como a emocional:
- 63 -
Esse documento é dividido em três volumes, interessando a este estudo o terceiro
volume, intitulado Conhecimento de Mundo, em que consta o eixo de trabalho Música.
Segundo esse Referencial Curricular, a música é “a linguagem que se traduz em
formas sonoras capazes de expressar e comunicar sensações, sentimentos e pensamentos, por
meio da organização e relacionamento expressivo entre o som e o silêncio” (1998, p.45), sendo
compreendida, portanto, como linguagem e forma de conhecimento, com estrutura e
características próprias e considerada como:
3.1 Conteúdos
- 64 -
Para crianças da pré-escola, deve-se trabalhar ampliando-se os conteúdos da faixa
etária anterior e incluindo-se a reflexão sobre os elementos da linguagem musical:
- Reconhecimento e utilização expressiva, em contextos musicais das diferentes características
geradas pelo silêncio e pelos sons: altura (graves ou agudos), duração (curtos ou longos),
intensidade (fracos ou fortes) e timbre (característica que distingue e “personaliza” cada som).
- Reconhecimento e utilização das variações de velocidade e densidade na organização e
realização de algumas produções musicais.
- Participação em jogos e brincadeiras que envolvam a dança e/ou a improvisação musical.
- Repertório de canções para desenvolver memória musical (BRASIL, 1998, p.59).
O texto chama a atenção para a ligação entre gesto, movimento corporal e o trabalho
musical, em que esse implica aquele (1998, p.62). É observada ainda a possibilidade de
improvisação a partir de roteiros extramusicais, a utilização de materiais variados, a proposição
de jogos de improvisação que estimulem a memória auditiva e musical e a percepção da direção
do som no espaço, a criação de pequenas canções estruturadas com base nas experiências
musicais das crianças (linhas melódicas de dois ou três sons em alinhamento à percepção,
experiência e modo de expressar infantis), a sonorização de histórias (BRASIL, 1998, p.62).
É orientado nessa faixa etária que se detalhe mais o trabalho com a audição tendo em
vista a ampliação da capacidade de atenção e concentração das crianças.
Sobre a abrangência do repertório musical infantil o texto alerta:
Há que se tomar cuidado para não limitar o contato das crianças com o repertório dito
“infantil” que é, muitas vezes, estereotipado e, não raro, o mais inadequado. As canções
infantis veiculadas pela mídia, produzidas pela indústria cultural, pouco enriquecem o
conhecimento das crianças. Com arranjos padronizados, geralmente executados por
instrumentos eletrônicos, limitam o acesso a um universo musical mais rico e
abrangente que pode incluir uma variedade de gêneros, estilos e ritmos regionais,
nacionais e internacionais. (1998, p.65)
- 65 -
Nesse sentido, o texto (1998) destaca também a importância de possibilitar à criança
a audição de músicas sem texto, já que o contato com a música instrumental permite às crianças
“perceber, sentir e ouvir, deixando-se guiar pela sensibilidade, pela imaginação e pela sensação
que a música lhes sugere e comunica” (1998, p.65), e ainda, a necessidade de tratar a linguagem
musical como linguagem presente em todas as culturas, com marcas de seu criador, povo e época,
e como “forma de expressão individual e coletiva e como maneira de interpretar o mundo” (1998,
p.65).
4. Considerações Finais
Referências bibliográficas
BRASIL. S. E. F. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/ SEF,
- 66 -
1998. Volume 3.
GIRARDELLO, G. Produção cultural infantil diante da tela: da TV à internet. Santa Catarina, 2005.
Disponível em < [Link] >.
Acesso em: 14 abr 2014.
MELO, J. B. Lanterna Mágica: infância e cinema infantil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2011. 207 p.
- 67 -
MÚSICA E ADOLESCENTES:
AS PREFERÊNCIAS MUSICAIS EM UMA ESCOLA DE EDUCAÇÃO BÁSICA
Resumo: O presente artigo relata uma experiência em sala de aula que resultou em uma
pesquisa de campo realizada em uma escola pública federal em Belém-PA, que visou
conhecer a preferência musical dos alunos de 5ª a 8ª série daquele contexto, com objetivo de
explorar os seus dados nas aulas de artes-música. A partir dos dados levantados foi possível
traçar um perfil da preferência musical dos alunos e a partir de estudos sobre estilos musicais
urbanos e multiculturalismo, construir um momento de reflexão sobre suas escolhas e
respeito consciente à preferência do outro, tornando o momento das aulas de música mais
ativo, consciente e prazeroso.
Abstract: This article reports a field survey in a federal public school in Belém- PA, which
aims to meet the musical preference of the 5th to 8th grade students that context, to explore
your data in the arts - music lessons. From the data obtained it was possible to draw a profile
of the musical preference of the students and from studies on urban musical styles and
multiculturalism, building a moment of reflection on their choices and conscious respect the
preference of each other, making the timing of music lessons more active, conscious and
pleasurable.
[Link]ção
Estudos recentes sobre juventude têm afirmado que ouvir música é uma das principais
atividades que os jovens compartilham nos grupos em que estão inseridos, seja na escola, na
igreja, na vizinhança, entre outros. As escolhas musicais destes jovens muitas vezes sofrem
influência do próprio grupo. Um dos motivos é até mesmo a necessidade de ser aceito por esse
grupo; outros fatores também interferem nessas escolhas, como a mídia através da televisão,
rádio, internet, videoclipes, entre outros, além de fatores como religião e valores familiares.
Segundo Pimentel (2007), os indivíduos utilizam a música para propósitos avaliativos
e processos de identificação grupal, o que, consequentemente, atesta a importância desse veículo
de comunicação de massa nas diversas situações em que o jovem se encontra no dia-a-dia,
podendo influenciar sua escolha do vestuário, bem como sua atração ou rejeição por
determinados grupos.
Em meio a esta realidade, vários questionamentos surgem no processo de educação
musical na escola, por exemplo: Como acolher e trabalhar com a diversidade cultural no processo
pedagógico? Se as correntes atuais da educação musical se baseiam em propostas em que todos
- 68 -
os procedimentos pedagógicos musicais devem partir da vivência do aluno, como conhecer essa
vivência? Como identifica-la? Este é um desafio constante na construção de uma educação
musical significativa na escola. Então; como a educação musical pode tratar as diferentes
manifestações musicais apresentadas pelos alunos no contexto da educação básica?
É necessário então, conhecer o perfil de cada aluno e o contexto em que ele está
inserido, contexto este, muitas vezes cercado de influência política, midiática, etc. Para pensar
a educação musical diante da diversidade, é possível tomar como base o multiculturalismo
definido por Ana Canen (2002, p.175, apud Penna 2008 p. 85): “um movimento teórico e político
que busca respostas para os desafios da pluralidade cultural nos campos do saber” e “o
multiculturalismo teve início nos países nos quais a diversidade cultural é vista como um
problema para a construção da unidade nacional que se vincula a imposição de uma cultura dita
superior a todos os membros da sociedade.”
Para complementar esta ideia é importante destacar que:
- 69 -
2. Os alunos e suas preferências
Como ser social, os alunos não são iguais. Constroem-se nas vivências e nas
experiências sociais em diferentes lugares, em casa, na igreja, nos bairros, escolas, e
são construídos como sujeitos diferentes e diferenciados, no seu tempo-espaço. E nós,
professores, não estamos diante de alunos iguais, mas jovens ou crianças que são
singulares e heterogêneos socioculturalmente, e imersos na complexidade da vida
humana. (SOUZA, 2004,p. 10)
A pesquisa aqui apresentada, foi realizada em uma escola pública em Belém-PA nas
aulas de música, a partir de uma conversa com alunos de uma turma de 8ª série do Ensino
Fundamental no segundo semestre de 2014, nas aulas da disciplina Artes-Musica. Partiu-se da
necessidade de se conhecer a preferência musical dos alunos, afim de começar um trabalho de
educação musical.
Dialogar com os adolescentes em roda de conversa é muito comum também no ensino
fundamental nesta escola, e conversar com eles sobre suas preferências musicais foi empolgante
para alunos e professora. É muito interessante como eles avaliam bandas, cantores, letras etc.
como também é interessante como a mídia interfere nas escolhas musicais deles, bem como a
influência de um determinado grupo de colegas.
Não se imaginava, no início da pesquisa, o quão interessante seriam as falas e
questionamentos dos próprios alunos, no que se refere ao respeito às diferenças de escolhas de
cada um. Os alunos expuseram suas preferências, porém sempre respeitando a escolha do outro.
O momento inicial foi realizado em roda de conversa, em que os alunos falaram
abertamente sobre suas preferências musicais. Fizemos uma rápida contagem e descobriu-se que
a maioria dos alunos desta turma tinha preferência por “Rock” internacional.
Eles afirmam que ouvem música diariamente, principalmente nos seus smartphones,
afirmam também que trocam informações sobre bandas, cantores e que também tocam e cantam
juntos quando estão em seus grupos.
Ao serem questionados sobre estilos de músicas menos citados pelo grupo, qual a
opinião deles por música regional, por exemplo: Carimbó. A maioria do grupo disse que não
gosta, que gostam de assistir grupos de dança, gostam até mesmo de dançar ou ouvir as vezes
músicas desse tipo, mas que “não é música para se escutar todo dia, uma vez ou outra tudo
- 70 -
bem...” outro aluno: “pra mim, música regional, só se for Calypso, é uma música alegre, as
letras falam do Pará e agente valoriza a nossa cultura e ainda dança um pouquinho, né?”.
Ao serem perguntados sobre música erudita, a maioria afirma que se relacionam
pouco com esse tipo de música e preferem se relacionar com a mesma, vez ou outra, para
“meditar” ou “relaxar”. “A gente não tem preconceito com outros estilos” diz outra aluna, “mas
a gente precisa saber o que os outros jovens da nossa idade estão ouvindo, a gente tem que tá
na moda também na música”, a maioria do grupo concordou com a fala da amiga.
Percebe-se nesta conversa, que a mídia representa componente importante na vida
dos jovens, disto depende sua identidade e socialização no contexto em que estão inseridos e a
música é parte principal neste processo. Em Souza (2009) encontra-se um comentário sobre esta
questão:
- 71 -
Algumas músicas se repetiram entre 2 ou 3 alunos, bem como as explicações para a
escolha dessas músicas como: “porque essa música todo mundo conhece...”, “todo mundo
canta”, “é legal de ouvir, toca muito no rádio”.
Os adolescentes, se identificam com suas tribos musicais (com o moto: diga-me o que
tu ouves e eu te direi quem tu és) frequentando os espaços multiculturais na cidade,
como shows de música sertaneja/caipira/country, e lugares como boates, onde se
sincronizam com o rock, a tecno music, o hip hop, a música “pop” como o axé-music,
pagode, etc. Nesses locais, é frequente a expressão festiva do coletivo, o desejo do
encontro do jovem adolescente, de ser visto e ver, identificar e socializar-se, marcando
entre grupos e seus pares suas semelhanças e divergências, assumindo-se como seres
sociais complexos e contraditórios (SOUZA, 2004, p. 10)
Foi proposto por uma aluna, a possibilidade de realizarmos uma pesquisa sobre a
preferência musical dos alunos das outras turmas de oitava série; os alunos demostraram muita
empolgação, muitos deles questionando-se se os alunos das outras turmas também tinham as
mesmas preferencias que eles. Após algumas discussões, de como poderíamos realizar esta
pesquisa, decidimos que a mesma seria aplicada a todos os alunos do turno da tarde, que
corresponde a todos os alunos do Ensino fundamental II (5 a 8ª série).
Seria uma pesquisa simples e “rápida” somente para que os alunos das outras séries
nos informassem qual a sua preferência musical, foi sugerido então por outro aluno que fosse
elaborado um questionário, outro sugeriu uma ficha em que somente eles pudessem ir marcando
as escolhas dos outros alunos. A maioria do grupo votou pela elaboração e aplicação da ficha.
Chegou-se à conclusão que a ficha deveria conter uma lista de diferentes estilos musicais, uma
espécie de tabela. Eles perguntariam a preferência musical do aluno e ao responder, marcariam
no quadro. Após muitas tentativas de construção desta ficha, uma espécie de tabela foi montado
e os próprios alunos fizeram a lista com diferentes estilos musicais, entre eles: Rock, samba,
funk, melody, MPB, calypso, entre outros.
Ao realizar a entrevista com os outros alunos, eles perguntaram aos mesmos: Qual
seu estilo de música preferido? E logo marcavam em sua ficha (tabela) a resposta do colega,
que poderiam escolher até duas opções de estilos musicais.
A turma de oitava série responsável em aplicar a pesquisa, era composta de 27 alunos
que se organizaram em 5 grupos, 3 grupos de 5 alunos e dois grupos com 6 alunos. Cada grupo
ficou responsável em aplicar a pesquisa para uma série, sendo que cada série é composta de 5
turmas.
Ao final das entrevistas os dados foram coletados e tabulados por mim, que
posteriormente socializei com os alunos o resultado quantitativo dos mesmos.
A seguir, o modelo da ficha (tabela), construída para serem registrados os dados da
pesquisa:
- 72 -
Figura 1: Ficha para entrevista, elaborada por alunos da oitava série com o auxílio da professora.
Como descrito anteriormente, a turma foi dividida em 5 grupos, cada grupo seria
responsável para realizar a pesquisa com uma série, sendo que cada série possui 5 turmas. As
turmas possuem no total 491 alunos, e foram entrevistados 442 alunos, assim distribuídos:
- 73 -
Série Nº de Nº de Nº de alunos Nº de alunos que
turmas alunos entrevistados escolheram mais de
uma opção (até 2)
8ª série* 4 107 95 43
Gráfico 1: 5ª série
2 7 2 12
10
7
31
13
14
30
4 6 4
5
3
- 74 -
Após analisar os quadros, é possível destacar os 4 estilos musicais mais escolhidos
pelos alunos de cada série. No caso da 5ª série 31 alunos, escolheram “melody”, 30 escolheram
Samba/pagode, 14 forró e 13 calypso. Dentre os alunos da 5ª série o “melody” é preferência dos
alunos.
Gráfico 2: 6ª série
8 4 6
26
29
8
11 5
10 3
16 3 18
1
1 4 4
6
Nas turmas de sexta série, o Funk foi a preferência, com 29. O “melody” também
está em alta na 6ª série, que teve escolha de 26 alunos, em seguida o samba/pagode com 18, e o
“calypso” com 16.
Percebe-se que são basicamente os mesmos estilos que são mais escolhidos pelos
alunos da 5ª série.
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Gráfico 3: 7ªsérie
33
11 10
18 7 10 9 3
2
5
14
5
15
8
40 29
11
Gráfico 4: 8ª série
11 4 1
1
14 7
4 13 9
1 14
6
18
5 10
28
4
- 76 -
Os números no gráfico 4 são diferentes, pois uma turma não consta na tabela, que
foi a turma que entrevistou as outras. Neste quadro o rock também se destaca com 28 escolhas,
em seguida o pop rock internacional com 18, o pop rock nacional e música eletrônica com 14 e
Funk com 13.
Os gêneros musicais que são altamente difundidos pela mídia fazem parte de um
processo de socialização, através dos quais os adolescentes criam suas relações sociais,
esses gêneros musicais revestem-se aos olhos dos adolescentes de uma importância
superior àquelas que se ligam às relações ‘obrigatórias de família’. É por isso que o
adolescente, sente uma impressão muito forte de liberdade com esses gêneros musicais
(SILVA, 2000, p.49)
- 77 -
conhecer o aluno como ser sociocultural, mapear os cenários exteriores da música com
os quais os alunos vivenciam seu tempo, seu espaço e seu “mundo”, pensar sobre seus
olhares em relação à música no espaço escolar, são proposições para se pensar essa
disciplina e ampliar as reflexões sobre as dimensões do currículo, conteúdo-forma e o
ensino-aprendizagem oferecidos aos alunos. (SOUZA, 2004. p.9)
Referências bibliógraficas
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FERREIRA, L. Sensibilidad Musical, Religión y Política: una reflexión interpretativa sobre dos casos
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Música (ANPPOM) Brasília, 2006.
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_____, J. (org). Aprender e ensinar Música no cotidiano. Porto Alegre: Sulina, 2009.
- 78 -
ADOLESCENTE E GOSTO MUSICAL:
UM ESTUDO DE CASO NUMA ESCOLA PARTICULAR DE MANAUS
Resumo: O objetivo central deste trabalho foi conhecer a preferência musical do aluno
concernente ao seu contexto social, que se revela como uma lacuna nas escolas. A pesquisa
foi realizada em 2007 com 40 estudantes, 20 alunos da 6ª série e 20 da 8ª série do ensino
médio de uma escola particular de Manaus. Os dados demonstraram que os alunos realizam
qualquer tarefa, principalmente escolar, sob a audição do estilo rock, permitindo-nos
entender ser a preferência musical uma possível ferramenta para melhorar o desempenho
escolar, legitimando a necessidade de ação, por parte da escola, que (re) considere as
motivações dos alunos a partir do gosto musical, onde por meio dessas práticas, eles apreciem
não só a música no estilo rock, mas a clássica e demais músicas.
Abstract: The central objective of this paper was to identify the musical preference of the
student concerning his social context , which is revealed as a gap in schools. The survey was
conducted in 2007 with 40 students , 20 students from the 6th grade and 20 the 8th of high
school of a private school in Manaus. The data have shown that students perform any task,
especially school , under the hearing of rock style , allowing us to understand the musical
preference be a possible tool to improve school performance , legitimizing the need for action
by the school, which ( re) consider the motivations of students from the musical taste, where
through these practices, they enjoy not only rock music style, but classical and other music .
1. Introdução
A música faz parte da vida dos seres humanos. Para os jovens e adolescentes, a
audição musical torna-se a companheira mais fiel de todas as horas. Eles ouvem em todos os
lugares, sozinhos ou em grupo. Em casa, nas lanchonetes, na rua, e até nas escolas com fone de
ouvido. Mas o que ouvem estes adolescentes e por que ouvem este ou aquele estilo musical?
Os adolescentes formam grupos para ouvirem um determinado estilo de música, que
faz parte das suas preferências e dos seus repertórios. O comportamento, vestimenta e adereços,
caracterizam o gosto musical desses jovens que através da música, identificam-se. O que indica
que a música pode fazer a diferença no cotidiano das pessoas, proporcionando grandes momentos
de emoção, principalmente, de amizade. Na fase da adolescência, o gosto musical, não se baseia
somente na cultura local ou do país, mas, principalmente na mídia e no interesse na formação de
grupo. Logo, se justifica a proposta desta pesquisa como forma de encontrar respostas às
indagações acima referidas, pois se percebe a necessidade de fomentar trabalhos que envolvam
música na área de educação, com o intuito de colaborar com o processo de ensino-aprendizagem,
respeitando-se o interesse musical do próprio aluno.
- 79 -
Sendo a escola o espaço, onde os estudantes passam a maior parte do tempo e onde
o ensino de música torna-se obrigatório por meio da Lei 11.769/08, procuramos fazer um estudo
para saber a preferência musical dos adolescentes, principalmente em atividades escolares.
Para responder à questão principal desta pesquisa foi elaborado um questionário
fechado para ser respondido por alunos do Colégio particular, Ida Nelson, sobre a preferência
musical. A população estudada foi composta por 40 alunos, 20 com idade de 15 anos e 20 com
idade de 17 anos, todos do sexo masculino.
A maioria delas [as razões] está relacionada com a satisfação de necessidades emocionais e
sociais: desenvolvimento da identidade, passar o tempo, aliviar o aborrecimento e a solidão,
distrair de preocupações, descontraírem, lidar com problemas, melhorar o estado de espírito,
criar boa disposição, divertir-se. (PALHEIROS, 2006, p.306).
- 80 -
direção às influências sociais, instituições e grupos. (KRAEMER, 2000). Dentro da antropologia
e etnomusicologia, a música está presente em todas as sociedades apresentando diversas funções
e culturas a exemplo da categorização das 10 funções propostas por Merriam (1964), como a
função de expressão emocional, apreciação estética, divertimento, comunicação, revela a
importância do papel da música na cultura e a complexidade do comportamento do homem, tanto
na cultura quanto no contexto social. “As diferentes maneiras de ouvir e usar música podem
depender de características pessoais do ouvinte (idade, formação musical), da situação
(intenção de ouvir, atenção) e do contexto (físico, social, cultural, educativo)”. (PALHEIROS,
2004, p.309). Assim, os adolescentes formam grupos de interesse comum onde se encontrar para
ouvir as músicas preferidas os caracteriza como "tribo musical", por fazer parte de algum gênero
musical como hip hop, funk, pagode e especificamente o rock, gênero da escolha dos alunos
pesquisados.
A grande diversidade de estilos disponibilizada pelas tecnologias de reprodução tem
posto em evidência o pluralismo musical advindos das diversas culturas musicais. Ressaltando
a função emocional da música MERRIAM, (1964); SLOBODA, (2008), declaram que:
- 81 -
da música popular à visão tradicional da escola, a qual se dispõe a transmissão dos valores e
culturas musicais dos grupos dominantes da sociedade, bem como remonta à tradição clássica
de alguns professores. Esse tradicionalismo tem impedido a troca de conhecimentos culturais
entre alunos, a partir das suas experiências advindas do contexto social. Para Green (1987) a
escola com a sua ideologia e seus valores culturais dominantes tem dificultado essa troca de
saberes que poderia ser de certa forma, de prazer e de liberdade.
Diante desse contexto é pertinente uma abordagem mais ampla e um cuidado na
análise das questões curriculares da escola, haja vista que o distanciamento da realidade
vivenciada por esses jovens pode acarretar em “dissonância cultural”, provocar desinteresse
pelas matérias, já que o prazer e a emoção em ouvir música ficam negligenciados por parte desses
educadores. No mundo contemporâneo, globalizado, dominado pelo avanço tecnológico em que
a música é fundamental na vida desses escolares, deve ser uma ferramenta pedagógica aliada do
professor em função do enriquecimento que pode produzir em suas respectivas aulas.
A música popular representa a "liberdade" de escolha e de aprendizagem musical,
pois os músicos, geralmente, adquirem conhecimentos e habilidades, sem necessidade de
formação prévia, "tem sido uma parte central da ideologia musical, desde o rock ao hiphop, do
soul ao reggae, a música ser uma expressão direta de sentimentos, sem mediações e autêntica,
livre das imposições de convenções, e vindo naturalmente da "alma" dos músicos. (GREEN,
2012, p.67). As práticas musicais no tocante a aprendizagem dos músicos populares tem se
apresentado no campo da informalidade, diferenciando-se dos procedimentos educacionais
formais, mesmo considerando que muitos estudam por meio formal e se graduam em música
popular, como o curso de “Formação de Produtores e Músicos de Rock” da Universidade do
Vale do Rio dos Sinos, Rio Grande do Sul (UNISINOS).
Embora Green, a autora acima citada não trate da questão da escuta, mas dos
processos de aprendizagem musical no domínio formal e informal, tomamos a sua discussão
porque envolve a questão do ouvir e das preferências musicais tão relevantes na aprendizagem
informal, pois, os jovens escolhem a música que querem aprender a tocar, para em seguida tirá-
las de ouvido . Mediante as diferenças das práticas formais e informais, de acordo com os
significados "inerentes" e "delineados" da música, onde o primeiro relaciona-se aos elementos
da música, sons e silêncios e o segundo refere-se aos conceitos extramusicais que acompanha a
música, como associações sociais, culturais, religiosas, entre outras, Green (2012, p.68)
identifica cinco principais características:
1º) Os próprios alunos na aprendizagem informal escolhem a música, música que já
lhes é familiar, que eles gostam e tem uma forte identificação. Na educação formal, os
professores normalmente selecionam a música com intenção de introduzir os alunos a áreas com
os quais ainda não estão familiarizados.
2º) A principal prática de aprendizagem informal envolve tirar as gravações de
ouvido, diferenciando-se de responder a notações ou outro tipo de instruções e exercícios
escritos ou verbais.
3º) Em terceiro lugar, não só o aluno na aprendizagem informal é autodidata mas um
pouco crucial é que a aprendizagem acontece em grupos. Isso ocorre consciente e
inconscientemente por meio de aprendizagem entre pares envolvendo discussão, observação,
escuta e imitação. isso é bem diferente do contexto formal , que envolve a supervisão de um
adulto e orientação de um especialista com maiores habilidades e conhecimento.
- 82 -
4º) Aprendizagem informal envolve a assimilação de habilidades e conhecimentos de
modo pessoal, frequentemente desordenado, de acordo com as preferências musicais, partindo
de peças musicais completas, do "mundo real".
5º) No domínio formal os alunos seguem uma progressão do simples ao complexo,
que quase sempre envolve um currículo, um programa do curso, exames com notas, peças ou
exercícios especialmente compostos.
Embora a música popular seja introduzida na escola é viável atentar para a forma e
processo como ela foi transmitida e produzida fora da escola para que haja correspondência e
coerência entre conteúdo curricular e estratégia de ensino.
Sendo o rock um estilo musical popular e preferência dos alunos pesquisados neste
trabalho, fez-se necessário conhecer um pouco de sua história. Ele vem ocupando espaço
bastante significativo na juventude desde a década de 50 a qual teve grande influência negra com
o rhythm and blues. A década de 60, período marcado pela rebeldia e transgressão, pelo uso de
drogas, período denominado como “Anos Rebeldes”, tendo como cenário os movimentos
pacifistas e manifestações contra a Guerra do Vietnã, foi a época em que teve maior relevância
e desenvolvimento.
Foi um período culturalmente, revolucionário, cuja a mentalidade e os costumes
sofreram mudanças significativas. Ocasião onde os jovens tiveram um papel muito importante
em tais transformações, pois se rebelaram contra uma sociedade marcada pelo individualismo,
pela competição, pela luta para o sucesso econômico, pelo moralismo, racismos e pelo
consumismo. Para Friedlander (2003) o rock tornou-se um catalisador para os adolescentes
formarem sua própria identidade de grupo. Logo as letras e o ritmo do rock and roll ditariam
esse comportamento. Segundo Anne-Marie Green (1987), os gêneros musicais apreciados pela
classe jovem estão relacionados com o que são próprios da idade, como o vigor e as aspirações:
alegria, sexualidade, protesto, sucesso financeiro e afetivo, juventude ascensão social,
profissional. É na música que o adolescente expõe seus anseios, protestos e inquietudes, pois o
rock se tornou para eles um estilo de vida, sua história, liberdade. Essa liberdade de escolha está
no exemplo de Nirvana, uma das bandas da preferência dos alunos de 15 anos dessa pesquisa,
cujo contexto budista, significa estado de libertação.
Nesse sentido, para um melhor entendimento dos elementos de expressão através da
música, seja no comportamento, na vestimenta, na letra ou mesmo nos grupos, cabe
contextualizar os devidos períodos, através dos conhecimentos e informações, com vistas aos
seus reais significados, pois eles podem mudar de acordo com a época e interesses. De acordo
com Friedlander (2003, p. 20) “[...] Jeans, camisetas e casaco de couro preto – o “uniforme de
guerra” de qualquer roqueiro verdadeiro – eram símbolos rebeldes nos anos 50 e mero padrão
da moda nos anos 80”. Portanto, deve-se considerar os períodos onde ele marcou e fez história.
Na tendência rock and roll, esse gênero além de se tornar um movimento, foi
considerado um estilo de vida. Fez parte dos movimentos revolucionários, e continua mudando
e influenciando a vida de milhões de jovens, principalmente adolescentes. Apesar de polêmico,
tem sido uma janela histórica, instrumento de muitas ideologias que representaram gerações
insatisfeitas com as situações vividas na sociedade. O fato é que ainda hoje continua a ser a
- 83 -
bandeira, o porta-voz de uma cultura (FRIEDLANDER, 2003), haja vista que representa uma
comunidade com objetivos afins ou somente um estilo de vida.
Considerando-se o interesse dos alunos por esse estilo musical e que eles a ouvem
em todo momento e principalmente, no espaço escolar, busca-se uma educação mais eficiente,
no que diz respeito à interação aluno-professor, onde os mestres devem preparar um ambiente
que propicie e que colabore para uma aprendizagem significativa, a partir do interesse e do
contexto social do aluno (HARGREAVES & NORTH, 1997; GAGNARD, 1974), buscando
recursos que venham a se tornar um terreno fértil para o desenvolvimento desses escolares.
Hargreaves e North (1997) apontam para o fato de que os adolescentes ouvem música,
na maior parte do tempo, música de sua preferência, seja em casa, na rua, na escola, com ou sem
fone de ouvido. Isto remete à questão sobre a função que a música exerce na vida do adolescente
(MERRIAM, 1964), como socializadora, integradora ou formadora de cultura. Seja qual a sua
função, a música, como diz Campbell (2001), poderia ser mais e melhor utilizada pelo homem,
principalmente na educação.
4. Metodologia
Em busca de obter respostas às indagações deste trabalho foi realizada uma pesquisa
com 40 alunos de um colégio particular de Manaus, através de um questionário fechado aplicado
a duas turmas de alunos do sexo masculino, uma turma de 20 alunos de 15 anos, da 6ª série e
outra de 20 alunos de 17 anos da 8ª série.
Questionário - Este foi aplicado aos 40 alunos de acordo com citado acima sobre os
seguintes temas:
Preferências musicais;
O que os alunos fazem enquanto ouvem música;
Se realiza tarefa escolar ouvindo música
5. Resultados
O resultado das respostas dos questionários, média dos dois grupos de alunos,
mostrou que (90%) dos alunos tem o rock como preferência musical enquanto (10%) preferem
pagode ou outros estilos musicais; (97,5%) preferem fazer atividades escolares ouvindo música.
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da preferência dos alunos de 15 anos foram: Nirvana, System of a Down-Toxicity, Evanacense
e Slipknot. Enquanto as preferidas dos alunos de 17 anos foram: Evanecense, System of a Down
e Blink. São estilos de rock mais calmos e melódicos com variação entre solos e instrumentos,
com nuanças rítmicas, rápidas e lentas. Para Hargreaves (2004); Palheiros (2006) as escolhas
musicais identificam os grupos sociais as quais as pessoas pertencem ou não.
Quanto as músicas que eles ouvem enquanto realizam atividades; serviços
domésticos em geral, o rock mais agitado é a preferência dos alunos de 15 anos, como Duality e
People de Slipknot. Enquanto os alunos de 17 anos preferem ouvir rock menos “pesado” a
exemplo de Denize de Ace Troublesshooter . A música para esses escolares torna-se um passa
tempo e uma distração. Isso é notório no depoimento de P. F. (17 anos): “Eu gosto de rock, é um
tipo de música que eu me identifico, me sinto bem, gosto de ouvir isso para passar o tempo e me
distrair”. Entre outros, P. R. G. confirma: “É, eu acho que faz o tempo passar sem perceber”.
Embora o rock faça parte da escolha dos dois grupos, há uma pequena diferença com relação ao
fator idade, os alunos de 17 anos, sempre preferem rock um pouco mais lento.
Ao responderem se realizam tarefa escolar ouvindo música, todos os alunos de 15
anos disseram que sim, enquanto apenas 01 aluno do grupo de 17 anos, respondeu que não. A
maioria ouve com MP3 com fones de ouvido, outros no computador e o restante em aparelho de
som convencional. Dois alunos de 15 anos afirmaram que estudam também com o televisor
ligado. O aluno M. M. confessou que: “Sem ouvir nada ou ver TV, eu fico meio estressado, a
música tira o cansaço e evita o estresse”. L. F. F. (17 anos) diz que: “fazer tarefa sem música dá
dor de cabeça”. Todavia, a escolha da música seria de acordo com o que eles estavam fazendo,
mesmo, matéria escolar.
Com relação ao que ouvem enquanto realizam tarefa escolar, a maioria dos alunos de
15 e 17 anos gosta de ouvir rock “leve” e melódico. O motivo que os leva a ouvir esse estilo de
música para realizar esse tipo de tarefa, é a sensação de pressa que o rock provoca. De acordo
com P. F.: “O ritmo de rock é meio agitado. Quando eu quero fazer alguma tarefa assim, que
precisa que eu corra, essas coisas eu gosto de ouvir [...]”. Desta forma vemos que o caráter da
música, ritmo "agitado", "frenético"está em consonância com a proposta do aluno e com sua
própria característica, ou seja, fase ou "estado adolescente de ser", onde eles se identificam por
ser o rock, provavelmente, também uma música de protesto.
V. X., ouve este estilo musical para ajudar a se concentrar em matérias com números:
“Não muito em matéria como biologia, mas com números, como física e matemática”. Porém,
para R. da S., acontece o oposto: “Se concentrar em matemática nem pensar, mas história essas
matérias que faz você pensar no passado e no futuro, faz você sair daquela atmosfera que você
entrou”.
Como podemos perceber, a música tornou-se uma aliada na realização de tarefas
escolares. Deixou claro também, que ela serve para preencher e passar o tempo mais rápido. As
respostas dos questionários mostraram que a preferência musical dos alunos é o estilo de música
rock, com esse gênero musical eles se sentem estimulados a realizar todo tipo de tarefa.
De acordo com Hargreaves (2004, p.1) a música é utilizada como um meio para
regular os humores e comportamentos, a qual é mediada pelo ambiente social imediato no qual
ocorre a escuta. Assim, talvez isto explique os padrões da preferência e do gosto musical ter
relação com determinadas situações sociais e de escuta.
- 85 -
Para Tourinho (1993) a atenção acerca das atividades da educação musical deve estar
em consonância com a troca de experiência, com o respeito ao desenvolvimento da criação e da
imaginação, aonde o caminho da pesquisa venha ressaltar a competência da música em operar
no indivíduo vivências que permitam reflexões, provocando e despertando sensações,
sentimentos, reações, modificando até comportamentos.
6. Considerações finais
A preferência musical foi abordada neste estudo porque atesta a vivência cotidiana
dos adolescentes que fazem tudo ouvindo música: permite uma avaliação simultânea entre o
estilo musical enquanto comunicação e expressão das preferências, cultura e comportamento do
ouvinte. A escola atual requer mudanças, não se pode mais continuar atrelado a uma visão de
educação fragmentada e dissociada da realidade desses estudantes. A pesquisa demonstrou que
a música pode ser uma vertente significativa para essa mudança de paradigma, visto que esses
alunos trazem consigo novos conteúdos, comportamentos inerentes a uma complexa sociedade
imersa em avanços tecnológicos, num ritmo veloz e dinâmico que exige a todo instante,
transformações.
Posto que os adolescentes realizam atividades escolares sob audição musical, tendo
o estilo rock como música de sua preferência, é interessante que a realização de outras pesquisas
envolvendo o gosto e preferência musical dos alunos sirva de estímulo para desenvolver e
aprofundar a hipótese levantada nesse trabalho e que também por meio dessas práticas, eles
apreciem não só a música no estilo rock, mas também a clássica e demais músicas.
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TOURINHO, I. Música e controle: necessidade e utilidade da música nos ambientes ritualísticos das
instituições escolares. Pauta, Porto Alegre,1993.
- 87 -
OS CONHECIMENTOS E HABILIDADES NO ENSINO DO VIOLÃO EM AMBIENTES
VIRTUAIS
Abstract:This article deals with the development of cognitive and motor skills in the
teaching-learning process in virtual environments To this, was used as theoretical concepts
of procedural and declarative knowledge ANDERSON (1982) and the approach made by
Onofrio (2011) with perspective of sports science. Wanted it to give methodological support
and content for course guitar distance in virtual environments
1. Introdução
Com o advento das tecnologias digitais e um número cada vez maior de usuários da
internet, os processos de ensino-aprendizagem vêm se modificando consideravelmente. No
ensino musical, e mais especificamente no ensino do violão, a tecnologia trouxe consigo uma
série de questionamentos relacionados à efetivação do aprendizado.
Ao modificar o ambiente presencial para o virtual, o professor não tem mais a sua
disposição os mesmos mecanismos de intervenção. Pesquisas “demonstram que o
comportamento do professor em sala de aula é o de transmitir, ou seja, falar, enquanto que o
comportamento do aluno é tocar” (HALLAN 1998, apud HARDER 2008.p.128). A mesma
continua dizendo que os professores utilizam “parte do tempo da aula exemplificando, ou seja,
tocando em seus instrumentos e servindo de modelo aural para seus alunos” (HALLAN 2006,
apud HARDER 2008,p.130). O que se pode perceber é que essas intervenções são feitas de forma
síncrona e, em cursos à distância os encontros na maioria das vezes acontecem de forma
assíncrona.
Mas o problema da transição do presencial para o virtual não está apenas na forma
dos encontros: síncronos e assíncronos. Na aula presencial, mesmo que o aluno não consiga
realizar as instruções dadas verbalmente ou através das demonstrações práticas, o professor pode
interferir diretamente sobre o “corpo” do aluno. Pode posicionar as mãos ou mesmo ajudar na
realização de um movimento.
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Desta forma, para oferecer mecanismos que atendam o virtual com a mesma
eficiência que o presencial, é importante saber quais são os conhecimentos e habilidades
envolvidas no aprendizado e com isso encontrar estratégias e ferramentas tecnológicas que
supram a presença física do professor.
O objetivo deste trabalho é discutir como o desenvolvimento das habilidades
cognitivas e motoras são pensadas no processo de ensino musical, mais especificamente sobre o
ensino de violão à distância em ambientes virtuais. Da mesma forma, como a divisão do
processual e do declarativo acontecem no ensino do violão popular e do violão erudito. Essa
argumentação foi resultado de parte dos objetivos atingidos pelo autor durante a sua dissertação
de mestrado e parte do seu doutorado em andamento.
2. Os conhecimentos
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música, podemos comparar com os aspectos teóricos, da escrita musical, leitura e entendimento
de uma partitura. O esportista precisa aprender as táticas e sua função dentro da equipe. Na
música, da mesma maneira, o aluno precisa entender as funções harmônicas, instrumentação,
escrita e por vezes a função do seu instrumento dentro de um grupo musical. Todos esses
aspectos estão relacionados ao desenvolvimento das habilidades intelectuais, tanto do esportista
como do instrumentista. É o que sabemos e precisamos saber para realizar uma determinada
atividade com eficiência, o declarativo.
Usando, novamente, como comparação, um jogador de voleibol, vemos que durante
sua formação, necessita de todos os conhecimentos declarativos para atingir um mínimo de
eficiência no esporte, mas sua iniciação raramente é feita objetivando as regras e táticas. O
jogador aprende “jogando”. É a prática que ele vivencia no início da sua formação. Aprende a
sacar, bloquear, levantar e todas as demais habilidades necessárias para a prática esportiva. Na
música, da mesma forma, é importante expandir a capacidade prática: independência entre mão
direita e esquerda, coordenação, postura, habilidade rítmica, entre outras. Nesse processo, as
dificuldades estão ligadas com a evolução motora, estão no “fazer”, no processual. Durante essa
fase, a teoria e leitura podem ser acrescentadas de acordo com o nível de entendimento do aluno
e sempre de maneira a relacionar a teoria com a prática.
3. O ensino do violão
- 90 -
tocar. Mas, apenas o entendimento da partitura não é suficiente, pois o aluno necessita de um
tempo para ganhar fluência de leitura. Durante um bom tempo, o aluno vai desenvolver a
habilidade motora junto com a sua habilidade de leitura musical. Esse processo é longo e
demorado e o aluno necessitará de algum tempo para começar a tocar alguma música.
O estudo do violão popular por sua vez, é mais dinâmico, o aluno não necessita de
um entendimento teórico, apenas de algumas informações, como o entendimento das cifras,
simbologias da mão-direita e esquerda, que já são suficientes para iniciar a prática. Enquanto no
violão erudito, o aluno demoraria algum tempo para iniciar a prática ou tocar uma música,
através do violão popular, este mesmo aluno, precisará de apenas algumas aulas para iniciar o
aprendizado prático do violão.
Essa forma prática de trabalhar está mais próxima do repertório do violão popular.
Nele o declarativo está nas informações iniciais necessárias para que o aluno realize o
movimento. Dentre elas podemos destacar as simbologias das mãos direita e esquerda, as cifras,
e a maneira como o aluno vai utilizar as mãos para realizar o movimento, por exemplo, na mão
direita, o polegar desce todas as cordas, em seguida o indicador desce as três primeiras. Essas
informações estão escritas em uma folha com a música cifrada. Pela experiência do autor com
uma explicação sobre os símbolos e como eles devem ser feitos, o aluno entende o que deve
fazer. O passo seguinte é executar o movimento a partir das informações dadas inicialmente. No
caso do violão erudito o declarativo é um pouco mais extenso, pois é necessário explicar o
pentagrama, clave de sol, como as notas estão dispostas na pauta, e a maneira como ela está
relacionada com o violão, além da simbologia das mãos. Só após esses conhecimentos podemos
levar o aluno a iniciar o aprendizado. No processual essa fase inicial também é um pouco mais
demorada, pois o aluno leva um tempo para ter fluência de leitura. Vale lembrar que nem todos
os alunos aprendem da mesma forma e tem a mesma dificuldade, mas ela é resultado da
experiência do autor em mais de vinte anos no ensino do violão e é aplicada a alunos iniciantes.
Pela vivência do autor deste texto, em dois meses, os alunos iniciados através da
música popular terão efetuado pelo menos quatro ritmos na mão direita, dez acordes na mão-
esquerda e vinte músicas. Além da prática do violão, ele é levado a cantar e, com isto, amplia a
sua coordenação e afinação.
Para o aprendizado do violão, algumas habilidades precisam ser desenvolvidas. O
entendimento de cada uma dessas etapas e um treinamento adequado pode facilitar o caminho a
ser percorrido pelo aluno. A mão-direita é a responsável por impulsionar as cordas, enquanto a
mão esquerda é aquela responsável por pressionar a corda. As duas coordenadas são responsáveis
pela emissão de uma nota ou acorde. Tocando apenas a mão direita, apenas os sons de cordas
soltas serão reproduzidos, enquanto a mão esquerda por mais que ela tenha um movimento, isso
não resulta em som. Desta forma, é preciso um movimento sincronizado. Mas antes do estudo
ordenado, é mais fácil fazê-lo individualmente, o que nos leva ao trabalho de CARLEVARO que
diz:
Que a “experiência poderá demonstrar que é mais eficaz o estudo racional e consciente
em detrimento ao fazer apenas como algo puramente mecânico”. O mesmo autor ainda
chega a enfatizar a importância do estudo separado de ambas as mãos. “É necessário
trabalhar as duas mãos separadamente, quer dizer, fixar a atenção em cada uma delas
separadamente, com o objetivo de permitir uma maior concentração no estudo”
(Carlevaro, 1966, p.33, Apud Souza 2007).
- 91 -
Em relação ao repertório popular, a primeira etapa é trabalhar apenas com a mão-
direita, demonstrar para o aluno qual é o movimento, e em seguida, o ritmo e o andamento. Na
primeira aula, o aluno inicia com três músicas: “Flores”, no ritmo binário e dois acordes (E e
A);” Pra não dizer que não falei das flores”, no ritmo ternário e dois acordes (Em e D); “Inútil”,
no ritmo quaternário e dois acordes (Em e G).
Tomando como exemplo a música “Flores”, a primeira aula é dividida em partes: na
primeira parte da aula, o aluno é levado a entender os movimentos da mão direita, treina o ritmo.
Para isso o professor toca junto com o aluno ou utiliza um metrônomo para indicar o andamento.
Na segunda parte, o aluno aprende apenas os acordes da mão esquerda. Entende onde os dedos
devem ser colocados e treina as trocas das posições. Na terceira parte da aula, o aluno é orientado
a juntar as mãos. O mesmo procedimento é realizado nas outras duas músicas.
5. Discussões
No desenvolvimento das aulas do presencial para o virtual as mudanças são bastante
significativas e em vários pontos.
No presencial, o aluno segue o roteiro definido pelo professor, toca a peça estudada,
e o professor faz suas considerações de forma imediata, se em uma passagem, por exemplo, o
aluno tocou uma nota ou um tempo errado, se a digitação da mão esquerda foi problemática, essa
intervenção acontece de imediato, ele pode mostrar para o aluno o que está errado, corrigir,
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sugerir, posicionar sua mão de forma correta, e ainda se necessário, o professor pode pegar o
instrumento e demonstrar na prática.
Na aula virtual podemos destacar duas formas distintas de abordagens. A primeira é
através de vídeo conferência, embora professor e aluno não estejam no mesmo espaço físico,
eles se encontram no mesmo momento. As intervenções podem ser feitas de imediato, no
decorrer da peça, mas a distância física não permite que as intervenções sejam feitas diretamente
no aluno. Por exemplo, se o aluno estiver com a mão-esquerda mal posicionada, abafando o som
de uma nota, na aula presencial o professor pode pegar na mão do aluno e posicionar a mão de
forma correta, na aula por vídeo conferência, o professor não poderá interferir diretamente no
corpo do aluno, ele pode demonstrar aproximando a câmera, afim de que o aluno veja a posição
correta, ou mesmo verbalizar o que deseja.
A segunda abordagem feita à distância em ambientes de aprendizado, como o
MOODLE, o encontro de professor e aluno acontecem de modo assíncrono, geralmente através
da gravação em vídeo, esses problemas são mais difíceis de serem resolvidos.
Nesse tipo de aula, o aluno segue o roteiro pedido pelo professor e grava a execução
da peça e envia ao professor. O professor faz as suas observações repassa ao aluno, que por sua
vez entende a explicação e grava novamente e só a partir da segunda gravação é que o professor
poderá avaliar se o que ele pediu, foi executado pelo aluno, e se não foi precisa descobrir se o
aluno não executou de maneira sugerida, por que não conseguiu ou se porque não entendeu.
Essa dinâmica é um pouco lenta e por vezes o professor também não consegue
demonstrar precisamente o que ele quer que seja alterado. Para isso ele precisaria pegar o trecho
da peça executada pelo aluno, apontar através das palavras o que está errado, e gravar um vídeo
demonstrando a forma correta de execução. Isso deveria ser feito em todas as partes
problemáticas. Imaginemos agora o tempo e o trabalho que o professor teria para fazer isso de
forma cuidadosa. Esse descompasso temporal pode levar o aluno à frustração, a dúvida e um
desconforto que por vezes pode levar o aluno a desistir.
6. Considerações Finais
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Referências Bibliográficas
GALVÃO, A. Cognição, Emoção e Expertise Musical. Psicologia: Teoria e Pesquisa. v. 22, nº. 2, pp.
169-174. 2006.
LEVY, P. O que é Virtual. Paulo Neves ( Trad.) São Paulo. Ed. 34. 1996.
PINTO, H. Iniciação ao Violão: princípios básicos para iniciantes, vol. 1. Editora Ricordi. São Paulo,
1978.
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A AVALIAÇÃO NO ENSINO DO VIOLÃO PARA INICIANTES, EM CURSOS À DISTÂNCIA,
ATRAVÉS DOS DOMÍNIOS: PSICOMOTOR, COGNITIVO E AFETIVO
Resumo: Esse trabalho tem como objetivo discutir os processos de avaliação do ensino da
performance do violão para alunos iniciantes em cursos a distância. Para isso, trouxemos
como referencial teórico, os objetivos educacionais de BLOOM (1974), sobre os domínios
psicomotores, cognitivos e afetivos. Buscou-se, com isso, criar alguns parâmetros para
reflexão e sugestões práticas para a avalição, discutindo, como cada um desses domínios
podem ser compreendidos dentro do aprendizado instrumental e de que forma eles podem
ser avaliados.
Palavra-chave: Avaliação. Ensino a distância. Performance musical. Violão
Abstract: This paper aims to discuss the evaluation processes of the guitar performance for
teaching beginning students in distance learning courses. For this, we brought as a theoretical
framework, the educational objectives of BLOOM (1974), on the psychomotor, cognitive
and affective domains. It sought, thereby creating some parameters for reflection and
practical suggestions for the evaluation, discussing how each of these domains can be
understood within the instrumental learning and how they can be evaluated.
1. Introdução
Esse trabalho tem como objetivo apresentar uma proposta de modelo de avaliação do
aprendizado de alunos iniciantes em violão sobre três eixos: um sobre o domínio cognitivo
(BLOOM, 1974), outro sobre o domínio psicomotor (HARROW, 1983) e outro sobre o domínio
afetivo (BLOOM, 1979). Essa proposta foi parte da fundamentação teórica trabalhada durante o
doutorado, e foi utilizada de forma aplicada para atingir os objetivos da tese que é comparar o
resultado do aprendizado do violão entre os ambientes presenciais e ambientes virtuais. O
trabalho foi desenvolvido na disciplina Laboratório de Instrumentos Harmônicos do curso de
Licenciatura em Música da Unicamp durante o segundo semestre de 2014 e as avaliações foram
feitas em três etapas.
A primeira avaliação foi feita no início do curso, em forma de questionário entregue
aos alunos, e tinha como objetivo conhecer o perfil cognitivo e afetivo. A segunda avaliação
aconteceu no fim do curso, também através de questionário aos alunos, procurando abordar
aspectos de motivação, prática deliberada, e questões relacionadas às facilidades e dificuldades
do ambiente virtual, do repertório, do conteúdo e da metodologia e se isso ajudou ou prejudicou
o desenvolvimento do aluno durante o curso. Essa avaliação não foi quantificada, serviu apenas
para buscar respostas ao desenvolvimento musical e instrumental do aluno.
- 95 -
Outra avaliação ocorreu de maneira formativa, e foi realizada pelo professor do curso
(autor do trabalho), semanalmente através das gravações em vídeos dos alunos, fruto das
atividades desenvolvidas durante cada uma das dezesseis semanas da disciplina. Nessa
avaliação, os pontos abordados foram os aspectos cognitivos e psicomotores relativos aos
movimentos da mão direita e mão esquerda, e postura do aluno em relação ao violão. As
avaliações não foram quantificadas, e foram transformadas em feedbacks entregues
semanalmente aos alunos, buscando ajustes cognitivos e psicomotores.
A última avaliação aconteceu no final da disciplina de maneira formativa por cinco
avaliadores, com comprovada experiência com alunos iniciantes. Ela foi realizada a partir das
gravações das atividades de cada uma das aulas. De cada aluno, foram selecionadas duas
gravações: uma relativa à primeira aula e outra relativa à décima-segunda aula. O objetivo dessa
avaliação foi verificar se houve alguma evolução musical e instrumental nos alunos. Foi
colocado a cada avaliador, uma lista dos vídeos de todos os alunos nos dois momentos, e eles
não foram avisados qual vídeo era relativo a primeira aula ou a qual era relativo a décima
segunda. Os rostos dos alunos foram “borrados” digitalmente, para que o avaliador também não
reconhecesse os alunos. Após assistir cada um dos vídeos os avaliadores tinham que preencher
um questionário avaliando alguns aspectos como postura, agilidade e coordenação.
Sabendo que os domínios não podem ser avaliados de forma isolada, as questões
propostas buscavam uma quantificação do desenvolvimento cognitivo, psicomotor e afetivo. Por
exemplo, se o aluno faz um ritmo com a mão direita de maneira errada, é importante distinguir
se a dificuldade na execução ocorreu porque ele não entendeu como executar o movimento,
dificuldade cognitiva, ou se o problema é dificuldade na realização do movimento, dificuldade
psicomotora. Essa avaliação foi quantificada. Para cada questão havia quatro opções de
alternativas: iniciante, intermediário, avançado e superior.
2. Avaliação em Música
- 96 -
violão para alunos iniciantes em Ensino à Distância (EAD). A justificativa para isso, é que nessa
modalidade de ensino, as avaliações das disciplinas de instrumento, são feitas através de vídeo,
e uma avaliação sistemática, conforme proposta aqui, pode colaborar na qualidade do feedback
dos professores e com isso um melhor aprendizado do aluno, bem como para ajudar professores
a planejar de forma mais eficiente as atividades.
Podemos dividir a avaliação em música em quatro partes: a primeira é relativa às
matérias teóricas, como teoria musical, harmonia e estruturação, história da música,
orquestração; a segunda é relativa às matérias perceptivas, como rítmica, percepção e apreciação
musical; a terceira é relativa aos processos criativos como a composição e o arranjo; a última é
referente à prática instrumental, a performance. A avaliação das duas primeiras pode ser feita
através de questionários ou escrita. Já no caso dos processos criativos e da performance, a
avalição não se dá da mesma maneira. É necessário avaliar de forma prática, colocando o aluno
em uma situação real (Sloboda, 1985).
No ensino do instrumento musical, definir os objetivos do aprendizado significa:
estruturar, organizar e promover todas as ações necessárias para o entendimento e a utilização
de ferramentas para a compreensão do conteúdo por parte dos alunos. A estrutura e a organização
estão diretamente relacionadas com a escolha dos materiais, mídias, atividades, recursos
tecnológicos, estratégias metodológicas, comunicação e avaliação. “A taxionomia1 poderia
auxiliar na especificação de objetivos, a fim de facilitar o planejamento de experiências de
aprendizagem e o preparo de programas de avaliação” (BLOOM, 1974, p. 2).
Utilizaremos as avaliações: somativas (TOURINHO e OLIVEIRA, 2003), que são
aplicadas pontualmente, em provas bimestrais ou semestrais, concursos, ou provas para egresso
em universidades; formativa (TOURINHO e OLIVEIRA, 2003), que é feita durante as aulas de
instrumento, em que os encontros acontecem semanalmente; e a autoavaliação, feita pelo próprio
aluno, avaliando e refletindo algum ponto do seu desenvolvimento.
Um problema que encontramos na hora de avaliar a performance musical, seja de um
iniciante ou mesmo de um aluno avançado, é o de encontrar critérios para identificar o estágio
do aluno, aferir se os objetivos educacionais foram atingidos e as formas de mensuração. Além
de que, por vezes, ela é feita por um professor que não conhece o aluno, tendo poucos minutos
para avaliar e dar a sua nota. BLOOM (1974) adverte que a “avaliação é o processo acerca do
valor das ideias, trabalhos, soluções, métodos e materiais realizados com um determinado
propósito. Implica no uso de critérios e de padrões que permitem apreciar o grau de precisão”
BLOOM (1974, p.156).
Geralmente, o professor avalia a partir da sua própria vivência, interesse ou
conhecimento sobre o assunto. Desta forma, ele pode dar um peso menor para um ponto que
considera menos importante ou vice-versa. Embora a opinião seja importante, é necessário ter
critérios de julgamento para, assim, diluir a interferência de seu posicionamento como pessoa
com valores próprios, mesmo sabendo que não é possível tirar totalmente o lado individual da
análise.
1
A taxionomia é um termo utilizado na biologia para classificar em categorias, classe, gênero, família, ordem. E
Utilizado por BLOOM (1974), para classificar objetivos educacionais.
- 97 -
Para ampliar as dimensões e obter um resultado mais significativo, utilizaremos três
pontos para reflexão: o domínio psicomotor; o cognitivo; e o afetivo. Temos total consciência
de que eles estão interligados e não existem de forma separada, mas, para um melhor
entendimento e organização, faremos a divisão de cada um deles e a maneira com que eles
estarão inseridos nos objetivos do aprendizado musical e como podemos avaliá-los.
O domínio cognitivo inclui os objetivos relacionados à memória e ao
desenvolvimento das capacidades e habilidades intelectuais. Esse domínio traz claras definições
sobre o comportamento do aluno. O domínio psicomotor trata das habilidades manipulativas e
motoras e compreendem o mecanismo humano para realizar qualquer movimento. Na música ele
está ligado diretamente a todos os processos e desenvolvimentos das habilidades necessárias
para a performance. O domínio afetivo é relacionado às mudanças de interesse, atitudes, valores,
motivação. E por tratarem de aspectos muito pessoais é por vezes de difícil avaliação, talvez por
esse motivo, haja uma literatura escassa sobre esse tema, principalmente no que é escrito sobre
avaliação musical.
Para essa discussão, traremos, como referenciais teóricos, a classificação dos
objetivos educacionais de BLOOM (1974) sobre os domínios: cognitivos, que tratam dos
conhecimentos intelectuais (BLOOM, 1974) e do desempenho mental (MORROW, 2003);
afetivos, que tratam dos aspectos emocionais (BLOOM, 1979) e psicológicos (MORROW, 2003)
e o desenvolvimento das habilidades motoras sobre o domínio psicomotor2, de HARROW
(1983).
3. Níveis de avaliação
2
O domínio psicomotor foi sistematizado por BLOOM (1974), mas foi desenvolvido por HARROW (1983).
- 98 -
iniciantes. Essa subdivisão será muito útil para diagnosticar as diferenças sutis do aprendizado
de um iniciante, tarefa extremamente importante para essa pesquisa.
O grau de proficiência “principiante” é o primeiro estágio no desenvolvimento das
habilidades, nível de “Exploração” (KRATUS, 1995). Nessa fase, os primeiros esforços do aluno
são movimentos básicos mal estruturados, pois o aprendiz tem pouco controle sobre o
instrumento e sobre seus movimentos. Sua postura ainda está em ajuste e por vezes move o
instrumento durante a execução. A fase de exploração pode ser entendida como a fase pré-
aprendizado (ONOFRIO, 2011).
O segundo grau de proficiência é o “intermediário”, nível “Processo-Orientado”
(KRATUS, 1995). Nessa fase, o aluno é capaz de executar o movimento de forma mais ordenada,
está em pleno processo de aprendizado e os movimentos mais estruturados e com menos
movimentos involuntários. Sua postura está mais consistente, e ele começa a ter noção de como
o corpo deve estar posicionado durante a execução.
O grau seguinte, “adiantado”, é o terceiro estágio, nível “Produto-Orientado”
(KRATUS, 1995). Nele, é preciso que o aluno esteja mais consciente sobre os movimentos que
executa e que tente reconhecer a música que toca próxima à música que ouve. Sua postura é
segura e realiza movimento e adaptação em conjunto com o instrumento. Nesse estágio, é
importante que ele desenvolva também sua capacidade de ouvir e distinguir os sons (ONOFRIO,
2011).
O último grau, “superior” é o quarto estágio, nível “Fluido” (KRATUS, 1995). Nesse
estágio, o aluno desenvolve uma técnica mais fluída, seus movimentos acontecem de forma
automática e relaxada. Ele não precisa pensar para executar; o aluno tem uma fluência rítmica,
dinâmica e responde rapidamente às mudanças no decorrer da música (ONOFRIO, 2011).
4. Domínio Cognitivo
- 99 -
consegue processar todas as informações de uma única vez, ocorrendo erros na execução. As
mãos e os dedos apenas reproduzem as informações passadas pelo cérebro
Muitas vezes podemos pensar que a dificuldade na execução de uma música está na
técnica ou na habilidade psicomotora, mas essa dificuldade pode ser cognitiva. Alguns
procedimentos metodológicos podem facilitar esse aprendizado. CARLEVARO (1979) adverte
sobre a necessidade de trabalhar incialmente as duas mãos de formas separadas para que se dê
atenção especial para o movimento que cada uma delas irá realizar. Desta forma, ao segmentar
as etapas, o cérebro tem um tempo maior para se organizar até que o movimento fique
automático.
É importante salientar, que as habilidades motoras, domínio psicomotor, só são
aprendidos, se antes disso, as habilidades cognitivas forem desenvolvidas.
Segundo BLOOM (1974), no domínio cognitivo, o aluno pode ser avaliado de acordo
com seu estágio que pode ser de: conhecimento; compreensão; aplicação; análise; síntese; e
avaliação. Como o foco desse trabalho são os iniciantes na prática do violão utilizaremos os
estágios de conhecimento e compreensão.
É fundamental que o aluno tenha a conhecimento das terminologias e símbolos
utilizados durante o processo de aprendizado. Desde o entendimento das cifras, símbolos
utilizados para escrever o ritmo, nomenclatura das mãos. Saber os objetivos de cada atividade,
bem como a forma de avaliação, procedimentos metodológicos, etapas e tarefas a serem
executadas. Precisa também ter conhecimento das convenções, como a quantidade de ritmos que
deve executar em cada acorde, que ritmo utilizar em uma dada música.
A compreensão é o passo seguinte nesse processo cognitivo. O aluno pode conhecer
os símbolos, mas pode não compreender como executar. Por exemplo, o aluno pode ler a cifra
de um acorde, saber qual o nome do acorde, conhecer a posição, mas não compreende a maneira
como executar. A compreensão é a materialização do conhecimento adquirido.
A avaliação poderá ser dividida em duas partes: a primeira, que pode ser dissertativa
ou alternativa, procurará avaliar os conhecimentos teóricos traçados nos objetivos; a segunda,
que pode ser feita junto com a prova no domínio psicomotor, procurará avaliar o estágio de
conhecimento e compreensão, através de quatro graus de proficiência: principiante,
intermediário, adiantado e superior. Nela, não se avalia a proficiência da execução, mas, sim, se
o aluno colocou os dedos e a mão de forma correta, se fez sequência musical, se compreendeu
como deveria executar o movimento, as informações contidas na atividade e se atingiu os
objetivos traçados inicialmente.
5. Domínio Psicomotor
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Este domínio está relacionado aos movimentos e reflexos do corpo, às habilidades
manipuladoras e motoras (BLOOM, 1974) e abrange os movimentos locomotores básicos,
habilidades motoras e perceptivas, habilidades físicas, movimentos hábeis e movimentos não
discursivos (HARROW, 1983).
No ensino do instrumento, o desenvolvimento psicomotor está relacionado com os
movimentos da mão direita, da mão esquerda, a coordenação de ambas as mãos e com a postura
do aluno em relação ao instrumento.
O treinamento correto é fundamental para o funcionamento eficiente das habilidades
motoras e para ampliação da capacidade física. Se essa capacidade não for adequadamente
desenvolvida, pode ser um fator limitante para o desenvolvimento das habilidades motoras mais
refinadas.
É importante salientar que o nível de exigência com os alunos está intimamente
ligado ao objetivo de cada uma das etapas. Desta forma alunos em níveis diferentes terão
exigências diferentes.
Postura são as várias articulações do corpo para realizar uma dada atividade de
maneira a não prejudicar ou dificultar o resultado. Aqui trataremos a postura como a relação do
aluno com o instrumento durante a sua performance e também a postura isolada de cada umas
das mãos durante a prática.
A agilidade é a capacidade do aluno em movimentar seus dedos com rapidez e
exatidão de maneira que consiga dedilhar as cordas do seu instrumento com habilidade. São
componentes da agilidade, tempo de mudança dos movimentos, perícia na realização das trocas
de posições. Ele movimenta as mãos de forma contínua, sem que o movimento de uma mão
atrapalhe a outra. ”A rapidez diz respeito à prontidão para atividades manipulativas. Refere-se a
habilidades motoras mais refinadas que envolvem movimentos preciosos da mão e dos dedos.”
(HARROW, 1983, p.78)
A coordenação é a capacidade de incorporar duas ou mais atividades, ao mesmo
tempo, sem que uma interfira na outra. Podemos evidenciar isso, por exemplo, quando um
violonista toca um ritmo. Nesse processo há o movimento motor para realizar o movimento da
mão e um elemento cognitivo que organiza mentalmente o tempo com que o a mão tem que
realizar o ritmo correto. Podemos incorporar a isso, mais um elemento, ao incorporar a esse
ritmo, a troca de acordes, e isso pode aumentar caso os acordes sejam lidos a primeira vista.
A coordenação está relacionada à maneira como esses processos motores e cognitivos
são executados e a qualidade do resultado. Quando esses pontos são feitos facilmente e de forma
controlada, dizemos que ela é coordenada.
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Pode-se avaliar o iniciante a partir da sua postura em relação ao instrumento, a
postura da mão direita e esquerda. Avaliar a agilidade na troca dos dedos na construção dos
acordes, na agilidade da mão para tocar o ritmo. E por último avaliar a coordenação das mãos
ao executarem os movimentos de mão direita e esquerda conjuntamente no decorrer da música.
6. Domínio Afetivo
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Por último, trataremos da dificuldade como um agente que afeta diretamente o
rendimento do aluno, e não são de fundo motivacional ou mesmo de disciplina. Elas podem ser:
pela perda do instrumento; doença; falta de tempo; dificuldade psicomotora ou cognitiva.
7. Considerações Finais
Referências bibliográficas
_____. Taxionomia de objetivos educacionais; domínio afetivo. Trad. Alcides Cunha. Porto Alegre.
Ed. Globo. 1979.
- 103 -
Opus 7. Setembro. 2001. Disponível: [Link]
Franca/. Acessado em: 11/04/2015.
.
HARROW, A. J. Taxionomia do domínio Psicomotor: manual para elaboração de objetivos
comportamentais em educação física. Trad. Maria Angela Vinagre de Almeida. Rio de Janeiro. Ed.
Globo. 1983.
MORROW Jr, J. R. Medida e avaliação do desempenho humano. James R. Morrow Jr., Allen W.
Jackson, James G. Disch, Dale P. Mood; trad. Maria da Graça Figueró da Silva. 2º Ed. Porto Alegre.
Artmed. 2003.
ONOFRIO, R. M.G. A web como interface no ensino musical. Campinas, 2011. [159f.]. Dissertação
(Mestrado em Música). Unicamp. Campinas. 2011.
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O ENSINO COLETIVO DE VIOLÃO NAS ESCOLAS PÚBLICAS DE MANAUS
Resumo: O artigo apresenta um estudo sobre o ensino coletivo de violão nas escolas públicas
de Manaus: identificando as escolas públicas que realizam o ensino de violão, o perfil do
professor de música averiguando as metodologias utilizadas por eles em sala de aula e as
vantagens e desvantagens do ensino. A pesquisa aplicou questionários com professores de
violão que participam dos projetos de música das secretarias municipal e estadual, os dados
foram organizados em formato de gráficos apresentando o cenário do ensino coletivo de
violão em Manaus.
Abstract: The article presents a study on the collective teaching guitar in public schools in
Manaus: identifying public schools that perform the guitar teaching, music teacher profile
ascertaining the methodologies used by them in the classroom and the advantages and
disadvantages of education. The research applied questionnaires with guitar teachers who
participate in music projects of municipal and state secretariats, the data were organized in
graphics format presenting the scenario of collective teaching guitar in Manaus.
1. Introdução
Esta pesquisa fez um estudo sobre o ensino coletivo de violão nas escolas públicas
de Manaus, tendo em vista os projetos de música inseridos nas escolas públicas.
Muitos pesquisadores em educação musical já iniciaram estudos a respeito do ensino
coletivo, como exemplo, a Profa. Dra. Cristina Tourinho que há 15 anos realiza pesquisa na
Bahia sobre o ensino coletivo de violão, de instrumentos musicais, sugerindo a organização, a
estrutura da sala, a quantidade de alunos e a metodologia de ensino.
Com isso fizemos um levantamento de quais escolas, estaduais e municipais, tem o
ensino de violão em suas atividades. Verificamos que ambas possuem aulas de violão em
projetos paralelos que ocorrem nos horários vagos às aulas.
Nas escolas estaduais o ensino de violão está inserido dentro do projeto Jovem
Cidadão e nas escolas municipais esta prática de ensino está inserida dentro do Programa Mais
Educação.
Com os dados coletados, podemos traçar um perfil do ensino coletivo de violão em
Manaus, levando em consideração o ambiente escolar e as características socioculturais da
região.
- 105 -
2. Ensino Coletivo de Instrumentos Musicais
O ensino coletivo de instrumentos musicais tem sido uma ferramenta muito eficaz de
ensinar música, pois ele atende a várias pessoas simultaneamente e em determinados ambientes,
principalmente em escolas onde o ensino é feito em grupos para atender o maior número possível
de participantes.
Levando em consideração a aprovação da lei que dá a obrigatoriedade do ensino da
música na educação básica, Lei 11.769/2008, as escolas têm maiores chances de alcançar os
alunos com o ensino da música.
De acordo com Cruvinel (2008) a lei 11.769/2008 abrirá mais espaços para o
licenciado no mercado de trabalho, mesmo sem a definição sobre a formação do profissional a
atuar.
Existe uma visão muito clara e abrangente destas pessoas no que se refere ao poder da
música como agente transformador do ser humano, uma forma de expressão e interação
que deveria ser oferecida a todas as pessoas, algo parecido com o que professa a
International Society for Music Education: “Acreditamos que as experiências musicais
vivenciadas, em todos os seus muitos aspectos, são uma parte vital da vida de todas as
pessoas.”1 Meus colegas acreditam que existe a possibilidade de modificar (para
melhor) pessoas e que todos podem aprender a tocar, cada qual em seu tempo e
condição. (TOURINHO, 2008, p. 01 – 02)
Baseando o estudo nestes autores, observamos quão grande o poder da música como
papel socializador e estimulante, e com base nesse papel socializador e estimulante da música,
insere-se o ensino coletivo de instrumentos musicais visando que todos os que a praticam possam
desfrutar dos benefícios que a música nos traz.
- 106 -
2.1 O ensino coletivo de violão: conceitos, vantagens e desvantagens
Já sobre as desvantagens Tourinho (2007) nos fala que estão ligadas à dificuldade de
administrar as faltas e “nivelar” a turma, em passar um repertório que agrade o gosto musical
dos alunos e à duração do curso, que segundo a mesma nos sugere é de no máximo dois anos.
Tourinho (2008) sugere cinco tipos de disposição e organização da sala de aula para
que o professor possa utilizar: círculo, duplas ou equipes, master-class, orquestra e
solista/plateia.
- 107 -
Toda esta prática metodológica depende também de como o professor irá organizar e
atuar: “cabe ao professor a arrumação do espaço como uma forma de planejamento estratégico
para a realização de atividades determinadas” (TOURINHO, 2008, p.03). Então entendemos o
papel fundamental do professor em tomar as iniciativas e liderar sua turma.
3. Metodologia da Pesquisa
4. Apresentação da pesquisa
- 108 -
Organizamos todas as informações através de gráficos para melhor visualizar a os
dados. Os gráficos foram gerados a partir das perguntas dos questionários sobre a formação do
professor, a metodologia utilizada na sala de aula, a estrutura e organização da sala de aula e as
vantagens e desvantagens.
a. Formação do Professor
Temos dois cenários:
1) há um número pequeno de professores formados nas universidades, alguns não
exercem a carreira por falta de motivação salarial;
2) a lei não define o perfil do profissional que motive o ingresso de mais alunos na
universidade e consequentemente a sua formação, assim como o salário ser mais adequado para
o profissional. Desta forma, vemos na prática o cenário da educação musical.
6%
23%
Ens. Médio Incompleto
23%
Ens. Médio Completo
Técnico Completo
Superior Incompleto
3%
Superior Completo
45%
Também não podemos deixar outro aspecto importante que é o da baixa quantidade
de professores de música que saem formados das Universidades, devido aos fatores de evasão e
também quando formados não assumem a carreira de professor.
b. Metodologias utilizadas
Sobre o planejamento das aulas todos os professores tem essa prática em comum,
pois os professores seguem um plano orientado e devem seguir o planejamento específico.
Os professores fazem seus planos de aula baseado no plano de curso disponibilizado
aos professores do Projeto Jovem Cidadão e os professores do Programa Mais Educação
planejam junto com o professor da disciplina Artes para fazer atividades interdisciplinares.
Na prática existe o uso de outros instrumentos no ensino coletivo de violão, 80% dos
professores afirmaram utilizar em sua aula instrumentos percussivos, melódicos ou harmônicos.
- 109 -
11%
Percussivos
Melódicos
53%
36% Harmônicos
Para a disposição física dos alunos em sala de aula devemos levar em conta diversos
fatores que influenciam nesta prática: a quantidade de alunos em sala de aula, o ambiente e se
existem instrumentos e outros materiais para que os alunos possam usar.
- 110 -
18%
24%
Posiciona-os em círculo
Duplas
Grupos
4% Master-class
24% Divisão por naipes
Nenhum
26%
4%
Os professores marcaram mais de uma opção nesta questão, mostrando assim que
alguns fazem uso de mais de um desses meios de disposição dos alunos em classe.
Vemos então que pelo menos 82% dos professores trabalham uma maneira que
possibilite a interação dos alunos, e 18% afirmaram não realizar nenhum tipo de disposição dos
alunos em sala de aula.
É de suma importância saber que esses professores utilizam dessas estratégias em
suas turmas, contudo, uma prática dessas não pode ser prioridade e exclusividade nas aulas, ou
seja, somente trabalhar em grupos ou em duplas, haja vista que estas atividades fazem parte de
um conjunto de estratégias do ensino coletivo.
Apesar da grande funcionalidade que essas atividades proporcionam, o professor
deve planejá-las minuciosamente para que elas não tornem-se rotina e passem a ser fatigantes
aos alunos.
Este professor alega a vantagem de socialização pois alguns alunos podem ter
dificuldades de relacionamento e essa prática pretende estimular o aluno para que ele se entrose
- 111 -
mais com a turma, também este professor relatou sobre tocar em grupo, que é importantíssima
pois os alunos passam a saber relacionar-se na prática de conjunto.
Alguns alunos de bairros periféricos não tem acesso ao ensino de música, com isso
estes tem a oportunidade de aprenderem um instrumento e assim aplicarem o seu tempo no
estudo deste.
Assim como as vantagens influenciam positivamente o ensino coletivo de violão, as
desvantagens em contrapartida pesam negativamente o que pode dificultar um pouco esta prática
de ensino.
“pode ocorrer menos atenção por parte do professor quando há uma turma muito grande, e
ocorrer a dispersão dos alunos”
Quando um professor possui uma turma muito grande, este pode encontrar
dificuldades em atrair atenção de todos os alunos o que poderia decorrer em um possível
afastamento dos alunos da sala de aula.
- 112 -
O ensino coletivo tem curta duração, ou seja, não se pode realmente aprofundar os
assuntos dados para os alunos em sala de aula, levando em conta as diferenças de cada aluno e
a quantidade de alunos iniciantes que podem entrar nas aulas quando o curso já está avançado.
Conclusão
Esta pesquisa nos mostrou que há muitos cenários da educação musical, em Manaus,
isto decorrente tanto das esferas das políticas educacionais quanto das normas e leis. Assim
vamos pontuar as questões para melhor visualizar a análise: 1) a lei não determina qual o perfil
do profissional, há poucos professores formados em licenciatura em música que atuam nos
projetos, não tendo a formação pedagógica necessária para a prática musical, devemos levar em
consideração que existem muitos professores que não são formados mas tem uma didática
própria; 2) a falta de estrutura para receber os projetos de música na escola: desde instrumentos
ao espaço físico. Observamos, a partir dos questionários, que algumas escolas não possuem
espaço adequado para o ensino da música, em geral; 3) há uma quantidade grande de alunos em
uma única turma, mais de 25 alunos para o aprender violão. Sendo que quantidade não significa
estar fazendo um ensino coletivo, pois o ensino coletivo requer estrutura física, preparo
pedagógico e principalmente influência nas metodologias de ensino coletivo de violão que tem
a ver com o espaço e com os métodos pedagógicos.
Portanto apontamos acertos e falhas, para que não somente possam ser discutidos,
mas para que possam ser revistos e corrigidos gradativamente conforme nossa realidade nos
permite, o que está em jogo não é somente a quantidade de pessoas em que se atende com o
ensino coletivo de violão, mas sim a qualidade com que este ensino é tratado nos diferentes
locais da cidade de Manaus.
Referências bibliográficas
_____. Ensino coletivo de violão: proposta para disposição física dos estudantes em classe e
atividades correlatas. Disponível em </[Link]/pesquise_artigos.php:. Acesso em
31 jan. 2008.
- 113 -
O ENSINO DE PARTITURA NAS PRIMEIRAS AULAS DE VIOLÃO:
ESTIMULANDO A VIVÊNCIA EM PERFORMANCE E O FOMENTO AO ESTUDO SISTEMÁTICO
Abstract: This paper describes an experience lived as a teacher/guitar monitor the extension
project "Guitarist Mirim" UFRN the Music School in 2013.2. It has the main goal lead
strategies used for the development of sheet music on the guitar. This work has helped and
encouraged the systematic study of the guitar, and the greater interest of deepening to
improve and consolidate the musical development through the systematization of the study.
1. Introdução
- 114 -
em desenvolver repertório instrumental, seja no campo da música clássica ou popular. As
práticas relatadas no proceder do trabalho, foram vivenciadas e experimentadas no projeto de
extensão “Violonista Mirim” da Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte EMUFRN, onde as ações foram evidenciadas na atuação como professor/monitor durante
o semestre de 2013.2.
- 115 -
linguagem, constitui um sistema de comunicação por meio de símbolos, o qual possibilita a
expressão do universo sonoro” (RAMOS e MARINO, 2003, p. 43). Diante do exposto,
consideramos a leitura da partitura uma linguagem peculiar e relevante para o propósito do
projeto “Violonista Mirim”.
Fireman, (2007, p. 3) discorre que “não necessariamente se precisa ler partitura para
realizar música”, ainda assim, o estudo da mesma nos dá possibilidade em desenvolver
habilidades decorrentes sua prática, embora associada intrinsicamente à tradição musical
europeia de performance musical de alto desempenho se relaciona com diversas habilidades
(ARÔXA, 2014, p. 2). De acordo com Seashore (1967), a leitura da partitura como combinação
de notação, treinamento auditivo e produção sonora, fornece prática continua para o
desenvolvimento da musicalidade. O ensino da partitura deve está conectado ao
desenvolvimento da audição (GORDON, 2000), para tanto, cabe considerar oportunidades de
estabelecer ligação entre a atividade cerebral prática e as sensações auditivas (FONTERRADA,
2008). Nessa perspectiva, o ensino da leitura da partitura é uma maneira de possibilitar o
desenvolvimento musical (FIREMAN, 2007). Como também, uma maneira do instrumentista
adquirir autonomia no estudo do repertório.
3. Estratégias aplicadas
- 116 -
desenvolvida através de diversas atividades que antecedem ou acompanham a leitura e
aprendizagem de uma determinada peça” ( p. 10).
No referido semestre, a leitura da partitura foi trabalhada a partir das três últimas
cordas; 4° Ré, 5° Lá, 6° Mi, levando em consideração que as três primeiras cordas denominadas
1° Mi, 2° Si e 3° Sol, foram trabalhadas no primeiro semestre de 2013. Convém, no entanto,
explicitar que ao decorrer das aulas, exploramos o imaginário criativo do aluno ao que se refere
à interpretação das obras ou exercícios expostos em aula.
Enquanto curso de iniciação ao violão voltado para crianças, temos oferecido
oportunidade de aprendizado prático do violão inserindo a comunidade interna e externa
favorecendo momentos significativos, por exemplo, ensaios coletivos para apresentação final do
semestre, o qual, em certo sentido, envolveu os pais e a comunidade, resultando em apreciação
e inserção dos envolvidos para com a música instrumental erudita e popular.
O ensino individual é importante por oferecer possibilidade de aprendizagem peculiar
referente a dificuldades do aluno. De acordo com o objetivo da aula, do curso e do nível de
desenvolvimento musical do aluno, tivemos a oportunidade em agregar as duas metodologias ao
que tange ensino individual e coletivo (TOURINHO, 2007, p.2). As aulas coletivas no referido
semestre se resumem aos ensaios preparativos para o recital no final do semestre, sendo assim,
buscando a necessidade de um estudo que atendesse peculiaridades técnicas dos alunos, optamos
pelo ensino individual no referido semestre.
- 117 -
etapas da iniciação violonística, e, sobre esta base, construímos toda a evolução instrumental dos
estudantes de violão no projeto em questão.
4. Resultados alcançados
5. Considerações
Através deste trabalho, adquirimos uma ideia do grau de dificuldade que a criança
tem referente ao aprendizado da leitura de partitura nas primeiras aulas do violão. Porém, fica
claro que a metodologia apresentada ao decorrer deste trabalho, demanda princípios relevantes
quanto a desenvolvimentos técnicos no instrumento, como também, desenvolve na criança o
hábito disciplinar para se alcançar a meta desejada no instrumento musical.
A princípio, com a introdução a leitura de partitura, as crianças tiveram uma reação
- 118 -
normal e curiosa ao se deparar com o até então desconhecido, mesmo assim, tivemos a
necessidade de sanar com aprendizagem de acordes básicos algumas ansiedades que alguns
alunos demonstravam em querer aprender a tocar ritmos populares. Contudo, percebemos
nitidamente a satisfação por parte das crianças em estarem estudando e tocando através da leitura
da partitura.
Sendo assim, utilizamos atividades que envolvesse o desenvolvimento prático
musical da criança diante das dificuldades com o instrumento. Constatamos que, por meio dos
caminhos percorridos para o aprendizado tais como: exercícios de leituras e obras folclóricas
arranjadas, por exemplo, Asa Branca, Mulher rendeira dentre outras, foi possível confirmar a
expectativa em desenvolver na criança um aprendizado eficaz. Ao término do ano letivo, nos foi
possível comprovar que o aprendizado da leitura musical remete aos alunos desenvolvimento
quanto à musicalidade.
Concluímos que, apesar de algumas dificuldades as quais consideramos natural em
meio o processo de aprendizagem, por exemplo, associação da nota na partitura com a
localização da mesma no violão, detectamos que o trabalho contribui no âmbito da performance
como também no ensino aprendizagem de instrumento musical.
Compreendemos, portanto, que sendo o ensino de partitura um meio de conduzir o
estudante de violão para atuação performática, sentimos a necessidade em atuar com
metodologia voltada para o desenvolvimento do violonista. Desta forma, o projeto enfatiza
caminhos metodológicos práticos voltados para a formação do violonista.
Por meio deste trabalho, pretendemos contribuir no campo acadêmico, para possíveis
pesquisas e experimentos alusivos ao ensino de violão e instrumentos musicais, como também,
para abertura do ensino de partitura voltado para atuação performática do instrumentista.
Referências bibliográficas
FIREMAN, M. C. Leitura à primeira vista em música: uma visão geral: Congresso Regional da ISME
na América Latina – 2007.
- 119 -
Albuquerque. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.
______. O ensino do violão clássico sob uma perspectiva da educação musica contemporânea. 2000.
90 f. Dissertação (Mestrado em música – área de concentração Educação Musical) - Conservatório
Brasileiro de Música, Rio de Janeiro.
RAMOS, A. C.; MARINO, G. Iniciação à leitura musical no piano. Revista da ABEM n° 9, Setembro
2003.
______. Ensino Coletivo de Instrumentos Musicais: crenças, mitos, princípios e um pouco de história.
ABEM 2007.
- 120 -
A PREPARAÇÃO DE UM RECITAL:
OBSERVAÇÕES E APONTAMENTOS PRELIMINARES DO PONTO DE VISTA DA PEDAGOGIA
DA PERFORMANCE ENTRE ALUNOS DO CURSO DE LICENCIATURA EM MÚSICA
Abstract: The paper describes the experience of working musical Performance aspects with
students of Music Pedagogy of Universidade Federal do Acre, enrolled in the Chamber Music
Practice course. For most of the students it was the first experience with stage performance
and with public, and as so many points related to the behavior on stage as to Performance
improvement were taught. As references there were KOPIEZ (2014), PLATZ (2013),
HAVAS (1986) and KOHUT (1992). At the end of the semester the students showed great
advance and made important reflections on musical Performance.
1. Introdução:
- 121 -
tempo e espaço. Envolve a reprodução de ideias ou conceitos musicais (imagens mentais) que
são concebidos dentro da mente musical do intérprete”11.
A esta noção, deve-se adicionar a visão de Cook (2006, p. 11), sob a qual a música é
um fenômeno irredutivelmente social. O autor afirma que se deve comparar a partitura com um
script, ao invés de um texto:
Método:
11
“Musical performance is the act of producing aesthetically organized sound and silence within time and space. It
involves reproductions of musical ideas or concepts (mental images) that are conceived within the musical mind of the
performer” Tradução de Leonardo V. Feichas
12
Para preservar a identidade dos alunos, preferiu-se não identificá-los aqui por nomes e sim por letras.
13
“(...) with or without stage fright, no praise, no wonderful review on Earth could make me feel happy if I myself did not
feel happy with my playing” Tradução de Leonardo V. Feichas.
- 122 -
o medo do palco tem estreita relação com a autoestima, já que “(...) quando se lida com o medo
do palco, a primeira coisa a se fazer é eliminar os motivos de auto-depreciação e dúvida. (...)
Como alguém pode ‘se entregar’ a não ser que esteja livre para se amar, amar os outros seres
humanos e, mais que tudo, amar seu público?”14.
A segunda questão trabalhada no âmbito da Performance dos alunos foi a
entrada/comportamento em palco, que até então aparentemente não havia sido trabalhada em
nenhum momento de suas vivências. Evidenciou-se para os alunos ser este um quesito de grande
importância na prática musical, já que associa-se o medo comum que alguns músicos têm do
público quanto ao fato de ser na entrada e no comportamento inicial dos intérpretes no palco que
o público cria uma primeira e relevante impressão em relação ao músico.15 Juslin e Timmers
(2010, Apud PLATZ, p. 345-346) afirmam que “a performance musical pode ser resumida como
uma troca de informações entre o intérprete (como “transmissor”) e o público (como “receptor”)
pela modificação do espaço físico16.” O intérprete é julgado pelo público pelo o que é dele
esperado por este e pelo o que oferece. O trabalho de Kopiez evidencia que não são as roupas
ou a aparência que influencia nas primeiras impressões que o público tem de um músico, e sim
se este cumprimenta o público, olha ao redor antes de levantar o arco, como caminha e como se
coloca em posição.17 Cabe aqui diferenciar “prática” de “Performance”, segundo Kohut (1992,
p. 88):
Ou seja, a prática de estudo deve ser tal que, durante a performance, não seja
necessário pensar nas partes individuais estudadas, e sim no todo da obra.
14
“When dealing with stage fright, the first thing one must set out to eliminate is the reason for self-depreciation and self-
doubt. (...) How can he ‘give’unless he is free to love himself, his fellow being and, most of all, his audience?” Tradução
de Leonardo V. Feichas.
15
PLATZ, Frierich. The influence of performers’ entrance behavior on the audience performance elaboration. Artigo,
2013. Tradução de Leonardo V. Feichas.
16
“Music performance can be summarized as an exchange of information between performer (as “transmitter”) and
audience (as “receiver”) through the modification of physical space.”Tradução de Leonardo V. Feichas.
17
KOPIEZ, Reinhard, apud WHITBOURNE, Susan K. Fulfillment at Any Age, Mar, 08, 2014 in
[Link]/blog/fulfillment-at-any-age/201403/eight-ways-make-grand-entrance. Acessado em
28/06/2015.
18
“Practice often involves analysis of individual parts of the whole, but even the focus should be on the goal desired in
practicing an individual part, not the means for achieving that goal. In performance, there is only one goal – making
music. Players who use practice analysis during performance create only needless problems for themselves. They will
invariably make numerous technical erros in addition to producing a performance that is musically sterile (...) Practice is
the means to performance. Performance is the end product.” Tradução de Leonardo V. Feichas.
- 123 -
A Performance, a interpretação da peça estudada em público, é essencial para a vida
do artista ou do professor-artista, para que tenha a experiência musical plena.
Como método, também foram disponibilizados, por meio de redes sociais, artigos
relativos à cognição musical e estratégias de palco que foram lidos por alunos interessados em
explorar questões interpretativas e performáticas, como formas de introdução a aspectos
cognitivos de interpretação performática musical.
Discussão:
19
N1 e N2 tratam-se de avaliações aplicadas ao longo do semestre. No caso da disciplina de Prática de Conjunto, elas
se constituíram de recitais públicos.
- 124 -
escolher a sequência de peças a serem executadas. O aluno Z chegou à conclusão de que o estudo
escolhido para abrir o recital deveria ser a última peça executada de sua participação, já que a
adrenalina dos momentos iniciais o atrapalharam, e assim ele não teve o rendimento esperado.
Outros alunos pensaram em estratégias para lidar com o medo da avaliação de um público. O
aluno Y, mostrou-se com grande desconforto em palco. Como uma solução, selecionou-se um
duo de violinos a ser tocado com um amigo também violinista. Em um primeiro momento foi
eficiente, já que segundo ele o fato de tê-lo em palco e o acompanhando no segundo violino
trazia mais calma e tranquilidade. Na apresentação, eles tocaram a peça memorizada e com isso,
embora o violino estivesse direcionado para o público, o contato visual estava praticamente o
tempo todo no parceiro de palco e isso diminuiu o forte stress da apresentação. Já o aluno X
concluiu o quanto o controle da técnica instrumental pode influenciar na Performance musical
já que, de acordo com suas próprias conclusões, a realização de todas as dinâmicas não foi
possível por uma dificuldade muscular que foi potencializada ainda mais quando estava exposto
à tensão da apresentação. Ele percebeu a importância do treinamento de entrada e saída de palco,
o que auxiliou no ganho de confiança, e encontrou seus próprios meios de minimizar a pressão
psicológica advinda da situação de exposição completa de um recital de música de câmara.
A maior parte dos alunos, embora iniciantes enquanto intérpretes, obtiveram ótimas
conclusões e aprendizados destas duas experiências. Com essa busca por autoconhecimento
instigado pelo professor através de conversas, leituras de artigos, feedbacks após recital e
preparação artística e interpretativa, a maior parte dos alunos conquistou ferramentas e atalhos
para minimizar a tensão em palco e aumentar o autocontrole em Performance. Essa busca por
controle passa por autoconhecimento, domínio técnico e musical e constantes experiências no
fazer musical em público, sempre com um olhar atento e autocrítico.
Considerações Finais:
- 125 -
os alunos do curso de Licenciatura em Música dessa Universidade, assim como para as demais
Universidades interessadas em trabalhar a Pedagogia da Performance entre seus estudantes.
Referências bibliográficas
COOK, N. Entre o processo e o produto: música e/enquanto performance. Per Musi, Belo Horizonte,
n.14, p. 05-22, 2006.
HAVAS, K. Stage fright: its Causes and Cures. Bosworth & Co, Ltd., London, 1986.
KOHUT, D. L. Musical Performance: learning theory and pedagogy. Stipes Publishing L.L.C.,
Illinois, EUA, 1992.
PLATZ, F.. The influence of performers’ entrance behavior on the audience performance
elaboration. Artigo - International Symposium on Performance Science, 2013.
- 126 -
PAU E LATA:
A EDUCAÇÃO MUSICAL EM CONTEXTO NÃO ESCOLAR
Abstract: The teaching and music learning process not only delimits the school sphere, it is
clear that it is always present in various contexts. So this article aims to report the
observations made by students of the Degree course in Federal University of Rio Grande
do Norte - UFRN of music on a music education project called Pau and Tin Project.
This observation was proposed by the discipline oriented activities IV - Music Teaching
Methodology in School Contexts not. Through research-ation we analyze their contributions
and understand how teaching and learning happens in non-school environments, examining
actual practices and the actors involved them, seeking to understand the teaching and learning
in their own practices.
Keywords: No school education. Pau and Can. Teaching and learning music.
Considerações Introdutórias
- 127 -
Partindo dessa perspectiva, este trabalho tem como objetivo relatar as observações
colhidas por um grupo de estudantes licenciandos em Música da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte - UFRN em um projeto de musicalização realizado em um contexto não formal
de ensino, intitulado Projeto Pau e Lata. Essa observação foi produto da disciplina Atividades
Orientadas IV - Metodologia do Ensino da Música em Contextos Não Escolares. Buscamos
analisar suas contribuições e entender como acontece o ensino e aprendizagem em ambientes
não escolares, examinando as práticas propriamente ditas e os atores participantes delas,
buscando a compreensão do ensino aprendizagem em suas próprias práticas.
A metodologia utilizada nesse trabalho foi a pesquisa-ação que segundo Fonseca é
aquele em que “o investigador abandona o papel de observador em proveito de uma atitude
participativa e de uma relação sujeito a sujeito com os outros parceiros” (FONSECA, 2002, p.
35).
O projeto Pau e Lata foi criado por Danúbio Gomes, na cidade de Maceió em
1996. Com a vinda de Danúbio para Natal, o projeto também foi transferido para nossa cidade e
fez sua estreia em 1997 com o espetáculo “O Trenzinho Caipira”.
Parte do objetivo desse projeto era trabalhar a inserção de várias culturas como o
baião, o afoxé, o samba dentre outros. Isso foi abrindo espaço para que, a partir de 1998, se
iniciasse a formação de um grupo para divulgar a MPB e a Música Experimental, além é claro,
de suas atividades pedagógicas.
Em 1999 e 2000 o grupo apresenta o show “Enlatados” e faz uma pequena turnê nos
estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba.
No ano de 2000 torna-se Projeto de Extensão do Departamento de Artes da UFRN
com o nome: “Pau e lata: Projeto Artístico-Pedagógico” e, no ano seguinte, passa a desenvolver
um núcleo de estudos rítmicos.
Nos anos seguintes o grupo vem participando de vários Congressos e Fóruns em
todo o Brasil onde se destacam: Festival de Folclore de Olímpia/SP (2001); Encontro Nordestino
da Juventude em Recife (2002); Fórum Social Mundial em Porto Alegre (2003); em 2004,
realiza o Seminário de Formação da Associação Pau e Lata no Camping Clube de Natal/RN,
participa do Fórum Cultural Mundial em São Paulo/SP e compõe a coordenação do Fórum Social
Potiguar em Mossoró/RN.
Em 2006, inicia a formação e manutenção de dois núcleos do Pau e Lata na
cidade de Palmeira dos Índios e Senador Rui Palmeira, localizadas no sertão de Alagoas.
Nesse mesmo ano, é contemplado como Ponto de Cultura do Programa Cultura Viva/MINC.
Em 2007, realiza o I SEDEC - Seminário de Extensão e Democratização da Cultura,
na CIENTEC/UFRN, com participação dos núcleos de atuação do Pau e Lata. Neste evento,
apresenta junto a Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte.
No ano de 2009, participa do Fórum Social Mundial em Belém/PA, ministrando
uma vivência musical e estreando o espetáculo Sinfeiria em Três Movimentos, um trabalho de
pesquisa sonora baseando-se nas feiras livres, adicionado a composições consagradas da música
clássica como O Trenzinho Caipirade Villa Lobos, Bolero de Maurice Ravel, bem como
- 128 -
ritmos afro-brasileiros. Neste mesmo ano, realiza o ECOAR, evento de intervenções, vivências
e instalações ambientais no Departamento de Artes/UFRN. Ainda em 2009, participa do XIII
ENEART em Salvado/BA, apresentando o show Sinfeiria em Três Movimentos, oficina de ritmo,
trabalho científico, audiovisual, cortejos e intervenções. Em outubro deste ano, realiza o II
SEDEC - Seminário de Extensão e Democratização da Cultura, fazendo parte da programação
da CIENTEC/UFRN. Nesse mesmo evento foi realizado o I Kizombandando - Encontro
Percussivo do Rio Grande do Norte, estando envolvidos os núcleos atuantes do Pau e Lata
e convidados 1.
Aspectos metodológicos
O grupo Pau e lata tem como coordenador e regente, seu próprio fundador, o Danúbio
Gomes, uma pessoa muito carismática que conduz o grupo. A sua forma de conduzir as aulas
(ensaios) é muito direta, através de uma metodologia e linguagem simples, clara e objetiva. Ele,
apesar de ser uma pessoa mais madura (com seus 45 anos), tomando como referência o grupo, é
muito jovial, e atribui essa jovialidade à sua relação com a música e com o grupo.
No projeto se aprende a tocar tocando, então o aprendizado se dá através das músicas
trabalhadas nos ensaios, onde se obtêm o conhecimento necessário para tocar. Essa metodologia
permite o aprendizado de um conteúdo amplo de uma forma muito lúdica, leve e despretensiosa,
e, no entanto, seria algo que caracteriza bem esta aprendizagem. Esses conhecimentos vão desde
noções rítmicas, prática de conjunto, percepção, noções dos parâmetros básicos da música como
altura, intensidade, duração, timbre, e também terminologias específicas do estudo da música.
Uma grande característica do grupo, como o próprio nome já sugere, é o fato dos instrumentos
serem feitos de elementos reciclados, e pela experimentação de timbres através de todo tipo de
material disponível. Os timbres que eles utilizam hoje é fruto de um estudo feito ao longo dos
17 anos do grupo, onde puderam chegar na formatação que se encontra hoje, porém, a busca
pelos timbres é um processo contínuo onde eles sempre estão buscando novos materiais que
possam produzir um som dentro do que eles estão querendo. Eles utilizam grandes tambores de
200 litros que são tonéis de plástico com a boca cortada para produzir o som mais grave, uns
menores também de plástico sendo os médios, e latas para o som mais agudo. Tem ainda um
pequeno botijão de gás, que tem também o som agudo, que tem o som próximo do agogô. Abaixo
uma imagem dos tambores:
1
Disponível em <[Link] acessado em: 21 de abril de 2014.
- 129 -
Fig. 1: Tambores graves e agudos nas cadeiras
- 130 -
Fig. 2: 13ª Semana do Meio Ambiente Praia da Pipa e Tibau do Sul
Quando ele percebe que alguém do grupo está com dificuldade, se dirigi diretamente
à pessoa esclarecendo qualquer dúvida que ela possa ter. Ele estabelece divisões rítmicas
diferentes para cada naipe de instrumentos, onde algumas vezes espera que todos estejam
executando com segurança o ritmo inicial para poder trazer essas divisões. Essas divisões trazem
uma riqueza e complexidade às composições, sendo algo bem característico do grupo, é
necessária bastante atenção e presença para executar as músicas de forma precisa, e
principalmente no momento das mudanças de ritmos, e também para estar consciente do que está
tocando e ao mesmo tempo ouvindo o outro.
O conteúdo estudado nos ensaios surge a partir de pesquisas feitas pelo grupo,
essas pesquisas é o que movimenta e alimenta o aprendizado. Ela surge pelo interesse deles
nas festividades populares, na cultura popular e na música em geral, mas principalmente pelo
interesse em estudar os ritmos e isso é estimulado pelo coordenador, além do interesse natural
do grupo.
As composições do grupo basicamente surgem a partir dessas pesquisas, de ritmos
como o coco, maracatu (os baques), afoxé, ijexá, Luanda, samba, etc. De forma coletiva eles
estudam as células rítmicas presentes nessas músicas, e adéquam a formatação dos seus
instrumentos, e isso já imprime uma característica própria deles. Também criam variações
dentro dessas células, e desse processo surgem as composições. Algumas vezes também,
Danúbio ou um outro integrante do grupo, traz de casa, de sua vivência, uma ideia de uma
célula rítmica, que passa a ser desenvolvida coletivamente durante os ensaios. Abaixo imagens
do processo de composição:
- 131 -
Fig. 3: Símbolo Sonoro e Primeiro compasso
Eles chegaram a criar 7 tipos de variações diferentes para o maracatu e agregam essas
variações no que eles chamaram de maracatuzada, um neologismo que serve para agrupar essas
variações em encadeamentos, combinando-as entre si, eles têm duas maracatuzadas. E em
ocasiões específicas, como festividades de rua, eles chegam a agrupar todas as variações em uma
única maracatuzada. O mesmo acontece com outros ritmos, de serem criadas variações e
denominadas de formas diferentes, às vezes simplesmente enumerando-as, como é o caso do
afoxé, que eles criaram o afoxé 1 e 2. Em determinados momentos Danúbio pede para alguém
reger, com o intuito de deixar alguns integrantes do grupo (geralmente os mais antigos)
preparados para essa função. Isso é algo que eles trabalham, essa certa independência de a
coisa funcionar ele estando presente ou não, e isso possibilita que as pessoas do grupo possam
representá-lo aonde chegam, através de oficinas, conversas e até palestras.
Eles têm sempre um momento de conversa após os ensaios, onde os participantes são
levados a pensar, a questionar, a ter um ponto de vista com relação às coisas do grupo, e também
com relação ao aspecto político, social, e cultural. E isso é o que eles afirmam que caracteriza
o projeto, “não é simplesmente pegar uma lata ou um balde e sair batendo e dizer que é pau e
lata”, como afirmou um participante do grupo, tem toda uma filosofia e engajamento político,
social, e cultural. Outra característica importante do grupo é o fato deles se adequarem às
necessidades do momento no sentido de sua atuação. Danúbio falou que em algumas ocasiões
não tem como o grupo todo viajar quando são aprovados em algum projeto, devido à verba não
ser suficiente, então eles desenvolvem suas atividades com o que estão podendo. Ele disse
- 132 -
que, com duas pessoas é possível se executar determinadas atividades, atuar de uma determinada
maneira, no sentido do alcance que podem ter. Com cinco já e diferente, já têm outro alcance,
e assim sucessivamente.
O grupo pau e lata tem um papel muito importante aqui em Natal e no Rio Grande
do Norte, eles têm uma atuação muito direta e efetiva no aspecto político-social, o grupo está
sempre presente nas mobilizações e reivindicações sociais, onde o som das latas e tambores se
tornou marca característica dessas mobilizações. O grupo também está presente na cena
cultural, principalmente mais ligada ao popular, em uma relação mais direta com as pessoas.
Sua atuação, além de desenvolver o conhecimento no que diz respeito à música e a percussão,
também possibilita um trabalho social que atua diretamente com os jovens, despertando o
fazer e a aprendizagem musical, e isso se dá principalmente através da extensão de suas
atividades no interior e pequenas cidades.
Considerações
O fato do regente do Grupo Pau e Lata ter colocado como pré-requisito para
nossas observações, a participação nos ensaios, de forma ativa, pegando um instrumento e se
inserindo no grupo, nos possibilitou uma vivência mais direta em nosso objeto de estudo,
trazendo como consequência uma maior clareza de como funcionam os ensaios e o grupo como
um todo. Deixamos de ser observadores passivos, para sermos participantes ativos, e ainda
assim se colocar no lugar de observador. Colocar-se como aprendiz no grupo nos fez
reconhecer mais diretamente a eficácia de seus métodos. Em nosso estudo para sermos
educadores musicais é importante que possamos observar na prática como se dão as várias
formas de lidar com o conhecimento musical, a forma como é transmitido e compartilhado.
Foi realmente muito rica essa vivência de podermos ver como é conduzido esse
processo dentro de instituições informais. Vivemos em um momento em que está sendo
reconhecidos a força e o alcance, dessas instituições informais, a aproximação maior do
conhecimento com a realidade, em vários sentidos; e é importante podermos estar à par desse
processo. O trabalho com o grupo também nos trouxe um conhecimento mais amplo a respeito
da cultura presente na nossa cidade, estado, e até no nosso país.
As observações recolhidas no projeto Pau e Lata possibilitaram a nós, estudantes,
uma visão mais clara de como ocorre o ensino e aprendizagem em contextos não escolares. É
necessário estar a par do valor que cada projeto pode nos oferecer, não só musicalmente, mas
também socialmente. Ter contato com tais instituições nos possibilita um novo olhar, como
futuros educadores.
Referências bibliográficas
- 133 -
música de Porto Alegre- RS. 168 f. (Dissertação de Mestrado em Educação Musical) – Programa
de Pós-Graduação em Música, Instituto de Artes, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2005.
SOUZA, J. Educação musical e práticas sociais. Revista da ABEM. Porto Alegre, n. 10, p.07-11,
2004.
- 134 -
COLEÇÃO MUSICAL:
UMA INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE EDUCAÇÃO MUSICAL E EDUCAÇÃO AMBIENTAL
Abstract: This ongoing research in the music area of technological innovation plans to
organize a didactic material relating the themes of music education and environmental
education through various activities designed: a musical, activities and musical games,
arrangements of poems among others. The theme of the teaching material was based on the
Children's Literature Book "Amazon Critters" the author Priscilla Pinto. The research aims,
ultimately, build a Musical Collection, which could be used not only by the music teacher at
school but in other related areas, both in education and in cultural activities.
1. Introdução
- 135 -
Para tanto, a principal questão ligada a este tema de educação ambiental foi como
podemos transformar este livro em ferramenta de ensino da música, abordando os sons dos
animais, o andamento de cada um, noções de tempo e tessitura sonora, criar noções de
musicalidade, de linguagem, tempo e imagem ou outras formas criativas de repassar um
conteúdo, sendo que este ensino musical estaria atrelado a conceitos de preservação e meio
ambiente?
A proposta foi criar materiais didáticos a partir do livro e da sua temática, tendo como
base o ensino da música. Neste caso, podemos elaborar atividades musicais, jogos musicais, um
musical fazendo os arranjos das letras dos poemas, a produção de um DVD educativo sobre a
temática, um livro de composições que auxilie na musicalização, enfim, uma coleção musical
para o ensino da música sobre os bichos da Amazônia.
Sabemos que estamos numa região onde temos muitos problemas em relação à
preservação das espécies, vemos constantemente nos jornais animais sendo mortos em seu
habitat em função de mercado ou da inconsciência urbana.
Para transformar o mundo temos que mudar a consciência do homem, e esta
consciência deve ser adquirida e ensinada desde criança.
1
Sustentabilidade é a capacidade das populações do presente em satisfazer as suas necessidades sem comprometer a
satisfação das futuras gerações.
- 136 -
Nesse cenário que a educação ambiental é condição necessária para prover mudanças
efetivas. Em um processo de orientação e educação de base para demonstrar as crianças e adultos
como tratar a problemática ambiental mundial. Como se pode observar a seguir:
[...] Educação Ambiental assume hoje uma perspectiva mais abrangente, não
restringindo seu olhar à proteção e uso sustentável de recursos naturais, mas
incorporando fortemente a proposta de construção de sociedades sustentáveis. Sob esse
enfoque, tenta despertar em todos a consciência de que o ser humano é parte do meio
ambiente, superando a visão antropocêntrica, que fez com que o homem se sentisse
sempre o centro de tudo esquecendo a importância da natureza, da qual é parte
integrante. (FREITAS; RIBEIRO, 2007, p. 5).
- 137 -
Por fim em um cenário de problemas ambientais que se intensificam todos os dias e
promovem consequências locais e globais, constata-se na educação a possibilidade de se
construir ferramentas que disseminem a aprendizagem e favoreça ao cidadão a construção de um
senso crítico e político que o prepara para reivindicar perante a sociedade os seus direitos como
cidadão.
Para a construção da Coleção Musical, foi necessário pesquisar sobre meio ambiente,
preservação da natureza e conhecer a fauna amazônica, compreendendo assim a vida dos animais
em seu habitat, pois a principal questão é ensinar música criando conceitos de preservação e
meio ambiente.
Desta forma, a pesquisa em andamento tem a metodologia inicial, que já está
finalizando, de fazer o levantamento bibliográfico para contextualizar e embasar o objeto de
pesquisa. Faz-se necessário a leitura sobre educação ambiental, preservação da fauna, conhecer
mais sobre a dinâmica dos animais na natureza, suas atuações e funções para o equilíbrio da
natureza.
A segunda fase da pesquisa compreende a produção do material didático, ou seja, a
criação de atividades que possam proporcionar o ensino da música e conscientização ambiental
a partir da proposta do livro.
Para abordar sobre o processo de criação do material didático, é necessário apresentar
o livro infantil de poemas: é dividido em 4 partes apresentado os animais da terra, os animais do
ar, os animais da água e os animais da água e da terra. Em cada habitat foram escolhidos vários
animais representativos, desta forma, a autora, apresenta o animal através de um poema: o poema
é sobre o animal, sua vida, seu espaço, sua forma de agir, os movimentos e sons que faz, a sua
personalidade, a relação que tem com outros animais, seu temperamento, cor, patas, pelos, enfim,
a autora apresenta todas as características de cada animal de forma simples, didática e lúdica.
Apresentamos, a seguir, o processo de criação do material produzido na fase inicial
da pesquisa:
- 138 -
bem quente, mas não é o sol, é o incêndio na floresta, e nesta trama, os amigos se separam e cada
grupo de animal (da terra, do céu e do ar) busca resolver os problemas e investigar, até todos se
reencontrarem.
Trecho do texto do musical:
As canções do musical têm base nas letras dos poemas referente a cada animal, sem
alterar ou substituir as palavras. O processo de criação dos arranjos será apresentado a seguir.
Foram escolhidos dez poemas e cada poema foi construído um arranjo sem
comprometer a letra.
Como exemplo de construção dos arranjos, iremos apresentar a canção “O Macaco”,
do poema do livro com título “O danado pulador”, que tem em sua temática a apresentação do
animal macaco, seus costumes, características, alimentação, comportamento são postos em
destaque nesse poema.
- 139 -
Figura 1: Grade da música do macaco, poema Macaco.
Arranjo: Selton Riateque
- 140 -
ambiental. Esta fase é a mais abrangente, pois concentra a criação, a composição e elaboração
de atividades musicais, conciliando a temática para uma vivência musical.
Nesta fase compreende também a organização da Coleção Musical, criando a
identidade visual da coleção e a organização do material.
Portanto, o material a ser construído servirá tanto para atividades de música quanto
para outras atividades relacionadas a Ciências, Biologia, Relações Humanas, Teatro musicado,
enfim, material não somente para propor aulas de música mais construtivas, como outras
atividades relacionadas com a temática em questão.
Considerações finais
Referências bibliográficas
- 141 -
LICENCIATURA EM EDUCAÇÃO DO CAMPO NO NORTE DO TOCANTINS:
LUTAS, DISPUTAS E DESAFIOS PARA UMA HABILITAÇÃO EM ARTES VISUAIS E MÚSICA
Abstract: The creation of the first classes of Field’s Education with specialization in arts and
music in the Universidade Federal do Tocantins – UFT, was an achievement of social
movements and is the result of disputes and struggles for public policies that have the eyes
on the needs of men and women's field, as riparian, indigenous, maroon and other peoples
historically forgotten by the government. This paper reports part of that process from the
implementation of this course in the north of the Tocantins’s State. This paper seeks to make
a brief concept of Field’s Education, focus on the history, doing some thinking and pointing
current challenges and establishing a relationship with music.
1. Introdução
- 142 -
movimentos, entendem que apenas a redistribuição de terras não é suficiente para resolver os
problemas do campo, é necessário que exista um projeto mais abrangente para o Brasil que
envolva a educação, por isso a luta por escolas, cooperativas e centros de formação política e
acadêmica dentro dos próprios assentamentos ou reassentamentos é uma prioridade para os
principais movimentos do campo.
- 143 -
O PROCAMPO, através de chamada pública estabelecida no Edital de Seleção nº
02/2012 – SESU/SETEC/SECADI/MEC, de 31 de agosto de 2012 (Brasil, 2012) implantou
quarenta e dois cursos de Licenciatura em Educação do Campo, espalhados por todo o Brasil
com diferentes habilitações, trinta e sete dos quais já se encontram em pleno funcionamento
nesse momento. A região norte possui dez cursos em funcionamento distribuídos nos estados do
Amapá, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. A proposta de curso apresentada pela UFT veio
de uma ação conjunta dos Campi de Tocantinópolis, situado na região norte do Estado do
Tocantins, e o campus de Arraias, localizado no extremo sul do mesmo Estado. Para esse edital,
ambos os campi propuseram o curso de Licenciatura em Educação do Campo: (área códigos e
linguagens) habilitação em Artes Visuais e Música. Provavelmente o único curso desse tipo e
com essa habilitação na América Latina.
O edital que viabilizou a criação desses cursos faz parte de um plano de ações de
políticas afirmativas que, através dos programas referidos anteriormente, visam superar as
carências históricas de formação de nível superior nas regiões rurais e, no caso específico da
proposta da Universidade Federal do Tocantins, na região norte do Brasil, na Amazônia Legal.
Levando-se em conta ainda que, desde o ano de 2011, quando entrou em vigor a lei 11.769
(Brasil, 2008), que altera a atual LDB, o ensino de conteúdos de música nas escolas tornou-se
obrigatório, gerando uma enorme demanda para habilitações nessa área, não apenas nos estados
do norte.
Segundo dados do último senso do IBGE/2010, existem 29.852.986 milhões de
pessoas vivendo no campo, o que representa uma média nacional de 15.65% da população
brasileira. O Tocantins com uma população de 1.383.445, possui 293.212 pessoas que vivem em
áreas rurais, ou seja, 21,19% da população, percentual maior que a média nacional. Porém, no
que se refere à escolaridade, enquanto que na zona urbana a população de 15 anos ou mais
apresenta uma escolaridade média de 7,3 anos, na zona rural esta média corresponde a quatro
anos.
A criação de um curso de Educação do e no Campo deverá necessariamente ser
coletiva, ou seja, pensada conjuntamente pelos próprios envolvidos. Logo, o referido projeto,
contou com a participação de representantes de diferentes movimentos sociais, da Universidade
e do Estado.
Especiíficamente na região de Tocantinópolis, conforme é apresentado no Projeto
Pedagógico do Curso – PPC (UFT, 2013), os trabalhadores e trabalhadoras do campo
manifestaram, através de associações comunitárias localizadas na região do Bico do Papagaio1,
especialmente em assentamentos do MST e MAB (364 projetos de Assentamentos com 24 mil
famílias assentadas), forte interesse para criação desse curso na região.
Uma ação efetiva para a demanda do curso foi debatida nas reuniões do fórum de
educação do campo, coordenado pelos movimentos sociais e campus de Tocantinópolis
e realização da Conferência em Educação do campo em 2012, cujo tema foi Políticas
públicas e educação do campo no Tocantins e como produto das reflexões desta, ficou
definido em agenda do Fórum a criação de curso de ensino médio (SEDUC/PRONERA)
e graduação em educação do Campo (UFT, 2013, p. 18).
1
A região do Bico do Papagaio abrange o extremo norte do estado do Tocantins, fazendo divisa com os estados do
Maranhão e do Pará, compreendendo 25 municípios.
- 144 -
Alguns desses indivíduos já faziam parcerias em projetos de pesquisa e extensão na
Universidade, mas o que mais nos chama a atenção é o interesse pela área de artes visuais e
música aprovada e apoiada pelos movimentos sociais. Essa especificidade foi uma proposta da
SECADI que causou e ainda causa estranheza, inclusive para muitos professores de outros cursos
do próprio campus de Tocantinópolis.
- 145 -
campo que adota a pedagogia da alternância2 ao nível do ensino médio. No caso dessa pesquisa,
que se trata de um trabalho proveniente dos estudos de mestrado da acadêmica e professora Mara
Pereira da Silva e sua orientadora, as autoras se cercam de referenciais teóricos da educação
musical e da educação do campo para focar especificamente os alunos indígenas desse curso.
Quem são, que conhecimentos possuem, o que querem e qual o sentido dessas aulas para eles.
Se levarmos em conta que uma das bases pedagógicas da Educação do Campo é as
ideias filosóficas de Paulo Freire, existem também pesquisas em Educação Musical que abordam
e fazem reflexões sobre o ensino de música sob essa ótica, que podem ser muito úteis para esse
contexto. Sobreira (2014), por exemplo, nos mostra que entre os anos de 1992 e 2013, foram
produzidos 28 artigos na revista da ABEM, um dos principais periódicos da área de Educação
Musical, que citam obras de Paulo Freire como referência para criação de currículos em música.
4. Avaliação e desafios
O curso já iniciou seu segundo ano de vida, tendo seu primeiro ano concluído com
uma turma iniciada em maio de 2014, cabendo aqui uma primeira avaliação parcial desde a etapa
final de formulação do Plano Pedagógico do Curso – PPC (UFT, 2013) até o momento. Segundo
o Edital que gerou o curso, deve haver a entrada mínima de 120 alunos por ano, nos três primeiros
anos. Com alguns problemas de deslocamento dos candidatos e algumas desistências, a primeira
turma conta com cerca de 70 alunos regularmente matriculados e a segunda turma, que acaba de
entrar, conta com cerca de 80 alunos.
Em relação à grade curricular que consta no PPC, especificamente para as disciplinas
de música foram pensadas para fornecerem ferramentas e dar acesso para o licenciado poder
atuar com esses conteúdos no contexto escolar, interligando as diretrizes da Educação do Campo
com as diretrizes nacionais de graduação em Música (Brasil, 2004) e as Diretrizes Curriculares
Nacionais do Curso de Graduação em Artes (Brasil, 2009).
As disciplinas foram distribuídas em quatro eixos principais, a saber: eixo teórico,
eixo histórico, eixo didático e eixo prático, além de disciplinas complementares e estágio, todas
elas estabelecendo um diálogo entre si, com as demais disciplinas e com o tronco principal de
Educação do Campo.
O eixo teórico iniciou juntamente com o curso com o intuito de familiarizar, o mais
cedo possível, os educandos com a linguagem e as especificidades da música, visto que, a grande
maioria dos alunos ingressou na Universidade sem conhecimento prévio em música. Para tanto,
a disciplina intitulada Fundamentos da notação musical, que tem por objetivo introduzir o aluno
no universo da escrita musical, é pré-requisito para as disciplinas de Teoria e percepção Musical
que seguem nos próximos dois semestres.
2
Uma das bases da Educação do Campo é a Pedagogia da Alternância, essa proposta nasce na Franca em torno de 1935
e é implantada no Brasil por italianos na década de 1960, inicialmente no estado do Espírito Santo nas Escolas Família
Agrícolas (EFAs), também chamados de Casas Família Agrícolas ou PROJOVEM. Ela está baseada na articulação entre
o trabalho do campo e o aprendizado escolar, assim como o envolvimento familiar no processo de aprendizagem e
manutenção da escola. Também faz parte dos princípios da alternância a preocupação na formação de cidadãos integrados
social, comunitária e culturalmente, interessados em permanecer na zona rural. As aulas são divididas em dois momentos:
Tempo Comunidade em que os alunos trabalham e pesquisam em suas comunidades e Tempo Escola em que os alunos
ficam no espaço escolar de forma integral.
- 146 -
No segundo ano do curso tem início as disciplinas práticas e históricas, como Prática
Coral, entendendo que o canto é uma ferramenta muito eficiente para a educação musical e sua
principal ferramenta, a voz, é disponível para todos. Nos semestres seguintes os educandos terão
a opção de eleger um instrumento musical, dentre os oferecidos no curso. Essas opções ainda
estão na dependência do preenchimento de vagas em aberto de professores para essas
especificidades.
As disciplinas de História da Música Ocidental e História da Música Popular
Brasileira compõe o grupo histórico e possuem a mesma carga horária. A primeira pretende dar
acesso aos estudantes ao “conhecimento universal”, largamente tratados nos cursos de música e
o segundo busca valorizar e reforçar as práticas e conhecimentos populares e locais. As
disciplinas pedagógicas de educação musical como Fundamentos da educação musical e o
Estágio curricular supervisionado obrigatório para as licenciaturas completam a carga horária do
curso.
Ao fazer uma breve avaliação desse primeiros anos é possível dizer que a experiência
com as disciplinas de música foram um desafio em diversas esferas. Tanto pela diversidade dos
conhecimentos da turma, pela proposta da alternância, pela quantidade excessiva de alunos e,
principalmente pela distância cultural da maioria dos educandos para com os conteúdos
propostos. Educandos quilombolas, indígenas (Apinajé), moradores da cidade e camponeses,
que compõem essa primeira turma, possuem bagagens e concepções conceituais sobre música
muito diferentes, não sendo possível propor uma abordagem única sobre o assunto. Um dos
alunos que possui necessidades especiais com relação à visão tornou os desafios ainda maiores.
Outro desafio foi em como lidar com as etnias com concepções de música muito
diferentes em uma mesma turma. No nosso caso temos um aluno indígena da etnia Apinajé,
pertencente ao tronco jê. Em estudo sobre a música dos Kamayurá no Alto Xingu, por exemplo,
Menezes Bastos (2013) aponta concepções da teoria musical desses grupos muito diferentes dos
da música ocidental, como no caso da concepção de alturas que são entendidas de forma
volumétrica. Da mesma forma os grupos Guaranis, estudados por Montardo (2009), que se
diferencia dos grupos Wauja, que tem seu entendimento de alturas musicais como num eixo
horizontal, onde o mais alto equivale ao mais longe e o mais grave ao mais perto.
Com o intuito de fazer um levantamento cultural, troca de conhecimento e integração
da turma, além das conversas em aula, aproveitou-se também outra disciplina da grade curricular
chamada Seminário Integrador, que tem por objetivo a interdisciplinaridade, envolvendo todos
os professores. Nesse espaço são discutidas as demandas, temas geradores e propostas de
pesquisas para serem realizadas do Tempo Comunidade. Esse espaço está em confluência com
uma dos princípios didáticos de Freire (2014), que é a criação de temas geradores para emersão
da realidade pela reflexão entre educando e educadores, ou, no caso da alfabetização a palavra
geradora, para que ambos possam, a partir de uma “consciência real”, atingirem o que o autor
chama de “consciência possível”, a partir de sua práxis, ou seja, uma ação conjunta da
objetividade da realidade com a subjetividade de homem histórico-social, superando as barreiras
ideológicas, econômicas, físicas e, principalmente, culturais impostas por situações de opressão.
No primeiro semestre, entre outras demandas dos educandos que contemplassem suas
realidades, foram levantadas as músicas que fizeram parte das suas histórias de vida e que estão
sendo usadas como material básico para as aulas de música. Ao final do primeiro ano, realizou-
se uma mostra com vídeos de um minuto produzido pelos próprios educandos, usando recursos
simples como seus aparelhos celulares. Dessa forma, foi possível a integração das pesquisas
- 147 -
realizadas sobre as problemáticas das suas comunidades sem deixar de lado as especificidades e
conteúdos desenvolvidos no curso que os habilita para as artes visuais e a música.
Apesar dos desafios, a experiência com a turma tem sido animadora. A maioria
expressiva da turma demonstrou apropriar-se dos conteúdos e conceitos abordados em aula. O
Tempo Comunidade teve um papel fundamental nesse processo pela possibilidade de um contato
mais próximo (educador – educando) e também pela possibilidade de relações individuais e
personalizadas dentro de um universo de alunos muito grande.
Dentre inúmeras limitações de ordem burocrática, institucional e, principalmente,
material, a proposta pedagógica utilizada nesse primeiro momento foi uma tentativa de aplicar
o conceito de pedagogia humanizadora ou problematizadora proposta por Paulo Freire (2014), e
já tratadas na área da música por autores como Joly e Targas (2008), Sanchez (2009), entre
outros. Essa proposta de Freire busca estabelecer uma relação dialógica e crítica para construção
do conhecimento envolvendo educandos, educadores e a realidade. Baseado no materialismo
histórico, e dado às lutas e relações de classes, assim como a percepção do homem como um ser
histórico-social e inconcluso, a busca da educação é a busca do “ser mais” através da libertação
humana, quebrando a hierarquização de classes que Freire entende como enraizada, marcada por
uma relação de poder entre oprimidos e opressores.
Essa proposta pedagógica se contrapõe ao que esse autor chama de pedagogia
bancária ou desumanizadora, mantida historicamente pelas classes dominantes, pelos opressores,
para que esta sirva aos seus interesses, “cuja tarefa indeclinável é ‘encher’ os educandos dos
conteúdos de sua narração” (FREIRE, 2014, p.79). Sobre esse aspecto, o autor entende que até
os conteúdos programáticos das aulas devam ser buscados a partir da consciência mediatizada
entre educadores, educandos e pela realidade.
O caminho para a educação não acontece de forma unilateral, segundo Freire,
ninguém educa ninguém nem a si mesmos, “os homens se educam em comunhão, mediatizados
pelo mundo” (p.96), sendo esse o caminho possível para a libertação. “O educador
problematizador refaz, constantemente, seu ato cognoscente, na cognoscitividade dos
educandos. Estes, em lugar de serem recipientes dóceis de depósitos, são agora investigadores
críticos, em diálogo com o educador, investigador crítico, também” (p.97).
Esses princípios foram buscados no decorrer das aulas, porém muito precisa avançar.
A própria grade curricular dificulta a aplicação dessa concepção de ensino ao fragmentar teoria
e prática. No momento da criação da grade curricular, por mais que se buscou contemplar as
questões pedagógicas da área da Educação do Campo, não se tinha a noção de como incorporar
as especificidades de artes visuais e música nesse contexto, dada a falta de referências na área.
No caso da teoria musical, buscou-se, com relativo sucesso, a utilização de repertório
conhecido da turma e explorou-se as habilidades e conhecimento dos próprios sujeitos para troca
de informações e experiências, inclusive sem a intervenção do professor. Também o
deslocamento dos educadores até as comunidades onde os educandos vivem mostrou-se uma
eficiente ferramenta de trabalho e abriram muitas portas. Por outro lado, a estrutura do curso de
forma disciplinar ainda remete ao modelo hegemônico de ensino que entra em contradição com
a proposta pedagógica da educação do campo e uma formação integradora. Ampliando a
autocrítica: será que são necessários conteúdos sobre escrita e teoria musical para ser habilitado
em música no contexto da Educação do Campo?
- 148 -
Durante a concepção do PPC, as disciplinas voltadas para a área da música foram
baseadas nos cursos já existentes de licenciatura em música, o que tem gerado alguns conflitos
e descompasso, fazendo-se necessário uma readequação urgente.
Ao aproximar-se com pesquisas recentes, Pereira (2014) reflete que os cursos de
licenciatura em música no Brasil baseiam-se no que ele chama de habitus conservatorial, ou
seja, repetem padrões estruturais que reproduzem concepções da formação de “músicos-
professores”, aos moldes das práticas eurocêntricas do séc. XIX, enfatizando uma valorização
da prática sobre a reflexão. Esse autor questiona concepções, até então intocadas na área de
Educação Musical, como da real necessidade de disciplinas como: percepção, análise, harmonia,
contraponto, história da música, prática musical, entre outras, para a formação de um licenciado
em música. Essas e outras disciplinas estão uniformizadas e são inquestionáveis em diferentes
cursos de licenciatura em música no Brasil, sendo naturalizadas e tomadas como fundamentais
para uma formação musical.
Esse pensamento foi originário das práticas dos conservatórios musicais que
valorizam determinados aspectos do universo musical em detrimento de outros, como no caso
da supremacia da execução sobre a recepção, da escrita sobre a oralidade e da cultura europeia
sobre as demais. Esse pensamento tornou-se oficial no meio universitário, principalmente nos
cursos de licenciatura e bacharelado em música, porém diverge da concepção de educação
popular e da pedagogia freiriana que se busca na Educação do Campo.
Diante desse quadro, reflete-se sobre uma mudança necessária na grade curricular
que propicie uma maior adequação a proposta do curso baseada em uma construção mais coletiva
do conhecimento. Dentre as propostas que venho refletindo para a área da música, e que poderia
servir também para as demais áreas das artes nesse curso, seria a substituição das disciplinas
existentes por apenas duas linhas de trabalho: uma que tratasse de reflexões teóricas em música,
envolvendo, além da teoria musical, contextualização política, cultural e social e outra que
tratasse das práticas musicais, que envolvesse aprendizagem de instrumentos musicais, criação
musical e envolvimento com as místicas 3, sempre com a proposta de uma construção coletiva de
conhecimentos. O mesmo poderia ser feito com as disciplinas de artes visuais e as de formação
em educação do campo, mantendo-se inalteradas apenas àquelas obrigatórias por lei para a
formação de licenciados.
Nesses encontros, seriam trabalhados os conteúdos que o coletivo de educadores e
educandos julgassem necessários para que licenciados em Educação do Campo estivessem
plenamente habilitados para tratarem de música e artes visuais nas escolas do campo, tanto na
prática como em formação teórica.
Porém, no momento, baseado na experiência que tivemos, é importante que se faça
uma discussão mais ampla e aprofundada, envolvendo os movimentos, os alunos, a universidade
como um todo e diversos setores da comunidade para um debate mais aprofundado sobre: o quê,
como, por que e para que ensinar música.
Nesse início de curso enfrentamos inúmeras dificuldades para desenvolver nossos
trabalhos. Desde questões de ordem burocráticas, como a adaptação do calendário de aulas feito
em alternância para os moldes acadêmicos universitários, a realização de processos seletivos que
3
A mística é um tipo de manifestação artístico cultural usado pelos movimentos sociais para agregar, compactuar ideias
e valores, assim como compartilhar experiências da luta pela transformação da realidade social, através de variadas
técnicas artísticas como o teatro, dança, literatura artes visuais e música.
- 149 -
possam garantir o ingresso de alunos que possuam o perfil desejado ao curso, até as questões
éticas e pedagógicas específicas como já foi esboçado nos parágrafos anteriores.
Muitos outros desafios ainda estão por vir, sobretudo com a chegada de novas turmas,
a avaliação do MEC, que não leva em conta as especificidades dessa proposta de curso e as
demandas geradas por nossas próprias avaliações.
Para concluir, entendo que a proposta geradora da criação desse curso na região da
Amazônia Legal foi o de empoderamento dos sujeitos do campo, dos ribeirinhos, dos
quilombolas e dos indígenas, diminuindo assim as desigualdades para com esses povos
historicamente esquecidos. Acredito que se nós, tanto educadores como educandos desse
processo pedagógico, estivermos atentos às políticas públicas que envolvem a Educação do
Campo e refletirmos de forma conjunta, consciente e dialética sobre os processos, demandas
atuais e adversidades, poderemos, também através da música, contribuir para a melhoria e a
diminuição da vulnerabilidade vivenciada entre os povos do campo.
Referências Bibliográficas
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Rurais Sem Terra-MST. RIBEIRO, N. (Org.) Educação do Campo: Pela democratização da terra e
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- 152 -
A INTERDISCIPLINARIDADE COMO FERRAMENTA PARA A FORMAÇÃO DOCENTE:
DISCUSSÃO ACERCA DOS ENCONTROS INTEGRATIVOS DO PIBID
Resumo: Diante de modelos inovadores de educação, nos quais a construção do saber parte,
em sua maioria, do entrelaçamento das áreas de ensino. O presente artigo traz a discussão à
formação docente sob o víeis da interdisciplinaridade objetivando discutir a sua importância
a partir de vivências nos Encontros Integrativos do PIBID-UFRN. Apontamos que
contribuições de outras áreas beneficiam ao futuro profissional reformular sua prática
pedagógica, levando além de seu conhecimento integrado, ludicidade e dinamicidade para
suas aulas.
1. Introdução
- 153 -
A partir da temática aludida, este trabalho busca discutir sobre a aplicação do
movimento, conceito e prática que está em fase de formação e expansão dentro das ciências, e
do ensino destas - a interdisciplinaridade - e sua importância no processo de formação docente
no ensino superior. Partindo de relatos do Encontro Integrativo promovido pelo Programa
Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência – PIBID na UFRN, que é uma iniciativa propícia
trocas de experiências beneficiando a formação dos bolsistas do Programa, além da apreensão
de conhecimento através dos minicursos, oficinas, palestras e exposição de pôsteres.
Traremos, pois abordagens sobre interdisciplinaridade enfatizando a música como
área de ensino, rica em estratégias e possibilidades inovadoras para se trabalhar com tal eixo.
Proporcionando com este trabalho ampliação da discussão da interdisciplinaridade no processo
de formação de professores, a qual contribui com possibilidades de inovação e dinamização das
aulas de forma integrada.
2. Interdisciplinaridade
Hoje, há diversas formas de abordar a interdisciplinaridade, o que torna mais difícil uma
reflexão sobre o tema. Muitos termos correlatos, como transdisciplinar, intradisciplinar,
pluridisciplinar, multidisciplinar, são tentativas de conceituar a interdisciplinaridade
nas suas diferentes versões no campo educacional, que podem ser sob o ponto de vista
didático, epistemológico, sociológico, entre outros (SILVA, 2001, p. 1).
- 154 -
que pode ser de questionamento, de confirmação, de complementação, de negação, de
ampliação, [...] (BRASIL, 1999, p. 88).
- 155 -
de recursos inovadores e interdisciplinares, visto que se trata de um programa que abrange 16
áreas de ensino, discutindo dificuldades e superações enfrentadas no processo de ensino-
aprendizagem em sala de aula.
O Encontro Integrativo, que no ano de 2014 teve sua VIII edição realizada, propicia
espaços em que licenciandos, supervisores, juntamente com coordenadores do PIBID-UFRN
tenham a oportunidade de expor suas ideias, dialogar e trocar experiências acerca de práticas
pedagógicas que vivenciaram durante o ano seja a frente do subprojeto ou em sala de aula. São
experiências inovadoras que além de expostas, são adquiridas através de capacitações em
oficinas e minicursos ministrados por docentes da Instituição e, por vezes, são lecionados por
supervisores e bolsistas do Programa, caracterizando o Encontro Integrativo também como um
espaço de formação.
Esta iniciativa está voltada para a troca de experiências entre as diversas áreas de
conhecimento participantes do PIBID, e acontece pelo menos uma vez por ano, com a
colaboração de praticamente todos os bolsistas, supervisores e coordenadores preocupados com
a eficiência do evento, desde a exposição de banners até a execução das oficinas e minicursos.
Durante as atividades acontecem palestras de diversas áreas de conhecimento, tendo
principalmente a formação docente como tema norteador, uma vez que as ações do PIBID estão
direcionadas a este âmbito.
Este evento abre uma chamada de trabalhos em determinado período, para que todos
os participantes tenham a possibilidade de escrever um relato de experiência, pesquisa em
andamento ou pesquisa concluída sobre o seu próprio subprojeto. Todos os trabalhos aprovados
pela comissão científica do PIBID são expostos no formato de banner, os quais estimulam o
diálogo e a troca de experiências entre os participantes do Programa ali presentes.
Os minicursos e oficinas não têm uma chamada para submissão de trabalhos como a
dos pôsteres, mas são escolhidos de cada subprojeto um ou mais representantes para ministrar a
proposta nos dias e horários pré-estabelecidos pela coordenação geral. Propostas que
contemplem em seus conteúdos, diversos temas voltados à didática de ensino e dinâmica em sala
de aula, utilizando de materiais pedagógico-lúdicos para estimular a melhoria da qualidade da
educação básica. Estas oficinas e minicursos devem ser ministradas com o foco interdisciplinar,
beneficiando bolsistas, supervisores e coordenadores de cada subprojeto, como de português,
matemática, física, química, filosofia.
Todas as práticas envolvidas aos Encontros Integrativos que foram mencionadas
promovem o contato e interação com outros participantes de diversos subprojetos. Ocorrem
trocas de vivências entre personagens de áreas diferentes, permitindo um aprendizado bastante
amplo e interdisciplinar no que diz respeito à difusão da mescla de conhecimentos.
Faremos um breve relato de uma oficina do Encontro Integrativo que pudemos
participar em 2013, com o intuito de caracterizar e aproximar a leitura mais ainda do cerne do
texto. A Oficina Musicalidade e Educação, com duração de 4 horas contou com a participação
de bolsistas licenciandos dos cursos de geografia, matemática, filosofia, história, música, letras
– inglês/português, biologia, química, física, dança e teatro com o intuito de abordar aspectos
inerentes ao ensino interdisciplinar a partir de vivências atreladas à área musical.
A oficina foi dividida em dois momentos, partiu do compartilhamento de
problemáticas acerca da utilização da música como recurso em sala de aula. As atividades
prosseguiram a partir indagações aos graduandos sobre “O que é música?”, “Qual a importância
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da musicalidade na escola?” e “O que é fazer música na escola?”. E para continuidade e
finalização, a segunda parte foi norteada por um tema gerador para demonstrar na prática que
existem conteúdos diversos para se trabalhar em conjunto, em torno de um só tema, mesmo
sendo de contextos de ensino diferentes. Ressalta-se que apesar do tema gerador ter sido “peixe”,
a música, também como área de conhecimento, foi utilizada como recurso na associação de
conteúdos das outras áreas, desde anatomia dos peixes a assuntos como colonização do Brasil
foram abordados durante a oficina.
Aponta-se que as colocações dos participantes evidenciam pensamentos e reflexões
em relação à música em sala de aula, os quais giram em torno da utilização desta área de
conhecimento como instrumento facilitador de apreensão de conteúdo, despertando o
envolvimento do aluno através de uma aula dinâmica a qual traz o lúdico para a realidade escolar,
tornando mais atrativa e interessante. A interdisciplinaridade também faz parte da concepção
destes licenciandos, na medida em que aponta a integração entre as disciplinas a partir da forma
de ministração de conteúdo, corroborando com o que afirma Bonatto et al (2012):